31/07/2020

Há uma razão para todo mundo ter medo daquele homem que dirige um carro vivo

Papai não percebeu quando o homem surgiu de onde não tinha nada, no meio do estacionamento, com um capuz cobrindo o seu rosto e as mãos guardadas no casaco. Os seus passos eram tão delicados, que não dava para ouvir nada, mas, bem antes de ele nos observar, eu tinha o enxergado nos encontrando. Papai estava guardando as coisas - sacolas do supermercado - dentro do nosso carro e não sentiu o perigo. O malfeitor anunciou o assalto, latindo como um cachorro violento, e o rosto do meu pai se deformou em proporções confusas. Desorientado demais para uma situação dessa, não soube o que fazer, nunca o vi tão assustado.

Os dois adultos estavam tremendo. Certamente, era a primeira vez do assaltante ou ele estava muito nervoso dessa vez, porque quase não conseguia pronunciar as mesmas palavras. Na terceira vez, um pouco mais irritado e finalmente mostrando a arma.

E, finalmente, o meu pai dirigiu as mãos à calça, procurando nos bolsos onde estava a carteira, enquanto a sua mente parecia gritar e o seu corpo não respondia da forma que almejava, com a intenção de pegar o objeto quadrado, os cartões de créditos e algumas notas. Eu o abracei nos segundos em que o homem se aproximou, e o meu pai tropeçou um pouco para trás. Na sua cintura estava o volume do cinto para fora, e foi suficiente para o assaltante disparar o primeiro tiro, que quebrou os vidros do carro. O segundo penetrou no peito do papai e o terceiro, desajeitado, escapando enquanto ele estava em cima do seu corpo, arrancando o que almejava, acertou a minha cabeça.

Eu fiquei quase dez dias em coma, os médicos disseram que eu estive morto, mas voltei à vida graças ao sacrifício do meu pai, esse sacrifício que só entendi um pouco depois quando soube que minha mãe ficou viúva. Aquelas marcas negras nos seus olhos, além das noites mal dormidas, foi extravasando as madrugadas em lágrimas noturnas. Foi aí que ela conseguiu auxílio de alguns conhecidos e precisou se mudar para uma outra cidade, um lugar mais pequeno, afastado e calmo, longe das aglomerações. Nós chegamos em uma noite, e foi aí que tudo realmente começou... Em suspiros felizes como se nós fôssemos começar do zero.

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O carro de mudança foi suficiente para trazer nossas poucas coisas. A nova casa era bem menor do que a outra, e a vizinhança parecia morta, nenhum sinal de vida. Aproveitei o momento em que os funcionários estavam removendo as coisas e colocando na nova residência, para esticar um pouco as minhas pernas. Estava um pouco distante e observei onde nós estávamos, local bem caricato, de interior. Entediado e com sono por causa da hora tarde da noite, tentei voltar novamente, respirando esse ar bem menos poluído do que estava habituado, e dois garotos apareceram... saindo de trás de algumas tábuas que estavam separando os quintais: o primeiro era um pouco rechonchudo, com olhos azuis brilhando na noite, as maçãs do rosto rosas, e ele me encarou. O outro era baixo, cabelos espalhados, como se estivesse acabado de levar um choque; o seu sorriso foi sumindo para algo curioso. Então ele se dirigiu a mim.

"Ei, garoto, você é o novo vizinho do nosso bairro? Certamente que sim! Pois nunca te vi por aqui. A nossa cidade é pequena, e todos sabemos que uma nova família irá chegar nessa região. Você está bem?" - ele tentou parecer educado, escondendo uma peteca atrás do seu short esfarrapado, ajeitou os seus cabelos deixando ainda mais engraçado e saiu do beco escuro onde as tábuas estavam impedindo a iluminação dos poucos postes de luz na rua sem asfalto.

Fiquei tão confuso, não soube se era o sono ou aquela surpresa de encontrar outros até tão tarde da noite. Provavelmente aprontando, porque eles estavam tão surpresos quanto eu por encontrar outros também nessa madrugada, com o vento uivando sem parar. Acabamos nos cruzando de uma forma estranha, quase que chegando em uma situação importuna para as duas partes. A falta de comunicação por gestos ou assunto diante disso, foi ficando constrangedor ao ponto de ser esmagador.

"Não percebeu? É um garoto da cidade. Ele deve se achar bom demais para falar conosco! Não notou o bom tecido em suas vestes, a maneira que nos observa dos pés à cabeça? Não vamos perder o tempo com esse tipo de sujeitinho almofadinha que não sabe nem dar uma boa noite para uma cortesia!" - o garoto mais forte saiu da escuridão também. Os seus olhos pareceram abominações, como demônios, pois o azul estava faiscando com tanta intensidade que me fez ficar com medo, ao ponto de bilhar de uma forma indescritível. As minhas palavras se dobraram ainda mais na minha garganta e eu senti uma dor nesse momento. Isso nunca aconteceu em toda minha vida, talvez tenha sido ainda pior do que aquela lembrança, porque tudo se misturou em um vazio cortando por dentro.

-Nesse momento, se afastaram, dobrando suas costas e tentando parecer ainda mais despercebidos, se escondendo em todos os aglomerados de vegetações e divisões de casas. Certamente não queriam ser vistos e ignoraram a minha presença. Finalmente eu consegui, o ar ficou preso e dilacerando lentamente, porém consegui cortar como um escudo a minha situação naquele momento. "Boa noite! Seja lá o que vocês estavam fazendo, não precisam se preocupar, porque eu não vou contar. Acabei saindo de uma situação um pouco ruim e ainda estou tentando lidar com isso. Me sinto péssimo e constrangido. Amanhã eu vou precisar ir para o colégio e só queria saber como as coisas aqui funcionam."

"Ele disse que iria para o colégio". - o cara com cabelo bizarro mencionou. "Isso não é problema nosso!" - o birrento resmungou. "Ele me parece um cara legal e não podemos deixar sozinho nesse lugar, ainda mais quando se trata do dia de amanhã, é sua primeira vez..." - o grandalhão me bisbilhotou por cima dos ombros. Aqueles olhos assustadores índigos mastigaram mais uma vez a minha mente. Ajeitou a sua roupa, como o outro, e pediu desculpas.

"Não precisa levar nada para o pessoal, novato, nós estávamos jogando pedras nas vidraças de algumas casas, e isso não é uma coisa que você precisa saber. Bem, é novo e disse que iria para o colégio na manhã. Nós estudamos no mesmo lugar, até porque não existe mais nenhum outro. Temos ótimos professores, poucos alunos, mas todos bons. Creio que você conheceu os piores meninos daquele, e nós não somos o tipo que são habituados a fazer bullying ou agredir os outros. Enfim, olhando para esquerda, vai encontrar a rodovia, e lá, logo entregará o ponto de ônibus. Se atrasar vai perder a locomoção! Esse caminho até o colégio talvez chegue na metade do horário, se ficar perdido nessa região por ser alguém de fora, mas não precisa se preocupar se acordar cedo, porque..." - eles ficaram amedrontados, realmente não foi difícil de enxergar o pavor nos seus semblantes. Voltaram para a parte mais umbrosa do lugar, onde as tábuas estavam protegendo da luz, e um deles me puxou, quase me jogando no chão, e disse que o "velho lunático" está chegando.

Um Chevrolet bem antigo começou a fazer barulho, vindo de longe, com uma fumaça serpenteando e atirando como se fosse um revólver pelo cano de escape. O cheiro da morte, de dezenas de corpos em decomposição, cobriu todo lugar. Os garotos se esconderam. Então nós observamos um homem passando... sua aparência não era tão velha quanto o meu falecido pai, mas, os seus traços faciai eram realmente assustadores: o seu rosto era fino e ele parecia conversar consigo mesmo, olhos vidrados em todas as direções, cabelos pintados, para trás, como se fossem duros como concreto, e a sua pele, de alguma forma surreal, era cadavérica demais, como se ele estivesse se assustado com uma assombração.

"Disseram que a sua filha morreu em um acidente, e ele acabou ficando desequilibrado. Por qual razão vocês acham que fica conversando sozinho!? As crianças que morreram nos últimos anos, os seus ossos serviram de acessórios para o seu veículo do inferno, e todos dizem que estão vivos, pois ele traz sons de outro mundo, assombrações em desespero". - os garotos assobiaram em silêncio as mesmas palavras, enquanto aquele sujeito pavoroso passava mirando em todas as direções, algo parecido com uma alma tentando encontrar algo.

"É sempre a mesma emanação de decomposição quando passa com o seu transporte. Talvez tenha feito mais uma vítima ou são os corpos das outras em estado de decomposição nas ferragens. Existe uma boa razão para todo mundo ter medo daquele homem assustador que dirige um carro vivo nas noites obscuras.". - não paravam de cochichar escondidos e com o pescoço levantado para enxergar ao máximo possível. Eu praticamente estava sendo amordaçado por eles enquanto ficavam cochichando coisas semelhantes à lendas urbanas locais.

"Eu fui criado para saber respeitar os doentes mentais e velhos solitários! Tudo isso que vocês estão dizendo não existe! É apenas um pobre coitado sobrevivendo nesse lugar. Realmente podem julgar alguém vindo de fora? Para que tanto preconceito!? Na minha ex-vizinhança, existe um sujeito que come lixos e restos de animais, às vezes carrega os seus corpos, espalhando o aroma de defuntos!" - eu me afastei dos outros garotos, indo direto para pista, e "dei boa noite" para o carro que, imediatamente, freou. Quem estava dirigindo fixou o olhar pelo vidro e me notou parado à alguns metros de distância. Demorou alguns segundos para abrir a porta e saltou como se estivesse fugindo de um saco, caminhando como um animal de quatro patas e me agarrando de surpresa. Foi tão rápido que parecia que ele havia controlado o tempo.

"Você consegue enxergar? Eu vejo isso! Você é mau, traz coisas ruins para a vida de quem ama. É um fantasma ou não!? O que está fazendo aqui? Preciso fazer parte da próxima morte!" - o pedaço de madeira se tornou em migalhas por uma força tão bruta que o seu corpo rodopiou algumas vezes pelo impacto de súbito. O garoto gordo me levantou, puxando e arrastando, como se fosse o predador querendo se alimentar de sua vítima, e ele foi me empurrando para longe, enquanto aquele cara se levantava, apontou na nossa direção, voltou para o carro e dirigiu como se nada tivesse acontecido.

"O que deu em você, seu bunda mole!? Ele iria lhe matar e colocar o seu corpo para servir de transporte naquele carro vivo e respirando. Não vai ter tanta sorte como dessa vez... Sabe por que todos têm medo daquele açougueiro de crianças!? Sabe o que eles dizem? Em um certo acidente envolvendo uma van escolar, que acabou sendo vítima de uma ponte de madeira, afogando todos os garotos, a sua filha foi uma delas, e todos os dias, quando faz dez anos da morte, o lunático mata mais um. Todos dizem que existe uma razão bem lógica para todos ficarem longe até hoje. Você queria fazer parte disso!? Na próxima vez, não vai ser tão sortudo, porque nós dois não iremos te ajudar!" - ele estava cuspindo no meu rosto quando minha mãe apareceu e encontrou nós três assustados. Eu disse que estava tudo bem e nós estávamos brincando, porque havia feito novos amigos. Estava tão acabada quanto um zumbi, para simplesmente pegar no meu braço e me guiar, enquanto eu estava observando por cima do meu ombro aqueles garotos desaparecendo como fumaça, naquelas ruas sombrias e cobertas por vegetações.

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Fiquei por muito tempo ouvindo o sermão da minha mãe desgastada e aborrecida demais para dizer coisas concretas. Nós nem jantamos. Não me preocupei com isso. Talvez não tenha reparado que eu estava com fome e me deitei em um amontoado de panos para tentar dormir. Os meus olhos não fecharam nessas horas da madrugada, que nunca fiquei acordado até tão tarde para ouvir pancadas na janela. Vi sombra medonha do outro lado das cortinas. Esse foi o momento que qualquer garoto da minha idade gritaria por sua mãe, mas, nesse caso, não. Não queria ver aquele fantasma respirando mais uma vez esse dia, nesse caso me aproximei, liguei a lâmpada para observar aquele garoto magro... Embaixo dos seus olhos, era escuro, tão quanto o daquela mulher choramingando do outro lado da parede, e ele me disse algo que eu precisava saber.

"Estou até tão tarde aqui em razão de não conseguir dormir, eu tenho que ficar ouvindo os meus pais brigando nos outros momentos em que estão dentro de casa... Com isso, passo as noites acordado, ainda assim quero te alertar sobre aqueles boatos. Eu também não tenho medo dele, mas me assusto com as lendas. Sei que não vai fazer mal para ninguém; mesmo assim, é bom ter cuidado, pois certo tipo de superstições podem ser verdades de formas diferentes, que são interpretadas. Disseram que ele esteve morto quando se afogou para tentar salvar as crianças. Apesar dos seus esforços, a correnteza, força da natureza, foi ainda mais esmagadora quando a van foi tragada pela ponte de madeira, tornando-se mais forte. Conseguiu vida ao vomitar a água e, após esse dia, observando os corpos boiando dos estudantes e do motorista, ficou louco e agressivo. Espero que não fique tão assustado e fique um pouco mais calmo. Agora, eu preciso sair, porque está quase amanhecendo, e amanhã é dia de aula. Os meus pais já estão muito frustados com as minhas notas baixas para faltar, e vamos nos encontrar no colégio." - ele deslizou a escada das plantas, os seus dedos foram cortados pelos espinhos, mas não era suficiente para se preocupar com pequenas fissuras, e saiu correndo no meio daquele frio, com o vento absorvendo qualquer som, em todas as partes, em uma melodia avassaladora.

