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Padrão - Capítulo 5

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Eu entrelacei meus dedos suados em meu cabelo enquanto olhava para a folha fina de papel à minha frente. Cinco letras estavam escritas sobre ela, R-C-G-E-A. Algumas vezes eu me perguntava como cheguei nelas, mas algo me diz que se estão ali, é porque significam alguma coisa.

Eu me empurrei frustrado com a cadeira para longe da mesa. Se elas significassem o que estava pensando, certamente isso me deixaria paranóico. Não tenho muito dinheiro para ir para um lugar novo, então passaria minha vida preso nesta pequena cidade, com um potencial assassino no meu calcanhar.

Pelas minhas quase infalíveis deduções, a conclusão que chegara me levava a um nome: Grace, minha ex-esposa.

Uma gota de suor frio correu pela minha testa e minhas mãos começaram a tremer. Quem quer que fosse que estivesse fazendo aquilo, possivelmente sabia algo sobre a minha vida. Eu não sabia o que o nome significava, mas tinha algo a ver comigo, disso eu tinha certeza.

Grace era minha ex-esposa, por isso o fato me deixou realmente apreensivo. Alguém estava me perseguindo? Me vigiando? Eu tinha de me mudar dali, rápido.

Mesmo com o pouco dinheiro que havia em minha conta do banco, eu fiz várias ligações para empresas de mudança. Eu tinha uma opção: morar com meu pai. Meu pai, Ralph, vive em uma casa de tamanho mediano no começo da cidade, um pouco afastada de outras residências. Ele mora sozinho desde que minha mãe morreu. Enfim, eu considero a casa grande demais para um senhor idoso que mora sozinho. Eu morei lá a minha vida inteira e o abandonei quando minha mãe morreu. Deve fazer um bom tempo que meu pai não recebe visitas. Quero dizer, eu sou um cara muito ocupado, então não tenho tempo para visitas rotineiras.

Um único caminhão de mudança foi necessário para carregar todas as minhas coisas. O dono cobrou um preço razoável, o que não pesou muito na minha carteira.

Eu pisei na sacada da casa marrom e levei o dedo indicador à campainha. A tinta estava desbotada e a madeira dos pilares apresentava sinais de envelhecimento. Espantei um inseto do meu braço enquanto esperava meu pai atender a porta, sentado em uma caixa pesada e com várias outras no quintal da frente.

- Entre filho! Há quanto tempo! - Sua animação era contagiante quando ele abriu a porta. Meu pai sempre foi um homem muito otimista e animado, é isso o que eu mais admiro nele. - Vou te ajudar a levar essas caixas para o seu quarto. - Disse e se dirigiu à floresta de caixas no quintal. Mesmo em seus 56 anos, meu pai ainda está em boa forma. Ele é um homem robusto e se manteve assim, mesmo com o passar dos anos levando sua juventude e a cor de seus fios de cabelo, que agora ostentavam uma cor acinzentada.

- Eu fiz seu prato favorito. Você vai ficar aqui até quando?

- Provavelmente sim... eu realmente não sei. Mesmo que o assassino seja pego, eu não tenho dinheiro para comprar outro apartamento.

- Você precisa ficar o máximo possível dentro de casa. Já falou com o delegado? - Ele indagou enquanto carregava uma caixa pesada entre os braços e subia as escadas, que faziam um barulho a cada vez que pisava em um novo degrau.

- Ainda não, vou falar com ele amanhã. Preciso de alguma proteção policial, esse louco está na minha cola. Ele provavelmente sabe da minha vida. Você sabe... pessoa afogada em banheira de café e o nome "Grace".

- Hum, eu sei. Talvez ele realmente esteja te perseguindo, mas não sabemos disso. - Me falou com uma estranha calma, sem lançar um único olhar para mim.

Eu subi as escadas com uma caixa leve em minhas mãos. Meu pai passou do meu lado e voltou ao amontoado de caixas. A porta aberta no fim do corredor era aonde ficava meu quarto de infância. Entrei para me deparar com uma bagunça de caixas espalhadas e minhas antigas coisas. Minha cama ainda estava lá, junto com a poltrona azul que minha mãe sentava algumas vezes para me contar histórias para dormir, isso quando arranjava algum tempo em sua agenda lotada. No chão, meu tapete verde com bolinhas brancas. Minha cômoda branca também continuava lá. Alguns bonecos de dinossauro e carrinhos permaneciam perfeitamente arrumados sobre ela, minhas gavetas estavam todas vazias.

- Última caixa. - Meu pai avisou, em seguida pôs uma caixa grande aos meus pés. - Lembra do seu quarto? - Perguntou e limpou com a mão uma pequena quantidade de pó sobre a cômoda. - Você ficava o dia todo aqui brincado, sozinho... - Disse fazendo uma pequena pausa entre as duas últimas palavras.

- É. Bons tempos.

-Você sabe que não tínhamos tempo por que queríamos que você tivesse uma vida boa, não é?

- Sim, eu sei disso.

Ele me deu um tapinha nas costas e saiu do quarto.

Me abaixei lentamente e comecei a guardar as coisas enquanto pensava nas últimas palavras que meu pai me dissera antes de sair.

"Só queríamos que você tivesse uma vida boa. Nunca demos importância para os seus sentimentos, por isso você viveu sua infância inteira sozinho com bichos de pelúcia." - Fiquei remoendo a última parte em minha mente até a noite.

Ainda havia sobrado algumas caixas cheias de coisas que não poderiam ser colocadas no meu quarto, então minha idéia foi deixá-las no porão. Eu raramente entrava lá, por isso fiquei meio tenso com o fato de ter que descer as escadas no escuro e puxar aquela cordinha para acender a luz.

