26/02/2019

Aquele que mora no escuro

Michael Travis, de 12 anos, acordou as 3hs da Madrugada, com a luz do luar batendo em sua janela. Estava tendo vários pesadelos assustadores, quase reais, que ele nunca imaginaria que teria. Seu pensamento era chamar a sua irmã mais velha, Sally, mas ele acreditava que aquele que mora no escuro levaria Michael porque ele foi um garoto malcriado com a família recentemente e que ele poderia saber que Michael tem medo do escuro. Os valentões do seu colégio inventaram essa historia para Michael, para poder assustar ele, uma forma pratica e divertida de brincar com o psicológico de uma criança que gaguejava.

"Não olhe para ele, senão ele te levará para a escuridão e arrancara sua língua para que você não grite no escuro. Mas, você não se importaria né ? pelo menos, se ele arrancasse sua língua seu merda, você gaguejaria menos ! "

Michael sabia que não devia dar ouvidos a eles, mas por um instante, acreditou que se houvesse algo que te arrastasse para uma escuridão silenciosa e gelada, que fosse aqueles valentões os infelizes que seriam levados. So de pensar na ideia de algo assim pudesse existir, já o apavorava, e muito. A casa estava escura, uma escuridão negra e arrepiante, que fazia o corpo de Michael ficar gelado, as folhas e os galhos das arvores batiam em sua janela, e ele não conseguia ver nenhuma luz vinda de nenhum poste das ruas. Era uma escuridão sem estrelas.

Ele retirou o cobertor de suas pernas, se levantou da cama e foi em direção a porta do seu quarto, que dava acesso a seu corredor. Abriu lentamente a porta do quarto, a mesma fez um som rangedor desagradável. O corredor estava completamente imersivo na escuridão daquela noite, como se não existisse luz á muito tempo lá. Michael sentia um medo que ele nunca sentiu antes, puro terror apenas por estar na escuridão.

--Sssally, você esta ai ?-- disse Michael
Tentou abrir a porta do quarto de Sally, mas estava trancada. Então decidiu seguir o corredor escuro ate o quarto de seus pais, ate que se deparou com a porta do quarto deles, entreaberta, seguido de sons de algo quebrando e rasgando.. algo que provavelmente não deveria fazer isso. O que ele viu quando abriu a porta do quarto, fez uma onda de desespero e medo extremo tomar conta do garoto.

Seu pai estava sem a cabeça, com a coluna exposta, com o corpo debaixo de uma sombra de forma monstruosa e inexplicável , enquanto a coisa segurava a boca de sua mãe e arrancava a língua dela para fora do maxilar deslocado dela. Um som de rasgo estrudante rugia por todo o quarto, sangue fluía do Maxilar quebrado, principalmente na região aonde estava um buraco enorme aonde a língua ficava. Michael, diante da carnificina da sua frente, se paralisou de pavor, um medo gelado e sombrio percorreu a sua espinha, pensando que isso iria acontecer com ele também. Os quadros do quarto estavam embaçados, no lugar dos rostos da família, a apenas rostos distorcidos que riam diante da macabra cena. De seus rostos não saiam risadas, mas gritos de terror que pareciam risadas alegres e contentes.

Mmmamãe..... Papppai...

A criatura parou de se mexer em cima dos cadáveres mortos dos pais de Michael. Ele pegou a cabeça decepada do seu pai com as suas enormes garras em formatos de anzóis e cravou elas na testa do membro desmembrado. Cada vez que via aquilo mais o psicológico de Michael era destruído, e ele não acreditava que algo assim estava acontecendo
( Ele existe, ele existe... )

Como se estivesse imitando um ventríloquo, a criatura usou a cabeça do pai de Michael para falar com a voz dele, distorcida, mas era a voz dele;

-- Quer se juntar a nós Michael ? Vamos nos divertir muito no escuro, só dê a sua linguá jovem em troca e poderemos ficar juntos como uma família;

A criatura começou a se rastejar lentamente para perto de Michael, ainda com as garras cravadas na cabeça do seu pai. Michael sentiu seu coração apertar conforme a criatura de aparência indescritível se rastejava para perto dele. Michael decidiu fechar os olhos e correr para longe daquele quarto,em direção ao seu proprio. Ele corria pelo corredor de olhos fechados enuanto atras dele ovia algo subir e correr pelas paredes, apara alcançar ele de uma forma mais rapida. Chegando ao quarto, trancou a porta e sentiu um empurro forte nela, como se quissesse arrombar a porta.

Pela janela, Michael viu varias pessoas sem as línguas, olhando para ele com os olhos prateados, sem vida, gritando e sorrindo, felizes.. a porta continuava a ser empurrada e Michael decidiu se cobrir seu corpo com o cobertor ate que ouviu a porta de seu quarto ser jogada contra a parede, seguindo de logas risadas distorcidas que vinham do lado de fora da casa e da sua frente.

Michael decidiu retirar o cobertor ate a altura dos olhos para ver o que estava acontecendo. A criatura já estava em cima da mesma cama que ele, rosnando com seus dentes horrivelmente amarelos, com cheiro de carne podre e seus olhos prateados sem vida que brilhavam no escuro. Michael fechou seus olhos, e tentou cantarolar alguma canção de ninar na sua mente, rezando para que fosse um simples pesadelo, mas não conseguia.

A criatura com suas longas garras, arranca um pedaço da Traqueia de Michael. Sangue Fluía por onde havia um buraco feito a garras e com o osso exposto. O ser, conhecido como aquilo que mora no escuro pegou o pé de Michael, enquanto desaparecia as sombras no chão, levando o corpo do garoto para dentro do escuro.

Michael acorda, apavorado, sem entender, o que tinha acontecido, estava suando de desespero e horror, mas também com uma sensação tranquila no peito, pois era tudo um sonh...

O relógio bate, 3hs da Madrugada, com a luz do luar batendo na janela.

Autor: João Silva

29/01/2019

O Sr. Levi Lilkerd

O Sr. Levi Lilkerd a Ame
Uma mágica iria mostrar.
Mas primeiro, um favor
Ela teria que realizar

Era muito simples,
Nada demais ou demorado
Ame só teria que trocar o remédio da mamãe
Por uma bala com nome engraçado

O Sr. Levi Lilkerd além de mágico
Era bom com piadas
Essa bala chamada cianeto
Faria mamãe dar muitas risadas

O Sr. Levi Lilkerd entregou as balas à Ame
Que as levou para casa
Colocou no lugar dos remédios,
Que ela jogou na privada

Depois que a mamãe descobrisse,
Iria rir até morrer.
Foi o que o Sr. Levi Lilkerd disse,
E depois a mágica ele iria fazer

Mamãe chegou em casa,
Com muita dor de cabeça.
Foi tomar seus remédios,
Que estavam em cima da mesa

Quando os colocou na boca,
Fez uma cara meio estranha.
Parecia bem amargo,
Até revirava as entranhas

Ela olhou para Ame,
Com os olhos arregalados.
Depois caiu no chão,
Deita lá, teve alguns espasmos

Ame ficou assustada,
Mas o Sr. Lilkerd disse que estava tudo bem.
A boca da mamãe fazia espuma,
E ela tremia igual a um trem

Depois de um tempo,
Ela parou de se mexer.
Mas nunca deu um sorriso,
Como o Sr. Levi disse que iria acontecer

Ame ficou com medo,
Foi correndo para fugir.
Mas o Sr. Levi Lilkerd
A agarrou, e então começou a sorrir

Era um sorriso estranho,
Que ia de orelha a orelha,
Seus dentes ficaram afiados,
Cresceu até a sobrancelha

Ame começou a chorar,
E por sua vida implorar.
Sr. Levi Lilkerd disse que logo tudo iria acabar
E começou a gargalhar.

"Eu ainda não te mostrei o meu truque",
Disse o monstro horrendo.
"Não posso te deixar ir embora,
Sem antes mostrar meu truque estupendo"

"Agora preste atenção, no que irá acontecer"
A boca do Sr. Levi Lilkerd ficou tão grande
Que poderia por tudo dentro,
Ata um elefante.

Ame chorou e gritou,
Mas ninguém a ouviria.
Sr. Levi Lilkerd disse que ainda não acabou,
A levantou e lhe deu uma mordida.

Arrancou seu braço inteiro,
Como se fosse de brinquedo.
Ame olhou aterrorizada,
Enquanto ele mastigava e lambia os dedos.

Ame chorou e gritou,
Estava cheia de dor e pavor.
Seu antebraço jorrava sangue,
E o Sr. Levi Lilkerd apreciou

"Vou acabar com seu sofrimento,
Porque você foi uma boa garota,
Fez tudo o que seu amigo imaginário mandou,
E não derramará mais uma gota"

O Sr. Levi Lilkerd a olhou,
Por uma última vez.
Ame o xingou de idiota e feio,
E foi a última coisa que fez

O Sr. Levi Lilkerd ficou satisfeito,
E deu um longo arroto.
Saiu da casa de Ame,
Para procurar por um garoto

Ele estava pensando como faria agora,
Para sua fome saciar.
Talvez iria atrás de Bryan,
Um garoto que amava brincar

Essa foi a história de hoje,
Espero que possam apreciar.
Se quiser saber o que aconteceu com Bryan, eu te conto,
Mas precisa um favor para mim realizar...

Autor: João Alves

28/01/2019

12 Minutos

ATENÇÃO : ESSA SÉRIE/CREEPYPASTA É +18. CONTÉM CONTEÚDO ADULTO E/OU CHOCANTE. NÃO É RECOMENDADO PARA MENORES DE IDADE E PESSOAS SENSÍVEIS A ESSE TIPO DE LEITURA. LEIA COM RESPONSABILIDADE.


No outono de 1987,  uma estação de tv local chamada WSB-TV2, de Atlanta, Geórgia, tentava fechar a programação matinal de domingo, que tinha um horário em aberto.

Após algumas solicitações de donos de empresários locais, o canal decidiu permitir o Reverendo Marly Sachs usar a hora que estava vaga para fazer um programa religioso. O programa estreou no dia 18 de Outubro, com pouco alarde.

O show era um programa religioso comum e consistia no Reverendo sentado em uma cadeira simples, de frente para a câmera, lendo passagens da Bíblia e discutindo suas interpretações e significados para o mundo contemporâneo. O programa tinha um número consistente de espectadores e manteve-se no ar ainda no início de Dezembro. Foi aí que a estação começou a receber estranhas reclamações dos espectadores de "Palavras da Luz com o Reverendo Marly Sachs".

As ligações eram de mulheres (apenas de mulheres), que descreviam vagamente estranhas sensações que tinham em intervalos específicos durante o programa. Elas diziam sentir náuseas, dor nas costas, tonteira e visão embaçada. As reclamantes, sem razão aparente, estavam convencidas que o programa que estava causando esses sintomas nelas. Depois de três semanas de reclamações intensas, foi descoberto que essas "sensações" aconteciam, estritamente, em intervalos de 12 minutos durante a exibição do programa.