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Por um alguma razão, não acordei cedo o suficiente. Sacudi as minhas pernas e braços e fui direto para cozinha. Nessa manhã nublada, apenas precisei prestar atenção para um bilhete dizendo que o café estava pronto e que minha mãe não tem hora para chegar em casa, rabiscos bem diferentes da sua forma de escrever. Havia algo de errado ou esse dia começou tão bosta quanto os outros. Coloquei apenas a roupa do colégio desse lugar e fui caminhando para onde os garotos disseram que estavam a localidade, onde o micro-ônibus passa. Não fazia a mínima ideia se eu havia atrasado demais ou suficiente para aparecer pelo menos na terceira aula. A chuva começou de repente, quando eu pisei naquele lugar, e havia outros garotos tão perdidos quanto eu no horário. A presença deles foi o suficiente para eu ficar um pouco mais calmo.

Nunca senti o meu corpo tão pesado, enquanto eu aguardava nesse lugar. Os outros estavam tão silenciosos quanto eu, mas não demorou muito para observarmos aquele transporte se aproximando. Fiquei animado, e todos também. A chuva ficou tão forte quanto pedras caindo do céu, talvez eu já estivesse preocupado com outras coisas para ignorar esse clima violento. A escapatória estava chegando naquele coletivo... E as coisas boas sumiram logo quando mais um outro veículo se aproximou. No momento em que parou, nenhum de nós percebemos, tratava-se daquele cara que os garotos disseram que era um lunático. No breu da noite, imaginei criar fantasias na minha mente, que ele era uma figura fantasmagórica, com fisionomia bizarra e falando sozinho, sendo enganado pelas superstições locais. Para o meu devaneio pavoroso, durante o dia, foi como se todo pesadelo em uma noite mal dormida se tornasse real para tudo aquilo diante dos meus olhos.

Se dirigiu a mim somente, na minha direção, me mandando entrar, ao mesmo tempo que ajeitava o retrovisor para o ônibus se aproximando. Tentei ignorar ao máximo os seus berros, mas logo substituiu o tom autoritário para vocabulários maléficos, mencionando que estava com minha mãe sequestrada e, se eu não o obedecesse, iria matá-la. Nesse momento, sentindo um fantasma negro controlando o meu corpo, como uma marionete, direto para as ferragens do veículo, não pude fazer mais nada. Não existia mais ninguém para pedir ajuda, os outros garotos estavam tão arrepiados quanto eu. Finalmente, examinei os seus rostos frios, assustados, vazios, em tons mortos, para situação que nós estávamos, e não existia mais nenhuma opção além de entrar no seu carro e a porta se fechar logo em seguida.

Ele estava observando o retrovisor, enquanto os outros garotos entraram no coletivo, como se nada estivesse acontecido. O repugnante sabia muito bem que estava no controle e mais ninguém o desafiaria. Abaixou o vidro para um sorriso sujo, e os seus olhos me contemplaram. Nunca experimentei o gosto da morte como nesses segundos, dessa forma tão agonizante. Talvez tenha sido pior do que tudo que eu passei até o momento. Dezenas de possibilidades ficaram voando na minha mente, mas logo ele percebeu de uma forma como se tivesse sabendo que eu estava tramando uma forma de escapar.

"Sei que você está querendo escapar, contudo, não vai acontecer, não mesmo! Esse dia me trancaram, espancaram e esconderam naquele porão para que, embaixo dessa chuva do passado, exatamente na mesma manhã que minha filha morreu, não exista mais nenhuma morte e possam quebrar o círculo dos dez anos, mas não vai funcionar! Porque eu estou aqui, e você é tudo que eu preciso. Acharam mesmo que conseguiriam impedir mais uma criança de ser morta? Estão enganados! Você, garoto de fora, vai mudar isso! - os seus lábios inundaram qualquer tipo de esperança ou possibilidade de lutar, não existia nada além de nós dois, e o seu carro respirando, movimentando, peças oxidaladas comunicando uma com as outras. Eu desejei, pelo menos, que minha mãe estivesse bem, antes da morte imediata nas mãos daquele asqueroso.

As minhas têmporas se encolheram tanto, que minhas pestanas doeram e o freio, cortando do ferro desgastado pelo tempo, anunciou a imagem da minha casa. Eu estava na parte mais fria do dia, e a chuva finalmente escapou do outro lado. O cara estava olhando para frente e me aguardando sair, e não existia mais forças no meu corpo. Aconteceu um curto-circuito, e eu estava tão frágil quanto uma criança recém-nascida. Ele me olhou diferente e pareceu outra pessoa do outro lado. Seja lá o que fez com aquele outro sujeito, pavoroso, uma figura amedrontadora dos contos de terror da região, desapareceu para um cara com mais de trinta anos, frio e animado.

Garoto, você está seguro. Precisa sair agora e entrar na sua casa, porque me obedeceu. A sua mãe está a salva. Sei que você vê-los também. Eu os vejo desde aquele dia que sobrevivi e escapei da morte, mas não fugi dela. Consegue observar os mortos...? Todo mundo, que esteve por alguns segundos no outro lado, volta trazendo um pouco deles. Nós dois somos iguais! Aquele ônibus é o fantasma do passado, e os garotos são as vítimas! Sempre, depois de dez anos, tudo se repete. Você seria a terceira vítima, e todos me julgariam como culpado, porém quebrei o ciclo. Finalmente acabou! Não para mim, porque os fantasmas não são lendas, diferente da minha descrição apavorante em boatos." - minha mãe me recebeu logo em seguida que eu saí da lata-velha, e o tempo parou para observar que ele estava distante. A mamãe, muito desesperada, disse que havia quebrado a ponte mais uma vez por causa da inundação da tempestade, e orou pra eu estar bem.

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Em menos de dez dias, aquele cara havia sido vítima do destino e morrido dois anos depois, solitário. E nunca mais eu o vi. Mesmo assim, a tempestade voltou, a inudação feroz por sangue, mas eu não vou deixar mais nenhuma criança seguir o ciclo das mortes. Não quero ver mais desgraça na minha vida e de mais ninguém. Irei continuar ajudando os garotos, mesmo que todos me vejam como um louco por ter recebido carona do sujeito pavoroso que morreu há um tempo. Sabemos que as pessoas precisam de um monstro para odiar...

Autor: Sinistro

30/07/2020

Na sacada do prédio

Escolhi o prédio mais alto da cidade, onde teria certeza que, depois que eu subisse na parte cortando os céus, ninguém me impediria. Um homem bem vestido em locais de negócio, seria apenas mais um funcionário passando despercebido. Ninguém se preocupou quando eu entrei pela porta da frente, procurei o elevador e subi com os outros. Nem sequer olharam dentro dos meus olhos e perceberam o quanto eu estava desconsertado. Saí logo em seguida, entrei no escritório acima dos outros, coloquei, na porta, em minhas costas, uma cadeira, impossibilitando que alguém entrasse facilmente, e abri a janela.

Foi quando me aproximei da sacada e o vento tentou me empurrar para dentro, tão forte quanto uma tempestade, mas eu estava vazio por muito tempo. Examinei as movimentações embaixo, e todos pareciam formigas, estava sendo tudo mais fácil do que imaginei. Coloquei o primero pé, o outro foi arrastado logo em seguida. O Sol não estava quente o quanto me preocupei, coisas ficaram borbulhando na minha mente. Então, ouvi uma voz dentro da sala.

"Não se movimente mais. Eu sei que você é uma boa pessoa e não precisa fazer isso. Por favor, me ouça!" - tentei olhar e não tinha ninguém próximo, mas a voz estava ali e me deixou um pouco aflito. Não queria que tudo acabasse como um louco, pois sei muito bem o que estava fazendo.

"Eu não preciso? Por que não!? Quem é você, e pare de se esconder." - coloquei o segundo pé para dentro do escritório quando o vento ficou um pouco mais forte e uma aglomeração de formigas estava apontando para cima, e pude prestar atenção em um turbilhão de vozes se espalhando lá embaixo.

Tinha certeza de que não havia ninguém no momento em que tranquei a porta, porém apareceu um homem bem vestido. Certamente, responsável por esse prédio, um sujeito com os olhos frios, expressando calma e paciência. Não era a primeira vez que estava lidando com situações ao extremo, sua preocupação diante da situação era bem clara. Levantou suas mãos e parecia controlar os meus nervos da forma que tentava amenizar o que eu estava passando. Em contrapartida, aquele timbre ficava estremecendo e comunicando-se como se fosse um megafone baixo.

"Não consigo ver pessoas tristes fazendo besteira" - disse ele, com tanta aflição e desgosto no seu rosto, que me deixou um pouco comovido. Coloquei o outro pé para dentro, mas, quando ele percebeu que eu estava distante, novamente voltei para sacada, e ele parou de caminhar em minha direção. A forma lenta e calculista interrompeu a maneira que estava rastejando o seu corpo em minha direção.

Quando voltei para janela, já não estava mais soprando, e carros de polícia estavam na calçada. A porta começou a sacudir distante de nós dois, e ele recorreu a apelar falando sobre os meus filhos, a minha esposa, fixando na aliança no meu dedo e dizendo que as pessoas precisavam de mim, apesar dos momentos ruins. Eu tinha tudo que qualquer um sonha na vida: um bom emprego, crianças saudáveis e exemplares, esposa dedicada e que me amava. Observando suas palavras, me senti péssimo, como se eu nunca estivesse valorizado tudo que eu tive na vida, que foi suficiente, apenas reclamando. Sei que nem sempre conselhos conseguem preencher o vazio que alguém tem dentro da alma. Há algo absorvendo tudo de bom e, dessa vez, o homem estava no meio, bem mais próximo do que antes, da sua forma invasiva de rastejar, com as órbitas oculares quase lacrimejando em desespero, dizendo que já viu todo tipo de coisa ruim e não poderia deixar uma pessoa boa fazendo uma desgraça dessa. A maneira que dizia, parecia me conhecer talvez melhor do que eu mesmo.

Apesar dos esforços desse cara, eu estava pronto. Foi muito bom criar esperanças, ouvi palavras de alguém que se importou com os meus sentimentos e tentou saber o que eu estava passando e o que me atormenta no momento. Quando percebeu que quase o meu corpo todo estava para fora do escritório, expôs que provaria, vozes gritando em sua garganta aparentemente no último esforço restante: me pediu para fechar os olhos por um segundo, disse que era a única coisa que desejava de mim. Sentindo compaixão por seu desespero frustrante, eu o fiz.

Seja lá o que esse homem já passou, suas palavras eram como se fosse o melhor psiquiatra do mundo e tentou dizer o quanto a minha família se perderia depois que eu fizesse isso. A minha mulher não iria superar, os meus parentes não suportariam, e eu perderia tudo que construí. As pessoas lá embaixo, aumentando; crianças abaladas e sem entender, adultos chegando das suas ocupações... Seria um trauma ver um corpo destruído na calçada. Pode criar, no escuro da mente, coisas pavorosas que minha escolha errada causaria na vida dos outros, um terror chocante e verdadeiro.

A cadeira, eu já não estava mais suportando as investidas do outro lado e, antes que a porta fosse arrebentada por outras pessoas preocupadas comigo, aquele homem me salvou. Eu pude enxergar com mais atenção na minha mente todos os dias que minha companheira me recebeu com um sorriso e dizendo que me ama, os meus filhos, Naomi e Akemi, me chamando de paizão e falando o quanto sou importante. Até os meus parentes sempre me recebendo bem, apesar dos meus problemas emocionais.

Não faz sentido destruir a vida deles, e ele, batendo palma e dizendo o quanto eu fui bem, continuava atrás de mim, percebendo o quanto eu estava me afastando da janela. Por que isso se nem tenho inimigos? Não tinha nada para reclamar, sabia que poderia conseguir um tratamento. Finalmente estava fora da janela e a única coisa que eu poderia fazer, era agradecer porque o terror, onde não existe, foi criado apenas por minha mente burra. Nunca me senti tão bem comigo mesmo.

Virei minhas costas, respirando fundo e confiante. A primeira vez na vida que realmente estava feliz e aliviado para agradecer o esforço que alguém fez e tentou me ver bem, lutando ferozmente cada segundo. Um homem que em menos de segundos estava próximo do meu rosto, quase que beijando na minha boca. Agora animado, enxergando em minha direção e empurrando-me com sua mão... Segundos antes que eu ficasse distante suficiente, assobiou essas palavras, o meu rosto vendo a sacada ficando mais distante e os barulhos embaixo gritando em sincronia mais próximos.

"Não tem graça quando vocês estão tristes!"

Autor: Sinistro

29/07/2020

Sou um filho iniciante

.. e eu fiquei ali parado, me encarando, a angústia me predominando, o sangue pingando e escorrendo pelo meus dedos, sujando o chão e a minha mente.

