02/08/2020

Minha Infância Perturbadora

A minha vida não foi uma das melhores desde criança, pois assistia quase todo dia os meus pais brigando. Muita dessas brigas, acabavam com a mamãe chamando a polícia, e o meu pai indo passar o final de semana preso. Fora os outros poblemas, tinha que ver a minha progenitora fazendo uso de substâncias erradas para tentar fugir um pouco da realidade na qual vivia: Um casamento arranjado por causa de uma gravidez indesejada, eles faziam questão de falar isso em todas às vezes que brigavam. Apesar de algumas vezes ele falar que não queria ter tido filhos, o meu velho sempre chamou a minha atenção, não por ser um bosta ou um mau exemplo de pai de família. Era o seu comportamento estranho... Muitas vezes, quando a casa já está bem escura, e ele acreditava que todos estavam dormindo, então chegava em casa com alguns volumes nos quais trazia em cima de suas costas e levavam para o sótão.

Essa é a parte interessante... Eu passei a minha infância, até a adolescência, logo antes de completar dezoito anos e morar com os meus tios, acreditando que meu pai fosse um psicopata. Você pode se perguntar: "Como é que uma criança pode ter essas coisas na cabeça, achando que o próprio criador é algo tão horrível?". Bem, desde criança, sempre tive acesso à internet e gostava muito de assistir e ler conteúdo sobre assassinos em série. Aquilo me fascinava e deixava-me excitado para alguém tão jovem. De acordo com alguns perfis, o meu pai se enquadrava em alguns, estes: um sujeito com indícios de problemas mentais graves, sofreu abusos dos próprios pais, o cheiro de podridão que vinha do sótão, e isso sempre foi ignorado por minha mãe, e além do mais, escondendo o rosto com aquilo e levando quase todas as semanas, coisas para o sótão as quais deixavam um odor terrível em nossa casa.

Outros fatos merecem mais atenção sobre o meu papai, estes que eram bem exóticos... Eu imagino que qualquer outra criança ficaria com medo se estivessem na minha pele naquela época, por exemplo: O meu pai costumava colocar uma máscara de palhaço todas as noites nas quais aparecia com aquelas coisas dentro de casa. É isso que fechava a minha ideia de que ele era um assassino em série, criando um personagem, ou usando aquela face assustadora para não ser identificado. Algumas vezes, o meu pai quando queria agredir a minha mãe, usava aquela máscara, deixando a minha progenitora ainda mais à beira da loucura. Citando mais uma vez, ele nunca me agrediu, nunca me tocou e nem fez nada comigo, contudo olhava para mim... Em seus olhos, talvez sentindo o mesmo que eu sentia: Um vazio. O velho sempre notou que eu não tinha medo, apenas aceitava a situação na qual estava vivendo. É, isso foi o que passei quando morava em minha velha casa.

Estou quase terminando à Faculdade de Educação Física, e os meus tios falaram-me que o meu pai morreu de causas desconhecidas. Acho que faz mais ou menos dois anos que a mamãe faleceu. Com a morte do meu velho, eu fiquei um pouco triste, em razão de que, apesar de tudo, o meu pai nunca foi agressivo comigo, além de maltratar a minha mãe como se ela fosse uma mulher qualquer. O mistério estava em minha cabeça: O que o meu pai guardava todo esse tempo no sótão? Lembro que alguns conhecidos e até os meus amigos de infância desapareceram quando ainda morava com os meus pais. Não pretendia falar sobre esse detalhe peculiar, no entanto faz parte da minha história.

Nessa época, eu pedi para ficar no porão, já que não dava para escutar minha mãe chorando, e nem o meu pai fazendo barulhos estranhos no sótão todas as semanas. Sei que você está querendo saber sobre os desaparecimentos, não é mesmo? Bom, primeira pessoa que lembro foi o meu melhor amigo, este tinha um comportamento estranho... Um pouco afeminado. Meu pai não aprovava nossa amizade achando que eu iria virar uma garotinha, em poucos dias ele sumiu. A minha professora também desapareceu, esta que pegava no meu pé por conta de meio ponto e reprovando-me em algumas matérias. A vizinha, barulhenta, a senhora Yasmin costumava escutar à televisão alta e não me deixava dormir. Isso também foi o motivo para desaparecer? A última pessoa, se eu não estiver enganado, que desapareceu: Foi a ex-namorada do meu pai. Esta que traiu ele, e sempre quando o velho estava agredindo a minha mãe, tratava ela como se fosse a sua velha namorada, chamando a minha progenitora pelo nome da sua ex.

Quando perguntava o que o meu pai achava dos desaparecimentos misteriosos, ele sorria e constantemente dizia que eram coisas bobas, que ninguém iria sentir falta deles. Eu apenas concordava, com sorriso no rosto e olhando para o meu velho pai, com a mesma aparência abatida olhando para mim. Como eu disse, faz pouco tempo que o meu pai havia morrido, e todo esse tempo, eu nunca entrei no sótão para saber o que ele fazia lá. Cheguei até a minha velha casa e fui em direção ao sótão, o qual estava trancado. Peguei as chaves e entrei, deparei com um lugar bizarro: estava cheio de corpos de animais, cachorros, viados e até filhotes de vacas... Eu reconheci todos os esqueletos. Tinha um velho computador daqueles antigos no local. Achava que o cheiro de podridão seriam de corpos de vítimas do meu possível pai serial killer, mas não.

O computador não tinha segredo para abrir, encontrei vários arquivos os quais envolviam necrofilia e zoofilia. O meu pai gravava vídeos nos quais compartilhavam na internet, violando aqueles corpos, que levava para o sótão. Esse era o segredo do velhote, é um pouco frustrante... Eu acharia que conseguiria me identificar com meu pai de alguma forma, porém, aquela figura cheia de ministérios não passava de um tarado com gostos bizarros.

Não pretendia ficar na minha casa por muito tempo quando cheguei aqui, a minha intenção era matar a curiosidade e a nostalgia do lugar, apesar da minha infância perturbadora. Decidi voltar onde dormia: No porão... Bateu uma melancolia forte quando cheguei lá, a minha cama estava no mesmo local, o travesseiro e o urso de pelúcia, o guarda-roupa e as revistas de mulheres nuas, entre outras coisas de um adolescente com minha idade na época. Quando pisei no chão, senti aquela terra fofa e observei em cada lugar no qual eu enterrei as pessoas que matei: O meu melhor amigo, no canto à direita. A minha professora, próxima da minha cama. Minha vizinha, a garotinha da casa um pouco mais distante, enterrada embaixo do tapete o qual eu fazia os deveres da escola. Eu dormia todos os dias olhando para aquelas covas rasas, sentindo-me especial e poderoso.

Pensando melhor, acho que ficarei em minha velha casa, e também, acredito que vários outros corpos deixaram o meu quarto mais aconchegante como já foi em minha infância...

Autor: Sinistro

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