19/11/14

Humannequin

Não era desse jeito que eu pretendia passar a minha noite de sexta-feira, pensei comigo mesmo enquanto revirava uma grande pilha de papéis em minha escrivaninha. Eram umas 18:45, e eu já estava em casa há meia hora. A hora do jantar chegou e passou, mesmo assim, ainda não pude desviar a minha atenção da grande carga de trabalho que estava diante de mim. As 20:30, larguei tudo e decidi encontrar a minha esposa e a minha filha na sala de estar; se eu continuasse mais um pouco naquela escrivaninha, acabaria arrancando meu próprio cabelo.

Segui para a sala de estar para encontrar a minha filha, Mary, remexendo em nossas fotos da família. Minha esposa a estava ajudando, com as duas rindo e revivendo as várias viagens e experiências que tivemos, decidi me juntar a elas, carregando uma xícara de café e observando o que estavam fazendo.

“Certo, agora esta vai aqui –“

“Não! Fomos para a Venezuela DEPOIS do belíssimo casamento. Não foi querido?”

Desviei minha atenção das fotos para olhar a minha esposa nos olhos. Ela já estava desenvolvendo os primeiros traços de algumas rugas, mas suas características juvenis continuavam tão fortes quanto quando nos conhecemos. Um leve sorriso combinado com olhos verdes brilhantes e bochechas e queixo bem definidos.

“Isso mesmo!” afirmei. “Ficamos lá por duas semanas até que fiquei doente quando peguei a terrível La Venganza de Montezuma.” Rimos muito com isso e continuamos com a construção do projeto. Mary estava reunindo algumas fotos para um projeto da escola, um tipo de atividade para “encontrar suas raízes.” Um pouco desnecessário, talvez, mas não fazia mal. Já tinha terminado meu café e estava prestes a voltar ao trabalho quando uma transmissão de emergência irrompeu em todos os televisores da casa. A mensagem tradicional de emergência tremulava como se algo quisesse interrompe-la; como se houvesse outra mensagem querendo tomar espaço para desviar a nossa atenção do perigo real. A mensagem surgiu na tela, em grossas letras negras:

NÃO SAIAM, AERONAVE NÃO IDENTIFICADA EXECUTANDO CIVIS EXPOSTOS 

NÃO SAIAM, AERONAVE NÃO IDENTIFICADA EXECUTANDO CIVIS EXPOSTOS 

“Oh meu Deus,” Mary suspirou. “Vamos ficar seguros, papai?”

Eu não poderia ser honesto com ela. Se ela soubesse das possibilidades, ela sairia correndo em pânico. Então, decidi lidar com a situação pensando racionalmente.

“É claro, Mary. Vá para o meu quarto e prepare os cobertores. Quero todos em um só lugar hoje à noite, assim, um de nós pode alertar o outro caso aconteça algo. Querida, você vai pegar as lanternas e o revólver. Vou trancar as portas e me certificar que ninguém esteja lá fora.”

Enquanto nos dividíamos para nos preparar, percebi algo enquanto checava a porta da frente. Na rua, pequenas luzes vermelhas foram colocadas ao longo do solo, além dos grandes e vermelhos “X’s” que foram desenhados em cada cruzamento. Foi então que suspeitei que a tal aeronave não era tão desconhecida quanto o governo queria que acreditássemos. Eu não conhecia muito bem o protocolo deles, mas sabia reconhecer uma quarentena. Largando minhas suspeitas de lado, segui para meu quarto. As lanternas e o revólver já estavam na mesa de cabeceira. Carreguei o revólver, me enrolei no cobertor ao lado da minha esposa e tentei dormir.

O som de buzinas me acordou. Agarrei o revólver, atento para o que quer que tenha soado a buzina tão alto. Olhei para o lado, onde minha esposa e minha filha continuavam dormindo embaixo dos cobertores. Suspirando de alívio, sai da cama para verificar a condição das coisas. A TV continuava a transmitir a mesma mensagem.

Notei que algo piscava rapidamente enquanto a mensagem continuava bastante clara na tela. Para minha surpresa, a tela congelou por poucos segundo, porém, o bastante para que eu pudesse ver o que piscava junto com a mensagem.

Skull-0Parecia ser uma imagem de baixa qualidade, que mostrava uma caveira com um símbolo radioativo na testa. Logo abaixo da caveira, havia a palavra “OBEY”. Um súbito sentido de alerta passou por minha mente, mas naquele momento pensei que era apenas coincidência, algo passageiro. Ainda assuntado com o que tinha acabado de ver, saí para verificar o que mais havia sido afetado.

Assim que as buzinas pararam, o ar foi preenchido com a Moonlight Serenade de Glenn Miller, que tocava por algum alto falante que eu não conseguia ver. Carros estavam nas ruas, mas não estavam estacionados; de fato, a maioria dos carros continuavam rodando, e alguns deles estavam batidos. Me aproximando de um dos carros, fiz uma estranha e terrível descoberta.