Dez minutos, eu tinha exatos dez minutos a partir de agora.

Lavei minhas mãos, que antes estavam sujas com aquele vermelho chamativo, lavei meu rosto e me peguei parado, me encarando no espelho. Era a minha primeira vez fazendo aquilo, e o que mais me assustava era esse sorriso, esse sorriso que eu não conseguia segurar. Estava ansioso por isso há anos, eu disse a mim mesmo, deve ser comum estar sorrindo, não?

Olho para o relógio que agora dizia que eu possuía apenas dois munutos. Me apresso e caminho até o meu computador e quando meu relógio apita sei que a hora chegou. 3:09AM, o único horário que nas terças-feiras o link aparecia. Cliquei nesse link, ainda receoso, e ele me levou para uma página, cujo em seu canto inferior direito havia, em letras pretas e pequenas, a seguinte frase:

" - Anuncie aqui o que você possuí, é isso o que eles procuram."

Cliquei na frase, que abriu uma janela pedindo informações sobre dimensões e pesos dos "produtos". Três segundos agora, passou três segundos e cinco diferentes pessoas me enviaram mensagens, querendo comprar meus produtos, que agora já estão vendidos e que inviarei amanhã.

Suspirei em alívio, minha missão havia sido concluída. Em comemoração abri um vinho antigo, que estava escondido na cozinha há quantos anos mesmo?bom, estava apenas esperando ser aberto no momento certo e esse momento finalmente chegou.

Eu espero que meus filhos acreditem na mentira. Espero que eles não me façam perguntas do tipo "papai, ela se foi mesmo?", ainda dói em mim saber que tenho uma péssima sorte com as mulheres, mas não tenho culpa. Não sinto culpa. Agora sei que meus filhos estarão mais felizes, pois a dor da fome e de braços roxos, não será mais um problema.

A fita para de tocar. Quando eu gravei isso mesmo? eu me pergunto. Se gravei, por que não joguei isso fora? De qualquer forma eu não posso mais me arrepender ou voltar no tempo para apagar essa fita.

Ela sorri, e guarda a fita.

- Bom, isso já é o suficiente? Eu sei, eu sei que você apenas estava querendo proteger os seus filhos, mas essa não era a única opção, você sabe disso.

A mulher agora em minha frente está fazendo um sinal para a pessoa atrás de mim.

- Não acho que você deva voltar, se fosse apenas aquela mulher, tudo bem, mas depois a quantia foi crescendo e crescendo.. e você, novamente não se arrepende nem um pouco, não é?

Eu apenas dei um sorriso, ela era uma mulher muito esperta.

- Certo, então mandarei você de volta para baixo. Próximo!

Agora eu estou suando.. Por que começou a ficar quente? Eu não tive tempo de falar qualquer coisa e o que parece ser um elevador começou a decer. Derepente lembro que já estive aqui. Aaah - eu suspiro - é bom estar de volta, papai.

Autora: Francielly Silveira

04/07/2020

Acontecimentos estranhos em uma escola localizada no fim do mundo

Quero primeiramente deixar claro que os fatos a seguir realmente ocorreram. Não, não estou falando isso para assustar ou para parecer clichê. Tudo ocorreu em uma escola que estudei e que meus irmãos também estudaram. Minha mãe era professora da escola, ela achou mais fácil colocar meus irmãos e eu para estudar no mesmo lugar onde trabalhava. O problema mesmo era quando ela tinha que ficar até tarde, corrigindo provas. Tínhamos que ficar rodando a escola até ela terminar. A dona e diretora do lugar não se importava. Não direi o nome do colégio, o máximo que precisam saber é que o mesmo está localizado em uma região bem afastada.

Não sei ao certo quando os eventos paranormais tiveram inicio, colocarei apenas os mais famosos e aqueles que me lembro. Deixando claro também que os casos não estão em ordem, o segundo pode ter acontecido antes do primeiro e assim vai. Estou apenas relatando os que vem em minha memoria.

O primeiro caso que vou contar, ocorreu na época de provas, quando os alunos iam apenas fazer as provas e quando terminavam, poderiam ir para casa. Alguns alunos voltavam rapidamente para o lar, outros moravam longe e esperavam os pais virem buscar. Então, quando terminavam, ficavam conversando entre si ou andando pelo colégio. Uma das alunas foi até o segundo andar para pegar algo que esqueceu. Em questão de poucos minutos, um grito estridente ecoou. Uma das professoras que estava no segundo andar, corrigindo provas na salas, foi rapidamente ver o que estava acontecendo na sala de onde veio o grito. Segundo ela diz, a aluna estava encolhida, chorava desesperadamente, falando sobre uma mulher no canto da sala, que a encarava sem parar. Mesmo conversando e tentando dizer a jovem aluna que tudo estava bem, a professora contou que não duvidava da garota, pelo fato de outros casos envolvendo aquela mulher já terem sido relatados. Dias depois, ficamos sabendo que a garota teve febre e que não queria mais voltar para a escola, os pais não sabem o que ela viu, mas afirmam que aquilo realmente a traumatizou.

O segundo caso é mais conhecido e, dessa vez meu irmão também presenciou. Ocorreu no meio do ano. Os alunos de uma das salas do segundo andar estavam bagunçando enquanto a professora tentava acalmá-los, até que em um momento a porta da sala bateu. Aquilo era estranho, não tinha janelas abertas e nenhuma corrente de ar poderia ter feito a porta bater. Um dos alunos foi tentar abri-la, mas ela simplesmente não abria. Outros alunos o seguiram e resolveram se abaixar para ver por debaixo da porta. O que eles viram foi algo bem estranho, meu irmão jura até hoje que é verdade. Eram dois pés, magros e pálidos, parados bem em frente. Os alunos se assustaram e a professora não acreditou no que os garotos falavam, até ela mesma se abaixar pra ver. Meu irmão diz que naquele momento, pela primeira vez, viu a professora da sala perder a cabeça:

“Ela gritava mais que os alunos, estava apavorada”. Disse ele

Por causa da confusão e da gritaria, os outros professores e alunos saíram da sala para ver o que estava acontecendo. Assim que começou a chegar pessoas, meu irmão diz que a porta finalmente abriu misteriosamente e que até hoje ninguém sabe o que diabos foi aquilo:

“Parecia que a coisa do outro lado estava segurando a porta... Nos prendendo ali, foi bizarro”. Concluiu

O terceiro caso é algo que minha mãe me falou, segundo ela, coisas assim sempre ocorrem naquela andar e a tendencia foi só piorar com o passar do tempo. Ela conta que isso ocorreu quando ela teve que ficar sozinha no colégio corrigindo provas, aquilo já era normal para ela e contos de fantasmas não a assustavam mais:

“Eu já vi essa mulher várias vezes, nas outras salas, as vezes no corredor, eu apenas tentava ignorá-la... Quando se é mãe solteira e tem três filhos, um fantasma não parece grande coisa”. Me disse, dando uma pequena risada para logo voltar a ficar séria.

Foi isso que ocorreu novamente naquele dia, ela disse que precisava ir ao banheiro e, no caminho, viu o vulto daquela mulher passando do seu lado. Apenas ignorou como sempre fazia. Foi ao banheiro e voltou para sua sala, onde continuaria a corrigir suas provas. Ela conta que estava de olho na prova quando levantou a cabeça e...Lá estava. A mulher, estava lá, onde ficavam as últimas fileiras de carteiras escolares. A entidade parecia encará-la, mas mamãe não sabia dizer ao certo, pois os cabelos cobriam uma boa parte rosto daquela coisa:

“Pela primeira vez, senti um pouco de medo” Contou-me.

A mulher sumiu depois do que pareceu ser uma eternidade, ela concluiu sua história dizendo que isso só aconteceu daquela vez, mas as vezes, quando fica até tarde corrigindo provas, bate aquela sensação de que está sendo observada.

O quarto o caso é o que eu chamo de “gota d'água” pois foi o que fez a dona do colégio tomar uma atitude sobre os eventos. Ocorreu quando a irmã da dona da escola veio lhe fazer uma visita.. Em um certo momento ela decidiu ir ao banheiro. Tudo parecia bem, mas então, a vimos sair do banheiro tremendo e chorando. Perguntada sobre o que aconteceu, falou que quando estava de frente para o espelho, viu uma criatura pálida, bastante magra e com longos cabelos atrás dela. Vendo a gravidade da situação, a dona percebeu que teria que dar um jeito nisso. Em poucos dias, ela trouxe um padre para rezar em todas salas, banheiros e outros lugares do colégio. Não sei exatamente se as ocorrências diminuíram, pois meus irmãos e eu já não estávamos estudando lá, fiquei sabendo desse caso porque minha mãe contou. Ela ainda trabalha lá, mas não fala muito.

O quinto caso aconteceu quando eu ainda estudava lá. Esse foi um dos que assustou todos, na época eu devia ter uns dez anos. O zelador da escola era um cara conhecido por todos, sempre brincando e soltando piadas, os alunos adoravam ele. Um dia, uma das professoras chegou mais cedo e resolveu subir até o segundo andar para arrumar logo a sua sala. Chegando lá, encontrou-se com o zelador deitado no chão. Ela achou que era mais uma das brincadeiras dele e no começo até soltou algumas piadas também, isso até tocar nele e perceber que não era uma brincadeira. O zelador estava morto. O engraçado é que ele morreu na mesma sala onde tempos depois, a garota do primeiro caso, disse ter visto a tal mulher.

Autor: Tai

02/07/2020

Banheiro dos fundos

Acordar no meio da noite com a bexiga prestes a estourar é uma coisa que realmente odeio. Primeiro que levantar sonolento de madrugada é uma merda, segundo, que sou uma pessoa extremamente azarada. O que isso tem a ver? Você se pergunta. Pode parecer uma conversação sem sentido, mas irei lhe explicar de uma maneira que lhe fará entender.

Moro com meus irmãos em uma antiga casa que nossos avós nos deixaram de herança, algo extremamente bom, pois não tenho dinheiro nem mesmo para um cômodo minúsculo, onde o único espaço um colchão no chão preenche por completo. Estava desempregado e tinha acabado de sair de uma relação conturbada. Não vi problemas em dividir o espaço com meus três irmãos, nos dávamos muito bem (Coisa rara entre irmãos) e éramos todos adultos. Fiquei com a parte de fazer o almoço e o jantar, como estava sem emprego, era a forma que encontrei para ajudar.

A casa é espaçosa, com cinco quartos, uma cozinha, sala de estar e uma garagem que pode acomodar dois carros. O problema mesmo sempre foi a questão do banheiro. Veja bem, temos dois banheiros, um fica no corredor, próximo ao meu quarto, enquanto o outro, apenas nos fundos da casa. Isso significa que, se você estivesse muito apertado e o primeiro banheiro estivesse ocupado, você teria que dar toda a volta até os fundos, destrancar uma porta e atravessar o jardim para acessar o outro. Já era chato fazer isso pela manhã, imagina no meio da madrugada, quando o que você mais quer é voltar a cair nos braços de Morfeu. Outra coisa que preciso lhe falar sobre a segunda instalação sanitária da casa, é que não é nem um pouco acomodadora. Enquanto o primeiro tem azulejos na parede, um teto com forro pintado de cor branca e um chuveiro com uma boa pressão, o segundo parecia mais uma obra não acabada. Paredes para rebocar, um telhado quebrado e uma pia e chuveiro que não funcionavam. A única coisa ali que funcionava era o vaso sanitário antigo, com seu barulho desgraçado quando você dava a descarga. Sério, era um barulho alto o suficiente pra te tirar do modo sonolento e lhe trazer de volta a realidade.

Penso que meus avós estavam planejando esse segundo banheiro, mas morreram antes da obra ficar completa. Em minha infância, meus pais sempre traziam meus irmãos e eu para passar as férias nessa casa e visitá-los, eu não me recordo de um segundo sanitário, talvez fosse mesmo algo meio recente. Vovó tinha morrido primeiro e vovô não conseguiu aceitar a partida da esposa, entrando em um estado profundo de depressão. Em uma manhã, um dos empregados o acharam sem vida, quando foram o acordar para tomar seu remédio para pressão.

Deveriam ser umas duas da manhã quando levantei-me apertado para usar o banheiro e vi que meu irmão tinha chegado primeiro.

- Droga! - Resmunguei-

Até esperei um pouco, mas o idiota estava com problemas de estômago e aquilo iria demorar mais do que deveria. Não tinha jeito, fiz o caminho todo até o maldito cômodo dos fundos a fim de me aliviar. Procurei o interruptor para acender a luz, depois fechei a porta, caminhei até o vaso e fiz o que tinha vindo fazer. Me lembro de ter olhado para o teto, observando as telhas com teias de aranha e buracos feitos pelas brigas de gatos dos vizinhos. Se um dia, eu conseguisse um bom dinheiro, poderia mandar ajeitar tudo, deixar o lugar mais aconchegante pelo menos. Puxei a corda da descarga, ouvindo aquele som alto dos infernos e fui em direção a saída, pretendendo lavar as mãos na torneira do jardim, pois como eu disse antes, a pia dali não funcionava.