A equipe de manutenção do pequeno estúdio checou todos os equipamentos, tanto de áudio quanto de vídeo, e não acharam nada defeituoso. Quando o Reverendo foi notificado dos incidentes, ele apenas encolheu os ombros e disse, enigmaticamente: "Algumas pessoas não conseguem aguentar a voz de Deus..."O diretor do estúdio, falhando em conseguir explicar a causa das reclamações, resolveu manter o show no ar.

Por volta de Fevereiro, a audiência caiu drasticamente, então foi decidido cancelar o programa. A direção do estúdio decidiu que era mais prudente gastar mais tempo da programação cobrindo a notícia que os outros estúdios se dedicavam: a epidemia de abortos espontâneos. A epidemia tinha começado por volta de Novembro. O número de grávidas saudáveis que tiveram abortos espontâneos chegou a mais de trezentos. O Centro de Controle de Doenças não conseguia achar uma explicação para esse acontecimento bizarro.

O Reverendo tomou a notícia do cancelamento do show com o que só pode ser descrito como indiferença. Quando foi notificado, ele não protestou, apenas concordou com a cabeça, quase como se soubesse. Ele deixou o estúdio depois da filmagem do último episódio sem dizer nenhuma palavra e desapareceu da face da Terra. Ninguém ouviu falar dele de novo, nem mesmo membros da congregação da igreja. O estúdio seguiu em frente, preenchendo o vazio com comerciais e continuaram a se focar na notícia dos abortos espontâneos.

Um ano e meio depois, um estagiário da WSB descobriu as fitas de "Palavras da Luz" e começou a analisá-las, na esperança de achar algo para ajudar em uma reportagem que a estação estava fazendo sobre o impacto que a religião tinha na cidade. O Incidente de Atlanta (foi como a epidemia de abortos espontâneos ficou conhecido nos jornais médicos) foi diminuindo e acabou por volta de três meses depois do programa do Reverendo Sachs tinha sido cancelado e já começava a ser esquecido pela população. Analisando as fitas, o estagiário fez uma descoberta perturbadora nas fitas.

Enquanto tentava parar a exibição em 10 minutos e 14 segundos, ele sem querer emperrou o botão de avançar a fita. Enquanto a imagem passava na tv, ele conseguiu desemperrar o botão. Quando conseguiu parar a fita, a imagem congelou em 36 minutos e 1 segundo. O estagiário caiu da cadeira quando viu a imagem congelada na televisão: a imagem de uma cabeça decepada decomposta tomava toda a tela. Depois de se recompor, ele voltou a fita e passou para frente de novo, para ter certeza que a sua mente não estava lhe pregando peças. Ele começou a ver com mais atenção o resto do filme e reparou que a imagem aparecia em intervalos de 12 minutos, por apenas um segundo.

Achando que era uma brincadeira que estavam fazendo com o cara novo, ele levou a fita para outros técnicos, preparado para ser zoado. Entretanto, os técnicos estavam tão confusos quanto ele. Ninguém tinha encostado nas fitas depois do programa ter sido cancelado. Depois do estúdio fechar, à noite, ele convenceu a um dos técnicos para ajudá-lo a ver todas as fitas de "Palavras da Luz". Eles descobriram que em todos os episódios tinha a mesma anomalia bizarra.

Um dos frames preservados do programa
Eles também descobriram que, conforme o programa avançava, a imagem ficava mais repugnante, conforme os vermes comiam os pedaços de pele e os pedaços de cabelo e carne tinham caído da cabeça. O técnico deixou claro para o estagiário que isso era, de maneira técnica, impossível, já que o filme não tinha nenhum sinal de que havia sido cortado e editado. Ele mesmo tinha estado na filmagem de todos os programas e sabia que não tinha nenhum jeito dessas imagens terem sido colocadas no filme.





Tudo isso foi mostrado para o diretor do estúdio que, temendo uma retaliação por permitir que esse tipo de imagem tenha parado no ar, ordenou que todas as fitas fossem destruídas. Ele disse para o estagiário e para o técnico que não tinha nenhum interesse em saber quem tinha feito, só o que importava era "proteger os funcionários e a emissora". Ele ordenou que nada disso fosse dito para mais ninguém.

O técnico esqueceu de tudo rapidamente, tratando o incidente como apenas uma pegadinha escrota de alguém, mas o estagiário não conseguia deixar pra lá. Ele fez a maior quantidade de cópias que conseguiu, antes que os originais fossem destruídos, e levou para ver se conseguia encontrar algo que desse uma pista de quem fez isso e do porquê.

Uma semana depois, ele tentou convencer o técnico a ajudá-lo de novo, dizendo que ele tinha descoberto algo mais perturbador que as imagens em si: quando os frames das imagens eram colocados em sequência, a boca da cabeça parecia se mexer, como se tentasse formar palavras. O técnico, com medo de perder o trabalho, disse para ele se livrar das cópias e não falar mais naquilo.

Uma semana depois, a polícia respondeu um chamado de emergência feito por uma senhora que morava no subúrbio de Atlanta, já no fim da tarde. Ela tinha escutado sons horríveis vindo da casa do vizinho, onde morava um jovem casal. Ela disse para a atendente da linha de emergência que a mulher estava grávida e que ela estava com medo de que algo terrível tenha acontecido. Quando os policiais chegaram, vinte minutos depois da ligação, eles viram luzes pela janela e saindo da porta entreaberta. Eles entraram devagar e foram em direção à sala de estar.

Lá, eles encontraram uma jovem mulher morta, com o abdômen aberto. A ferida era irregular e dava início a uma trilha de sangue que levava até o sofá, do outro lado do cômodo. Ali, sentava-se o seu marido, o estagiário do estúdio, nu, com o cadáver de seu filho, ainda não totalmente formado, em seus pés, morrendo. Nas mãos ele tinha o pedaço de metal que ele tinha usado para estripar sua esposa grávida. A televisão estava ligada, passando em loop a filmagem silenciosa de uma cabeça decepada e decomposta que sibilava palavras inteligíveis.

A história na delegacia, no outro dia, era que o estagiário continuava dizendo, em voz baixa, enquanto o levavam embora: "A luz de Deus os chama..."

Fonte

Esse conto foi traduzido exclusivamente para o site Creepypasta Brasil. Se você vê-lo em outro site do gênero e sem créditos ou fonte, nos avise! Obrigada! Se gostou, comente, só assim saberemos se vocês estão gostando dos contos e/ou séries que estamos postando. A qualidade do nosso blog depende muito da sua opinião!

22/01/2019

Kaphyotos

Pretendo terminar essa carta antes que o veneno faça efeito no meu corpo. Custou a mim, tempo e dinheiro considerável, para que enfim eu finalmente conseguisse uma substância que me matasse sem dor, mas sem que eu precise causar náuseas para as enfermeiras que me acharem no meu quarto.

Na rua que nasci e passei minha infância, nos subúrbios de uma cidadezinha do Arkansas, havia um velho senhor que dizia ter lutado na primeira grande guerra, e dizia que nela perdeu tudo o que já amou; Sua mulher, seu futuro filho, e metade de sua perna. Por isso ele dizia odiar todos os alemães e seus "falsos deuses". Quando questionado sobre quem seriam os falsos deuses, ele dizia que eram os frutos do acasalamento entre morte e loucura, seus nomes já eram suficientes para levar o mais corajoso dos homens à insanidade.

Poucos anos mais tarde o velho morreu em sua cama, e alguns anos a mais fui forçado a abandonar meu lar e me sujeitar ao serviço militar. Não estávamos em tempos de guerra ou crise, porém após a derrota fascista, todos os salários subiram, e uma carreira no exército era simplesmente a mais fácil. Ou ao menos aparentava ser.

Nos primeiros meses, após uma discussão com um superior, que se certificou de infernizar a minha vida depois disso, eu fui me tornar limpa-convés no barco de uma companhia que, em troca de ter disponibilizado barcos durante a guerra, recebeu soldados como funcionários. Durante os primeiros dias, tudo ocorreu relativamente bem, senão fosse pelos enjoos e náuseas constantes de meia tripulação que nem sequer havia visto o mar, onde eu estava incluído.

Diferente do meu serviço em terra, no barco virei amigo do capitão. Ambos havíamos sidos desprezados pelo general que me colocou naquele barco, e eramos os únicos dois em todo o barco torciam para a mesma seleção futebolista, logo, nos tornamos bom companheiros. Até que após uma forte tempestade, que havia nos tirado algumas poucas milhas para longe da rota que seguíamos, avistamos um velho pesqueiro alemão, que parecia estar abandonado a pelo menos uma década.

O capitão de nossa embarcação, deduziu que pela localização do barco, assim como aparentava não ter ninguém a bordo, se tratava de um barco-espião, e que a tripulação já devia ter sido capturada ou morta a um bom tempo. Ele então pediu que metade dos guardas do barco fossem até o pesqueiro, posição que, coincidentemente, eu havia sido promovido alguns dias antes. Então eu e mais dois homens fomos até o barco alemão, armados com velhos fuzis militares.

Ao chegarmos na embarcação, a primeira coisa que notamos foi o forte cheiro de sangue e enxofre que parecia vir da sala de máquinas. Fora isso, o barco estava limpo de forma surreal. Se não fosse por termos reconhecido que era um modelo antigo, seria impossível dizer que o barco tinha mais que 10 anos, cada peça de metal brilhava como se tivesse sido feita da prata mais polida do mundo.

Tiramos na moeda para selecionar quem iria descer para descobrir a causa do mal cheiro. Obviamente, com o azar que tive durante minha vida toda, eu fui o escolhido pelo destino; Destravei a arma, e desci até a parte debaixo da embarcação, atento a cada som que eu escutasse. Naquele momento notei outra coisa, era impossível escutar o barulho de fora, ou sentir o balanço do mar; De certa forma, era como se eu estivesse parado no tempo. Ao finalmente chegar na sala de máquinas, tive uma visão que não posso descrever em palavras. Era como se todos os membros da população tivessem sido quebrados, retorcidos e esmagados, e enfim empilhados em um cubo de carne, sangue e ossos quase que perfeito.

No centro da sala, onde deveria estar um motor, havia somente uma placa de pedra coberta de algas e inscrições em letras que jamais tinha visto antes. Ao tentar ler os símbolos, uma sensação de náuseas e vertigem tomou conta de mim, como se meu cérebro estivesse sendo sugado por um canudo em minha testa. Alguns segundos depois retomei os sentidos, e tentei analisar a sala. Na parede, pintado com o que parecia ser sangue e fezes, estava uma palavra em letras normais, escrito de uma forma que as últimas letras pareciam ter sido feitas por alguém ou se contorcendo, ou em loucura.

"Kaphyotos"

Uma dor agoniante tomou conta de mim quando li. Ao me virar para a saída, vi um ser asqueroso, tinha o corpo de um lagarto, porém humanoide, e no lugar da cabeça, havia apenas uma massa negra, feita de olhos, tentáculos e bocas. O cheiro da criatura me atingiu em segundos, era uma mistura de enxofre e carniça tão forte, que me fez perder a consciência em poucos segundos. A última coisa que vi foi os tentáculos da criatura se moverem em minha direção.

