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Deus Piscou

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Bom dia/Boa tarde/Boa noite! Essa creepy é mais curtinha, estou recuperando as baterias pra fazer um projeto maior :3
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Todos nós gastamos tempo demais em coisas pequenas.

Pensando se a bateria do celular sobreviverá à longa viagem até em casa, questionando qual será o premiado à melhor filme, ou compartilhando comentários emotivos (bons ou ruins) sobre o atual presidente online... Essas coisas podem ocupar toda a nossa consciência por horas ou até mais. Não estou criticando a sociedade, eu era exatamente assim até recentemente. Lembro de ter perdido um dia inteiro concentrado em descobrir se eu tinha uma infecção no dedo do pé, e acabar sendo apenas uma unha arrancada dolorosamente.

Antes, esse facilmente estaria no meu top 10 piores dias, mas agora, enquanto as palavras que podem ser minhas últimas, tal dia parece convidativo. Toda a dor que vivi em meus 27 anos não passa de um sonho maravilhoso comparado ao que agora eu sei… Não… Ao que vi. Minha mente não consegue compreender a amplitude daquele inferno que está no andar de baixo, e provavelmente nunca compreenderá. Talvez aquilo até saiba mais sobre mim do que eu mesmo, e esse fato é o que mais me amedronta. Eu nunca escaparei ou serei verdadeiramente livre, e nunca fui. Nenhum de nós é, foi ou será.

Deixe-me dizer o que eu acho que sei.

Essa tarde foi como qualquer outra. Eu me arrumei de manhã, assisti alguns vídeos na internet e até organizei minhas contas. Não há muito o que fazer quando você é jovem e está desempregado. Foi então, depois de acariciar minha gata pela quarta vez hoje, que tive a estranha sensação de que alguém estava na varanda. Eu não ouvi ou vi ninguém, mas por alguma razão eu sabia que algo estava lá. Tranquilizando meu cérebro paranoico de que isso era apenas o nervosismo inquietante de estar sozinho, desci as escadas e abri a porta para não encontrar nada ... exceto por uma grande caixa vermelha.

Era o tipo de caixa que guardaria uma TV antiga, mas diferente de qualquer outra que eu já vi. Um carmesim brilhante cobria cada lado lustroso, enquanto um laço de veludo negro se enrolava no topo, escondendo um pequeno cartão. Normalmente eu não aceitaria presentes estranhos e sem identificação da varanda, mas isso parecia tão incomum, eu queria saber mais. Era tão... pouco convidativo, como se não quisesse revelar seus segredos, e eu estava pronto para o desafio.

Quando levantei pela primeira vez, achei que a caixa estava completamente vazia, pois pesava menos do que o material da qual ela parecia ser feita. Subiu como se fosse só ar, quase joguei o pacote longe por botar força demais nisso. Eu cuidadosamente o coloquei no chão da minha sala, tentando o meu melhor para não esmagar o que quer que fosse, e abri o laço no topo. O cartão caiu no chão e, rapidamente me deparei com um pequeno amontoado de palavras.

    E no sétimo dia, em momentos de descanso,

    Deus piscou

    Deixando aquilo entrar, assim como você.


Olhei para a nota confuso, imaginando que tipo de brincalhão deveria ter escrito uma carta como essa. A caixa era leve demais para ser uma bomba, mas talvez não para dejetos de cachorro, então era isso que eu esperava. Não seria a primeira vez que algo assim acontece na minha vizinhança, exceto que hoje parecia um pouco mais elaborado do que o habitual.

Abri a caixa, que fez um rápido "pop" enquanto revelava... Nada.

Não nada como em uma caixa vazia, pois não havia fundo sobre o qual falar. Era um abismo absoluto que cunhou minha alma, antes mesmo que aqueles horríveis gritos chegassem aos meus ouvidos. Nada aqui ou em qualquer lugar deveria ser capaz de fazer tais sons. Eu recuei, miserável, pelo chão, ansiosamente esperando o que me aguarda na escuridão, enquanto os sons ríspidos escalavam o cubo vermelho-sangue.

Sabendo que o que quer que estivesse saindo estava longe de ser amigável, decidi me afastar daquilo. Corri pro andar de cima, mas antes que eu pudesse chegar ao topo, tive um vislumbre do horror que antes estava aprisionado. Ele pulsou e se rastejou, deslizando lentamente para fora de sua tumba de papelão. Viu sem olhos, sentiu sem mãos e não amava nada, ausente de uma alma. Com um único flash daquilo, eu soube que nada realmente importa.

É agora que falo com você, não com um aviso, mas com desespero. O que libertei no mundo está além de algo que possa ser controlado ou morto, e o que nos espera é muito mais horripilante. Aproveite o tempo que tem, pois eu não posso dizer o que te restará depois dele chegar até você das sombras eternas. Eu não sei o que aconteceu quando Deus piscou, mas algo tão horrível que nem mesmo Ele poderia imaginar esgueirou-se, e finalmente se libertou.
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Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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Estou sendo forçado a jogar um jogo de 24 horas (01:00 - 02:00)

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O telefone tocou.

"Ouça bem, seu filho de uma puta, se você tocar em um fio de cabelo da minha família-"

Mas foi tudo que consegui dizer. 

Um guincho absurdamente alto soou pelo celular fazendo com que eu afastasse o celular da orelha, seguido por uma série de números ditos por uma voz mecânica. 

Tudo que consegui pensar em fazer foi correr e anotar os números em um pedaço de papel enquanto eram ditados uma última vez.

Tentei fazer o celular funcionar, ligar de volta para o número; mas não consegui nada. 

Ao invés disso, uma mensagem de texto de um número privado apareceu com o segundo número romano e uma única palavra. 

VÁ.

Olhei para os números que acabara de receber e percebi imediatamente o que eram.

Coordenadas.

Tirando tudo de cima da bancada da cozinha, tentei encontrar a longitude e a latitude exata no Google Maps, mas apenas descobri que isso me mostrava algum tipo de lixão químico a pouco mais de dezesseis quilômetros fora dos limites da cidade.

Não havia mais nada por lá e, pelo que eu sabia, não deixavam civis chegar perto daquele local por ser uma área radioativa.

Chequei mais uma vez para ter certeza que as coordenadas estavam corretas, então peguei meu casaco e corri em direção do meu carro. 

Se eu me apressasse, sabia que conseguiria chegar lá antes da hora acabar. 

O desafio ficou extremamente difícil quando tentei ligar meu carro e descobri que o motor não ligava. 

"Filho da puta," resmunguei enquanto saia, colocando o capuz e tentando descobrir qual era o problema.

Usei a lanterna do celular descartável para tentar ter uma visão melhor do motor e vi imediatamente o que havia acontecido. 

Alguém tinha cortado os fios da bateria. 

Imediatamente olhei em volta da rua desolada tentando determinar se havia alguém me observando. 

Talvez tivesse sido a mesma pessoa que deixara o pacote? 

Mas eu não tinha tempo para pensar nisso, o relógio não parava. 

Ao invés disso, abri um vídeo no Youtube de como fazer uma ligação direta. Parecia a coisa mais esperta a se fazer no momento. 

Então fiquei ali encurvado tentando fazer meu carro ligar quando ouvi um som suave de sirenes se aproximando e vi duas viaturas da polícia se aproximando do meu endereço.

Os dois policiais bem vestidos saíram em direção da iluminação suave que a luz da minha garagem fornecia e o mais alto perguntou "Com licença, senho, você mora aqui?"

"Sim, moro. Meu nome é Daniel Stratton. Estou tentando arrumar meu, hm... bem, meu carro está com um problema na fiação," falei. Minha mente não parava um segundo. Eu não havia desobedecido as regras, não tinha ligado para a polícia. Então quem ligou? 

"Recebemos algumas ligações dessa área relatando uma desinteligência doméstica," o segundo policial continuou e então olhou em direção da minha porta.

"Sua esposa está em casa?" 

Senti meu coração disparar e lembrei do sangue espalhado pelas paredes do quarto do meu filho.

"Não. Não, hm... ela e meu filho estão passando algumas noites na casa da irmã dela. É o aniversário dela nesse final de semana," menti, inventando uma desculpa rápida.

Eu tinha apenas trinta e oito minutos para percorrer vinte quilômetros, e eu sabia que conseguiria percorrer esse caminho na metade do tempo se conseguisse dispensar aqueles policiais.

"Se importa se entrarmos e dermos uma olhada na sua propriedade?" Um policial perguntou. 

Engoli em seco, me cérebro disparando loucamente para tentar arranjar mais uma desculpa. 

"Não é minha casa, na verdade. Só alugada," falei e continuei. "A administração é um pouco exigente quando se trata de regras, então acho que eles gostariam que você entrassem sem um mandado."

O segundo policial falou no rádio que estava amarrado ao ombro para obter algum tipo de confirmação da delegacia, enquanto eu tentava não suar nervosamente. 

"Você estava planejando ir a algum lugar esta noite, senhor Stratton?" O policial perguntou. 

"Só dar uma passeada de carro. É um hobby meu. Acalma meus nervos depois de um longo dia de trabalho."


O segundo homem voltou e conferiu com o primeiro antes de finalmente me dizer: "Tudo bem, desculpe por isso, mas parece que houve mais uma ligação feita a apenas dez minutos atrás e foi de sua esposa. Você precisa nos deixar entrar, senhor."

"Eu já disse, minha esposa não está aqui", falei, começando a entrar em pânico e tentando entender o que estava acontecendo. 

"Senhor, se você está se recusando a cooperar, posso prendê-lo por 48 horas apenas por obstruir uma investigação policial", resmungou o policial B.

Suspirei e enfiei a mão no bolso, fingindo puxar minha chave. Então eu fiz a coisa mais estúpida que já fiz em toda a minha vida e dei um soco direto na cara do policia, empurrando-o contra a janela do meu carro.

Naquela fração de segundo, o primeiro policial pegou o seu taser e estava prestes a descarregá-lo em mim quando nós dois ouvimos a aceleração de um motor.


Viramos a cabeça em direção da rua e vi um Mazda amarelo rosnando na rua.

Policial A ergueu sua arma para me impedir de tentar atacá-lo e estava prestes a falar no rádio quando o Mazda acelerou para cima dele e o atropelou.

Caí na grama molhada e gritei alguns palavrões quando ouvi seus ossos quebrando e o carro esportivo deslizou até parar bem na minha frente.


A porta do lado do passageiro se abriu e uma jovem ruiva olhou para mim com o mesmo pânico em que eu me encontrava alguns momentos atrás.

