Você acredita em Deus?

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Recebi uma proposta da empresa onde eu trabalhava há uns anos atrás para me tornar o responsável pela nova unidade em uma cidade de Minas Gerais (não pretendo dizer o nome dessa cidade), mas para isso eu precisaria me mudar para lá. Aceitei a proposta sem pensar duas vezes, ora! Afinal, não há muita coisa a se perder em São Paulo quando se tem 25 anos e nenhuma proximidade com a família.

A cidade era bem pacata, tanto que como nascido e criado paulista, me surpreendi em poder sair tranquilamente de madrugada sem medo de ser assaltado e voltar a ver as crianças brincando na rua. Minha nova casa era pequena porém aconchegante aos meus olhos, e todo aquele clima fazia sentir-me de volta aos anos 90. Resumindo, tudo corria perfeitamente bem.
Após um dia cansativo de trabalho, um dos funcionários estava fazendo aniversário e todos resolveram comemorar em um bar da localidade. Me convidaram, e vendo como uma forma de conhece-los melhor, resolvi ir junto.

Era um lugar bem frequentado apenas pelos homens da cidade, ao que parecia, e tinha um cheiro característico de vômito e cachaça. A iluminação era quase inexistente e amarelada, mas os posteres de mulheres nuas por todos os cantos eram quase impossíveis de passarem despercebidos. Tomamos uns goles de vários tipos de bebidas e começamos a conversar sobre assuntos aleatórios. Carlos, o mais falante e o aniversariante também, se mostrava o mais disposto a se enturmar comigo. Não sou o tipo de pessoa que julga pela aparência mas o cara era realmente estranho. Era um homem baixo, sua coluna era completamente curvada e seu biotipo esquelético conseguia ressaltar todos os seus ossos, tanto a barba quanto o cabelo enormes e parecia que seu último banho tinha sido há anos atrás. Porém, o que mais me assustava eram seus olhos... Eram como se toda a maldade do mundo estivesse naqueles olhos semelhantes ao de serpente. A minha sorte era o enorme chapéu de palha que ele usava e me livrava muitas vezes de contato visual.
Ouvi piadinhas sobre eu ser o chefe e o mais novo entre todos eles, ouvi histórias sobre as esposas... Esse tipo de coisa que parecia indispensável para a ocasião. Até que o assunto se levou para religião.

— Então, patrão... O senhor acredita em Deus? –Carlos me perguntou enquanto os outros mudavam de assunto e não prestavam a atenção em nós.

— Não, mas respeito todas as religiões. –Eu respondi querendo encerrar logo a conversa. Não era meu assunto favorito e queria os olhos de Carlos longe de mim.

— Pois deveria acreditar.

Ele deu uma risada mínima debochada, pegou uma faca que todos estavam utilizando para abrir castanhas e naquele momento eu congelei. Aqueles olhos doentios estavam completamente focados em mim e não havia o mínimo de brilho, mesmo que ele olhasse para a luz. Eu podia jurar que ele estava me ameaçando só com aquilo. Me levantei em praticamente um pulo, disse para todos que tinha assuntos para resolver em casa e fui embora o mais rápido que pude. Nessa pressa toda, apenas em casa percebi ter esquecido minha jaqueta no bar.

Mas na hora não fazia mais diferença, pelo menos eu tinha saído dali. Fui tomar um banho gelado e me convencia que o acontecido tinha sido coisa da minha cabeça, quando escutei baterem na porta do banheiro. Batidas fortes e estrondosas, que conseguiam estremecer toda a porta.

Me troquei o mais rápido que pude e abri a porta em seguida, com o pensamento de "se for pra eu morrer agora não tem muito o que fazer, vou me defender com o que contra alguém armado?", mas para minha surpresa não tinha ninguém ali. Peguei uma faca na cozinha e olhei nos cômodos se não tinha ninguém mesmo, mas nem algum rastro havia. A porta principal estava trancada e as janelas intactas.

