27/03/2020

O coronavírus mostrou que o apocalipse não era como nós esperávamos

Recordo quando eu tinha dez anos, foi semana passada o meu aniversário, tudo parecia bem. Mas, as pessoas começaram a falar sobre uma coisa acontecendo, as notícias focavam apenas em uma doença e todos estavam preocupados com o vírus. Os programas infantis e escolas que, aos poucos estavam sendo interditadas, anunciavam sobre o 'coronavírus'. Eu era uma criança e não me importei muito até que finalmente tudo se espalhou como se fosse uma emanação de medo. O meu pai apareceu durante à noite, acordando todos nós. Não sei bem o que falar sobre ele... Eu sempre vou ver como uma pessoa calada, com o rosto negro, pois nunca falava quando não era necessário. A sua forma de demonstrar amor pelos seus filhos, era quase vazia. Apesar disso, era o suficiente para nós e por alguma razão, a minha mãe o amava muito. O velhote trabalhava sempre com entregas, um caminhoneiro dedicado e um caçador nato, mas, naquela madrugada, estava diferente. Então reuniu todos nós e pediu para levar o necessário e disse que iríamos sair da cidade. Eu já sabia tudo o que estava acontecendo.

Lembro-me daquele alvorecer, com as pessoas histéricas saindo de suas casas ou tentando preencher qualquer tipo de entrada com tábuas e pregos. O meu pai utilizou sua velha picape e disse que iríamos ver um lugar seguro para todos nós. Não existia nada além de mim, minha mãe e a minha irmã mais nova. Naquela tempestade de confusão, nós teríamos que dirigir até uma certa parte da estrada e caminhar a pé, para as montanhas. Lá dentro, existe uma cabana, e ele disse que ficaria tudo bem. Naquela madrugada perturbada, eu não percebi ostentando armas de grosso calibre junto com alguns produtos em conserva no porta-malas. Então, papai olhou nos meus olhos, foi uma das poucas vezes que demonstrou emoção ao afirmar que eu seria o responsável por tudo depois dele.

Ele me ensinou a usar armas na primeira semana, disse tudo que eu precisava para caçar e identificar plantas silvestres, essas que poderiam ser consumidas pelo homem. Esse mesmo período a minha irmã estava começando a ficar com gripe, com tosse e febre alta. Lembro quando trancou ela no quarto de cima, usou uma lei pessoal para proibir a mamãe de chegar próximo. Eu não precisava estar perto para saber que ela parecia piorar cada dia mais. Até que uma certa madrugada, nós ouvimos um barulho de arma dentro da cabana. Levantei do meu quarto, enquanto estava ouvindo a mamãe chorando e ele com os seus velhos panos cobrindo o rosto e mandando eu me deitar... Continuava com seu rosto quadriculado igual a personagens de quadrinhos, a mesma aparência que sempre teve enquanto os seus olhos estavam embaixo de um sembrante macabro; a mesma expressão que sempre teve quando passava uma ordem e era tudo que eu precisava para obedecer ao pé da letra.

O ressoar da arma foi tudo que eu precisava para saber que o coronavírus, e o que todos falavam no passado, chegou ao nosso lugar isolado. Ele tentou mostrar como se fosse um quadro negro rabiscado, a doença foi a causa de tudo. Acho que apenas estava entendendo o básico, mas todos estavam confusos. Naquele dia, ele olhou para nós dois: a mamãe nos pedaços e eu, sempre sério... Sinceramente, não conseguiria demonstrar nenhum tipo de remorso porque tudo parecia um vazio para ser preenchido aos poucos. Lembro quando fez parecer que não havia matado a minha irmã e disse que uma gripe não seria como nós estávamos habituados, o comportamento humano era apenas uma fachada para a coisa medonha que estava se escondendo dentro das pessoas. Recordo da minha mãe afundando-se cada vez mais em prantos, o papai parecendo cada vez mais frio, contudo, eu sei que estava sendo atormentado pelo sofrimento. Naquele dia, eu, simplesmente, observei sem saber qual emoção escolher. Só sei que o disparo de arma está saltando por todos os cômodos da nossa residência, um barulho incessante no meio da floresta e se escondendo dentro das tábuas do nosso lar.