Imagina minha surpresa quando puxei a porta e ela não abriu. Eu não a tinha trancado, nem era possível, esqueci de dizer, mas a única maneira de trancá-la era pelo lado de fora. Cogitei na hipótese de um dos meus irmãos está tentando me pregar uma peça, aqueles idiotas gostavam de fazer esse tipo de coisa.

- Muito engraçado, agora abram a porta! - Digo, tentando entrar na brincadeira. Sem resposta. - VAMOS! ABRAM! - Elevo meu tom de voz, novamente sem respostas.

Começo a coçar a cabeça rapidamente, uma mania que tenho quando começo a ficar nervoso. E se não tivesse sido eles? Esse pensamento passava em minha mente, mas não poderia ser isso, quem poderia ter feito tal coisa se não um deles? Um invasor, talvez? Um ladrão que entrou na casa às escondidas e me trancou aqui dentro para não ter que se preocupar com um dos irmãos. Que droga, pensei em muitas coisas, mas nada parecia encaixar. O pior de tudo era que não adiantaria o quanto eu berrasse, os quartos dos meus irmãos eram bem distantes, eles não poderiam me ouvir. A Solução que encontrei foi a de tentar arrombar aquela porta

Tomei impulso, estavas prestes a colocar aquela ideia em ação, mas antes que pudesse fazê-lo, a luz piscou, deixando tudo escuro por aproximadamente cinco segundos. Meu sangue gelou, uma pontada em minha cabeça me fez dar um gemido baixo de dor. Foi tudo muito estranho, me sentei no chão, perto de alguns escombros, pedaços da parede, restos de entulhos, possivelmente deixados por meus avôs.

-Tenho que lembrar os outros a me ajudar a limpar isso aqui. - Sussurro para mim mesmo, me referindo aos meus irmãos.

De repente, minha mão tocava em um pedaço de papel em meio a bagunça. Eu ainda estava me recuperando daquela estranha dor de cabeça de antes que piorara um pouco com a volta da luz. Logo, a ideia de arrombar a porta tinha ficado para depois. Sentado, naquele canto nem um pouco amigável, trago o papel para minha visão, vendo as letras escritas com uma caneta de cor vermelha.

Traga o prato com um pequeno animal morto

Um lagarto ou um camundongo são as melhores opções

Entretanto, com o camundongo, são altas chances de sucesso

Sem janelas, isso é muito importante

Leia o que lhe enviei em voz alta quando tudo estiver pronto

Você saberá quando funcionou

Lembre-se, cinco vezes é o suficiente

Não entre mais no cômodo depois disso

NÃO ENTRE

Agora aproveite, mate sua saudade.


Fiquei completamente confuso, pensando que tudo não deveria ser mesmo um tipo de brincadeira. Meu coração quase parou quando virei o papel, tinha uma coisa a mais, escrita do outro lado.

Se você desobedeceu e entrou no cômodo mais de cinco vezes, pode ter ficado confiante que nada aconteceu, mas quando você menos esperar, a porta trancará. Isso acontecerá em algum momento após passar o número de vezes. Pode ser logo que quebrar a regra ou pode demorar um pouco. Caso aconteça, espere aquele que você prendeu no cômodo se manifestar. Ele está sozinho, trancado, culpa sua. Implore, talvez tenha sorte na primeira e, caso tenha, NUNCA MAIS VOLTE.

Antes que eu pudesse demonstrar alguma reação, escuto passos em minha direção. Eu não queria levantar a cabeça para olhar quem era, mas uma estranha força parecia forçar-me a fixar quem estava em minha frente. Eu Levanto a cabeça….É a vovó, ou pelo menos é o que eu acho que era. A senhora alegre de minha infância tinha agora um olhar cansado, seus olhos, grandes e arregalados, pareciam afundar em seu rosto, sendo devorados pelo excesso de pele na face envelhecida.

Oh, Deus! Abri a boca para falar, nada saia, nem um mísero som. Não conseguiria parar de tremer, meu corpo agia por vontade própria, não obedecia mais meus comandos. Todas as informações demoravam para chegar até meu cérebro. Não sei quanto tempo a encarei, até finalmente lembrar daquela palavra: Implorar.

Consegui falar, na verdade, implorei. Falei de tudo para o que quer que fosse, me deixasse partir, eu não tinha nada a ver com aquilo, nem sabia que esse tipo de coisa acontecia aqui. A entidade sorriu largamente, como se estivesse se alimentando do meu sofrimento. Não, aquilo não era a vovó, não poderia ser. Era algo que usava sua pele, com o objetivo de enganar. O rosto distorcido e seu sorriso macabro foi a última coisa que vi quando a luz apagou de vez.

Era de manhã, acordei com meus irmãos me balançando e gritando meu nome. A porta tinha finalmente sido aberta. Eles me ajudaram a se levantar, me levaram até a cozinha, sentei-me em uma das cadeiras e contei tudo que tinha acontecido. No começo, acharam que eu estava brincando, entretanto, minha palidez e o pavor que eu tive quando um deles afirmou que iria até o banheiro, procurar o pedaço de papel, o fizeram acreditar em mim.

Decidi sair da casa três dias depois deste ocorrido, ficaria na casa de um amigo até arranjar um emprego, queria distância daquele lugar. Aconselhei meus irmãos a fazer o mesmo. Nunca mais voltei.

Hoje, pensando sobre isso, entendi que Vovô amava a Vovó, amava o bastante para se iludir que a veria outra vez, fazendo um ritual qualquer, trancando sua alma em um cômodo.

É uma pena, pois aquilo nunca foi ela.

Autor: Tai

30/06/2020

Eu só queria ter estado presente

Tantas coisas que eu deveria ter dado atenção suficiente, momentos únicos em comparação a todos os sete dias da semana e o decorrer de um mês no ano, os instantes passando como poeira estelar na minha mente.

Algumas coisas merecem chegar de surpresa e tão intenso quanto a dor da morte, simplesmente porque você não esteve naquele lugar da forma certa, nem prestou atenção e se aproveitou de cada segundo que não deveria ter passado despercebido.

Toda minha família são de negros, descendentes diretos dos escravos em uma cidade pequena, na qual todos conheciam uns aos outros, pessoas boas de fato, lugar amistoso e não existia nenhum tipo de preconceito. A situação repugnante, no ponto de vista das famílias, são as pessoas que não participavam todos os finais de semana da Igreja Católica em não mais de uma hora com pregações religiosas.

Como qualquer homem, eu queria causar uma boa impressão, todos sabem, não adianta disfarçar, que a maioria apenas aparecem na casa do Senhor e mal prestavam atenção nas palavras do padre. Os únicos momentos fundamentais são quando oram as três rezas, situações importantes: o Pai Nosso, Ave Maria e o Creio em Deus Pai. Isso, toda criança que conhece a palavra do Senhor, não consegue esquecer.

Eu nunca estava presente, apenas ouvindo na multidão cansada e desgastado. Eram todos os finais de semana, as noites mais cotidianas, uma hora parecia durar doze, e eu estava ali com a minha família todos reunidos: rapazes vestidos de forma respeitosa, mulheres cobrindo seus corpos com vestidos, e todos utilizando símbolos sagrados, joelhos no chão, mãos uma encostando na outra e com os olhos fechados. A mente de todos realmente estavam presentes e acreditando...?

Tomé, Zelote, Mateus, entre outros, os 12 apóstolos, deixaram suas escrituras, palavras do Salvador e o que as pessoas precisavam seguirem para que não fossem para o "Inferno". Nunca acreditei que o homem seria perdoado pelo que fiz durante todos os dias, apenas por estar lá e parecer santo. Fiz o que, com certeza, a maioria fizeram: estava apenas participando e não ouvindo mais nada além do meu consciente vazio e automático.

Essa noite foi o momento que eu saberia que deveria ter ouvido as palavras do padre, estar presente diante da pandemia e próximo da minha família, não somente como o corpo desesperado pelo medo... Todas as pessoas acreditaram que 2020 já foi horrível o suficiente. Acharam melhor e julgaram que deveríamos ter esquecido aquele ano presos e as reportagens falando da quantidade aumentando de óbitos. Foram o que todos fizeram e logo, após cinco anos de calmaria e ainda com sequelas das mortes por causa do vírus, fomos surpreendidos por algo ainda pior... Nos sentimos confortados dentro do que a mídia tentou passar, as palavras dos governantes e o prazer de ter escapado, que ficamos ainda mais vulneráveis.

Hackers, com o título "Anonymous", populares no final de 2020 e vazando escândalos do alto escalaram, alertaram sobre a última tentativa de diminuir a população, que estava crescendo demais e recursos acabando de maneira absurda e despercebida pela população manipulada. Foi tarde demais, nas suas últimas tentativas de alertar o novo plano do governo que se tornou incontrolável. O título "Doença Do Homem Louco" já estava em suas posses, mas os resultados vieram acontecer após alguns meses e prontos para aniquilar a população.

Os sintomas se espalharam mais rápido do que a própria internet, em todos os lugares do Globo, causando ataques violentos em massa, homens mentalmente saudáveis se comportando como primatas mordendo uns aos outros, agredindo e espancando até à morte, espalhava-se como formigas em um formigueiro pelo contato físico e qualquer tipo de resíduo humano. As casas não estavam mais seguras, os doentes estavam invadindo com suas forças brutais como homens de ferro que não sentiam mais dor, apenas experimentando a selvageria para infectar uns aos outros. Não morriam tão fácil, não importava o tempo e as circunstâncias.

Demônios caminhando usando o corpo de homens, zumbis, mortos-vivos, ressuscitados, dezenas de apelidos refletiram o que estávamos passando e é exatamente como os filmes mostraram há muito tempo. Fizeram isso no pesadelo de 2020, esteve presente, e nós sabemos muito bem o que estávamos passando, mas a negligência humana e a maldade nunca vai evoluir. Deixamos se espalhar, e esse não era apenas algo irracional, a transmissão não ocorre simplesmente por meio da absorção de gotículas liberadas pela tosse ou espirro de uma pessoa infectada ou pelo contato com superfícies contaminadas pelo vírus, ele sabia muito bem o que estava fazendo! Vítimas da doença do "homem louco", prepararam ataques em aglomerados, sabiam se desviar, lutar, espalhar os seus maus para todos, saltavam mais de 10 m, lunáticos incontornáveis que resistiam ao máximo contra as investidas porque evoluíram a consciência para saber o que deveriam fazer.

Disseram que os outros não precisavam se alimentar e os corpos eram tão resistentes quanto qualquer tipo de metal. Mesmo após a decomposição da carne, permaneciam fortes nos últimos segundos em que os músculos estragavam e não poderiam lutar como antes. A doença do homem louco se expandiu em proporções surreais. As famílias mais privilegiadas, pelo apoio do exército, conseguiram encontrar segurança com homens armados, mas não duraria por muito tempo para alguns fracos à mercê do destino em um local escolhido.

As portas da igreja estavam trancadas com tábuas e a comida estava acabando. Rezas, todas as noites, não foram suficientes para acalmar as almas. Então, todos decidiram o mesmo: ganhar o perdão de Deus em seus últimos segundos de desespero. Como um dos pais de famílias mais importantes, presentes na casa de Deus, o meu voto faria diferença, e todos estavam aguardando.

Nosso lugar particular isolado era preenchido por timbres e lágrimas lamuriando de forma quieta. As pessoas abraçando umas às outras, e um som, do lado de fora, quebrando as tábuas com suas mãos resistentes e penetrando a madeira, socando sem parar com os seus berros espalhando-se pelo vento e absorvendo ele como se tivesse sido mais uma vítima... Cada vez mais o número aumentando, e todos ouvindo as pancadas nas paredes de todas as partes, vindo pelas criaturas do outro lado, aumentando e se tornando mais forte e consumindo qualquer tipo de resistência do lado que nós estávamos.

De maneira alguma participei e não estive aqui nos finais de semana, ninguém esteve presente de verdade para ouvir as palavras do Senhor e os evangélicos dos 12 apóstolos. Foi tão automático quando me perguntaram, todos olhando para mim, se eu iria concordar e receber o perdão de Deus. A minha boca respondeu automaticamente que "Sim", mas minha mente estava apenas navegando no medo e tentando confortar os meus filhos e mulher.

O padre fez sua última oração, enquanto eles estavam prestes a invadir, aumentando em uma aglomerações infinitas. Os soldados começaram a disparar, eu só queria estar naquele momento antes que a chacina começasse, pelo menos uma vez ter participado nas orações e ouvido a palavra do padre quando perguntou se deveríamos cometer o maior crime de todos em um suicídio em massa.

Além do desespero trancados aqui e os "Homens Loucos" prontos para entrarem, nada mais nos abalaria. Os disparos de arma passaram despercebidos por mim... Nos últimos momentos em que finalmente estávamos agonizando até a morte, os soldados se atacaram uns atirando nos outros. Só restavam apenas os últimos suspiros, o medo, sangue escorrendo e o silêncio na casa do Salvador, enquanto tudo acabou lentamente em um grupo de corpos... Se Deus existisse mesmo, teríamos ganhado perdão ou seríamos mais uma peça pela podridão humana, ouvindo as madeiras batendo em um lugar preenchido por multidões famintas.

