16/05/2020

A Boneca

A garota nunca conseguiu gostar de verdade daquele objeto, mesmo que tenha sido o último presente de sua avó. Bastava olhar para aquele sorriso pintado sob a madeira para se sentir encurralada, ansiosa e se a encarasse por muito tempo podia até sentir suas mãos tremerem. Até tentou algumas vezes se livrar da boneca, mas sempre que estava prestes a fazê-lo as palavras de sua avó vinham à tona: “Guarde-a com carinho e eu sempre estarei com você”. E mesmo assim sua mãe insistia que a lembrança fosse guardada.

Quando recebia suas amigas em casa, Olívia fazia questão de esconder o presente dentro do guarda-roupa, apenas algumas delas, as mais aventureiras e ousadas acabavam conseguindo ver as feições em tinta e as articulações da boneca, e todas elas ficavam encantadas, sem sentir nem um pingo do desconforto de sua dona.

Alguns anos se passaram e Olívia, que outrora era apenas uma garotinha, agora havia se tornado uma bela mulher, ousada e independente, suas mechas de cabelo tingidas de azul refletiam muito bem isso. Nessa transição deixara tudo de sua infância para trás para morar em uma casa na cidade, ou quase tudo, sua mãe insistiu muitíssimo para que levasse consigo a tal boneca e não havia argumento nem explicação que a fizesse mudar de ideia e com isso logo o objeto estava lá sob a cômoda, o mesmo sorriso, a mesma aparência, tudo estava ali junto com ela inclusive o medo e os calafrios.

Mas como dito antes, Olívia tinha mudado e não conseguia mais viver à sombra de um medo tão irracional. Porém, diferente do que acontece naturalmente a apreensão da garota não cedeu lugar a calmaria, mas sim a raiva, tão devastadora e acumulada que Olívia passou a maltratar a boneca, afinal, sua avó havia morrido há muito tempo e com toda certeza não se importaria com o que iria fazer.

Nos primeiros dias apenas xingou o objeto, ofensas bobas, era como se ainda não tivesse certeza do que estava fazendo, mas bastou um pouco mais de confiança para que começasse a chutar e joga-la contra o chão e paredes, mas até isso só serviu para inflamar ainda mais a raiva da garota, porque qualquer brinquedo eu fosse tratado assim, até os mais resistentes, apresentariam alguma arranhado, mas aquela maldita boneca não, continuava perfeita, nenhuma lasca sequer.

Era a hora de pôr um fim naquilo.

Algumas pessoas que passavam na rua olhavam com estranheza a cena que se desenvolvia naquele quintal, mas a garota se sentia satisfeita, ver aquela boneca ser reduzida a toras carbonizadas era gratificante e quanto mais o fogo queimava, mais Olívia se sentia liberta e ela só saiu de lá quando não havia nada mais a ser consumido. Essa seria a primeira vez em tanto tempo que dormiria em paz.

Porém, durante a madrugada uma sensação de nervosismo atrapalhou os sonhos da garota de maneira tão repentina que ela precisou respirar profundamente várias vezes para que seus batimentos se acalmassem. “Ela nem está mais aqui”, disse para si mesma, e mal terminou a frase quando se ouviu um barulho na casa, um baque no chão que ecoou até os ouvidos de Olívia, não sabia o porquê, mas isso foi o suficiente para que um enorme arrepio percorresse sua espinha, e logo em seguida outro barulho foi ouvido, dessa vez mais suave, como um passo, e depois outro e mais outro, poderia ser alguma coisa boba, um animal sorrateiro, mas isso não acalmava nem um pouco a garota, seu corpo sentia o medo cada vez maior, suas mãos tremiam e seu coração batia tão rápido que quase podia ser ouvido. Sob a luz do abajur ela procurava o que poderia ser, mas a escuridão além da porta de seu quarto não revelava o dono dos passos que ficavam mais próximos.