Na maior parte do tempo, nós estávamos caçando. Creio que ficamos vários dias, talvez um ano ou dois, sozinhos na mata. Nessas ocasiões, ele tentava recordar das notícias enquanto ficava tentando materializar seus últimos momentos ouvindo um rádio velho, que transmitia freneticamente as notícias que estavam acontecendo por todo o mundo. Como se fosse um castigo, não existia nenhum barulho além do chacoalhar das árvores, e o papai repetia as palavras como se estivesse lembrando como uma fotografia as notícias falando sobre o tal vírus, que cada vez mais estava ganhando mutações e afetando as pessoas. Na maioria das ocasiões, que estávamos explorando a mata, ele tentava me passar o que vivenciou antes que tudo acontecesse: as pessoas se transformando, o comportamento explosivo e a doença se espalhando. No início não percebi, mas ele estava apenas me preparando.

Parecia que todos os nossos dias se resumiam a isso. Porém, em uma tarde, nada foi o que nós aguardávamos... Achei que seria apenas nós três isolados, até que, em uma dessas trilhas, enquanto eu estava procurando alguns cogumelos comestíveis, eles praticamente apareceram do nada, observando-me como fantasmas... Era um homem não muito velho, uma mulher com o rosto baixo e as costas curvadas para frente, praticamente os seus braços estavam mortos, caídos do lado do seu corpo sem vida. O cara segurava uma criança de colo coberta por trapos. Então, eu percebi os seus olhos desesperados enquanto tentava falar. Fazia tanto tempo que eu não me comunicava com ninguém, com exceção da mamãe e o meu pai, como eu já falei: quando era necessário. Só sei que naqueles segundos, em que eu estava vislumbrando aquelas pessoas, não sabia o que dizer.

O homem tentou comunicar-se. A sua voz parecia estar em um quarto fechado por conta do som estranho que fazia, a dificuldade que ele tentava falar causava calafrios. O movimento do seu rosto de uma forma muito rápida e, as vezes, ficava com o seu vocabulário lento. No mesmo instante, eu observei a mulher com cicatrizes negras se espalhando por todo o corpo e a criança nos braços dele, movimentando-se freneticamente para apenas um bebê. Não tinha como, eu sei que não. Então, naquele mesmo momento que aquelas pessoas tentavam falar comigo, eu ouvi o meu pai dizendo atrás de mim: conhecia muito bem o seu rifle enquanto ele estava puxando o gatilho.

"Não se mexa, garoto!" - sei que foi a primeira vez que o papai falou grosso comigo, mas deu para perceber que sua voz estava tão assustada quanto eu. Fiquei parado, mas captei que os dois adultos iriam fazer um movimento brusco. Na minha mente apenas existe uma opção, e eu abracei ela ao jogar o meu corpo deitado no chão. Um disparo arremessou a mulher, de forma que caiu girando. O homem cuspiu um líquido negro no chão e foi atingido logo em seguida por um outro disparo na sua testa. A criança, nos seus braços, caiu próximo de mim, e eu tentei afasta-me, porém o meu corpo estava com dificuldades para obedecer. Naquele momento, senti os braços grossos do meu pai puxando minha camisa para mais afastado, e o papai tentava tampar o seu nariz com a mão enquanto observava criança no chão de mais perto. O bebê não estava chorando, apesar disso encontrava-se em cinesia com aqueles movimentos assustadores para apenas um corpo tão pequeno. Eu fechei os meus olhos quando ouvi o terceiro disparo de arma.

Naquela mesma noite, lembro-me dos meus progenitores conversando freneticamente, mencionando que mais cedo ou mais tarde eles chegaram aqui. O pai dizendo que não sabia como as vítimas do coronavírus estavam indo tão longe. Naturalmente, eu não consegui dormir e fiquei ouvindo a madrugada toda o mesmo assunto e o quanto as pessoas seriam perigosas. Naquele momento, ele criou uma lei para que nós não nos aproximassemos de ninguém e, qualquer tipo de aproximação de invasores, poderíamos atirar. Foram dias mais agitados do que o normal, pois até a mamãe estava aprendendo a manusear uma arma de fogo.

Eu já não sabia quanto o tempo estava passando, mas sei que já havia uns meses que os outros apareceram. Quando as coisas pareciam se acalmar, fomos surpreendidos mais uma vez. Relembro quando levantei em uma manhã em que o sol ainda não havia aparecido, todavia, já estava claro o suficiente para enxergar os cômodos dentro da cabana, e o meu pai tremendo segurando o rifle. Repetiu cada vez estrondando mais as paredes com seu berro autoritário para alguém parar. Então, finalmente, segurando a minha própria arma, eu vi a mamãe diferente...

