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Cobaia Q1100317 - O Tocha Humana

Ninguém poderia imaginar que a hora mais obscura da raça humana estava próxima. Ninguém imaginaria que uma pequena cidade dos Estados Unidos pudesse acabar com todo o mundo. Ninguém imaginaria que o planeta inteiro se uniria contra a América. Porém, as pessoas também não imaginavam o que os americanos estavam planejando há anos.

 Na época eu trabalhava para uma pequena companhia privada. A companhia era financiada pelo governo dos Estados Unidos, mas era tecnicamente separada dele. Negação plausível e toda essa coisa. É claro que eu não sabia nada sobre isso. Tudo que eu sabia era que eu tinha acabado de me graduar e esse era a única oportunidade de emprego que me afastaria do constrangimento.

Eu era basicamente um recepcionista. Atendia ligações, fazia café, e marcava horários de atendimento e geralmente fazia o que me mandavam. Não era um emprego fascinante, mas, ou eu o aceitava ou nunca passaria de um simples mecânico em uma cidade pequena, assim como o meu pai. Então, quando os meus primos me indicaram ao emprego que seria a minha grande chance de me liberta mundo afora, eu o agarrei.

As pessoas sempre dizem coisas como “Se eu soubesse que seria assim não aceitaria esse emprego”, mas sinceramente, se eu não tivesse aceitado esse emprego eu estaria morto agora. E ainda tenho força e coragem suficientes para dizer que não me arrependo.

Sempre me ensinaram a não ser muito curioso, e é claro, ‘nunca escolher os dentes de um cavalo dado’. Então segui fazendo o meu trabalho. Dei o meu melhor. Não fiz muitas perguntas e acabei sendo promovido.

Eu seria o asssistente do Coronel Olsen. Não era tão ruim afinal. Eu faria as mesmas coisas de antes, mas dessa vez eu faria “para o coronel”.

Nós desenvolvemos um bom relacionamento. Éramos Cristãos vindos de uma cidade pequena e com famílias grandes. Para mim, ele se tornou algo mais próximo de um amigo naquele lugar. E eu também sentia que significava algo para ele também. Um dia, após uma reunião, ele me pediu que fosse até o escritório dele. Eu não sabia que dessa vez a conversa rotineira tomaria outros rumos.

Ele começou me entregando um pen drive, uma chave, e um celular. Ele me explicou que quando eu recebesse uma mensagem de texto naquele celular eu deveria pegar a chave e usa-la para abrir o cofre em seu escritório.

Então eu deveria passar os dados do pen drive para o notebook que estaria dentro do cofre. Depois eu deveria ler as notas que ele havia me deixado no cofre e seguir as instruções.

Naquele momento eu logo soube que todas as instruções eram para algo muito importante. Tentei ficar tranquilo e esquecer aquela conversa até que chegasse o momento certo de agir. Sempre fui obediente e tentei não ser curioso. Mas dessa vez era demais. Tentei acessar o pen drive no meu computador, e ele travou o sistema completamente. O computador não voltou a funcionar.

Era realmente algo que eu não deveria ver antes da hora. Guardei o celular, o pen drive e a chave e voltei para a minha casa.

Quando fui ao trabalho no dia seguinte tudo parecia normal. Fui informado que todos os funcionários passariam por uma checagem médica naquele dia. E na lista o meu nome era o primeiro.

Enquanto eu era examinado por um uma enfermeira muito atraente e cheia de curvas, o celular começou a tocar. E não era o meu celular pessoal. Era o outro celular…

Desculpei-me rapidamente e chequei o celular. Era uma mensagem de texto. Estava em branco. No entanto, a mensagem havia sido enviada por um número que eu reconhecia. Coronel Olsen! Fiz o meu caminho rapidamente para o escritório dele que estava bloqueado por dois soldados enormes. Tentei parecer discreto enquanto me aproximava da porta, mas eles não me deixaram passar e explicaram que o escritório do coronel estava sendo investigado por sinais de traição contra os Estados Unidos.

Isso já era demais. Traição! Não tinha como. O coronel era o cara mais honesto que já conheci. Escondi a minha desaprovação e expliquei aos soldados que eu já estava ciente dessa questão e fui encarregado de ‘espionar’ o coronel por alguns meses. Falei que tinha a chave para o cofre do escritório e pedi permissão para entrar e ajuda-los com a investigação.

Os soldados se entreolharam um pouco duvidosos. Eles realmente não estavam esperando por aquilo. Eu não era o tipo de fantoche do governo que eles esperavam. Falei para eles que se não me deixassem passar eu entraria em contato com o superior deles e explicaria que eles estavam impedindo a minha investigação.

O truque funcionou.

Os soldados destrancaram a porta e o mais alto dos dois me acompanhou para dentro do escritório. Segui rapidamente para o cofre, esperando sair logo daquela confusão. Minhas mãos tremiam ao pegar a chave para usa-la no cofre. O cofre abriu com um estalo alto até demais. Abri o cofre lentamente enquanto me ajoelhava na frente para impedir que o soldado pudesse ver o que eu estava fazendo. Lá dentro encontrei o notebook, alguns documentos... e uma arma! Em quê eu havia me metido? Havia um tubo acoplado ao cano da arma que eu sabia que deveria ser um silenciador.

Eu poderia fazer aquilo? Poderia confiar no homem que estava sendo preso por traição? Ele era o meu amigo! Era quase como o pai que eu realmente merecia.

Permiti que a raiva e adrenalina me dominassem, e  meu corpo passou a mover-se por instinto.

