07/03/2015

O Jogo do Celular - Parte I

Olá, tudo bem? Você pode me chamar de Jack. Não é meu nome verdadeiro, mas é o que posso passar por enquanto. Calculo que a hora para contar minha história chegou. Acredite ou não, aqui está. Sugiro que você aprenda as lições que ela ensina, mesmo que a dispense como besteira, assim como 98% de outras histórias na internet.

Porém, há mais verdade nessa história do que em qualquer outra que você conheça.

Bem, estou fora do ensino médio há três anos, mas é quando esse evento em particular acontece, então vou ter que voltar meu relógio um pouco para contar a história.

A princípio, no começo do ensino médio, eu ia à escola na parte sul da América, próximo ao golfo. Nós tínhamos todo tipo de histórias de fantasmas crescendo e se tinha uma lição que nossos pais superconservadores nos ensinavam era esta: não se meta com coisas que você não entende.

Bem, eu realmente não era popular na minha escola no Sul. Meus primeiros anos foram realmente dolorosos porque eu era um grande idiota e todo mundo me zoava. Eu era um solitário e o que eu realmente fazia na sala de aula era jogar no meu Game Boy o dia todo antes de correr para casa para jogar um MMO que eu era viciado.

Tudo isso mudou no meu penúltimo ano, quando o trabalho da minha mãe nos fez mudar para o Oeste.

Eu comecei a frequentar uma pequena escola católica com não mais que 250 estudantes. Foi nessa época que finalmente comecei a me ajustar e fazer amigos. Ninguém ali sabia o quão idiota eu era, então eu optei por “esconder meu nível de poder”, como dizem nos animes, e tentar fazer amigos pela primeira vez na vida. Quem sabe? Talvez eu pudesse até conquistar uma namorada gatinha se eu fosse cuidadoso.

Comecei a conhecer o pessoal da escola. Como a escola era pequena, você acaba conhecendo todo mundo da sua sala.

Em meu primeiro dia eu fiz um amigo chamado Sam e na hora do almoço eu escolhi sentar com ele e seus amigos. Ele me falou sobre as outras pessoas da escola – quem era o mais popular, quem eram os atletas e assim por diante.

Ele também me apresentou a seus amigos: Jim, um cara grande que pesava uns 100 quilos; Volgeman, o hacker nerd da mesa; e Thomas, que tocava guitarra.

Também conheci Stephanie, a garota asiática e descolada do colégio. Alguns dos garotos diziam que ela era uma vadia, mas ela parecia ser bem legal. Ela estava sempre jogando e nunca mexeu com nenhum de nós. Ela até parecia pensar que eu era engraçado, talvez seja por isso que ela tenha começado a me ligar às vezes depois da escola.

Sam me contou todo tipo de história sobre ela, como ela costumava fazer lanches pros garotos da escola e borrifava Viagra sobre a comida, ou colocava laxante dentro, então quem comesse sofreria com sua piada dolorosa e indiscutivelmente cruel. Eu apenas ria e, educadamente, recusava sempre que ela me oferecia alguma coisa.

E tinha o Rottenbacher. Seu nome verdadeiro era Jason, mas todos o chamavam de “Rottenbacher” ou “Kraut” porque ele era um nazista da pesada. Ele era marginalizado e solitário, ninguém queria ser associado a ele. Todo dia ele ia para a escola usando uma braçadeira com uma suástica vermelha por baixo de sua jaqueta, onde os professores não podiam ver, mas toda vez que esquentava e ele tirava a jaqueta – ou toda vez que ele se trocava no vestiário – ele estava vestindo a braçadeira nazista.

Além disso, no Halloween e nos eventos à fantasia da escola, quando ele sabia que poderia se safar, Rottenbacher sempre usava um uniforme completo da Schutzstaffel (SS), como as vestes da Gestapo, com o chapéu preto e as botas longas.

Ele era um completo filho da p%amp;. Sempre que alguém contava sobre ele a algum professor ou perguntava a ele sobre essas coisas nazistas, ele dizia insultos racistas e étnicos, xingava e gritava “Heil Hitler!”.

Além disso, uma coisa peculiar que chamou minha atenção e que eu não pude deixar de notar foi que Rottenbacher sempre andava mancando ligeiramente, como se estivesse com dor. Sam me contou uma vez que alguém o viu no vestiário apertando uma cinta de cilício em sua perna, como a que os padres católicos usavam para punir a si mesmos por seus pecados.

Aquela era uma escola católica, então eu, como a maioria das pessoas, apenas supus naquele momento que talvez ele usasse o cilício porque era um cristão devoto. Isso era um pouco estranho para um amante hardcore de Hitler como Rottenbacher, mas era o Ensino Médio e nenhum de nós preferia pensar muito sobre coisas como esta.

Depois de me apresentar a todo mundo, Sam me contou velhas histórias da escola – incluindo uma lenda urbana que circulava sobre Kaylee, uma garota que morrera misteriosamente depois de jogar um tipo de “jogo do celular”. Claramente, ele pôde me mostrar a garota no livro anual e todo mundo recordou que a polícia declarou que ela havia desaparecido sob circunstâncias misteriosas; ela foi dada como morta pouco depois. Se você perguntasse o que exatamente aconteceu, ninguém poderia dizer uma maldita coisa. Eles sempre diziam apenas que foi porque ela jogou o “jogo do celular”.

Sam. Stephanie, a bonita e maliciosa asiática. Rottenbacher, o autotorturador nazista. O jogo do celular. A investigação policial sobre o desaparecimento de uma adolescente. Todas essas pessoas e eventos estavam prestes a se unir para me arrastar até algo de que eu não queria fazer parte. Não tem nem dois anos que eu finalmente entendi como e porque tudo veio a baixo daquela forma.

Em todo caso, o penúltimo ano da escola veio e se foi, e o longo verão passou por nós como uma batida do coração; finalmente estava na hora de começar nosso último ano na escola.

Todos estavam de volta para o novo ano letivo, empolgados para começar o mais preguiço e divertido ano de nossas vidas escolares. Até Rottenbacher, que ainda mancava pela escola com aquela cinta de cilício, ainda jorrando aquele lixo nazista toda vez que alguém decidia mexer com ele.

O ano começou estranhamente silencioso. A conversa era que havia mais dois desaparecimentos relacionados ao “jogo do celular” ocorridos durante o verão com um garoto e uma garota de outra escola, e que a polícia estava investigando um possível assassino em série. Segundo o jornal, o único elo comum que a polícia havia encontrado era que cada desaparecido tinha recebido um SMS que dizia “Bem-vindo ao jogo”. Nenhuma das mensagens havia sido enviada do mesmo telefone, então esta evidencia tinha sido considerada como circunstancial.

Para mim as coisas não estavam ruins. Era o ano em que finalmente eu começava a me abrir mais para as pessoas. Eu tinha feito um bom círculo de amigos em quem eu confiava e eu me sentia mais calmo sendo eu mesmo nesse ponto. Aos poucos fui me encaixando mais e mais e logo eu era muito popular em certos círculos.

Stephanie gostava de andar comigo mais e mais por causa do quão engraçado ela pensava que minhas piadas eram. Pouco tempo depois, um dia – que eu continuo lembrando como um dos dias mais felizes da minha vida – ela veio até mim no meio do pátio depois da escola e me olhou com aqueles lindos olhos puxadinhos, aquele longo e escuro cabelo e um sorriso de matar. Me perguntou bem assim : “Jack, quer sair comigo?” 

Eu ri, corri e pulei de alegria. "Claro que quero," eu disse, e dancei com ela na frente de todo mundo. Finalmente teria uma namorada. Era um dos dias mais felizes de toda minha vida, se não O mais feliz. Tínhamos encontros, nos encontrávamos depois da escola e ela começou a almoçar com o Sam, Jim, Volgeman e eu todos os dias. 

Talvez eu não estivesse sendo tão feliz se eu soubesse o que estava para a contecer. 

Um dia no almoço ela estava sentada conosco, quando ela mencionou que quando dormiu na casa de uma amiga outra noite, elas ficaram acordadas até tarde com umas meninas de outra escola falando sobre o jogo do celular. 

Ela disse que essas garotas sabiam sobre as regras do jogo e elas haviam explicado tudo a ela nos mínimos detalhes. 

Supostamente, você pode jogar a qualquer momento enviando um SMS ao número certo a meia-noite. A mensagem de texto teria que dizer “eu desejo o poder de amaldiçoar”. Se fizesse isso certo, você receberia uma mensagem de volta, “Bem-vindo ao jogo”, e, supostamente, essa era a razão de a polícia ter encontrado a mensagem no celular de todos que desapareceram. 

Stephanie passou a falar sobre o jogo. Nós ouvíamos atentamente o que ela estava dizendo. 

Ela nos contou que uma vez que a pessoa estava no jogo, estaria também em perigo. Em duas semanas teria que completar um número de diferentes tarefas ou alguém seria arrastado para longe durante a noite. 

Eu a interrompi bem nesse ponto. “Arrastado para longe? Pelo quê? Para onde?” 

Ela ficou em silêncio por um momento. 

“Eu não sei” ela sussurrou antes de continuar a história. 

Ela disse que para se proteger de ser arrastado, Você poderia fazer duas coisas: 

A primeira era encontrar um item protetor especial. Isso poderia ser qualquer coisa. Você nunca sabia o que poderia ser, mas parecia que qualquer item que fosse, faria o portador sofrer de algum jeito. Esse era considerado um preço pequeno em troca de proteção pelo tempo em que usasse o item. 

A segunda coisa a fazer era trazer mais alguém ao jogo. Isso poderia ser feito enviando a mensagem de texto “Bem-vindo ao jogo” ao celular de outra pessoa. Se alguém recebesse o texto de alguém que estivesse no jogo, então isso significaria que agora a pessoa que recebeu o SMS estaria no jogo e também sujeita as mesmas regras e consequências. Se a pessoa não encontrasse um item protetor ou não trouxesse outro para o jogo, então ela seria arrastada para longe. 

O detalhe sobre a segunda opção era o seguinte: enquanto um item protetor, se encontrado, poderia proteger enquanto mantivesse com você, trazer outra pessoa para o jogo traria apenas um período de carência. Na primeira vez que você trouxesse alguém ao jogo, você teria mais duas semanas. Na segunda vez, só mais uma semana. Eventualmente, o período de carência ficaria cada vez mais curto, até você mal ter tempo de trazer mais alguém para o jogo. Nessa altura você precisaria ter encontrado seu item de proteção. 