O sangue estava jorrando pelo meu corpo em suas perfurações de bala. A maioria morta ou agonizando em seus últimos segundos até finalmente se entregarem. Pude perceber, os meus olhos não foram traiçoeiros, quando as portas foram arrombadas, e aquelas multidões de pés penetraram. Os seus olhos observando a carne destruída, o espanto e os que estavam contemplando, não transmitiram nenhum tipo de vocábulo. Suas armas estavam direcionadas para exterminar, mas já fizeram isso do lado de fora, e os homens do exército, para nos salvar, enxergarão o que restou da carnificina interna, o suicídio em massa.

Eu sabia que deveria ter controlado as emoções, não entregado diante da multidão, apenas por está. Poderia muito bem ter participado e pedido para que aguardasse mais um pouco, mas não! Segui as palavras do padre, apenas estando ali, e não participando. O meu último suspiro, vi a angústia dos semblantes dos soldados salvadores para o que restou do pessoal não contaminado pelos zumbis.

Autor: Sinistro

25/06/2020

Estranha Criatura (Parte 1)

Nesses dias aconteceram coisas muito estranhas comigo, eu não acredito muito em fantasmas ou espíritos mais ontem aconteceu uma coisa que me fez pensar um pouco sobre isso.

Meu nome é Ivan eu tenho 21 anos, à um tempo eu decidi sair da casa dos meus pais e com meu dinheiro comprei uma casa aqui por perto do bairro e então comecei a morar la. Na parte da noite aqui costuma ser bem barulhento porque minha casa é praticamente grudada com a dos vizinhos e então eu nunca liguei tanto pra barulhos estranhos no meio da noite.

Era mais um dia de trabalho eu tinha chegado tarde em casa ontem, por isso eu entrei tomei um banho e fui direto pra cama porque eu precisava descansar para ir trabalhar no outro dia, então eu fechei a porta do meu quarto me deitei e fechei os olhos...

Depois de alguns minutos eu acordei com alguns barulhos, eu nao liguei no começo, até que eu notei que os barulhos estavam dentro da minha casa. Eu pensei que era um bandido ou coisa assim porque não temos muita segurança aqui no bairro, então eu fui agachado para não fazer nenhum barulho e chegar o que era, eu sei que eu deveria fingir que nada aconteceu pra não ter risco de levar um tiro ou ser esfaqueado mais eu não estava pensando direito porque eu estava muito cansado e não tinha dormido quase nada.

As casas ao lado estavam muito quietas nem parecia que eu morava perto de vizinhos, sem pensar muito eu levantei e fui até a porta e abri ela devagar pra não levantar a atenção de quem estivesse dentro da minha casa, foi a pior escolha que eu fiz na minha vida, o barulho de coisa arrastando ecoava no corredor me fazendo ficar com um pouco de medo.

Eu olhei bem na cozinha que era de onde estava vindo o barulho, na hora o barulho parou e eu não vi nada, fiquei um tempo olhando a cozinha com dúvidas de o que era que estava fazendo o barulho,eu me virei rindo de mim mesmo por estar com medo de coisas da minha cabeça.

Eu ia em direção para a cama e então eu ouvi o estralo da cadeira, quando eu virei... não consigo explicar o que era, eu apenas vi olhos me observando no escuro, olhos brilhantes me olhando fixamente, eu não conseguia nem piscar eu havia ficado paralisado de tanto medo que eu senti na hora, eu pensei em gritar mais tinha medo de que acontecer algo comigo.

Eu pude ouvir a figura estranha cochichando pra mim: "Isso é apenas um sonho ruim", ela começou a se aproximar de mim e antes que eu pudesse correr, tudo ficou escuro eu acho que eu desmaiei de medo não sei ao certo o que tinha acontecido aquela hora.

Hoje de manhã eu acordei na minha cama como se nada tivesse acontecido, porém, eu senti que havia algo na minha mão, ao abrir a minha mão eu me deparo com um papel, eu abri para ver o que tinha nele e estava escrito: "Aguarde" eu fiquei preocupado porque como eu teria um papel na mão se eu estava dormindo.

Olhei para o despertador ja era 9:35 eu já estava atrasado pro trabalho, então eu corri e fui escovar os dentes e peguei uma maçã para comer no caminho, eu voltei para o meu quarto para pegar minha blusa já que estava muito frio aquele dia, e então eu lembrei do "sonho" que eu tive e foi ai que tudo se clareou na minha mente e então eu lembrei da frase: "Isso é apenas um sonho ruim" eu não consegui ver a face da criatura, essa noite eu estou com medo de dormir aqui novamente.

Autor: Ivan

24/06/2020

Não podemos saber o presente porque ele pode vir impiedoso

Algumas pessoas nascem para brilhar na vida, fazer sucesso e desfrutar de dezenas de companheiros, que não são falsos. Em outras ocasiões, existem outros que não têm nada na vida, além do pouco para sobreviver. Eu me encontro nesse pequeno grupo vivendo como parasita, apenas existindo e respirando. O meu próprio pai não conheci, algumas fotográficas presevavam o seu rosto dentro do pequeno baú. Lembro nos dias dos pais e ocasiões especiais que todos os companheiros do colégio levavam os seus progenitores, e eu era a única criança que não podia desfrutar desse conforto. A mamãe nunca falou sobre ele, esperou eu fazer idade suficiente para dizer que era apenas um drogado que morreu sobre o uso excessivo de cocaína.

Na fase adulta, minha vida seguiu normalmente, como qualquer outro jovem da minha idade. Havia cursado a faculdade da região, fiz alguns parceiros e até consegui uma namorada, tão bela que eu não merecia tudo isso que ganhei em momentos bons da minha vida. A realidade é tão traiçoeira quanto o hamster nos olhos de um gato predador, nós sabemos que as coisas não são tão boas para quem tem a tendência a atrair energias ruins em seus caminhos.

Começou parecendo mais uma madrugada despertando após um sonho desagradável, mas isso se repetiu dezenas de vezes. Consegui apoio dos meus poucos amigos enquanto não estava mais cochilando normalmente e parecendo cada vez como um cadáver caminhando exausto e cansado. O terapeuta perguntou como estava sendo meu relacionamento, e repliquei que bem. A minha namorada era perdidamente apaixonada por mim e fazia de tudo para me agradar. As perguntas do cara atrás da mesa foram para outras situações, mas em nenhuma delas eu estava vivendo uma vida desgastante, além dos sonhos que me acordavam gritando na madrugada, e minha mãe aparecendo na minha cama para perguntar o que estava havendo, enquanto eu controlava os verbos na minha boca sendo abraçados por soluços.

Dentro de uma casa organizada, com gato deslizando em um pequeno amontoado de travesseiros, observava a minha namorada com o corpo nu, suas curvas atraentes mergulhando na banheira e pegando um pouco de shampoo com cheiro de hortelã. De forma majestosa, ouvindo um pequeno rádio, próximo das escovas de dente, sons de Nicolo Paganini. Seus braços brancos começam a espalhar outros aromas dentro da água. Relaxada, afunda um pouco o seu corpo, deixando apenas a região acima do pescoço... Submersa, durou alguns segundos até que a água ganha forma parecendo uma boca monstruosa e começa a mastigar o seu corpo, devorando a carne, enquanto eu posso sentir como se tivesse apreciando tudo ao seu lado e sem poder fazer nada! Cada pedaço fragmentado da sua estrutura física é esmagado e se misturando ao líquido na banheira que começa a transbordar. O seu felino aparece lambendo aquilo que sobrou com o tom rubro.

Me encontrei em várias vezes, nos últimos dias, com os batimentos cardíacos machucando o meu peito, os joelhos na altura dos ombros e segurando apertado para tentar encontrar conforto, após mais uma vez sonhar com a mesma coisa e sempre parecendo tão real quanto a noite anterior. Os conselhos, tratamentos e medicamentos não foram suficientes quando finalmente o pesadelo se tornou real...

A minha namorada não estava se sentindo bem com a minha situação, nunca disse para ela sobre os pesadelos que estava sofrendo. Porém, naquela situação, deveria ter mencionado algo. Em uma diversão como qualquer outra, Lacie, minha companheira, decidiu se aventurar com alguns companheiros em uma praia deserta e proibida por causa da falta de segurança. A notícia chegou quando eu finalmente estava descansando melhor, sabendo lidar com o infortúnio, a mensagem foi direta ao ponto, na região mais dolorosa do meu coração, quando disseram que ela foi atacada por tubarões e morreu enquanto surfava com os seus amigos.

Não é fácil você perder alguém que realmente ama, nas redes sociais é muito simples colocar "luto" e fingir que realmente se importa, mas, quando os sentimentos são reais, não é bem assim. Sofri por muito tempo e, no meio do tormento particular, algo estava tendo espaço e inundando qualquer tipo de aflição que eu deveria estar passando, quando começaram a acontecer eventos estranhos em minha vida: começando com pesadelos, da mesma forma que ocorreu há uns meses, repetindo-se dezenas de vezes e torturando-me lentamente até que se tornassem reais.

Demorei muito para perceber a situação horripilante que estava passando, era tudo tão evidente e acertando o meu nariz em socos que fui estúpido demais até acontecer com mais alguém próximo de mim. O meu irmão mais velho, o orgulho da família, servindo o exército dos Estados Unidos em combate contra os terroristas. No sonho, nós estávamos jantando na mesa: a mamãe, o meu futuro padrasto, eu e o meu irmão, tudo parece normal, até que encaro em sua direção e vejo Matt, o meu irmão, sem cabeça! O líquido vermelho saltando do seu pescoço e ele conversando como se nada tivesse acontecido, e eu afundando lentamente na cadeira vivendo um pânico particular.

Esse pesadelo se repetiu nos últimos dias... era a mesma coisa, aquele jantar reunido a felicidade, os outros prazerosos e saboreando a mesa repleta de alimentos deliciosos. O meu irmão, ganhando atenção de todos por estar conosco, pintando todos os alimentos com seu sangue escapando do buraco em seu pescoço, e todos se alimentando do líquido da sua morte. Isso demorou por muito tempo, cada vez mais doendo e me machucando como se fosse a primeira vez e perfurando em todas as migalhas dos meus sentimentos. Mais uma vez, não disse para ninguém, jamais desejei ser o louco do local, mas a notícia chegou, e nós ficamos sabendo que Matt havia sido morto em uma missão, na qual algo atingiu a sua base e sua cabeça explodiu igual uma bexiga. Nós recebemos apenas um tronco, e o caixão ficou lacrado, a cerimônia foi rápida e o manto da morte pairou em cima de nosso lar.

Quanto mais eu estava suportando a ansiedade dos ocorridos, mais aumentava os incidentes. O mais recente foi com meu companheiro de bebedeira, o cara que considerava melhor amigo, aquele tipo de gente que você sabe que nas horas exatas vai estar contigo. Nos pesadelos, Kenny estava em um parque, alimentando pombos, sentado em uma cadeira com os pés cruzados, e os pássaros cada vez mais aumentando para engolir as sementes de milho. Kenny estava sereno e bem-vestido, o lugar brilhava como um paraíso, e suas mãos jogavam cada vez mais alimento para os pombos. Logo, a beleza ganhou vislumbres sombrios e a atmosfera ficou tensa: as nuvens escureceram, o meu amigo se levantou do banco da praça, puxou sua camisa mostrando a região da sua barriga, e o seu corpo, em poucos minutos, foi ganhando tons vermelhos e começaram a sangrar até que o meu companheiro caiu morto no chão, e os pombos começaram a afligir o seu corpo com seus bicos incansavelmente... Acordando-me logo em seguida.

Coisas de quando o homem não raciocinava... Depois disso e os cálculos mentais, que nenhum ser humano pode controlar, algo dominando sua mente, atormentando de todas as formas possíveis e de maneiras inexplicáveis. Em algumas delas parecendo fantasias em comédia, eu observei o meu cachorro dachshund aparecendo em meus sonhos esmagado e triturado com sangue escorrendo em seu corpo. Na naturalidade doentia de ser, pedaços de ossos saltavam por sua pele, e as marcas do pneu negras em seu corpo brincavam pelas causas da sua morte. Isso durou bem menos do que eu esperava, sua língua amorosa, alisando os meus pés, pareciam suficientes até a realidade ser concretizada. O meu dog fora atropelado, e observei o que sobrou de sua estrutura física, triturada pelo asfalto.

A primeira vez durou meses, na segunda semanas e, nos outros ocorridos, envolvendo pessoas aleatórias no caminho do meu dia a dia, ficou por dias e agora foram horas. Eu estava pronto suficiente quando a notícia chegou que o meu companheiro Kenny havia sido brutalmente atacado, após resistir a um assalto em uma praça, contra alguns viciados e vagabundos. Antes da notícia que me deixaria despedaçado, ainda mais fragmentado e psicologicamente instável, antes da porra toda, nos últimos dois dias, eu já estava enxergando-o como um morto-vivo pronto para ser entregue ao destino, e a maldição se confirmou em meus presságios noturnos.

Depois disso, as coisas não foram mais como antes, o tormento e a inquietação se tornaram em um verdadeiro inferno. Na televisão poderia ver pessoas mortas, na vida real e no meu caminho, sacos de carnes vivas prontos para morrerem. Suas identidades foram substituídas por um semblante apagado, apenas uma parede branca com desenhos surgindo em traços esqueléticos.