Acordei, segundo o capitão, três dias depois na enfermaria do meu barco. Meus companheiros, segundo ele, impacientes com minha demora, foram para a sala de máquinas e me encontraram inconsciente em uma poça de fezes e sangue. Após verem o bolo de corpos, me tiraram de lá, e logo depois, afundaram a velha embarcação com algumas bananas de dinamite, como fora ordenado pelo exército americano.

Quando questionei sobre a placa e as inscrições na parede, eles afirmaram não ter visto nada. Acreditei de princípio, até que um dos que me resgataram tirou a própria vida colocando a cabeça em um moedor de carne. As memórias da palavra e da criatura que vi naquele dia continuaram me causar pesadelos durante toda minha vida. Sinto que aquela criatura pretende em algum momento vir me buscar, e confesso ter medo do que ela poderia fazer para mim.

Por isso eu peço que entendam minha decisão de tirar minha própria vida. Poucos segundos atrás escutei sons do lado de fora, e um forte cheiro de sangue e enxofre tomou o quarto por completo.

Sei que ele está aqui.

E nada vai o impedir.

Autor: M. Medeiros

15/01/2019

Reunião Familiar

Caiu finalmente a tempestade que tanto ameaçou a cidade naquelas horas plúmbeas precedente ao o ocaso.

A chuva era torrencial e com ela precipitavam-se os mais vorazes trovões e relâmpagos. Alguns dos últimos atingiam o solo assustando perversamente as testemunhas, para depois surdá-las com o ribombar do estrondo que os seguia.

Naquela noite ninguém dormiu direito. Quase toda a cidade passou em claro seu período de descanso. Uns simplesmente estavam horrorizados demais pela violência da tempestade, outros corriam freneticamente no interior de suas casas arrastando móveis e trocando bacias cheias pela água das goteiras.

Mariza fora uma das que não pregaram as pestanas por medo. Passara a noite em alerta sobressaltando-se a cada novo estalido ou trovão. Temia mortalmente as tempestades. Sobremaneira as noturnas.

Quando criança perdera ambos os pais e uma sua irmã para as águas revoltosas do rio que inundara sua casa devido ao aumento absurdo de seu volume promovido pelas águas da chuva.

A moça morava sozinha e sua casa era muito antiga. Sempre que a noite caía, ela pensava ouvir coisas ou mesmo perceber vultos furtivos com o canto dos olhos. As ripas do assoalho as vezes rangiam no escuro deixando os nervos da jovem em frangalhos.

Nesta noite em especial, Mariza havia acendido todas as lâmpadas da casa, pois temia o escuro pouco menos que as tempestades. Tinha aceso também algumas velas, como precaução para o caso de a energia faltar.

Como estivesse em claro por horas a fio e a tempestade fosse de uma força sobrenatural, mantinha-se num estado de excitação nervosa que se protraíra desde alguns minutos após o inicio da torrente chuvosa até aquela hora da madrugada em que a energia, como esperado, finalmente acabou.

Mariza levantou-se da cama imediatamente e correu em direção à vela que se desmanchava por sobre sua penteadeira. A luz fraca da chama refletia-se bruxuleante no espelho oval em que ela se maquiava antes de ir trabalhar.

Assim que alcançou a vela um raio parecido com uma ramificação vegetal atravessou o céu noturno iluminando o aposento silencioso violentamente.

Mariza estancou aterrorizada com a vela por entre os dedos: jurava ter visto refletida no espelho uma forma encarquilhada esgueirar-se pela fresta da porta entreaberta indo desaparecer num canto escuro do quarto.

Seu olho esquerdo piscou involuntariamente algumas vezes de nervoso.

A moça, mais que depressa, saltou agilmente sobre sua cama e direcionou a luz amarela da vela para o tal canto do aposento. E foi com grande surpresa e terror que viu sentada em sua cadeira de balanço uma velha senhora enrugada e macilenta de olhos cavos, profundos e cabeleira revoltosa surgida sabe-se lá de que pesadelo. A velha tamborilava seus dedos aduncos e descarnados nos braços da cadeira como se estivesse tão nervosa quanto a petrificada Mariza exibindo uma terrível careta de desaprovação para a tempestade lá fora.

Ante a visão aterradora da senhora surgida da escuridão, a vela titubeou por entre os dedos da jovem, indo cair macia nos lençóis amarrotados da cama. E nisso apagou-se no mesmo instante, deixando no lugar de sua claridade amarelada a escuridão uniforme.

Adjacente ao quarto em que se encontrava o par inusitado de mulheres havia um pequeno banheiro privativo do cômodo, ao qual se tinha acesso por meio de uma tímida porta na extremidade oposta a em que se encontrava a velha surgida das trevas da noite. Foi pra lá que a moça atirou-se desesperada de terror apertando-se portal adentro desajeitadamente.

O banheiro estava úmido por causa das goteiras e a chuva lançava-se furiosa contra o vitrô entreaberto do cubículo.

Mariza instantaneamente bateu a porta de ripas carcomidas abafando um grito com as mãos trêmulas. Não sabia o que fazer. De onde saíra o demônio que estava sentado em seu quarto?

Instintivamente a moça recuou assustada até encostar-se no canto de uma parede gelada de onde via o vitrô exíguo e a portinhola do banheiro. Um outro relâmpago ofuscante brilhou em meio à tempestade e ela divisou uma sombra negra que estivera em pé na frente da pequena janela pelo lado de dentro do cômodo.

Suas pernas fraquejaram e a pobre mulher soltou um grito de terror escorregando no chão molhado e caindo pesadamente no azulejo frio.

Tentou se levantar, mas o desespero e a umidade no chão impediram-na de lograr êxito.

A forma sombria pareceu caminhar em sua direção. Mariza debatia-se e gritava horrorizada. Seus pés escorregavam no piso molhado do banheiro. E a figura, que agora estava entre a mulher e a pequena porta, aproximava-se inexoravelmente, Outro relâmpago clareou o retângulo azulejado de modo a fazer com que a moça percebesse o corpanzil volumoso de um homem lívido com feições deformadas angulares e cavidades vazias onde deveriam estar seus olhos aproximando-se dela. A tempestade recrudesceu. A portinhola do banheiro soltou um rangido lúgubre e demorado digno dos mais medonhos pesadelos de horror e a velha adentrou o recinto com andar arrastado e rígido.Marisa, ofegante, não conseguia levantar-se e o som da tempestade abafava seus protestos de pavor. Um trovão ensurdecedor ecoou por entre as paredes apertadas do cubículo quando a tétrica mão do ser abissal atingiu a face gélida da mulher terrificada. Uma risada tenebrosamente familiar seguiu-se ao toque do ente macabro juntamente com a voz esganiçada da velha caliginosa.

Marisa, no paroxismo de seu desespero inexplicável, petrificou-se apavorada com o toque glacial do espectro. E nessa hora uma descarga elétrica partiu o céu, dessa vez imediatamente seguida do brado encolerizado da trovoada.

E foi assim que ela acordou encharcada do próprio suor e quase enforcada pela fronha que arrancara do travesseiro enquanto se debatia presa pelos horrores do mais hediondo pesadelo que jamais tivera.

Levantou-se bruscamente e com olhos arregalados de espanto perscrutou o quarto envolto na penumbra sem nada avistar de estranho. Passando alguns instantes presa nessa contemplação fatídica, a mulher finalmente deixou que sua cabeça pendesse abruptamente soltando um suspiro de alívio por perceber que tudo não passara de um sonho mal. Lá fora a chuva caía pesada sobre a cidade.

Contudo, enquanto ainda tentava se acalmar olhando pensativa para as mãos trêmulas notou uma pequena marca arredondada de bordas enegrecidas no forro da cama que lembrava muito bem uma queimadura no tecido. Lembrou-se então da vela que caíra no sonho apagando-se imediatamente. Curiosa, a moça futucou a queimadura com o indicador tremulante.

Ela ainda estava introvertida na averiguação do orifício queimado no lençol quando ouviu um som bastante peculiar e característico vindo de um canto do seu quarto. Aterrorizada com o pesadelo recente imediatamente olhou em direção à cadeira de balanço feita de vime na qual costumava repousar quando se perdia por entre os parágrafos de um livro qualquer.

A cadeira, que ficava exatamente no mesmo lugar em que estivera sentada a bruxa velha do pesadelo, movia-se lentamente fazendo o assoalho de madeira ranger, como se houvesse alguém a se embalar tranqüilo, apesar de estar completamente vazia.

A moça, de um salto, acendeu o abajur que ficava no criado-mudo ao lado de sua cama e firmou o olhar embaçado: a cadeira continuava a mover-se lentamente.

Nesse instante, vindo do banheiro que tinha sua porta fechada, um chilro sussurrado de vozes misturadas invadiu o quarto, fazendo zunir a cabeça da jovem.

Possuída pelo horror, Marisa tateou o rosto no local onde fora tocada pelo monstro do pesadelo arrepiando-se ao sentir uma chaga indelével em sua face esquerda.

Com o sussurro sobrenatural intermitente, deslocou-se até a porta do banheiro e lentamente forçou-a para dentro, fazendo com que se abrisse num ranger pavoroso.

A cena era horrível!

Dentro do cômodo retangular jazia afogada na latrina com os membros rijos e azulados uma jovem nua de cabelos negros parecidíssima com a irmã que Mariza perdera tantos anos atrás na enchente que arrasara sua família. A anciã diabólica e o homem corpulento de pele lívida e feições deformadas estavam também caídos em decúbito dorsal com os olhos esbranquiçados vidrados no teto. De suas bocas escorria uma repugnante água amarronzada típica das correntes fluviais lamacentas. O líquido espalhava-se por toda a área do banheiro em que se prostravam os três defuntos.

Eram os cadáveres de seus parentes que voltaram do outro mundo trazidos pela inundação do temporal molesto em busca do aconchego familiar perdido para as águas da tempestade maldita que anos atrás assolara o recôndito de seu lar.

Autor: Rodrigo Bispo

08/01/2019

O Veio de Prata

– Hoje posso dizer que já nem me lembro muito bem do que se passou naquela tarde de travessia pelo maldito lago. Aquilo foi há muito tempo e os fiapos de memória custam a se entrelaçarem em minha mente.

– O fato é que foi tudo muito estranho, sobretudo triste. Quantas vidas perdidas!

“Passavam das dez horas da noite quando o estranho homem de cabelos dourados como a palha do celeiro chegou ao mosteiro. Era o jovem ajudante do comissário de polícia, Alfredo. O homem, visivelmente alterado, trazia notícias não muito animadoras. Seu cavalo espumava de cansaço.

Ao que tudo indicava, um fazendeiro havia afogado toda a sua família na correnteza do riacho que borbulhava farfalhante ao pé da pequena colina onde no cume jazia sua casa. Aparentemente o assassino teria perdido a sanidade durante uma caçada em que havia se afastado demais de casa. Voltara maluco da viagem e como estivesse possuído por entidades maléficas, num acesso de inexplicável ira violenta, afogou sua esposa e dois casais de filhos, tratando de esquivar-se do peso da tragédia por atravessar os próprios miolos com uma bala de sua carabina momentos após o ocorrido.