Apesar de sempre ter sido fã de Arquivo X, eu não gostei de ouvi-la falando sobre essas coisas, então disse a ela que era um monte de coisas sem sentido. 

“Você realmente acha?” Ela perguntou. “Se for verdade, isso explicaria o que a polícia encontrou. E imagine que legal seria ser capaz de amaldiçoar alguém que mexeu com você a trazendo para o jogo! Você poderia se livrar de qualquer um e ninguém jamais saberia.” 

Havia um tom na voz que eu nunca tinha ouvido antes vindo da Stephanie. Ela soava quase intoxicada por pensar isso. Verdade seja dita, isso me assustou um pouco. 

“Não diga isso” eu disse a ela. “Coisas como essa estão além de pessoas como você e eu. Não deveríamos mexer com essas coisas. E se você se envolve nisso e é tudo verdade? O que eu faria se alguma coisa te acontecesse? Prometa que você não vai se envolver nessas coisas.” 

Ela me deu um olhar engraçado. “Nunca pensei que você seria o tipo de pessoa que fica assustado com coisas bobas como essa, Jack.” 

“Bom, eu não acho que é certo mexer com coisas que você não entende, tá bom?” Eu a olhei preocupado. “Agora me prometa, Steph. Prometa que você não vai tentar isso.” 

Ela suspirou irritada. “Tá bom, tá bom. Eu não vou jogar o assustador jogo do celular. Está feliz agora?! 

Eu disse a ela que estava, mas a verdade é que eu estava assustado. Não acreditava nela. Em todo o tempo que a conhecia, nunca tinha visto ela trair alguém, mas ela sempre tinha sido trapaceira e mentirosa, e mentiria para qualquer um sobre algo que a beneficiaria sem machucar ninguém. Mas, sendo honesto, eu sempre achei isso bonitinho e apenas aceitei como sendo um de seus defeitos. Mas dessa vez era sério. 

Então, poucos dias depois, quando ela voltou e nos contou que ela havia entrado no jogo do celular eu fiquei irado.

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CONTINUA...

03/03/2015

Coelhos

Em 1998, uma das mais perturbadoras descobertas do século 20 foi feita em uma pequena cidade no estado do Alabama. Durante aquele verão, alguns residentes da cidade de Roebuck alertaram as autoridades sobre a presença de um trailer enferrujado e decadente localizado nos limites da cidade, apenas alguns metros de uma pequena área residencial.

Ocasionalmente, gritos abafados e gemidos podiam ser ouvidos, vindos do aparentemente abandonado trailer e sempre nos finais de tarde, levando os residentes a confundirem com o som de crianças brincando; até que um dia, uma senhora percebeu a estranheza dos sons e resolveu chamar a polícia.

Quando os policiais chegaram, iniciaram uma varredura no trailer. À primeira vista, o trailer parecia estar realmente abandonado. Os únicos móveis eram uma cadeira dobrável enferrujada, um sofá florido manchado, que exalava um forte cheiro de bolor, e uma surpreendentemente nova mesinha de varanda. Não parecia haver algo muito suspeito dentro do trailer. Porém, o mesmo não valia para o pequeno esconderijo abaixo dele.

Debaixo de uma fina camada de terra, uma mala foi retirada do chão abaixo do velho trailer. Dentro da mala, os policiais encontraram 14 fitas VHS sem identificação. O conteúdo das fitas parecia ser exatamente o mesmo, porém, mostrando pessoas diferentes.

As fitas começavam do mesmo jeito, uma tela preta desbotando-se para mostrar uma criança amarrada na mesma cadeira de metal que tinham encontrado no trailer. Todas as crianças nas fitas mostravam a mesma expressão de terror enquanto a câmera passava a focar seus rostos, com olhos vermelhos e fundos. Apesar da fita tampando suas bocas, seus soluços ainda podiam ser ouvidos.

Após alguns segundo de vídeo, a criança arregalava os olhos e começava a chorar de modo mais desesperador. Nesse momento, a sombra do câmeraman tornava-se visível, e era possível perceber que ele segurava um pequeno animal. Julgando pelo formato da sombra e os guinchos, o animal aparentava ser um coelho.

O câmera segurava o animal acima de sua cabeça por alguns minutos, antes de começar a sacudi-lo violentamente e joga-lo no chão com tanta força que o animal soltava um terrível grito. Você até conseguia ouvir os ossos do animal se chocando contra o chão. Como você pode imaginar, isso apenas fazia a criança chorar e gritar mais, porém, os sons eram abafados.

Enquanto a criança continuava gritando, o câmera pegava o coelho que ainda estava vivo e começava a sacudi-lo e joga-lo para cima; dava para perceber uma grande quantidade de sangue saindo do coelho e se espalhando pelo local. Enquanto fazia isso, o câmera falava, “O que houve [o nome da criança]? Pensei que gostava de animais?”

A criança não respondia, ela apenas soluçava. Então o câmera falava com um perceptível tom cínico, “Oww... olha só. Você ainda pode brincar com esse coelhinho depois que eu acabar de brincar com ele, certo?

Após falar isso, o homem pegava uma grande faca de caça, e de forma brutal, cortava o coelho ao meio. Os guinchos do pequeno animal pareciam causar diferentes reações nas crianças. Em alguns vídeos, as crianças pareciam desmaiar com a terrível cena, outras apenas se sacudiam e gritavam. Em um dos vídeos, uma garotinha bem pequena parecia ter vomitado, e como a boca estava tampada com uma fita, o vômito acabou saindo pelo nariz, o que a fez gritar de agonia, então ela começava a ficar mole, enquanto os olhos rolavam para cima. O vídeo acabou mais cedo nesse caso.

Para as crianças que não desmaiavam, o câmera jogava a faca no chão e começava a girar o coelho acima da cabeça, como se fosse as hélices de um helicóptero. Sangue e tripas se espalhava para todos os lados, inclusiva na própria criança aterrorizada. No fim, os vídeos conseguem ficar ainda mais estranhos. Enquanto as crianças continuam a chorar, elas passam, de repente, a olhar para a esquerda e arregalam os olhos enquanto o câmera fala, “Veja, [nome da criança]! Ele quer falar com você!” Após essa fala, o vídeo é cortado abruptamente.

528px-Gold Christian Cross no Red.svgO final dos vídeos eram sempre os mesmos. A imagem de uma cruz vermelha aparecia ao fundo, enquanto as palavras “OBRIGADO PELO VISITA [nome da criança]!!!” surgiam em letras brancas, seguidas pela frase “JESUS TE AMA”.

Após esse caso, a cidade de Roebuck ganhou um certo nível de infâmia no estado do Alabama. Embora o caso tenha sido aberto em 1998, nenhuma outra evidência foi encontrada na área. As crianças nos vídeos não foram identificadas, e o velho trailer foi desmontado e retirado do local, que atualmente serve como um playground para as crianças da área.

Se você decidir visitar o local, aposto que ficará surpreso com o número de coelhos selvagens que ocupam a área. O estranho, é que os coelhos adoram brincar com as crianças que vão ao local, e alguns coelhos até tentam seguir as crianças até suas casas.

02/03/2015

Skype

Eu tenho certeza que você conhece o Skype. É um programa grátis que você usa para conversar com qualquer pessoa, por webcam ou microfone. Eu usei o Skype para manter contato com alguns amigos, já que a maioria de nós estava indo para a faculdade.

Semana passada eu estava conversando com Annie, uma garota que conheci na escola. Nós acabamos de nos mudar para nossos novos apartamentos, ambos estamos solteiros e o primeiro semestre ainda não havia começado – o que significa muito tempo para conversar. Normalmente nós conversaríamos pelo menos uma vez ao dia.

Os assuntos que nós conversávamos não eram tão interessantes: Ela havia comprado fones novos, eu assisti A Princesa Prometida pela primeira vez. Mas isso não era sobre o assunto, era apenas legal ter alguma companhia familiar para conversar, sabe?

Enfim... Era uma manhã de terça-feira e eu estive fora na noite passada, e ainda podia sentir o efeito da ressaca... Mas fui acordado com o som da chamada do Skype, me xinguei mentalmente por ter deixado o notebook ligado e levantei da cama massageando as têmporas.

“Hnnhg, oi?”

Meus olhos estavam doloridos e eu tive que lutar para me concentrar e mantê-los abertos, a luz do monitor parecia muito mais forte. Annie estava sorrindo e arrumada, exibindo seus novos fones de ouvido. Ela acenou para mim levemente, e eu tentei responder com um sorriso.

“Olha só, quanta animação.” Ela disse.

“Você deveria ter me visto noite passada, meus movimentos na pista deixaram todos no chão.”

“Isso não me impressiona... Ei, você não tem um encontro com o seu tutor hoje?”

Eu olhei para meu calendário, mas a tinta da caneta parecia correr pelo papel, então eu presumi que ela estava certa, e imaginei sair pela manhã, qualquer raio de sol por minúsculo que fosse estava fazendo meus olhos latejarem.

“Ah, que se dane,” Eu murmurei. “E você, quais são os planos para hoje?”

“Esperando uma ligação da Erin. Ela viajou ontem, deixou apenas uma carta na mesa dela, dizendo que ia visitar a família.”

“Quem é Erin mesmo?” Eu perguntei, sério. Sabe como é, seus amigos falam demais dos outros amigos e você acaba não lembrando quem é quem. Annie fez uma careta.

“Minha “vizinha”, o quarto dela é em frente ao meu. Ela simplesmente desapareceu, quer dizer... Isso foi há um dia, mas eu estava pensando em dar uma ligada para os pais dela, só para saber se ela está bem.”

Eu dei de ombros. “Melhor prevenir do que remediar, não é?”

Antes que ela pudesse responder ouvi um som de alarme, ela começou a falar várias coisas que foram abafadas pelo barulho e eu cobri minhas orelhas. “O que você disse?”

“Eu disse: É o alarme de incêndio! Eu vou lá fora só por um momento ou a supervisora vai encher muito meu saco.”

