05/12/2016

Caso Real: Tamam Shud

Olá Creepers! Hoje estou trazendo para vocês um caso real que traduzi e organizei para uma página do face que tenho com a minha amiga, a "Cons Pirei", onde posto conspirações, casos misteriosos e etc. Como achei muito interessante, pensei que vocês gostariam de ler também. Deixa nos coments sua opnião, se devo ou não trazer mais casos reais aqui pro blog.


O Caso de Tamam Shud, ou as vezes como também é chamado, “O Mistério do Homem de Somerton”, pois é sobre um homem morto que foi encontrado por volta das 06:30 da manhã do dia 1º de dezembro de 1948 na praia de Somerton, cidade de Adelaide, Austrália. Considerado um dos maiores e mais profundos mistérios da Austrália, o caso completou 68 anos sem solução anteontem. As dúvidas ficaram entre quem seria o tal homem, quem teria o assassinato, como ele foi parar na praia e os outros milhares de incidentes que cercam sua morte.

Esse meu texto foi inteiramente baseado na página do wikipédia do caso, o link você pode encontrar no final do texto, e no próprio wikipédia você poderá encontrar as fontes para as informações que verá aqui. Fiz algumas adaptações para que o entendimento fique mais fácil, assim como traduções de partes que não podem ser encontradas na versão brasileira do wikipedia. Como todas as páginas e sites brasileiros que visitei que continham matérias sobre isso eram muito simplificadas e vagas, resolvi fazer da forma mais completa e detalhada possível.

Boa leitura, e não esqueça de deixar sua opinião sobre o caso nos comentários!
A VÍTIMA

Descrição física:
O homem parecia ter por volta dos 40 anos, traços “britânicos” e possuía uma boa estrutura física, com ombros largos, cintura estreita, mãos e unhas sem sinais de trabalhos manuais pesados. O primeiro e quinto dedo dos pés dele tinham formato triangular – indicando que o mesmo poderia ter sido um dançarino ou fazendeiro (por causa das botas de montaria), e os músculos da panturrilha eram bastante definidos e fortes (características de bailarino, mas também poderia ser de maratonista). Sua altura era de 1,80 m, cabelos ruivos levemente grisalhos, os olhos eram castanho-claros. Não havia cicatrizes ou marcas de nascença em seu corpo. Sua arcada dentária não bateu com nenhum registro analisado.
Descrição de vestuário:
Vestido com uma camisa branca, gravata vermelha com azul, calça marrom, meias e sapato. E embora o clima na época fosse quente tanto durante o dia quanto à noite, trajava também um suéter tricotado marrom e um casaco cinza marrom no estilo europeu. Suas roupas não tinham etiquetas e o homem não usava chapéu, um fato estranho para o ano de 1948, ainda mais alguém que trajava um terno. Não tinha documentos de identidade em sua posse.

Quando os policiais chegaram ao local do crime, perceberam que ninguém havia mexido no corpo e que o braço esquerdo dele estava em posição reta, e o direito dobrado. Um cigarro não aceso estava atrás de sua orelha, enquanto outro fumado pela metade estava no colarinho direito do casaco. Uma busca em seus bolsos revelou um bilhete de ônibus de Adelaide para St. Leonards em Glenelg, um subúrbio da cidade, e um bilhete de segunda-classe não utilizado do trem de Adelaide para o subúrbio de Henley Beach, e mais um pente americano de alumínio, um pacote pela metade de chicletes Juicy Fruit, um pacote de cigarros Army Club contendo cigarros Kensitas (uma marca diferente) e uma caixa de fósforos Bryant & May. A parada do ônibus relacionado ao bilhete usado localizava-se 250 metros ao sul do lugar onde o corpo foi encontrado.

X indica aonde o corpo foi encontrado.
Testemunhas se apresentaram para declarar que na noite de 30 de novembro avistaram um indivíduo de aparência similar parado no mesmo local, próximo à instituição Crippled Children's Home onde o corpo foi posteriormente encontrado. Um casal que o viu às 07:00 da noite no local onde o corpo foi encontrado, notou o homem esticando todo o braço direito, deixando-o cair de forma frouxa. Outro casal que o viu entre 07:30 e 08:00 da noite, horário em que os postes de iluminação ainda estavam acesos, afirmou não ter notado o homem se mexer durante todo o tempo que estivera em seu campo de visão, mas tivessem a impressão de que sua posição possa ter mudado. Apesar de ficarem em dúvida se o homem estava morto por não reagir aos mosquitos que estavam em sua volta, o último casal pensou que poderia estar apenas bêbado ou dormindo, e sendo assim decidiram não se meter naquela história e foram embora.  

Quando o corpo foi descoberto na manhã seguinte, permanecia na mesma posição observada pelas últimas testemunhas na noite anterior.

A AUTÓPSIA

Uma autópsia foi realizada e concluíram que a morte tinha acontecido por volta das 02:00 do dia primeiro de dezembro. Algumas das observações do legistas foram as seguintes:

“O coração estava em seu tamanho normal, e normal em todos os demais aspectos (...) pequenos vasos incomuns de serem encontrados no cérebro eram facilmente discerníveis com congestão. A faringe estava congestionada, e o esôfago coberto por branqueamento das camadas superficiais da mucosa, com uma trilha medial de ulceração. O estômago estava profundamente congestionado (...) havia congestão também na 2ª metade do duodeno. Havia sangue misturado ao alimento no estômago. Ambos os rins estavam congestionados, e o fígado continha grande excesso de sangue em seus vasos (...) o baço apresentava inchaço expressivo (...) de aproximadamente 3 vezes seu tamanho normal (...) exame microscópico revelou a destruição de lóbulos do fígado (...) hemorragia gástrica aguda, congestão extensiva do fígado e baço, e congestão do cérebro.”