A essa época a imagem dos vilões – como eram conhecidos os aldeões de hoje em dia – não era lá muito boa por essas bandas da cidade. E sempre que eles se envolviam em acontecimentos bizarros como o narrado pelo esbaforido Alfredo, nós do Prelado de Santo Tito éramos convidados para que, por livre e espontânea pressão, fôssemos até o local bendizê-lo e afastar as ‘malignidades’ restadas dos atos de vilania.

A verdade era que a agência de polícia inteira simplesmente paralisava-se de medo ante a mais ínfima menção a todo e qualquer fato que fosse de sua competência e tivesse sido levado a cabo naquelas regiões longínquas dos campos.

Acalmei o tal Alfredo e lhe disse que sairíamos na manhã seguinte para que não se protelassem os desígnios da tão opulenta justiça local.

Assim que o homem foi embora mandei acordar todos no mosteiro. Teríamos um dia cansativo amanhã e não queria membro algum do séquito atrasando os demais quando começasse a jornada.

Tratei de arrumar tudo antes que a madrugada caísse serena sobre o teto de palha do templo.

No plúmbeo amanhecer seguinte lá estávamos nós: dois Anciãos, eu e mais um, quatro Meados – como são chamados os ajudantes eclesiásticos daqueles –, seis guardas monges e treze Pedantes.

As Pedantes eram mulheres ditas puras por terem devotado, senão toda, pelo menos a grande maioria de suas vidas aos mistérios do antigo Culto de Tito. Essas verdadeiras andarilhas podiam caminhar por horas a fio simplesmente recitando versos litúrgicos sagrados. O que, segundo os Ensinamentos Altos, afastava o mal de qualquer espécie. Os homens do séquito que se dirigiam para os locais a serem abençoados fazendo sua guarda iam sempre a cavalo, por razões óbvias, contudo, essas mulheres iluminadas, segundo os costumes de seu credo, somente se deslocavam quando em serviço sacro a pé. E daí o nome de sua Ordem: as Pedantes de Tito.

Bem, o que interessa é que essa chusma de vinte e cinco pessoas estava pronta e preparada para a longa e infausta viagem a tal fazenda da morte.

Partimos às seis da manhã seguinte à visita estrepitosa de Alfredo. Fazia um frio tremendo e tiritávamos enquanto atravessávamos as longas planícies que perfaziam a região.

O ramerrão das Pedantes era monótono e cadenciado, de modo que marchávamos naquele compasso rígido e lúgubre.

Ao nascer do segundo dia de caminhada nos encontramos com um exíguo veio de águas prateadas que corria apertado por entre suas margens escarpadas vindo de uma cadeia de montanhas a oeste. O pequeno córrego deslizava com agilidade e profusão através de seu leito. Imaginamos logo que aquele seria o início do tal riacho onde a família pretérita fora dizimada pela asfixia e nos felicitamos com a esperança de estarmos cada vez mais perto de nosso destino.

Resolvemos então seguir o curso do riacho e nos encontramos ao cair da tarde com uma densa mata de árvores revoltas e cheias de vida. A floresta estendia-se ao sul até onde nossas vistas avermelhadas de cansaço alcançavam.

Preferimos estancar a caminhada na entrada dessa mata e aproveitar a luz solene do ocaso de maneira a facilitar nosso começo de noite na orla do denso florestal.

Passamos uma noite rápida e mais quente que de costume devido à massa verde que guardava de maneira bastante eficaz o calor do astro rei para alimentar as vidas que a compunha.

Por volta das duas da tarde daquele fatídico dia o nosso guia aquoso havia se transformado num caudaloso riacho que se alargara quase instantaneamente tomando toda a extensão do terreno a frente.

Aquilo atrapalhava tudo.

Não havia sequer indício longínquo de que existisse por ali fazenda alguma. Logo, teríamos de dar a volta para alcançar a planície dourada pelas plantações de trigo do outro lado da agora gigantesca massa d’água.

Dei ordem para que prosseguissem e as Pedantes, mecanicamente, sem nem ao menos modificarem o tom de sua antífona, puseram-se a chapinhar nas terras inundadas em torno da lagoa. Aquelas mulheres eram mesmo disciplinadas.

Caminhamos sob o sol escaldante e o mormaço infestado de mosquitos daquele brejo. Nossas sandálias afundavam na lama ribeirinha e acabamos por nos cansar como se estivéssemos a caminhar nas areias do Saara e tanto mais depressa.

Instei a comitiva a parar para matar a sede nas águas cristalinas do riacho e banhar suas faces no líquido fresco de modo a reavivar as forças exauridas pela caminhada extenuante.

Os guardas, que estiveram todo o percurso a cavalo contentaram-se em apenas completarem suas botas d’água. As Pedantes por seu turno ajoelharam-se na terra fofa e alagada e levavam as mãos à água lavando os rostos vermelhos do sol e

matando sua sede. Bebemos todos e nos refizemos um pouco com a frescura da água boa do lago.

O problema é que não tardamos a nos arrepender do tal ato.

Por motivo a nós não revelado, parecia que aquelas águas tão belas e doces tinham-nos envenenado. Minutos após termos retomado a caminhada e enquanto ainda recitava suas preces infinitas uma das Pedantes simplesmente despencou por sobre suas companheiras que em sua frente seguiam.

Ao ver que uma delas havia tombado as outras preladas automaticamente interromperam sua ária sorumbática e voltaram-se todas no mesmo instante para a mulher togada que fremia e virava as vistas espojando na lama como que possuída por mil demônios.

As mulheres agiram tão rapidamente quanto os monges que nos faziam a guarda e num intervalo curtíssimo de tempo a moribunda estava sendo retirada da lama por um punhado de mãos caridosas que lhe dominavam o estertor doentio.

Colocamos a mulher, que agora desfalecera completamente, deitada sob a sombra de uma árvore a certa distância da margem do lago que acompanhávamos. Ocorre que segundos após termos aninhado a Pedante desacordada sob a umbrela do arvoredo, uma outra freira arremessou-se contra o chão coberto de palha vomitando e gemendo de forma terrível. Seus olhos viravam diabolicamente nas órbitas. A ela seguiu-se outra e mais outra, até que em instantes toda a nossa caravana rugia e embolava-se por entre as folhas como um bando de cachorros que rolassem na carniça. Só eu permanecia senhor de mim.

Imediatamente juntei as mãos crispadas tocando o nariz com a ponta dos dedos médios e submergi meu desespero em orações. No vale verdejante e vívido a luz oblíqua do sol poente esvaía-se em raios tépidos e rutilantes. Enquanto que nas sombras daquelas árvores éramos obliterados um a um por aquela força estranha.

De repente senti que me fora arrebatada a capacidade respiratória. Minhas veias incendiaram-se e meus nervos se retesaram completamente. Minha coluna hirta infeccionou-se de imediato e caí sob o arroubo da morte evidente que me convulsionava os movimentos de forma involuntária.

Sofri os rigores destes sintomas por alguns minutos e então finalmente libertei-me das garras da dor e estanquei retorcido e morto sob a sombra dos galhos que ocultavam o céu escarlate.

Até aí as coisas correram dentro de seus limites naturais. Fomos envenenados por alguma substancia oculta na água do lago maldito e em virtude disso falecemos todos. Temos uma situação triste e incomum, mas natural.

O estranho mesmo foi quando abri de repente os olhos sob o luar amarelado que se erguia refletido nas águas turvas e imóveis do lago.

Divaguei por uns momentos com a mente dormente e os pensamentos convulsionados. Um inseto que caminhava em meu rosto atravessou-me a face esquerda causando um formigamento estranho enquanto andava. A sensação me despertou imediatamente.

Joguei o animal pra longe com um gesto rápido e me levantei com dificuldade. Apoiei-me no tronco da árvore sob a qual jazi não sei por quanto tempo. Uma coruja piava.

Olhei em volta desnorteado e pensei divisar ao longe uma das Pedantes caminhando tropegamente a alguns metros de mim por entre a folhagem agreste.

Chamei-a mas minha voz não saiu. Então, como se imitasse a figura titubeante que caminhava tesa em minha frente, dirigi-me com dificuldade na direção dela. Porém, antes que alcançasse a silhueta trôpega, tropecei em algo e me projetei para frente com tal impulso que espatifei-me fragorosamente na camada seca de folhas que cobria o chão úmido.

Com o tombo percebi que estivera até então surdo, pois mina audição voltara. E com ela o alarido da estranha canção diabólica que ecoava por entre troncos sombrios e lembrava nitidamente as preces outrora entoadas pelas Pedantes durante a viagem.

Saltei de lado ao reconhecer o rosto deteriorado de uma Pedante que, caída meio apoiada numa árvore, me fitava com olhos vítreos de boneca. A pobre mulher

estava apoiada no tronco pela base do pescoço torcido em contato com a madeira escura. Sua boca, retesada num movimento obsceno, jazia escancarada e ressequida.

Reconhecendo com dificuldade a fisionomia da irmã deformada, chamei por seu nome e estendi a mão trêmula na tentativa de tocar-lhe as faces acinzentadas. Ao que o cadáver – se posso chamá-lo assim – rigidamente moveu o escalavrado maxilar que escorria a secreção dos vários ferimentos ostentados e num urro grotesco e abissal aparentemente respondeu com voz soturna ao chamado.

Recolhi imediatamente a mão estendida e me afastei daquela figura hedionda instintivamente. Foi quando senti meus dedos tocarem algo úmido e esponjoso. Recuei aterrorizado e percebi que tinha enfiado a mão na goela esfacelada de um dos Meados que seguira comigo desde aquela manhã gelada em que partimos do mosteiro. O homem estava caído de bruços com o pescoço retorcido, de modo que sua cabeça jazia virada ao contrário, tendo pela frente o que antes foram suas costas. Sua cabeça e garganta estavam dilaceradas e sangrentas, mas seus olhos moviam-se sem parar nas órbitas, como se procurassem incessantemente por algo perdido no ar.

Levantei transido de horror e disparei em direção às águas escuras do lago que refletiam serenamente o luar doentio sobre o vale infausto.

Corri noite adentro enlouquecido pelo terror das diabólicas cenas e perseguido pelo odioso hino mortuário que ressoava intermitente. Não sei de onde parti e nem onde havia chegado quando desmaiei de exaustão.

Sei contudo que acordei dias depois no quarto de uma ermida que ficava na encosta da montanha de onde descia o modesto córrego anteriormente citado. O abade disse que me havia encontrado dias antes meio-morto delirante e balbuciando frases desconexas caído por entre os arbusto que crescem nos arredores do poço que guarnece a abadia na encosta.

Contei a ele minha desfortuna. O homem riu-se da história e me deu um livro de orações e um rosário, além de me aconselhar repouso e reflexão. Acatei os conselhos do anacoreta e caminhava pelo pomar artificial que crescia na encosta durante o dia todo orando como uma Pedante. Fazia isso todos os dias. Mas naqueles

tempos estava completamente louco e achava que tinha mais de uma sombra quando saía à luz do sol ou mais de um reflexo quando me olhava no espelho.