Olívia se encolheu na cama, assim como faria uma criança, o barulho cessou, mas ela sabia que o que quer que fosse estava ali, à espreita, podia sentir seu olhar tão ameaçador e cruel. Não teve coragem de levantar, ao invés disso ligou a lanterna do celular e apontou de uma vez para a porta: Nada. Sua respiração estava pesada, talvez fosse algo da sua cabeça, se acalmou com um gole d’agua, sempre deixava um copo na cômoda, foi quando sentiu algo tocar seu rosto, fio e suave, seus dedos se esfregaram no local e ficaram negros, olhou atentamente, fuligem. Mas nem fazia sentido, de onde veio? Foi quando a imagem de horas antes lhe invadiu a mente, o corpo pequenino da boneca sendo consumido pelo fogo, deixando no lugar apenas carvão, não poderia ser isso. Olhou para cima com os olhos vacilantes e encontrou ali seu assombro, o medo infantil, a boneca que logo caiu em cima da garota manchando tudo de preto. Olívia gritou com todo seu fôlego por socorro e isso bastou para alertar os vizinhos que chamaram a polícia. Mas esse alarde não a afastou, a boneca, ou o que restou dela, se contorcia raquiticamente e agarrava com força o rosto da garota que só conseguia se debater para tira-la dali, foi quando ela falou, a boneca falou, sua voz grossa como se saída de uma caverna, “Você só tinha que me tratar bem” e assim beijou Olívia na bochecha, o que fez ela gritar mais uma vez por socorro.

Em um ato de desespero conseguiu atira-la contra o chão e correr, ou ao menos tentar, algo estava errado, suas pernas não respondiam como deviam, olhou para elas e viu riscos amadeirados se formando sobre a pele, endurecendo cada movimento, mesmo assim continuava se arrastando, seu corpo não produzia mais o barulho que deveria, era apenas baques surdos no chão e barulho de articulação. Alguém batia na porta, a polícia, mas nem mais sua boca respondia, também estava dura, bateu com a mão ainda boa sobre a bochecha e o som foi perturbador, madeira. Não conseguia mais se mexer, gritar por ajuda, nem seus olhos funcionavam mais, se tornaram feitos de vidro, a última coisa que viu foi a boneca sorrir.

Quando os policiais finalmente arrombaram a porta não encontraram nada, nenhum sinal de roubo, sangue, nada, os cômodos pareciam em ordem. No quarto a mesma coisa, tudo no lugar, cama arrumada, inclusive a boneca de cabelos azulados em cima da cômoda, mas estranhamente a dona da casa não estava lá.

Autora: DarkQueen

26 comentários:

  1. Histórias como essa me prendem de maneira surreal. Parabéns.

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    1. Muito obrigada, são comentários assim que me deixam inspirada a escrever mais, você tem alguma sugestão de melhora?

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    2. Você poderia fazer uma história de um contrato com a morte ou algo do tipo

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    3. Eu já tenho um, se chama: AmorTe

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  2. Muito boa creepy, me prendeu do começo ao fim.

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    1. Aí, muito obrigada, isso me deixa super inspirada a fazer mais, mas você tem alguma sugestão pra mim?

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    2. Eu particularmente gosto muito de creepys com essa pegada de lenda urbana, sabe? Histórias que prende, que assustam sem ser exageradas e que deixam aquela duvida. É uma sugestão de creepy e, novamente, parabéns pela história.

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    3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. DarkQueen, show! Posso gravá-la em meu canal?
    Canal Área 52

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    1. Pode lógico! Pode usar meu nome e meu link no Instagram, acharia mara ver meu conto narrado e me passa o link hein! Quer contato?

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    2. Me encontra no Instagram: Katys.ousa é uma foto em cor cinza e eu estou com uma roupa cinza também

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  4. Adorei! Algumas partes engraçadas (a boneca com "voz de caverna" ahhhahsahsah morri) daria um filme legalzinho, estilo the haunting hour

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    1. Que bom que você achou engraçado kkkkk só não ache quando sua boneca se virar contra você hahahaha (risada maligna) brincadeira. Obrigada pelo comentário 💙

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  5. Pq me veio na cabeça Jason the Toymaker? Enfim... Amei a creepy rs

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    1. Engraçado, eu também pensei nele. Minha creepy favorita é o Jason The Toymaker

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  6. Não gostei, história pobre. A pessoa só quis fazer diferente o modo como a pessoa termina e como ganhou a boneca. Além de ter uns (2 no máximo) erros gramáticais. Vejo potencial em você, sei que se esforçou pra fazer essa creepypasta, Mas ela não ficou muito boa. Essa é minha crítica.

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    1. Muito obrigada pela sua crítica e você tem todo o direito de não gostar. Mas quando se quer fazer uma crítica "construtiva" no máximo se tenta não ser agressivo com as palavras. E sobre os erros, eles acontecem. Eu estou aqui para escrever e escrever o que gosto

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