Apesar da revelação de que a última refeição do homem teria sido um pastel assado que comeu três ou quatro horas antes da morte, testes e exames não conseguiram revelar qualquer substância estranha em seu organismo. O patologista Dr. Dwyer concluiu: "Estou convencido de que a morte não foi natural (...) suponho que o veneno utilizado pode ter sido um barbitúrico ou um hipnótico solúvel". Embora o envenenamento tenha permanecido como principal suspeita, chegou-se à conclusão de que o pastel não foi a fonte do veneno. Além disso, o legista não chegou a uma conclusão acerca da identidade do homem, a causa de sua morte ou se a pessoa vista na Praia de Somerton na noite de 30 de novembro era o mesmo homem, pois não surgiram testemunhas que tenham visto seu rosto enquanto ele ainda estava vivo. Apesar de uma fotografia do homem e sua impressão digital circularem ao redor do mundo, nunca se chegou a uma identificação positiva.

Devido à não-identificação, o cadáver foi embalsamado em 10 de dezembro de 1948, o primeiro registro da realização deste procedimento na história da polícia australiana.

IDENTIFICAÇÃO DO CORPO

Em 3 de dezembro, E.C. Johnson foi descartado como suspeito, pois se apresentou a uma delegacia de polícia para se identificar. No mesmo dia, o News publicou em sua primeira página uma fotografia do morto, o que levou a mais denúncias sobre a possível identidade do homem. No dia seguinte, a polícia anunciou que as digitais do morto não constavam em seus registros. No dia 5 de dezembro, o Advertiser divulgou que a polícia estaria pesquisando registros militares em busca de um homem que supostamente teria bebido com outro de aparência similar ao morto em um hotel em Glenelg no dia 30 de novembro. Durante seu encontro, o homem misterioso teria apresentado um cartão de aposentadoria militar que trazia o nome "Solomonson".

Algumas tentativas de identificar o corpo foram realizadas, incluindo uma no começo de janeiro de 1949 quando duas pessoas o identificaram como sendo o ex-lenhador Robert Walsh, de 63 anos. A polícia respondeu com ceticismo, acreditando que Walsh seria velho demais para ser o morto, afirmando no entanto que o corpo seria consistente com o de um antigo lenhador, embora o estado de suas mãos indicassem que ele não cortava madeira há pelo menos dezoito meses. Quaisquer possibilidades de que uma identificação positiva havia sido realizada foram descartadas no entanto quando Elizabeth Thompson, uma das senhoras que havia apontado o corpo como sendo de Robert Walsh, retirou seu testemunho após ver o cadáver uma segunda vez, constatando que a ausência de uma cicatriz em particular, assim como o tamanho das pernas do morto, tornava improvável que aquele fosse mesmo Walsh.

No começo de fevereiro de 1949, havia pelo menos oito diferentes identificações "positivas" do morto, incluindo dois homens de Darwin que acreditavam que o corpo era de um amigo deles, um ajudante de estábulo desaparecido, um funcionário de um navio a vapor e um sueco.

A MALA MARROM

Investigadores com a mala encontrada.

O caso sofreu uma reviravolta quando, em 14 de janeiro de 1949, funcionários da Estação Ferroviária de Adelaide descobriram uma mala marrom com a etiqueta removida, que havia sido colocada no guarda-volumes da estação por volta das 11:00 da manhã de 30 de novembro de 1948. Em seu interior estavam um roupão vermelho listrado, um par de chinelos de feltro vermelho tamanho 37, quatro pares de cuecas, pijamas, utensílios de barbear, um par de calças marrom claro com areia nas barras, uma chave de fenda de eletricista, um pincel de estêncil, uma faca de mesa que fora reduzida a um instrumento de corte curto e afiado, e um par de tesouras como as usadas em navios mercantes para demarcar as mercadorias embarcadas.

Também na mala estava a embalagem de uma linha de costura laranja, um "tipo incomum" similar ao utilizado para remendar um dos bolsos da calça que o morto usava. Todas as marcas de identificação nas peças de roupa haviam sido removidas, mas a polícia encontrou o nome "T. Keane" em uma gravata, "Keane" em um saco de lavanderia e "Kean" (sem o último "e") em uma camiseta, juntamente com três marcas de lavagem a seco: 1171/7, 4393/7 e 3053/7. Os investigadores chegaram à conclusão de que a pessoa que removeu as etiquetas deixara propositalmente o nome Keane nas roupas, sabendo que ele não poderia levar à identificação de seu proprietário.

Mas neste primeiro momento, as roupas foram rastreadas até um marinheiro local, Tom Keane. Como ele não foi localizado, alguns de seus colegas de navio foram até o necrotério ver o cadáver, negando categoricamente que aquele era Keane ou que as roupas na mala pertenceriam a ele. Uma busca concluiu que não havia outro T. Keane desaparecido em quaisquer outros países falantes de inglês, e a divulgação nacional das marcas de lavagem a seco também não ajudou. De fato, a único item da mala que pôde ser aproveitado foi um casaco que apresentava uma nesga frontal e um desenho bordado. Determinou-se que ambos poderiam ter sido feitos apenas nos Estados Unidos, que era o único país com o maquinário necessário para tais tipos de costura. Embora os casacos fossem produzidos em massa, a confecção da nesga só era feita após o proprietário do vestuário experimentá-lo. A roupa também não havia sido importada, indicando que o homem ou visitara os EUA ou a comprara de alguém que visitara e cujo corpo era de tamanho similar ao dele.

