28/06/2015

NES Godzilla - Extus

No breve instante antes da transição entre Entropia e Extus, Eu estava esperando que eu tivesse Godzilla e Anguirus de volta. Enquanto o mapa aparecia, eu ví que meu desejo estava meio realzado: Eu obtive Godzilla de volta, mas sem o Anguirus. Eu preferia os dois, mas devido as habilidades precisas do Anguirus eu escolheria o Godzilla se eu tivesse que escolher entre os dois.

Extus tinha dois templos coloridos, branco e rosa. Uma pirâmide que parecia como construções modernas, e dois outros ícones que eu não pude identificar o que eram naquela hora. Os novos bosses eram Kumonga, Gorosaurus e o Não-Ghidorah (quem eu estava angustiado para ver lutar).

Com Godzilla de volta, eu estava excitado e ansioso para explorar, mas ainda fui cauteloso. Fui para o primeiro nível, como antes. Dessa vez, as perguntas das caras eram mais aleatórias que nunca:


Quiz 4


1.   Elefantes respiram? 

Resposta: Sim, Reação:Cara Estranha Nº2


2. Você já foi molestado por um membro da família
Resposta: Não, Reação:Cara Estranha Nº 6

3.Você já estuprou alguém? 
Resposta: Não, Reação: Cara Estranha Nº 8

Resposta: Não, Reação:Cara Estranha Nº 10

5. O computador é um pilar da tecnologia moderna?
Resposta: Sim, Reação:Cara Estranha Nº 4

6. Você é um cara confiável?
Resposta: Sim, Reação:Cara Estranha Nº 12

7. Você pode voar?
Resposta: Não, Reação:Cara Estranha Nº 9

8. Você pode ficar na sua?
Resposta: Sim, Reação:Cara Estranha Nº 7

9. Você odeia furões?
Resposta: Não, Reação: Confuso

10. Você se sente culpado?
Resposta: Não, Reação:Cara Estranha Nº 11

11. Você gostaria de um novo monstro?
Resposta: Sim, Reação: Surpreso

12. Você sentirá minha falta?
Resposta: Sim, Reação: Triste

Eu estava feliz pois eu estava ganhando um novo monstro, mas á última questão havia me incomodado. “Você vai sentir minha falta? ”


“A cara estava se referindo a quando eu terminasse o jogo? “Eu pensei. Desde a revelação realmente obscura do jogo, eu não estava certo do que pensar das Caras, ou sei lá o quê estava do jogo. Mas algo sobre aquela última frase me deu um genuíno sentimento de tristeza sobre as Caras.

Enquanto eu estava pensando sobre isso, o jogo voltou para o mapa. Eu tinha um novo monstro, mas eu não tinha ideia do que aquilo podia ser.


O design tinha uma leve semelhança com Rodan, mas a cabeça estava muito diferente. Eu movi esse novo visitante misterioso para um ícone do templo branco e comecei o nível. Quando eu comecei o nível, essa tela apareceu com o texto “ENCONTRE A GEMA”.

Presumi que eram instruções para vencer o nível.



Após eu dar a primeira olhada no meu novo monstro jogável: Uma criatura azul escura, peluda com asas de morcego e uma cara de caveira chamado “Solomon”.



E eu também percebi que meu caminho havia sido bloqueado por um feixe de luz, e um pequeno pilar com uma placa de pressão em cima. Eu imaginei que o laser estava sendo bloqueado pela placa de pressão vazia, e eu teria que encontrar a gema e colocar na placa de pressão para desativar o laser.



Como eu iria fazer aquilo, eu não fazia idéia. Não havia nada no jogo original que dizia que você tinha que encontrar uma gema para passar de nível. Eu teria de saber quando eu encontrasse a gema. A única direção que eu podia ir era para a esquerda, então eu procedi.

Solomon era um monstro interessante, para dizer o mínimo. Era capaz de voar e soltar um raio de calor, ambos que provaram ser muito úteis. Ele também podia chutar e rasgar com suas asas, mas não podia bicar.

A música do templo branco era um coro vocalizado, ou uma aproximação máxima de um vídeo game. Era difícil de descrever mas tinha um soar muito “sagrado”.



Não demorou muito até que eu começasse a passar por ondas de novos inimigos. Eles paravam um pouquinho para mim, eu corri por eles enquanto rasgava-os e não tomava dan
Como havia uma “pausa” entre cada onda de inimigos, após você matar dez deles, não viria nenhum por mais ou menos um minuto e então a nova onda apareceria. Após cinco minutos, eu percebi que haviam buracos no chão e no teto:



Criaturas com bocas de guilhotinas estavam voando para cima e para baixo entre os buracos, e eu tive algum tempo para pular cuidadosamente, pois eu não sabia se eu seria atingido por elas. Felizmente eu passei por elas sem ganhar um arranhão. Eu sou muito sortudo, eu acho.

Após isso eu me encontrei no fim do corredor, encarando algum tipo de monstro mini-boss.

Aquilo se movia rapidamente e tinha algum tipo de projétil que atirava em quatro direções, mas eu matei aquela coisa rapidamente usando o raio de calor do Solomon. Quando a batalha acabou, eu consegui minha gema, que estava dentro da cabeça da criatura:



Eu encontrei aquilo e pude pegar e segurar a gema quando andava por cima dela e segurava B. Eu fiz o longo percurso de volta ao início, depositei a gema na placa de pressão que desativou o laser.



Eu deixei o estágio, e foi mostrado o que era provavelmente o flash mais estranho relacionado ao monstro “Solomon”.


[Ainda o Melhor – 1973]

Toda vez que você completava um estágio ou derrotava um boss com Solomon, essa tela aparecia. Eu não faço ideia do que “Ainda o melhor desde 1973” significava. Nem mesmo a data ou a frase tinham algum significado para mim (que eu pudesse imaginar), e eu gastei muito tempo pensando nisso.