Não havia um humano dirigindo o carro. Era um... um manequim. Inicialmente pensei que alguém tivesse posto o manequim dentro do carro como um tipo de piada. Porém, depois de verificar melhor, percebi que ele usava roupas e um relógio. Cheio de curiosidade, verifiquei seus bolsos – estavam cheios. Um manequim do que parecia ser um trabalhador de classe média com os bolsos cheios de dinheiro e um relógio que parecia bem caro. Seu rosto mostrava uma expressão de riso, e suas mãos estavam em frente ao rosto, como se estivesse se protegendo de algo. Percebendo a gravidade de situação, corri para minha casa, desesperado para verificar a minha mulher e a minha filha.

À primeira vista, tudo no quarto parecia normal. May e a mãe não tinham se mexido desde a última vez que as vi antes de sair, e isso me deixou bastante preocupado depois de ter visto como estavam as coisas lá fora. Puxei o cobertor da minha filha e vi o seu rosto brilhante, de expressão sonolenta, porém, artificial e estática. Seu manequim também possuía a mesma altura, assim como a mesma curva no nariz e o formato dos dedos. Tentando levanta-lo, descobri que aquela copia doentia não pesava quase nada. Quem quer que tenha feito aquela coisa, não tinha colocado apenas a mesma pele da minha filha, como também seus cabelos amarelados em detalhes desde a raiz. Sentimentos de raiva e desespero tomaram conta de mim assim que percebi que a minha mulher tinha encontrado o mesmo trágico e misterioso destino.

O que quer que estivesse acontecendo, cheirava a uma conspiração muito bem planejada. Isso foi comprovado assim que segui para a cozinha à procura de mantimentos e percebi que todos os tipos de alimentos foram substituídos por cópias idênticas feitas de plástico.

Lembrando das fotos da família espalhadas pela mesa da sala desde a noite anterior, peguei algumas para procurar por alguma mudança. Em cada uma das fotos, eu, a minha esposa e minha filha, éramos manequins. Fiquei horrorizado. Os rostos e expressões eram exatamente os mesmos, porém, eu mal reconhecia meu próprio rosto com um sorriso tão vazio.

Tão... desumano.

Ninguém em sã consciência poderia aguentar esse tipo de realidade...

Pegando meu revolver e as chaves do carro, saí para verificar se ainda havia sobrado algum vestígio de vida naquele lugar.

Destroços e mais destroços obstruíam o meu caminho e retardavam a minha viagem dentro daquele silencioso e perturbador subúrbio. Manequins estavam atrás do volante de cada carro que eu encontrava. Homens, mulheres, e crianças petrificados com expressões de vários tipos, que foram pegas em vários momentos; um pai furioso gritando com o filho no assento de trás, um guarda sonolento ajudando várias crianças agitadas a atravessarem a rua, e duas irritadas mulheres paradas no meio de uma discursão silenciosa em um cruzamento. Assim como eu tinha visto antes, todos os cruzamentos possuíam um grande X vermelho pintado no asfalto. Continuei dirigindo até alcançar uma barricada onde deveria estar a saída do bairro. Sai do carro e não encontrei nada além de uma densa névoa que cobria todo o terreno atrás da barricada. Estendendo minha mão para senti-la, descobri que ela queimava ao encostar-se à pele.

Então é isso, confirmei comigo mesmo. Estou preso aqui.

Naquele momento, um carro já não parecia tão necessário, então passei a andar sem um rumo. Em um beco um pouco próximo à barricada e ao desconhecido além, havia um garoto com uma tinta spray vandalizando o lado de uma casa. Havia um sorriso em seu rosto, mas estava de um modo forçado. Seus dedos continuavam pressionando o spray, mesmo com a lata quase vazia, mostrando que ele já estava naquela posição a bastante tempo.

Um pouco de tinta negra escorria por entre os dedos do manequim, caindo no asfalto. A mensagem que ele pichava na parede dizia:

NÃO TENHO BOCA MAS DEVO SORRIR 

A música parou de repente e uma voz soou. Era nítida e anormalmente clara.

“Obrigado por observarem o trabalho perfeitamente detalhado e preparado pela Futureline Industries. Esse ambiente sofrerá uma explosão nuclear em vinte minutos.”

O mesmo som que estava tocando antes, passou para um volume mais baixo enquanto uma contagem iniciava. Entrei em uma casa próxima e peguei um pequeno caderno onde pude escrever tudo o que vocês leram ate aqui. Eu ficaria surpreso se alguém pudesse encontra-lo nos escombros, mas eu realmente espero que alguém encontre.

Que Deus cuide da minha alma e derrame a justiça sobre aqueles que me condenaram.


