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Padrão - Capítulo 2

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Seus dedos se moveram como grossos galhos no papel branco e com algumas gotas de chá. Eu havia derramado alguns pingos de Mate nele, mas nada muito grave.

O delegado me fitou com um certo tom de acusação no olhar, em seguida dando um sorriso de canto.

- É, não havíamos percebido esse detalhe. - Declarou e em seguida fechou a ficha, jogando-a sobre o meu colo.

Eu me econtrava sentado na cadeira de seu minúsculo escritório abafado, em frente a sua mesa de madeira enegrecida. Minhas mãos suavam e eu as esfregava repetidamente na minha calça.

- Já mesmo? - Perguntei. - Quero dizer, não sabem o padrão dos números, certo?

- É, isso não sabemos. Há algum significado específico por trás, mas eu não faço a menor ideia de qual é, por isso precisamos da sua ajuda. - Disse, em seguida passou a mão em sua cabeça careca, como sempre gostava de fazer quando estava começando a ficar confuso.

- Bom, também acho que há um significado por trás de outras coisas. Por exemplo, em um caso uma mulher foi assassinada com exatamente 7 facadas na barriga, mas dá pra perceber que em outras vítimas ele dá apenas 4, ou até menos, sem número algum em específico. Este pode ser um número relevante, certo? O número 7 pode significar algo.

O delegado tomou um de seu café em sua xícara, não tirando os olhos do teto, pensativo.

- Talvez. Investigue isso, garoto.

- Eu posso dar uma olhada na cena do crime? O caso mais recente, número 15.

- Tudo bem, vou orientar meus homens. Precisa de carona?

- Não, eu posso ir com meu carro mesmo.

Eu me levantei nervosamente da cadeira. O detetive me lançou um olhar de estranheza, mas logo voltou para papeladas sobre sua mesa.

Meu pequeno carro me levou até uma casinha humilde próxima ao centro da cidade. De cor verde, com uma cerca branca no limite do quintal, a única sensação que ela passava era a de paz e tranquilidade.

Alguns policias saíam e entravam pela porta da frente, que ficava sempre aberta. Eles acenavam para mim, em seguida tiravam seus rádios do bolso e diziam coisas que eu não conseguia entender.

Eu escorreguei pelo parapeito da porta, abrindo passagem para outros saírem. Logo de início, o clima passou a ficar pesado, com um cheiro pútrido. Haviam encontrado o corpo ontem, mas os legistas revelaram que estava morta há dias.

A cozinha me recebeu com um odor forte e penetrante. Plaquinhas amarelas com poucos números estavam postas sobre o balcão e o chão. Pelo que li, a vítima recebeu um golpe certeiro de machado, morrendo instantaneamente em 1 segundo. Um único prato fora colocado em cima do chão de ladrilhos brancos e pretos. Não estava quebrado ou arranhado, os outros pratos estavam arrumados cuidadosamente dentro de seus devidos armários. Era como se alguém tivesse feio aquilo de propósito.

Eu passei os dedos pelo bolso, agarrei meu celular a comecei a tirar algumas fotografias das partes mais relevantes da cena, apertando o nariz com força para não inalar mais aquele odor pútrido, que corroía minhas vias respiratórias.

- Vocês têm algum suspeito? - Questionei o delegado assim que entrei no centro policial.

- Nenhum. - Ele respondeu sem tirar os olhos de uma ficha amarela, possivelmente alguma descrição de um criminoso simples. - Bom, tem esse sujeito aqui. - Delegado Joseph me entregou o papel, revelando um homem barbudo e grande.

Eu olhei cada detalhe seu, averiguando uma possível ideia. Era um homem robusto, com uma barba comprida e olhos ameaçadores. Havia passagem na polícia por assaltos, mas nenhum assassinato (fato não comprovado por falta de provas). Era suspeito no assassinato de seu próprio irmão, nas não foi preso.

As descrições conseguiam bater perfeitamente com algumas vítimas. O homem não foi avistado nos dias dos assassinatos. Talvez ele fosse realmente um assassino, ou apenas estivesse no lugar errado, na hora errada.

Eu não queria tirar conclusões precipitadas, então apenas solicitei que ele passasse por um detector de mentiras.

- Já fizemos. - O delegado afirmou, em seguida tomou um gole da xícara de chá em sua mão. Ele puxou a ficha de meus dedos e examinou o rosto feroz do homem, que devia ter por volta de uns 40 anos. - O problema é que estamos correndo em círculos, não há nenhuma pista e o número de suspeitos é equivalente ao tamanho desta cidade. - Falou com certo desespero e bateu firme a xícara já vazia na mesa. - Você é jovem, Adam. Começou ano passado. Lembre-se que eu conheci seus pais, eu sei o quanto você é capaz, desde criança. - Seu tom agora ficou mais alto.

Por instantes, me lembrei de minha infância solitária e melancólica. Eu não tinha nenhum amigo, a minha capacidade de socialização sempre foi infinitamente inferior ao meu poder de dedução. Eu costumava frequentar alguns psicólogos quando pequeno, mas nenhum era bom o suficiente. Não há muitos aqui nesta pequena cidade, somente uns dois ou três.

Lembro-me nitidamente de estar em meu quarto, rodeado de animais de pelúcia, trocando ideias com cada um deles. Meus pais trabalhavam muito na época, então suas paradas em casa eram apenas durante momentos da noite, me largando com babás durante o dia. Meus dragões e cãezinhos de pelúcia eram as únicas amizades que conquistei, além de um único garoto do meu bairro. Algumas vezes eu recebia cuidados de uma vizinha próxima, e ela costumava levar seu filho para brincar comigo. Ele era um pouco esquisito, mas eu não podia desprezar o único amigo que eu recebera.

Em um dia fatídico das férias de verão, meus pais chegaram com uma gigantesca caixa esburacada. Recordo-me como se fosse recente, um pequeno filhote pulou de dentro dela. Eu devia ter uns 12 anos na época, então eles acharam que eu estava apto para ter minha própria companhia animal.

Pobre Ricky, seu rim foi atacado por um tumor, subitamente o retirando de sua existência com 13 anos de vida, mais de 1 ano atrás.

O delegado me arrancou de meu turbilhão de memórias reprimidas, estalando os dedos em frente aos meus olhos.

- Ei, garoto. - Chamou enquanto me encarava com a confusão estampada em sua expressão facial.

- Ah, me desculpe.

- Você precisa parar com esses devaneios. Espero que tenha bolado alguma teoria nesse tempo.

- Não, mas eu visitei a cena do crime e tirei algumas fotos. Eu vou pra casa avaliar o material que tenho em mãos. - Avisei e saí correndo de seu lado, indo até meu velho Palio e mergulhando a chave na entrada.

Eu verifiquei as plantas da minha janela antes de sentar à mesa para analisar. A terra já estava úmida, mesmo que eu não tivesse tido tempo para molhá-las hoje de manhã. Não me preocupei muito com isso, afinal, eu costumo ser um cara um pouco esquecido.

Abri a galeria do meu celular e passei as imagens para o meu antigo computador. As examinei com cuidado enquanto bebia uma xícara de chá morno. Como eu havia dito, realmente não gosto de café.

Eu quase caí no sono após horas. Por uma fração de segundo, pude ver um homem encapuzado em uma foto da cena do crime completa, mas este desapareceu após um piscar de olhos sonolentos. Eu realmente estava com muito sono, chá não me ajudava em absolutamente nada.

Levantei com as pernas bambas e caí sobre o sofá, sendo intempestivamente arrebatado pela sonolência.

Autora: Sofia NAQ

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