24/06/2020

Não podemos saber o presente porque ele pode vir impiedoso

Algumas pessoas nascem para brilhar na vida, fazer sucesso e desfrutar de dezenas de companheiros, que não são falsos. Em outras ocasiões, existem outros que não têm nada na vida, além do pouco para sobreviver. Eu me encontro nesse pequeno grupo vivendo como parasita, apenas existindo e respirando. O meu próprio pai não conheci, algumas fotográficas presevavam o seu rosto dentro do pequeno baú. Lembro nos dias dos pais e ocasiões especiais que todos os companheiros do colégio levavam os seus progenitores, e eu era a única criança que não podia desfrutar desse conforto. A mamãe nunca falou sobre ele, esperou eu fazer idade suficiente para dizer que era apenas um drogado que morreu sobre o uso excessivo de cocaína.

Na fase adulta, minha vida seguiu normalmente, como qualquer outro jovem da minha idade. Havia cursado a faculdade da região, fiz alguns parceiros e até consegui uma namorada, tão bela que eu não merecia tudo isso que ganhei em momentos bons da minha vida. A realidade é tão traiçoeira quanto o hamster nos olhos de um gato predador, nós sabemos que as coisas não são tão boas para quem tem a tendência a atrair energias ruins em seus caminhos.

Começou parecendo mais uma madrugada despertando após um sonho desagradável, mas isso se repetiu dezenas de vezes. Consegui apoio dos meus poucos amigos enquanto não estava mais cochilando normalmente e parecendo cada vez como um cadáver caminhando exausto e cansado. O terapeuta perguntou como estava sendo meu relacionamento, e repliquei que bem. A minha namorada era perdidamente apaixonada por mim e fazia de tudo para me agradar. As perguntas do cara atrás da mesa foram para outras situações, mas em nenhuma delas eu estava vivendo uma vida desgastante, além dos sonhos que me acordavam gritando na madrugada, e minha mãe aparecendo na minha cama para perguntar o que estava havendo, enquanto eu controlava os verbos na minha boca sendo abraçados por soluços.

Dentro de uma casa organizada, com gato deslizando em um pequeno amontoado de travesseiros, observava a minha namorada com o corpo nu, suas curvas atraentes mergulhando na banheira e pegando um pouco de shampoo com cheiro de hortelã. De forma majestosa, ouvindo um pequeno rádio, próximo das escovas de dente, sons de Nicolo Paganini. Seus braços brancos começam a espalhar outros aromas dentro da água. Relaxada, afunda um pouco o seu corpo, deixando apenas a região acima do pescoço... Submersa, durou alguns segundos até que a água ganha forma parecendo uma boca monstruosa e começa a mastigar o seu corpo, devorando a carne, enquanto eu posso sentir como se tivesse apreciando tudo ao seu lado e sem poder fazer nada! Cada pedaço fragmentado da sua estrutura física é esmagado e se misturando ao líquido na banheira que começa a transbordar. O seu felino aparece lambendo aquilo que sobrou com o tom rubro.

Me encontrei em várias vezes, nos últimos dias, com os batimentos cardíacos machucando o meu peito, os joelhos na altura dos ombros e segurando apertado para tentar encontrar conforto, após mais uma vez sonhar com a mesma coisa e sempre parecendo tão real quanto a noite anterior. Os conselhos, tratamentos e medicamentos não foram suficientes quando finalmente o pesadelo se tornou real...

A minha namorada não estava se sentindo bem com a minha situação, nunca disse para ela sobre os pesadelos que estava sofrendo. Porém, naquela situação, deveria ter mencionado algo. Em uma diversão como qualquer outra, Lacie, minha companheira, decidiu se aventurar com alguns companheiros em uma praia deserta e proibida por causa da falta de segurança. A notícia chegou quando eu finalmente estava descansando melhor, sabendo lidar com o infortúnio, a mensagem foi direta ao ponto, na região mais dolorosa do meu coração, quando disseram que ela foi atacada por tubarões e morreu enquanto surfava com os seus amigos.

Não é fácil você perder alguém que realmente ama, nas redes sociais é muito simples colocar "luto" e fingir que realmente se importa, mas, quando os sentimentos são reais, não é bem assim. Sofri por muito tempo e, no meio do tormento particular, algo estava tendo espaço e inundando qualquer tipo de aflição que eu deveria estar passando, quando começaram a acontecer eventos estranhos em minha vida: começando com pesadelos, da mesma forma que ocorreu há uns meses, repetindo-se dezenas de vezes e torturando-me lentamente até que se tornassem reais.