Além disso, durante as noites em que a lua era cheia, ouvia a perversa ária distorcida das Pedantes ecoando nos corredores da ermida vinda das trevas externas ao meu quarto. Tinha suores noturnos e ouvia coisas. Algumas vezes cheguei mesmo a ver imagens trôpegas a caminhar no pátio da capela com seus movimentos rígidos dignos da monstruosidade que avistei naquele dia fatídico há meses passado.

Certa manhã porém, enquanto caminhava pelo pomar recitando minhas orações, divisei uma criatura furtiva que se movia por entre as árvores com movimentos mecanizados como os de um pássaro. Uma não, duas.

Meu coração disparou no peito e me escondi atrás de uma árvore próxima. O que significava aquilo? Será que uma daquelas bestas havia encontrado o baluarte da ermida e me seguira pelas veredas do pomar?

Esperei que as aberrações se aproximassem, e quando isso aconteceu, gadanhei um toco seco que estivera caído ao meu lado e avancei no momento em que passavam com seus movimentos demoníacos ao meu lado. Na fúria cega do horror desferi dezenas de golpes até que seus corpos inertes estivessem completamente destroçados. E ai, como ainda me reprovo por tal feito!

Quando dei por mim e larguei do porrete com que esmagara o crânio dos malditos demônios, percebi que eles não eram ninguém menos do que o abade da igrejinha e seu Meado que caminhavam tranquilamente por entre o arvoredo. Dominado pelo desespero e tomado de um arrependimento monstruoso pelo que havia feito, caminhei friamente em minha loucura até o poço onde outrora fui encontrado e sem cerimônias me atirei buraco abaixo.

Isto aconteceu um dia e meio antes da chegada dos agentes de polícia que vieram inspecionar os chamados recebidos em face das lamentações noturnas de que se queixavam moradores das fazendas próximas ao tal riacho onde houvera fenecido toda a minha comitiva.

Como o poço em que me jogara não continha água suficiente para que me afogasse, simplesmente dilacerei-me por completo, quebrei uma perna e um braço e

fiquei como morto naquela água gélida pela totalidade das horas que se seguiram até que a polícia chegasse.

Fui resgatado pelos homens do comissário que me trouxeram de volta para a cidade. E percebendo minha total ausência de razão, internaram-me naquele maldito hospício doentio, morbidamente perplexo e lânguido.

Demorei a me recuperar dos ferimentos que sofrera por causa da queda no poço. E minha mente jamais foi a mesma. Os demônios que se vestiram dos corpos de minha comitiva ainda me atormentam e posso ouvi-los rastejando no corredor entre as celas durante as noites soturnas que passo aninhado nesse cubículo nefasto a que me encontro preso. São criaturas infernais nascidas do pesadelo para assombrar a vivência dos homens. O cântico funesto que se repetia no interior do vale ainda molesta meus dias e noites.

Contudo, em que pese o grande intervalo de tempo, voltei a concatenar frases de modo lógico novamente e hoje consigo exprimir meus pensamentos de maneira compreensível. Por isso na semana passada esteve aqui um homem de cabelos cor-de-palha que dizia ser comissário de polícia querendo me fazer algumas perguntas. Seu nome era Alfredo. E por um breve momento pensei que também o conhecesse, mas me enganei.”

– Por isso estou aqui lhe dando este depoimento, senhor magistrado. E por tudo o que acabo de lhe contar, hoje chamam aquela passagem na floresta de cancela das lamentações.

Autor: Rodrigo Bispo

01/01/2019

A Charneca

Morávamos numa fazenda bem afastada da cidade mais próxima. A gleba fora nosso lar desde que me lembro, tendo nascido lá tanto eu quanto minha irmã Ana. Meus pais eram camponeses e extraíamos a quase totalidade de nossa subsistência da propriedade. Meu pai, homem forte e severo, falecera já havia alguns anos. Fora tolhido do mundo dos vivos por uma febre que levou consigo grande parte dos moradores daquela região no ano negro que marcou sua passagem.

Vivíamos uma vida mansa e sossegada.

Ocorre que um dia minha mãe foi acometida por dores lancinantes que lhe tomaram as forças e enfraqueceram seu corpo antigo. E a isso seguiu-se um acesso de febre fortíssimo que mandou-lhe de vez para o leito de seu quarto escuro.

Desesperado, temendo que a tal “calentura”, como ficou conhecida a febre que ceifara tantas vidas anos atrás, houvesse mais uma vez lançado seus tentáculos soturnos sobre nossa casa, tratei de selar um bom cavalo e, na companhia de nossos dois criados, rumei para a cidade deixando minha mãe aos cuidados de minha querida e frágil irmã.

A estrada para a cidade consistia num caminho pedregulhento e sinuoso que singrava as terras de várias famílias antes de fazer uma curva fechada para sudeste a cerca de duas léguas distante de minha casa, curva esta que ficava bem no dorso de um morro levemente íngreme.

No topo desse morro e em volta da parte da estrada que atravessava a elevação, havia uma pequena floresta de árvores empretecidas que guardava em seu coração uma charneca estéril e fedorenta que embaçava a vista com suas emanações de fumo esbranquiçado e gélido.

A estrada, infelizmente, passava em meio ao tal pântano e a vegetação que o circundava era tão crespa e fechada que não havia hipótese de travessia por outra parte que não as poças de líquido azeviche e borbulhante do charco mal cheiroso.

Devido aos supostos lamentos que se dizia ecoar dos arredores daquela mata durante a noite, o local ficou conhecido como cancela das lamentações pelos moradores da região. Sua fama a precedia e não faltavam histórias, as mais tétricas, sobre toda sorte de

malefícios ocorridos aos infames viajantes que por ali passassem quando em viagem para as urbes.

Meus criados protestaram para que tomássemos outro caminho que levasse à cidade, informando-me que na direção oposta havia outra passagem, mais distante dos medicamentos que salvariam minha pobre mãe, contudo, mais segura.

Recusei liminarmente seus augúrios e lhes disse que poderiam eles mesmos voltarem para casa e se colocarem a fazer algo de utilidade pela minha mãe, em vez de choramingarem feito crianças medrosas em momento tão impróprio. E percebendo minha ira desesperada, apesar de relutantes, não seguiram o conselho.

Sendo assim, prosseguimos os três em nosso caminho.

Adentrando a floresta escura por volta das quatro da tarde, alcançamos a charneca lamacenta pelas dezoito horas daquele dia agourento. E a julgar pela luz escassa que conseguia atravessar a copa das árvores, parecia mesmo que eram dez horas da noite.

Estávamos todos muito assustados com as formas ominosas e sinistras da vegetação que cercava o local. Por vezes meus criados chamaram-me a atenção para os supostos vultos a que se moviam por entre aquela ramagem doentia. Eu lhes censurava os sentidos afirmando que viam coisas na bruma densa que ocupava os espaços exíguos entre as árvores. Mas interiormente guardava certo horror daqueles movimentos diabólicos e apesar da vontade de evadir-me dali o mais rapidamente possível, prossegui estrada à frente afastando o medo e colocando a imagem de minhas amadas parentas em seu lugar.

Desde que falecera meu pai, avoquei-me a responsabilidade pelo bem-estar do que sobrara de minha família, pois era o único filho homem. Chegando mesmo a desistir do casório com a filha do vizinho lindeiro para que pudesse velar pela minha idosa mãe e adorada irmã. E aquele não era o momento mais apropriado para que fraquejasse em meus desígnios.

A visão do pântano era bem mais terrífica que as histórias a seu respeito. E pude sentir nos ossos a gélida sensação de solitude daquele maldito lugar. Era um lamaçal imenso entrecortado por moitas espinhosas que exsudavam fogos-fátuos num aparente padrão bizarro. Havia um cheiro de morte e podridão por toda a orla do alagadiço. Um silêncio aziago somente interrompido pelo gemido de animais desconhecidos imperava naquele ermo.

Corriam historias assustadoras de que um bando de freiras desaparecera no interior da floresta enquanto marchavam em procissão vindas da igreja da cidade. Desde então dizia-se que era possível ouvir as mulheres malditas gemendo suas desgraças quando a noite se amortalhava por sobre as árvores pitorescas.

Sendo-nos impossível seguir caminho devido ao avanço das horas e evidentes dificuldades e cansaço das cavalgaduras, tivemos de parar à entrada das terras úmidas. Os criados arengaram e mais uma vez lhes aconselhei voltar. Contudo, covardes que eram, contentaram-se em resmungar entre si e rezar enquanto montávamos nosso insólito acampamento.

Comemos as provisões trazidas em nossos alforges, encorajamo-nos mutuamente, fizemos uma prece conjunta e nos deitamos em nossos colchões de viagem sob o sereno da noite eterna que nos circundava.

O silêncio era fatal e perturbador. Algumas vezes um fogo-fátuo saltava fugazmente por entre as moitas de modo a quase nos matar de susto com aquela luminosidade doentia amarelo-azulada. Contudo, após algum tempo de vigília involuntária, acabamos sendo derrotados pelo cansaço crescente e adormecemos um após o outro, caindo num sono pesado e merecido.

Acontece que no meio da noite fui acordado por um ruído que lembrava o choro de uma criança ao longe. O lamento ecoava no vazio enegrecido do vale.

Estando mesmo horrorizado pelo som aterrador, levantei-me de um salto e procurei instintivamente pelos criados para acordá-los e me certificar de não estar ficando louco ouvindo sons inexistentes no meio do nada. E qual não foi minha surpresa ao perceber que os desgraçados haviam-me abandonado, tomando rumo desconhecido enquanto eu estava entregue aos caprichos do sono.

Praguejei em voz alta. Gritei pelo nome de um dos serviçais desaparecidos. Não houve resposta. Pelo contrário. Mais uma vez ouvi a voz infantil lamentando e chorando na escuridão.

Atravessado pela compaixão e clemência à miserável alma infante perdida em tão funesto lugar, acendi o lampião que trazia a tiracolo e arqueei a mão por detrás da orelha esquerda aprumando o ouvido. Escutei então novamente o choro que agora parecia vir de uma certa direção ao sul de onde estava. Apanhei a arma que trazia na bolsa do cavalo,

conferi a munição, calcei minhas botas e fui em direção ao som escabroso, sempre atento ao caminho para que não me perdesse em meio àquele inferno alagado.

Caminhei por cerca de meia hora atravessando o charco e ficando atolado algumas vezes, até que cheguei numa espécie de clareira onde jazia uma tapera em ruínas feita de estuque. A casinha estava totalmente às escuras e o som do choro parecia nitidamente vir de seu interior.

Fiquei meio atônito perante a visão perturbadora e enquanto piscava sem entender que sorte de lugar era aquele, me pareceu que uma figura esfumaçada esgueirou-se por sobre o telhado precário da velha tapera, indo introduzir-se na cavidade quadrada da chaminé que se erguia pouco mais de meio metro acima da superfície das telhas.