Os policiais verificaram os registros ferroviários e chegaram à conclusão de que o homem desembarcou de um trem noturno que teria partido de Melbourne, Sydney ou Port Augusta. Eles acreditavam que o homem teria se barbeado e tomado banho no prédio vizinho do chuveiro público municipal antes de retornar à estação para comprar um bilhete para o trem de 10:50 da manhã para Henley Beach que, por alguma razão, ele perdeu ou decidiu não pegar. Após voltar do chuveiro público, ele deixou sua mala no guarda-volumes, partindo de ônibus para Glenelg. As instalações sanitárias da estação estavam fechadas naquele dia, e depois de descobrir isso e ser obrigado a andar até o chuveiro público o homem pode ter atrasado-se até 30 minutos, o que explica o motivo de ele ter perdido o trem e embarcado no próximo ônibus disponível.

INQUÉRITO

Um inquérito legista conduzido por Thomas Erskine Cleland para definir a causa da morte começou poucos dias após a descoberta do corpo, sendo mantido em aberto até 17 de junho de 1949. O patologista investigador Sir John Burton Cleland reexaminou o cadáver e fez diversas descobertas. Burton notou que os sapatos do homem estavam consideravelmente limpos e pareciam ter sido engraxados recentemente, ao contrário do estado esperado dos sapatos de um homem que aparentemente ficou vagando por Glenelg o dia inteiro. Ele acrescentou que esta evidência se encaixava na teoria de que o corpo pode ter sido levado para a Praia de Somerton após a morte do homem, levando em consideração a falta de evidências de vômito e convulsões, os dois efeitos principais de envenenamento.
Thomas Cleland especulou que, como nenhuma das testemunhas pôde identificar positivamente o homem que viram na noite anterior como sendo a mesma pessoa descoberta na manhã seguinte, permanecia em aberto a possibilidade do homem ter morrido em outro lugar e seu corpo ter sido abandonado na praia. Ele enfatizou que essa teoria não passava de especulação, pois todas as testemunhas acreditavam ser "definitivamente a mesma pessoa", devido ao fato do corpo ter permanecido no mesmo local e caído na mesma posição distinta.

Cedric Stanton Hicks, professor de Fisiologia e Farmacologia da Universidade de Adelaide, testemunhou que o uso de drogas que seriam extremamente tóxicas em doses orais relativamente pequenas para não deixar rastros no organismo era praticamente impossível, mesmo que se suspeitasse de sua aplicação em primeiro lugar. Hicks notou que o único "fato" não definido em relação ao corpo foi a evidência de vômito. Ele então afirmou que esta ausência de sintoma não era desconhecida, mas que não poderia estabelecer uma "conclusão realista" sem ela. O professor também afirmou que se a morte tivesse ocorrido sete horas depois que o homem foi visto se mexendo, isso implicaria a ingestão de uma dose alta, mas que ainda assim não pode ser detectada. Notou que o movimento de braço do homem, presenciado pelas testemunhas às 07:00 da noite, pode ter sido a última convulsão anterior à sua morte.

No começo do inquérito, Thomas Cleland declarou: "Eu não me surpreenderia se confirmasse que ele morreu envenenado, e que o veneno provavelmente foi um glicosídeo e que não foi administrado acidentalmente; o que eu não posso dizer é se foi administrado pelo próprio morto, ou por outra pessoa". Apesar de suas descobertas, ele não foi capaz de determinar a causa da morte do Homem de Somerton.

O fracasso em desvendar a identidade e o que levou à morte do homem levou as autoridades a definirem aquele como um "mistério sem paralelos" e acreditarem que a causa da morte jamais seja determinada. Um editorial de época chamou o caso de "um dos mistérios mais profundos da Austrália", observando que, se o homem morreu por consequência de um veneno que de tão raro e obscuro não pôde ser identificado por especialistas em toxologia, então o conhecimento avançado em substâncias tóxicas do autor do crime apontava certamente para algo muito mais sério do que um mero envenenamento doméstico.

LIGAÇÕES COM RUBAYAT, DE OMAR KHAYYAM


Na mesma época do inquérito, um pedaço de papel impresso com as palavras "Tamam Shud" foi encontrado em um compartimento secreto disfarçado no bolso de uma das calças do homem. Oficiais da biblioteca pública foram convocados para traduzir a nota, identificando-a como uma frase, de significado "fim" ou "terminado", encontrada na última página da coleção de poemas Rubaiyat, de Omar Khayyām.

O verso do papel estava em branco, e a polícia conduziu uma busca por toda a Austrália para encontrar uma cópia do livro que apresentasse um verso em branco similar, não obtendo sucesso. Uma fotografia do pedaço de papel foi enviada então para departamentos de polícia inter-estaduais e divulgada ao público, levando uma pessoa, na época sob o pseudônimo de “Roland Francis” a revelar que havia encontrado uma rara primeira edição de Rubaiyat traduzida por Edward FitzGerald e publicada na Nova Zelândia pela Whitcombe and Tombs, no assento traseiro de seu automóvel, que se encontrava estacionado destrancado em Glenalg na noite de 30 de novembro de 1948. Esta pessoa não sabia da conexão do livro com o caso até ver o artigo no jornal do dia anterior, e sua identidade e profissão foram mantidos em segredo pela corte, assim como as razões que levaram a protegê-lo desta forma.

