11/08/2017

Acesso Final

Boa noite habitantes do vago e escuridão, meu nome é Thiago, mais um servo do profano e tradutor deste blog. Como minha primeira postagem, venho lhes trazer uma história de minha autoria, sejam críticos, comentem, apontem, critiquem e não perdoem pois no final não serão perdoados.

Sim, é verdade! Nunca tive muitas ambições ou perspectivas em demasia, me contento com o mínimo e sempre foi assim. Carreira, faculdade, especialização, curso, nada disso… Música, atuação, talento para o esporte, nada se encaixou, meu rosto é e sempre será mais um na multidão, provavelmente você não se recordaria dele, provavelmente…

Tive alguns empregos, uns bicos uma ou outra oportunidade, desprezado pelas pessoas, minimizado, ridicularizado e como consequência  vindo de meus superiores sempre ouvi a mesma coisa : Falta de motivação, proatividade, vontade e interesse.
Pra mim sempre foi simples, nunca quis ser supervisor, gerente, dono, nadar em dinheiro, o que recebia era pelo que produzia, então isso é justo.

Acabei desempenhando a função de controlador de acesso nos últimos três anos (porteiro).
Uma atividade simples "qual é o seu nome? pra onde vai?".

Apesar de sofrer uma certa rejeição pela relevância do meu cargo, na grande maioria das vezes conseguia " tirar " algo de alguém de quem passava por mim, um salgado, um espetinho, um chocolate, sempre algo que pudesse comer e me dava por satisfeito.

Esse meu "talento" de sempre poder reter algo de quem cruzava meu caminho era invejado e consequentemente um dos motivos que despertava indignação nas pessoas que me comandavam em minhas funções, eu poderia tirar, mas não o fazia, creio que se realmente desejasse poderia convencer o diabo a tocar fogo em seu próprio corpo!

Infelizmente, minhas ambições sempre foram reduzidas a nada…

Após um tempo na função, decidi que iria tiras férias em alguma cidadezinha do interior, observar o pasto e conhecer gente simples, ficar no hotel assistindo filmes, tomando cervejas carregadas em trigo e talvez usar a piscina.

Passado a primeira semana já me encontrava bem entediado após contemplar os poucos 1977 canais disponíveis em suas mais variadas línguas, formatos e públicos-alvo possíveis e imagináveis.
Descobri através da camareira um “Pub” em que boa parte da cidade se encontrava dia após dia ali, era de conhecimento de todos os moradores, provavelmente o patrimônio histórico da cidade, gerações e mais gerações frequentaram o local, passei a visita-lo também, fazia minhas refeições, bebia até cair, mas sempre sem me relacionar com ninguém, apenas acenos com a cabeça, posicionava-me frente a única porta do local, observa os populares e principalmente as idas e vindas, o acesso!

No terceiro dia de visita, estava como de costume sozinho em minha mesa observando as pessoas conversarem, dançarem, beberem entre outras coisas também de olho nas portas fechadas do estabelecimento, após uns quarenta minutos de introspectividade um homem que aparentava ter seus 50 anos de idade sentou-se na única cadeira vazia em minha mesa, de frente para mim, obstruindo minha visão da entrada, fez menção com a mão esquerda antes como se perguntasse “Posso?”. Concordei erguendo meu copo vazio, ele sorriu e se sentou. Tinha os olhos amendoados, eram bem claros quase amarelos. Não possuía barba, que era extremamente bem feita como se ali nunca jamais houvera um único fio.

Eu não havia reparado ou talvez houvesse surgido do nada mas em sua outra mão trazia um copo de Whisky e um fino cigarro de confecção própria.
Usava um chapéu que parecia de cowboy, camisa xadrez vermelha e azul trajando uma jaqueta bem simples de couro que parecia ser feita sob medida e jeans azuis, não consegui ver os seus sapatos apenas.

Após apoiar o copo na mesa estendeu a mão para me cumprimentar, de relance pude ver suas unhas bem aparadas, mão bem cuidada com um anel em cada dedo. Os ponteiros marcavam 15:33, sol raiva, mas o ambiente era fresco e agradável, as janelas possuíam blackout fazendo com que ficasse completamente escuro se não fosse a aconchegante meia-luz dos simples e empoeirados lustres.




Conversávamos sobre trivialidades, papo vai, cerveja e whisky vem, fumaça vai, shots vem...

- Então, Senhor Lucius, o que faz ou fez para ganhar a vida? - perguntei descontraído.
- Administro pessoas. – respondeu com um sorriso e já emendou: - E você Jackson, tão novo e inteligente o que faz ?

- Sou controlador de aces... porra, sou porteiro! E ergui meu copo novamente.

