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A Inocência Destruída

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Aproximava-se o fim das férias escolares de 2006, e eu me preparava para mais um ano letivo. O último, na verdade. Minha família programou uma viagem para a praia pouco antes das férias terminarem. No último dia, porém, ocorreu um desastre. Era de noite, quando minha família iria tomar banho no hotel. A minha vez de tomar banho era depois do meu pai. Mas ele não saiu do banho. Ele nunca mais saiu. Abri a porta e me deparei com seu corpo mutilado, banhado em sangue. Sim, meu pai cometeu suicídio no dia 28 de janeiro de 2006. Ninguém sabia seus motivos. E, alguns dias depois, tive que voltar para a escola, ainda traumatizado com o ocorrido. Aquele ano seria tão estúpido quanto todos os outros.

Não há muito o que eu possa falar da escola. Eu era apenas aquele garoto baixinho que sofria bullying da turma todos os dias. Quase todos os dias, na verdade. E, somado a morte de meu pai, decidi me fechar completamente. Nenhuma pessoa após aquilo me parecia interessante. Bem… a não ser Sarah. Sim, esse era o nome dela. Eu era apaixonado por ela desde o primeiro ano do ensino médio, quando ela se mudou para minha escola. Mas, sendo quem eu era, nunca havia tido coragem para me confessar.

Sarah era uma menina estranha. Não no sentido negativo, lógico. Mas havia algo nela que era perturbador, mas ao mesmo tempo atraente. Era um mistério que eu gostaria de resolver. Ela possuía longos cabelos escuros, com uma franja que por pouco não tampava o seu olho direito. Uma pele bem clara, e com um olhar de uma expressão vazia e profunda que, embora assustasse alguns, me atraíam cada vez mais. Porém, nem sempre ela foi assim. Segundo pessoas que a conheciam há mais tempo do que eu, Sarah era uma menina inocente como qualquer outra. Foi de um dia para o outro que ela se tornou fria e anti-social, se mudando para a minha escola. Mas isso não me importava. Eu ainda a achava atraente, apesar de tudo.

Certo dia, estava passando por Sarah enquanto ela estava usando o seu celular. Sem querer, acabei vendo uma foto de uma tábua Ouija. Sim, o famoso jogo de comunicação com espíritos. Logo, minha mente foi atropelada por um grande sentimento de angústia e solidão, misturado com a ideia surreal de que eu poderia usar esse jogo para me comunicar com o meu pai, e enfim resolver o mistério da sua morte. Porém, eu não era nenhum idiota, e sabia que usar uma tábua Ouija era um caminho de duas vias: você poderia se deparar com qualquer tipo de espírito no jogo, e 90% deles eram maus.

Mesmo assim, decidi falar com Sarah. Ela me confirmou que sim, usava o tabuleiro frequentemente. Combinamos então de nos encontrarmos em sua casa, no próximo final de semana, para tentarmos contato com o outro mundo. Não mencionei nada sobre o meu pai. Ninguém da escola sabia desse incidente, aliás. Apenas disse que tentaríamos contato com qualquer espírito que aparecesse.

E assim, chegou o fatídico dia. Empurramos a cama de Sarah para o canto do quarto, para liberarmos o maior espaço possível no cômodo. Colocamos o tabuleiro no chão, acendemos as velas e apagamos as luzes. E como Sarah era linda. A luz das velas batia em seu rosto e realçava cada detalhe, principalmente aquele seu misterioso olhar. Por um momento, apenas olhei para ela, e ela me olhou de volta. Envergonhado, disse para começarmos o jogo.

- Tem alguém aqui? - eu disse.

Aproximadamente 2 minutos se passaram. Nada aconteceu. Pensei ter sido rude demais, então decidi reformular a pergunta.

- Boa noite. Estamos aqui reunidos, Sarah e Nathan, para tentarmos contato com o outro mundo. Temos autorização para entrarmos no jogo?

Mais dois tediosos minutos se passaram. Por um instante, me perguntei se o jogo era mesmo real. Apesar de conhecê-lo, nunca havia jogado antes. Mas Sarah parecia me dizer, com seu olhar, algo como “espere, logo eles virão”. E assim foi. O indicador se moveu para o YES (sim).

- Você, quer perguntar algo, Sarah?

- Quantos espíritos estão aqui?

Esperamos uns 10 segundos, e o indicador se moveu para o número 1. Foi então que senti um enorme calafrio atravessando a minha espinha. Se havia somente UM espírito conosco, seria este o meu pai? Mas logo pensei ser coincidência demais, então decidi fazer uma pergunta idiota.

- Você me conhece?

E o indicador se moveu para o YES. Mais uma vez, senti outro calafrio tenebroso, como se o espírito estivesse me acariciando. Fiquei em dúvida se explicaria a situação para Sarah, ou se simplesmente perguntaria sobre meu pai sem qualquer introdução. Pensei fundo, e decidi que o melhor seria a segunda escolha.

- Pai, é você?

Sarah não parecia surpresa. Na verdade, ela nem se mexeu. Era como se não tivesse escutado a minha pergunta.

- Sarah, é que meu pai se m…

E, de repente, o indicador se moveu para o YES. E, antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa, aquela porcaria escreveu NATHAN. Sim, o meu nome. Tudo bem, é verdade que eu já o tinha falado, e que qualquer espírito poderia escrevê-lo. Mas aquela sensação de que eu estava sendo acariciado continuou. Decidi pausar o jogo, e expliquei tudo para Sarah.

- Meu pai se suicidou há aproximadamente uma semana, antes das aulas começarem. Até hoje, não sei o motivo. Por isso decidi jogar esse jogo, para tentar esclarecer tudo. Me desculpe, Sarah.

- Eu já imaginava. Eu reparei que você começou esse ano com um sentimento de tristeza muito forte. Eu entendo você, Nathan. Eu nunca contei isso a ninguém, mas… eu também já passei por um grande trauma. Então, eu entendo você.

- Me desculpe se isso soar intrometido demais, mas você se sentiria confortável me falando o que aconteceu?

- Acho que não. Você até entenderia, mas não me sinto confortável. Mas eu posso te ajudar.

Sarah disse que iria psicografar uma mensagem vinda de meu pai. Abaixo, tudo o que foi escrito (até onde eu me lembro):

- Olá, filho. Me desculpe pelo que eu fiz. Eu precisava de um castigo eterno. Estou sofrendo uma dor interminável. Mas creio que a mereço. Há alguns anos, cometi o maior erro da minha vida. Era uma menina tão inocente. Eu destruí a sua inocência…

Sarah interrompeu o jogo, e me pediu para ir embora.

Autor: Marcos V. Nunes

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