O livro não trazia as palavras "Taman Shud" na última página, cujo verso estava em branco, e exames de microscopia indicaram que esta página específica havia sido arrancada. O último verso de Rubaiyat, imediatamente antes de "Taman Shud", é:

And when thyself with shining foot shall pass
(E quando você mesmo, com os pés brilhantes, passar)

Among the Guests Star-scatter'd on the grass
(Junto dos convidados espalhados pelas estrelas [?] na grama)
And in your joyous Errand reach the Spot
(E em sua alegre missão alcançar o ponto)
Where I made One - turn down an empty Glass!
(Onde eu fiz um - vire um copo vazio!)

Esta primeira edição, publicada pela Whitcombe and Tombs, usa a palavra "shining - brilhante" no lugar da palavra "silver-prateado" que é encontrada em outras traduções de FitzGerald e edições posteriores. Isto levou a polícia a teorizar que o homem havia cometido suicídio ao ingerir o veneno, embora não exista outra evidência que suporte esta teoria.

Nas costas do livro, foram encontradas algumas anotações feitas fracamente com um lápis. Após exame ultravioleta, foi possível ler cinco linhas de letras maiúsculas, com a segunda delas riscada. As letras riscadas foram posteriormente consideradas significantes por sua similaridade com as da quarta linha, indicando provavelmente um erro e, mais além, uma possível prova de que as letras seriam um código:


WRGOABABD
MLIAOI
WTBIMPANETP
MLIABOAIAQC
ITTMTSAMSTGAB

No livro não está claro se as duas primeiras linhas começam com um "M" ou "W", mas acredita-se ser a letra W, devido à diferença distintiva quando comparado com a primeira letra da quarta linha. A segunda linha “MLIAOI" está riscada. Embora a última letra nesta linha pareça um "L", é bastante claro em uma inspeção mais próxima da imagem que seria um I, mas teria ficado com aparência de L por causa do risco feito por cima. Além disso, o outro "L" tem uma curva característica para baixo. Há também um "X" acima de um 'O' no código, e não se sabe se isso é significativo para o entendimento do código ou não. Inicialmente, especularam ser palavras estrangeiras, até perceberem que era um código. Muitos peritos e especialistas tentaram decifrar o código, porém sem sucesso, declarando que havia “caracteres insuficientes” e que poderia ser “apenas obra de uma mente perturbada”.

Um número de telefone que não constava no catálogo também foi encontrado nas costas do livro. O número pertencia a uma ex-enfermeira que morava na Rua Moseley em Glenelg, situada a 800 metros do local onde o corpo foi encontrado. A mulher declarou que, enquanto trabalhava no Royal North Shore Hospital em Sydney durante a II Guerra Mundial, era dona de uma cópia do Rubaiyat mas que em 1945, no Clifton Gardens Hotel em Sydney, deu-a de presente a um tenente do exército chamado Alfred Boxall, que servia então na Seção de Transporte de Água do Exército da Austrália.

De acordo com informações divulgadas pela mídia, a mulher afirmou que depois da guerra mudou-se para Melbourne e se casou. Tempos depois ela teria recebido uma carta de Boxall, mas respondeu-lhe que já havia se casado. Ela acrescentou ainda que no final de 1948 um homem misterioso perguntara a seu vizinho de porta informações sobre ela. Tendo como base o molde em gesso feito da cabeça até os ombros do cadáver, ela não foi capaz de identificá-lo como sendo Boxall, e que também não conheceria o homem, porém testemunhas, incluído o detetive Leane, no local disseram que a mulher havia “ficado com aparência totalmente abalada, pálida, como se estivesse prestes a desmaiar.” Paul Lawson, técnico que havia feito o molde de gesso, afirmou anos depois em uma entrevista que a mulher havia olhado o molde por poucos segundos, depois se recusou a olhar novamente.

A polícia ainda assim acreditou que o morto fosse Boxall, até encontrá-lo vivo e com sua cópia do Rubaiyat, completa com o "Taman Shud" na última página. Boxall agora trabalhava no setor de manutenção do Depósito de Ônibus de Randwick (onde trabalhara antes da guerra) e não fazia idéia da ligação entre ele e o homem morto. No frontispício de sua cópia do Rubaiyat, a mulher havia copiado o verso 70:

Indeed, indeed, Repentance oft before
(Na verdade, de fato, arrependimento antes)
I swore--but was I sober when I swore?
(Eu jurei - mas eu estava sóbrio quando eu jurei?)
And then and then came Spring, and Rose-in-hand
(E então e depois veio a Primavera, e com a rosa na mão)
My thread-bare Penitence a-pieces tore.
(Minhas penitências descalças se despedaçaram em pedaços.)

Quando questionado por repórteres sobre o significado do verso, Boxall desconversou, dando uma resposta evasiva.

A mulher vivia agora em Glenelg, mas negou conhecer qualquer detalhe sobre o morto ou o motivo de sua visita ao subúrbio que ela morava na noite em que morreu. Solicitou então que, uma vez que havia se casado, seu nome fosse omitido do inquérito policial para evitar quaisquer constrangimentos ao tê-lo ligado ao morto e Boxall. A polícia concordou, impossibilitando que investigações subsequentes contassem com uma das melhores pistas do caso.

Kate Thomson
Em seu livro sobre o caso, Gerry Feltus afirmou que, quando entrevistou Thomson, em 2002, achou que a mulher estava sendo "evasiva" ou "simplesmente não queria falar sobre isso". Feltus acredita que Thomson sabia quem era o homem encontrado na praia. A filha de Thomson, Kate, em uma entrevista no programa “60 minutes”, em 2014, também disse que acreditava que sua mãe conhecia o homem morto. Porém, Thomson faleceu em 2007, levando seus segredos consigo para o túmulo.