Persignei-me e toquei o punho da arma em minha cintura, esperando pelo pior. Nesse instante uma claridade bruxuleante surgiu timidamente pelas aberturas nas paredes do aposento e agora sim a voz da criança soou rouca, vindo certamente do interior da cabana. Como que acordado de repente dum sonho aterrador, joguei o medo de lado e pensando na fragilidade da alma que pudesse estar presa naquele lugar nefando, corri em direção à porta da tapera. Chutei-a e ela obedientemente voou para longe emitindo um ruído seco. Então vi sentada no meio do cômodo único uma bela menininha de olhos e cabelos negros segurando uma vela por entre mãos trêmulas.

Seus olhos escuros estavam arregalados e inchados. Lágrimas copiosas brotavam deles inundando sua face branca de expressão inocente e amedrontada.

Aproximei-me rapidamente da criança e percebi, não sem estranhamento, que ela estava muito limpa e asseada, com os belos cachos de seus cabelos amarrados por uma fita amarela na base da nuca. Bem como sua roupa, que estava limpa e alva. Aquilo tudo contrastava muito com a imundície bizarra do local.

Ante minha presença, a garotinha largou a vela que se apagou ao cair no chão e levantou seus pequenos braços em minha direção, como se urgisse por ser retirada dali.

A visão atacou meu coração preocupado e imediatamente peguei a menina nos braços limpando-lhe as lágrimas com a mão livre e perguntando-lhe o nome. Ao que a criança se resumiu a me responder esta frase:

-- A mamãe... a mamãe está morta, moço!

Sua vozinha fraquejava enquanto pronunciava as sílabas e ao término da fala enterrou sua face em meu peito caindo num pranto dolorido.

Eu não sabia o que fazer e estando emocionado com todo o ocorrido, virei-me e tomei o caminho de volta ao acampamento com a pequena pessoa no colo.

Enquanto caminhava inquiri insistentemente a menina sobre quem ela era e como havia chegado onde a encontrei. No entanto, não recebi qualquer resposta às minhas perguntas. Parecia mesmo que a pequena criança não sabia dizer nada além daquela frase exordial.

Chegando ao que antes fora meu acampamento, como chovesse um pouco, arriei o cavalo, juntei minhas coisas e mais que depressa, com o coração apertado de terror e pena, pus-me a cavalgar por entre os charcos do pântano, esporeando desesperadamente o cavalo. Ele que me perdoasse, mas tinha que nos tirar daquele lugar.

Cerca de umas três horas mais tarde havia saído da orla ominosa daquela floresta maldita e estava em direção à cidade novamente. A menininha dormia calmamente encostada ao meu abdome enquanto era sacudida pelo passo monótono e ritmado do cavalo. Agora, com a luz da alvorada refletida em sua tez pálida, pude perceber o quanto suas feições se aproximavam das de minha querida irmã quando mais nova. E por isso senti mais pena ainda da pobre garotinha, como se algo nela me despertasse os sentimentos paternais mais profundos.

Pra que se encurte o relato, basta dizer que cheguei à cidade dois ou três dias depois da aparição noturna no meio da charneca. Lá tratei de adquirir a medicação que motivara toda a minha viagem por meio de um comerciante cego de pupilas esbranquiçadas e cabelo grisalho desgrenhado. O tal vendedor disse-me que conhecia a menina quando ouviu o relato de como eu a havia encontrado. Assumiu um tom grave e afirmou ser a criança um arauto do outro mundo que trazia a mensagem da morte. Refutei as afirmações do homem visivelmente louco e me resignei a lhe perguntar pelo caminho de volta à minha região que fosse diferente daquele que cortava a floresta. O estranho homem silenciou-se por um momento e depois me respondeu calmamente por onde deveria me guiar para que evitasse os perigos da “cancela das lamentações”. Agradeci ao comerciante e lhe dei algumas moedas pela informação. O homem agradeceu e me aconselhou que passasse na igreja antes de seguir viagem e pedisse a bênção da Providência, pois iria precisar.

Esporeei o cavalo e fui embora sem seguir o conselho do louco. Não havia tempo para aquilo. Minha mãe doente aguardava meu retorno, bem como minha querida irmã.

O caminho diferente era bem mais extenso e passada uma semana de viagem avistei os contornos de minha morada ao longe. Trazia a criança encontrada no pântano comigo, pois alimentei grande apreço por sua companhia nesses dias solitários e aviltantes que passamos juntos. Mormente por suas nítidas semelhanças de comportamento com os trejeitos de minha amada irmã quando em idade tão tenra.

Cheguei em casa ao anoitecer. Apeei do cavalo apressadamente e corri em direção à entrada, quando de repente assomou minha mãe ao portal com expressão terrífica e desesperada. Seus cabelos esvoaçados. Suas feições tensas, apesar da saúde que parecia lhe ter voltado.

Ao me avistar a meio caminho da casa correu ao meu encontro segurando as pregas do vestido para que não se lhe enlameassem as bordas. E antes de me alcançar lançou os braços para o alto largando o vestido e vociferando desesperadamente:

-- Oh meu filho! Meu filho querido! Tão feliz está essa mãe em ver-te que por um momento senti meu coração desapertar no peito em virtude da perda recente que se abateu sobre essa família.

Colocando a menina que trazia no colo por sobre a relva molhada, e franzindo o cenho sem que entendesse como podia estar minha mãe tão bem de saúde não havendo tomado medicação alguma, perguntei-lhe aturdido:

-- Ora, minha amada mãe, o que se passa com teu espírito, vez que estais tão bem fisicamente? Eu mesmo já me julgava atrasado em minhas diligências pensando haver ocorrido o pior por causa de minha demora.

Neste instante minha mãe, que agora me alcançara, abraçou-me fortemente e por entre lamentos me informou:

-- Pois é porque tu não sabes que tua irmã feneceu um dia depois de tua partida, vítima da febre. E eu, amortalhada que estava, nada pude fazer que evitasse tamanha desgraça! Os criados que contigo foram jamais voltaram e vejo que contigo não estão. Guardei minhas forças para que pudesse te dar a notícia eu mesma, pois devi minha vida até agora à memória de minha filha falecida.

“Quando despertei e a encontrei morta ao meu lado, roguei aos céus para que tu voltasses a tempo de salvar nós duas e pedi ao espírito de Ana que te avisasse da tragédia, pois eu mesmo não podia fazê-lo.”

“Contudo, vendo que não fui ouvida em minhas orações, suportei o fardo da morte até que novamente te encontrasse e pudesse contar o que se passou.”

“Lamenta-te. Veste-te de luto. Tua amada irmã está morta e jaz desde o dia de sua passagem ao lado de meu leito exatamente como ficara no momento de tua partida!”

E eis que enquanto dizia essas palavras, o fôlego de minha mãe pareceu se diminuir e seu amplexo se arrefeceu em torno de mim, de modo que ao pronunciar a ultima palavra da sentença funérea, esfriaram-se de uma vez suas mãos e caiu morta em meus braços com a rigidez lívida dos cadáveres amanhecidos.

Como estivesse em choque e não pudesse sequer mover um músculo após a seqüência de fatos narrados, fui arrancado, extirpado de minha petrificação sepulcral pela estridente voz infantil que chorava e puxava a barra de minha calça, lamentando a morte de minha família.

Era o agouro daquela menininha tão parecida com a minha finada irmã, a qual encontrei na maldita charneca.

Autor: Rodrigo Bispo

25/12/2018

Estranho Programa de Televangelismo que Encontrei

Meu pai tinha uma coleção de fitas VHS, desde gravações de festivais de musica até fitas gravadas
da televisão como filmes, programas de TV e também novelas que passavam de noite para minha mãe assistir no outro dia, pois ela trabalhava em um hotel no período da madrugada e quando sobrava um tempo de dia poderia assistir.

Lembro de também ter feito algumas gravações de programas como TV CRUJ pra assistir depois porque não era sempre que eu podia ver quando passava, meu pai chegava do trabalho bem no horário que era transmitido e queria assistir as noticias em outro canal, não tinha muito o que fazer e deixava gravando uma fita em um canal enquanto ele assitia outro. Recordo de gravar filmes quando criança, um que me marcou de ter gravado, foi aquele filme horrível do Batman do George Clooney pra assistir outras vezes, vai entender, criança é complicado.

Quando encontrei as fitas fiquei muito nostálgico equeria rever aquelas coisas nem que fossem somente trechos, apenas pra relembrar, eu não tinha um aparelhode VHS e eram tantas fitas que não valeria pagar pra converter em mídia digital, resolvi procurar algo na internet que funcionasse. Passaram-se alguns dias desde que encontrei um supostamente em bom estado e enfim recebi, instalei na TV de tubo que ainda tenho pra jogar em vídeo games antigos, assim a imagem não se distorce tanto como seria em um aparelho moderno.

Peguei algumas fitas e comecei a assistir, na maioria delas havia uma etiqueta dizendo o que tinha gravado, outras tive que descobrir, tinha uma gravação do meu pai na apresentação do Queen na primeira edição do Rock in Rio com uma qualidade tão ruim que parecia ter sido filmada numa calculadora, havia também filmagens de passeios com meus pais quando criança, gravações de comerciais aleatórios, até cine privê tinha e aqueles programas religiosos que passavam e ainda passam nas madrugadas na televisão.

Foi uma nostalgia muito grande rever certas coisas e ver outras que nem lembrava mais, mas uma filmagem em particular me deixou com uma grande sensação de desconforto, não de medo ou tremedeiras, quanto mais eu assistia mais eu queria assistir, me lembrava aqueles filmes found footage e entrei na atmosfera daquela gravação.

Não sei qual emissora passou pois no começo da gravação havia uma mensagem que dizia: "Esse programa é uma produção independente e de responsabilidade de seus idealizadores", como normalmente aparece até hoje em alguns programas religiosos e de televenda, por isso não sei dizer qual canal passou, pode ter sido qualquer um. Nela um pastor de televisão estilo esses que passa na Record só que se passava no começo dos anos 90, filmado com uma câmera péssima, não algo distorcido cheio de chuviscos que impedem de identificar as coisas mas sim uma imagem opaca meio esverdeada com tons de rosa alternando para as cores normais em certos momentos, grande chance de estar danificada como algumas que havia visto antes.

Era um cenário só onde o pregador com uma cara parecida com a do Jim Jones fazia orações para o pessoal que assistia pela TV e em um estilo parecido com o fala que eu te escuto, recebia ligações das pessoas ao vivo, rolava algumas ligações no decorrer do programa, alguns pedidos toscos como uma senhora que queria se casar e pedia uma oração para encontrar um marido e outra que queria aprender a cozinhar, mas numa dessas ligações alguém que supostamente se diza dominado por algo, pede uma oração que o pastor atende e enquanto ele ora, a pessoa no telefone começa a tossir gradualmente até que fica um silencio na linha, o pastor continua com a oração e quando terminada, ainda em silencio por alguns segundos, a pessoa do outro lado da linha fala alguma coisa em um idioma estranho, não uma frase tipo um encantamento, duas palavrinhas bastaram.