O próximo nível que eu joguei foi o que eu chamei de “Pirâmides de Bronze”. Eu usei o Godzilla e percebi que ele ganhou um level up para vinte de vida e de poder, desde que eu havia jogado com ele em Dementia.



As pirâmides de bronze eram bem normais enquanto esses níveis se prosseguiam, mas os visuais eram bem interessantes, estranhamente coloridas e lívidas. A música tinha um toque de estilo egípcio. Era um som lento e misterioso.

Eu passei pelo nível lutando com vários inimigos, não foi muito difícil (apesar das formigas poderem ser um porre se você passasse por muitas vezes ali).



Meu inimigo favorito era esse réptil gigante que eu encontrei na metade do caminho;
No final do nível eu cheguei a uma pirâmide gigante e entrei em outra luta com min-bosses. Mas essa… Essa era um pouco diferente. Eu teria que lutar com dois dos monstros ao mesmo tempo.









Sozinho, eu pude lidar com eles facilmente, mas lutar com ambos foi meio desafiante. Eu gastei tempo enganando um deles para fritar seu irmão quando o outro usasse seu bafo de fogo.

Após derrotar as bestas gêmeas, percebi algo estranho após voltar para o mapa: Eu estava hábil para mover minha peça do monstro para qualquer lugar do mapa, sem limites. Normalmente, Godzilla só podia se mover três vezes à cada passo, e Mothra podia mover por cinco.

Queria experimentar o Solomon por mais um pouquinho, então movi sua peça para um dos pilares marrons com pontos coloridos e comecei o nível.



Quando eu entrei no nível, percebi o que o nível representava: Pilhas de totens. Fui recepcionado por duas delas à direita, bem no começo. A música tinha um som Nativo Americano. Parecia usar os mesmos instrumentos da floresta de Entropia, que foi perceptivelmente diferente logo após essa parte.




Eu andei por três minutos pelas pilhas de totens, com nada entre eles. Não tinha percebido ainda, mas eu não estava esperando outro nível com nada “vivo” nele, após toda a atividade em Entropia. Andar por todas aquelas faces multicoloridas, aquele nível me fez sentir como se eu estivesse sendo observado.

Mais ou menos dez minutos após eu começar Extus, eu já estava na metade do caminho. 

Após voltar do level dos totens, eu tentei uma das telas da TV para ver o quão estranha elas eram dessa vez.



…Ainda mais estranho que antes, aparentemente. A música era o tema de Urano.

Eu voltei com o Godzilla para jogar outro nível, e esse nível foi meio que uma surpresa.

Era um level de Cidade, normal! As cores eram gloriosas, mas ainda era meio que chocante. Esse era o tipo de nível que eu esperava ver num jugo do Godzilla, e Eu estava meio puto por não ter jogado ela antes. A música era o tema da Terra.



Encontrei estranho que um nível centrado no Godzilla fosse ser apresentado tarde assim.

Mas não havia motivo para chorar sobre o leite derramado, eu acho.

Eu movi o Solomon para um nível cinzento, que se mostrou um grande laboratório high-tech:



Muitos drones mecânicos nesse nível, mas Solomon passou por eles como os inimigos dos templos brancos. A música era uma batida industrial irritante. Tinha também um inimigo ciborgue, estranho e voador, que era irritante pois voava quando você pulava para o atacar.

Também interessante, eram aqueles tanques largos com algum tipo de monstro dentro. Como você adivinhou, ás vezes os monstros acordavam e estraçalhavam o vidro.

Tentei passar pelos tanques de êxtase o mais rápido possível, pois os monstros de dentro provaram ser bastardinhos retardados quando soltos.



No final do nível tinha um elevador, que eu usei para ir para baixo do fundo do nível por onde a saída estava. No caminho, fui atingido por drones de segurança. Eu não podia deixar o elevador, então minha única defesa era o raio de calor.




O tipo do último nível era essa coisa óbvia que chamei de “Templo dos corações” por razões óbvias:

Nada além de um grande corredor, cheio de inimigos flutuantes com o formato de corações humanos. Eles eram incapazes de te causar dano, então tudo o que eu fazia era correr pelo nível esmagando todos os que eu podia para pegar todos os poderes. Uma corrida por esses níveis iria fazer o medidor de vida se preencher novamente, e eu iria apreciar muito esses níveis depois.

A música do templo dos corações me lembrou de um circo, tinha um toque meio carinhoso e me fazia sentir algo muito estranho.

Vendo todos os tipos de níveis, escolhi lutar com Gorosaurus usando Solomon.



A música dessa luta era o tema de Gezora. Foi durante essa luta que percebi que Solomon era exagerado: uma única batida de asas podia tirar quatro ou mais barrinhas de vida do inimigo.

Devido à isso, a luta foi acabada rapidamente. Gorossauro não tinha ataques, ou nada que podia ganhar das garras mortíferas do Solomon. Mas continuei a luta para ver se o Gorosaurus iria usar seu icônico “Kangaroo Kick”, e eu fiquei muito feliz quando ele usou:

Mesmo que eu sooubesse que Solomon era meu ás das lutas, usei Godzilla, só para variar.

Considerei usar Mothra, mas com certeza o Godzilla ganhou.


Kumonga era também um oponente simples, sem raios de calor ou nada. Ele te atacava pulando em você, esfaqueando com suas mandíbulas, e usando sua rede de teias para te paralizar. Uma vez enrolado, ele iria te atacar, só para tomar algum tempo, como Gezora te enquadrando nos cantos até o tempo acabar. Sua música era o tema de Hedorah.