PÓS INQUERITO

Após o inquérito, foi feito um molde em gesso da cabeça e ombros do homem, e ele foi então sepultado no cemitério West Terrace em Adelaide. Os serviços fúnebres foram conduzidos pelo Exército de Salvação, e a The South Australian Grandstand Bookmakers Association arcou com as despesas para evitar que o homem fosse enterrado como indigente.

Mensagem no túmulo do homem: "Aqui jaz o homem desconhecido que foi encontrado na praia de Somerton no dia 1º de Dezembro de 1948".
Anos depois do enterro, flores começaram a ser depositadas sobre o túmulo. A polícia questionou uma mulher vista deixando o cemitério, mas ela negou que soubesse qualquer coisa sobre o homem. Na mesma época, uma recepcionista do Strathmore Hotel, que ficava em frente à Estação Ferroviária de Adelaide, revelou que um estranho havia se hospedado no quarto 21 no mesmo período da morte, deixando o hotel em 30 de novembro de 1948. Ela relembrou que o homem falava inglês e carregava uma maleta preta, semelhante a de um médico. Outra funcionária havia revelado a ela que teria olhado dentro da mala, e lá teria encontrado um objeto que se assemelharia a uma “agulha” ou “seringa”.

Houve inúmeras tentativas mal sucedidas desde sua descoberta para desvendar o código encontrado no livro, incluindo os esforços de inteligências militares e navais, matemáticos e desvendadores de códigos amadores. Em 2004, o detetive aposentado Gerry Feltus sugeriu em um artigo do Sunday Mail que as 9 primeiras letras da linha final "ITTMTSAMSTGAB" poderia representar as iniciais para “"It's Time To Move To South Australia Moseley Street...", em tradução livre seria algo como "É hora de se mudar para o Sul da Austrália Moseley Street ..." (a ex-enfermeira morava em Moseley Street, que é A estrada principal através Glenelg). Uma análise de 2014 feita pelo lingüista computacional John Rehling apóia firmemente a teoria de que as letras consistem como letras iniciais de um texto em inglês, levando acreditar que seria de fato uma forma mais curta de escrever um texto, e não um código em si. Foi feita uma busca intensa por livros que poderiam conter palavras com as letras iniciais do código naquela mesma ordem, mas nada foi encontrado. O seu significado provavelmente jamais será desvendado.

A Sociedade Histórica da Polícia Australiana do Sul ainda tem posse do busto de gesso, que contém fios do cabelo do homem. Qualquer tentativa adicional de identificar o corpo foi dificultada pelo embalsamamento de formaldeído, tendo destruído grande parte do DNA do homem. Outras evidências-chave também já não existem, como a mala marrom, que foi destruída em 1986. Além disso, declarações de testemunhas desapareceram dos arquivos policial ao longo dos anos.
À esquerda, orelha do homem encontrado na praia, à direita orelha de um homem caucasiano para comparação.
Em investigações adicionais, foi descoberto que o homem tinha uma curvatura da orelha muito característica, algo que só era encontrada em 1-2% da população caucasiana. Também foi descoberto que o homem era portador de Hipodontia, uma condição de possuir menor número de dentes que o natural, acontece em apenas 2% da população mundial; Investigadores tiveram acesso a fotos do filho de Thomson, Robin, e descobriram que o garoto também possuía não somente a orelha característica como Hipodontia também. As chances disso ser uma coincidência é de uma em 10,000,000 e uma em 20,000,000 respectivamente. Por esse motivos foi especulado que Robin Thomson, que tinha 18 meses em 1948, poderia ser filho do falecido. Porém como Robin já havia falecido em 2009, a justiça não concedeu o direito de exumação do corpo para fazer os testes de DNA, pois como foi declarado, “Seria necessário que houvesse razões de interesse público que vão muito além da curiosidade pública ou do interesse científico geral.”


02/12/2016

SETEALÉM

Olá creepers queridos do meu coração! O blog anda meio parado, eu sei, vocês já sabem que eu tô sofrendo com minha tendinite, mas estou fazendo o que posso para manter aqui atualizado. 

Então, esses dias eu estava em um grupo do Facebook quando me deparei com um relato do Luciano Milici, que é escritor e roteirista, mas desta vez ele não estava lá para escrever um conte de ficção, e sim contar uma história real que havia acontecido com ele nos anos 90. Ele contava sobre como quase foi parar em um tal lugar desconhecido chamado "Setealém". Anos depois, ele criou uma comunidade no orkut com o mesmo nome do lugar, mas sem colocar nada muito especificado, como conta em seu relato, para ver se mais pessoas haviam passado pelo mesmo que ele. E deu certo. 

Hoje eu trago o relato original de Luciano, dois relatos que ele havia salvo da comunidade do orkut e mais um de uma amiga pessoal minha. Luciano me disse que em breve ele terá acesso ao seu antigo HD para postar mais relatos que salvou no passado. Assim que tiver acesso, postarei aqui também. 

Aliás, quando você procura sobre Setealém no google, você não encontra nada a respeito, apenas alguns livros em latim com palavras similares, mas nada que fale desse lugar em especifico. Mas mesmo assim, as pessoas parecem já ter visitado ou conhecido esse lugar. Eu mesma, Divina, tenho a impressão de já ter ouvido falar desse lugar alguma vez na minha vida. 

Ok, chega de enrrolação. Se você já foi em Setealém, conhece alguém que foi ou passou por alguma situação parecida de universo paralelo, comente aqui! 

Ps: Os relatos podem ter sido levemente editados para mais fácil entendimento do leitor. 

***

RELATO DE LUCIANO MILICI.

"Estou até com medo de contar isso aqui.

Na década de 90, eu voltava da faculdade diariamente por uma avenida movimentada e sempre pegava qualquer ônibus que descesse a tal avenida. Não importava o ônibus, porque o importante era chegar perto do metrô que ficava no final da avenida.

