02/10/14

Minha esposa

Minha vida parecia estar indo muito bem. Eu tinha acabado de me formar na faculdade, e conseguir um ótimo emprego como gerente. A coisa, é que de alguma forma eu sentia um vazio em minha vida... Eu queria um amor. Eu queria uma esposa para me fazer companhia, mas as únicas mulheres com quem eu mantinha contato no meu dia-a-dia eram colegas de trabalho – e eram feias pra caralho.

Após voltar para casa, depois de um longo dia de trabalho, peguei um refrí, sentei, e liguei meu computador. Eu estava desesperado para encontrar um amor o mais cedo possível, e parecia que minha única alternativa era acessar um site de encontros virtuais. Encontrei um site popular, me cadastrei, e configurei meus interesses na esperança de encontrar alguém compatível.

Acordei na manhã seguinte e liguei meu computador mais uma vez. Recebi apenas dois contatos compatíveis, e, algo realmente estranho, um dos contatos era uma das minhas colegas de trabalho horrorosas. A outra não tinha foto no perfil, mas o nome não me era familiar. Sabendo o quão desesperado eu estava, aproveitei a chance para mandar uma mensagem privada para essa ‘garota’, propondo um encontro no café local naquela noite. Ela respondeu quase uns três minutos depois, aceitando a proposta. Eu fiquei muito feliz, mas ao mesmo tempo ansioso para saber como tudo ocorreria.

Naquela noite eu estava tremendamente exausto pela grande carga de trabalho no escritório, mas a minha excitação superou o cansaço assim que voltei para casa, me troquei, e segui para o café. O local ficava à apenas cinco minutos da minha casa, então dirigir até lá não seria um grande problema.

Não tive problemas em estacionar o carro, e logo eu estava lá dentro, pronto para ver a minha ‘possível futura esposa’. Para a minha completa surpresa, a garota mais bela que eu já tinha visto se aproximou de mim – seus olhos eram o que mais chamavam atenção – os olhos cinzentos mais belos do mundo. “Oi,” ela falou, sorrindo. “Sou a Christy. Você deve ser o David, vi a sua foto na internet.”

“Eu, com toda certeza, não vi a sua,” eu disse, e rimos ao mesmo tempo. Eu já sentia que éramos completamente compatíveis.

Nosso primeiro encontro acabou sendo perfeito, e no fim já tínhamos descoberto várias coisas em comum. Enquanto a deixava em seu simples apartamento, selamos o encontro com nosso primeiro beijo. Me senti como o cara mais sortudo do mundo – como se nada mais pudesse dar errado em minha vida.

Continuamos nos encontrando por uns quarto meses antes que eu lhe fizesse a proposta, e ela dissesse sim com grande excitação. Nosso casamento foi bastante comum, com poucas pessoas. Os convidados incluíam a minha mãe, alguns dos meus colegas de trabalho, o pai da Christy e alguns dos seus melhores amigos. Ela estava tão linda, eu tão apaixonado…

Naquela mesma noite perdi a minha virgindade com ela, com sorte não a engravidei, ter filhos tão cedo estragaria nosso casamento. Eu estava financeiramente incapaz de bancar uma lua de mel, mas ela disse que estava tudo bem, e o que importava era estarmos juntos. Ela era legal assim. Eu ajudei a carregar as coisas dela para o meu simples lar, onde ficaríamos juntos. Nossa vida seria incrível, e éramos um casal perfeito.

Algumas semanas depois descobri que um dos meus colegas que tinha assistido ao meu casamento, Kevin, foi encontrado morto com cortes por todo o corpo. A polícia não sabia dizer se os cortes foram feitos pela própria vítima, ou por outra pessoa. Disseram que fariam um exame médico detalhado, e em alguns dias poderiam dizer o que tinha acontecido. Essa notícia realmente me desanimou, e fez com que a dor de cabeça que eu já estava sentido ficasse ainda pior. Eu estava tendo dores de cabeça muito fortes, o que eu presumia que fosse a grande carga de trabalho. Voltei para casa mais tarde naquela noite, e Christy já estava na cama. Eu não estava com muita fome, então fui direto para a cama. Contei imediatamente para a Christy sobre o meu amigo encontrado morto, mas ela se levantou de repente, olhou para mim, sorriu – o que era bastante estranho considerando a situação, e falou:

“Não se preocupe com isso. Ele ficará bem.”