Levantei-me rapidamente e apontei a arma para a cabeça do soldado que estava olhando alguns papéis sobre a mesa. Fechei meus olhos o mais forte que pude enquanto apertava o gatilho. A ação deveria ser silenciosa, mas o corpo do soldado caiu sobre a mesa derrubando várias coisas.

O outro soldado abriu a porta para perguntar sobre o barulho que tinha acabado de ouvir e eu mandei uma bala diretamente no meio de seus olhos. Eu poderia não ser o fantoche do governo que eles esperavam, mas eu era definitivamente parte da classse média Americana e meu pai era membro da Associação Nacional de Rifles da América. Eu sabia muito bem como manejar uma arma.

Arrastei os corpos para um canto do escritório, e observei por um momento o que eu tinha feito. Essa realmente não era a manhã de quinta-feira que eu esperava.

Depois de me recompor voltei para o cofre. Para analisar os documentos. Naquele momento tudo o que me interessou foi o bilhete na primeira página de um dos documentos.


Matthews, 

Se estiver lendo isso eu já devo provavelmente estar morto. Eu sei que você é um homem forte, mas espero que não tenha tido a necessidade de utilizar a ferramenta que lhe providenciei. Porém, no momento não tenho tempo para tais esperanças. Por favor, pegue todos os meus documentos e fuja para o México. Providenciei passaportes para você e sua família. Insisto que pegue os documentos e corra o mais rápido que puder. 

Perdoe-me, 

COL Jericho Olsen


Lembrando as outras instruções que me foram passadas, abri o notebook e a tela mostrou o que era claramente um tipo muito avançado de sistema. Pluguei o pen drive e a tela escureceu imediatamente. Temi que tivesse feito algo errado. Porém, um texto logo surgiu mostrando coisas que eu não entendia. Eu não tinha tempo para analisa-las.

Fiquei de pé, respirei fundo, pus a arma na parte de trás da calça e voltei para o meu escritório tentando parecer o mais calmo possível. Felizmente não encontrei ninguém pelo caminho. Vesti meu casaco e deixei uma nota em minha mesa dizendo que eu tinha passado mal e voltaria no dia seguinte. Não sei por que fiz isso. Não é como se eu fosse voltar depois de deixar dois cadáveres no escritório do meu chefe.

O resto dos acontecimentos até o México não são muito importantes. Saquei todo o meu dinheiro da poupança. Pedi aos meus amigos que saíssem do país se tivessem oportunidade, pois algo grande estava prestes a desabar. O mais importante porém, é que consegui convencer o meu pai e minhas irmãs a virem comigo. Quando chegamos à fronteira os guardas deram uma checada rápida em nossos passaportes e nos permitiram passar.

Continuamos dirigindo para o sul, rumo a Cidade do México. Durante toda a viagem ouvimos várias histórias estranhas sobre casos ocorrendo nos Estados Unidos. O mais preocupante era ouvir que não havia comunicação com a Dakota do Norte, Dakota do Sul, Minnesota, e partes de Iowa. Eu estava trabalhando na cidade de Sioux Falls, Dakota do Sul.

Quando chegamos à Cidade do México finalmente paramos. Paguei por dois quartos de hotel em uma ótima parte da cidade e trouxe o meu notebook onde estou escrevendo esse relato. A conexão do hotel não era boa e as noticias eram piores. Todo o meio-oeste se foi. Não havia mais comunicação. E quando os aviões passavam pela área, tudo o que enxergavam eram chamas. Cinzas caiam como neve em Chicago e o Canadá havia fechado as fronteiras.

Escondi essas notícias da minha família. Eu não queria assusta-los. Deixei a TV ligada em um canal com novelas mexicanas e pedi que eles pensassem apenas em coisas felizes.

Eu os deixei assistindo as novelas e decidi analisar melhor os documentos que o coronel havia deixado para mim. Eram coisas inimagináveis. O coronel andou fazendo coisas terríveis. Aparentemente, o local onde eu trabalhava estava realizando experimentos secretos em criminosos com radiação e outras coisas que nem sei explicar. Havia relatórios sobre coisas como uma mulher que parecia viver com todos os órgãos expostos e vomitava um tipo de ácido. Vou incluir esses documentos em outro texto quando eu me acalmar.

A parte mais assustadora era a que contava sobre um paciente que sofreu combustão espontânea e o fogo não apagava. A pele dele não parecia deteriorar completamente, mas ele ficava em constante agonia e implorava para ser morto. Ele parecia uma tocha humana. O coronel negou as súplicas do homem para que o matassem, mas garantiu que faria de tudo para aliviar a dor. O homem foi mantido sedado e isolado até que um general viesse para observa-lo.

Quando o general chegou se sentiu enojado e ao mesmo tempo curioso. Ele solicitou um teste em campo para a Cobaia Q1100317. O coronel protestou dizendo que o homem já tinha sofrido demais e que deveriam acabar com o sofrimento dele. O general não se deixou convencer e disse para o coronel que esse trabalho não era para um homem fraco.

O coronel continuou a protestar e o general o jogou a força dentro da cela com a cobaia Q1100317. O cientista responsável pela cobaia interrompeu o sedativo e o ‘Tocha Humana’ acordou. Os detalhes são macabros e vou relata-los em outro documento, mas o coronel, o meu grande amigo, não sobreviveu a esse encontro. Infelizmente, o que ocorreu dentro daquela cela agradou ao general e ele ordenou que fosse preparado um teste de campo completo para a semana seguinte.

Suas palavras finais foram: “Este homem pode mudar as nossas armas na guerra”.


Acabei de saber que os Estados Unidos entraram em quarentena. Ninguém pode entrar ou sair do país.

O meu país está sendo devorado pelas chamas.

E daqui eu já posso sentir o cheiro da fumaça.