Demorei muito para perceber a situação horripilante que estava passando, era tudo tão evidente e acertando o meu nariz em socos que fui estúpido demais até acontecer com mais alguém próximo de mim. O meu irmão mais velho, o orgulho da família, servindo o exército dos Estados Unidos em combate contra os terroristas. No sonho, nós estávamos jantando na mesa: a mamãe, o meu futuro padrasto, eu e o meu irmão, tudo parece normal, até que encaro em sua direção e vejo Matt, o meu irmão, sem cabeça! O líquido vermelho saltando do seu pescoço e ele conversando como se nada tivesse acontecido, e eu afundando lentamente na cadeira vivendo um pânico particular.

Esse pesadelo se repetiu nos últimos dias... era a mesma coisa, aquele jantar reunido a felicidade, os outros prazerosos e saboreando a mesa repleta de alimentos deliciosos. O meu irmão, ganhando atenção de todos por estar conosco, pintando todos os alimentos com seu sangue escapando do buraco em seu pescoço, e todos se alimentando do líquido da sua morte. Isso demorou por muito tempo, cada vez mais doendo e me machucando como se fosse a primeira vez e perfurando em todas as migalhas dos meus sentimentos. Mais uma vez, não disse para ninguém, jamais desejei ser o louco do local, mas a notícia chegou, e nós ficamos sabendo que Matt havia sido morto em uma missão, na qual algo atingiu a sua base e sua cabeça explodiu igual uma bexiga. Nós recebemos apenas um tronco, e o caixão ficou lacrado, a cerimônia foi rápida e o manto da morte pairou em cima de nosso lar.

Quanto mais eu estava suportando a ansiedade dos ocorridos, mais aumentava os incidentes. O mais recente foi com meu companheiro de bebedeira, o cara que considerava melhor amigo, aquele tipo de gente que você sabe que nas horas exatas vai estar contigo. Nos pesadelos, Kenny estava em um parque, alimentando pombos, sentado em uma cadeira com os pés cruzados, e os pássaros cada vez mais aumentando para engolir as sementes de milho. Kenny estava sereno e bem-vestido, o lugar brilhava como um paraíso, e suas mãos jogavam cada vez mais alimento para os pombos. Logo, a beleza ganhou vislumbres sombrios e a atmosfera ficou tensa: as nuvens escureceram, o meu amigo se levantou do banco da praça, puxou sua camisa mostrando a região da sua barriga, e o seu corpo, em poucos minutos, foi ganhando tons vermelhos e começaram a sangrar até que o meu companheiro caiu morto no chão, e os pombos começaram a afligir o seu corpo com seus bicos incansavelmente... Acordando-me logo em seguida.

Coisas de quando o homem não raciocinava... Depois disso e os cálculos mentais, que nenhum ser humano pode controlar, algo dominando sua mente, atormentando de todas as formas possíveis e de maneiras inexplicáveis. Em algumas delas parecendo fantasias em comédia, eu observei o meu cachorro dachshund aparecendo em meus sonhos esmagado e triturado com sangue escorrendo em seu corpo. Na naturalidade doentia de ser, pedaços de ossos saltavam por sua pele, e as marcas do pneu negras em seu corpo brincavam pelas causas da sua morte. Isso durou bem menos do que eu esperava, sua língua amorosa, alisando os meus pés, pareciam suficientes até a realidade ser concretizada. O meu dog fora atropelado, e observei o que sobrou de sua estrutura física, triturada pelo asfalto.

A primeira vez durou meses, na segunda semanas e, nos outros ocorridos, envolvendo pessoas aleatórias no caminho do meu dia a dia, ficou por dias e agora foram horas. Eu estava pronto suficiente quando a notícia chegou que o meu companheiro Kenny havia sido brutalmente atacado, após resistir a um assalto em uma praça, contra alguns viciados e vagabundos. Antes da notícia que me deixaria despedaçado, ainda mais fragmentado e psicologicamente instável, antes da porra toda, nos últimos dois dias, eu já estava enxergando-o como um morto-vivo pronto para ser entregue ao destino, e a maldição se confirmou em meus presságios noturnos.

Depois disso, as coisas não foram mais como antes, o tormento e a inquietação se tornaram em um verdadeiro inferno. Na televisão poderia ver pessoas mortas, na vida real e no meu caminho, sacos de carnes vivas prontos para morrerem. Suas identidades foram substituídas por um semblante apagado, apenas uma parede branca com desenhos surgindo em traços esqueléticos.