"Aqui é o número 330 da Estrada Hazelnut?" gritou para mim. Só consegui assentir idiotamente enquanto ela gesticulava para eu entrar no carro.

"Quê? Eu não vou ir com você!" Sibilei e então ela me mostrou o mesmo celular descartável que eu segurava. 

"Acho que eles querem que a gente faça times," disse. 

Prendi a respiração por um momento enquanto olhava para os policiais e ela disse, "ou isso ou você quer descobrir um jeito de terminar esse desafio sozinho...?"

Olhei para ela e entrei no lado do passageiro do Mazda antes de partirmos.

Tenho mil perguntas para essa moça, mas agora tudo o que importa é chegar ao lixão.


Tenho a sensação de que provavelmente precisaremos trabalhar juntos também.

FONTE

PRÓXIMA PARTE: 03/03/19

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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Aquele que mora no escuro

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Michael Travis, de 12 anos, acordou as 3hs da Madrugada, com a luz do luar batendo em sua janela. Estava tendo vários pesadelos assustadores, quase reais, que ele nunca imaginaria que teria. Seu pensamento era chamar a sua irmã mais velha, Sally, mas ele acreditava que aquele que mora no escuro levaria Michael porque ele foi um garoto malcriado com a família recentemente e que ele poderia saber que Michael tem medo do escuro. Os valentões do seu colégio inventaram essa historia para Michael, para poder assustar ele, uma forma pratica e divertida de brincar com o psicológico de uma criança que gaguejava.

"Não olhe para ele, senão ele te levará para a escuridão e arrancara sua língua para que você não grite no escuro. Mas, você não se importaria né ? pelo menos, se ele arrancasse sua língua seu merda, você gaguejaria menos ! "

Michael sabia que não devia dar ouvidos a eles, mas por um instante, acreditou que se houvesse algo que te arrastasse para uma escuridão silenciosa e gelada, que fosse aqueles valentões os infelizes que seriam levados. So de pensar na ideia de algo assim pudesse existir, já o apavorava, e muito. A casa estava escura, uma escuridão negra e arrepiante, que fazia o corpo de Michael ficar gelado, as folhas e os galhos das arvores batiam em sua janela, e ele não conseguia ver nenhuma luz vinda de nenhum poste das ruas. Era uma escuridão sem estrelas.

Ele retirou o cobertor de suas pernas, se levantou da cama e foi em direção a porta do seu quarto, que dava acesso a seu corredor. Abriu lentamente a porta do quarto, a mesma fez um som rangedor desagradável. O corredor estava completamente imersivo na escuridão daquela noite, como se não existisse luz á muito tempo lá. Michael sentia um medo que ele nunca sentiu antes, puro terror apenas por estar na escuridão.

--Sssally, você esta ai ?-- disse Michael
Tentou abrir a porta do quarto de Sally, mas estava trancada. Então decidiu seguir o corredor escuro ate o quarto de seus pais, ate que se deparou com a porta do quarto deles, entreaberta, seguido de sons de algo quebrando e rasgando.. algo que provavelmente não deveria fazer isso. O que ele viu quando abriu a porta do quarto, fez uma onda de desespero e medo extremo tomar conta do garoto.

Seu pai estava sem a cabeça, com a coluna exposta, com o corpo debaixo de uma sombra de forma monstruosa e inexplicável , enquanto a coisa segurava a boca de sua mãe e arrancava a língua dela para fora do maxilar deslocado dela. Um som de rasgo estrudante rugia por todo o quarto, sangue fluía do Maxilar quebrado, principalmente na região aonde estava um buraco enorme aonde a língua ficava. Michael, diante da carnificina da sua frente, se paralisou de pavor, um medo gelado e sombrio percorreu a sua espinha, pensando que isso iria acontecer com ele também. Os quadros do quarto estavam embaçados, no lugar dos rostos da família, a apenas rostos distorcidos que riam diante da macabra cena. De seus rostos não saiam risadas, mas gritos de terror que pareciam risadas alegres e contentes.

Mmmamãe..... Papppai...

A criatura parou de se mexer em cima dos cadáveres mortos dos pais de Michael. Ele pegou a cabeça decepada do seu pai com as suas enormes garras em formatos de anzóis e cravou elas na testa do membro desmembrado. Cada vez que via aquilo mais o psicológico de Michael era destruído, e ele não acreditava que algo assim estava acontecendo
( Ele existe, ele existe... )

Como se estivesse imitando um ventríloquo, a criatura usou a cabeça do pai de Michael para falar com a voz dele, distorcida, mas era a voz dele;

-- Quer se juntar a nós Michael ? Vamos nos divertir muito no escuro, só dê a sua linguá jovem em troca e poderemos ficar juntos como uma família;

A criatura começou a se rastejar lentamente para perto de Michael, ainda com as garras cravadas na cabeça do seu pai. Michael sentiu seu coração apertar conforme a criatura de aparência indescritível se rastejava para perto dele. Michael decidiu fechar os olhos e correr para longe daquele quarto,em direção ao seu proprio. Ele corria pelo corredor de olhos fechados enuanto atras dele ovia algo subir e correr pelas paredes, apara alcançar ele de uma forma mais rapida. Chegando ao quarto, trancou a porta e sentiu um empurro forte nela, como se quissesse arrombar a porta.

Pela janela, Michael viu varias pessoas sem as línguas, olhando para ele com os olhos prateados, sem vida, gritando e sorrindo, felizes.. a porta continuava a ser empurrada e Michael decidiu se cobrir seu corpo com o cobertor ate que ouviu a porta de seu quarto ser jogada contra a parede, seguindo de logas risadas distorcidas que vinham do lado de fora da casa e da sua frente.

Michael decidiu retirar o cobertor ate a altura dos olhos para ver o que estava acontecendo. A criatura já estava em cima da mesma cama que ele, rosnando com seus dentes horrivelmente amarelos, com cheiro de carne podre e seus olhos prateados sem vida que brilhavam no escuro. Michael fechou seus olhos, e tentou cantarolar alguma canção de ninar na sua mente, rezando para que fosse um simples pesadelo, mas não conseguia.

A criatura com suas longas garras, arranca um pedaço da Traqueia de Michael. Sangue Fluía por onde havia um buraco feito a garras e com o osso exposto. O ser, conhecido como aquilo que mora no escuro pegou o pé de Michael, enquanto desaparecia as sombras no chão, levando o corpo do garoto para dentro do escuro.

Michael acorda, apavorado, sem entender, o que tinha acontecido, estava suando de desespero e horror, mas também com uma sensação tranquila no peito, pois era tudo um sonh...

O relógio bate, 3hs da Madrugada, com a luz do luar batendo na janela.

Autor: João Silva

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Estou sendo forçado a jogar um jogo de 24 horas (00:00 - 01:00)

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As regras eram claras. 

Pelo menos era o que eu pensava quando me inscrevi em Março. 

Na verdade, quando se trata de regras, o Jogo só tem duas. 

  • Siga as regras.
  • Complete os desafios.

Honestamente, parecia impossível de perder.

Josh, meu melhor amigo, disse que isso era exatamente que o Jogo queria que você achasse. 

"Não é sobre ir do ponto A ao ponto B, Daniel. Bem, na verdade retiro o que eu disse. É exatamente sobre ir do ponto A ao ponto B. Mas ninguém nunca consegue," foi o que me disse.

Foi Josh quem me apresentou ao Jogo ano passado quando disse que conseguiu que 12 pessoas se inscrevessem pela internet para que pudessem repartir o prêmio em dinheiro. 

"Achei que estava tudo certo. Cara, eu não fazia ideia no que estava me metendo," Josh me disse. 

"Então, como são os desafios?" você deve estar se perguntando. 

Isso eu não poderia te dizer pois eles mudam os desafios todas as vezes que o jogo é feito. E aparentemente as regras também. E você não sabe quais são até que o jogo comece de verdade. 

Na época parecia bem interessante então pedi para Josh também me inscrever. 

"Tá zoando? Não. Não vou fazer isso. Você tem uma esposa, tem uma criança. Esse jogo não é para você," disse. 

"É só um jogo besta na internet, Josh, nada mais que isso," lembrei-o.

Sua atitude estava me frustrando. Só porque eu tinha uma família agora pensava que podia jogar na minha cara todas as coisas loucas e divertidas que podia fazer e eu não.

Então eu mesmo entrei no site e me inscrevi. 

Para ser sincero, acabei me esquecendo disso depois. 

A vida real continuou, seja perdendo meu emprego ou sendo despejados, minha esposa Marcy e eu realmente tínhamos coisas mais importantes nos importar do que um jogo bobo online. Na verdade, fiquei um tempo sem contato com o Josh. Eu simplesmente não não tinha mais tempo.

Algumas semanas atrás descobri que ele havia morrido. Ou pelo era isso o que um post no Facebook dizia sendo que ninguém havia falado com ou ouvido falar dele faziam pelo menos umas seis semanas.

Foi por isso que fiquei tão surpreso ao receber um pacote em seu nome na porta da minha casa há cerca dezenove minutos.

Na verdade, é mais fácil dizer que tudo que eu sabia sobre Josh ou sobre o Jogo mudou a apenas treze minutos atrás. 

Eu quase tropecei no pacote enquanto chegava no nosso apartamento de dois quartos depois de um longo expediente no meu novo emprego e quase não o notei mesmo. 

Havia um símbolo de número Romano no lado do papel da embalagem denotando o número 1 e um símbolo mais obscuro ao seu lado que não reconheci.

Mas eu sabia pela caligrafia quem havia mandado. 

Josh.

Curioso e ainda assim meio acabado por causa do trabalho, sentei no sofá e abri.

Haviam três itens lá dentro, um celular sem marca que desconfiei ser um daqueles estilo descartável, uma fita VHS com o mesmo número romano da caixa e uma arma de fogo. Estava totalmente carregada. 

Acho que foi a arma que me fez me sentir mais nervoso, e também foi o item que me fez procurar pelo meu aparelho de fita cassete. 

Levei cerca de sete minutos para encontrá-lo e mais seis para montá-lo.

O vídeo veio a vida com uma imagem granulada do meu então melhor amigo. Estava olhando diretamente para mim, quase como se estivéssemos conversando cara a cara. 

"Olá, Daniel. Eu queria que você não tivesse feito isso, de verdade. Mas agora estamos aqui e não podemos voltar atrás, não é mesmo?" disse com um suspiro pesaroso.

Algo no jeito em que falava estava me deixando muito desconfortável. 