“Que horas eu posso te ligar?” Eu disse, falando o mais alto que pude, mas sem gritar. Minha cabeça ainda estava doendo.

“Não se preocupe, só vou ficar lá por no máximo cinco minutos, vou deixar o Skype aberto.”

E depois de dizer isso, ela levantou, colocando os fones na mesa e saiu do quarto. Após alguns minutos o alarme cessou.

E então a porta abriu.

Não era Annie, no entanto. Estava usando um surrado terno velho e azul; um chapéu e uma máscara feita de algum bode ou ovelha, mas meus olhos foram atraídos pelas mãos: Uma luva de borracha que parecia ter algum tipo de zíper... Eu podia imaginar essas luvas em mãos açougueiros ou pessoas que saem para caçar.

Por alguns segundos eu apenas sentei lá e fiquei me perguntando se esse era algum tipo de brincadeira que a Annie estava fazendo comigo, mas depois de alguns minutos analisando a figura, parei de pensar e resolvi fazer algo.

“O que você está fazendo? Quem é você?”

A figura não me respondeu, não podia me ouvir de qualquer jeito, os fones da Annie ainda estavam conectados no notebook. Então, ele apenas ficou lá, observando o quarto. Alguns momentos depois, começou a se aproximar da mesa enquanto eu passei a mão na minha, procurando meu celular. Eu precisava avisar Annie!

Selecionei o número dela, não tirando meus olhos da tela nem por um momento. E ele parecia me olhar de volta, quase penetrando a tela.


Conectando........

Click.

Chamando........


A figura mascarada congelou. E então, calma e lentamente esticou sua mão para o espaço fora da câmera. Eu tentei me esticar e enxergar, mas era impossível.

E então eu vi.

Estava segurando o celular da Annie – ela havia deixado na mesa.

A figura virou sua cabeça para o lado, me jogando o que eu chamaria de “olhar de piedade” antes de ignorar minha ligação e colocar algo em cima da mesa de Annie. Eu vi por apenas um momento, mas parecia um envelope.

A figura andou até o closet dela e abriu a porta, se esgueirando dentro do local um momento depois, tentando se encaixar. Por um segundo, pareceu hesitar, olhando para a webcam e encontrando meus olhos, por um momento vi sua boca e seus dentes, que pareciam esboçar um sorriso.

E então fechou a porta do closet.

Eu olhei para meu celular, eu precisava chamar a polícia, não havia duvidas, mas assim que disquei o número percebi o quão estúpido soava aquilo. A cidade de Annie estava a mais de 3000km de distância da minha, eu não poderia ajudar.

Disquei o número mesmo assim.


Conectando........

Click.

Chamando........


“Emergência, em que posso ajudar?”

“Ah sim, eu preciso relatar algo—”

Não pude completar a frase.

Não pude completar a frase porque vi Annie abrindo a porta e entrando no quarto correndo. O cabelo dela estava molhado por causa da chuva e ela sorria enquanto se aproximava da webcam. Eu gritei o mais alto que pude, ainda ignorando a dor de cabeça que senti, pedi pra ela correr e senti lágrimas quentes descendo pelo canto dos meus olhos. Ela não me escutava!

Ela se sentou e pegou os fones de ouvido, e enquanto eu gritava a porta do closet se abria.

“Senhor, em que posso ajudar?”

“Senhor, o que você precisa relatar? Você está machucado?”


Senhor?”

Eu achei sua última postagem

Eu comecei a pesquisar algumas coisas na internet (e com pesquisar eu quis dizer usar o Google) e achei alguns posts em fóruns. Ele usava o Nick de “BenjiMCFC93” e era bastante produtivo – basicamente só discutia alguns tópicos nos fóruns e compartilhava memes, mas tem um comentário que chamou minha atenção.

Eu acho que foi o último post antes dele desaparecer, e – nossa! Eles ao menos tentaram questionar o pai dele? Eu não consigo achar nada nos arquivos que mencione o K***.


/// BenjiMCFC93, comentou em 28 de Agosto:

Então, eu estou na casa do meu pai. Eu perguntei se podia usar o notebook dele, porque sinceramente, não tenho nada melhor para fazer. Ele disse que sim e eu vim para o escritório dele, abri o notebook e um navegador já estava selecionado (EU JURO!) com alguns e-mails abertos. Eu sei que eu não deveria ter lido, mas eu nem sabia que meu pai estava frequentando o terapeuta, então eu acho que só fiquei preocupado com ele e queria saber se estava tudo bem. Eu realmente queria não ter lido!




Assunto: Sua primeira sessão


Oi K****,

Eu espero que você tenha conseguido tirar proveito da nossa primeira sessão, apesar dos problemas que tivemos na hora de vocalizar suas memórias e aflições daquela época. Não é incomum que as pessoas não se sintam confortáveis o suficiente para se abrir sobre experiências traumáticas – isso leva tempo. Mas eu acredito que eventualmente você vai achar ótimo falar com alguém pessoalmente. Não se sinta perturbado!

Você está no controle. Nós vamos escolher uma forma de abordar isso como você quiser.

Att,

R****




Re: Sua primeira sessão


R*****,

Eu voltei pra casa me sentindo um pouco frustrado, para falar a verdade. Eu não sei o que eu esperava de mim, ou da situação toda, mas eu achei que seria fácil falar sobre o assunto.

Olha, vou ser honesto. Eu sinto bastante vergonha em relação ao meu comportamento, é muito difícil admitir para mim mesmo, quem dirá tentar explicar para outra pessoa.

Se você estiver interessado, nós podemos tentar falar sobre isso aqui e depois continuarmos na minha próxima sessão? Eu acho que seria de grande ajuda. Eu definitivamente me sentiria mais confortável em falar sobre isso na frente do notebook do que pessoalmente.

Att,

K****




Re: re: Sua primeira sessão


Claro! Se é isso que você acha melhor, nós podemos começar a conversa aqui e continuarmos pessoalmente na próxima sessão, como você disse.

R.




Re: re: re: Sua primeira sessão


Ok... Vamos lá.

Como eu mencionei, eu cresci em uma cidade pequena e eu e Ben, éramos melhores amigos desde que tínhamos 11 anos. Nós passávamos muito tempo um na casa do outro, nos parques, nas ruas, brincando e brigando. Coisas de criança. Ele sempre foi mais esquisito do que eu, mas nós nunca fizemos algo que eu chamaria de perigoso ou sério.

Quando estávamos na metade do ensino fundamental, Ben começou a agir diferente. Ele estava sempre na minha casa, eu diria – quase todas as noites da semana, isso sem contar os dois dias dos fins de semana até tarde a noite. Meus pais começaram a fazer perguntas, e eu também comecei a me assustar um pouco com o comportamento dele. As idéias malucas que ele costumava sugerir abriram espaço para outras idéias, ainda mais malucas. Ele passou muito tempo tentando fazer uma bomba usando pregos e vários explosivos usando produtos químicos na minha garagem. Eu consigo me lembrar até hoje o medo que eu sentia dos meus pais descobrirem o que nós estávamos fazendo, mas sentia ainda mais medo de perder a amizade de Ben, se eu o pedisse pra parar.

Uma noite nós estávamos brincando na garagem da casa dele – o que era raro – e ele simplesmente levantou, saiu, e quando voltou, segurava uma faca de cozinha nas mãos. Ele me disse para entrar no freezer. Aquilo não era muito alarmante – nós tentávamos assustar um ao outro frequentemente. Eu dei risada, mas ele continuou insistindo por vários minutos, dizendo que se eu não entrasse no freezer ele cortaria minha garganta. Havia um tom diferente no jeito que ele falava. Deixe-me ser sincero: Em momento algum eu fiquei com medo dele fazer alguma coisa comigo, e em momento algum achei que minha vida estaria em perigo se eu não obedecesse. Mas eu sabia que ele queria que eu acreditasse que algo ruim aconteceria comigo, e eu senti uma ansiedade imensa ao perceber isso. Depois de um tempo ele simplesmente largou a faca e nós voltamos a fazer o que estávamos fazendo anteriormente.

Mas a energia pesada continuou lá, e eu comecei a achar difícil de conviver com ele, assim como nossos outros amigos na escola. Nós estávamos quase ignorando ele completamente quando ele nos contou que os pais dele estavam se separando. A mãe iria embora com o irmão, e ele, ficaria com o pai. Eu me lembro da minha mãe tentando me explicar tudo quando contei pra ela. Ela disse que esse era um momento difícil para o Ben, e que se ele havia nos contado, era importante, e que logo ele estaria agindo como antes novamente.

Eu acho que entendi tudo desse jeito, também. Com a minha pouca compreensão da psicologia. Eu esperei por quase uma semana por ele, esperei que ele quisesse jogar futebol com o resto de nós ou apenas sair juntos... Quando ele não demonstrou mudança eu finalmente trouxe o assunto á tona. Eu disse a ele que ele vinha agindo estranhamente há tempos e que talvez o divórcio tenha deixado ele muito triste, mas que ele não precisava me evitar e evitar os outros amigos dele. Ele começou a chorar, e eu acho que foi a primeira vez que vi aquela cena. “Não é isso” ele disse.

Ele nos fez caminhar em silencio até nos afastarmos da escola antes de falar o que era. Ele me disse que pelo menos seis meses atrás ele viu um homem no mercado, e o ficou encarando porque ele empurrava o carrinho de forma errante, ás vezes encostando-se nas coisas como se estivesse prestes a desmaiar e por causa da sua pele amarelada. Quando a mãe dele o viu encarando o homem ela disse que provavelmente ele estava com alguma doença terminal, e por isso “não era bonito de se ver.” Essas escolhas de palavras ficaram comigo até hoje, assim como tenho certeza de que ficaram com o Ben.

 Ben disse que na mesma semana, ele saiu da cama para ajeitar as cortinas e notou alguma coisa no jardim. Era o homem do mercado, completamente parado no meio do jardim, olhando diretamente para ele – braços completamente esticados para os lados. Eles se olharam por alguns momentos e Ben então fechou as cortinas rapidamente e encostou-se à parede – Eu ainda podia sentir ele me encarando – ele disse.

Ele não estava tentando me assustar com essa história, Ben não era tão bom ator assim. A respiração dele estava diferente, a voz quase um choramingo e algumas lágrimas saíam dos seus olhos. Seja o que for que Ben viu, o afetou profundamente. Se eu fosse lhe contar sobre isso pessoalmente, você provavelmente veria as mesmas reações em mim.

