Exploração

14 comentários
Vou contar o que aconteceu a mais ou menos 2 anos atrás comigo e meu amigo Andy.

Primeiramente, quero dizer que não estou aqui para ser julgado, acreditem, nesse tempo que passou e os traumas do que aconteceu, já são punição o suficiente.

Andy tinha 26 anos na época, sempre foi do tipo aventureiro, extrovertido, chamava a atenção por onde passava, eu, por outro lado sempre fui mais retraído e nem tão animado assim com aventuras. Talvez por isso dávamos tão certo.

Não sei dizer quando começou, mas meu amigo tinha descoberto uma nova paixão: Cavernas. E convenhamos que aqui no Arizona, isso não é problema. Basicamente o que Andy fazia era arrumar sua mochila e ir explorar cavernas, sejam elas conhecidas ou não.

Fui em algumas de suas explorações, mesmo confessando que não sou fã de lugares apertados. Já estiveram em alguma caverna antes? Por mais belas que sejam, a sensação de impotência por estar entre paredes de rochas maciça nunca me agradou muito, mas não para Andy, pelo contrário, adorava se esgueirar por buracos apertados e descobrir novas localidades.

Uma vez quando estava com ele, descobrimos uma enorme caverna, era gigantesca, eu nunca havia visto nada daquele tamanho, e por mais que não me sentisse confortável, eu conseguia entender o porquê de alguém gostar dessas explorações, na maioria das vezes a surpresa é de cair o queixo.

Na maioria das vezes.

Digo isso pois assim como lugares belos e magníficos, também encontramos lugares estranhos, paredes com pinturas mais antigas do que eu possa imaginar era um achado interessante, assim como já vimos algumas pilhas de ossos em interiores de cavernas. Normal se pensarmos que poderia ser algum predador ou algo do tipo, mas alguns lugares simplesmente não tem como predador algum chegar, então como aqueles ossos estavam lá eu não sei dizer, mas estavam.

Estou contando isso porque quero que entendam que eu era acostumado com essas descobertas e entrar em lugares não muito convidativos, principalmente quando se tinha Andy para te motivar, acreditem, ele era persuasivo, eu já não o questionava mais.

Certo dia ele veio até minha casa empolgado, estava com suas botas, shorts, uma camisa vermelha, trazia consigo sua mochila e o MP3 que sempre carregava, costumava ligá-lo ao máximo dentro das cavernas, o som amplificava de forma incrível, e eu já sabia o que Andy queria.

- John, se arruma, eu descobri um lugar e cara, você precisa ver

- Uh... Andy, são cinco da manhã

- E desde quando tem hora para ir ver algo incrível?

Não é difícil de supor que mesmo relutante, acabei topando. Subimos na minha velha pickup azul e fomos para onde seja lá que Andy queria me levar. Ele foi falando o caminho, após mais ou menos duas horas dirigindo para o que parecia ser o nada, chegamos em um local com algumas pedras, digamos que não havia nada demais nesse local, mas como já havia aprendido, a surpresa se encontra no subsolo; Chequei no meu GPS, estávamos a mais de sessenta quilômetros de qualquer civilização. Ótimo - pensei - era assim que queria passar meu sábado.

Conferi meu equipamento e entramos por um buraco de não mais um metro e meio de largura por sessenta centímetros de altura. Tivemos de rastejar, claro, não é muito agradável mas fazia parte da "diversão".

Ficamos nisso por mais ou menos quinze minutos, "vai valer a pena cara, confie em mim" dizia meu amigo, eu só pensava em que devia parar de ir em suas doidas aventuras. Após mais um tempo saímos em um local maior, pude enfim ficar de pé e esticar as costas. O local em qual saímos era uma câmara subterrânea fracamente iluminada, devia ter uns trinta metros de comprimento, vinte de largura e uns quatro metros de altura, não tinha nada de mais: rochas, estalactites e só.

- Não vejo nada aqui de tão empolgante, Andy

- Não se precipite, ainda não chegamos

No fim da câmara havia o que parecia duas entradas, uma a direita e outra à esquerda, não mediam muito mais do que o buraco pelo qual entramos, meu amigo foi na frente e entrou pelo da direita, perguntei se ele tinha ido pelo da esquerda e onde dava, ele falou que após uns oitocentos metros daria em uma câmara mais ou menos do tamanho desta em que acabamos de sair e havia uma única entrada que levava para saída, a uns quatro quilômetros de onde estava a minha pickup.