Com Gorossauro e Kumonga derrotaddos, eu estava no final de Extus. Antes de lutar com o Não-Ghidorah, havia mais algo para fazer.

Não experava muito disso, mas para o monte de documentações, dei uma olhada na outra tela de TV. Era essa:



Não acho que tinha muita razão atrás das telas de TV. Para dizer a verdade, eu diria que tinha alguma manifestação nas habilidades do cartucho. Ou talvez isso fazia sentido total com o “jogo”. Quem sabe. Apesar de tudo, o tema do Sr. Torneira era a música de saturno.

Já era hora para o oponente que eu esperava: Not-Ghidorah. Apesar de tudo eu me enchi de coragem com as vantagens do Solomon. Eu estava nervoso. Quando eu comecei a luta, eu fiquei imediatamente confuso:




O oponente era o Não-Gezora. Derrotei o impostor com poucos ataques, e então o Não-Moguera apareceu. Até que fez sentido; ao invés de passar pelo Não-Ghidorah, eu tive que batalhar com todos os substitutos antes.

E então comecei a batalha:







Passei por todos até que cheguei ao “Não-Ghidora”, que na verdade era… um Dorat.


Uma vez que parei de rir, destruí ele em dois tempos. A música parou e eu achei que eu estava voltando para o mapa. Mas a batalha não havia acabado ainda.



A luta de verdade era contra uma Quimera, um híbrido monstruoso de todas as bestas substitutas. De longe foi o chefe mais difícil, cada ataque dele cortava barras de vida de uma vez, enquanto os ataques contra ele eram bem fracos. Os “rasgos das asas” do Solomon por exemplo, tinham sorte de ser bem desferidos, aplicados e tirar meia barra de vida.

Durante essa batalha eu fiquei grato por duas coisas: A tempo da luta e o templos dos corações. Se não fosse por essas coisas, eu nunca teria derrotado esse boss.

Para derrotar essa desgraça, eu pensei numa estratégia: Eu alternaria entre Godzilla e Solomon, quando um ficasse com a vida muito baixa, eu levaria um para o templo dos corações enquanto lutava contra a Quimera usando o outro. Eu não deveria medir meus esforços, para a Quimera não reconquistar a vida perdida.


Uma coisa muito interessante sobre a Quimera eram as partes coloridas de seu corpo que correspondiam à suas diferentes partes do corpo, então cada parte do corpo tinha seu próprio medidor de vida. A cabeça era invencível enquanto as outras estivessem presentes, e sempre seria a última parte a ser destruída.


Em adição a dificuldade, era a luta mais longa de todas. Eu tentei lembrar quantas vezes eu fui tirado da luta pelo temporizador, mas eu perdi a conta lá pela décima terceira.

Eventualmente eu tinha destruído todos os componentes, fora a cabeça, que agora voava sozinha com uma velocidade incrível.

A Quimera lutou bem, mas uma vez que estava extremamente determinada e uma vez que foi reduzida a uma cabeça, ela não tnha mais poder para derrotar o Solomon, e eu obviamente joguei o raio de calor nela.


Então a Quimera não existia mais. Eu estava exausto após lutar e preocupado. E se isso afetasse minha performance no nível de perseguição?

Os ícones dos Quartéis Generais foram substituídos, mas não pela face da besta infernal. Ao invés disso, tinha um… crucifixo.


Eu estava completamente paralisado. Não ficaria feliz em ver o ícone da besta infernal novamente, mas se tinha uma coisa boa sobre esses níveis, é que eles eram “previsíveis”. Eu tinha uma idéia básica do “que esperar”.

Mas agora, aqui eu estava no fim, e o ícone era completamente diferente. Mas o que isso significava? E por quê um crucifixo? Isso me fez muito inseguro.

Tentei começar o nível com Solomon, mas eu não pude. Eu percebi isso quando o jogo disse “SOLOMON NÃO PODE ENTRAR AQUI”.


Não dizia por quê. Mas acho que tinha algo à ver com a aparência demoníaca do Solomon. 

Desde que ele estava fora de hipótese, eu fui com o Godzilla.

Quando eu vi o nível tudo fez sentido – o level era um cemitério.


Eu ainda estava no início, achando que tinha algum tipo de pegadinha. O último nível sempre envolvia correr de uma besta demoníaca, e eu não seria trouxa de pensar que dessa vez seria diferente.

Então comecei a correr, mas após um minuto sem pausas, eu reduzi a velocidade. Foi durante esse tempo que a música tomou minha atenção. Eu sabi que isso soava familiar quando eu ouvi isso na primeira vez, mas levou um tempo até que eu percebi do que se tratava – Uma rendição 8-bits de “Prayer for Peace”, do primeiro filme do Godzilla. Uma canção muito triste, poderosa, mesmo naquele formato.

Após dois minutos naquele nível, encontrei algo que eu não estava certo em como reagir:



Meu primeiro instinto foi correr, mas aquela estátua azulada simplesmente flutuava no lugar. Me senti obrigado a encarar aquilo, por um tempo.

Dede que era um cemitério, e aquilo estava flutuando numa capela, eu comecei a achar que era um tipo de anjo.


Me deu uma sensação estranha, mas um sentimento gostoso. Eu não diria “feliz”, mas senti que tudo estava em paz. Eu nunca havia visto isso antes, mas parecia muito familiar para mim.

Quando eu estava indo sair, a besta infernal apareceu, e sua presença transformou a música num arranhado discordante e transformou o nível, destruindo as tumbas e um novo chão apareceu, comprimido com sangue e corpos amassados.


Podia sentir meu coração batendo fora de controle, eu não tinha chance de frente. O demônio rugiu e começou a rasgar a perna do anjo e sangue escorreu de seus olhos.