- O senhor é gerente, gestor, supervisor ou algo do tipo?
- Exato, algo do tipo. Sempre com um lustroso sorriso.
- Mas me diga você, não quer fazer faculdade, um curso, tocar um instrumento, seguir uma profissão?
-Eu já sigo, controlo acesso. Pra mim, já é o suficiente.
- E quer isso pro resto da vida?  Não quer ter sua própria empresa, ser rico, comandar, mandar, ditar, lide...
-Não, não tenho esse tipo de desejo, ganhar e cobrir o que consumo está de ótimo tamanho, não almejo, não quero explorar ninguém, não quero maiores responsabilidades. Veja como é simples, você me diz seu nome e pra onde vai, após meu processamento todo o resto é problema seu, a história acaba ali pra mim, não vejo nada de errado com isso.

Lucius balançou a cabeça como se reproduzisse a expressão corporal de “mais ou menos”, ainda que não fizesse sentido no contexto...

- Então diria que o que te define o que você quer é apenas observar e controlar o acesso, apenas isso? Nada mais?
- Não é como se não tivesse coração, não achasse bonito um casal de mãos dadas, o abraço de uma mãe em seu filho, reencontro de amigos... Mas não tenho e não anseio nada disso para mim, vantagens, família, relações, amizades, patrimônios, propriedades... Eu só quero passar, viver, olhar, da minha maneira, sem influenciar, mudar a vida de alguém, guiar ou dar sentido... é simples assim.
Ao enrolar um novo cigarro e acendê-lo o homem de chapéu de cowboy deixou escorregar o anel de seu dedo indicador para perto do cinzeiro e rumou ao sanitário. O anel tinha uma opala de fogo, chamativa, linda, encantadora e poderosa por um momento me imaginei utilizando o anel, apenas para experimentá-lo e nada mais, olhei para ele e estiquei ambas as mãos para avaliar em qual dedo se encaixaria melhor, mas ainda assim não tive o ímpeto de fazê-lo, apenas observá-lo...
O homem ressurgiu atrás de mim, fez o contorno e a medida que deixou seu corpo cair novamente na cadeira deslizou o dedo indicador em toda extensão circular do anel que voltou ao seu lugar original como um ímã.
-Bom, sei que está de férias mas tenho uma proposta para te fazer... Como te disse administro pessoas, pessoas de talento, atrizes, atores, bandas, atletas, esse tipo de gente que ganha muito fazendo pouco e que você reconhece pelo primeiro nome.
-Ah, então o senhor é um agente, empresário, manager sei lá hahaha.- muita, muita cerveja...
- Algo do tipo, mas sem toda essa burocracia, mídia, contratos, é mais parecido como um pacto mesmo.
- Olha, te adianto logo de cara que não tenho nenhum talento a ser agenciado, muito menos vender minha alma por algum tesouro ou habilidade latente.
Ambos rimos muito após esse comentário.
-Em uma fazenda aqui perto eu patrocinarei uma festa em que essas pessoas estarão reunidas, alguns paparazzis, apenas os com as melhores conexões estarão informados e fariam de tudo pra entrar na festa e conseguir uma foto da ganhadora do grammy deste ano completamente bêbada e drogada. Um ou outro presidente de fã clube deve estar a par também, sem contar em outros “agentes” que se aproveitariam do momento para firmar contrato com as minhas estrelas...
-Hm, certo.

- Seu trabalho é controlar o acesso dessas pessoas, deixar entrar apenas aquelas que lhe darei o nome. Quanto você quer não apenas pelo trabalho, mas para não ceder as ofertas tentadoras? 100 mil, 150 mil?

Eu ri ainda mais com a oferta.
- Você está oferecendo 150 mil por uma única noite de trabalho de um porteiro? Ou você está brincando comigo, ou está louco ou é apenas um velho que quer torrar dinheiro, talvez eu te lembre um filho que faleceu? Perguntei com sinceridade.
- Não estou brincando, o que desejas ?
-Observar e controlar o acesso, que até o fim de minha existência estaria ótimo, pode me pagar o que se pagaria normalmente pelo dia de serviço da minha categoria, não precisarei de transporte e comida então algo em torno de 50 estaria ótimo.
- Estás desprezando uma aposentadoria inteira e uns 19 anos luxuosos por um trocadinho mixuruca?
-Não é isso, agradeço a oferta e aceito o trabalho nesses termos, tudo bem?
- Jackson, alguém já elogiou sua falta de ambição?

-Nunca, muito pelo contrário, nunca entenderam...

-Ah mas eu entendi e estou te administrando desde que nos cumprimentamos, negócio fechado então!