Aconteceu pelo menos uma vez por semana, Ben me contou. O homem parecia dar tempo para ele se recuperar e tentar explicar os acontecimentos se baseando na lógica, até acontecer novamente, o mesmo homem, olhando pra ele do jardim, sozinho e nem um pouco assustado por causa da escuridão – eu não falei com os meus pais sobre isso – Ben disse, tentando me fazer entender que contar era o primeiro passo para a aceitação de que isso estava realmente acontecendo, e que eu era a primeira pessoa a ficar sabendo disso.

E teve mais, ele começou a ter pesadelos horríveis, em um, estava se preparando para cometer suicídio no jardim e gravando uma mensagem de vídeo para os pais dele enquanto o fazia, e ainda houve outro, em que ele achava o corpo de uma garota em um saco plástico, tripas saindo do saco e partes do corpo retiradas. Eu fiquei em silencio por alguns minutos depois de saber disso, porque eu simplesmente não sabia como reagir, e então, ele simplesmente disse: “Eu não sei o que está acontecendo...”

Eu acreditei nele, e acreditei que ele realmente estava vendo alguma coisa e que isso estava causando algum problema emocional, então, quando ele me perguntou se eu queria passar a noite na casa dele, eu me senti um pouco assustado, mas ao mesmo tempo senti como se pudesse ajudá-lo a entender o que estava acontecendo, e fazer com que as coisas voltassem ao normal.

Foi no final de Novembro, estávamos assistindo um filme do James Bond e comendo pipoca com o pai dele no andar de cima – durante todo o tempo que fiquei lá percebi que Ben ficava bem mais relaxado ao redor do pai, e eu comecei a me lembrar daquele garoto que subia em árvores comigo, eu até comecei a considerar a ideia de que o que Ben havia me dito era mentira – mais especificamente o fato de que ele não sabia do que estava falando... Talvez o divórcio tivesse o afetado e ele quisesse apenas chamar atenção? É um comportamento normal...

Alguns minutos depois, Ben pediu para ficar acordado e assistir o jogo que ia passar meia-noite, ao vivo.

“Sem chance.” Seu pai disse, sorrindo. Nós teríamos aula na manhã seguinte e o pai de Ben iria trabalhar, mas Ben continuou insistindo e perguntando – o que fez com que eles começassem a discutir – e isso me fez perceber que ele estava com muito medo de ir dormir, isso era óbvio, mas também era óbvio que seu pai não ia o deixar ficar acordado... Essa era uma discussão desnecessária.

Quando nós estávamos no quarto dele, eu fiquei tentando arranjar uma forma de dizer que tudo bem estar triste, ou com raiva, ou até mesmo assustado depois do divórcio dos pais, mas ao mesmo tempo não queria que ele pensasse que eu estava duvidando da história dele.

Mas antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ele me olhou, nervoso, e perguntou se eu queria checar o jardim pela janela com ele.

Eu não sabia o que dizer, não sabia se deveria continuar com isso ou tentar confortá-lo de outra forma – ele continuou me encarando e eu decidi apenas olhar pela janela – não havia ninguém lá fora, Ben suspirou aliviado e tentou me assustar um momento depois. Nós puxamos a cortina, falamos sobre algumas garotas e então dormimos.

Eu acordei algumas horas depois, precisava ir ao banheiro –culpa de todas as latas de coca-cola que tomei no jantar – o banheiro ficava ao lado do quarto de Ben, então eu fui até lá sem acender as luzes, lembrei do pai de Ben falando que ia trabalhar no dia seguinte e eu não estava a fim de acordá-lo com a claridade. Quando eu estava no banheiro decidi olhar pela janela apenas para reforçar a ideia de que não havia nada lá, mas eu o vi. Eu juro por Deus, R***! Eu o vi, eu vi o homem!

Ele estava no meio do jardim, perto de algumas mangueiras, completamente parado, usando o que parecia ser uma jaqueta com botões. Ele não estava olhando pra mim, estava olhando para o quarto de Ben e eu decidi acordá-lo e contar pra ele – Ele está lá fora – Eu simplesmente disse, e eu nunca vou esquecer o olhar em seu rosto. Nós dois rastejamos até a janela, puxamos um pouco a cortina e olhamos para ele novamente. Seu rosto era quase sem expressão, porém, em alguns momentos, parecia melancólico e triste. Ben começou a chorar, largando a cortina e indo em direção ao canto do quarto, onde nós dois abraçamos nossos joelhos e ficamos lá, em silencio absoluto. Ben chorou, e eu soube o que ele quis dizer quando me contou que podia sentir o homem encarando-o mesmo depois de fechar as cortinas.

E então, uma semana depois, Ben foi dado como desaparecido. Sete de Dezembro, um pouco antes dos feriados, e como eu mencionei ontem, eles nunca o encontraram.




Re:re:re:re: Sua primeira sessão


Isso deve ter sido horrível para você, acredito que você foi muito corajoso na época, e ainda mais agora que se sente confortável para falar sobre isso.

Eu sei que pode ser doloroso tratar de emoções antigas, mas espero que você se acostume com o fato de que eu estou disposto a ouvir todas elas e que você pode confiar em mim. Estou curioso, você comentou com alguém sobre os acontecimentos na casa de Ben?

R.




Re:re:re:re:re: Sua primeira sessão


Foi extremamente difícil. A escola criou uma assembléia com a intenção de explicar os acontecimentos para todo mundo, mas meu nariz começou a sangrar logo no início e eu tive que sair. Policiais investigaram toda a área durante semanas, talvez meses. Eu odiava ter que ver seu rosto em todo lugar que eu ia – panfletos estavam espalhados por toda a cidade – e eu me sentia triste toda vez que eu via, apesar de entender o propósito. Cedo ou tarde eu teria que aceitar que ele havia ido embora para sempre e não ia retornar.

A polícia veio até minha casa uma noite e conversou comigo, e eu tentei falar que eu estive na casa dela uma semana antes, tentei explicar, mas eles não pareceram dar muita importância ou levar muito a sério. Eles estavam mais preocupados em saber se ele havia levado algo, roupas, sapatos, mas ele não havia levado absolutamente nada, e ele precisaria de pelo menos roupas se tentasse fugir! Não havia sinal de arrombamento na casa dele, nada estava fora do lugar em seu quarto... Eu me lembro dos comentários ao redor do pai dele na época, lembro da escola, os policiais, os parentes, todos falando como se Ben tivesse fugido e ignorando totalmente o fato de que talvez e só talvez ele tivesse sido sequestrado.




Re:re:re:re:re:re: Sua primeira sessão


Bom, nós falamos sobre muitas coisas aqui, K***. Eu acho que seria melhor se continuássemos essa conversa pessoalmente, assim evitaremos perder o foco ou qualquer distração – esse primeiro passo foi vital.

R.


/// BenjiMCFC93, comentou em 28 de Agosto:

Eu sei que eu não deveria ter lido, eu sei! Mas eu não posso “desler” agora... E tudo isso me assustou de tal forma que nem sei como explicar.

Aqui vai: Meu pai nunca mencionou algum amigo chamado “Ben” da época de infância dele. Ele tinha apenas dois melhores amigos, Gareth e Tom, os três se conheceram na pré-escola e estudaram todos os anos seguintes juntos. Eu já vi os dois, várias vezes, eles me mandam cartões de aniversário, e eu nunca vi nenhum deles falar de algum “Ben”.

Além disso: Meu pai não cresceu em uma cidade pequena.

E na parte que ele fala dos comportamentos eu só pude lembrar-me das coisas que começaram a acontecer depois que a minha mãe foi embora – uma noite, minha irmã desceu as escadas para pegar um livro e achou nosso pai lá, parado, no meio da sala com as luzes apagadas. Ela se assustou e acendeu as luzes em seguida, perguntando por que diabos ele estava lá parado no meio da noite e ele simplesmente murmurou coisas sem sentido e a minha irmã fingiu que entendeu, acho que ela só queria voltar para a cama e ignorar tudo isso.

Aconteceram algumas outras vezes – minha mãe o achou no jardim ás 5 da manhã, depois de acordar e perceber que ele não estava na cama, também teve outra vez que eu acordei e ele estava no meu quarto, parado, perto da minha cama com os olhos fixos em mim. Nós achávamos que ele era sonâmbulo, mas depois que as coisas entre ele e minha mãe ficaram piores, eu não sei...

E, sei lá, meu nome é Ben! Lógico! Então essa história que ele contou para o terapeuta realmente me assustou. Por que ele mentiria? EU sinceramente não sei o que fazer gente... Será que eu devo falar com ele sobre isso?

Conselhos? Alguém? 


24/02/2015

O único


Eu gostaria de aproveita esta oportunidade para conversar com você, a pessoa que está lendo isto. Há algo especial sobre você. Algo que o torna diferente de qualquer outra criatura neste planeta. Todos os outros seres deste planeta sabem quem você realmente é, mas juramos segredo. Juramos pelos nossos grandes ancestrais que nunca revelaríamos a verdade para você.

Até agora.

Por muitos anos, o mundo inteiro esteve assistindo ao seu amadurecimento. E eu sempre senti a necessidade de contar-lhe que tudo era uma grande mentira. Você anda entre nós, acreditando que somos criaturas semelhantes. É tudo uma farsa. Posso dizer-lhe agora mesmo, categoricamente, que você é o último ser humano neste planeta. De fato, você é o último ser humano em existência.

Anos atrás, nosso posso se aventurou em uma planeta longínquo, conhecido como Terra. Esperávamos descer dos céus, trazendo coisas que nenhum humano sequer teria sonhado. Seria uma conquista fantástica; criar laços com os povos da Terra, construindo uma relação forte o suficiente para mover um planeta.

Porém, quando enviamos o nosso Profeta para iniciar os planos, ficamos horrorizados ao descobrirmos que ele fora tratado com hostilidade. Ele foi sacrificado por seu povo, que era bastante primitivo, a ponto de acreditarem que todas as palavras do Profeta não passavam de mentiras e bruxaria.