Ao fundo se ouve as vozes do pessoal da produção perguntando o que tinha acontecido e do nada
ouve-se um grito, no mesmo instante o pastor olha pra frente, não focando a câmera e sim para o que
estava rolando pelos bastidores. A transmissão ainda continua e o pastor pergunta o que está acontecendo. 

Outra vez se escuta as mesmas palavras que a pessoa do telefonema tinha dito e o câmera que
operava o aparelho cai, fazendo com que a imagem se desenquadre, mirando ao chão, ainda pegando
uma parte do púlpito e do peito pra baixo do pastor, que após o ocorrido corre em direção ao
câmera para tentar socorrer, ele pede pra que a transmissão seja interrompida e que chamem por
socorro medico, nesse instante alguém do fundo vai em direção ao pastor com uma postura
ofensiva e nesse instante a transmissão de imagem para de ser exibida e entra uma comunicado de
problemas técnicos, porem o áudio ainda rolava, não muito nítido mas ainda de forma que se
podia ouvir.

O pastor que pelo que parecia havia sido agredido pede em nome de jesus para que
a pessoa pare, nesse instante há silencio no áudio e o pastor começa a orar sem parar mais e
mais, escuta-se uma tosse fraca seguida de choro junto ao som quase inaudível que parecia ser uma
discussão ao fundo. As discussões param e o que se ouve também parecem choros, sem parar de orar ele continua até q nada mais se ouve a não ser a voz do pastor, passam-se alguns segundos de oração
até que se escuta um som de engasgo e então silencio novamente, também se passam alguns segundos
e ainda sem imagem mas o áudio rodando, se ouve aquelas mesmas palavras próximo ao microfone
da câmera e a transmissão encerrou por completo.

Consegui converter ela para o PC, fiz o upload no Youtube e postei no Twitter, Reddit e 4chan, não para que alguém tentasse me explicar, reconhecer ou algo similar, mesmo que obviamente eu gostaria muito de saber, publiquei mais foi pra divulgar, algo que aconteceu e que nunca vi menção nenhuma na internet e nem meu pai que gravou lembra disso. Mas enfim, se você viveu no inicio dos anos 90, viu na TV ou sei lá e lembra disso e quiser divulgar, quem sabe encontramos mais pessoas que testemunharam isso e possamos descobrir o que aconteceu de fato.

Autor: Guilmour Zeroth

18/12/2018

A Verdadeira História dos Humanos - Parte 1

No inicio, bem nos primeiros anos de um universo recém-nascido, os humanos eram perfeitos.
Oh, não estou me referindo ao Edén - poupem-me dessa história. Estou me referindo há milhões de anos, quando vivíamos em harmonia.

Deixe-me contar a história dos humanos, a verdadeira história dos humanos.

Perfeitos... (Parte 1)

Em um certo planeta chamado Rahu, haviam 3 humanos; um homem, uma mulher, e uma criança. Ambos eram perfeitos, não havia ódio, apenas amor e felicidade. Claro, como humanos mesmo naquela época tais possuíam os sentimentos, afinal somos humanos e isso é o que nos torna perfeitos pois aqueles sentimentos primitivos não eram corrompidos e nem rancorosos. Até mesmo o amor hoje é corrompido. Aqueles sentimentos eram lindos! Mesmo a raiva era uma "raiva de preocupação" sem nenhum tipo de ódio por detrás disso.

Sabe, estamos tão acostumados a comparar amor, felicidade, etc. com contos de fadas que esquecemos como a humanidade foi formada antes da chegada "deles"...

Os humanos de Rahu não possuíam nomes. Era desnecessário pois chamavam-se por "adjetivos". Porém, para podermos identificá-los os nomearemos para melhor distinção.

A mulher, chamaremos de Akemi - Em japonês significa "linda luz" ou "aquela que brilha lindamente", o homem chamaremos de Kerge - Em estoniano significa "luz", e a menina, Luna - derivado do latim que significa "Lua".

Seus nomes, em particular, têm uma ligação: "Kerge era a luz de Akemi. Akemi, com seu amor, fazia a luz de Kerge brilhar lindamente, brilho esse que era refletido por Luna, a Lua daqueles dois.

Antigamente, nós humanos, tínhamos uma rotina de paz... sem preocupações com o amanhã. Essa era, e ainda é, a nossa dádiva. Dádiva essa de viver apenas o presente mesmo sabendo que um dia a morte virá. Atualmente, poucos podem desfrutar dessa dádiva.

No entanto, vamos focar na história dos primeiros humanos.

No trecho "ambos eram perfeitos" não é um mero equívoco. Eramos realmente perfeitos" perfeição tal que os deuses e os outros seres invejavam; principalmente os deuses que agiam como bem entendiam.

Akemi e Luna estavam passeando pelas planícies de Rahu. Rahu era um planeta tão exuberante que dificilmente se acharia outro igual ou que chegasse perto de sua beleza natural.

Luna indagou sua mãe:

- Mãe, por que este planeta tem nos agradado tanto? Nós não fizemos nada digno de sua preciosa natureza e mesmo assim este planeta tem nos aceitado de bom agrado. Eu não entendo...

Akemi respondeu-lhe:

- Ora, Luna. Rahu era um planeta vazio. Não havia ninguém que apreciasse essas lindas paisagens. Por isso, Rahu sentia-se solitário. Pelo fato de habitarmos aqui, Rahu ficou agraciado e como forma de agradecimento tem produzido ainda mais desta preciosa natureza.

- Whoaaa! Conte-me mais, mamãe!

Em seguida, a terra produziu uma grande árvore. Em seus galhos havia variedades de flores que para nós hoje em dia é totalmente desconhecida. Era Rahu homenageando a primeira família que ali habitara.

Akemi logo a batizou de "Luna". O nome de sua própria filha. Luna de felicidade, deu-lhe um sorriso tão bobo que Akemi daria sua vida para ver aquele sorriso novamente

Kerge, de longe, avistou a árvore e correndo até ela encontrou as duas brincando em volta da dela.
Cheio de saudade Kerge exclamou:

- ESPOSA!

Akemi ouvindo a voz do seu amado, correu rapidamente para abraçá-lo.

- Meu amor, bem vindo de volta. Por que demoraste tanto? Sentimos tanto sua falta!

- Esposa, em minha jornada nunca estive tão solitário. Sem vocês a minha jornada parecia em vão. 

Mas agora, pude notar que não foi em vão. Descobri um local fixo, um paraíso para ficarmos! Antes, conte-me sobre esta grande árvore.

Depois de matarem a saudade, Akemi e Luna contaram-lhe sobre a homenagem que Rahu fizera. 

Chegando o pôr do Sol, a família partiu para a cabana de folhas que construíram.

Assim eram eles, uma família com tudo a sua volta.

Até chegarem eles...

Lá de cima, alem do céu de Rahu, Havia um deus que observava aquela família. Seu nome era...

FIM DA PRIMEIRA PARTE

Autor: The Truth

04/12/2018

Pressa

Eu enlouqueci hoje assim que acordei. Acordar é natural, mas são situações naturais que enlouquecem quando elas saem do nosso controle.

E quando eu acordei eu vi tudo vermelho, achei que tinha sangue nos olhos, mas ele estava nas paredes. Eles querem me internar, mas quem nunca enlouqueceu? São poucos os que percebem, só isso. Olhei o quarto mais atentamente e achei engraçado. Tão trivial, visto todos os dias. Hoje, com uma bela mancha de sangue na parede salmão. Vejo meninas da minha idade que não enlouqueceram. Ainda.

Me sinto com o triplo da minha idade apesar dos ursinhos no quarto, e não sei o porquê.

Levei a mão aos olhos e senti o enrugado. Na parede, o meu único retrato de quando era jovem. Preto e branco.

"Pra que tanta pressa com oitenta e poucos anos?"

Me internaram no caixão.

Autora: Gabrielle Dias

27/11/2018

Conhece a Carla? Cuidado...

Histórias de Cascahell – A Cidade Infernal é um compilado de histórias sobrenaturais que ocorreram com as pessoas que nessa cidade vivem, desde os tempos passados até os tempos atuais. Neste compilado, você encontrará as mais inusitadas e aterrorizantes situações e acompanhará o desenrolar e o desfecho da história a qual está sendo narrada, sempre com aquele pensamento: "o que será que vai acontecer".

Mas espere, Cascahell não é apenas a cidade dos acontecimentos misteriosos, bizarros e assustadores, é também a cidade do prazer, então prepare-se para encarar diversas cenas picantes que envolvem os moradores desta metrópole caótica em construção.

Antes de ler este episódio, tenha a certeza de ter lido o anterior: “Depois da Cervejada”


Bom, acredito que pelo menos um rosto surgiu em sua mente quando citei seu nome, mas não se preocupe, não é desta Carla que estou falando... Enfim, Carla é uma jovem mulher de 22 anos, estuda, trabalha, mora sozinha em um apartamento alugado, desses de quinta-categoria, localizado tão perto de seu trabalho quanto da instituição onde faz sua graduação.

Assim como qualquer jovem mulher, Carla é cuidadosa com sua aparência, estando sempre linda, sempre arrumada e perfumada, com seus lindos longos e ruivos cabelos, com seus lábios carnudos e sedutores rosados, sardinhas em seu rosto e com seu chamativo olhar de jade. Não há homem que não se encante com tal mulher, e não há mulher que não sinta ao menos um pingo de inveja de Carla.

Como toda mulher, Carla gosta de sair, de curtir uma festa, dançar, beber e conversar. Gosta de moda, de cinema e olha só, até de games e HQs. E claro, como toda mulher, ela gosta de homem. Mas ela não tem um gosto específico, pois todos eles tem basicamente o mesmo sabor.

Se você conhece a Carla de quem estou falando, já deve tê-la visto acompanhada de algum homem cuja aparência parece não estar a sua altura, e com toda certeza, se você a viu com este homem, jamais o verá novamente. Infelizmente, a única coisa que Carla não tem em comum com uma mulher normal é sua alimentação.

De vez em quando ela gosta de carne, carne humana masculina. E, se você é homem e conhece a Carla (na verdade você acha que a conhece), tome cuidado, não chegue perto e não se envolva com ela. O pior não é ser devorado por ela, pouco a pouco, o terror para os homens na verdade é que ela começa a se alimentar pelo seu "bal-bal", nem chegando a dar o prazer ao homem de possuí-la.

Infelizmente não sei como ela faz para esconder o corpo enquanto o devora (parece que ela leva cerca de 2 semanas para o fazer), mas com certeza ela deve ter um jeito infalível e muito bem escondido, pois estive duas vezes em sua casa, e não vi nem sinal do Jorge, o rapaz com quem a vi começo da semana. Nem mesmo dos outros rapazes, o Breno, Carlos, Matheus, Felipe, Maylon, Caíque e mais alguns aí no decorrer dos anos que a conheço.

Mas, fora este pequeno detalhe, Carla é um amor de pessoa.