"Agora você é parte disso, então me deram a tarefa de te passar o seu primeiro desafio. Esse é fácil, mas acredite quando digo que os próximos não ficarão mais fácil daqui para frente," Josh deixou claro. 

Então algumas palavras apareceram na tela, fazendo meu coração acelerar. 

NÃO CHAME A POLÍCIA.

"Você tem uma hora, e então podemos seguir para o desafio número 2," disse e o vídeo ficou todo preto.

Me levantei e comecei a caminhar pela sala, tentando entender o que aquela mensagem queria dizer. 

Então fui até o quarto para acordar minha esposa, tentando ter uma ideia do que fazer.

Mas ela não estava lá. As cobertas estavam jogadas como se tivesse acabado de acordar no meio da noite para dar uma olhada em Michael. 

Corri para o quarto dele, chamando-o enquanto abria a porta. 

A cena podia ser suficiente para me dar um ataque cardíaco. Roupas espalhadas com sinais de luta. Sangue espalhado pela parede. Eu sabia que tinha que ser do Michael.

Como aquilo podia ter acontecido? Eu havia falado com Marcy a menos de duas horas atrás. 

Voltei para a sala e peguei meu celular, então pausei e olhei em direção da tela de TV cheia de estática. 

O que aconteceria se eu desobedecesse as regras? Minha família seria torturada? Ou pior?

Me deixava enjoado só de pensar. Larguei o telefone e me sentei no sofá, tentando decidir o que fazer.

Cada minuto que desperdicei desde então foi tentando achar uma solução para tudo isso. 

Então decidi participar desse jogo fodido e doentio, gostando ou não. 

Mas irei documentar tudo e qualquer coisa que me mandarem fazer. 

Talvez não ajude em nada. Mas se alguém aí ouvir falar no Jogo de 24 Horas, devia saber que deveria existir mais uma regra:

Não entre no jogo. 

FONTE

PRÓXIMA PARTE: 27/02/19

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"Minha Família"

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Bom dia/Boa tarde/Boa noite! Desculpem ter soltado a creepy atrasado, ontem fui fazer a última revisão antes de soltar até que percebi que no original o poema rimava, então tive que refazer tudo! Aproveitem :3
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 "Fale mais alto, por favor."

Coloquei minha mão próxima ao ouvido, sinalizando do fundo da sala que  precisaria elevar o tom.

Assim ela respirou profundamente. Pude ver a ansiedade corando suas bochechas, enquanto mechas de um loiro cabelo começaram a cair do mesmo rabo de cavalo crespo que ela fazia diariamente. Havia algo nela tão familiar... Mas eu não era capaz de apontar o que me causava esse sentimento. Com sua face colada ao papel e assustada demais para fazer contato visual, ela despejou tudo rapidamente, como se fosse desvanecer.

"Oi, meu nome é Paisley Jackson, e meu poema se chama 'Minha Família'."

Paisley era uma garotinha tímida. Na realidade, ela era uma das estudantes mais quietas que já tive nos meus 10 anos lecionando. Acredito que seja o resultado de ser a mais nova em uma família de 11. Surpreendentemente, era muito esperta, ao contrário de seus irmãos, mais estúpidos que um monte de pedras. Deus, os Jackson eram realmente uma dor de cabeça, com exceção da Paisley, é claro. Eu queria ter dado a ela mais oportunidades para melhorar seu futuro.

Não me entenda mal, tentei ajudar Paisley, de verdade. Dei a ela roupas, comida, e até mesmo havia separado recursos monetários para ajudar. Mas viver na miséria em uma cabana no meio do deserto era um empecílho enorme com o qual lidar. Além disso, independente do que fizesse, não faria diferença, todos sabem que o ciclo da pobreza é praticamente inquebrável.

Cruzei minhas pernas, caneta em mãos, preparando-me para outra história sem graça sobre uma família que eu nunca conheceria. Se você alguma vez já trabalhou com crianças desprivilegiadas, deve saber que dificilmente há envolvimento do guardião em qualquer assunto. No que toca ao interesse na educação de sua filha, os pais de Paisley não fugiam da regra.
 

"Tenho duas Mamães. Uma se chama Betty, e faz um ótimo spaghetti. De Mãe ela é chamada, e é com meu pai Tom que está casada. A outra me lembra amarelo, Claire tem um cabelo tão belo. Mamãe ela é pra mim, meu pai diz que ela é seu hobby, seu projeto sem fim."

Largada no meio de Utah, já vi centenas de famílias poligâmicas, então isso não me soou estranho. Mesmo que poligamia seja ilegal, mantenho meu nariz onde sou chamada. 


"A Mãe à todos protege. Ela é muito alta, por isso consegue. Mamãe usa um belo bracelete prateado. O usa porque famosa ela é um bocado."

Não seria a primeira vez que vejo crianças inventando parentes celebridades para adicionar alguma emoção em suas vidas ordinárias. Só não esperava isso da Paisley. 


"Mamãe teve à mim e ao Tommy. Antes de mim ele pegou o sobrenome. A Mãe é bem mais antiga. Todos os outros devem a ela a vida."

Eu estranhei bastante. Isso queria dizer que uma das mães de Paisley deu à luz nove crianças. Não sou capaz de imaginar alguém passando por tantas gestações. 


"Papai diz que eu e Tommy somos presentes do Senhor. Ele nunca vai nos causar dor. Tommy é seu orgulho e alegria, mas diz que só à Mamãe ama noite e dia."

Tirei meus olhos do caderno de notas, aquilo sobre Dor havia chamado minha atenção. De qualquer modo, outros de meus estudantes já haviam acidentalmente reportado abusos antes. Verdade seja dita, o Serviço de Proteção Infantil é seletivo quando se trata de escolher quem ajudar.
 

"A Mãe outro bebê vai ganhar. Ela está brava porque nosso Pai de Daisy quer nomear. Mamãe não pode ter mais bebês mesmo que tente. Seu último morreu de Síndrome da Morte Súbita do Lactente."

Tentando encontrar uma posição confortável onde estava, rabisquei uma anotação para me lembrar de entregar as roupas de bebê antigas da minha filha pro barraco dos Jackson. Como a mãe que sou, sei bem que bebês podem ser caros. 


"O Pai diz que ela fez conscientemente, porque queria fugir e se tornar uma artista circense. A Mãe diz que não foi culpa dela, e eu prometi guardar segredo com uma piscadela."

Balancei a cabeça entristecida, como alguém poderia culpar uma mãe de luto por algo que ela não poderia controlar? 


"Mamãe foi aquela que o Pai escolheu. Ele assistiu todas suas apresentações desde que a conheceu. Eles ficavam juntos na escuridão. Papai diz que dentro dela há muita confusão. A Mãe é só enganação, ele não a ama de coração."

Joguei minha mão para cima, um gesto que ensinei aos meus estudantes, pedindo para ela parar. Mas Paisley não olhou para mim. Ela continuou lendo, inconsciente da minha expressão decepcionada. Obviamente algum de seus irmãos havia colocado-a nessa situação como uma brincadeira. 


"Mamãe diz que precisa fugir. Que quer me mostrar o que da vida pode surgir. Papai fica bravo, sua maior neura é essa. Mamãe tem um olhar magoado, pra ir embora ela tem pressa."

 "Mamãe canta pra mim sua música favorita. A Mãe diz que Papai tem a cabeça esquisita."

Suspirei, balançando a cabeça. Outra criança com tanto potencial, e um coração tão puro, estava presa no meio de uma confusão amorosa que sequer envolvia ela. 


"Aniversário passado, queria levar a Mamãe pra ver seu time favorito de basquete. A Mãe fez um bolo com cobertura de chantili cheio de confete. Eu consegui aos Knicks assistir, mas Papai diz ter feito um erro que não consegue corrigir."

"Agora tudo mudou. Do motivo incerta estou. O Papai à noite sozinho chora. 'O que eu fiz?', pergunta pra Deus sem demora. Pra Mãe ele não liga mais, ela espera que com o bebê as coisas voltem aos seus normais."

Paisley levantou sua cabeça com um sorriso, buscando minha aprovação. Embora estivesse chocada com a inadequação de seu poema, não queria partir seu espírito. Ela claramente estava muito orgulhosa dele, e dar uma bronca nela por algo que não era uma má conduta dela, só iria atirá-la novamente pro casulo que esteve por meses tentando quebrar.

Então, em vez disso, bati palmas, fazendo com que o resto da classe (novos demais pra entender a gravidade da situação) também aplaudisse.

"Senhorita June, trouxe uma foto da Mamãe pra ter alguns pontos extras, e ela tem mais uma parte do poema. Posso mostrar pra turma?"

Acenei com a cabeça, pensando que não seria possível haver qualquer detalhe pior do que os já apresentados.

Paisley enfiou a mão no bolso da frente do velho e gasto vestido, que havia herdado, puxando uma foto envelhecida. Ela virou a foto descascada, exibindo-a como se fosse seu bem mais precioso.

Meu sangue congelou. Finalmente descobri o motivo de Paisley ser tão familiar pra mim.

No que parecia uma foto do colégio, sorrindo de orelha a orelha exatamente como Paisley, estava uma jovem chamada Claire Daisy. Ela era uma estudante do ensino médio, popular por sua capacidade de ganhar a liderança em todas as peças da escola, que desapareceu sem deixar vestígios 12 anos antes. Ela foi vista pela última vez saindo do teatro tarde da noite, mas depois simplesmente sumiu. Nenhum sinal de luta. Nenhuma testemunha. Nenhuma evidência. Sem corpo. Nada. Seu caso foi esteve em todas as estações de notícias de Utah por um tempo, por conta de quão peculiar era, até que as pessoas perderam o interesse.

Paisley alegremente continuou, estava tão chocada que não pude pará-la, enquanto ela lia o verso da imagem. 


"Tem uma coisa que eu não entendo, e talvez a resposta você esteja escondendo. Se o amor do Papai pela Mamãe não tem fim, por que ele trata ela assim? A Mãe deita sua cabeça na cama de uma princesa. Mas Mamãe dorme no porão, sob um bloco de concreto bem grandão."
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Eu costumava gostar de cultos

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Eu achava que cultos eram divertidos. 

Você fica com seus amigos no meio do deserto, usa um pouco de mescalina e alucina sobre a existência de alguma religião.

Nosso culto era minha vida. 

Meu amigo Orin e eu começamos com um ex-ônibus escolar que compramos de um cara no Craigslist. O ônibus estava enferrujado e metade das janelas estavam quebradas. Nós pintamos o nome "A Besta" na lateral em tinta vermelha.

