18/01/2020

Esquina

O horário que você coloca suas crianças na cama é o mesmo horário que vou trabalhar. Os primeiros raios de Sol que aparecem no horizonte indicam o momento de voltar para casa. Trabalho onde os cidadãos de bem não ousariam colocar o pé, exceto se viessem às escondidas. Sou julgada por muitos pelo meu emprego, porém eu gosto dele, contanto que ninguém saiba o que eu realmente faça.

Meu ponto preferido é uma esquina, debaixo de uma ponte. Alguns mendigos dormem por perto, mas eles não me incomodam, são apenas pessoas excluídas. A roupa curta se tornou chamativa, contudo, o salto alto me importuna em alguns casos. O frio é suportável e o som do vento é relaxante. Do outro lado rua, existem outras como eu, apenas conversando e buscando dinheiro.

Espera! Um carro branco e grande se aproxima, o motorista parece charmoso. No primeiro contato visual, ele parece um homem buscando diversão que não tem medo das consequências, ou seja, meramente um jovem. Suas roupas me dizem que ele possui muito dinheiro em sua conta bancária, logo, aceitei esse meu cliente de bom grado.

Após voltar para o meu ponto, percebi que o garoto foi uma boa distração, mas ainda não é o homem que eu procuro. De pé, durante uma hora inteira, o cansaço dominou o meu corpo – eu não posso fazer um trabalho eficaz quando estou exausta – sentei em um banco, perto dos moradores de rua e das outras mulheres. Foi neste momento que ele apareceu, o homem que eu esperava ansiosamente.

O carro preto, com vidros cobertos de insufilm estacionou ao meu lado. Levantei e sorri. O homem parecia ter cerca de trinta anos, logo, maturidade. Ele fez um sinal para que entrasse no veículo, parecia ser convidativo. Aceitei e fomos para um motel barato bem perto.

Este motel por sua vez, parecia esquecido, tinha um total de sete quartos, um ao lado do outro, mas apenas um cômodo estava com a luz acesa. Fomos para o último quarto do corredor, que tinha uma vista para rua. O local era imundo e tinha um odor que poucas pessoas poderiam reconhecer.

- Interessante, o que é tudo isso? – perguntei ao meu parceiro.

No mesmo instante, senti uma pancada extremamente forte em minha cabeça e simplesmente apaguei.

Meus olhos abriram-se devagar, a dor era parecida como um martelo no meu cérebro. Quando fui me levantar, descobri que minhas mãos e meus pés estavam amarrados em uma cadeira, eu estava completamente imóvel. Ao olhar para frente, observei o homem, sentado, com um pé de cabra na mão e seus olhos transbordavam ódio.

Voltei minha atenção para o que eu tinha achado de interessante. Havia recortes de jornais por todos os lados, sobre notícias de desaparecimentos de mendigos, ciganos e prostitutas. Armas e objetos cortantes eram visíveis. Entretanto, em uma cômoda perto da janela, encontrava-se uma foto de uma mulher, com traços idênticos aos meus.

O homem levantou-se furioso, jogou o pé de cabra na direção da janela e pegou uma faca enorme. Ele transpirava, seu rosto estava vermelho e suas mãos tremiam. De repente parou na minha frente, disse:

- Vocês destruíram a minha vida! Vocês são nojentos, imundos e se tornaram um erro na sociedade. A cidade deve ser um lugar preservado e limpo, mas vocês conseguem estragar tudo isso! Eu como pessoa ativa na comunidade, tenho o compromisso de eliminar cada um de vocês.

Eu sabia que tinha escolhido o cara certo – nunca cometi um erro – enquanto ele cuspia aquelas palavras repulsivas, tirei o canivete que estava no lado direito do meu shorts – foi difícil já que as minhas mãos estavam amarradas – como estava perto da cintura, consegui levar ele até a minha mão direita. Comecei a cortar a corda desesperadamente. Ele falava de costas, admirando os recortes colados na parede, típico de um narcisista.

Ao virar novamente, ele se deparou comigo, cortando a última corda que prendia o meu pé. Como um leão faminto, ele pulou e tentou me agarrar, entretanto caí para o lado e consegui me soltar. Fui correndo até pegar o pé de cabra, que ao me virar, atingi a cabeça dele. Seguindo minha intuição, eu o agredi inúmeras vezes, até que caísse morto na minha frente.

Imediatamente fui em direção dos jornais e arranquei todos da parede. Mesmo que ninguém se lembrasse daquelas pessoas, sinto que é o meu dever levar as manchetes para a delegacia. Vocês poderiam se impressionar com tantos homens que desejam fazer a varredura, eliminado os mais pobres, entretanto, estou aqui para impedi-los. Meu trabalho é varrer da sociedade quem faz a varredura.

Ao sair do motel, cansada, coloquei os papéis em uma bolsa que encontrei no quarto. Em seguida, voltei para a esquina que fica debaixo da ponte e entreguei a bolsa para um dos mendigos que me ajudava. Recuperei-me e fiquei ali parada, apenas esperando a minha próxima vítima.

Autora: Marina Teixeira

7 comentários:

  1. Curti bastante... Por um segundo pensei que ia cair naquele clichê de "a garota de programa ser um monstro canibal" XD Mas que bom que foi diferente, bem criativa!

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  2. Previsivel mas gostei, bem escrita. 7/10

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  3. Parabéns esta muito bom

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  4. Não sei onde viram algo previsível aí, pelo contrário, me surpreendeu. Achei que ela ia virar um monstro e devorar o cara, como já vi em tantas crrepys, mas não, a garota na verdade é tipo uma justiceira dos pobres. Gostei muito.

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  5. PRGDL02022

    Também achei interessante. Gostei.

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