10/07/2018

Quem é o monstro?

Eu posso afirmar, com base em meus 15 anos morando aqui, que a rua das corças é o lugar mais tranquilo e seguro que você poderia morar. Em todos esses anos de experiências boas e ruins, o pior delito cometido nessa região foi uma série de furtos de bicicleta cometida por alguns adolescentes da rua vizinha.

Tomo como espanto, portanto, os recentes eventos ocorridos na rua. Cerca de 5 dias atrás, tudo começou. Uma das moradoras mais velhas sumiu sem deixar sinais ou indicações do que poderia ter acontecido. Sem sinais de arrombamento, sem cartas de despedida, sem testemunhas, sem sinais de luta... Nada. A reação entre os moradores foi a pior possível, considerando-se a magnitude do ocorrido em uma rua tão pacata.

No dia seguinte, porém, o evento se repetiu. A vizinha da desaparecida, dessa vez, foi quem sumiu. E assim seguiu-se por 5 dias. 5 pessoas desaparecidas... Uma em cada dia. Todas nas mesmas condições. Pela rua, choviam teorias. –Devem ser alienígenas. – Diziam os mais jovens. –Com certeza é o arrebatamento. – Diziam os mais velhos. Eu, entretanto, ouvi outras teorias mais assustadoras. -Seria uma antiga força demoníaca? Um vampiro? Um ser humano? Um monstro gigantesco? – Todas, porém, parecem fantasiosas demais para serem tidas como verdade. Uma delas, entretanto, começa a tomar grande força na região e na minha mente.

Durante uma grande reunião de moradores na casa de meu vizinho Fernando, discutimos bastante sobre os ocorridos. Todas as teorias que lhe falei foram colocadas em cima da mesa e conversamos horas sobre elas. Até que uma senhora bem idosa chamada de Julia pediu a fala e começou a nos contar uma lenda muito antiga. A lenda conta que o espírito maligno de um antigo assassino africano foi preso em algum lugar daquela rua. Chegaria o dia em que alguém liberaria o espírito e a morte se espalharia por toda a região. Naquele momento meu ceticismo permaneceu forte. Não acreditaria numa história dessas. Precisaria haver alguma explicação plausível. Fui para casa pensativo e demorei a pegar no sono. Pensando se haveria realmente um espírito de um assassino solto na rua das corças.

Acordei no dia seguinte com um cansaço descomunal e me dirigi para a cozinha a fim de tomar café. Enquanto assava minhas torradas, liguei o rádio como de costume. Para minha surpresa, pois aquele era o horário do jornal esportivo, o rádio anunciava a vinheta do jornal policial, seguida pela seguinte notícia:

-A delegacia da cidade recebeu hoje pela manhã uma encomenda pelo correio. Dentro do pacote, havia um coração humano...

Aquilo não parecia real. Uma região pacata se transformava numa cena de filme de terror.

-Legistas vindos da cidade vizinha confirmaram que o órgão foi retirado do corpo 5 dias atrás, o que reforça a teoria de que o órgão pertence à Alessandra Santos, a senhora desaparecida. Não há provas, entretanto, que liguem os fatos. A polícia segue investigando e aconselha a todos os moradores que permaneçam em suas casas.

No decorrer do dia, os moradores resolveram fazer uma espécie de assembleia extraordinária na casa de algum dos moradores a fim de discutir a situação crítica na qual estávamos vivendo. Ofereci minha casa e nos reunimos pela tarde. Novamente as teorias foram postas em pauta, mas nenhuma delas foi comprovada, assim como não haviam provas que suportassem nenhuma delas. Entretanto, meu vizinho Fernando, por trabalhar na polícia, nos deu um direcionamento maior. O possível assassino estaria seguindo um padrão de zigue-zague na escolha da casa das vítimas. Sendo assim, poderíamos prever quem seria a próxima vítima e assim evitar que ela ficasse sozinha. Fernando concluiu dizendo que a polícia já está pensando nisso e que deveríamos deixar tudo isso com eles. De toda forma, aquela luz de esperança acesa parecia apenas uma gota de água em um oceano de trevas e escuridão. Confesso que tudo o que estava acontecendo me deixou, sim, irritado e preocupado. Entretanto, de certa forma me deixou aliviado. Ainda havia uma possível vítima antes de chegar até minha casa. Talvez nem chegasse. Eu poderia fugir. O assassino poderia ser preso. O mistério em fim poderia ser resolvido. Mas todos esses pensamentos eram puramente animais. A Marília deveria estar com tanto medo quanto eu. Provavelmente mais. Ela não poderia fugir, pois seu marido trabalhava na delegacia da cidade. Apenas esperaria que a segurança fosse suficientemente forte para impedir mais um desaparecimento e quem sabe assassinato. Fui dormir preocupado, pois de alguma forma eu sabia que a vinheta policial tocaria novamente no outro dia.

