16/03/15

Assistindo TV até tarde

É uma sexta-feira à noite. Seus pais estão fora durante o fim de semana, e deixaram você tomando conta do seu irmão enquanto eles não estão em casa. Quando você tem 17 anos, é claro que você é mais do que capaz de cuidar do seu irmão mais novo e fazer de tudo para que ele não faça nenhuma merda.

Mesmo faltando 15 minutos para meia-noite, nenhum de vocês foi pra cama ainda. No momento, você está no seu quarto terminando seu dever de casa e seu irmão está lá embaixo, assistindo TV na sala de estar.

Seu quarto fica diretamente em cima da sala, então, é sempre possível escutar a TV. Qualquer filme de ação, qualquer reality show, qualquer comercial... Você consegue ouvir cada um deles claramente.

Isso costumava te irritar bastante, mas você se acostumou a estudar com o som ao fundo, agora raramente te distrai, e se distrai, você apenas pede para abaixarem o volume – se você estiver com muita preguiça, pode apenas bater os pés no chão, eles sempre escutam você –

Mesmo estando focado no que está fazendo, você está completamente ciente do que o que seu irmão está assistindo. Você acha que é um filme de ação dos anos 70, ou algo do tipo. Naquele momento, você pode ouvir um personagem, provavelmente um chefão do crime ou qualquer coisa relacionada a isso, gritando e se vangloriando de como a gangue dele vai acabar com a gangue rival.

“Nós vamos atirar neles até eles ficarem completamente cobertos de sangue!” Seu irmão ri alto. Só uma criança sem entendimento conseguiria rir de palavras tão agressivas.

“Vamos sim, Lupo!” Um dos “capangas” respondeu.

Outro personagem diz, com uma voz tímida. “Não tenho certeza se deveríamos fazer isso, não parece certo pra mim...”

“Você tem algum problema com o plano?” O “chefão” fala, e dá para notar que ele está irritado.

Nesse momento, você não consegue mais se concentrar no dever de casa, sua atenção está voltada para o filme e você quer saber o que vai acontecer.

O outro responde, “Não, apenas acho que deveríamos—” ele foi interrompido por algo que parecia uma briga, alguém gritou e logo começaram sons que pareciam tacos de baseball batendo em alguma coisa. Seu irmão ri novamente e você não tem ideia do porque aquilo é engraçado.

O personagem tímido – ou seja lá quem esteja apanhando – continua implorando por misericórdia, mas quem o está machucando não para nem por um momento. A vítima implora uma última vez, e então fica em silencio, logo depois você pode ouvir outro som, como se algo estivesse se quebrando – provavelmente um osso – e outra discussão novamente se inicia, acompanhada de mais risadas do seu irmão.

Depois de um momento, o líder fala novamente. “Alguém tem mais alguma opinião pra dar?”

Ninguém diz nada, e no silencio, você pode ouvir seu irmão ainda rindo.

O líder continua, “Bom, fico feliz que tenham decidido assim.” Ele suspira. “Oh, merda. Agora estou coberto de sangue.” E essa fala faz seu irmão gargalhar... “Ele provavelmente não sabe o que está acontecendo, por isso ele está rindo” Você pensa.

“Dê-me um balde e uma toalha, Frankie.” Ele ordena. “Então poderemos jogar esse pedaço de merda na rua. Os ratos também precisam comer, não é?” Seu irmão simplesmente gargalha como se estivesse escutado a piada mais engraçada do mundo.

E dessa vez a risada continua mais alta e demora cerca de um minuto, isso é estranho.

Você se sente enjoado e algo te diz que você deve verificar, e que seu irmão não deveria estar vendo um filme desse tipo á essa hora da noite. Aliás, nem a essa hora da noite, nem hora alguma! Ele provavelmente vai ter pesadelos, e se for brutal como parece, ele nem irá dormir!

Você grita o nome dele e ele não responde, e depois de um momento você tenta novamente –sem resposta– talvez ele esteja dormindo no sofá, você decide descer e ir buscá-lo.

Você desce as escadas e o barulho da TV para completamente assim que você pisa no último degrau. Lá embaixo está escuro e a TV não está ligada, seu irmão não está no sofá. Você o chama novamente; ninguém responde, e depois de andar todo o andar de baixo, você finalmente se convence de que ele não está lá.

Alarmado, você sobe as escadas novamente e decide espiar o quarto dele – e o encontra – na cama. Ele provavelmente está dormindo há um tempo, já que não tem como ele ter passado pelas escadas sem ter sido visto por você. Nesse caso, você está feliz que ele está bem, e feliz que ele não está mais vendo aquele filme horrível.

Bom, você está feliz até perceber que não tem como ele ter assistido TV há poucos minutos atrás e já ter dormido.


Você sente um frio na espinha e ouve uma risada atrás de você, é a mesma risada, a que você presumiu que era do seu irmão, só que agora, ela está muito mais próxima – e alta –. 


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