Após a morte do nosso profeta, as grandes mentes do nosso planeta concordaram em destruir a terra, junto com a raça humana, tudo pelo bem de todo o universo. E foi o que aconteceu. A terra foi obliterada, e todos os humanos destruídos. Todos, exceto um.

Você.

Entenda, apesar de concordarem com a destruição da terra, o meu povo é bastante generoso. No fim, não queríamos ser os responsáveis pela extinção de uma raça. Então pegamos uma pequena criança, e a colocamos sob os cuidados de dois seres do meu planeta. Eles seriam o que você considera como “pais”. Eles o criaram em um estilo tradicional do meu planeta. Eles o criaram para ser civilizado, ao contrário dos seus parentes humanos.

Decidimos estuda-lo. Queríamos ver a sua adaptação sob certas circunstâncias. É por isso que fazemos coisas acontecerem em sua vida. Coisas que o afetem emocionalmente. Estudamos a tristeza, felicidade, medo, prazer, dor e outras emoções. Apenas saiba que tudo é controlado.

Criamos o conceito de “Religião” para descobrirmos se você aceitaria a possibilidade da criação divina.

Criamos um sistema de autoridades, para instilar um senso de medo e punição.

E mais importante, criamos uma grande rede de “amigos”, “família”, e outros amados por você; tudo em nome dos estudos.

Acho que já falei demais. Apenas saiba de mais uma coisa, jovem humano. A idioma que você fala, não é o idioma próprio da sua raça. Essa cultura não é sua, é nossa. Você é único ser humano que anda sobre este planeta, e a Terra já se foi a muito tempo.

Eu o aconselho a continuar com a sua vida diária, como se não soubesse da estranha realidade por trás de tudo.

Continue vivendo tranquilamente, pelo seu próprio bem.

23/02/2015

Misantropo

Pode me chamar de misantropo, introvertido, eu não me importo. A questão é que, eu sempre preferi ficar sozinho.

Eu tive alguns amigos – se é que posso chamá-los de amigos – pessoas do trabalho, vizinhos, família. Eu até tentei esse negócio de namoro, mas nunca funcionou pra mim. Eu tive uma namorada por dois anos, mas ela me largou porque eu não gostava de sair com os amigos dela e preferia ficar em casa.

O único sentimento que tomou conta de mim depois que ela me deixou foi alívio.

Eu também tentei sair com um grupo de pessoas que conheci online – e com “sair” eu realmente quis dizer no mundo real. Eu fiz isso porque a minha ex falava sempre que eu precisava sair mais, conhecer mais pessoas... Você sabe, “sair do casulo”.

Depois de sair com eles eu percebi que realmente preferia meu casulo, mas deixe-me explicar: Não é que eu não goste deles, eu simplesmente não sou uma pessoa que gosta de sair. Eu não tenho síndrome de Asperger ou nada disso – eu posso conversar, posso ser amigável, sempre ajudei idosas a atravessar a rua quando eles precisam, já doei sangue simplesmente porque estava com vontade, já ajudei pessoas desabrigadas – é apenas o fato de que eu prefiro ficar em casa numa Sexta-Feira à noite lendo um livro, e se eu tiver amigos, vou ser obrigado a sair.

Eu falei isso tudo apenas para deixar claro que o mais sozinho que eu já me senti foi quando estive em volta de várias pessoas, e eu realmente acho que o melhor sentimento que se pode ter é simplesmente solidão.

Isso é... Até essa manhã.

Eu acordei e percebi que não havia luz, eu vivo em um prédio antigo no centro da cidade. É o tipo de lugar onde os papéis de parede estão caindo pelos cantos e a pintura é velha e acabada... Em muitos lugares o teto era apenas uma coleção de buracos, os elevadores fazem barulhos estranhos e o lugar todo tem uma névoa esquisita do que parece ser fumaça de cigarro ou de maconha. Eu já fiquei sem energia antes, e na última vez que aconteceu, não retornou por dois dias, o que me irritou, pois eu havia feito compras no dia anterior e tive que assistir enquanto algumas delas estragavam.

Então, quando eu acordei, meu primeiro sentimento foi irritação. É melhor que haja energia quando eu voltar do trabalho, murmurei. Geralmente nós ficaríamos sem luz na neve, ou depois de uma tempestade... Mas no meu prédio, onde a instalação elétrica era mais antiga que tudo, poderia faltar luz em qualquer época do ano – então, eu nunca me incomodei em procurar razões relacionadas ao tempo para justificar.

Eu abri todas as janelas, mas não ajudou muito, estava tudo meio cinza dentro do meu apartamento. A semana tem sido nublada desde o começo, houve até alguns relâmpagos, então mesmo com a minha maior janela aberta eu não conseguia ver muito, e meu banheiro, que não tinha nenhuma janela, estava mais escuro que um sarcófago.

Meu alarme estava desligado, claro. Então eu chequei as horas no meu telefone e depois de um momento entrei no chuveiro, não me importando muito com o fato de que a água estava gelada e de que eu não conseguia enxergar minhas mãos em frente ao meu rosto. Mesmo se eu tivesse saído pela porta naquele horário, ainda estaria atrasado uma hora para o trabalho. Eu odeio atrasos. Eu geralmente tento estar pelo menos 15 minutos adiantado. É apenas mais uma mania de introvertidos – tentar estar no horário, sempre.

Depois de vestir algumas roupas, saí pelo corredor e fui até o elevador – lembrando somente depois que falta de energia significava falta de elevador – fui em direção ás escadas.

Essa foi provavelmente a primeira vez que senti uma sensação de mal-estar. Eu fiz o que pude para ignorar, porque não sou mais criança e esses tipos de pensamento sempre rondam sua cabeça tentando te incomodar. Mas era difícil, e não só por causa da escuridão do prédio, mas também porque naquele momento percebi que não havia visto uma pessoa sequer durante toda a manhã.

Mas só isso não era tão alarmante, eu já caminhei até o elevador muitas vezes sem ver qualquer outra pessoa, no entanto, enquanto eu atravessava o corredor, usando a luz do celular como lanterna, percebi outras coisas que estavam fora do lugar. Primeiro: Eu não havia escutado nenhum barulho vindo dos apartamentos, e o ar estava desligado, o que deveria deixar qualquer barulho mais alto. Segundo: Eu estava atrasado. Normalmente eu vou para o trabalho antes do horário normal, mas hoje, eu estava indo mais tarde – quando a maioria do prédio também vai – talvez alguns deles tivessem usado o elevador mais cedo, porém, de qualquer forma, alguns deveriam ter usado as escadas comigo.

Quando cheguei ao térreo tudo ficou ainda pior – mais cedo, quando abri a janela, não parei para olhar a rua e não percebi a quão parada estava.

Havia somente carros nas ruas e eles estavam estacionados, nenhuma alma á vista. Os prédios adiante não pareciam fechados, mas também não pareciam abertos; apenas escuros e vazios.  Eu engoli em seco e disse a mim mesmo que provavelmente havia alguma razão para isso, mas a minha mente se recusava a aceitar. Eram 08h30min da manhã de uma Terça-Feira! As ruas estariam lotadas de carros e as calçadas lotadas de pessoas – isso sem mencionar o barulho – mas a única coisa que ouvi foi o vento correndo entre os prédios.

O quarteirão todo estava sem luz, tinha que ser isso. Todo mundo ainda estava dentro de suas respectivas casas esperando pela energia.

Liguei uma, duas, três vezes até que ouvi voz entediada do meu chefe falando “Deixe seu recado” – a primeira voz que ouvi em toda a manhã.

Eu abri o navegador e comecei a procurar qualquer informação, mas não havia nada novo desde ontem. Na verdade, minha conexão estava péssima e depois de um momento simplesmente caiu e não voltou mais. Eu tentei ligar para um colega de trabalho – o único que eu sabia o número de telefone – ele havia oferecido o número.

Ele também não atendeu, e eu comecei a me perguntar se a falta de energia estava afetando os celulares por perto, mas ele não morava perto de mim, então seria mesmo a energia?

Acendi a luz do celular e comecei a subir as escadas novamente, meu apartamento era no oitavo andar e eu não estava na minha melhor forma, minhas pernas começaram a doer no terceiro, mas foi no quarto andar que a luz do meu celular falhou e então ele desligou completamente.

“Não, não!” Eu sussurrei e tentei ligá-lo novamente e então lembrei que não o havia carregado desde o dia anterior, e, além disso, eu estava usando ele como lanterna e havia tentado ligar para meu chefe várias vezes, eu provavelmente ignorei o aviso de bateria pouca e agora era tarde demais. “Pedaço de merda,” Murmurei. Algo dentro de mim sabia que eu deveria deixar meu tom de voz o mais baixo possível... Eu coloquei o celular no bolso e comecei a subir as escadas, tentando ficar calmo.

Foi então que eu ouvi, sons de passos vindo da escada – mais precisamente atrás de mim.

Você pode achar que eu ficaria feliz de perceber que havia outras pessoas comigo, ou até achar que depois de perceber como é realmente ficar sozinho, eu ficaria grato em saber que na verdade eu não estava – e por um momento, eu tentei me fazer acreditar que era realmente isso que senti.

Os passos eram lentos, quase organizados demais. Eles ecoavam no escuro como se fosse a morte – no começo estavam delicados, mas logo eu percebi comecei a ouvir as batidas mais fortes, eles estavam pelo menos dois andares abaixo de mim.

Eu não pensei, apenas subi o resto da escadaria e encostei-me à ponta para escutar. Eles continuavam a vir, eu pensei em chamá-los, mas todo resto de instinto que tinha me disse que seria burrice – então eu tentei me convencer de que era apenas meu jeito estranho e solitário apitando na minha cabeça novamente – mas esse sentimento não era apenas o puro desejo de ficar sozinho por um momento.

Toda a lógica que eu consegui formar me dizia que nada nesse vazio deveria estar se mexendo – eu não tinha escutado nem sequer o latido de um cachorro perto do prédio – mas havia algo além de mim, e eu sabia que seja lá o que fosse isso não deveria estar lá.

Quando finalmente alcancei meu andar, parei próximo a escada. Por um momento apenas escutei. Os passos ainda estavam lá, e eles nem haviam aumentado a velocidade, mas pareciam estar mais perto. O corredor estava vazio, como eu imaginei que estaria; afastei-me da beirada da escada e pude escutar meu próprio coração acelerado, ecoando nas minhas orelhas juntamente com minha respiração ofegante.