- Onde estamos indo tem saída? perguntei

- Não sei John, mas não se preocupe, nós voltamos por aqui e pegamos a outra entrada.

Seguimos mais alguns - ou muitos - metros pelo túnel até chegarmos em uma espécie de fenda. Algumas cavernas descem mais fundo do que se possa imaginar e descer com cordas setenta ou cem metros não é nenhuma surpresa, olhei para baixo daquele lugar e não conseguia ver o fim, era óbvio que era fundo. Descemos por mais ou menos oitenta metros, pegamos uma entrada, seguimos em frente alguns passos e chegamos.

Posso afirmar que nunca havia visto nada assim, era uma câmara oval, media aproximadamente cinquenta metros de comprimento por quarenta de largura, era muito alta, um único e fraco feixe de luz iluminava o lago subterrâneo de águas cristalinas, que refletia na parece rochosa, era um lugar único.

- É ou não é incrível?

- Devo admitir Andy, é surreal

- Eu te falei cara

Enquanto meu amigo foi dar um mergulho, aproveitei para olhar mais atentamente a caverna, antigas pinturas cobriam o lado posterior ao lago, elas retravam o que se vê nessas pinturas rupestres, homens caçando, famílias toscamente desenhadas, animais, lanças etc, eram pinturas bem rudimentares.

Mas algo não estava certo, algumas eram mais novas do que outras, como se tivessem sido pintadas a não muito tempo, andando mais para a lateral esquerda da câmara, notei uma abertura não muito maior que um metro de circunferência abaixo de uma rocha, não sei porque fiz isso, mas algo me dizia que eu devia entrar, eu entrei e com certeza não devia tê-lo feito.

Haviam ossos, pilhas e mais pilhas de ossos nesse lugar, isso me paralisou, não tem como esses ossos virem parar aqui, não tem como chegar aqui... e foi ai que percebi que seja lá o que for que tenha trazido esses ossos para cá, ainda estava por aqui, o que explicaria as pinturas recentes na parede.

Assustado, sai desse local gritando para meu amigo:

-Andy, vamos embora, AGORA

- O que foi cara?

- Vamos embora, não deveríamos estar aqui

- Qual é o seu problema, em?

- Não discute porra, vamos embora

Sem entender o porquê e relutante, ele aceitou e saímos, falei para ele se apressar, já não bastando tudo o que vi, ainda tinha uma sensação estranha que não deveria de modo algum estar ali.

Andy interrompeu meu pensamento.

- Que porra é essa cara? Qual seu problema?

- Andy, eu encontrei ossos nessa caverna, alguma coisa os trouxe e vive aqui, eu não estou afim de descobrir o que é

- E daí? Já vimos ossos antes e você não deu esse ataque

- De animais Andy, isso é diferente, não eram ossos de animais

- Você tem certeza?

- Eu não brincaria com isso, merda, vamos sair daqui logo

Saímos da caverna até chegar no local com a corda onde precisávamos escalar, fui na frente, Andy veio logo depois, subimos pouco menos da metade do caminho quando Andy escorregou e caiu, desci mais rápido que pude chamando seu nome, ele havia quebrado o braço, e era uma fratura exposta.

- Porra cara, o que aconteceu?

- Foi mal John, descuidei e caí

- E agora? Como vai subir essa merda?

- Não vou, você vai e pede ajuda

- Não, nem pensar, não vou deixar você aqui sozinho

- E vai fazer o que? Subir oitenta metros comigo nas suas costas?

- Não, Andy eu... Não posso deixar você aqui depois que que vi

- Ta tudo bem cara, não vai acontecer nada.

Falei para Andy se cuidar e subi o mais rápido que pude até chegar na câmara onde tinha o túnel da esquerda, como ele havia falado, ele deveria me levar a não muito longe da pickup, assim eu poderia chamar o resgate pelo rádio.

No entanto, ouvi um barulho logo atrás de mim, eram passos, fiquei surpreso achando que poderia ser mais alguém explorando a caverna e que pudesse nos ajudar, sendo assim gritei, mas não obtive resposta, decidi então começar a voltar do túnel, foi eu quando vi.