Acordei então calmamente e antes de tudo me dirigi a cozinha. Liguei o rádio e então ouvi:

-Mais um desaparecimento foi confirmado nesta manhã de Sábado. Marília Ferreira de 40 anos passou a noite em casa, como sugerido por seu marido Marcelo. Entretanto, desapareceu misteriosamente entre a madrugada e o começo da manhã.

-MERDA, MERDA! – Soquei fortemente a mesa, sem quebra-la. O medo começava a tomar conta de mim. Apenas mais um dia e seria eu. Eu seria o próximo amaldiçoado a descobrir a verdade disso tudo. Então, fiz a única coisa que poderia para esta noite. Dirigi até o mercado mais próximo e fui fazer compras. Com toda a certeza do mundo, a atendente de supermercado achou que eu fosse o assassino. Saí do estabelecimento com um martelo, um enorme facão, algumas ratoeiras para identificar a chegada do assassino, sinos para colocar em toda a casa, cordas para amarrar panelas e, por via das dúvidas, um incenso para afastar qualquer possível entidade que pudesse se aproximar de minha casa.

Então, rapidamente a noite veio. Preparei todas as armadilhas a tempo, acendi o incenso, segurei o martelo e o facão e esperei em uma nova cadeira preta de veludo. Aos poucos me senti mais devagar... Mais leve... Todos os meus pensamentos flutuavam de uma maneira singular. Como se fossem orquestrados pelo melhor dos maestros. O motivo pelo qual eu estava fazendo tudo aquilo não importava mais. Cercado pelas cores azul, branco e púrpura eu me sentia em paz. Então uma enorme escuridão se aproximou de mim. No meio das cores. No meio dos pensamentos. O contorno de um homem alto se aproximou de mim e me falou: -Sua hora chegou. Receba e perceba a imensidão do universo. – E foi aí que senti uma enorme e aguda dor no meu peito. Tentei empurrar o homem alto, mas ele não estava mais lá. Ele nunca esteve. Percebo que sou eu que seguro a faca. Eu que a cravei em meu peito. Imagens sobre cada um dos vizinhos desaparecidos aparecem em minha mente. Mas não me lembro de ter cometido tais atos. Eu tenho certeza que não fui eu. Então eu desmaio.

Acordo com um movimento brusco e sentindo muita dor em meu peito. Percebo que há um enorme curativo nele. Então um homem fala comigo:

-Então quer dizer que foi você esse tempo todo? Depois de 15 anos?

Estou num carro de polícia. Sendo levado para a delegacia.

-Havia um homem alto que se movia como uma sombra, quando vocês chegaram? Uma espécie de demônio africano. Ele fez tudo isso...

-Você fez tudo isso! Não me venha com essa lenda agora. Vou levar você à delegacia e você será julgado pelos 8 assassinatos que cometeu, seu monstro. Eram apenas idosos. Você percebe tudo o que fez?

-Eu já disse que não fiz nada disso...

-CALA A SUA BOCA!

Então ele largou o volante e se virou em minha direção. E foi aí que eu o vi novamente. Dessa vez com mais nitidez. Um senhor alto e magro com um sorriso assustador cheio de dentes pontiagudos. Sua orelha era extremamente pontuda e metade de seu rosto era... Derretida. Ele segurava a mão de uma jovem garotinha negra que segurava um urso de pelúcia. Então tudo começou a girar. O carro perdeu o controle e a última coisa que vi em minha vida antes de cair naquele barranco foi o demônio a garotinha indo embora na direção da cidade vizinha.
Autor: Silence the Shadow


7 comentários:

  1. Pô, até que curti essa, apesar de deixar algumas lacunas, curti mesmo

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  2. pera esse final, o que aconteceu? sou burro sorry

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  3. Achei muito boa... Mas n entendi nada .-.

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  4. Desenvolvimento maneiro, gosto bastante de personagens que reagem ao perigo, mas a conclusão foi meio zoadinha.

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  5. Gostei , mais nem tanto, esperava mais desse texto , pq o título estar excelente!

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