- 5 de Janeiro de 1960 


-- 


Usando um par de luvas de couro preto, o elegante e pomposo milionário entrou na galeria com sua comitiva. Seu recente projeto lhe custou um total de 70 milhões de dólares, mas ele sabia que o projeto geraria um grande lucro se conseguisse vende-lo. Isso já era garantido – as artes de Sinclair Gustav sempre eram vendidas com os mais altos preços em qualquer exposição. Sua consciência estava perfeitamente limpa para alguém que fez um bairro inteiro desaparecer; todos que o cumprimentavam, desconheciam que em seu coração, ele era um assassino de sangue frio, que pensava apenas em vender seu trabalho pelo maior lance.

Depois de vários elogios e champagne, seu quadro mais admirado e realista foi vendido por um total de 100 milhões de dólares. O artigo mais caro daquela noite mostrava um manequim em chamas ao lado de um homem com expressões de sofrimento enquanto escrevia algo e também estava em chamas. Ele sorriu presunçoso, quando o título foi anunciado, selando seu lugar na fama e na infâmia:

Humannequin

...

Naquele bairro – nas ruínas vaporizadas e em cinzas – A Moonlight Serenade continuava a tocar pelos alto-falantes... que mal conseguiram permanecer intactos...


Humannequin
Uma das fotos tiradas após a explosão.


Escrita por: Dubiousdugong

29 comentários:

  1. Interessante. Teve um escrita bem básica, quase arcaica, cliché. Entretanto, esse plost twist me soou muito positivamente. Eu gostei da creepypasta, mesmo que sua ideia pudesse ser melhor executada.

    Parabéns à Dubiousdugong

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    1. Clichê foi sim, mas não vi, nada, que tornasse a escrita arcaica. Aliás, não é diferente das postagens que você compartilha no google+...
      Não considere isso como uma provocação. Só estou dizendo pra você pegar leve, blz? :P

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    2. Não vi algo que deixasse arcaico, o que houve foram alguns erros gramaticais e algumas ideias redundantes. Acho que o que ele quis dizer com "arcaico" foi que a narrativa poderia ser mais impactante, pra diferenciar dos textinhos comuns que a gente encontra, ou pelo menos foi o que achei. Anyway, ótima creepy :3

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  2. Muito bom mas o que wcinteceu com o pivo viro bunecu?

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  3. Bom essa creppy e meio cliche porem bem aproveitada. Galera nesse mesmo comentario queria dizer que sou novato no.site e estou gostando muito muito entao parabens aos criadores e aqueles que ajudam o blog com creppypastas legais divertida porem tensas e macabras :)

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  4. Bom essa creppy e meio cliche porem bem aproveitada. Galera nesse mesmo comentario queria dizer que sou novato no.site e estou gostando muito muito entao parabens aos criadores e aqueles que ajudam o blog com creppypastas legais divertida porem tensas e macabras :)

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  5. esse estilo de descrição foi bem estadunidense

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  6. Só eu que achei q quando deu o aviso ia ser sobre aliens? Kkk

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  7. Nuss, jurava q era aliens. Tipo deu o aviso e o "X" como área de quarentena, logo pensei. São aliena \o/

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    1. Acho que o X era pra onde eles iam lancar as bombas no final

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    2. Vdd, mas acho tbm q era para demarcar as áreas da pintura. No final a filha não conseguiu fazer o trabalho de escola.

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  8. Nuss, jurava q era aliens. Tipo deu o aviso e o "X" como área de quarentena, logo pensei. São aliens \o/

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  9. Interessante essa creepy mesmo sendo como outros falaram "clichê"
    Ainda sim e boa e nós mostra que a humanidade e cruel e so tende a piorar.
    Ps:voltei a comentar u.u

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  10. Respostas
    1. Vai ficar assim até que se resolvam com o trampo e facul.
      As vezes é dificil cuidar de um blog quando se tem uma vida pra cuidar.

      Pessoas sem paciencia '-'

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  11. Isso me lembrou Indiana Jones mas okay .-.

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  12. Este comentário foi removido pelo autor.

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  13. Lembrou mesmo, faltou ele se proteger dentro de uma geladeira.

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  14. "TODOS OS TELEVISORES DA CASA" ostentação!! 👑

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  15. Bem interessante, uma história sem deixar nenhuma ponta solta e um vilão bem definido = D

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  16. Sou o novo usuário do site! Conheço o site a um tempão, mas finalmente me juntei a comunidade dele! Gostei da Creepy, manequins dão medo...

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  17. Todo mundo virou manequim, o cara tava preso, era o único ainda"vivo"... EU JURO, ACHEI QUE ELE IRIA COLOCAR UM FONE DE OUVIDO, IRIA ESCUTAR UM "Queres sobreviver, não é?" E IA COMEÇAR A TOCAR HEADPHONE ACTOR/leva tapa

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  18. Gostei bastante
    Mas jurava que ia ser sobre Aliens 😂

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  19. Gostei bastante
    Mas jurava que ia ser sobre Aliens 😂

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