Tínhamos dezessete membros, todos perdedores e viciados, assim como Orin e eu. Nós navegamos A Besta por todo deserto procurando por portais para o Outro Mundo.

O Outro Mundo era ideia de Orin. Era como o círculo de luxúria do Inferno de Dante - um tornado gigante de corpos se contorcendo nus e se batendo eternamente uns nos outros. Entretanto, nossa versão era para ser divertida, não tortuosa.

Um dia, encontramos um portal.

Não parecia ser a princípio - não havia nada lá, a não ser um velho crânio de vaca banhado pelo sol. Mas Orin disse que era o lugar, então estacionamos o ônibus e desembarcamos.

Pegamos nosso cachimbo de paz cerimonial feito do osso do quadril oco de uma carcaça de animal e o enchemos de peiote.

Orin e eu começamos a fumar enquanto os seguidores construíam a fogueira. O céu se transformou em um laranja cintilante enquanto o sol se punha sobre as areias brilhantes do deserto. Quando apareceu o crepúsculo arroxeado nos céus, o fogo já era um inferno rosnante de seis metros de altura, enroscando-se em direção dos céus como uma enorme serpente laranja. 

O cachimbo foi passado, e o tempo  começou a se arrastar. Sombras dançavam na luz quente do fogo que banhava o crânio da vaca e, então, o demônio emergiu.

Apareceu a princípio como um rastro de fumaça cinza azulada, deslizando para fora do olho esquerdo do crânio e subindo até o céu. Começou a enrolar-se, girando-se num redemoinho que aos poucos adquiriu bordas para formar a cabeça de um grande lobo, com pelos cintilantes de fios de prata e dentes que brilhavam como adagas de marfim.

"Eu sou o Grande Espírito dos Lobos", anunciou. Sua voz era sonora e profunda, como o soar de um sino.

Olhei em volta em busca dos outros membros do culto, mas percebi que era só eu e o Grande Espírito dos Lobos, flutuando em um leito de estrelas.

Eu queria falar, mas as palavras não vinham.

"O Grande Espírito dos Lobos é o espírito do predador", disse o lobo. "É o espírito da Besta. É o executor da ordem natural, em que a forte presa nos fracos. Seu amigo me procurou, pensando que iria encontrar o paraíso. Mas não há paraíso. Os fortes sempre comerão os fracos. Agora abra sua mente e torne-se o lobo."

Ele abriu a boca e uivou, um som arrepiante que parecia agarrar meus ossos e sacudi-los, as estrelas explodiram em fogos de artifício de prata e eu caí, para sempre, no esquecimento.

Quando acordei, estava nu, e o fogo há muito havia queimado até as cinzas que os ventos haviam espalhado, deixando apenas uma leve mancha preta no chão. Devo ter ficado desmaiado por dias, talvez semanas, e o desconforto surgiu quando percebi que estava sozinho.

Orin se fora e o resto do culto também. A Besta não estava por perto.

Eu não sabia por que os outros haviam me abandonado, nem como eu havia sobrevivido sozinho no deserto enquanto vagava pela névoa psicótica induzida pela droga que agora existia em um lugar obscurecido da minha memória.

O único plano formado pela metade que minha mente enlameada conseguiu fazer era subir a terrenos mais altos, de modo que eu pudesse encontrar um rumo.

Avistei um desfiladeiro a distância e, nas duas horas seguintes, fiz a caminhada cansativa até lá. Meus pés estavam ensanguentados quando cheguei ao topo, mas meu coração estava leve de alegria, porque no horizonte distante eu via a salvação - A Besta.

Era no meio da tarde quando me deparei ela. Corri para o ônibus com um ânimo ascendente, pronto para ver meus amigos. E eles estavam lá, realmente. O interior da Besta tinha sido pintado com suas entranhas.

O mundo girou e girou, e eu tive que segurar para ficar em pé. Senti minhas tripas em protesto, e então a torrente de vômito quente explodiu da minha garganta.

Olhei em horror quando percebi o motivo de não ter morrido de fome naqueles dias. 

No topo da pilha de vômito ensanguentado e vermelho, tinha dedo humano parcialmente digerido.


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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Porquê larguei o turno da noite.

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Uma creepy um pouco mais simples, pra diferenciar das outras até então. Apreciem :3
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Hesitei quando me ofereceram o emprego de gerente noturno do McDonald's. Já trabalhava na loja há seis meses, mas só durante o dia. Eu raramente trabalhava depois do escurecer e tinha conversado com colegas de trabalho que já trabalharam. Super ocupado, falta pessoal, e os clientes são turbulentos. Essas eram as reclamações gerais, e eu percebi que era por isso que a posição de gerente do turno da noite tinha uma taxa de rotatividade tão alta. Em seis meses foram quatro novos gerentes, e cada um deles havia desistido.

O último a sair foi Jesse, um cara que costumava trabalhar às tardes e sempre vinha chapado. Ele fazia isso com tanta frequência que eu assumi que era exatamente como ele era, e então um dia ele veio sóbrio e eu pensei "Merda, entendi porque eles te contrataram". Não me surpreendeu muito quando ele aceitou a promoção; o único benefício da posição é que não há ninguém na sua bunda. Sem preocupações com Clientes Ocultos, o gerente geral está em casa dormindo e você pode fingir que a máquina de sorvete está quebrada o quanto quiser, ninguém vai te dedurar.

O que me surpreendeu foi quando ele desistiu, quase uma semana depois. Ele nem sequer colocou um aviso. Ele saiu da loja no meio do turno e nunca mais voltou. Seu último salário ficou juntando poeira no escritório, e ninguém conseguiu entrar em contato com ele.

E foi aí que eles me ofereceram a posição. Eu tinha minhas dúvidas, mas com apenas dezoito anos, não tinha ideia do que queria fazer da minha vida, e o pagamento era quase o dobro do meu salário como membro regular da equipe. Aceitei o emprego, passei cerca de uma semana em treinamento, e sem perceber já estava encarregado do lugar das onze às sete, cinco noites por semana.

Não era ruim. Durante as primeiras três horas, eu teria um funcionário extra na cozinha e outro no balcão para receber pedidos e entregar a comida pela janela. Os dois saiam às três, e depois a loja ficava vazia, exceto por mim e Miriam, a única mulher da cozinha. Miriam era uma mulher baixa, quieta e de meia-idade, que trabalhava na cozinha há mais de uma década. Ela não falava inglês muito bem, mas conseguia entender bem o bastante.

Era por volta das quatro da madrugada de um domingo, quando entendi por que Jesse se foi. A fila do lado de fora havia acabado e o estacionamento estava vazio. O chão e as mesas do saguão estavam impecáveis, intocados desde que o zelador saiu. O único som audível era o zumbido constante das fritadeiras. Eu sabia que ainda tinha coisas para fazer - ainda precisava reiniciar o sistema de computador, contar os registros -, mas tomei um momento para ficar ao lado do balcão da frente, olhando para o saguão que fechava todas as noites às onze.

Eu não estava olhando para nada em particular, mas meus olhos se fixaram no reflexo na janela e vi algo se mover, debaixo de uma das mesas cobertas. Minha visão não é ótima, então me inclinei sobre o balcão e olhei, até que percebi que não estava imaginando coisas. Eram as pernas de uma garota, saindo horizontalmente debaixo da mesa.

Ela tinha sapatos brancos como a neve, do tipo que as enfermeiras usam. Suas pernas estavam nuas, mas eu não conseguia ver nada acima do joelho. A parte de trás de seus calcanhares repousava no chão, e os dedos dos pés apontavam para o teto.

Então seus dedos começaram a balançar, para frente e para trás, como se ela estivesse ouvindo música. Eu a observei por um momento. Ela estava ferida? Isso era uma pegadinha? Pessoas já tinham entrado no saguão depois de fechar antes, querendo fazer um pedido ou usar o banheiro, mas eu nunca vi nenhum deles agindo assim. Normalmente eles viriam diretamente até o balcão da frente, eu diria "Desculpe, o restaurante está fechado", e acabaria assim. Mas isso…

"Hey!" Eu gritei: "O restaurante está fechado!"

Minha voz ecoou pelo prédio e, assim que eu gritei, as pernas congelaram no lugar. Por um momento ambas ficaram no chão completamente imóveis. A moça que estava debaixo da mesa aproximou-as de si, uma de cada vez, até estarem afastadas o bastante da borda da mesa, para que eu não conseguisse mais vê-las.

Eu percebi que ela estava se levantando e esperei que se mostrasse, mas ela não apareceu. Gritei novamente: "Eu sei que você está aí!", Mas nada aconteceu. Suspirei, deixei meu fone de ouvido em volta do pescoço e saí para o saguão. Ela teria que me obedecer, querendo ou não.

Mas quando saí do balcão e cheguei à mesa, ninguém estava por baixo. Eu olhei debaixo das outras mesas, não vi ninguém. Eu dei uma olhada ampla examinando todo o restaurante. Além de Miriam na cozinha, o lugar estava vazio.

Eu fiquei lá por um tempo, meus pés congelados no chão. Eventualmente suspirei e caminhei de volta para o balcão, tentando não persistir no fato de que eu tinha imaginado um par de pernas debaixo da mesa por pelo menos um minuto inteiro. Eu não estava ficando maluco. Eu estava apenas cansado. Coloquei o fone de ouvido de volta, e quando tive certeza de que ninguém havia entrado no drive-thru, verifiquei novamente as entradas para ter certeza de que todas as portas estavam trancadas. Elas já estavam. Se realmente houvesse uma garotinha se escondendo em algum lugar da loja, (e não havia), então ela teria que estar se escondendo por pelo menos cinco horas até agora. Isso seria ridículo. Eu teria notado ela antes.

Dei outra olhada superficial pelo saguão enquanto caminhava de volta para o balcão, e congelei. No reflexo do vidro, vi um dos sapatos brancos, agora no chão. Eu não conseguia ver mais ninguém, ninguém sob a mesa.

Eu me virei para chamar a atenção de Miriam (ela também veria isso?), mas ela já não estava mais na cozinha. Ela deve ter ido ao estoque para pegar suprimentos. Me virei, tentando obter o melhor ângulo para ver o reflexo, mas por trás do balcão eu só podia ver sombras sob a mesa e, claro, o sapato, descansando ao lado dela. Um momento depois, uma pequena e pálida mão saiu da escuridão, pegou o sapato e o puxou de volta para baixo da mesa sem emitir um som sequer.