Claro, se você for mulher, rsrs'

Autor: Alan Cruz (Não Entre Aqui)

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20/11/2018

Fazendeira

Ela fazia aquela comida cinzenta e aproveitava pra dizer o quanto eu era nojento mastigando, e como ela não aguentava mais ouvir a minha respiração ali. E saía, com aquele andar torto. A vida toda eu fugi de todo o barulho que eu podia. E mesmo vivendo no meio do mato como eu sempre quis, os gritos dela não cessavam. Não quis me dar um filho, disse que não queria outro de mim por perto. Uma vez, levei um filhote de cachorro pra fazenda, pra ver se as coisas melhoravam. Ela afogou o bichinho com gosto. Ela adorava dizer que um dia ia me colocar dentro de um saco junto com o lixo, porque era isso que eu era. Jogou todos os meus discos fora. Lembro daquelas mãos brancas, gordas e engorduradas colocando tudo em um saco preto, me perguntando por que eu não ia pro inferno junto com eles.

Um dia, perto do fim do ano, a vi matando uma galinha. Aquele chinelo arrebentado, o avental sujo e o cabelo ruivo preso em um lenço de bolinhas, praticamente uma cena cinematográfica. Imaginei como seria quebrar aquele pescoço do mesmo jeito que ela fez. Aprendi com a própria, e não teve erro. Se gostava tanto de sacos de lixo, deve estar feliz agora.
Jantei galinha ensopada, sozinho. Silêncio, finalmente.

Autora: Gabrielle Dias

13/11/2018

Depois da Cervejada

Histórias de Cascahell – A Cidade Infernal é um compilado de histórias sobrenaturais que ocorreram com as pessoas que nessa cidade vivem, desde os tempos passados até os tempos atuais. Neste compilado, você encontrará as mais inusitadas e aterrorizantes situações e acompanhará o desenrolar e o desfecho da história a qual está sendo narrada, sempre com aquele pensamento: "o que será que vai acontecer".



Mas espere, Cascahell não é apenas a cidade dos acontecimentos misteriosos, bizarros e assustadores, é também a cidade do prazer, então prepare-se para encarar diversas cenas picantes que envolvem os moradores desta metrópole caótica em construção.

Antes de ler este episódio, tenha a certeza de ter lido o anterior: “Cuidado com o que Deseja


Olha, não sei se minha história é realmente assustadora, nem se vocês irão publicar isso, mas sem dúvidas foi a coisa mais estranha que me aconteceu em vida.

Como sabem, a juventude é uma coisa realmente boa, ser jovem é ter tempo livre, estar livre de compromissos e poder festar, festar muito. Eu era esse tipo de jovem, tinha 19 anos na época (hoje estou com 23), estava numa cervejada numa chácara, alguns poucos quilômetros da saída da cidade onde vivo.

Fui com uma galera para lá, eu e mais um camarada no meu carro (um saveiro cross 2010), e mais quatro amigos noutro carro. Chegamos lá tarde da noite, quase meia-noite, e por lá ficamos curtindo. Já era 3 da manhã, e eu já tinha de ir para a casa, me despedi dos amigos e aquele que veio comigo disse que voltaria com os demais, portanto, teria eu de voltar para casa sozinho.

Na saída, indo para o estacionamento, notei que havia uma garota próxima aos carros estacionados. Ela parecia estar chorando e não parava de me fitar enquanto me aproximava do meu carro. Eu destravei o carro e notei que a garota se aproximava, mesmo assim abri a porta, pronto para entrar.

- Com licença... – falou a garota.

- Ah, oi... – eu disse.

- Você está voltando para a cidade? – disse meio que em prantos.

- Sim, estou. O que houve? – não pude deixar de perguntar.

- Nada... só estou meio chateada... pode me dar uma carona?

Fiquei meio receoso, mas ela era uma linda garota, não poderia simplesmente deixá-la aqui.

- Sim, é claro. Entra aí. – e ela entrou, assim como eu.

Estava um pouco frio, logo que entramos liguei o carro e o aquecedor. Poucos instantes e já estávamos na rodovia. Era meio difícil não olhar para suas coxas grossas e morenas, e quem dirá para seu par de peitos enormes. Eu precisava quebrar o gelo estabelecido desde aqueles minutos em que entramos no carro até agora.

- Mas então... – fiz uma pausa, ela me fitou – você parece um pouco melhor. Poderia saber o porque de uma garota tão bonita estar em prantos sozinha no estacionamento de uma puta festa?

- Isso não é algo normal? – ela riu, logo que me respondeu.

- Bom... você não seria a primeira a chorar em festas, mas certamente é a primeira a quem eu dou carona. – ela me olhou e respirou profundamente.

- Pois é... – disse com a voz meio xoxa – a festa estava ótima. Mas o rapaz que eu estava afim ficou com uma outra garota.

- Vixi... aí é foda.

- Pois é...

E o assunto continuou, estávamos a 20 minutos da cidade, e algo muito surpreendente estava acontecendo. Eu e esta garota estávamos num entrosamento incrível, o triste rosto da garota se foi e agora ela ria comigo, até que, não me pergunte como, a conversa ficou apimentada. Era notável a timidez em seu rosto e, provavelmente no meu também, até que essa timidez foi quebrada quando a garota colocou sua mão esquerda em minha coxa.

- Nossa... vai nem me beijar antes – eu falei.

- Talvez seja melhor encostar – ela falou – e foi exatamente o que fiz. Parei no acostamento e mal parei o carro e já estávamos nos beijando. Mas, qualquer um sabe, uma saveiro não é o melhor automóvel para dar uma “tchu-tchada”, e eu não cogitaria transar ao céu aberto, ainda mais próximo dessa plantação de milho, que parecia entoar o ar sombrio daquele local.

Eu apalpava como podia suas coxas, seu bumbum e também seus peitos. Estávamos os dois loucos de vontade.

- Espera – eu falei – tem um motel aqui perto, topa?

- Só se for agora, seu cachorro – ela disse.

Não pensei duas vezes, liguei o carro novamente e já estava a caminho. O motel era próximo dali, dez minutos no máximo, ainda antes de chegar na cidade. Enquanto dirigia, Amanda abriu meu zíper e colocou a mão por dentro da minha cueca, pegando no meu membro.

- Nossa, você tá mesmo pegando fogo, não é?

- Você nem imagina – ela o tirou para fora, se abaixou e começou a chupá-lo.

Eu estava em êxtase. Nem mesmo minha namorada (isso quando eu namorava) fazia isso, e essa garota que eu mal conheci estava me surpreendendo e me dando uma experiência que eu jamais havia experimentado. Toda aquela adrenalina e libido aumentavam minha ansiedade para chegar no motel e poder desfrutar da gostosa que estava a me chupar, melando-me e quase se engasgando.

E finalmente chegamos. A garota ajeitou-se em seu lugar e limpou a boca com os dedos. Seu batom estava um pouco borrado, mas ela não estava a se preocupar com isso. Fechei o meu zíper e cheguei a recepção. Pedi um quarto e entramos, estacionando no interior do local logo em seguida.

Descemos do carro e fomos ao quarto. Abri a porta com a chave que a moça da recepção havia me entregado e entramos, já nos agarrando loucamente, batendo a porta atrás de nós. Eu tirei minha camisa no mesmo instante, mas Amanda se afastou e me disse que precisaria ir ao banheiro primeiro.

- Tudo bem - eu falei.

Ela entrou no banheiro e ali ficou, cinco, dez minutos, até eu começar a estranhar. Enquanto isso, eu estava na cama, esperando a porta do banheiro abrir e louco para ter aquela gostosa, mas quase 15 minutos haviam se passado.

- Amanda? – chamei por ela.

O silêncio corria o quarto.

- Amanda?... Tá tudo bem? – chamei outra vez por ela, e novamente nada. Me levantei e cheguei na porta do banheiro. Bati levemente e chamei outra vez por ela.

- Amanda? Você tá bem?

Não houve resposta. Eu peguei a maçaneta – vou entrar, ok? – e abri a porta lentamente.

Não havia ninguém lá dentro. O banheiro estava completamente vazio.

Fiquei estranhado com a situação, mas a janela do banheiro era grande o suficiente para que ela pudesse passar por ela. Mas por que diabos essa garota faria isso? Será que ela era doida?

Vesti minha camisa e saí do quarto onde estava e me dirigi à recepção, e foi aí que a cena ficou tensa. Ao chegar, perguntei a mesma recepcionista que me atendeu na entrada se ela havia visto onde a garota que chegou comigo havia ido, e sua resposta simplesmente me deixou boquiaberto.

- Mas senhor... – a recepcionista me olhou com estranheza – você não estava acompanhado quando chegou a nosso estabelecimento.

- O que? Mas é claro que estava! A garota ao meu lado é uma morena, dos cabelos lisos e pretos, com um vestidinho preto e branco, com uns brilhantes...

- Senhor... vai ter que me desculpar... mas eu não vi ninguém contigo.

Eu comecei a ficar estressado, afinal, teria de pagar pela hora no motel e nem sequer aproveitaria. Fora isso, ainda tinha de descobrir onde Amanda havia ido.

- Moça, eu cheguei neste local acompanhado. A garota provavelmente saiu pela janela do banheiro, os muros são altos e só há uma saída. Se ela não saiu, provavelmente ainda esteja aqui. Poderia verificar para mim?

Ela demorou alguns instantes enquanto checava com o pessoal da segurança.

- Senhor, ninguém chegou a ver uma garota com as características que nos passou. – Isso não fazia sentido, não fazia sentido algum, essa recepcionista só podia estar tirando uma com minha cara e – foi quando notei uma câmera, logo a frente, onde pegava os carros que chegava na recepção.

- Espera. Eu poderia verificar a gravação da câmera de segurança?

- Olha senhor, eu não tenho autorização para lhe exibir as filmagens – eu a interrompi, pedindo que fizesse uma exceção, que eu não sabia o que estava havendo e que precisava resolver isto, e, com um pouco de insistência, ela falou com o superior que autorizou e me encaminhou até o vigia que cuidava dos monitores.

Lá, expliquei toda a situação e ele localizou as filmagens, confirmando para mim que quem estava errado era eu.

Na filmagem aparece meu carro chegando, quando se aproximou da recepção era possível me ver claramente através do para brisas, e o banco acompanhante vazio ao meu lado.

Eu voltei para casa baqueado depois daquilo. Estava pasmo e até com medo. Mas nunca mais (até agora), algo assim me aconteceu. E somente hoje foi que eu descobri:

Uma jovem garota chamada Amanda foi encontrada morta naquele motel, dois anos antes do meu ocorrido. Eu procurei na internet e encontrei uma matéria do jornal de nossa cidade, onde explicava o trágico fim da vida de Amanda.

Após uma decepção amorosa, ela pegou carona para voltar para casa. Quem a apanhou era um homem de maus escrúpulos que aproveitou de sua fragilidade emocional e a seduziu, levando-a para o motel onde foi encontrada morta, estrangulada, no banheiro.

Em fotos na matéria, era possível ver que ela vestia exatamente a mesma roupa do dia em que a encontrei.

Autor: Alan Cruz (Não Entre Aqui)

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