Eu vi a última janela do corredor aberta, uma névoa cinza entrando por ela, mas ignorei e simplesmente fui em direção ao meu apartamento.

Atrás de mim ouvi os passos no corredor, ainda lentos e calmos. Eu esperei. Talvez eles tivessem ido à outra direção – mas não, os passos estavam cada vez mais altos – vindo na minha direção. Eu me virei rápido e fui em direção ao meu apartamento novamente. Eu não corri, só andei mais rápido, se eu corresse faria mais barulho, e tentei manter minha respiração normal também.

Eu alcancei meu apartamento, mas ainda pude ouvir os passos atrás de mim, e enquanto tentava pegar minha chave me dei conta de que eles estavam perto demais, e que se eu abrisse a porta eles poderiam achar meu único lugar de refúgio. Pensando rapidamente, apenas continuei andando o mais rápido que pude e assim que cheguei ao outro andar percebi que os passos estavam diminuindo, eu ainda podia ouvi-los, mas eles estavam dispersos, como se tivessem ficado confusos ou como se estivessem ido na direção errada.

Minha intenção era dar a volta e retornar ao meu apartamento, mas enquanto eu o fazia me senti meio bobo, afinal de contas, por que eu estava tão convencido de que essas pessoas me perseguiam? Eu era a única pessoa que eu havia visto hoje, mas isso era estranho, não o surgimento de outra pessoa no prédio. Alguma coisa, abdução, desastre ou sei lá o que, havia feito todas as pessoas sumirem, mas me deixaram para trás, e se eu ainda estava aqui, outras pessoas também poderiam estar. Essas pessoas poderiam ser apenas outros moradores do oitavo andar, tão confusas e assustadas quanto eu.

Quando comecei a retornar para o meu andar, ouvi os passos novamente. Eles haviam me encontrado.

Eu corri novamente para o corredor e esperei perto da escada, abrindo a porta dos degraus lentamente – todo e qualquer pensamento que tentava me convencer de que esses passos pertenciam a alguém tão assustado e confuso quanto eu deixaram minha mente – esses passos pesados, não pertenciam a alguém que se encontrava na mesma situação que eu. Eles não estavam assustados, eles tinham um propósito, e esse propósito não poderia ser bom.

Dessa vez eu alcancei meu apartamento e consegui entrar, tranquei a porta e a fechadura e encostei-me a ela, contemplando a porta um momento depois e percebendo que só aquilo não seria suficiente, coloquei uma cadeira apoiada na maçaneta. Então fui ás janelas e coloquei vários móveis próximo a elas.

Por algum tempo, nada aconteceu. E então eu os escutei novamente, não havia duvida de que os passos estavam me perseguindo, a velocidade, lenta e calma, parando vagarosamente quando se aproximaram da minha porta.

Eles pararam. Algo estava atrás da minha porta, esperando, provavelmente por algum barulho, mas sabendo sem sombra de dúvida de que eu estava lá dentro. Eu achei que senti algum cheiro vindo do corredor, algo que tivesse um cheiro... Quente. Era o único jeito de descrever, quente.

Eu esperei, e esperei. O silencio era tangível, e eu senti que o ar ao nosso redor havia ficado mais denso, assim como o resto do mundo.

Minha maçaneta começou a girar, lentamente no começo e logo depois rapidamente enquanto eu sentei lá, sem ação, minha respiração se tornara pequenos soluços, meu coração batendo tão rápido que eu não pude ignorar a pressão constante no meu peito.

Quando finalmente a insistência diminuiu, eu peguei meu notebook, que ao contrário do celular não havia descarregado, e comecei a escrever isso – o barulho na porta retornou mais três vezes, a última vez foi a mais insistente, acompanhada de socos –

Eu não sei se tem alguém aí que vai ler isso. Eu nem sei por quanto tempo mais a internet vai funcionar, eu nunca precisei de outras pessoas até hoje, mas eu definitivamente preciso delas agora!

Por um momento nessa manhã desejei não estar sozinho.


Agora não estou, e não tem outra coisa que eu deseje a não ser ficar sozinho novamente.   

20/02/2015

Colaboradores

Gabriel Azevedo dos Santos (Dono e Tradutor)

Francis "Divina" Lopes (Dona e Tradutora)

Alex Lupoz (Designer Gráfico)

Ítalo Alexandre Brito (Tradutor)

Flavia (Tradutora)

Hellen (Tradutora)

Thiago (Tradutor)

Adriana (Tradutora)


17/02/2015

Dr. Xander

Xander estava deitado sobre a mesa de operações, como sempre...

Os pais de Xander eram cientistas e o odiavam tanto, que costumavam usa-lo como cobaia. Xander também nutriu um grande ódio pelos seus pais, porém, nunca pôde fugir dos maus tratos.

Seus pais já tinham descoberto o segredo para a imortalidade, ao misturarem diferentes soros em um laboratório particular. Como sempre, utilizaram a fórmula recém-descoberta em seu próprio filho, para comprovarem se a fórmula realmente funcionava. Bom, ao que parece, a fórmula realmente funcionou, já que Xander manteve-se em seu corpo de 17 anos por 15 anos. Não havia crescido um único centímetro, ou envelhecido um único dia. Seus pais o apunhalaram no coração por seis vezes, e os ferimentos se curaram, mesmo que Xander pudesse sentir toda a dor. Seus pais se recusaram a tomar a mesma fórmula, pois não queriam passar a eternidade convivendo com a sua “Cria Indesejada”.

Xander continuava esperando por seus pais na mesa de operações. Seus profundos olhos azuis cobertos por seus cabelos negros. Ele olhava pela janela, para a grande floresta que rodeava o laboratório. Ele sempre pensou em quão estranho era aquele velho e assustador laboratório no meio daquela floresta.

Os pensamentos de Xander foram interrompidos pelo som dos passos dos seus pais que entravam na sala de testes. Seu pai verificava se ele estava bem preso à mesa enquanto sua mãe enchia uma seringa com um estranho líquido. “Esse soro deve curar qualquer doença mental!” A mãe de Xander explicou. “Como você é a nossa cobaia, e possui a síndrome de Ekbom e Distimia, acaba tornando-se a cobaia perfeita!” Ela exclamou, injetando o soro em seu braço.

De repente, Xander soltou um grito agudo. “Efeito reverso! Efeito reverso!” Seu pai exclamou. O grito de Xander tornou-se uma gargalhada enquanto ele se libertava das amarras. Xander não conseguia parar de rir. O soro, ao invés de curar seus transtornos mentais, havia o tornado um louco homicida. Seus pais correram para a saída, porém, Xander foi mais rápido e puxou a alavanca que trancava as saídas. Xander rapidamente os nocauteou.

Seus pais acordaram gritando e se debatendo nas amarras. Xander entrou na sala, em seus quase dois metros de altura, ele parecia bem mais assustador. Sua pele possuía um tom bastante pálido, quase branca. Ele fechou a porta e aproximou-se alegremente de uma mesa onde havia vários objetos afiados. Ele ria como uma criança, enquanto verificava os objetos na mesa. Ele pegou uma seringa e um bisturi.

Ele caminhou para outra mesa onde estavam vários soros diferentes e preparou uma seringa com um líquido negro. Ele virou-se para o pai e sorriu, aproximando-se com um olhar insano. Ele segurou o braço do pai, e injetou o líquido negro em sua veia. Ele afastou-se sorrindo, enquanto observava a pele do pai começar a borbulha e apodrecer.

Os gritos de dor eram como música para ele. Depois do último suspiro do pai, ele ainda desejava mais. Ele agarrou o bisturi e aproximou-se da mãe. Sua mãe suplicava para que ele se afastasse.

Xander ignorou as súplicas e utilizou o bisturi para cortar o estômago de sua mãe, deixando seus gritos de dor preencherem a sala. Xander continuou a disseca-la, cortando seus pulsos para arrancar as veias, colocando-as em um pote de coleta. Ele retornou para a mesa de instrumentos e trocou a seringa e o bisturi por um pequeno machado. Então cortou os pais em pequenos pedaços, colocando-os em uma sala isolada, dentro do grande e velho laboratório.


NOTÍCIAS URGENTES 

Katelyn, uma garota de 15 anos que estava desaparecida ha 3 dias, teve o seu corpo encontrado na porta de sua própria casa! A parte superior de seu corpo parecia ter sido dissecada enquanto a parte inferior fora cortada e posta em uma cesta com uma nota. A nota dizia: 

‘Caros pais de Katelyn, 

Sinto dizer que a sua filha não conseguiu. Sinto muito por essa infelicidade. Meus pêsames, 

Dr. Xander'

16/02/2015

Vagão 66

Era cedo... Cedo demais, sabe...? Tão cedo que sua mente ainda queria te fazer acreditar que é noite.
Pensamentos sobre voltar para minha cama e dormir novamente pairavam sob minha mente enquanto eu continuava a dirigir. “Eu nunca acordei tão cedo” pensei, ligando a luz do carro e olhando para os horários dos trens. “4:24, vou poder chega 4 horas antes das aulas, tempo de sobra.” Sorri para mim mesmo, pensando que talvez pudesse colocar algumas atividades que eu havia deixado passar semanas atrás, em dia.

Assim que eu cheguei à estação eu notei o quão peculiar parecia. Eu venho frequentando essa mesma estação há uns três anos e mesmo assim algo parecia... Diferente. Eu passei as mãos nos olhos fechados, tentando fazer com que o resto de sono que ainda estava lá, fosse embora e fui em direção a uma vaga que estava próxima – eu demorei um pouco mais que o normal para apertar o freio e o carro quase não parou a tempo, o que me fez pular do acento com medo de ter atingido o meio-fio. Eu sorri novamente e prometi que iria dormir mais cedo essa noite, assim como eu havia prometido tantas outras vezes.

Eu saí do carro, a manhã de Janeiro atingiu meu corpo que ainda estava travado e preguiçoso por causa do sono. Abaixei-me para pegar minha mochila e meus pêlos dos braços e do pescoço se arrepiaram, o que me fez cruzar os braços, numa tentativa de evitar o frio.