Eu quase me esqueci de respirar. Encarei aquele reflexo por uma eternidade, esperando que algo surgisse outra vez, esperando algum outro sinal de que aquilo era real.

Não sei quanto tempo levei para perceber que o telefone estava tocando. Miriam chamou meu nome do escritório. Quando me virei ela estava andando para me entregar o telefone fixo que ainda tocava. Dei outra olhada para o reflexo na janela antes de pegar o telefone e me permiti relaxar quando, novamente, não vi nada.

É tarde, estou exausto, não estou ficando maluco. Agradeci a Miriam e atendi a ligação.

Não esperava muito. A essa hora da noite, nenhuma pessoa bem-intencionada nos ligaria. Geralmente era um erro, algumas crianças passando trote, ou alguém que não tinha certeza se abríamos 24 horas por dia, e queria ligar primeiro antes de chegar até aqui. Mas eu sabia desde o momento em que ouvi a voz do outro lado da linha que isso era diferente.

"Ajuda... por favor me ajude..."

Uma voz suave e jovem estremeceu na linha. Uma garotinha. Meus olhos voaram de volta para o outro lado do saguão, para o reflexo na janela. "Quem é?"

"Estou presa", disse ela. Não vi nada incomum perto da mesa desta vez. "Eu estou presa debaixo da mesa..."

"Onde você está?", Perguntei. Exceto que eu sabia exatamente onde ela estava.

"Ajude-me a sair", ela continuou, como se ela não tivesse me ouvido. "Estou presa, não consigo sair..."

Eu podia sentir os pelos na minha nuca eriçados e minha visão parecia super focada. Onde uma vez a reflexão estava embaçada, agora eu já podia ver com perfeita clareza. Entretanto, nada aconteceu. Nada saiu de debaixo da mesa, mas a voz no telefone continuava implorando por ajuda.

"... por favor senhor, estou presa aqui faz tanto tempo..."

Eu quase desliguei o telefone bem ali. Se tivesse desligado, acho que fingiria que nada havia acontecido e, caso o telefone tocasse de novo, eu não atenderia. Mas isso não era o tipo de coisa que alguém poderia ignorar, além disso, podia sentir até na pele que mesmo se desligasse quantas vezes eu quisesse, ela não ia parar de ligar.

Voltei para o saguão. Eu não andei mais lentamente que o normal, mas demorou uma eternidade para chegar à mesa. Fiquei pensando em Jesse, como ele desapareceu de repente sem uma explicação.

Eu me agachei e olhei sob a mesa e, assim como da última vez, ninguém estava lá. Dei um suspiro de alívio. A voz no telefone soava tão falsa agora. Era claramente alguém passando um trote, que por acaso escolheu a melhor hora possível para mexer comigo.

"Legal, idiota", disse ao telefone, e tentei desligar, de uma vez por todas. "Não ligue para este lugar novamente."

"Mas... eu finalmente consigo te ver", ela disse, parecendo honestamente confusa. "Estou bem ao seu lado. Você está vestindo um uniforme vermelho e preto e uma viseira..."

"Sim, obviamente", eu disse. Se este fosse um trote, eles saberiam que eu estaria assim. “Este é o McDonald's. Nós todos nos vestimos assim."

"- e seus olhos são castanhos, e você não tem um crachá, e você tem um corte na mão direita -"

Sua descrição continuou chegando ao ponto em que ela descreveu o jeito que eu estava agachado, a forma do meu nariz, que minhas mãos estavam tremendo. Eu olhei para a janela novamente, tentando ver além do meu próprio reflexo, para o estacionamento do lado de fora. Alguém está me observando do lado de fora, eu disse a mim mesmo, mas eu estava errado. A reflexão era tudo que eu precisava ver. Nela estava o rosto da garota, espiando, uns quatro ou cinco centímetros além do fim da mesa. Ela olhou diretamente para mim, quase a um braço de distância, seus lábios se movendo em sincronia com as palavras que ouvia através do telefone.

Eu me afastei dela, tropeçando em uma cadeira. Deixei cair o telefone no chão mas ainda assim podia ouvir o tom de sua voz, mas nenhum som saia de debaixo da própria mesa. Não havia nada lá, nada além dos ladrilhos e do suporte para a mesa. Olhei de volta para o vidro e ainda podia vê-la lá, clara como o dia, olhando para mim com grandes olhos negros. Sua boca se moveu silenciosamente, mas ela não se aproximou mais.

Peguei o telefone e corri de volta para o balcão. Meu coração batia no peito, minha garganta seca, minha cabeça latejando. Eu lutei para respirar. Olhei de volta para a janela e lá estava ela de novo, observando-me com a cabeça para fora das sombras. Ela franziu a testa e lágrimas vermelhas escuras começaram a escorrer pelo seu rosto. Coloquei o telefone de volta em meus ouvidos e a ouvi novamente.

"... por que você foi embora? Eu pensei que você ia me ajudar. Estou presa, não consigo sair..."

Ela continuou falando, e eu escutei, com uma sensação ainda pior na boca do estômago quando ela começou a gritar.

"Por favor! Eu estou aqui há muito tempo..."

Saí desse transe com a Miriam chamando meu nome da cozinha. Me virei para vê-la me observando com olhos estreitos. "Você está bem?"

Por um momento, não tive ideia de como responder isso. Eu olhei de volta para a janela e não vi nada, mas nem fodendo que eu teria imaginado tudo aquilo. Coloquei o telefone no ouvido e ouvi a menina gritando de novo. Foi quase reconfortante. Ela era real. Eu podia ouvi-la.

Eu contei a Miriam sobre a garota embaixo da mesa e a voz dela no telefone. Eu deveria estar falando muito rápido porque ela claramente não conseguiu me entender. Então eu lhe entreguei o telefone e disse a ela para ouvir.

Miriam colocou o telefone no ouvido dela. Ela escutou por cerca de dois segundos, depois encerrou a chamada calmamente e colocou o telefone com a face voltada para baixo no balcão. "Garota demoníaca", disse ela.

"O que?"

Ela repetiu-se lentamente, certificando-se de que estava pronunciando corretamente. "Garota demoníaca", “Vive debaixo da mesa. Não deixe ela te tocar, você vai ficar bem".

E com isso, ela voltou a limpar a grelha, cantarolando para si mesma. Meu fone de ouvido tocou e ouvi um carro estacionando no alto-falante drive-thru. Levei minha mão para o botão no meu fone de ouvido, pronto para fazer o pedido, mas meus dedos pararam a alguns centímetros do botão. Olhei para o rosto da garota pela janela novamente. Ela olhou para mim, sem piscar, sem desviar o olhar uma vez sequer.

"Olá", disse o cliente. Mas aceitar seu pedido era a última coisa que eu conseguiria fazer. Minhas mãos estavam suando, a sala estava girando e, acima de tudo, eu me sentia enjoado, doente até às tripas. "Alguém aí?", perguntou o cliente. "Olá?"

Tirei meu fone de ouvido, saí pela porta e nunca mais pisei naquele prédio.
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Você já ouviu falar dessa cidade?!

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Aparentemente, houve alguma vez uma cidade no norte da Suécia, chamada Korona, mas de alguma forma todo mundo esqueceu de sua existência. Sou policial e trabalho em Kalix, um município perto de onde a cidade de Korona supostamente ficava. Naquele lugar, não existem sinais da cidade - apenas uma densa floresta - mas certos detalhes relacionados à minha própria família me dão a certeza de que esse lugar era de fato real.

 Só que todo o resto do mundo apenas esqueceu dela... Não consigo imaginar como ou o porquê, mas é a única conclusão que consegui chegar. Para mim, isso tudo começou quando duas Romenas colhedoras de mírtilo vieram até minha pequena delegacia para relatar algo que tinham visto nas profundezas da densa floresta. Não sabiam falar Sueco ou Inglês para explicar exatamente o que tinham encontrado, mas ficou claro de imediato que tinha deixado-as completamente apavoradas. Pelo que consegui entender, parecia envolver um cadáver humano. Eventualmente, depois de trazer um intérprete de uma cidade vizinha, foi revelado que tinham cruzado com uma criança morta, não devia ter mais do que dez anos.

 Levaram eu e mais dois colegas - seguidos por uma ambulância - até a localização onde tinham encontraram a criança. O sol estava se pondo por trás de uma neblina grossa quando chegamos lá. Acendi um cigarro enquanto saíamos da estrada principal e entrávamos andando pela floresta, para onde a criança supostamente estava. Me sentia um pouco desconfortável em ter que lidar com um cadáver infantil, mas já tinha lidado com casos desse tipo - alguns acidentes de carro - e não me sentia afetado no momento. Era só mais um trabalho, ou assim eu pensava.

 As Romenas pararam quando nos aproximamos e se recusavam a ir além. Havia pânico em seus olhos, mais do que eu esperava mesmo com tais extremas circunstancias. Um dos meus colegas ficou com as duas enquanto o resto de nós continuamos. Logo nos deparamos com uma pedra enorme que se fundido lá durante a era do gelo. Meu colega deu a volta e alguns momentos depois voltou correndo, tão pálido que parecia ter visto o próprio Diabo. Se curvou e vomitou na minha frente. 

 "Está..." disse. "Está do outro lado... Puta merda."

 Não perguntei nada, apenas continuei para ver com meus próprios olhos, com os paramédicos me seguindo logo atrás. O que achamos do lado da pedra... não era natural. Metade da criança - uma menina de cabelos loiros - estava fundido com a pedra como se estivesse passando pela rocha como um fantasma e de repente voltou a ser de carne e osso antes de ter tempo de sair de lá. Ou, como um colega ressaltou mais tarde, como se tivesse se teletransportado para dentro da pedra. O olhar morto e soturno da menina para a floresta parecia contar uma história de tragédia desconhecida pelos vivos. Os paramédicos rapidamente afastaram os olhares em silêncio, horrorizados com o destino que sofrera, mas eu não consegui desviar o olhar. Nunca fui um homem religioso, mas essa experiência me fez duvidar de tudo que acreditava antes.

 E não somente pelo jeito bizarro que a pobre menina havia perdido sua vida, metade de seu corpo engolido por uma rocha... Havia algo a mais sobre aquela garota. Algo que me fizera sentir totalmente vazio por dentro, como se um pedaço da minha própria alma tivesse sido arrancada, deixando um buraco oco no meu coração que rapidamente se preencheu com uma tristeza que jamais sentira antes. Era um sentimento medonho, que só se fazia pior pelo estranho fato que uma pequena parte de mim reconhecia a menina. Não sei de onde... Seu rosto era como uma vaga memória ou um sonho que esquecera recentemente.