Num certo dia, peguei um ônibus qualquer, lotado e comum, como sempre fazia na avenida e segui. O trajeto costumava levar meia hora e eu aproveitava para ler. Em dado momento, uma mulher me cutucou e disse "Você não vai para SeteAlém, vai?". Eu, confuso, não entendi nada. Ela voltou a falar "Esse ônibus vai para SeteAlém. É melhor você descer". Eu sorri para ela e olhei para os lados. Juro. Todo mundo tava me olhando.

Outra mulher falou: "É, vai desce, moço". Um cara acenou positivamente com a cabeça "Desce aí". O cobrador gritou para o motorista "Vai desceeeer!". O ônibus parou e eu, obviamente, desci sem entender nada e até meio acuado. Faltavam alguns quarteirões para o metrô e eu tive de andar. O ônibus - aparentemente idêntico aos demais - virou à direita em uma rua estreita e subiu uma ladeira de paralelepípedos. Trajeto estranho.

Nunca mais encontrei aquelas pessoas ou presenciei esse comportamento estranho num ônibus daquela avenida. Na época do Orkut, montei uma comunidadade sobre o tema, mas sem dar detalhes para não influenciar. Queria ver se meu "delírio" fazia sentido. Duas dúzias de pessoas do país todo contaram histórias muito parecidas.

Um cara disse que entrou no banheiro de um shopping e saiu - segundo ele - em um shopping diferente, localizado em SeteAlém. Disse que passeou por esse shopping e descreveu pontos muito estranhos. Depois, ele disse que retornou ao banheiro e se viu de volta ao shopping original.

Uma garota do nordeste contava que algumas pessoas da cidade dela que trabalhavam como office-boys nas ruas, se perdiam nesse "bairro chamado SeteAlém", depois voltavam e não conseguiam mais achar o local estranho.

Várias pessoas postaram testemunhos dizendo que era comum, acidentalmente, pessoas transitarem daqui para lá e de lá para cá. Diziam que isso podia explicar alguns desaparecimentos também. Não sei.

Só sei que sempre sonho com esse local, desde então. Juntei todos os relatos e apaguei a comunidade quando ela se desvirtuou em histórias genéricas de terror e ficção, porém, guardei tudo o que foi falado, bem como os contatos de quem falou."

***

RELATO DE JÚLIO, PORTO ALEGRE - RS

“Meu nome é Júlio, trabalho em uma academia em Porto Alegre. Fiquei feliz por ver essa comunidade porque esse maldito nome não me sai da cabeça.

Há seis meses, fui com a minha namorada ao cinema. Fomos comemorar dois anos de namoro. Fizemos aquele programa básico: jantamos no shopping e depois fomos assistir ao filme. Assim que saímos da sessão, caminhamos pelos corredores para olhar as vitrines. Minha namorada disse que iria comprar uma bolsa e me pediu para esperá-la próximo a uma revistaria. Desconfiei que ela queria me fazer uma surpresa de namoro, concordei e fui olhar algumas revistas da banca. Disse a ela que a aguardaria lá e ela retrucou dizendo que não demoraria.

Assim que ela se afastou, fui ao banheiro que ficava exatamente no corredor em frente à revistaria. Havia quatro ou cinco pessoas no local que é bem grande. Todos os mictórios, porém, estavam ocupados e, por isso, fui a um reservado. Jogo rápido, nem cheguei a travar a porta. Tirei meu celular do cinto e o coloquei sobre uma apara de madeira.

O mais estranho é que não fiquei nem dois minutos dentro do reservado. Ouvi risos de crianças no banheiro e conversas. Assim que terminei de urinar, saí. Não sei se consigo descrever, mas já havia algo estranho no banheiro. Não sou muito de reparar em detalhes. Minha namorada é. Ela é virginiana. Apesar disso, notei que algo havia mudado. Começando pelas luzes que estavam amareladas e não brancas. Muito amareladas, quero dizer. Uma faixa verde bem grossa cruzava a parede e os espelhos estavam menores. Não havia ninguém lá dentro. Nem as crianças que haviam gargalhado há poucos segundos.

Lavei as mãos e achei que estivesse ficando louco. Para mim, a água estava meio morna e muito, muito grossa. Nojenta, para falar a verdade. Procurei por papel e não encontrei. Saí balançando as mãos para secarem no ar.

Fora do banheiro, achei que fosse desmaiar. Achei que havia saído pela porta errada ou entrando em algum corredor novo. Bom, pelo menos, foi o que tentei acreditar.

O shopping estava parecendo, na verdade, uma galeria. Ainda era um shopping, conceitualmente, mas estava bem mais velho e desgastado. A luz era fraca e as lojas pareciam amontoados de produtos. Tudo muito feio.

Andei acelerado até uma área mais aberta e tive a certeza de que não estava mais em um lugar conhecido. Nada era parecido com o que eu já havia visto em algum lugar na minha cidade ou até na televisão. Começando por pequenos detalhes que me assustaram. Havia uns aquários do tamanho de latas de lixo espalhados em todo lugar. Dentro desses aquários, eu identifiquei uma espécie de pano, sei lá, parecia um pedaço de cobertor roxo que ficava se mexendo dentro desses aquários. As pessoas iam até esses aquários e colocavam as duas mãos em cima e começavam a rir! E eram risadas feias, como se tossissem com o peito cheio de catarro. Fiquei parado, olhando para esses aquários. As pessoas vinham em grupos de dois ou três, encostavam e riam. Mexi a cabeça para os lados rapidamente procurando minha namorada. Tudo o que eu queria era entender o que estava acontecendo e ver um rosto conhecido.