Eu cada vez mais estava vendo a morte de todos, me sentia em um cemitério vivo, caminhando entre os mortos e falando com eles como se fizesse parte. Os remédios para dormir não duraram por muito tempo porque o meu corpo se tornou resistente e, no pico da degradação, acabei adormecendo... desmaiando por algumas horas: uma overdose, semelhante a do meu pai, penetrou o que restou de mim. Acordei e não queria que isso estivesse acontecido...

As pessoas acham que quem está em coma ou adormecendo por algum inconveniente, não têm noção do que acontece com o seu cérebro ou esquece de tudo, no meu caso, não! Fiquei muitas vezes, em quantidades que eu não podia contar, sonhando com o mesmo ocorrido, envolvendo minha própria ruína em uma morte. No pesadelo, encontrava-me no lúgubre, dentro da minha casa, alguém abria a porta do meu quarto, e estava pronto para fazer qualquer tipo de coisa. A minha mãe aparecia, a visão se escurece por alguns segundos. Em mais um relance do tormento, eu estava tentando escapar, pressionando a maçaneta da porta e logo sendo golpeado, mas o meu corpo já estava ferido bem antes disso. Nas poucas lembranças da carnificina particular, caio, olho para trás e vejo minha genitora com suas mãos sangrando e segurando uma faca.

Estive trancado na minha casa após receber alta, não falei com a minha mãe, a única pessoa que morava comigo, por muito tempo. Ignorei ao máximo que pude, e todas as suas tentativas de saber o porquê foram frustradas com a porta sendo fechada diante do seu rosto. A sensação de ataque foi aumentando com coisas pequenas pelo canto dos olhos, observando vultos se escondendo onde não havia ninguém, minha própria visão no espelho se movimentando contra minha vontade, enquanto os meus olhos estavam ocupados em outra direção. Desfrutava de uma certeza que a morte estava planejando algo contra mim.

Usei todo tipo de coisa ilegal para não fechar os olhos, enquanto estava em cima da cama, cuspia palavras de baixo calão para qualquer um que ligasse ou batesse na minha porta. Foi nesse entardecer que senti a sensação de que algo iria acontecer com mais intensidade. Não como as outras vezes, agora toda a vitalidade do meu corpo estava escapando entre as paredes e um vazio tomou conta do meu mundo. Senti uma brisa fria aparecendo de lugares onde não existia nenhum tipo de contato com o mundo exterior e enxerguei a porta do meu quarto sendo aberta, a figura da minha mãe com sua roupa de dormir encarando-me.

Ela se movimentou rapidamente, bem mais do que eu esperava. Recuei instintivamente, e ela se jogou em cima da cama como um animal de quatro pernas. A faca estava embaixo do meu travesseiro e acertei o seu corpo em quantidades que eu não podia controlar, mas suficiente para escapar. Fechei a porta do quarto atrás de mim, escorreguei logo depois para ouvi os seus passos sendo carregados em minha direção por uma segunda vez.

Creio que não senti na primeira vez ou não percebi enquanto fui acertado dentro do meu quarto, mas algo estava ardendo nas minhas costas e coloquei a minha mão esquerda para trás para ver o sangue fresco. Em pedaços, me dirigi à porta de saída, um pouco tonto. Pressionei a maçaneta, e o ferrolho estava trancado, a chave não se encontrava no mesmo local de antes. No meio do tormento, algo me jogou contra a madeira em obstáculo, eu pude sentir como um soco, no entanto, bem mais doloroso, suficiente para roubar minhas forças. A reação do meu corpo foi para cuspir um líquido quente entre meus dentes.

Contorci o meu pescoço dolorosamente na direção contrária. Igual o pesadelo, pude vê minha mãe com seus braços sangrando utilizando uma faca nos seus dedos, mas ela logo caiu em seguida, e o agressor estremeceu seus lábios em minha direção com os seus olhos penetrantes, o sorriso maléfico. Enquanto finalmente tudo estava roubando o que existia da minha vida, eu pude enxergar, por uma última vez, o meu pai segurando o machado...

Autor: Sinistro

20/06/2020

Visões de um crime

Comecei a perder a visão logo no início da adolescência por conta de uma doença, que passou de gerações a gerações a algumas pessoas da nossa família. Demorou muito tempo, até que finalmente, após alguns anos, recebi a notícia de que iria fazer a tão esperada cirurgia de córnea. Fiquei muito feliz porque iria enxergar as coisas perfeitamente, pois já não conseguia distinguir o rosto da minha mãe, do meu pai, do meu irmão mais novo... Nem o rosto da minha namorada sei como está. Mesmo com problemas de visão, ela sempre estava comigo, ajudando-me e apoiando de todas as formas possíveis.

No hospital, alguns minutos antes de começar a cirurgia, o médico falou que o homem que vai doar seus olhos tem quase a mesma idade. O doutor não falou nada além disso, então foi realizado o ato cirúrgico. Acordei depois de um pesadelo — um sonho estranho no qual vi um homem sendo espancado brutalmente. Chamei a minha namorada e esta me abraçou. Depois algumas horas, o médico tirou as ataduras do meu rosto: pude ver, mesmo que de forma embaçada, algumas coisas ao meu redor. Logo depois de algumas semanas, minha visão estava perfeita.

Comecei a estudar e trabalhar para me sentir independente. A união com a minha namorada foi ficando mais sério ao ponto de eu querer me juntar a ela. Mas tinha algo estranho acontecendo... era um tipo de visão. Não eram sonhos; eram visões de um homem e uma mulher. Às vezes, tenho a mesma visão dele, sendo agredido e morto... acordo nessas horas e meus olhos começam a queimar. 

Quando isso acontece, dói como se houvesse duas facas enfiadas em meu rosto.

Depois de alguns meses, com a minha nova vida, não parava de pesquisar para tentar saber quem era a pessoa que me trouxe a visão de volta. Pelo tempo que estava enxergando, logo aprendi a mexer na Internet e consegui identificar o homem do qual eu tinha recebido o transplante. De acordo com as informações da Internet, nos dados de doadores da cidade, o doador mora a alguns quilômetros de minha casa. Queria muito visitar sua casa... saí com o carro, o veículo da minha namorada. Fazia algum tempo que ela não dirigia, desde aquela noite em que chegou tarde à casa da mamãe. Sei que tinha uma tempestade muito forte nesse dia; a minha namorada não disse o que aconteceu, mas sei que foi algo grave, tão grave que esta passou a rejeitar o próprio automóvel.

Cheguei até a casa. Pensei em bater à porta para falar com alguém, mas fiquei apenas observando, pois faltou coragem. Quando estava saindo, uma velha olhou para mim e olhei de volta para ela. A vovó disse que reconheceu meu olhar... ela perguntou se eu queria alguma coisa, mas respondi que não, que apenas estava de passagem. Esta continua falando sobre os meus olhos. Eu disse que tinha feito uma cirurgia de transplante e queria dar um "oi" para um dos familiares do rapaz, de quem tinha recebido meus olhos. A velha mulher deu um sorriso e disse que se tratava de seu neto, o qual ela criava como um filho e que fora assassinado.

Eu não queria incomodar nem reviver feridas passadas da velha, mas ela parecia querer conversar, então fiquei escutando. A vovó disse que antes de morrer, seu neto era apaixonado por uma garota e planejavam casar-se, mas numa noite, esta foi vítima de um acidente, deixando seu namorado louco, sem conseguir trabalhar nem continuar vivendo em paz sem a amada. Segundo suas palavras, o pior foi que a pessoa que atropelou a namorada de seu neto não prestou socorro e ela morreu afogada numa poça de água, que se formara naquela noite horrível de tempestade. A velha ainda disse que seu neto passou a viver em bares, arrumando brigas — e numa dessas brigas, acabou sendo espancado até a morte.

Fiquei chocado com as palavras, pois tinha muitas visões de uma pessoa sendo agredida. Acho que se tratava do jovem do qual recebi o transplante de córnea. Perguntei se os responsáveis foram presos; a velha disse que não, pois eram afiliados de gangsters da região, um grupo de cinco jovens com pais perigosos. Ninguém se metia a enfrentá-los, nem mesmo a polícia. Saí do lugar, pálido e angustiado. Um olhar de choque se fez em meu rosto, pois eram informações demais em um só dia... e uma tragédia enorme, envolvendo alguém que fora responsável pela minha visão.

Estou voltando do trabalho; é sábado, dia 29 de dezembro. Logo o ano vai acabar e vou poder assistir aos fogos de artifício, explodindo para um ano feliz a mim e à minha família. Parei o carro em um posto de gasolina para abastecer. Estava distraído, esperando o tanque ficar completo, quando vejo alguns rapazes passando com garrafas, vestidos como arruaceiros — grupos de gangues. Nesse momento, meus braços começaram a tremer e eu já não conseguia mais mexer o meu corpo. Comecei a ficar com frio e meus olhos foram ardendo, doendo o suficiente para que os fechasse... tive uma visão: vi aqueles garotos espancando um outro alguém até a morte. Era o alguém com quem ficara sonhando algumas noites atrás. Nesse momento, tive consciência de que os meus pesadelos se tornaram reais.

Os meus olhos não param de doer. Depois que o tanque do carro finalmente encheu, encostei-me em uma garagem pública, com a cabeça no banco do carro, e apaguei...

Desperto com o meu corpo doendo em várias partes e a mente girando como uma labirintite. Uma vontade de vomitar fica rodando na minha barriga e estou sentado ao chão, banhado de sangue. Aos poucos, minha visão vai deixando de ficar embaçada e noto corpos brutalmente assassinados: são aqueles rapazes. Pelo visto, eles foram espancados e esfaqueados. Há uma faca próxima aos meus pés. Saio do local e consigo entrar em meu carro; mesmo banhado de sangue, ninguém me notou. Volto para minha casa e algumas horas depois recebo notícias de que um grupo de jovens da região foi aniquilado em uma carnificina. Até o momento, a polícia trata tudo como uma briga de grupos rivais.

Após essas mortes, passaram alguns meses e casei com a minha namorada, que disse que estava pronta para nós temos filhos. Nós estávamos muito felizes. Em um momento no qual estávamos conversando e falando sobre nossas vidas, ela disse que queria contar-me um segredo. Um segredo que guardou de mim... então, começou a falar que em uma certa noite estava chovendo muito. Ela queria muito chegar em casa. Num momento de distração, porém, atropelou uma mulher que atravessou a pista e o namorado desta foi morto meses depois, vítima de espancamento.

Quando eu escuto essas palavras, os meus braços começam a tremer. Comecei a suar, minha visão foi escurecendo e os meus olhos não paravam de arder. Até que tudo ficou escuro...

Autor: Sinistro

18/06/2020

A mudança é completa

Olhos muito separados. Nariz grande demais. Cicatrizes de acne. Dentes tortos. Corpo magro e flácido. Todas essas características me renderam vários apelidos na adolescência, e consequentemente, uma baixa autoestima. Eu poderia dizer que precisar me olhar no espelho seria o ponto baixo do meu dia, mas isso nem se compara a ver o feed do Instagram, ou assistir minhas colegas de trabalho se maquiando no banheiro. Até outdoors me deixavam com um peso na alma, com seus rostos perfeitos e sorrisos alinhados.

Tais pensamentos deveriam desaparecer quando Jonas, um homem bonito e um dos jovens mais bem sucedidos do meu trabalho, me convidou para sair, mas, por Deus. Tudo só piorou. Mesmo depois dos inúmeros encontros, do pedido de namoro e do brilhante fio de ouro que envolvia meu dedo anelar, eu ainda me sentia indigna de estar com ele. Sentia minhas costas queimarem com os olhares maldosos dos nossos colegas, escutava cochichos e risadinhas quando estava com meu noivo. Todos pensavam a mesma coisa: ele é demais para ela. Olha que mulher feia, que magia negra ela fez para prender esse homem?

Bem, eu não era a única da relação que me sentia insegura quanto a minha beleza, ou melhor, a minha falta dela. Jonas poderia me amar pelo o que sou por dentro, mas não era cego e nem bobo, sabia muito bem o que as pessoas falavam por trás. E o pior, ele se importava. Eu consegui ver o constrangimento estampado em seu rosto quando me apresentou para seus pais. Jonas nunca postou fotos nossas, e quando alguém que não me conhecia se aproximava, eu era apenas apresentada pelo nome, nunca era “essa é Elisa, minha noiva”.

Dito tudo isso, tentei não ficar ofendida quando ele me disse que conheceu alguém. Não uma mulher, mas sim um homem, mais especificamente um cirurgião plástico. “Sem pós-operatório, em apenas um mês você será uma nova mulher. A mudança é completa”, prometia o anúncio mostrado por Jonas, que estava totalmente entusiasmado.

No dia seguinte estávamos na sala de espera do Dr.Dario, somente nós dois e uma recepcionista deslumbrante que não deixei de invejar. Minutos depois sua voz monótona chamou meu nome e fui encaminhada para uma sala inteiramente branca. Dentro dela havia apenas uma espécie de balança digital e uma poltrona cheia de aparatos tecnológicos com um capacete estranho. Me lembrava um pouco uma cadeira elétrica.