 Nos recompomos e começamos a conversar, tentando entender a situação sem nenhum sucesso, enquanto os paramédicos se aproximavam do corpo. Tentei me focar nos fatos sólidos enquanto investigávamos a cena. A menina vestia uma jaqueta rosa. Em um dos bolsos, encontramos uma flor de aparência estranha - suas cores eram exóticas, lembrando a coloração das asas de um besouro - e um cartão amarelo de biblioteca com um texto que nos deixou muito confusos. "Biblioteca Pública de Korona," dizia.

 A menina também havia escrito seu nome no cartão. Quando vi, meu mundo começou a girar. "Isabella Lexelius", dizia em uma letra infantilizada. 

 "Esse não é o seu sobrenome, senhor?" meu colega perguntou. 

 "É... É sim..." Eu não sabia o que dizer ou pensar. 

 "Você a conhece?" 

 "Eu... Eu não sei... Não... Não, eu nunca a vi antes em toda minha vida. Deve ser uma coincidência."

 "É uma grande coincidência, senhor."

 Não respondi. 

 "Tem alguma coisa no chão," um dos paramédicos disse.

 No musgo manchado de sangue em baixo da menina, havia um caderno. Devia ter caído de sua mão, a que estava pendurada sobre o livro. Peguei e abri. As páginas estavam cobertas com textos pequenos, escrito com uma caligrafia diferente da da garota.

 "Senhor!" um dos paramédicos disse. "Nós traremos ferramentas para cortá-la."

 "Sim," falei distraidamente. 

 "Só mais uma coisa," ele disse. 

 Coloquei o caderno dentro de um saco plástico de evidências. "O que foi?" 

 "Tem sangue demais." O médico apontou para o chão. 

 "Como assim tem sangue demais?" Perguntei. 

 "Embaixo da rocha, senhor," explicou. "É impossível que todo esse sangue venha de uma criança só."

 Fiquei em silêncio por um momento e declarei:

 "Teremos que voltar com ferramentas melhores."

 Um dia depois, removemos a parte de cima do corpo com sucesso e levamos de volta para o necrotério onde seria analisado. Também tentamos levantar a pedra com ajuda de um guindaste, mas nem se mexia. Ao invés disso, cavamos um buraco ao redor mas não achamos mais nenhum corpo. Tudo que podíamos fazer era testar a maior parte do sangue encontrado.

 Durante a examinação do corpo, eu lia o caderno. Continha a história da cidade de Korona. Fiquei convencido que era apenas uma peça de ficção - uma história doida que achei ser escrita pelo homem que havia matado a menina - até que algumas semanas depois o laboratório forense me ligou.

 Tive problemas para acreditar, mas não tinha como estar errado.  Fizeram o teste de DNA da menina comparado com o meu por causa do sobrenome. Foi minha ideia, sendo que não queria levantar mais suspeitas. Não achamos que revelaria nada, mas revelou... A menina de mais ou menos dez anos, Isabella, era minha filha. Eu tinha certeza que isso era impossível. Dez anos atrás eu vivia com minha ex-esposa e nunca a traí e certamente não tive nenhum filho com ela. Ficamos juntos por mais cinco anos, então saberia se ela tivesse tido um bebê durante aquela época. Mas ainda assim, o teste era positivo e sem margem de erros. 

 Abaixo você irá encontrar uma transcrição do caderno. Digitei aqui com a esperança de que alguém se lembre da cidade de Korona, ou alguém que tenha morado lá. Por favor, entre em contato comigo se tiver alguma informação. 

 Isso é o que estava dentro do caderno:

 Meu nome é Helena Fredioksson. Cinco anos atrás eu era outra pessoa. Era mais jovem, não só no sentido habitual, mas espiritual também. Havia felicidade em minha vida e eu tinha esperanças e sonhos. Agora, isso não existe mais... Não tenho muito tempo para escrever, mas tentarei explicar o que aconteceu conosco - toda nossa comunidade - da melhor forma possível. 

 O evento, como viemos a chamar depois, aconteceu em 09 de Julho de 2013. Eu estava apenas visitando Korona aquele dia para levar minha sobrinha, Isabella, na grande estréia do O Bosque Vermelho, o novo parque de diversão da cidade. Era para ser o maior de toda a Suécia e Isabella implorou para seus pais que a levassem, mas nenhum deles estavam disponíveis por causa de seus empregos. Então me ligaram e perguntaram se eu poderia fazer esse favor. Sou eu quem chamavam quando precisavam de ajuda com Isabella, a única pessoa em quem confiavam. Como queria que esse não tivesse sido o caso, considerando tudo que aconteceu.

 Chegamos bem cedo, algumas horas antes da abertura, para que não precisássemos ficar na fila o dia inteiro para somente cruzar os portões de entrada. O tempo estava incrível. Havia chovido um pouco na parte da manhã, então estávamos um pouco preocupadas, mas quando chegamos na cidade não havia uma nuvem à vista.

 Isabella não conseguia parar de falar sobre quanto nos divertiríamos, e aqueceu meu coração vê-la tão feliz. Nós demoramos um pouco mais que o esperado para chegar no parque, sendo que uma das ruas principais estava fechada por causa de uma parada militar. Não nos incomodou muito, na verdade apenas aumentou o ar de celebração que já estava no ar. Para evitar a parada, tivemos que pegar um ônibus até o centro da cidade, na Praça Freyja, e de lá pegamos o metrô até a estação do centro de negócios do Yellow Neutral - o maior arranha-céu da Suécia. De lá podíamos andar até O Bosque Vermelho.

 Havia pessoas para todos os lados. Parece que muitos tinham pego a balsa pelo rio, algo que eu não sabia que dava para fazer. Isso significou que tivemos que ficar em uma fila de qualquer forma. Isabella não se importou, havia um homem empurrando um carrinho e vendendo cachorros-quentes ao lado da fila. Comprei um cachorro-quente e um refrigerante para Isabella. Seus pais não gostavam muito quando eu comprava bobagens para ela comer, mas achei que entenderiam, dado as circunstancias do dia. O homem também vendia balões vermelhos para as crianças. Isabella disse que queria um. Tentei explicar que teria que carregá-lo o dia inteiro e que haveriam mais balões lá dentro do parque, mas não me ouviu. Relutantemente, comprei também um balão.

 Nesse momento, ninguém ali sabia que suas vidas estavam prestes a mudar em questões de minutos.

 Isabella acidentalmente soltou seu balão. Achei que isso a deixaria triste, mas não pareceu a incomodar muito. Olhamos o balão enquanto subia aos céus e ia embora. Logo, não era nada mais que um ponto vermelho em uma vastidão azul. Então, de repente, desapareceu.

 "Para onde ele foi?" Isabella perguntou. 

 Eu não sabia explicar. Tinha apenas desaparecido. 

 "Não sei," falei. "Talvez tenha estourado?" 

 Mas algo - uma sensação estranha que eu não conseguia racionalizar - me fez duvidar disso. Então, poucos minutos depois, um vento muito forte começou a vir de todas as direções. Carregava um cheiro que me lembrava de algo apodrecido. 

 "Eca," Isabella disse com seus longos cabelos brancos dançando com o vento. "Que cheiro é esse?" 

 Segurei sua mão com mais força. "Não sei," falei. 

 As pessoas olhavam em volta, confusos, e as vozes antes felizes agora estavam cheias de um tom de preocupação. Algo estava acontecendo, mas ninguém sabia o que era. Sirenes ecoaram ao longe, parecendo estar vindo do centro de negócios.

 "Meu Deus," uma mulher falou e apontou em direção ao arranha-céu. "O topo do prédio sumiu!" 

 Não era tão fácil de ver, mas ela estava certa. O topo do prédio mais alto tinha sumido como se tivesse sido cortado com uma faca. Isabella era baixinha demais para ver, mas estava percebendo que algo não estava certo pela expressão de todos em sua volta, então começou a ficar com medo. 

 "Acho que é melhor a gente sair daqui," falei, agindo por extinto. "Acho que é não é seguro." 

 Isabela começou a lacrimejar. "Mas o parque, nós vamos..."

 "Nós voltamos mais tarde, querida," falei enquanto andávamos para longe da multidão. Uma das balsas estava saindo naquele momento, rapidamente subimos. Algumas pessoas nos acompanharam, mas a maioria ficou para trás, na esperança que tudo normalizasse. Isabella chorou, mas não estava brava. Enquanto a balsa lentamente se afastava da costa, uma espécie de comoção irrompeu entre a multidão na parte terrestre. Não consegui enxergar o que estava acontecendo, mas de repente todos gritavam em horror e tentavam correr em direção da água. Estavam claramente fugindo de alguma coisa, mas não conseguia ver do que. Tudo que eu conseguia enxergar eram pessoas se pisoteando enquanto tentavam pular no rio e fugir nadando. Era uma visão horrível, e agradeci por Isabella não ser alta o suficiente para ver por cima das barras de proteção da barca.

 Depois, as sirenes do sistema de alerta de emergência começaram a berrar aquele som  sombrio e de catástrofe iminente. Todos faziam perguntas que ninguém sabia responder. A maioria das pessoas falavam sobre algum ataque, ou por terroristas ou pelos Russos.

 Peguei meu celular para ligar para minha irmã, mas não havia sinal. Tentei com o celular de emergência de Isabella, também não tive sorte. Logo descobri que ninguém tinha sinal. Nos lados do rio que passavam pela cidade, as pessoas olhavam pelas janelas tentando ter um vislumbre do que estava acontecendo mas a única coisa que podiam ver fora do comum era o prédio cortado no centro de negócios do Yellow Neutral.

"Olha," Isabella falou e apontou para o céu. "Eu nunca vi um passarinho tão grande assim!"

Uma criatura que parecia um pássaro sobrevoava alto acima de nós. Era totalmente preto. Embora não posso dizer com certeza, parecia tão confuso em estar nos vendo quando nós estávamos confusos em vê-lo. Circulou o centro da cidade algumas vezes depois voou para longe. A visão daquele pássaro gigante, ou seja lá o que fosse, transformou nossa confusa ansiedade em terror. Ainda não sabíamos o que tinha acontecido, mas agora sabíamos que não eram terroristas ou forças estrangeiras. Aquilo era outra coisa, algo impossível de se acreditar e ainda assim impossível de negar.