Eu queria salvar o anjo, mas não havia nada que eu podia fazer. Eu tinha que honrar seu sacrifício e correr. E então eu corri pelas terras infernais o mais rápido que eu pude. A besta quase me pegou, ainda engolindo o corpo do Anjo, do qual as pernas haviam sido arrancadas.

E aquela cena fez meu terror virar raiva. Agora eu me encontrava odiando aquele monstro terrível. Não havia dúvidas de que aquilo era o mal puro, e eu queria morrer.

Quando eu cheguei no final, me lembrei como ele respondeu aos meus insultos em “Trance”. Virei para ele e disse: “Você vai pagar!”.

Essa foi a resposta:




Não tinha idéia de como eu ficaria naquela situação.

Não havia nada que me preparasse para o mundo final – Zenith.


Continua...



26/06/2015

Olhos na Escuridão

O voo de São Paulo a Porto Alegre levou o dobro do tempo, devido a uma forte neblina – o que pra mim foi ruim, pois ainda precisava pegar um ônibus para Pelotas.

Usei um taxi do aeroporto até a rodoviária, cruzando uma cidade adormecida pela noite fria.

Na rodoviária, comprei a última passagem. Fumei um cigarro e embarquei, dirigindo-me a poltrona "23".

Peguei o celular e liguei o rádio deixando em volume baixo, apenas para relaxar.

Havia poucos passageiros neste horário: duas senhoras bem gordas, uma adolescente nariguda, um careca engraçado, um casal feio e um jovem executivo magrelo.

(Se me vissem falando assim, poderiam acreditar que sou um baita exemplar estético, mas não... Sou nanica de pele pálida. E, como se não bastasse, minha magreza costuma me enviar diretamente ao departamento infanto-juvenil das boutiques ).

Talvez o fato de trabalhar com cirurgia plástica me induza a observar as pessoas com um olhar mais crítico.

Estávamos quase saindo quando a porta reabriu. Entrou um homem alto, vestindo um moletom preto com capuz. E, embora fosse noite, ele usava óculos escuros. Sentou no fundo do ônibus, imaginei que nunca mais fosse vê-lo.

Adormeci.

Acordei com um ruído no ouvido que me causou aflição, mas não passava do radio sem sintonia.

Já estávamos na estrada – eu não sentia o movimento do veículo – quando olhei pela janela e só via uma paisagem escura e silenciosa de muito mato.

Levantei-me e a luz de leitura da poltrona "27" acendeu: era a adolescente nariguda.

Olhei para frente, todos dormiam.

Olhei para o fundo, o banheiro estava ocupado e, sentado na poltrona ao lado, o homem de capuz.

A jovem me perguntou o motivo da parada, então comentei que eu havia dormido e não sabia.

Ela sorriu e confessou o mesmo.

Resolvi falar com o motorista, passando pelos demais passageiros que dormiam.

A cabine vazia e a porta aberta. Saí para procurá-lo. A nariguda me seguia, mas parou ao pé da porta – este era o limite de sua coragem. Gritei chamando-o de “motorista”, uma vez que nem sabia o nome dele ou como ele era – não me recordava de sua fisionomia.

Gritei mais uma vez e obtive uma resposta excêntrica: um mugido.

Rimos da cena.

Acabei deduzindo que ele poderia estar no banheiro.

Voltei e fui surpreendida por um som estranho: algo grande parecia se arrastar no mato e aquilo logo foi seguido por dezenas de mugidos. Então dei de cara com o motorista voltando do ônibus: um sujeito magro, aparência doente, com um boné azul.

Questionei se ele estava bem e ele respondeu somente com um aceno de cabeça – “Dor de barriga”, eu imaginei – Voltamos, o banheiro continuava ocupado agora o sujeito misterioso não estava mais em seu acento.

Já os demais ainda dormiam.

Ela puxou uma mochila e se aproximou do meu acento.

Perguntou, educadamente, se eu me importava, e respondi que não.

Ela se apresentou como Clara e eu lhe disse meu nome. Conversamos um pouco, enquanto o ônibus partia. Descobri que tinha quinze anos e morava com a mãe em Porto Alegre. Estava a caminho de Pelotas, passaria dez dias com o pai. Falei pouco de mim, não por antipatia, somente por não ter chance.

O ônibus dava socos e tropicar, o que não dei muita importância, sabendo da fama das estradas no Brasil.

Só que Clara, por estar mais familiarizada com a rota, imediatamente abriu a cortina e levou à mão a boca, soltando um palavrão.

Olhei: estávamos em meio ao mato.

Sentimos mais dois socos e uma freada brusca.

O motor desligou e as luzes internas se apagaram por completo – exceto pela que indicava "banheiro ocupado".

Todos se levantaram apreensivos. Uma das gordas gritou ao ver onde estávamos. Instintivamente Clara segurou minha mão e falei para ela ficar próxima a mim. O sujeito careca foi até a cabine do motorista. Mal forçara e a porta abriu vagarosamente.

Surpreso, ele retornou nos informado que o motorista não estava lá.

Então uma das gordas indagou: “Como um “negrão” daquele tamanho some assim?”.

Naquele instante minha espinha congelou e Clara apertou minha mão com força.

Eu só vira o motorista na parada que havíamos feito uma hora atrás, pois no momento do embarque eu entrara apressada, já tinha gasto muito tempo fumando.

Perguntei a Clara se ela tinha visto o motorista antes e ela respondeu que não, pois fora sua mãe quem despachara a bagagem.

O sujeito de terno nos questionou assim que percebeu nossa conversa.

Contei a todos sobre a parada, do motorista branco de boné, e comentei que achava que este estava no banheiro.

Acreditava que o sujeito esquisito de capuz e óculos escuros havia se passado pelo motorista.

Então o homem do casal me interrompeu dizendo que isso não fazia o menor sentido.