Eu cada vez mais estava vendo a morte de todos, me sentia em um cemitério vivo, caminhando entre os mortos e falando com eles como se fizesse parte. Os remédios para dormir não duraram por muito tempo porque o meu corpo se tornou resistente e, no pico da degradação, acabei adormecendo... desmaiando por algumas horas: uma overdose, semelhante a do meu pai, penetrou o que restou de mim. Acordei e não queria que isso estivesse acontecido...

As pessoas acham que quem está em coma ou adormecendo por algum inconveniente, não têm noção do que acontece com o seu cérebro ou esquece de tudo, no meu caso, não! Fiquei muitas vezes, em quantidades que eu não podia contar, sonhando com o mesmo ocorrido, envolvendo minha própria ruína em uma morte. No pesadelo, encontrava-me no lúgubre, dentro da minha casa, alguém abria a porta do meu quarto, e estava pronto para fazer qualquer tipo de coisa. A minha mãe aparecia, a visão se escurece por alguns segundos. Em mais um relance do tormento, eu estava tentando escapar, pressionando a maçaneta da porta e logo sendo golpeado, mas o meu corpo já estava ferido bem antes disso. Nas poucas lembranças da carnificina particular, caio, olho para trás e vejo minha genitora com suas mãos sangrando e segurando uma faca.

Estive trancado na minha casa após receber alta, não falei com a minha mãe, a única pessoa que morava comigo, por muito tempo. Ignorei ao máximo que pude, e todas as suas tentativas de saber o porquê foram frustradas com a porta sendo fechada diante do seu rosto. A sensação de ataque foi aumentando com coisas pequenas pelo canto dos olhos, observando vultos se escondendo onde não havia ninguém, minha própria visão no espelho se movimentando contra minha vontade, enquanto os meus olhos estavam ocupados em outra direção. Desfrutava de uma certeza que a morte estava planejando algo contra mim.

Usei todo tipo de coisa ilegal para não fechar os olhos, enquanto estava em cima da cama, cuspia palavras de baixo calão para qualquer um que ligasse ou batesse na minha porta. Foi nesse entardecer que senti a sensação de que algo iria acontecer com mais intensidade. Não como as outras vezes, agora toda a vitalidade do meu corpo estava escapando entre as paredes e um vazio tomou conta do meu mundo. Senti uma brisa fria aparecendo de lugares onde não existia nenhum tipo de contato com o mundo exterior e enxerguei a porta do meu quarto sendo aberta, a figura da minha mãe com sua roupa de dormir encarando-me.

Ela se movimentou rapidamente, bem mais do que eu esperava. Recuei instintivamente, e ela se jogou em cima da cama como um animal de quatro pernas. A faca estava embaixo do meu travesseiro e acertei o seu corpo em quantidades que eu não podia controlar, mas suficiente para escapar. Fechei a porta do quarto atrás de mim, escorreguei logo depois para ouvi os seus passos sendo carregados em minha direção por uma segunda vez.

Creio que não senti na primeira vez ou não percebi enquanto fui acertado dentro do meu quarto, mas algo estava ardendo nas minhas costas e coloquei a minha mão esquerda para trás para ver o sangue fresco. Em pedaços, me dirigi à porta de saída, um pouco tonto. Pressionei a maçaneta, e o ferrolho estava trancado, a chave não se encontrava no mesmo local de antes. No meio do tormento, algo me jogou contra a madeira em obstáculo, eu pude sentir como um soco, no entanto, bem mais doloroso, suficiente para roubar minhas forças. A reação do meu corpo foi para cuspir um líquido quente entre meus dentes.

Contorci o meu pescoço dolorosamente na direção contrária. Igual o pesadelo, pude vê minha mãe com seus braços sangrando utilizando uma faca nos seus dedos, mas ela logo caiu em seguida, e o agressor estremeceu seus lábios em minha direção com os seus olhos penetrantes, o sorriso maléfico. Enquanto finalmente tudo estava roubando o que existia da minha vida, eu pude enxergar, por uma última vez, o meu pai segurando o machado...

Autor: Sinistro

8 comentários:

  1. Olá, leitores do site, essa história ficou aberta mesmo. Quem quiser fazer uma continuação, só basta apenas criar uma segunda parte ou referente a essa. Não curto muito fazer isso, mas a possibilidade está aberta para quem estiver. Séria legal criar uma segunda parte ou mundo particular do pai do protagonista.

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  2. Muito criativo!!. Parabéns,isso merece um filme!!

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  3. o complicado é que quando chegou na parte que o cara disse "sons de nicolo paganini" eu tava ouvindo i palpiti kkkkkk

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  4. Não entendi o fim, alguem explica pfvr?

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    1. O pai dele poderia ter o mesmo negócio de saber o futuro.

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