“Você precisa ficar totalmente nua, vamos tomar todas as medidas do seu corpo. A mudança é completa” uma voz masculina veio de um canto da sala, porém, não havia ninguém exceto eu. Me despi, tremendo com o frio do lugar climatizado e também com um medo repentino e quase instintivo que se abateu sobre mim. Sinais de alerta pipocaram em meu cérebro, mas permaneci onde estava.
A próxima instrução veio logo após minha última peça cair sobre meus pés, me dizendo para subir a balança. Me senti desconfortável ao imaginar que alguém estava me vendo de algum lugar e não pude deixar de cobrir minhas intimidades, mas não questionei a natureza das ordens. Eu passaria por qualquer coisa para melhorar minha aparência patética.

Ao colocar os pés na balança os senti esquentar. Uma onda de calor subiu por todo meu corpo e as luzes na sala piscaram algumas vezes. No pequeno monitor do aparelho passaram vários números e logo percebi que não se tratava apenas do meu peso, mas sim de todos os valores correspondentes às minha medidas. Minutos depois a temperatura caiu e o monitor tornou a ficar vazio.

“Pode colocar suas roupas e aguarde uma de nossas funcionárias para a coleta” proferiu a voz. Eu apenas obedeci cegamente, imaginando que a “coleta” seria feita naquela poltrona estranha. Depois de me vestir, me aproximei dela, a examinando e imaginando sua função.

- Não toque em nada. – eu pulei de susto quando uma garota loira apareceu atrás de mim. Trajava vestes de enfermeira pornô, vestido curto, lábios vermelhos e decote avantajado. Arrastava um carrinho de bandeja coberto com pano branco. – Vim fazer a coleta.

- E a poltrona? – perguntei, e a expressão dela ficou mais sombria.

- É para a próxima etapa, daqui a um mês. – ela afastou o pano do carrinho e pude ver uma seringa, ampolas, garrote, algodão, álcool, um saco plástico e uma tesoura.

Ela fez o processo básico de coleta de sangue: apalpou minhas veias, apertou o garrote em meu braço, desinfetou o local da punção e montou a seringa. Meu sangue encheu três ampolas e quando achei que estava acabado, a enfermeira habilmente cortou uma mecha do meu cabelo e depositou no saco plástico. Logo depois de vedá-lo, a mulher se retirou e disse que eu podia fazer o mesmo.

Comentei com Jonas, com amigas, com meus familiares, e todos acharam muito estranho todo o procedimento, mas diziam que eu não podia reclamar, o que relutantemente concordei. Além de ficar linda ao final do processo, não era eu que ia pagar. “Você tem sorte de ter o Jonas”, disse minha mãe, e eu apenas assenti. Eu era mesmo muito sortuda.

Um mês se passou com a lentidão de um conta-gotas, e lá estávamos, eu, Jonas e a recepcionista. Fui informada que o procedimento duraria um dia inteiro, e que depois que eu entrasse na sala meu noivo seria dispensado. Nada de acompanhantes. Fui chamada e recebi um beijo de Jonas.

- Mal vejo a hora de ver você de novo. Não se preocupe, você ficará linda. – ele sussurrou enquanto nos despedíamos. Eu forcei um sorriso porque, no fundo do meu peito, eu sabia que só queria que Jonas pensasse que sou linda agora.

Entrei na mesma sala de um mês atrás, mas agora tinha companhia. Duas enfermeiras, com aquele mesmo uniforme que qualquer um encontraria em um sexshop, e um senhor careca, alto e de jaleco, segurando um carrinho metálico coberto com um pano. Uma das mulheres segurava um bastão metálico e a outra uma bola de ferro.

- Eu sou Dr.Dario. – ele se apresentou e reconheci a voz que ditava o que eu fazia na primeira vez que eu estive ali. Eu abri a boca para fazer o mesmo, mas Dario levantou um dedo e tocou meus lábios – Silêncio. Apenas tire a roupa.

E mais uma vez obedeci sem questionar, porém bem mais constrangida do que da última vez. Uma terceira mulher (acho que não preciso mais dizer que todas ali eram perfeitas) apareceu apenas para recolher minhas vestes.

Dario apontou para a poltrona e eu me sentei. Não pude deixar de me sentir como um cão adestrado, com um mestre sem afeto e que não parecia se importar com minha opinião. Ninguém me perguntou como eu gostaria de ficar, apenas disseram que seria mudança completa, e que ficaria linda, como se fosse um maldito veredito. Tão certo quanto o nascer e o se pôr do sol.

Logo que me sentei, a poltrona se reclinou como um assento de carro. Senti um metal envolver meus meu braços, pescoço e barriga. Tentei mexê-los, mas todo esforço era em vão, até respirar era difícil. Somente minhas pernas estavam livres, mas essa liberdade durou pouco. Meus joelhos foram separados e minhas pernas foram abertas quase em um espacato. Logo todas as minhas juntas estavam imobilizadas.

O fato de estar totalmente nua e em uma posição tão vulnerável e constrangedora me apavorou. Comecei a gritar para me soltarem, mas minha voz foi calada quando empurraram a bola de metal em minha boca. Engasguei com o objeto e com minha própria saliva, o que só fazia meu pânico aumentar. O bastão que uma das enfermeiras usava encostou em meu peito nu e senti uma onda de choque percorrer meu corpo.

- Calma, Elisa. Você ficará perfeita. A mudança será completa, só precisamos de uma parte significante sua. Na verdade, é quase tudo o que torna essa sua casca imperfeita a Elisa, a noiva do Jonas. Não se preocupe, essa parte continuará viva, mas não aqui.

Eu ouvi, porém não compreendi o que Dario disse. Tudo o que eu compreendia era minha dor, até ela simplesmente sumir quando o capacete foi colocado em mim. Era como se minha mente se separasse do corpo e eu levitasse. Logo minhas memórias do dia passaram diante dos meus olhos. E as memória de ontem. E da semana passada. Do mês passado. Do ano passado.

Eu vi quando conheci Jonas. Eu vi quando minha vó morreu. Eu vi quando fui aceita no primeiro emprego. Eu vi as festas de faculdade as quais eu sempre estava no canto. Eu vi meus colegas de escola me chamando de “Garibalda”, igual a garota no seriado. Eu vi meu primeiro cachorro. Eu vi meu pai antes de nos deixar por uma nova família. Eu vi minha primeira queda de bicicleta. Eu vi as Barbies que eu tanto desejava ser. Eu vi tudo. E então as memórias pararam de girar na minha cabeça e eu retornei para a dor.

- Está completo, senhor. – disse uma voz feminina. O capacete foi retirado.

E começou. Dario se colocou entre minhas pernas e abriu o jaleco, revelando sua nudez. Eu tentei chamar por socorro, implorar por clemência, mas a bola de metal me impedia. Só me restava a dor e choro. Senti grampos, agulhas, facas. Alicates puxaram meus dentes e dedos. O médico revezava seu membro e o bastão de choque para me ferir por dentro. A pele de todos os cantos do meu corpo foi esfolada, e eu já não poderia contemplar o resultado porque estava sem olhos. A serrote arrancou meio seio esquerdo e minha perna direita, e a furadeira traçava seu caminho tortuoso em minha costelas. Apenas o choque me acordava quando perdi sangue demais para estar consciente. Já não precisavam me silenciar, e então tiraram a esfera metálica um pouco antes de cortarem minha língua. 

Rezei para cortarem também minha garganta, mas só o fizeram quando meu estômago estava aberto.
E finalmente, o silêncio. 

...

Eu acordei esperando sentir dor depois dos procedimentos estéticos – que não faço ideia de quais sejam – e sorri ao lembrar que não havia pós-operatório, então eu estava novinha em folha. Era como acordar de uma soneca a tarde, totalmente revigorada, e não de uma transformação que durou 24 horas. A minha cama era grande e confortável, e uma das paredes era revestida por um enorme espelho.

Quase gritei ao ver a mulher perfeita que eu tinha me tornado. Removi a roupa da clínica para inspecionar inteiramente o trabalho feito. Não havia cicatrizes, nem cirúrgicas, nem de acne. Era tudo tão natural que, apesar do meus seios e glúteos estarem bem maiores e redondos, não parecia haver silicone abaixo da pele. Pelo reflexo do espelho notei um armário atrás de mim que continha um vestido novo ainda etiquetado, sapatos dentro de uma caixa perfumada e um pequeno ramalhete de rosas brancas com um bilhete.

- Elisa Andrade? – uma voz feminina me assustou, e eu tentei cobrir meu corpo com as flores. Era a mesma enfermeira que coletou meu sangue e cabelo há um mês. Ela estava sorrindo. – A senhorita está bem? Podemos lhe dar seu almoço, ou você pode ir com o senhor Goulart.

- Ah, o Jonas já está aqui? – perguntei, e ri com a ideia de que pela primeira vez alguém parecia estar sendo gentil comigo por aqui. A mulher disse “sim” para minha pergunta. – Então eu quero ir com ele. Essa roupa foi ele quem trouxe?

- Cortesia do Dr.Dario. Vou dar licença para você se arrumar, estarei aqui na porta lhe aguardando. A propósito, meu nome é Clara.

Quando terminei, a mulher me guiou por um corredor longo e escuro. Consegui ouvir vários choros femininos, vozes de mulheres adultas que soavam como as de bebês aprendendo a falar. Achei melhor não perguntar nada, até porque Clara parecia nervosa. Andava cada vez mais apressada e me puxava por uma das mãos. Minha mão livre envolvia as rosas e o bilhete.

Atravessamos uma porta larga e paramos naquela mesma sala que estive dias atrás, quando era uma mulher muito distante da perfeição que me encontrava atualmente. Várias enfermeiras estavam ao redor de algo naquela poltrona que eu estava sentada ontem. Senti minhas pernas amolecerem ao ver que era um cadáver ser pernas, braço ou cabeça. As mãos enluvadas das mulheres separavam os órgãos do abdômen aberto.

- Calma, querida. Em todo hospital há cadáveres, e este está sendo estudado. Dr.Dario é bem rigoroso com nosso treinamento. – pude ver lágrimas se formando no canto dos lindos olhos de Clara – Todas nós passamos... Por isso. Tudo pela perfeição.

Antes que eu pudesse refletir sobre o que vi e ouvi, saímos da sala e fomos recebidas por Jonas. Seus braços me envolveram e nossos lábios se juntaram. Pela primeira vez vi que não havia vergonha pairando sobre ele enquanto os outros nos observavam juntos, e isso me deu uma mistura de tristeza pelo passado e satisfação pelo presente, enquanto ouvia elogios sendo sussurrados ao meu ouvido. Seus olhos foram direto às rosas que eu segurava e pode notar um pouco de ciúmes em sua expressão. Ficou tão óbvio que até Clara percebeu.

- É apenas um mimo do meu chefe. Todas as pacientes recebem o mesmo. – depois de ouvir isso, a carranca de Jonas suavizou.

- Amor, vou acertar o pagamento com a recepcionista. Vá para o carro e me espere. – meu noivo me entregou as chaves e se voltou para o balcão, não sem antes me dar mais um beijo luxurioso. 

Estava tonta de amor e desejo quando cheguei ao carro. Sentei no banco do passageiro e lembrei de quando estive na poltrona antes de tudo apagar quando o capacete pousou sobre minha cabeça. Senti um arrepio no meu corpo, mas meu reflexo no retrovisor me pôs de volta a realidade. 

Um pouco antes de Jonas tomar seu lugar, um pouco antes de irmos para o apartamento novo o qual meu noivo pretendia transformar em nosso lar, um pouco antes do casamento maravilhoso e do nosso filho que, por sorte, é a cara de seu pai, lembrei do bilhete que acompanhava as flores. Pude examinar os presentes do Dr.Dario melhor, e quando abri o envelope eu pude sentir o cheiro.

O cheiro de sangue.

Digitais vermelhas tingiam o papel de carta retangular. O odor rançoso empesteou o veículo e minha cabeça girou. As manchas só não me assombraram mais do que as palavras escritas por Dario, e não deixei de escutar sua voz em minha cabeça... Para sempre.

“Querida Srta.Andrade. 

Aprecie meu trabalho. Nosso trabalho. Eu cumpri minha promessa. Eu fiz a mudança. E a mudança é completa.”

Autora: Gabrielle Lima

16/06/2020

Já ouviu falar no Show de Manequins?

Antes de falar sobre o que aconteceu naquela madrugada e as consequências do que ocorreu comigo até hoje, irei começar o meu relato do princípio, quando era ainda uma criança com o nariz escorrendo meleca e se divertindo com os colegas do passado. Foi uma dessas ocasiões, quando nós estávamos subindo em uma mangueira para roubar algumas frutas, que eu acabei escorregando, deslizando sem conseguir me apoiar em um dos troncos e caí de forma desajeitada.

Não havia quebrado nenhum osso, muito menos me machucado de forma grave, mas, após aquele acidente, eu não conseguia mais dormir como antes. Os médicos falaram sobre um trauma na cabeça em uma região específica, que causou a minha insônia até hoje. Com certeza foi aí que tudo começou. Após alguns anos daquele incidente, eu já havia servido ao exército e estava podendo pagar meu próprio aluguel, ocupando alguns serviços meio bico, mas suficientes para uma grana. Mudando-me de uma casa para outra, fez com que eu pudesse ter o meu próprio lugar para descansar e comer.