No entanto, imediatamente todos ficaram em silêncio e olharam em direção a porta do banheiro, que se mantinha ocupada

O sujeito magro de terno tomou a iniciativa e foi até a porta do banheiro. Ele a forçou, mas estava trancada. Com a ajuda dos homens a tranca finalmente se rompeu.

A porta abriu e, como por encanto, a luz do ônibus retornou para atormentar nossos olhos, protegidos pelo zelo da escuridão que nos mantivera ignorantes.

Havia um buraco grande na janela e lá estava o motorista encolhido no chão imundo. Não havia mais rosto, apenas um pedaço de cabeça, algo como uma maçã devorada pela metade em uma única e faminta dentada. O que fizera aquilo possuía uma mandíbula gigantesca.

Aqueles de estômago mais fraco, nos quais não me incluo, tiveram problemas para evitar passar mal.

Acalmei Clara na poltrona, observando a agitação de todos.

Jonatas, que era casado com Eveline – o casal feio –, tentava acalmá-la em vão, ela estava histérica.

Inutilmente, as gordas procuravam rede nos celulares em meio ao nada.

O magrelo olhava pensativo para a única porta do veículo.

Estava "armado" com um guarda-chuva, mas eu sentia que ele seria o primeiro a nos abandonar.

O senhor careca que se apresentou como o veterinário Júlio, sentou-se abatido a nossa frente.

Permanecíamos em silêncio à espera de uma explicação.

Ele sacudiu a cabeça negativamente e insisti que desse um palpite.

Olhou-me com seriedade e repetiu que não tinha ideia, mas que se fosse outro ambiente arriscaria ser um Tubarão.

Jonatas debochou e Júlio, irritado, iniciou uma discussão.

Gritei para que parassem e, até mesmo Eveline se aquietou um pouco.

Aguardamos um tempo e Miguel, o magrelo, ficou de guarda na porta.

Havíamos concordado que deveríamos procurar ajuda na estrada, mas ninguém se candidatou, mesmo porque não sabíamos para onde ir. Clara dormia e eu quase cochilei ao seu lado, quando Miguel gritou que avistara algo.

Na verdade ele ouvira algo, mas não era preciso explicar, pois agora todos ouviam.

A impressão era que algo grande, como um avião, se arrastava na escuridão, acompanhado de centenas de mugidos e um som tenebroso de lamentação, choro e sofrimento interminável. Fiquei com a impressão de ver poeira levantando da terra, como se algo se movesse a nossa volta. Miguel e Jonatas falaram em pares de olhos: diversos e de diferentes cores e tamanhos. Senti muito medo na hora e voltei para junto de Clara. Sentia-me responsável pela guria e, de todos que estavam ali, era com quem mais me familiarizara.

Miguel voltou correndo, horrorizado e pálido. Perguntei se ele avistara alguma coisa, mas, ao contrário de todos nós, ele fechava as cortinas agitado, como se tivesse visto o próprio diabo.

Insisti para que ele falasse, mas apenas o medo dava razão a sua face magra, até que Clara gritou.

Olhamos para ela, que mesmo em pé, aparentava ainda estar dormindo.

Miguel gritou que se afastasse da janela, mas ela parecia sonâmbula.

Aproximei-me e, antes que tocasse em seu braço, suas pálpebras se arregalaram: tinha os olhos completamente brancos e sua boca seca abriu emitindo um grunhido de crápula.

Todos, exceto eu, se afastaram.

Uma das gordas se abaixou no chão, abraçou as pernas e começou a chorar até, finalmente, desmaiar.

Tentei mais uma vez falar com clara, enquanto a outra gorda e Júlio ajudavam a desmaiada. Clara permanecia em um transe sinistro e eu não sabia o que fazer. Foi então que ela balbuciou algo em uma língua estranha e sinistra. Questionei-a sobre o que ela havia falado e ela respondeu em nosso idioma:

- Ela sente fome – o tom emitido por seus lábios era não mais alto que um sussurro.

Acredito que apenas eu podia ouvir

- Ela sempre sente. Ela comerá os seus rostos. Usará vossos olhos para vigiá-los...

- Quem é ela? - questionei-a temerosa.

- Ela é aquela que rasteja nas profundezas.

Ela há muitos séculos abandonou os oceanos.

Comendo homens e mulheres, velhos e crianças, servos e reis.

Ela aguarda o retorno daquele que não está morto e pode jazer eternamente – Clara emitiu um sorriso medonho – Ela é devota dele...

- Quem é Ele?

Clara me olhou com as órbitas brancas e sussurrou algo que, naquele momento, me pareceu sem sentido.

Ela caiu e eu a segurei.

Miguel queria saber o que ela tinha dito, mas eu não sabia dizer ou imaginava ter ouvido algo que não entendera – mas, por Deus, eu já havia entendido, só não sabia ainda.

Jonatas saiu do lado de sua esposa, que retornara a histeria, gritando que havia alguém lá fora: era o sujeito de boné que se fingira ser motorista e nos trouxera até ali.

Eufórico, ele gritava enlouquecido.

Clara acordou, seus olhos estavam lindamente azuis e tinham um brilho celeste que esbanjava simpatia e inocência.

Naturalmente, ela não se lembrava de nada.

Estivera inconsciente e despertara, agora, como um recém-nascido.

Miguel saiu enfurecido do ônibus, eu o seguira com os homens.

Seguimos para fora do ônibus e, em meio ao mato iluminado apenas pelos faróis do veículo, estava o homem que nos levara até ali. Estávamos enfurecidos, mas a atmosfera de terror causada pela morte do motorista e o recente estado inconsciente e catatônico da adolescente, tornava-nos reféns do medo.