A balsa nos deixou um pouco mais a frente no rio, perto da Praça Freyja. As pessoas pareciam estar em estado de pânico, embora ninguém soubesse o que havia de errado. Alguns empacotavam seus carros para fugir da cidade, outros corriam para algum lugar - em direção de suas famílias, talvez - mas a maioria se aglomeravam em volta de policiais, trabalhadores ou militares da parada para tentar conseguir informações. Mas só recebiam sempre a mesma informação, gritadas para que todos em volta pudessem ouvir por cima das sirenes de alerta de emergência: não se sabia ainda nenhuma informação e que precisavam voltar para suas residências e aguardar mais informações pelo rádio. 

"Como vamos ouvir o rádio se não tem energia elétrica?!" A voz veio de uma senhora. "Olhe em volta, não tem energia em lugar nenhum!"

Ela estava certa. 

"Vão para cara, fechem suas janelas e esperem a energia voltar," um policial disso. "Não sabemos o que está acontecendo, mas a coisa mais segura a se fazer é seguir o protocolo..."

Ele foi interrompido por algo que acontecia a alguns metros de distância. A primeira pessoa que tinha tentado sair da cidade - um homem com uma moto barulhenta - tinha voltado. Eu estava carregando Isabella, confortando-a ao mesmo tempo que tentava ouvir o que o homem da moto tentava dizer para todos. Me empurrei pela multidão para me aproximar. Ele andou até o centro da praça e subiu no pé da estátua do Freyja. Poucas pessoas acreditaram nele, mas todos que haviam visto a criatura nos céus não tinha dúvidas de que o homem estava falando a verdade, mesmo que parecesse impossível. 

"Não tem saída!" o homem gritou. "A estrada principal que dá para saída da cidade simplesmente para e... só tem uma floresta. Não consigo explicar. Sinto muito. Mas é a verdade. Estamos cercados por uma densa e enorme selva que não tem saída." 

"Então é verdade," o policial sussurrou para si mesmo ao meu lado. "Pelo amor de Deus, era verdade."

Perguntei o que queria dizer com aquilo. Primeiro, não quis reconhecer minha pergunta, mas quando viu minha confusão e as lágrimas no rosto inocente de minha sobrinha, virou para mim e disse em tom baixo: 

"Antes de perdemos contato com o helicóptero que estava vigiando a parada, o piloto disse que algo não fazia sentido. Ele estava... estava caindo. Algo tinha cortado os rotores. E disse que tudo tinha mudado de certa forma... A vista tinha mudado. Antes de bater no chão gritou que tinha visto uma selva ao oeste e um oceano ao leste."

Mais e mais relatos chegavam e, embora fosse impossível distinguir os rumores dos fatos, todos contavam a mesma história: o mundo inteiro ao redor da cidade havia sido substituído do nada. A cidade era a mesma, mas o céu acima não era. Eventualmente, as sirenes ficaram em silêncio, os carros pararam de buzinar e a cacofonia de vozes desapareceu. Um silêncio misterioso caiu sobre a cidade. O sensação estava além do irreal.

Eu não sabia o que isso significava. Tentei explicar para minha sobrinha, mas ela tinha apenas cinco anos e não conseguia entender. Ela queria ir para casa para seus pais e eu não sabia o que dizer. Ela estava cansada e precisava descansar, então fui em uma pousada nas proximidades e paguei por um quarto. Logo, a economia da cidade entraria em colapso, mas nos primeiros dias, neste novo mundo desconhecido, as pessoas ainda aceitavam dinheiro como pagamento.

O que se seguiu foram cinco anos de sofrimentos e dificuldades intermináveis, uma batalha contínua pela sobrevivência sem esperança de ajuda ou resgate. Tudo começou na primeira noite. O sol, idêntico ao nosso, ainda que novo e estranho, estava ao norte, em vez de ao oeste, e foi substituído por estrelas irreconhecíveis que cobriam todo o céu. Quando olhei para eles da pequena janela do nosso quarto, eu não senti admiração, mas me senti completamente perdida. O sentimento mais estranho durante todos esses anos deve ter sido a sensação paradoxal de familiaridade com as ruas misturada com a consciência do deslocamento total. Acho que foi em parte por isso que as pessoas se mantiveram perto do centro da cidade, para se afogarem na ilusão de estar em casa, embora soubessem, no fundo, que não podiam escapar do seu destino como encalhadas no desconhecido.

Então, quando me inclinei para fora da janela, ouvi os sons. Pessoas gritando, tiros, carros dirigindo loucamente pelas ruas, sem qualquer lugar para ir, e ocasionais uivos estranhos que faziam meu sangue gelar. Eu não vi nada do que aconteceu naquela noite, mas isso mudou a população - mais de dois milhões de pessoas - para sempre.

Fechei a janela e me escondi embaixo da cama com Isabella. Ela queria chorar com saudades da mãe, mas mantive minha mão sobre sua boca trêmula.

A noite seguinte foi mais calma, provavelmente porque ninguém ousou se aventurar lá fora. Com o passar dos dias, logo percebi que a ameaça não vinha da selva desconhecida fora da cidade, mas das pessoas ali. Era impossível dizer quantos crimes foram cometidos, mas dado o que vi com meus próprios olhos - saques, roubos e até assassinatos -, calculei que a taxa de criminalidade deve ter aumentado muito. No entanto, não era uma anarquia total. A polícia e as poucas unidades militares que estavam na cidade para o desfile mantinham alguma ordem vitais para a comunidade. Como as pessoas comuns não tinham armas, a polícia e os militares não eram ameaçados pelos cidadães comuns.

Um líder deu um passo à frente - o homem da motocicleta - e depois de algumas semanas, todos pareciam cooperar pacificamente. A comida que foi deixada nas lojas era distribuída de forma justa e todos que podiam trabalhar pareciam fazê-lo sem hesitação, até mesmo eu.

Os cientistas que estavam trabalhando na universidade na época do evento não conseguiram descobrir o que havia acontecido, mas com a ajuda de centenas de cidadãos,  conseguiram construir uma pequena usina nuclear que poderia retornar a eletricidade para a cidade. Ajudei principalmente com esse projeto. Eu não sabia nada sobre física nuclear, mas fiz o pouco que pude. Era incrível o que nós éramos capazes como um povo e em toda a minha terrível sensação um sentimento de orgulho cresceu no meu peito. Mas nada era simples para nós. Longe disso.

Além do meu problema pessoal em manter Isabella saudável e segura - o que consegui, embora ela nunca tenha se sentido segura -, haviam outros três grandes problemas que continuavam crescendo a cada semana.

O primeiro era situação da comida e da água. Algumas pessoas conseguiram cultivar trigo e batatas em parques e campos de futebol, mas isso não era suficiente. Estávamos ficando sem comida e água. Chovia de vez em quando, mas poucas pessoas se sentiam seguras bebendo a água da chuva. Para combater esse problema - e também para encontrar soluções para outros problemas - expedições foram enviadas para explorar a selva. Estes geralmente terminavam da mesma maneira, isto é, ninguém nunca retornava. Apenas uma ou duas vezes alguém conseguiu voltar para a cidade, mas esses já não eram eles mesmos. Era como se algo na selva tivesse capturado suas almas e deixado seus corpos voltarem sem nenhum arranhão. 

O segundo problema era a natureza. Parecia ter nos poupado nos primeiros dois meses, mas logo depois que recuperamos a eletricidade, se voltou contra nós. Demorei um pouco para ver com meus próprios olhos, mas - aparentemente ao acaso - criaturas misteriosas entraram na cidade. Às vezes apenas passavam, para nunca mais voltar. Uma policial - um dos novos recrutas - me disse que havia seguido uma criança azul nua, enquanto caminhava solenemente pela cidade e depois voltava a sair dela.

Em outras ocasiões, monstros indescritíveis causavam estragos nas ruas, matando o máximo de pessoas que podiam antes de voltar para seja lá de onde tinham vindo. 

A certa altura - e isso eu realmente vi por mim mesma - uma enorme centopeia, totalmente branca com centenas de olhos vermelhos, saiu de repente de um bueiro. Rapidamente subiu na lateral de um prédio - como se soubesse exatamente o que estava fazendo - e entrou em uma das janelas do último andar. Depois começaram os gritos das pessoas de dentro do prédio. Alguns escaparam, mas todos os outros dentro foram despedaçados. Somente após cerca de cinco minutos a centopeia saiu do prédio da entrada, o corpo branco e segmentado agora todo manchado de sangue e retornou para o bueiro.

Esses ataques, como eram chamados, despertaram medo e pânico em todos nós. Embora isso não acontecesse com frequência, acontecia com frequência suficiente para que todos ficassem nervosos o tempo todo.

O terceiro problema também só se tornou perceptível depois de um tempo.  Problemas de saúde. Não havia padrão para quem era afetado ou não, mas algumas pessoas - provavelmente não mais que 1% - adoeceram. Começou como uma febre e progrediu lentamente com mutações assustadoras atingindo partes aleatórias do corpo. A maioria dessas mutações tornou suas vítimas deficientes e desfiguradas, mas às vezes - muito raramente - as vítimas desenvolviam características aparentemente benéficas. O caso mais extremo que eu vi foi uma jovem que cresceu um terceiro olho no meio da testa. A íris do novo olho brilhava com cores surpreendentes e a garota alegou que podia usar o olho para ver as emoções de outras pessoas.

No início das crises de saúde, os doentes eram maltratados, como se fossem monstros da selva. Este tratamento só piorou quando foi revelado que as criaturas de fora nunca atacavam os doentes. Em dado ponto, um grupo de mal intencionados se reuniu na praça Freyja, perseguindo os doentes cidade a fora. Felizmente, isso foi parado pelos militares.

Entretanto, no final das contas, os doentes eram enviados para a selva. Não para nos ver livres deles, mas para fazer uso de sua imunidade à natureza daquele mundo. Isso se transformou em um enorme sucesso que acabou resolvendo o problema de comida e água. Eles conseguiam se aventurar e explorar a área circundante e retornar com frutas comestíveis, vegetais e pequenos mamíferos que caçavam.

Este foi um momento decisivo para nós. E então nossa sorte apareceu de novo. Todas as tentativas de pesca haviam fracassado até  aquele momento, mas de repente havia peixes em todos os lugares do rio. Logo descobrimos que havia períodos diferentes para quando os peixes ficavam em mar aberto ou mais perto da costa. No entanto, assim que chegaram perto da terra, misteriosas tempestades roxas que duravam semanas atormentaram a cidade. E ainda assim, nós sobrevivemos. Muitas pessoas não, claro, mas a vida era possível. No final, nós prevalecemos.