Acontece que vim a entender que observar e controlar o acesso por fim eram minhas ambições, sonhos e fervorosa paixão, acontece que possuo diversas coisas que milhares de seres humanos desejaram a vida toda e nunca terão, vi a ruína ainda que de uma posição baixa de todos aqueles que exerceram algum tipo de poder sob mim.
Eu controlo o acesso, o acesso final e com certeza TODOS os que passam por mim rumo a toda eternidade em chamas se lembram de minha face, após 3333 anos nada mudou, continuo querendo saber apenas seu nome, mas já sabendo o destino que irá tomar. A única coisa que restou de mim fora a vontade de observar e controlar as idas e vindas (apenas ida nesse caso) foi a habilidade de “tirar” algo das pessoas, mas infelizmente já não é algo que me satisfaz, quem precisa de lamúrias, desabafos, confissões, arrependimentos ou a própria carne e osso em si?

Talvez tenha sido escolhido para o cargo por não desejar ter sucesso, viver para sempre, ter dinheiro, fama, ser feliz, ter família, queria apenas observar, controlar sendo justo e vivendo para mim. Depois desses três milênios fui conversar com meu empregador, disse que queria férias, em uma cidadezinha do interior no mundo terreno. Não esperava uma resposta positiva, sei muito bem que se alguém entra aqui... jamais sairá...

Para minha surpresa ele me concedeu esse período de férias, com certeza sentiu que eu não desejava escapar e que com certeza voltaria para cumprir minha função. Antes de sair ele me disse :

- Respondendo sua pergunta, sim, você me lembra alguém, você faz com que eu lembre de meu pai.


Depois de alguns dias recluso, decidi ouvir um pouco de música ao vivo em um estabelecimento que apresentava novas atrações diariamente. No terceiro dia de visita, uma mulher na casa dos 50 anos, cabelos ondulados e longos com camiseta regata listrada preto e branco, calças jeans azuis, não pude saber o que calçava, vinha agitando uma garrafa que parecia ser de barro com um delicioso cheiro de trigo sentou-se em minha frente.

Com a mão cheia de anéis, um pra cada dedo me deu um cigarro que parecia ter sido feito manualmente, ao ocupar minha boca foi logo dizendo: - Não tenho nada para despertar sua ambição, mas gostaria de ouvir uma proposta de emprego?



22 comentários:

  1. Legal! Bem escrita e bem elaborada.

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  2. Não entendi nada depois de:" Negocio fechado então" Alguem explica pra mim??

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    1. A falta de ambição delr selou um pacto para torna-lo o porteiro da eternidade.

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  3. O cara virou porteiro do inferno haha. Todos os que passam por ele é porque acabam indo pra lá. Ele controla o acesso final rumo à eternidade em chamas, na qual quem entrar jamais sairá, de acordo com as palavras dele.

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  4. 8/10
    Bem inovadora, me despertou o sentimento de solidão

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  5. Obrigado pela atenção, fico feliz :)
    Pequena curiosidade: O nome "Jackson" foi escolhido para O Porteiro do Inferno devido ao escultor Jackson Ribeiro em homenagem a sua obra mais famosa, que ficou exposta por 30 anos até que fosse removida depois de muito protesto religioso. E o nome Lucius, obviamente se remete a Lúcifer.

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  6. Bem vindo também, Thiago! Achei tua creepy genial e inovadora! 10/10

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  7. Bem vindo, Thiago! Achei a creepy bem diferente da maioria, não segue os clichês... Acho apenas que nos diálogos você poderia dar mais detalhes de como eles estão agindo enquanto falam, expressões, olhares e tudo mais. Enfim, muito boa!

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  8. essa creepy é uma joia bruta, pode ser lapidada, mas mesmo assim uma bela de uma joia, nada de clichê, algo incrivelmente novo, só uma curiosidade, a mulher do final, seria Deus?

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  9. Não entendi, quem é a mulher? Existem por acaso dois Diabos?

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  10. Bem diferente do que vejo por aqui. 8/10

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  11. Eu acompanho o blog desde 2013, mas só em creepys como essa eu me sinto obrigada a comentar. Achei interessante, para dizer o mínimo. O cara é O porteiro infernal, não é um demônio, não é O Barqueiro que leva as almas, é só um simples porteiro. A profissão mais monotona que eu poderia imaginar. Adorei. Espero ver mais histórias assim, que não tenham finais óbvios. Só uma coisa me incomodou, você usa traço ao invés de travessão e não detalhou muito o dialogo. Se não fosse por isso, seria 10/10.

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  12. Tá me chamem de burra, mas não entendi muito o final

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  13. Ninguém mais ta se questionando quem é a mulher do final? Se for Deus, 10/10. Kkk

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