O homem deu dois passos, olhou diretamente para mim e sorriu. Miguel, irritado, se preparou para um embate, mas mantive a razão e o contive, com um leve toque no ombro. Mesmo sendo a única mulher lá fora e, ainda que possuísse a menor estatura, adiantei-me a frente e encarei-o destemida.

- O que tu queres de nós? – iniciei o dialogo buscando calma – Tu mataste o motorista?

- Não! Não o matei – ele levou à mão a boca e tentou segurar o riso, que assim mesmo transpareceu para nós algo maroto.

Ele tinha um sotaque estranho, inicialmente imaginei que fosse lusitano, mas assim que prosseguiu me pareceu alguém que aprendera um idioma barroco e muito antigo – Eu sou apenas o arauto daquele que vos persegue em seus temores mais secretos – ele ria novamente.

- Quem é que nos persegue? – firmei a voz e cerrei os punhos.

- Ele tem muitos nomes, muitas formas e muitos séculos.

Mas apenas um objetivo – algo além do alcance das luzes grunhiu, seguido por centenas de lamentos.

- Se alimentar. Ele não morre, pois nesta era até mesmo a morte pode morrer – ele olhou para trás e, do meio do mato, pude entendê-lo.

Qualquer razão e sanidade existentes se esvaíram de minha mente.

Um vulto escuro cercou a frente do ônibus e todos correram para dentro.

Eu não queria acreditar nos meus olhos e, então, só consegui corri até Clara, chamando-a exaltada.

Ouvia Miguel gritando: - Vocês viram todos aqueles olhos? – Eu não respondia, só apressava Clara e a puxava pelo pulso: - Que era aquilo? Aquilo não pode ser de Deus! – gritara Jonatas para Eveline. – Corri para fora do ônibus arrastando Clara.

Júlio gritou para que eu voltasse. Instintivamente, ela tentava se desvencilhar de minhas mãos.

- Clara não podemos ficar aqui!

Os olhos dela se encheram de lágrimas e ela concordou com um aceno de cabeça. Corremos por trás do veículo quando ouvi as portas se cerrarem por dentro e, talvez por uma tentativa desesperada deles, as luzes se apagaram. Liguei o aplicativo de lanterna do meu celular e corremos mato adentro até encontrarmos o sujeito estranho.

Havia mais pessoas com ele, uma legião de seguidores: homens, mulheres, jovens, velhos e algumas figuras estranhas com rostos queimados e outros deformados.

- Não podem escapar.

Somos todos prometidos de sua fome – falava ele, enigmático.

Os demais gritaram palavras estranhas, semelhantes àquelas reproduzidas por Clara durante seu transe.

Puxei-a para junto de mim e corremos, mas eles não nos seguiram, foram em direção ao ônibus.

Corremos, caímos e nos arrastamos por espinhos, rochas, buracos e lama.

Tinha perdido a noção do tempo e o cansaço nos dominara.

Descemos um barranco e sentamos no chão, exauridas pela fuga.

A lua brilhava no céu e não havia uma única nuvem, apenas um manto estrelar.

Falei para Clara descansar, pois logo amanheceria e então procuraríamos a estrada com mais facilidade.

Não demorou muito para que eu pegasse no sono – o que, para mim, ainda é um mistério.

Depois daquilo que vi em frente ao ônibus, esta fora a última vez em que dormi e a única em que não deveria ter adormecido – até hoje necessito ingerir drogas para dormir e ainda assim acabo perdendo o sono após meus pesadelos.

Mas naquela noite eu dormi: e como me arrependo.

Acordei ao amanhecer.

Logo percebi que não estávamos sozinhas: à minha frente havia um corpo gigantesco, reptiliano, de comprimento abissal.

Movia-se vagarosamente frente com escamas negras levemente brilhantes e semitransparentes.

Parecia uma serpente com uma grossura gigantesca, capaz de engolir uma cabeça inteira em uma abocanhada.

Tinha divisórias largas, como gomos, que lembravam uma centopeia.

O brilho se intensificou, pude ver luzes diversas cores no corpo.

Eram irregulares, diversas e sinistras.

Um desses brilhos se voltou para mim, amontoado a pele transparente, e me encarou emitindo um mugido: eram olhos e o que sobrou do rosto de uma vaca.

Eram milhares de olhos e rostos.

E não eram apenas de vacas, havia outros animais e, enfim, vi pessoas.

Eles se deslocavam a minha frente como vagões de trem em um cruzamento.

Eu estava estática, não tinha força ou coragem para sair correndo.

O horror me dominava e o medo me mantinha imóvel.

Todos aqueles olhos cruzaram minha frente até finalmente ver um em especial: um par de olhos azuis celestes cheios de brilho e sonhos. Joviais e inocentes, num rosto narigudo e adolescente.

Eles me encaravam com desespero, sem esperança e clamando por socorro.

Tateei ao meu lado até encontrar a mão de Clara para que saíssemos dali.

Sua mão estava gélida.

Olhei novamente para os olhos celestes, que seguiram o curso dos demais, e agora os vira entrando na terra.

Percebi que aquilo não era um barranco e sim o início de uma toca colossal, a qual abrigava aquela criatura medonha.

Puxei Clara para fugirmos logo e ela não reagiu.

Olhei para ela e, no momento em que seu rosto se virou para mim, não havia rosto.

Não havia mais nada.

Apenas o buraco do seu crânio sem rosto ou cérebro e tudo que deveria estar ali.

Acordei sedada em uma cama de hospital em Porto Alegre.

Soube do acidente, das pessoas desaparecidas e nada mais.

E é melhor assim.

As vezes a ignorância é a única proteção para nossa sanidade.


Escrito por Survivor Horror
Narrado originalmente por LeMohamedAki

19/06/2015

Desafio #TesteSeusMedos com vários Youtubers

Boa noite Creepers, aqui é o LeMohamedAki, e  estou muito feliz em poder fazer esse post.