As pessoas passavam por mim e me ignoravam. Eram parecidas com pessoas normais, mas ainda assim, não eram totalmente normais. Elas eram parecidas ENTRE ELAS também. Não idênticas, como gêmeos. Não sei explicar. É como quando você viaja para um país diferente onde as pessoas têm traços parecidos, mas também têm traços particulares.

Ah, e a revistaria não estava mais lá.

No local, um homem vendia peças ou algo assim. Ele tinha uma mesa grande de madeira rústica com vários objetos pretos que pareciam ser de ferro. Os objetos tinham formatos estranhos: ganchos, ferraduras e engrenagens. Cheguei perto e ele perguntou se eu ia trocar ou comprar. Eu não respondi.

Uma menina de, mais ou menos, sete anos, se aproximou e pegou uma peça de ferro que parecia uma colher negra e mostrou para a mãe dela. A mãe se aproximou e pegou uma carteira para pagar. A garota apontou a colher para mim e eu pude ver bem seu rosto. Era normal, mas também tinha algo de muito estranho. Não sei se eram as sobrancelhas ou a distância dos olhos. Senti um medo inexplicável. O olhar da menina passava uma maldade sem tamanho.

O homem respondeu para ela:

- Não, não, ele não vai comprar, pode pegar. Acho que ele nem é daqui de Setealém.

A mãe me olhou com nojo. Tomou a colher da menina, colocou de volta na mesa e puxou a filha pra longe de mim, como se eu tivesse uma doença. Comecei a ficar tonto e me sentei em um banco de madeira que era muito parecido com os bancos normais de shopping, exceto que esse era bem mais baixos e só acomodavam uma pessoa. Vi outros bancos desses naquele local.

Um som alto tocou e todo mundo parou e olhou para cima. Era um barulho alto e grave como aquelas buzinas de navio que a gente vê em filme. Depois que o som parou, todos retomaram seus caminhos.

Pensei na minha namorada e na minha mãe. Aquilo só podia ser um sonho. Levantei rápido e fiquei tão tonto que precisei me apoiar em uma vitrine que, falo de todo o meu coração, vendia pombas vivas. Pombas! Umas dez pombas andavam por lá, tentavam voar e se bicavam atrás da vitrine de vidro. Gritei.

As pessoas começaram a me olhar e a apontar para mim. Cochichavam.

Decidi ligar para minha namorada. Coloquei a mão no cinto e meu celular não estava mais preso a ele. Eu havia esquecido na apara do reservado. Voltei pelo corredor e entrei rapidamente no banheiro. Três homens estavam sentados no chão do banheiro. Um deles, debaixo da pia. Conversavam algo que eu não quis nem saber. Pulei por cima deles e entrei no reservado.

Meu celular ainda estava lá. Tranquei a porta, sentei no vaso e tentei ligar para minha namorada, mas não consegui. O aparelho estava simplesmente apagado. Apertei os botões com força, mas não adiantou. Ouvi risos de crianças novamente. Fiquei lá uns dez minutos, até que alguém bateu na porta. Era o rapaz da revistaria. Ele disse que havia me visto entrar no banheiro e que minha namorada já estava me aguardando na banca dele. Ele perguntou se eu estava passando mal ou algo do gênero.

O banheiro estava claro e o shopping estava normal. Minha namorada não acreditou em mim, mas viu que eu estava realmente muito nervoso. Foi o pior dia da minha vida. Estraguei nossa comemoração passando mal do estômago horas depois.
Não voltei ainda ao shopping e estou pensando seriamente em fazer terapia. Eu achei que tinha ficado louco até achar essa comunidade com o mesmo nome dito pelo homem daquela banca bizarra. Setealém. Deus me livre existir um lugar daquele."

***


RELATO DE ANTÔNIA, 40 ANOS, ENFERMEIRA.

“Aconteceu nessa semana, pessoal. Eu tava vendo televisão. Minha filha, Patrícia, de 7 anos, estava brincando na sala. Ela fez um risco em um papel e falou:

- Mamãe, falta isso de dias pra eu ir na festa na casa do papai!

Ela estava certa. Faltava um dia para a tal festinha. Antes que eu falasse algo, o telefone tocou. Bem na hora da novela! Atendi com raiva. Principalmente porque a extensão da sala estava quebrada e eu tive que atender no meu quarto. Era um homem com voz estranha. Muito grossa e áspera.

- Senhora Antônia? A senhora é mãe da menina Patrícia?

- Sim, sou eu. Quem quer saber?

- A senhora precisa ir até a escadaria do condomínio buscar sua filha.

- Escadaria? Que escadaria? Qual condomínio?

- Eu não sei, senhora. Ela não estava vestida com uma camiseta verde quando desapareceu? A

senhora pode ir até a escadaria do condo...

- Camiseta verde? Minha filha nem tem camiseta verde, seu maluco! Escuta aqui. Vou ligar para a polícia, tá? Minha filha tá aqui na sala comigo. A gente mora em sobrado e não em condomínio. Fica passando trote a essa hora, seu...

O homem desligou.

Corri até a sala e Patrícia estava lá, quietinha com seu caderno e um monte de giz de cera.
Ontem, mandei a Patrícia para a casa do pai dela, para a festinha. Coloquei nela uma blusinha cor de rosa e uma jaqueta por cima. Meu ex-marido me trouxe ela de volta à noite. Patrícia me agarrou muito forte quando me viu. Perguntei se tudo tinha ido bem, ele disse que antes de trazê-la, passou no prédio da nojenta da nova namorada dele e que a Patty derrubou suco na blusa e, por isso, ele precisou pegar uma camiseta emprestada da filha da namorada dele.