Eu deixei a última caixa sobre o chão de madeira velho e estava pronto para subir de novo as escadas, até que vi uma estante com uma quantidade enorme de pastas, ficheiros cheios de folhas e linhas.

Minha curiosidade de detetive falou mais alto, então eu toquei um envelope marrom e o abri:

"Data da sessão: 21/10/1995.

Sessão n° 5

Nome completo: Peter Collins
Idade: 8 anos

Psiquiatra responsável: Phillip Schmidt

O paciente relata dores fortes de cabeça. Familiares dizem que o mesmo sofre de perda de memória recente, além de curtos surtos de raiva. Durante estes momentos, o paciente costuma ficar agressivo. Os pais, Ralph Collins e Elizabeth Collins, relataram terem ouvido o mesmo conversar sozinho, além de relatar a existência de "montros" e afirmar com convicção que os viu. Peter também sofre de alucinações e costuma criar amigos imaginários, novamente afirmando com convicção que os mesmo existem."

Quem era Peter Collins? - Essa era pergunta que agora estava rodando em minha mente. No mesmo envelope, havia uma fita cassete preta enrolada em um papel. Eu a desmbrulhei e vi algumas coisas escritas no mesmo.

Eu pus a fita na entrada do walkman que meu pai deixava guardado em uma caixa com coisas antigas no porão. Ele sempre se recusou a se livrar dele, e agora eu agradecia por isso.

Um zumbido soou quando coloquei os fones nos ouvidos, então ficou mudo. Eu estava prestes a tirar a fita quando ouvi uma voz que nunca tinua escutado antes, mas me era familiar.

- Boa tarde Peter, como você está? Por favor, sente-se.

Um barulho de cadeira sendo arrastada pôde ser ouvido, no fundo, um choro fraco de criança e algumas fungadas.

- O que você anda sentindo ou vendo desde a nossa última consulta?

Por um momento tudo ficou em silêncio, até que uma voz infantil irrompeu no momento.

- Tem aquelas... coisas. Eu não gosto delas, elas me assustam.

- Que coisas, Peter? Você pode descrevê-las para mim?

- Elas são finas e escuras, e ficam no meu armário. Seus olhos são esbugalhados e pequenos, que nem as bocas deles, elas são do tamanho de tampas de garrafa. Suas unhas são gigantescas.

- Quando eles aparecem, Peter, pode me dizer?

- Por que você está anotando enquanto eu falo?

- Apenas responda Peter, por favor.

- Eu fico com dor de cabeça. Muita dor, tanto que eu choro. Depois elas aparecem, mas a dor não. Parece que alguém está socando minha cabeça.

- Essas coisas, elas também falam?

- Falam. Elas não mexem a boca para falar, mas eu as ouço. Dizem coisas que eu não entendo, é alguma coisa "matar" ou "pegue".

Em seguida, houve um silêncio.

- Você se lembra do que fez ontem, Peter?

- Não. Eu só lembro que estava no quarto, conversando com o Senhor Waffles, depois apareci no quintal. Tinha alguma coisa vermelha nos meus dedos, mas eu não sabia o que era. Minha mãe ficava dizendo que eu matei o gato da vizinha, mas eu não fiz isso!

- Tudo bem Peter, nós sabemos que você não fez isso.

O choro ficou mais intenso e Peter começou a repetir a frase "Eu não matei ele!" várias e várias vezes. A gravação parou nesse momento.

Eu peguei o outro documento que estava junto à fita e comecei a ler.

"Data da sessão: 28/10/1995

Nome do paciente: Peter Collins
Idade: 8 anos

Psiquiatra responsável: Phillip Schmidt

Sessão n° 6

O surto de Peter foi mais forte dessa vez, o garoto teve de ser amarrado por seus pais. O colocamos em uma sala de contenção e iremos aplicar um método não recomendado.

Peter foi sedado e levado à uma maca, onde aplicamos a terapia dea choque no mesmo."

Eu levei a mão à boca e desejei que aquilo fosse apenas uma brincadeira. Tirei o terceiro documento do envelope.

"Data da sessão: 12/08/1996

Nome do paciente: Peter Collins
Idade: 9 anos
Diagnóstico: Transtorno Dissociativo de Identidade

Psiquiatra responsável: Phillip Schmidt

Sessão n° 32

Os testes foram um sucesso e conseguimos reprimir a personalidade psicótica de Peter, além de aliviar temporariamente os sintomas. Não sabemos se é definitivo, mas o problema foi reprimido. Até então, 3 personalidades foram registradas, mas podem haver mais. Peter não existe mais e a personalidade agora dominante se chama "Adam". Os sintomas pararam, nos levando à conclusão de que os testes foram um sucesso. Há sim uma cura para este problema. Mais testes serão realizados em breve."

Neste momento eu senti o suor escorrer pelas têmporas em grossas gotas geladas. Meu coração acelerou tanto que eu pensei que ele fosse pular pela minha boca. Meu nome é Adam, mas eu já fui Peter?

Me esforcei para lembrar o máximo possível de minha infância, mas não obtive informação realmente utilizável. Algumas partes de minha memória era como borrões, como se alguém arrancasse uma parte delas. Eu sempre tive perda de memória, desde pequeno, mas nunca achei que este fosse o verdadeiro motivo. Quando eu fico fora, quem realmente toma conta de mim? Quantas personalidades eu tenho? Meu pai realmente acha que isso acabou? Lembro-me bem de que houve uma parte boa na minha infância onde as perdas de memória foram se extinguindo aos poucos e eu comecei a fazer algumas poucas amizades, mas nada realmente duradouro.

Eu não faço a mínima ideia do que pensar sobre isso. Minhas pesquisas não acabarão por aqui e finalizarei este caso de vez, mantendo intacta minha sanidade.

Autora: Sofia NAQ

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