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Esse dia seria como qualquer outro, ao conhecer um novo lar, novos vizinhos e um cheiro diferente no papel de parede mal desenhado. A propriedade, naqueles anos, guardava alguns móveis do ex-proprietário. As únicas coisas que eu precisava saber, quando paguei adiantado, era que não me preocuparia em conseguir uma mobília nova porque a falecida senhora, com muitos anos que viveu na residência, deixou alguns eletrodomésticos. Os seus filhos, sujeitos mal-encarados, alugaram por um preço bem atrativo. Era tudo que eu necessitava.

Como eu não conseguia dormir, ficava a maior parte da madrugada perambulando dentro dos quartos e móveis, que eu habilitei. Isso se tornou uma rotina desgastante e monótona, no entanto, aprendi a lidar com isso enquanto bebia algo vagabundo e fumava cigarros paraguaios. Tudo era apenas mais um acessório, já que eu desenvolvi uma mania própria, utilizando os televisores e fazendo um joguinho particular com os canais em estática.

Em outras ocasiões, eu estava sob o uso de álcool, mas não era suficiente para criar alucinações, já que aprendi a me adaptar e o meu corpo estava tão resistente quanto pedra sendo atingida por água no oceano. Naquela noite, com ventos sacudindo os telhados e janelas sem ferrolhos, batendo na parede sem cansar, que eu coloquei um cigarro entre os meus lábios, e ele ficou balançando para um lado e outro. A fumaça sendo consumida aos poucos sem, ao menos, eu dar um trago.

Antes de mais nada, no meio do devaneio psicológico, decidi fuçar os cômodos da residência para encontrar, pelo menos, algum rádio ou televisor. Cambaleando como um morto vivo na madrugada, explorei vários troços e porcarias, para achar uma TV escondida embaixo de alguns cobertores sujos com poeiras e outras coisas marrons que eu não consegui identificar. Tratava-se de um aparelho de 14 polegadas, a cabo, bem antigo. Não pensei muito para ter em posse e dirigir para onde estava posicionado o sofá. Coloquei em cima de um móvel, que ficou devidamente assentado, como se pertencesse aquilo, mas foi retirado por alguém. A tomada no lugar certo e as ligações com a antena devidamente preparada, só precisava conectar e ligar.

Pressionei o meu dedo no botão, exageradamente grande do aparelho, na parte direita. Um cheiro degradante de borracha queimada subiu, e imaginei que havia destruído o que restou daquele objeto, mas não. Naqueles segundos, imagens em estáticas começaram a ficar movimentando freneticamente, uma linha preta cortada de baixo para cima e um traço, ainda maior, no meio se movimentavam como uma dança. Animado e solitário naquela alvorada, pude perceber que o aparelho estava funcionando.

Tentei me adaptar ao menu, todos os canais estavam fora do ar, e eu fiquei impressionado: havia 64 emissoras e nenhuma funcionando direito. Isso tudo parecia feito para mim, naqueles momentos, porque contribuiu em seu estado estático e borrado para o meu jogo particular. Costumava ficar pressionando no botão de sincronização para que os canais fossem correndo e encontrando os que estavam com área. Geralmente eram os mesmos, mas, antes disso, eu sintonizava no meu relógio de braço para o segundo em que pararia em seus intervalos aleatórios. Muitas vezes fora do ar, e isso contribuía para me deixar cansado e fazendo o tempo passar naquelas horas de vigília.

Mas naquele dia não. Eu pude perceber, mesmo não funcionando devidamente, que algo foi colocado como favorito. O canal escolhido como preferido, sempre era selecionado no número zero. O local apresentava barulhos e imagens distorcidas, mas menos pior do que os outros. Nas ocasiões em que chegava no número 0, parecia que a TV iria sacudir.

Antes que chegasse no destinatário, fui mudando, me aconchegando no sofá e saboreando o Whisky com pedras de gelo. O cigarro ainda continua dançando nos meus lábios. Pressionei meu polegar várias vezes no controle remoto de forma frustrada porque parou de funcionar: bruscamente o aparelho continuou no canal 0, nada mais estava funcionando, nem mesmo o botão bizarramente grande desligava. Então parei ali para terminar a madrugada com o chiado.

Eu estava olhando para aquela tela ficando preta e, aos poucos, depois de alguns segundos, sem corresponder os meus comandos, a emissora foi ganhando imagens e ruídos familiares aparecendo ao fundo. Parece que demorei algum tempo refletindo e sendo entediado pela minha mente cansada, que as coisas foram ganhando proporções inusitadas. Como eu disse, estava aguardando o dia começar e tinha certeza que já havia ultrapassado às três horas da manhã. O canal foi ganhando formas, a estática desaparecendo rapidamente e mexericos de espectadores anunciaram um Top Show com uma cadeira no centro, uma plateia embaixo de uma câmera dando destaque para anunciar um possível apresentador, cortinas laranjas com alguns detalhes ondulados riscados.

Logo em seguida alguém surgiu com algo no rosto, de forma exagerada e bem típico daqueles shows de auditório, uma apresentação bastante animada e agitando, deliberadamente acenava para o público. A câmera distante agora vai ser aproximado para mais perto de onde ele havia sentado. O esquisitão, aparentemente ao vivo, ficou observando a plateia frenética em aplausos e gritos de garotas e homens. Quando finalmente a câmera estava próxima do sujeito, eu pude vislumbrar que se tratava de alguém usando uma máscara bizarra semelhante a uma ave. Sua voz falha, levando os espectadores a loucura com algumas piadas em alemão que eu não entendia a maioria, mas a plateia explodia em gargalhadas. O pouco que compreendi, era de humor negro bem pesado com abusos, violência, mortes atuais para época e mais antigas.

O apresentador, usando uma máscara assustadora, elegantemente bem-vestido, anunciava na sua linguagem que ia ficando cada vez mais difícil de compreender, mostrando uma tela grande com a projeção semelhante a um cinema. Em um local da parede, tinha destaque para figuras desenhadas e algumas imagens que, em todas as ocasiões, fazia a tela fica borrada do meu televisor. Mesmo dando uns tapas, não funcionava, e a interferência sempre incomodava nessas ocasiões. Não imagino o que se passava, creio eu que coisas típicas dessas opções de comédias ou algo que eu não poderia saber. O entretenimento, tão tarde da noite, parecia uma droga ao estourar o público da plateia em euforia e espanto. Depois das apresentações em algum tipo de projeção, aplausos duradores se divertiram.

O que fez o meu sangue congelar e o corpo parar de responder os meus comandos naquele momento, como uma paralisia do sono, foi no instante que a câmera finalmente apontou para a plateia repleta de manequins sentados, com rostos virados para a direção devidamente colocados. O sujeito continuava com suas piadas no sotaque alemão, e as risadas eram expulsas das caricaturas de gente, com faces contorcidas, gargalhadas plastificadas, olhos abertos, atentos e brancos. Tudo causava um pavor em cada momento que eu enxergava uma nova caricatura humana mais horripilante do que a outra.

As coisas foram ficando mais bizarras quando o apresentador ficava apontando o seu dedo para câmera e em direção da sua plateia. Os objetos sem vida, roubando aparência humana, claro que eles não respondiam, porém, atrás da visão da câmera, pareciam se divertirem, cochichar e murmurar um para o outro. Nos cortes dos seus diálogos e imagens do público sem vida, se comunicavam e, cada momento, eles pareciam mudar a posição e expressões faciais.

Eu não controlava mais nada e o desespero ficou entalado na minha garganta, junto com o grito na minha boca. Seja lá o que ocorreu, demorou minutos, no entanto pareceu que o tempo escapou para outra realidade porque a madrugada estava demorando bem mais do que o habitual. Em um certo momento, uma mulher com roupa de enfermeira e usando uma máscara também semelhante a do apresentador, como uma ave negra com o bico longo e apenas dois buracos para mostrar os seus olhos, carregava uma mesa com rodinhas, repleta de objetos pontiagudos, facas cuidadosamente guardadas.

Enquanto a mulher posicionava os objetos no centro do palco, se movimentando e fazendo o seu momento particular diante dos manequins, o apresentador foi se aproximando da câmera. Os seus braços agarraram nas duas direções e o televisor tremeu como terremoto, infelizmente a visão não ficou borrada como as outras vezes. Nesse momento, eu pude enxergar os seus olhos com veias no meio e encontrando a pupila. Sua maneira de movimentar muito rápido as íris atrás dos buracos da máscara, mostrando que, de maneira alguma, aquilo era um homem normal como os outros. Ele parecia penetrar através do vidro do televisor, vislumbrar meus olhos e senti o meu pânico.

Demorou alguns momentos, balançando o seu corpo e encarando como se conseguisse me enxergar. O meu corpo doeu ainda mais e pareceu que concretos de cimento foram deslizados em cada membro porque tudo parecia insuportável e frio ao mesmo tempo. Ficou ainda pior quando ele disse o meu nome, antes de voltar para a sua posição.

O gemido traiçoeiro mencionou as seguintes palavras: "chegou o melhor momento tão aguardado no show, Richard." — a malignidade surgiu em seus verbos e o sotaque não existia mais naqueles segundos.

Quando finalmente eu pude enxergar o horror, os meus braços tremeram demais e o controle remoto, deslizou pelo suor aflito... O homem com a máscara de pássaro havia saído da visão da única câmera e voltou arrastando um manequim com os braços caídos de lado, as pernas moles e bem diferente dos demais porque ele não assustava, não carregava uma expressão de ódio no meio dos sorrisos plastificados, suas roupas eram como de uma princesa, cabelos cacheados, olhos azuis, maquiagem e sendo ainda mais real na sua fisionomia humana, quase que blasfemando para a realidade genuína.

O lunático arremessou a caricatura no chão, apontou o seu dedo na direção da câmera mais uma vez e cochichou algo com malícia. Não sabia se era para eles ou para mim. O seu sotaque falho, saindo da máscara de pássaro, gaguejou para uma piada final... Socando suas coxas e sendo sufocado pelo seu próprio humor para finalizar o temor de sua apresentação.

Enquanto ele tossia igual um doente de tuberculose, foi se arrastando, saindo por uma segunda vez do alcance da minha visão. A estranheza não acabava por aí já que trouxe o pesadelo naquele dilúculo com algo tenebroso e surreal: os manequins ganharam vida, levantaram da plateia e foram direto para mesa com as facas. Tomaram de posse os objetos, se movimentando lentamente e esfaquearam o manequim deitado no chão.

Seus movimentos arrastados e excitados, acoitavam a caricatura humana de uma garota debruço. Isso é o de menos, a coisa que realmente causou loucura na minha mente foi porque ela expulsava gritos e sangrava como se fosse uma pessoa de verdade. Não pude acreditar na cena que estava enxergando, os outros manequins continuavam golpeando e penetrando sem parar, fazendo sua pele branca ficar com o tom acarminado de sangue.

Essa cena durou mais do que minutos, pareceram uma eternidade até que, após o massacre, a multidão feroz retornaram para os seus assentos na plateia, arremessando as facas em volta do que sobrou da manequim destroçada. Voltei para minha realidade, como se eu estivesse presente naquela carnificina. Encontrava-me coberto com suor, aterrorizado, com medo e o meu coração bateu como tambor no meu peito, acelerado. Parecia que eu havia despertado de um pesadelo e ainda continuando nele.

Tudo pareceu um vago sofrendo sem gritar. Nem podia mais ouvir os sussurros que ignorei desde o início, mas, no momento de brutalidade, pude perceber com mais clareza... parecia que em todo momento, desde o início da transmissão, vozes acompanhavam o chiado e representavam almas agonizantes na transmissão. Nesse vazio, não existia mais nenhum tipo de espetáculo... a plateia de manequins assassinos ficou silenciosa, o apresentador tinha sumido e apenas mostrando a sua mesa vazia com aquela gravura esquartejada adormecendo no chão de madeira.

Nos segundos em que encontrava-me saboreando todo o mal do mundo, qualquer coisa ruim que já poderia enxergar e que ainda viria acontecer, o repugnante... utilizando a máscara de sempre, apareceu para visão das câmeras. Causando nós em seus verbos, que ficaram ainda mais piores em uma linguagem própria, ainda mais lunático e perverso, observando o sangue derramado e os pedaços desmembrados da manequim que foi bela, agora está horrível. O fim da tortura veio junto com o som da TV em estática. Os tons brancos anunciavam o fim do Top Show.

Minha realidade voltou nos segundos em que o cigarro, na última brasa, queimou a minha perna esquerda. Despertei de um desvaneio, um sono alucinótico. Lembro-me das suas palavras tão frias, cruéis, vazias e impiedosa, seduzindo os telespectadores em geral com: "esse é o espetáculo dessa madrugada, estamos aguardando você mais uma vez". A televisão voltou a ficar sem sinal e logo desligando de forma automática. Desde esse dia, eu não consegui ficar mais acordado, pareceu uma cura para a insônia, mas, na verdade, era uma escapatória da minha alma porque eu não poderia mais permanecer nas madrugadas e muito menos com o televisor ligado em tal ocasião.

O apresentador, usando a máscara de pássaro, ficaria satisfeito em me ver mais uma vez apreciando o seu espetáculo! Estou aqui nesse texto para saber se você já ouviu falar do Show com Manequins...?

Autor: Sinistro