Era enorme, tinha fácil mais de dois metros de altura, andava agachado, seus braços eram anormalmente grandes, unhas sujas e amareladas saíam de seus dedos nodosos, ele parou e ficou em pé, pude ver suas costelas sob sua pele fina, sua coluna marcavam suas costas visivelmente, era sem dúvida muito magro, porém eu não duvidava que poderia me estraçalhar com um simples ataque. Ele veio em minha direção, agachou seu enorme e magro corpo, ficou olhando para mim a não mais que cinco metros de distância. Seja o que fosse, era cega, seus olhos eram de um branco enevoado, como se nunca havia visto nada mais que a fraca luz que entrava por entre as frestas da rochas, era uma criatura que vivia na escuridão, sem dúvidas. Sua cabeça era oval e não tinha nariz, era um único buraco que se movia lentamente sibilando com o som pesado de sua respiração, quatro dentes pontiagudos saiam por entre seus lábios, suas orelhas se moviam tentando captar algum som, parecia ser o único sentido daquela coisa.

Fiquei imóvel, não conseguia acreditar no que estava vendo, eu não sabia o que fazer, tranquei a respiração e só pude rezar, tudo estava silencioso, até que eu ouvi um toque muito baixo vindo de longe. Eu sabia o que era, Andy tinha ligado seu MP3. A criatura rapidamente se moveu para trás e foi em direção onde meu amigo estava.

Fiquei ali assustado com o que acabara de ver, acordei de meu transe e fui para fora dali o mais rápido que pude. Sai daquele inferno e corri para minha pickup, chamei quem quer que pudesse me ajudar pelo rádio. Três horas depois o resgate apareceu, contei o que havia acontecido, falei que meu amigo havia caído e quebrado o braço, falei o que vi, mas ninguém acreditou. Fizeram buscas no local, apesar de encontrarem os ossos na caverna e não saberem como explicar como estavam ali, preferiram dizer que se tratava de algum cemitério muito antigo.

Quanto a Andy, não acharam nenhum rastro, nenhuma pista, nada, chegaram a desconfiar que eu havia vindo mesmo com alguém.

Sei que muitos irão me chamar de covarde ou me julgar, mas a verdade e que eu não sabia o que fazer, eu devia ter de alguma forma tentado ajudar meu amigo, mas agora é tarde e todo dia fico remoendo o que aconteceu, me culpando por ter abandonado meu melhor amigo para ser devorado ou seja lá o que aquilo tenha feito com ele.

As pessoas envolvidas no resgate disseram que talvez eu tenha tido alguma crise de alucinação ou algo assim, mas eu sei o que vi, e vou carregar isso comigo para o resto da minha miserável vida.

Autor: C. E. Batista

14 comentários :

  1. Incrível, muito bem escrita e me levou a suspense interessante. 09/10

    ResponderExcluir
  2. MT boa. Me lembra os contos do Junji Ito

    ResponderExcluir
  3. meu deeeeeeus tô chocado 10/10, parabéns Gabriel, traga mais assim

    ResponderExcluir
  4. Obrigado pelo feedback pessoal, que bom que gostaram, vou tentar escrever mais alguma e enviar ao site.

    ResponderExcluir
  5. Muito,muito legal, criptozoologia deveria ser mais frequente nas creepypastas.

    ResponderExcluir
  6. O maluco n tinha o q fazer bem q ele avisou pro amigi q ia dar merda

    ResponderExcluir
  7. Eu sou leitor do blog desde 2011, praticamente cresci lendo os contos no creepypasta Brasil (aliás, nunca comentei aqui; Quase como um leitor fantasma) e o que mais me impressionou foi que apesar de nossa ultima ¨perda¨ (Divina se ausentando das traduções do Blog) tive o imenso prazer de entrar no blog e ver essa belíssima creepy postada por nosso querido Gabriel.
    Sei o quanto deve difícil administrar o blog tanto tempo sem ganhar nada em troca (monetariamente falando), mas saiba que vocês do CPBR sempre terão meu reconhecimento, amor e com certeza um lugarzinho especial em minhas memórias e em meu coração !
    Obrigado por fazerem esse trabalho magnífico durante todo esse tempo que vos acompanho e por não desistirem de trazer esse conteúdo que deixou e deixa meus dias mais felizes a tantos anos.

    ResponderExcluir