Sony Pictures vai me levar nesta sexta (dia 19/06) pra uma mansão assombrada do filme Sobrenatural 3 com o Gusta Stockler, Gustavo Horn, Canal Ambuplay, Assombrado.com.br, Lendas Urbanas e Histórias Reais - Acervo Maldito,Lully de Verdade, Canal do Purosso, Milho Wonka e o Sigma
 Estou ansioso pra gravar com eles, e ansioso para que vocês vejam. xD



Confiram o trailer desse filmes incrível.


15/06/2015

Privação

A primeira a ir foi minha vista.

Quando eu comecei a pensar no experimento, eu esperava que a última parte a parar de funcionar fosse a minha visão. Não tenho certeza se a droga diminuiu o funcionamento dos meus sentidos em uma ordem ou se foi aleatoriamente. Eu sabia que seria apenas temporário, mas me preparei para uma desconfortável, porém interessante parte da experiência. Eu sempre fui obcecado por privação dos sentidos desde que era mais novo, mas uma piscina cheia de cloro não iria me satisfazer. Eu queria alguma coisa que realmente fosse capaz de me privar dos meus sentidos, e consegui um sedativo experimental, ele supostamente deixava o corpo todo paralisado. Eu não costumava pesquisar muito sobre remédios que tomava antes de consumi-los, deixava apenas minha curiosidade me guiar, talvez até demais.

Minha visão não parou imediatamente, mas começou a ficar turva, foi aí que comecei a analisar as coisas. Eu descreveria minha experiência com algo similar a pessoas cegas ou que enxergam apenas sombras de cores ou somente formas. Quando minha visão sumiu completamente, as cores que eu lembrava assumiram outras formas, ás vezes formas iguais a silhuetas de pessoas. Eu pensava comigo mesmo que deveria manter a calma, todas aquelas formas e imagens pareciam querer me invadir.

A próxima coisa a parar de “funcionar” foi minha audição. O que fez minha conversa comigo mesmo ficar completamente inútil, primeiro, eu achei que minha voz estava ficando mais fraca, mas eu percebi que outros volumes de músicas e sons caseiros estavam diminuindo, tão rápido quanto minha visão. Quando eu fiquei completamente surdo consegui ouvir apenas um som, ou apenas o que eu achava que era um som.

Existe um familiar som de sinos batendo que muitas pessoas com problema de audição afirmaram ter escutado, ás vezes em períodos curtos de tempo, outras vezes por dias. Considerei isso, mas dada a condição de surdez que eu me encontrava, conclui que aqueles sons estavam sendo criados pela minha mente. O barulho se intensificou depois de um tempo e logo ficou inconsistente, aparecendo esporadicamente e outras vezes com curtos intervalos de tempo o som se tornaria algo parecido com ruído de microfone.

Então eu presumi que o próximo a “falhar” seria meu paladar, apesar de não ter consumido nenhuma comida ou bebida recentemente, eu senti uma pequena mudança. Eu realmente perdi alguma coisa na minha boca, mas isso estava sendo ofuscado pela quantidade de ilusões que eu tive devido à perda da visão e da audição. Mais figuras estranhas continuaram aparecendo na escuridão dos meus olhos e depois de várias aparições, as mesmas pareciam se mover. O barulho nos meus ouvidos continuou crescendo cada vez mais, juntamente com seus intervalos e na minha cabeça estavam quase em sintonia com as formas que eu “enxergava” na escuridão.

Enquanto meus sentidos pareciam que estavam sendo arrancados de mim, eu percebi que mais um estava sumindo, o meu olfato; no entanto, assim como meu paladar, esse passou por mim quase despercebido, eu estava distraído demais com as figuras e barulhos que minha mente estava criando. Havia apenas uma figura naquele momento, começou a se mexer calmamente enquanto o barulho insuportável dentro da minha cabeça continuava. Eu nunca saberia o que é ser surdo se esses sinos malditos continuassem! Eu comecei a passar a mão em volta de onde eu estava, gritando por ajuda que eu não seria capaz de perceber a existência nem se estivesse parada a minha frente. A forma era alta, com algumas partes do corpo maiores do que outras, as pernas dela se balançavam e enrolavam enquanto ela andava, se mexendo de forma esguia enquanto eu encontrava o que parecia ser os olhos da mesma.

O último sentido a desaparecer foi o tato, e provou para mim o significado da palavra sofrimento. Eu podia sentir meu corpo se tornando invisível, e isso me fez despencar violentamente, me batendo em alguns objetos. Quando alcancei o chão, fiz de tudo para passar as unhas e os dedos no chão, tentando desesperadamente trazer meu tato de volta.

Depois de apenas alguns segundos, sem nenhum dos meus sentidos funcionando, os barulhos insuportáveis da minha cabeça diminuíram e se tornaram pequenos e calmos sussurros. Esses, assim como os sinos, começaram a ficar mais irritantes e mais altos toda vez que a figura da minha visão começava a se aproximar de mim. A única coisa que eu podia fazer enquanto ela se aproximava, era assistir, e quando estava apenas a alguns centímetros de distancia de mim, eu vi seu rosto.

No meio do meu sofrimento psicológico, eu tive a ideia estúpida e idiota de falar com aquilo. Perguntei o que era, e o que queria.

“Eu sou o que resta quando nada mais existe. Eu sou o que fica assistindo você enquanto você está distraído, cheio de coisas e imagens ao seu redor. Eu sou o que aparece raramente pra você, quando você se encontra desocupado demais e se convence que foi apenas sua imaginação. Eu espero pacientemente, ansioso pelo momento que sua alma será exposta, sem nenhum escudo para protegê-la.”