Durante os cinco anos que se seguiram, não houve muitas catástrofes e nosso foco na sobrevivência mantinha longe nossos pensamentos com os de fora. Até Isabella pensava cada vez menos em seus pais enquanto crescia. Com o tempo, a maioria das pessoas se acostumou com a situação bizarra em que se encontravam desde julho de 2013. Muitas pessoas cometeram suicídio, sim, mas a maioria das pessoas preferiu viver nessa terra desconhecida.

Entretanto, dois eventos mudaram as coisas. Primeiro, foi o que aconteceu com uma expedição planejada ao mar. Centenas de pessoas, a maioria homens, decidiram se aventurar no oceano com um dos cruzeiros de luxo que estavam ancorados ao lado da cidade. Esta seria uma grande aventura e, talvez, uma maneira de encontrar algumas respostas de onde estávamos. Isso inspirou todos nós. Milhares de pessoas - incluindo Isabella e eu - nos reunimos para ver o enorme barco partir lentamente. Tudo parecia semelhante àquele dia cinco anos antes, quando esperávamos que o parque de diversões fosse aberto. Todos nós olhamos para o horizonte enquanto o barco - chamado Birdo de Espero - se transformava em um pequeno ponto contra o sol poente. Nós imaginamos as incríveis aventuras por quais passariam e esperávamos seu retorno. Então algo que deveia ser maior do que qualquer outra coisa que já tínhamos visto até agora pulou da água e engoliu Birdo de Espero inteiro.

Algumas pessoas gritaram, outras choraram. Isso foi um golpe pesado contra a cidade. Apenas saber que um ser assim - um ser capaz de comer um cruzeiro de luxo inteiro em uma única mordida - poderia existir privou muitas pessoas de suas esperanças por um futuro melhor.

O evento seguinte foi diferente. Foi um milagre, para se dizer no mínimo. Aconteceu apenas um mês depois da destruição do Birdo de Espero. Um guarda militar, um jovem que tinha apenas quinze anos na época do nosso desaparecimento da Terra, descobriu que, quando estava em um determinado lugar na praça Freyja, podia sintonizar uma estação de rádio específica do nosso antigo mundo. O nome da estação era Synthwave Mix que dedicava a maior parte de seus programas a esse tipo de música. A esperança retornou imediatamente, mas desta vez a esperança era diferente das que havíamos passado cinco anos construindo dentro de nós. Essa era a esperança de ver nossos entes queridos novamente. A esperança de voltar para casa. As pessoas na universidade investigaram a área para tentar determinar de onde os sinais de rádio estavam vindo. Não tiveram muito sucesso, mas logo perceberam que emanava do solo abaixo da praça Freyja.

Enquanto a área era investigada pelos cientistas, pessoas comuns apareceram em massa. Todos tinham rádios de diferentes tipos, como crianças carregando bichos de pelúcia para se sentirem seguros, na esperança de entrar em sintonia com o Synthwave Mix e sentir o gosto perdido do lar. É claro que a área onde a estação de rádio podia ser ouvida era pequena demais e a polícia precisava expulsar todo mundo para dar aos cientistas a sala de que precisavam. Alguns dias depois os cientistas colocaram um conjunto de alto-falantes grandes ao pé da estátua de Freyja e os conectaram ao receptor que estavam usando para ouvir a estação de rádio.

Dia e noite, a música calma e sintética, as vezes um tanto melancólica, tocava sem parar para toda a cidade. As pessoas se reuniam em torno da estátua. Até desafiaram os perigos da noite. Isso se tornou nossa nova tradição nas cidades. Terminar o dia indo à estátua e sentando-se ao redor dela, como em oração, tornou-se nossa peregrinação. Não era exatamente a música que atraia as pessoas para a praça, mas sim sua origem. Ainda assim, as melodias eletrônicas logo se transformaram em um símbolo de todas as nossas esperanças e sonhos. De tempos em tempos, as pessoas se levantavam e dançavam - às vezes, enquanto choravam com uma alegria agridoce, difícil de explicar. Embora, o que nos fez ficar em silêncio e ficar totalmente concentrado foi quando os anfitriões disseram algo. Geralmente, eles só falavam sobre a música que estavam transmitindo - completamente inconscientes de que uma cidade inteira cheia de pessoas os ouvia quase religiosamente - mas raramente ocasiões, eles falavam sobre o mundo lá fora. Naquela época, parecia que nossos corações pararam coletivamente em antecipação. Falariam algo sobre nós, sobre seus esforços para descobrir onde estávamos e como nos trariam de volta? Mas nunca houve notícias sobre nós, como se já tivessem se esquecido ou nunca tivessem notado nossa existência. O trágico destino da cidade de Korona nunca foi citado. No entanto, nunca perdemos a fé.

Demorou muito tempo - e agora estou chegando mais perto dos dias atuais - mas, eventualmente, os cientistas decidiram que valeria a pena cavar um grande buraco exatamente onde as ondas de rádio pareciam ser ejetadas para fora do solo. Isso não era uma tarefa fácil e nem segura. O trabalho levou semanas. Mais uma vez todos nós ajudamos. Ninguém realmente sabia exatamente o que estávamos procurando, só sabíamos que era alguma coisa.

Quando chegamos ao fundo, onde a rocha se tornava muito difícil de escavar, uma montanha de terra cobria o solo em volta da praça. Nossos esforços não tinham sido em vão, descobrimos. Logo abaixo do local onde as ondas de rádio haviam sido captadas, havia um pequeno buraco no leito rochoso. As pessoas foram solicitadas a se afastar dela enquanto os cientistas a investigavam. Primeiro, tentaram medir o quão profundo era. Isso levou algum tempo por ser difícil encontrar uma corda longa o suficiente. No final, foi estimado em cerca de 700 metros de profundidade. Em seguida, alguns equipamentos foram enviados amarrados ao final da corda, e para surpresa de todos, tudo o que foi enviado foi engolido pelo buraco. Claro, ninguém sabia para onde ia, mas todos nós pensamos a mesma coisa. Que, de alguma forma, havia voltado para casa. Era uma suposição razoável, dado que a única coisa saindo do buraco - as ondas de rádio - vinham da nossa Terra. Todos nos alegramos com essa descoberta. Mais experimentos foram feitos e, embora algumas perguntas permanecessem sem resposta, o consenso - mesmo entre os cientistas - era que o buraco realmente era um portal de volta ao nosso próprio mundo.

Haviam dois grandes problemas que precisavam ser resolvidos. O primeiro era a segurança. Toda vez que algo amarrado à corda desaparecia no fundo do buraco, a corda era cortada como o arranha-céu cinco anos antes. Isso significava que era possível que quem entrasse no buraco também fosse cortado. No entanto, este problema foi resolvido em breve. Ao amarrar uma câmera à corda, conectada a uma tela acima do solo, descobriu-se que a corda só era cortada quando puxada de volta. Contanto que não fosse puxado para trás, a tela ainda recebia sinais da câmera. A câmera nunca gravou nada além de escuridão no que se supunha ser o outro lado, mas desde que continuou a trabalhar até que a corda fosse puxada para trás, isso não parecia ser um problema tão grande. Afinal, alguns problemas técnicos eram esperados sob aquelas circunstâncias.

O segundo problema era que o buraco era pequeno demais para qualquer um passar. Muitas tentativas foram feitas para alargar o buraco, mas o leito de rocha parecia ser feito de um material mais forte do que qualquer uma de nossas máquinas poderia quebrar. Isso era extremamente frustrante. Isso nos fez sentir como se tivéssemos chegado à linha de chegada apenas para descobrir que não conseguimos atravessá-la. No final, uma das cientistas disse que queria mandar seu filho de dez anos para o buraco. Ele era pequeno o suficiente para caber por ele. Isso foi amplamente debatido por algum tempo antes de ser aprovado. A mãe argumentou que a cidade de Korona não era lugar para seu filho e que todas as evidências sugeriam que o buraco era o único caminho para casa.

O menino foi corajoso. Ele sabia que provavelmente nunca mais veria sua mãe de novo, mas ainda assim continuou. Recebeu um walkie-talkie e depois de um adeus cheio de lágrimas para sua mãe, foi mandado pelo buraco negro de 700 metros de profundidade. Foi instruído a ligar o rádio depois que chegasse ao outro lado, confirmando que estaria seguro. Depois que a corda foi puxada, a mãe esperou e esperou que seu filho se apresentasse. No entanto, ele nunca fez. Durante semanas, a mãe sentou-se na beira do buraco - sob calor impiedoso e sob chuva torrencial - chamando o filho várias vezes com seu walkie-talkie. Ninguém sabia o que, se alguma coisa, tinha dado errado. Como nenhuma outra onda de rádio foi captada além do Synthwave Mix, era possível que outras ondas de rádio simplesmente não pudessem entrar em nosso mundo por algum motivo. Ainda assim, a autoridade consideraram o buraco muito inseguro para qualquer outra pessoa passar.

Isso não mudou o pensamento das pessoas. O buraco representava a única esperança verdadeira que sentíamos em anos. E dadas todas as coisas horríveis em nosso mundo que poderiam nos destruir a qualquer momento com a mesma facilidade com que sopramos uma vela, o pequeno risco de passar pelo buraco parecia ser mais do que aceitável. O buraco era vigiado pela polícia, mas a maioria da polícia compartilhava a opinião coletiva das cidades de que o buraco era a única saída... não para nenhum dos adultos, mas para nossas crianças.

E agora estou aqui sentada, no quarto que paguei há cinco anos atrás, escrevendo isso. Durante as últimas semanas, muitos pais têm mandado seus filhos pelo buraco à noite. Este mundo realmente não é lugar para eles. Embora possam sobreviver, merecem mais. Por isso, como muitos outros, decidi enviar Isabella para casa. Quando conversei com ela sobre isso, olhou para mim com uma felicidade em seus olhos que eu não via desde que fomos transportados para este mundo terrível e esquecido por Deus.

Escrevi isso durante todo o dia de hoje. É meu testemunho do que aconteceu com Korona. Vou dar este caderno para Isabella. Tenho certeza de que ela poderá dar a seu pai. De alguma forma, eu sei em meu coração que ela encontrará seu caminho de volta para seus pais. Em breve estará escuro e levarei Isabella para a praça Freyja uma última vez.

Me desculpe pela demora,

Helena.


Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigado! Se gostou, comente, só assim saberemos se você está gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

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