Isso mesmo, minha filha estava com uma camiseta verde.

Quis saber se tinha acontecido algo de estranho além disso, ele respondeu que não. Falou que Patrícia saiu da festa toda feliz, mas que na volta ficou estranha e séria. Realmente, minha filha estava muito esquisita.

Quando ele foi embora, tentei conversar com Patty, mas ela não se abriu de início. Insisti muito e ela contou que quando desceu as escadas do prédio da namorada na frente do pai, ela se perdeu e foi parar em um outro prédio chamado Setealém. Ela disse que ficou chorando alto e chamando pelo pai, até que um homem bonzinho, com olhos amarelos, pegou ela e levou pra casa dele.

- Credo, filha, que história maluca é essa? Você não se perdeu do seu pai, não. Ele te trouxe! Tá tudo bem – falei, com a nuca gelada.

- O homem bonzinho com olho amarelo telefonou pra cá, mamãe, mas você disse que pra ele que ia chamar a polícia e que eu tava aqui com você e ele desligou. Depois, ele me mandou descer a escada do prédio de novo e o papai me encontrou.

Somente agora pouco, antes de eu entrar no Orkut, é que minha filha veio me mostrar uma folha de papel com sete riscos. Perguntei o que era aquilo e ela falou:

- Foi isso de dias que eu fiquei na casa do homem, longe de você, mamãe.

Não sei o que dizer. Minha filha passou apenas algumas horas longe de mim, mas consegue contar com convicção cada um dos detalhes dos sete dias em que ficou hospedada na casa do homem bonzinho de olhos amarelos que mora em Setealém.

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RELATO DE LAURA, 23 ANOS.

Cara, eu e minha irmã estamos surtando aqui pois temos certeza que já fomos parar nesse lugar!

No segundo semestre de 2014 eu morava em Florianópolis com ela e minha prima. Meu primo foi passar umas semanas lá e decidimos voltar de carro com ele pra São Paulo. Chegando próximo a Curitiba, o waze jogou a gente numa rota que parecia ser mais rápida, pegamos quando tava começando a anoitecer. 

De início estava tudo ok, mas conforme a gente foi seguindo, a estrada ficou MUITO sinuosa, cercada de mato, não tinha acostamento nenhum e nenhum carro próximo da gente. Depois de mais de uma hora só fazendo curvas e curvas e curvas, começaram a aparecer vários caminhões passando muito perto de nós. O GPS perdeu o sinal, não tinha área e a bateria de todo mundo acabou. Só a do celular ligada ao carro tava funcionando. Todo mundo começou a ficar apavorado dentro do carro porque, segundo o waze, seguiríamos 8 horas por essa rota até chegar em Sorocaba.

Depois que os caminhões sumiram, ficamos sozinhos de novo na estrada. Começamos a sentir muito cheiro de queimado, parecia que vinha de dentro do carro, mas nenhuma fumaça aparente. Chegamos em um trecho onde havia um pouco de mato cortado, decidimos parar. Quando saímos do carro, cara, sério, o céu tava uma coisa absurda, nunca vi um céu daqueles! A gente ficou muito tempo lá olhando porque parecia aquelas fotos de constelação. Só que me deu uma sensação MUITO ruim, e eu comecei a ter crise de ansiedade, pedi pra sairmos dali. 

Seguindo o caminho, passamos por um carro carbonizado, e todo mundo começou a achar que era o nosso carro e que tínhamos morrido num acidente e que a gente ia ficar presos naquela estrada para sempre. Depois desse carro, começaram a aparecer pessoas andando sozinhas pela estrada. A cada km uma ou duas pessoas vagando. E a gente tava no meio do nada! Ficávamos nos perguntando "o que essas pessoas estão fazendo vagando de madrugada nessa estrada?". Depois de quase 5 horas assim, chegamos no que parecia ser uma cidadezinha. Muito esquisita, muito escura, com muitas pessoas andando pela rua. Avistamos um bar onde haviam pessoas sentadas na frente e resolvemos parar pra usar o banheiro e nos acalmar.

Estacionamos o carro, atravessamos a rua e fomos pra esse bar. Chegando lá, todas as pessoas ficaram encarando a gente de uma maneira muito esquisita. minha irmã, minha prima e meu primo foram no banheiro, fiquei sozinha esperando, e as pessoas não paravam de me olhar! Decidi sair do bar e esperar na porta, onde tinha uma mesa com 4 pessoas, três caras e uma garota que parecia ter a minha idade. Eles começaram a falar sobre mim, me apontar, e fui ficando cada vez mais desconfortável. 

Os três voltaram do banheiro dizendo que era tudo muito esquisito, que tinham vãos imensos nas cabines e que dava pra conversar com quem tava no banheiro masculino do feminino e vice-versa. Minha irmã comprou água, energético e umas balas. O dono do bar atendeu a gente sem falar nada, de uma maneira muito seca. Voltando para o carro, contei da mesa da menina que ficou falando de mim, e eles continuaram lá, olhando pra gente daquela maneira esquisita. 

Voltamos para estrada e depois de mais uma/duas horas chegamos em Sorocaba. só lá o sinal do celular voltou, meu celular ligou e tinha quase metade da bateria, e era por volta das 21h. a gente perdeu noção total do tempo porque tínhamos certeza que era de madrugada.

No dia seguinte fui pesquisar sobre a estrada. É a estrada do ribeira, uma das piores do estado, rolam muitas mortes por lá, e só é usada por caminhões praticamente. O lugar todo é praticamente ribanceira. 

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E AÍ? Já foi parar sem querer no Setealém?