Já estava começando a duvidar da minha sanidade então fui logo dormir, coloquei a culpa na bebida e deixei a faca embaixo do travesseiro caso realmente houvesse algo. Eu tinha o hábito de dormir de barriga pra baixo mas como o sono não aparecia de jeito nenhum, resolvi me virar e ficar de frente para o teto. A visão que eu vi nunca vai sair da minha cabeça.

Um ser completamente escuro e gigantesco estava agarrado no teto com suas unhas pontiagudas me observando, e quando percebeu que eu o notei, retorceu o pescoço para me olhar nos olhos e deu um sorriso que rasgou todo seu rosto. Parecia gostar e se satisfazer de me mostrar aquelas centenas de dentes pontiagudos como os de tubarões. 

Eu não conseguia mover um músculo mesmo que tentasse com todas as minhas forças, nunca senti tanto medo em minha vida. A criatura rangia os dentes e se contorcia pelo teto, enquanto os ossos de sua coluna rasgavam aquela pele obscura e fazia pingar um líquido negro que cheirava a enxofre de seu interior.

Quando aquilo se desprendeu do teto e veio rastejando rapidamente em minha direção, pude sentir meu coração disparar ainda mais. Ela me observava quando de repente vomitou um parasita no chão, que agonizava e se contorcia. A criatura pegou em sua mão o parasita, que se parecia com uma larva com uma cabeça que suportava apenas sua boca enorme cheia de milhares de pequenos dentes.
Eu já não prestava mais atenção em muita coisa além de tentar sair dali, mas era inútil. Aquele enorme ser abriu meu estômago com sua unha enquanto eu só pude escutar o som da minha pele se rasgando e ver meus órgãos ficarem expostos. Tudo doía como se aquilo nunca tivesse fim, eu só desejava a morte.

A criatura colocou o parasita dentro dos meus órgãos e naquele momento eu acordei. Não pude acreditar que tudo aquilo foi um sonho, estava suando frio e a vontade de vomitar me consumia. Já tinha amanhecido e o Sol iluminava manchas de um líquido negro no chão.

Passou-se um tempo desde o ocorrido e meu mal-estar era constante, sempre sentia dores no estômago. Eu observava Carlos pelos corredores da empresa e só conseguia ver a criatura toda vez que ele passava, se contorcendo e as costas com ossos expostos.
Resolvi ir no médico fazer exames de rotina por conta das dores e depois de algumas semanas fui chamado para conversar. Já pressenti que algo não estava bem, no mínimo os exames detectaram algum problema no cérebro de tantos delírios que tive. Estava frente a frente com o médico e ele parecia inquieto.

— Você acredita em Deus? – Ele perguntou com uma expressão que eu descreveria como pena.

— Não. –Dessa vez eu estava convicto de minhas palavras, e se existisse algo de superior, isso só poderia ser do mal.

— ... Bem, se apegue em outras coisas, então. Tenho más notícias –Ele disse passando os dedos pelos papeis.

Câncer de estômago avançado. Era isso que ele queria me notificar e foi a única coisa na qual prestei atenção. Enquanto ele falava em quanto tempo eu poderia durar e métodos para tentar tratar, eu só conseguia pensar no que era aquela criatura. Meu cérebro me alertando sobre a doença? Delírios? Alguma coisa realmente ruim e sobrenatural?

Bem, ninguém poderia me dar respostas, no mínimo me chamariam de louco. Logo depois da consulta fui até a empresa mandar e-mails ao meu superior em São Paulo sobre o ocorrido, avisar sobre minha demissão por conta da doença. No dia seguinte ele veio se lamentar e nomear o próximo responsável pelo meu cargo.

Carlos foi nomeado depois de muita enrolação e todos fizeram praticamente uma festa, o jogando pra cima. Naquele momento apenas consegui ver o líquido negro pingando e sentir o cheiro de enxofre se tornar forte.

Autora: Lilith

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