Os sussurros me convenceram de que minha audição havia retornado, que alguém na realidade da minha existência estava sussurrando nas minhas duas orelhas enquanto eu continuava a fitar aquela criatura assombrosa nos olhos. Ele começou a aproximar sua mão esguia do meu rosto, como se estivesse pronto para me tocar enquanto eu senti minha sanidade entrar em colapso, a forma começou a desaparecer e voltar para vazio, que agora, estava claro. Os sussurros e outros barulhos sumiram rapidamente.

Como se estivesse acabado de acordar depois de um pesadelo horrível, meus sentidos rapidamente retornaram á vida. Eu estava muito cansado, como se eu tivesse corrido em círculos por horas e horas seguidas. Meu corpo estava coberto de marcas e roxos; eu suava como um porco enquanto tentava regularizar minha respiração.

Havia acabado. A pílula era realmente temporária. Olhei para o relógio, tentando lembrar à hora exata que comecei o experimento e percebi que todos os acontecimentos haviam durado apenas quatro minutos, como as pesquisas feitas sobre o medicamento haviam comprovado.

Passei as próximas horas do dia tentando me recuperar, ainda perturbado pelo que eu havia visto. Eu estava supostamente “salvo”, mas eu ainda sentia como se estivesse sendo ameaçado de alguma forma enquanto eu tentava lembrar o que havia acontecido detalhadamente. Tentei justificar tudo aquilo como se fosse obra da minha imaginação; perder os sentidos havia me deixado paranóico e eu teria imaginado uma sombra gigante que simplesmente sumiu quando a medicação  parou de fazer efeito.

No entanto, o que eu não consigo esquecer são as palavras. As palavras que ele falou. A coisa havia ido embora por que meus sentidos o haviam bloqueado? Eu só desejo nunca ter feito aquela pergunta. Queria ter ficado em silencio, eu simplesmente passaria por esse evento e me convenceria de que era culpa da minha privação, teria me convencido de que aquela coisa havia sido criada e destruída pela minha mente.

Eu quero me convencer disso, mas não consigo. Toda vez que penso sobre aquilo, eu só consigo imaginar a criatura na minha frente, invisível, esperando que meu corpo morra e minha alma se torne alvo dele, virando apenas destroços.


E agora presto mais atenção nas figuras que vejo quando fecho os olhos, enquanto algumas são aleatórias e outras tomam forma familiar de distorcida figura. 

13/06/2015

Casper


-911 emergência. Você precisa de ajuda ?

-Sim, por favor , há alguém em minha casa

-Sim, senhor, eu estou comunicando à polícia , Você está em ( editado) apartamento dois ?

-Só por favor , por favor. Peça a alguém para vir pra cá ,

-Eu vou , senhor, mas eu preciso que você confirme o seu endereço primeiro.

-É ( editado) apartamento dois .

-Okey , a polícia está a caminho, mas vou precisar que voce se acalme , Você sabe se é um homem ou uma mulher ?

-Eu não sei, Eu só vi a parte de trás de sua cabeça, o couro cabeludo foi arrancado,

-Desculpe senhor?!

-A pele estava pendurada do lado fora de sua cabeça, ele começou a se virar para mim, mas ,,,

(vidro quebrando)

-Tudo, tudo....tudo apenas começou (?)

- Você é capaz de chegar a uma saída?

- Não eu estou no armário... OH meu Deus.

-Tudo bem, eu preciso que você fique calmo, Voce tem algo que possa usar para se proteger?

- Han... tem alguns cabides!

-Ok pegue um cabide e endireite-o.

- São todos de plástico!

- Ok senhor, tem mais alguma coisa?

(estrondo indeterminado)

-Vá embora!

-O que esta havendo?

-Vá embora

-Senhor?

(som metálico indeterminado)

-Eles estão do lado de fora da porta

-A policia está há alguns minutos daí. eu só preciso que você aguente um pouco mais de tempo

-Por favor, por favor.... eu estou tao assustado. Eu estou tão...

(porta abrindo)

- OI! EU SOU O CASPER!

-OH meu Deus

(estrondo indeterminado/rugido)

-Senhor, senhor, você está aí?

-OH meu Deus

(estrondo indeterminado/luta)

-Senhor?

A voz dele foi ficando mais distante, como se tivesse sendo levado pra longe, apesar de ainda estar gritando, a voz dele foi sumindo. Risadas de crianças ecoaram do outro lado da linha. A operadora deu um pulo de susto com o coração na mão. Os gritos pararam. Silencio.

- Alô? quem está ai? - perguntou ela.

Ouviu mais uma vez uma risadinha abafada ao longe.

- Quem está ai!? - quase gritando.

- Olá! - uma voz fina e feliz respondeu do outro lado. Uma voz que lhe causou frio na coluna e que vai tirar o sono dela por muitos dias.

- A policia está chegando, não tem pra onde correr.

- Eu sou Casper!

A linha fica muda antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.

***

Alguns minutos depois, a policia chegou ao local. A porta do apartamento estava aberta, mas nenhum vizinho acordado. A casa estava revirada, mas ao que parecia o intruso não buscava por algo, mas sim, destruir coisas.

No quarto, encontraram a porta derrubada e mais uma vez, tudo revirado. Houve luta ali. A porta do armário estava aberta e um rastro se sangue seguia direto para o espelho de parede, terminando nele. O lençol da cama tinha sido arrancado como se alguém tivesse se agarrado a ele. O lençol estava esticado no chão, a alguns centímetros do espelho.

Ele aponta sua lanterna para o espelho. Uma marca de mão pôde ser vista nele. Uma marca de mão do tamanho da mão de um adulto. Analisou a marca com cuidado... quase não reparou no sorriso largo e cheio de dentes que apareceu no reflexo do espelho.

"Oi!"



(História baseada em fatos reais)