 A estação tinha um tipo de ponte, que atravessava os dois trilhos, tanto de ida quanto de volta. Eu comecei a subir as escadas rapidamente, e meu corpo me fez lembrar novamente, que ainda estava cedo demais para esse tipo de “atividade física”. Apoiei minha mão no corrimão e continuei subindo; assim que cheguei ao topo, choraminguei involuntariamente... Parecia que eu havia quebrado algum osso.

A dor na minha perna me distraiu por um momento do fato de que todas as luzes da ponte estavam apagadas, a única iluminação estava vindo da Lua, que por sinal, estava praticamente coberta de nuvens finas da manhã, ela estava a minha direita, brilhando em cima de mim. Eu fiz uma piada mental sobre a Lua me seguir em todos os lugares, como se eu estivesse me apresentando em um palco e fosse uma grande estrela de um grande show, e a Lua fosse o holofote, me observando incessantemente para não perder nenhum ato sequer – mas o humor na verdade dividiu lugar com o medo que eu senti depois de analisar melhor a situação.

Era como se eu estivesse sendo assistido por alguém, e isso me assustou bastante; comecei a andar mais rápido para o outro lado e assim que eu cheguei lá, uma sensação de alívio tomou conta de mim.

Continuei a caminhar na área perto dos trilhos, todos os acentos estavam vazios, mas eu ainda senti que não estava sozinho. Só não sabia se era uma companhia desejável ou não.

Enquanto eu esperava um denso nevoeiro se aproximou mais e mais, o que me fez abrir e fechar os olhos várias vezes para conseguir enxergar a estação que era tão familiar para mim.

Mas a questão é: Se eu me concentrasse o suficiente eu conseguiria enxergar tudo como se não houvesse nevoeiro nenhum. As janelas quebradas, as pontes deterioradas, a pintura gasta das paredes, e alguns grafites. Exatamente o que eu via todos os dias, o que me fez acreditar que minha mente estava me dizendo o que estava lá porque era o que eu queria ver.

“A falta de sono está começando a afetar meu cérebro,” Eu pensei e continuei tentando enxergar em meio à neblina, o que começou a me incomodar, tanto mentalmente quanto visualmente; então eu fiquei grato quando ouvi o barulho de trem se aproximando. Levantei, pegando minha mochila um momento depois e observei a luz do trem chegando lentamente perto de mim.

Mas só a luz, eu ainda não podia ver nada do vagão mesmo sabendo exatamente como ele era, assim como a estação.

Outra onda de alívio passou por mim quando eu tentava me convencer de que todas essas impressões que tive na estação enquanto estava sozinho foram meras invenções da minha mente sonolenta.

Finalmente eu consegui enxergar o trem enquanto ele parava lentamente, apenas alguns metros distantes de mim. Eu fiquei assustado ao perceber que esse não era o trem que eu geralmente pego, não, esse era mais velho e destruído, uma locomotiva. Eu nunca tinha visto algo parecido, pelo menos pessoalmente. Eu costumava ver trens como esse em livros de história ou na internet... Mas mesmo assim, era um trem e eu não ia arriscar ficar na estação sozinho novamente.

Então eu entrei.

O interior era como eu esperava – meio sujo e gasto por causa dos anos de uso, e assim como eu também esperava, não havia outros passageiros no trem nesse horário. Observei O Condutor – havia apenas um – e ele parecia ser bem mais velho do que eu, mas por causa do seu casaco eu não consegui ver seu rosto.  Ele estava caminhando para o lado oposto ao meu então eu deixei a ideia de vê-lo pra depois.

Eu não gostava desse vagão, mas assim que eu sentei, ele começou a andar, então eu não tive muita escolha; mesmo se eu tentasse, não conseguiria explicar, algo sobre ele era simplesmente sinistro.

E o que mais me deixou desconfortável foi o silencio, eu não conseguia ignorar o som do barulho externo da locomotiva que parecia cada vez mais alto; olhei pela janela e as nuvens continuavam desaparecendo atrás de mim. O trem definitivamente estava se mexendo. Eu encostei minha cabeça na janela e dormi.

Não demorou muito até que eu acordasse, nenhum traço de sono restou, eu estava completamente acordado. Sem cansaço, sem dor nos olhos ou na perna, sem fome, nada.

Eu passei meus olhos na cabine e percebi que havia ficado muito mais escura, olhei para trás, tentando enxergar algo no vagão anterior e fiquei feliz de ver que a luz estava acesa. Eu levantei e comecei a andar em direção a ele, por alguma razão não achei necessário pegar minha mochila, então a deixei no meu acento e continuei andando em direção a porta.

A cada passo que eu dava eu ficava mais contente, e eu não sabia o porquê; apoiei minha mão na maçaneta e me senti mais seguro e protegido do que nunca, abri a porta e a luz quase me cegou por um momento, precisei de alguns segundos piscando os olhos para conseguir enxergar algo.

Quando eu finalmente consegui enxergar, fiquei chocado de ver minha família sentada no vagão... Que tinha... Móveis?

“Minha avó tinha esse mesmo sofá, essa é a casa da minha avó...”

Algumas memórias da minha infância passaram pela minha mente e eu me deixei distrair com elas até perceber o que estava acontecendo. Eu já estive aqui antes, não, não apenas na casa da minha avó, mas nesse exato momento, nessa mesma situação, eu já passei por isso, eu já estive aqui. Meu Deus! É como se eu soubesse o que iria acontecer, como um filme que já vi muitas vezes.

Mas eu não sabia.

Primeiro eu me perguntei por que todos estão sentados em volta de uma cama? E o clima havia mudado de calmo para tenso, eu olhei para os rostos dos meus familiares, eles pareciam cansados e de luto, encarando algo que não era eu.

Esse foi o dia que minha avó morreu, mas não só isso, não era tão simples assim.  Eu senti a dor, a agonia e a incapacidade que havia sentido meses atrás, mas eu também conseguia sentir a dor de cada familiar junto comigo.

Os sentimentos voavam na minha mente, dúvida, raiva e medo. Parecia que alguém havia filtrado todos os sentimentos ruins e tivesse jogando todos eles pra mim. Os choros e os gritos, todos ecoando na minha cabeça.

Eu andei em direção á cama que eles estavam sentados em volta e lá estava a minha avó. Eu tentei chorar para conseguir algum tipo de alívio, e nada! Eu não conseguia expressar nada, raiva, medo ou tristeza. Eu senti como se fosse explodir.

Meus olhos pararam na minha avó, ela já estava morta, mas seu rosto não estava calmo e sereno como eu me lembrava. Os olhos doces que me observavam quando eu era mais novo simplesmente erodiram na minha frente. O seu sorriso doce e alegre virou uma risada maliciosa e macabra, contorcida pela dor. E eu não podia fazer nada, estava desamparado.

Apoiei-me nos meus joelhos e senti meus olhos doerem novamente assim que uma luz branca tomou o quarto mais uma vez, não havia cama agora, nem parentes. Apenas uma imagem no canto do vagão, um corpo pendurado em uma corda.

“Estranho” pensei; “Aquelas parecem as botas de jardinagem da minha avó.” Isso me atingiu em cheio, que tipo de pesadelo doentio é esse que eu me encontrava? Eu consegui – ou tentei – gritar dessa vez e parecia o grito mais forte e grave que eu já havia dado em toda minha vida.

Tudo ficou preto.

Quando consegui enxergar novamente, vi apenas uma luz fraca atingindo meu rosto. Não consegui me mover então olhei em volta e percebi que estava na casa dos meus pais, eu estava confuso, as luzes estavam todas desligadas, a casa estava silenciosa, mas eu estava feliz que o pesadelo finalmente tinha acabado.

E então o telefone tocou.

Um frio na espinha passou por mim enquanto o telefone continuava a tocar, eu não tinha um telefone desde... Ah não. De novo não. Por favor.

Finalmente consegui me levantar e só então percebi que estava deitado em um sofá, mas não era eu quem estava se mexendo, eu estava apenas observando, eu não conseguia me controlar, eu podia sentir cada coisa que meu corpo fazia, mas... Não era eu! Não agora...

O momento continuou e eu consegui ver uma garrafa vazia de uísque rolando pelo chão, passando perto de mim... Com muito esforço, eu consegui agarrar o telefone que ainda tocava, e aproximei do meu rosto.

Daniel? A voz dela fez com que todos os pêlos dos meus braços se arrepiassem e meus olhos marejassem.

Sim?  Eu havia respondido e era evidente que eu havia bebido.

Preciso de uma carona, perdi meu ônibus.

To indooo. Ouvi-me cantar as palavras e resmunguei comigo mesmo pelo meu comportamento idiota na época.

Você está bem, Daniel? Ela perguntou, e eu desliguei e andei em direção a porta.

Eu lutei com tudo que pude para acabar com essa loucura, tentando me mover para o lado oposto e segurar minha respiração numa tentativa falha de desmaiar. “Não entra no carro, não... NÃO!”

Assim que entrei no carro e peguei as chaves, desmaiei, mas apenas por alguns segundos... Logo eu estava de volta ao pesadelo.

Eu estava quase lá... Mas como eu havia chegado lá, tão bêbado? Porque isso está acontecendo? Eu não conseguia parar de me perguntar mais e mais até que o carro parou.

Virei minha cabeça e a vi, lá estava ela, minha irmã mais nova, Sam. Eu não pude controlar as lagrimas ao vê-la. A mesma garota jovem e bonita de 12 anos de idade me esperando em frente à escola, anos atrás. Sorrindo pra mim em meio à loucura desse pesadelo – tudo passou tão rápido depois disso, o efeito da bebida, o sinal vermelho, o caminhão – Deus, eu ainda posso ouvir os gritos. DANIEL! DANIEL!  Altos em minha cabeça como se fosse hoje

A culpa.

Minha mãe nos deixando.

Nenhuma pessoa para partilhar a dor.

Tudo isso por minha causa e apenas continua brincando com a minha cabeça, as mesmas cenas...

Eu mereço tudo isso.

Eu acordei no assento do Vagão 66, senti o suor frio escorrendo pela minha testa enquanto eu continuava tremendo e tentando não convulsionar.

Senti um tapa no meu ombro e virei assustado, me deparando com uma cara esguia que me lembrava a morte. O condutor que vi mais cedo quando entrei no trem.