Eu não tive muita certeza se deveria ficar surpreso ou relaxado com o tom dela, mas considerando a sua doce natureza, decidi ignorar e dormir.

Na manhã seguinte acordei doente, tossindo muito e sentido um grande enjoo. Fiquei em casa, o que foi a única coisa boa no dia, além do fato de Christy estar sendo bastante cuidadosa comigo. “Te amo, fica melhor.” Eram as relaxantes palavras que ela falava com frequência naquela manhã. Ao cair da noite, ela apagou as luzes e deitou-se silenciosamente ao meu lado na cama. Uns 30 minutos depois e eu ainda não conseguia dormir. Passei meu braço sobre Christy em uma tentativa de ficar bem perto dela, mas logo a minha mão congelou. Eu não conseguia me mover... A pele dela estava fria como gelo. “Christy? Você está bem?” Perguntei, mas ela não respondeu.

Eu a virei para meu lado, e vi o que deveria ser a minha linda esposa – que naquele momento estava terrivelmente desfigurada, de um jeito que eu nunca poderia imagina-la. Gritei o mais alto possível, a empurrei para longe de mim, e me tranquei no banheiro. Eu tinha visto a Christy sem olhos, apenas dois buracos sangrentos no lugar deles, com a pele do rosto coberta por veias, bastante pálida – não consegui ver outros detalhes, pois meus olhos não estavam tão ajustados à escuridão no momento. Sentei no chão e chorei, chorei até cair no sono. Surpreendentemente me senti renovado na manhã seguinte, mas logo senti o medo retornar ao lembrar do terrível acontecimento da noite passada. Minha visão estava embaçada e distorcida, talvez pelo longo tempo que passei chorando.

Tive que superar e tentar esquecer o medo que senti da coisa que tinha visto. Abri a porta lentamente, evitando qualquer barulho. Enquanto seguia lentamente para o quarto, percebi que ela já não estava lá. Ouvi algo na cozinha. O som de metal se chocando. Corri para checar a origem do som, e vi a minha linda esposa pegando as panelas que tinha derrubado.

Ela derrubou as panelas outra vez assim que me viu. “O que diabos aconteceu na noite passada?” ela perguntou, mas parecia mais preocupada que com raiva. “Senti vontade de vomitar, e tive que correr.” Menti. Felizmente ela acreditou. “Aw… espero que melhore logo.” Ela me beijou e voltou a preparar o café da manhã. Meu final de semana não tinha começado tão bem.

Repassei mentalmente o que tinha visto, o que tinha acontecido. Mas não conseguia explicar. Tentei esquecer, pensar que nunca aconteceria outra vez. Mas aconteceu. A coisa aparecia em todos os meus sonhos – seu corpo gelado, sem olhos. Em meus pesadelos a coisa se aproximava de mim, andando como uma marionete, e encostava o rosto no meu, fazendo o odor de carne podre se arrastar por minhas narinas.

“Não pode escapar,” a coisa sussurrava friamente.

“Ficaremos juntos para sempre.”

A coisa sorria, um sorriso que antes me encantava, e agora me dava arrepios.

Pensei que estivesse enlouquecendo. Eu via a coisa por toda parte. Escondida embaixo da mesa no meu escritório. Nos arbustos no parque. Eu queria tanto que aquela coisa fosse embora. Eu queria a Christy de volta. MINHA CHRISTY. A pessoa por quem eu estava apaixonado, não aquele ghoul maldito! Eu sabia que precisava acabar com aquilo.

No dia seguinte, quando voltei para minha casa e vi aquela coisa asquerosa me encarando na cozinha, não pensei duas vezes antes de agarra-la e enfia-la no forno, resistindo ás suas tentativas de escapar. O forno começou a tremer violentamente, a coisa emitia gritos dolorosos e horríveis de se ouvir. Corri para fora da cozinha. Os gritos de dor duraram por mais dez minutos, e logo a casa se encheu com uma grossa parede de fumaça negra.

Quando voltei para a cozinha, a coisa já tinha parado de gritar. A casa estava silenciosa, parecia morta. Uma estranha sensação pairava pela casa – como se nada mais no mundo estivesse vivo. Voltei para o forno, pensando em tirar o que sobrou da coisa, e o que tirei de lá me aterrorizou mais que a própria visão da criatura – o que estava no forno era a minha Christy, minha esposa, completamente queimada – mas estranhamente, seus olhos estavam completamente intactos. Caí de joelhos, sem reação – não conseguia acreditar naquilo. Fiquei ajoelhado por quinze ou trinta minutos, até que a polícia chegou. Os vizinhos tinham notado a estranha fumaça negra saindo da casa, chamaram a polícia e eles vieram. Eles me levaram é claro, por estar na cena do crime.

