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Padrão - Capítulo 4

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Minhas mãos estavam frias e minha pulsação batia a mil por segundo. Eu agarrei o saco de café sobre a bancada e o deixei cair no chão, esvaziando-o por completo no meu piso de madeira recém encerado. Confusão, a palavra que definia minha mente no momento. Eu tinha acabado de voltar da cena do crime, o garoto com a cabeça mutilada.

Dessa vez, encontrara o saco ao lado de uma xícara cheia pela metade de café.

Ainda trêmulo, agarrei a ponta do saco e o joguei no lixo, limpando o chão com uma vassoura após isso. A paranoia estava começando a me consumir, o sentimento verdadeiro de que algo está errado, de que você está perdendo sua sanidade aos poucos, era isto que eu estava sentindo.

Sentei em frente ao meu computador e passei horas procurando algum tipo de terapeuta ou psicólogo. Eu precisava descarregar um pouco.

As memórias invadiram minha mente e eu não pude fazer nada a não ser chorar. Lá estava eu, há muitos anos atrás. Um frágil garoto esquelético, sentado no banco do trás do Chevette verde do meu pai. Uma das poucas vezes em que me levara para sair. Estava perto do natal, o frio inundava a região e meu nariz escorria.

- Venha Adam. Preciso dar uma olhada em seu tio-avô. Sabe, esse velho já está no fim de seus anos, então por favor, seja legal com ele. - Meu pai disse do banco da frente, me olhando pelo espelho retrovisor.

Eu assenti e em seguida ele estacionou o carro em meio a uma leve neblina gélida, no meio de uma estradinha deserta. Dormi a viagem inteiro, então não fazia ideia de onde estávamos.

Pisamos sobre a grama fresca e úmida e meu pai me guiou por uma pequena trilha de terra, nos levando a um terreno enorme, um sítio.

- Droga! Entrou uma farpa no meu dedo. Coisa velha idiota. - Ele exclamou depois de abrir o portãozinho de madeira.

Adentrei na grama alta e mal cortada e caminhamos lentamente até a minúscula casa de cimento e madeira. Fora construída pelo meu tio-avô décadas antes.

- Eu vou só dar uma olhada nele, pode dar um volta por aí. - Meu pai avisou e entrou pela porta barulhenta.

Meu tio-avô tinha várias plantações e uma pequena quantidade de gado. Ele costumava vender suas frutas, verduras e grãos para restaurantes, mercadinhos e essas coisas. O terreno era enorme, comprado por ele na época em que fazendas davam um bom lucro. Na minua cidade pelo menos, ainda dá para se manter bem, nós valorizamos muito a agricultura por aqui.

Eu podia ouvir mugidos distinguíveis de vacas, perto demais. Não pareciam estar dentro do celeiro. Como eu era apenas uma criança comum, ignorei o fato e continuei andando pela plantação de grãos. Depois de passar por uma extensa floresta de milho, com algumas espigas pisoteadas (fato que estranhei na época até entender o que havia acontecido), cheguei nos grãos de café.

A plantação estava um caos, com folhas pisoteadas por toda parte e terra socada. Eu fiz uma careta e continuei andando pelo campo, ignorando por instantes o fato das vacas estarem caminhando livremente, o que respondeu minhas dúvidas sobre o que acontecera. Meu tio-avô ficaria furioso. A agitação tomava conta de todas, então fui obrigado a me aproximar pela típica curiosidade infantil.

Elas mugiram e se empurraram enquanto eu chegava perto. Lá estava meu tio, em uma curta distância de seus cascos, totalmente pisoteado e ensanguentado. Não havia possibilidade dele estar vivo. Suas pernas estavam dobradas de uma forma que humanos normais não conseguiriam reproduzir. Seus olhos não estavam mais lá e o rosto estava extremamente desfigurado. Grãos de café cobriam seu corpo, alguns pisoteados se misturando ao sangue e à carne. Gritei e corri de volta para o meu pai, chorando copiosamente como qualquer outro ser humano normal.

Com este evento, eu abandonei totalmente a vontade que eu algum dia teria de tomar café.

Lembranças agora foram substituídas por números. Meus olhos estavam cheios de lágrimas, mas isso não impediu que eu revisasse anotações e pastas.

18, 3, 7, 5, 1.

Minhas deduções foram interrompidas por uma notificação na tela do meu computador. A foto de um homem apareceu. Era um psicólogo aqui na região. Comemorei em silêncio e peguei meu telefone, discando o número que aparecia na tela.

Depois de breves minutos, eu finalmente consegui marcar uma consulta para três dias depois.

Enquanto lia os números, pensei na possibilidade de um código. Poderia ser um código numérico, provavelmente dando algum tipo de pista.

Eu anotei a dedução em uma folha do meu bloco de notas e comecei a conversão dos números.

18 - R
3 - C
7 - G
5 - E
1 - A

Eu não fazia ideia de como havia chegado tão rápido àquela dedução, e alguma coisa dentro de mim me dizia que aquelas letras poderiam significar algo, mesmo embaralhadas. Eu sentia isso tão nitidamente quanto qualquer outro sentimento.

Escrevi as letras que conseguira no meu bloco de anotações e acabei caindo no sono em seguida. Talvez eu tenha feito algo antes disso, mas não consigo me lembrar.

Autora: Sofia NAQ

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