“Bilhetes, por favor.” Uma voz seca e poderosa ecoou da boca dele. Minha mão se moveu involuntariamente e o que senti foram vários papéis velhos que pareciam estar manchados com alguma coisa. Tentei me convencer de que não era sangue...

Eram fotos – da minha avó, meu pai, minha mãe e meu avô e outras pessoas que eu conhecia, que também tinham morrido – eu continuei segurando-as e me assustei um pouco ao perceber que a última delas era uma foto minha.

Foi então que me ocorreu – quando eu tentava achar os bilhetes para entregar ao Condutor – que eu não me lembrava de ter acordado essa manhã. O condutor observou meus bilhetes e quando os recebi de volta havia o que parecia ser um carimbo de duas mãos ossudas nele.


E então tudo que vi foi escuridão.

11/02/2015

O sonho do sótão

De novo! Aquele ruído de arranhão que eu ouço vindo do closet toda noite. Eu sento na cama com meu cabelo balançando um pouco por causa do ventilador. O som do closet me aflige toda noite, principalmente porque dentro dele tem um pequeno alçapão que dá para o sótão. Eu continuo ouvindo, tentando ficar quieto e então decifrar que som é esse. É terrivelmente difícil porque tudo o que eu consigo ouvir é meu coração batendo.

Finalmente deito minha cabeça no travesseiro e é quando acontece. A mesma coisa que acontece toda noite. Eu tremo assim que ouço o alçapão começando a abrir dentro do closet. Não consigo me mexer, apenas sento tremendo enquanto a porta do closet abre rangendo e num piscar de olhos ali está, em pé no canto do meu quarto com aquele vestido preto rasgado que faz meu estômago embrulhar. O que me deixa doido é que ao olhar em direção ao rosto dessa coisa tudo o que eu consigo ver é uma sombra projetada pela escuridão do meu quarto. A única coisa que consigo distinguir é o cabelo castanho escuro. Seu vestido está rasgado na parte de baixo e suas pernas são pálidas e arranhadas. Os pés estão descalços e por último seus braços... o braço direito tem uma pequena marca de sangue em torno dele, quase como uma pequena mão de criança impressa ali e ambas as mãos revelam longas garras que eu só consigo imaginar perfurando minha pele. Aquela coisa dá um passo na minha direção e a luz de fora revela um pedaço de seu rosto pálido e marcado. Eu grito e nada acontece. Tento me mover e é como se alguma coisa me segurasse. Então eu acordo. Gritando e gritando, ensopado de suor. A mamãe vem correndo toda noite vestindo sua camisola preta e senta comigo, tentando me acalmar. Eu me balanço, meio acordado, meio no pesadelo, ainda vendo aquela coisa no canto do meu quarto.

Isso acontece toda noite por um mês, nada novo. Até uma noite em que o sonho muda levemente.


Eu trago a arma que temos para proteção para o quarto. Tremo e tento manter a arma firme enquanto espero aquela criatura sair do closet. Não consigo mais lidar com isso toda noite, está me matando! Ouço um estrondo e encaro a arma. Dessa vez a criatura abre a porta do meu quarto e anda silenciosamente. Assim que vê a arma, ela grita por um instante, meu coração dá um salto e imediatamente puxo o gatilho jogando sangue para todo lado. O disparo ecoa em meus ouvidos. Eu saio da cama apenas para cair no chão, começo a suar e tremer, torcendo para que a criatura não levante. 

É nesse ponto que eu costumo acordar, mas dessa vez não. 

Eu olho para o cadáver da criatura, a luz passa através da janela e eu consigo enxergar suas pernas, dessa vez não estão pálidas. O sol começa a nascer e a luz da janela vai até seu corpo. Agora eu vejo que não há garras nessa coisa. Ouço meu irmão subir as escadas correndo e abrir a porta do meu quarto com um chute. Quando vê o cadáver ele cai de joelhos. Eu ainda não consigo ver o rosto da criatura. “Meu Deus! Meu Deus, mãe!!! Acorda mãe!”. Meu coração para quando ouço meu irmão. Coloco a cabeça entre os joelhos e fico me balançando, chorando. 

“O que você fez, Tommy?! Tommy! TOMMY!!!”

10/02/2015

RASTEJE.MOV



Acabei de entrar para uma pequena comunidade em uma faculdade no Arizona. Já estou a dois semestres estagiando para obter o meu certificado de Produção Multimídia. A faculdade permite que eu utilize algumas horas extras, trabalhando em vídeos para que eu os lance na exposição em uma pequena galeria de arte em frente ao departamento de arte. 

O campus fica afastado da rodovia, a quase 10 milhas da minha cidade, um local geralmente isolado e sombrio. A faculdade é rodeada por um deserto e altas montanhas.

Certa noite, quando acabei o meu turno no estágio decidi continuar trabalhando em um dos meus vídeos. Utilizávamos alguns computadores bem avançados, mas eu sempre notei um pequeno notebook escondido nos fundos de um dos armários. Já que o meu supervisor tinha ido para casa, resolvi matar a minha curiosidade e pegar o notebook para ver se havia algo interessante nele. Eu o liguei, e aguardei enquanto iniciava.

Finalmente, a tela de boas vindas apareceu. Havia duas contas, uma do instrutor e outra do estudante. Loguei na conta do estudante e acessei a pasta intitulada ‘multimídia’, encontrando várias fotos de estudantes. Enquanto abria as fotos, percebi que em todas havia o mesmo homem em algum canto. Um homem de meia idade, calvo e de olhos azuis. No final da longa lista de fotos encontrei um arquivo .MOV. Estava intitulado como RASTEJE.MOV

Como eram umas 8 da noite, comecei a me sentir um pouco desconfortável. O nome do arquivo fez o meu coração acelerar, eu queria assistir, mas sabia que me arrependeria. Resolvi ligar para um amigo, pedindo que ele viesse me buscar, já que a cidade era longe e o ônibus não rodava até tarde, então eu tinha 15 minutos para esperar a minha carona. Cliquei no arquivo e ele foi aberto no Quicktime. Minhas mãos estavam suadas, e meus olhos fixos na tela. A tela escureceu lentamente, com um tipo de som deprimente. Então apareceu o título, RASTEJE, em grossas letras vermelhas. O título sumiu e logo iniciou-se uma gravação no deserto à noite. Tudo que pude ouvir eram os passos na grossa areia do deserto. Comecei a me sentir aliviado, e presumi que era apenas uma filmagem de algum estudante. Acabei rindo quando me lembrei de estar assustado só de pensar em abrir o arquivo.

Olhei para meu celular e procurei por alguma nova notificação enquanto o vídeo continuava passando. Voltei a atenção para o vídeo, e meu queixo caiu. O que vi era terrível e macabro. Um homem coberto de sangue, e era o mesmo homem das fotografias que eu tinha acabado de ver há apenas alguns minutos. O vídeo mostrava apenas o rosto dele, mas logo a câmera descia para revelar que o homem serrava algo que parecia um osso. Seu sorriso... continuava estampado no rosto. A câmera se afastava, e mostrava o que homem realmente estava fazendo. Uma garota, de olhos arregalados enquanto o homem serrava sua perna. Tampei minha boca com as mãos, tentei me convencer que o vídeo era apenas uma montagem, coisa de estudante de cinema, mas parecia tão real... A filmagem se mostrava um material bruto, sem sinais de efeitos ou montagens.

Tudo o que havia no vídeo era o som da perna sendo serrada, e o olhar assustado da garota. Aquele olhar que ficaria por vários dias em minha mente. Quase cinco minutos se passaram e o vídeo finalmente acabou. Me recostei na cadeira, pensando sobre o que tinha visto. De repente ouvi um som, mas a tela continuava escurecida, então lembrei que não tinha diminuído o volume. Lentamente comecei a perceber pequenos gemidos, eram da garota. Verifiquei o tempo do vídeo e percebi que ele ainda estava passando. Ainda tinha uns cinco minutos sobrando. Os gemidos ficavam mais audíveis e logo a imagem retornou. A garota estava jogada no meio da estrada, gemendo e se contorcendo, porém, ainda viva. Suas duas pernas... já não estavam mais lá. “Satan é o meu pai e o Inferno é o meu lar...” a voz do homem repetia. Cerrei os dentes enquanto meu nervosismo aumentava a cada segundo. Logo o homem parou de falar, e começou a assoviar, como se estivesse tentando chamar a atenção da garota, como uma pessoa faria com um cão. Então ele falou “Aqui garota, rasteje garota, vamos! você consegue, rasteje!” A garota olhava diretamente para a câmera.

Seus olhos estavam avermelhados, distorcidos, não pareciam humano. Ela virou-se de bruços, esticou os braços para frente e começou a rastejar para a câmera. Um sorriso sinistro começou a surgir em seus lábios. A pele em seu rosto estava pálida e cheia de cortes. Tudo que podia ser ouvido no vídeo era o som que o corpo da garota fazia ao ser arrastado na estrada suja. Ela seguia lentamente em direção à câmera. Ela finalmente chegou aos pés do homem, deixando um grande rastro de sangue pela estrada. Ela olhou para cima e soltou um terrível grito. Um grito de fazer o sangue gelar. Fechei o notebook rapidamente e o coloquei de volta no armário. Tranquei a sala e quase saí correndo. Quando cheguei no estacionamento, o meu amigo já estava lá. Entrei rapidamente no carro, e fiquei calado durante todo o caminho para casa. 

Na manhã seguinte, falei com o supervisor sobre o vídeo e o que tinha visto. Ele riu e falou o seguinte: “Quem lhe contou essa história?”. Eu o levei até a sala multimídia, peguei o notebook e o liguei. Nada aconteceu. O notebook não funcionava. O supervisor logo começou a falar que o computador estava quebrado, e por isso estava guardado no armário. Ele disse que a história que rodava pela faculdade era sobre uma garota que tinha sido sequestrada e arrastada para o deserto. Suas pernas foram cortadas e ela foi oferecida como sacrifício para Satan por um dos membros do departamento de cerâmica. O supervisor me garantiu que tudo não passava de uma lenda para manter os estudantes afastados do deserto à noite.

Ele ainda adicionou “Alguns dizem que podem ouvir assobios no deserto durante a noite, e a voz de um homem, mandando alguém rastejar. Mas na minha opinião, essa história toda não passa de uma grande besteira.