Fui posto em uma sala vazia e questionado, mas com sorte consegui driblar suas perguntas persistentes. Eles concluíram que eu era apenas um desafortunado marido que chegou em casa e encontrou os restos do que um dia fora a sua amada esposa... Eles me disseram que tudo ficaria bem e que eu teria que alugar um quarto em um hotel enquanto eles prosseguiam com as investigações. Eu sabia que nada ficaria bem. EU SABIA O QUE TINHA FEITO!

E sabe o que é pior? Eu ainda a vejo. Aquela coisa. Seja o que for. EU A MATEI! MATEI! MATEI! Eu nunca me perdoaria. Arruinei minha vida, a vida dela, A VIDA DE TODOS! Eu não queria superar, mas aqui estou, digitando isto. Quando finalmente decidi superar a minha insana depressão, tentei voltar ao trabalho. Quando me aproximei do prédio, percebi uma grande fita amarela lacrando as portas, com uma grande nota:

“Construção com operações canceladas até segunda ordem devido à exposição química perigosa, criando condições arriscadas de trabalho.” – Departamento de Saúde

Senti um calafrio percorrer meu corpo enquanto lia aquela mensagem. Não sabendo o que aquilo significava para mim, decidi que precisava de alguns exames. Entrei em meu carro e segui direto para o meu doutor. Entrei na clínica e percebi que era o único para ser atendido no momento. A enfermeira me acompanhou até a sala do doutor, e eu pedi para passar por um exame. Mais tarde, fui diagnosticado com uma desordem causada pela inalação de um tipo de produto químico. Tremendo, pedi que o doutor me informasse os efeitos colaterais, e ele leu para mim:

“Efeitos de inalação ou ingestão envolvem dores de cabeça, enjoo, cansaço, e está exclusivamente ligado à estranhas variações nos sentidos. Exposição prolongada pode resultar em danos cerebrais, instabilidade mental, e alucinações.”

22 comentários:

  1. Nem li ainda mais fui o primeiro a comentar :D

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  2. Nossa, pensei que a mulher era mesmo um monstro, em toda a creepy em que o cara conhece uma mulher descrita por ele como: "linda, gentil e perfeita" ela acaba se revelando uma besta devoradora de víceras , mas dessa vez era só um cara que ficou doidão e assou a esposa, normal.

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    1. Super normal né? Já vi isso acontecer várias vezes...

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    2. Super normal né? Já vi isso acontecer várias vezes...

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  3. Ouviram crianças não marquem encontros na internet, vocs podem ter alucinaçoes de que sua mulher é um monstro

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  4. Acho que vocês deviam postar a creepy da Annora Petrov, é a melhor que eu li este ano.

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  5. Azar é você achar a mulher perfeita e acabar matando-a porque cheirou uns bagui... ¬_¬

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    1. Depois de ver a história desse cara, nunca mais reclamo da minha sorte!

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    2. Depois de ver a história desse cara, nunca mais reclamo da minha sorte!

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  6. Eu li essa creepy no original em inglês (sixpenceee, melhor tumblr, melhor tudo) mas até hoje to de queixo no chão. Me lembrou um pouco daquela "piloto automático", que também tem uma virada horrível no final. Essas são sempre as melhores.
    Aliás, aqui vai uma recomendação pra quem lê em inglês:
    http://sixpenceee.com/post/84346638234/i-received-so-many-messages-to-make-this-and-so-i

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    1. Eu li tb, já sabia o que ia acontecer desde a parte que ele entra no carro e diz que ta com cheiro ruim por causa do calor... coita
      Tb bgosto de creepys assim

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  7. Caraaalho, SHOW de creepy.
    Quebra a monotonia de moça linda= kapiroto e ainda te da um final megapitaqueparivel.
    Curta mas muito show. Melhor creepy há muito tempo no Blog. 10/10...

    Acooooorda menina hehehehe

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  8. Rapá o cara teve um azar enorme perdeu um mulherenhão por causa do gás O.o

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