Os seus olhos estavam alarmados, ela parecia tentar falar e sua boca não obedecia. O seu corpo se movimentando de forma grotesca, não consigo esquecer o gemido de agonia... sei que a mamãe estava sofrendo cada segundo que os seus membros se aproximavam de nós próximos da porta. A sensação foi quase a mesma daquele dia que nós encontramos outras pessoas. Recordo muito bem do aberto no meu peito, agora mais deteriorante de quando eu soube que a minha irmã foi morta. Quando finalmente ele se calou, e ela estava próxima suficiente, o disparo de arma silenciou o lugar novamente. Quando ela caiu, deu para perceber que engoliu o cuspe que esteve naqueles segundos acumulando na sua boca.

Suas últimas palavras, enquanto ele estava pisando suas botas de couro pesadas para próximo do seu corpo, foram necessárias para assombrar nós dois até hoje: "Ninguém está salvo, nem mesmo a nossa família... Por favor, dispare logo!" Um líquido preto começou a percorrer o seu rosto até o pescoço, saindo da sua boca. A sua maneira de respirar era como se estivesse uma sacola plástica enrolada pelo seu rosto. Ele não pediu para eu sair quando tirou sua camisa, enrolou em volta do seu nariz e boca, e apontou a arma no rosto dela. Eu podia ver o seu rosto com tanta clareza...

Quando eu perdi a minha irmã e a mãe, sentia-me cada vez mais sozinho dentro do velho barraco. Os nossos momentos de caça, por exemplo, foram divididas em um intervalo de dois dias para um e outro sair para a mata. Eu já havia crescido o suficiente para saber lidar com a floresta e os perigos em todas as partes. Algumas vezes, vi outras vítimas do coronavírus perdidas no bosque com aquele comportamento anormal, mas, na maioria das vezes, tentava evitar algum tipo de confronto, ao imaginar que mais cedo ou mais tarde o papai encontraria um deles e mataria logo em seguida. Às vezes, nós ficávamos até dois dias para tentar encontrar o que comer, dado que nem sempre raízes e frutas conseguiram manter os nossos corpos fortes para mais uma luta. Quem saiu com a intenção de capturar algum animal foi ele. Eu esperaria que durasse pelo menos dias fora, mas nem ficou dez horas para voltar novamente.

O alerta das latas, presas em algumas árvores, despertaram-me devidamente armado e apontando o rifle de caça pela janela. Era o papai, as suas roupas foram as primeiras coisas que eu conheci, mas o seu comportamento não era o mesmo. Nunca tropeçou nas próprias latas, que foram colocadas para alarmar qualquer tipo de movimento do lado de fora. Achei que estivesse ferido por conta da dificuldade que estava arrastando os seus pés, mas não, não mesmo. A dez metros de distâncias, perguntei para o papai se estava tudo bem. Percebi os seus lábios quando tentava falar, e ele tentou obedecer automaticamente. O seu gemido era enjoativo em cada momento que arriscava se pronunciar, suas respostas estavam lentas demais. O mais próximo que chegava era de uma criança empenhando-se para soletrar, como se tentasse aprender a comunicasse comigo pela primeira vez. Quase no mesmo momento, a sua cabeça começou a movimentar de forma exagerada e a sincronia do seu corpo parecia entrar em um curto-circuito de gestos involuntários.

E, naquele momento, eu sabia o que fazer, o meu dedo estava pronto e eu não podia hesitar mais nenhum segundo. Um estalo abafado silenciou mais uma vez aquele momento, e ele cambaleou duas vezes até caí.

Autor: Sinistro

5 comentários:

  1. Sempre pedem para as minhas criticas serem construtivas.
    Vou tentar ser educada aqui.
    Esse conto está mal escrito, mais ua vez esse utor trouxe erros de ortografia primarios, mesmo depois de todos os avisos para prestar a atenção nisso.
    A historia do conto não é ao menos original, já que é uma releitura de qualquer situação apocaliptica. O elemento surpresa é nivel zero, porque todos os personagens seguiram o padrã: apresentar sintomas e ser morto em seguida. E agora, algo muito sério precisa ser dito: associar uma história de ficção com uma situação de pandemia real é algo muito delicado. Você pode abordar o terror de um vírus, mas ao tratar de um vírus real, é preciso assumir a responsabilidade de não propagar nenhuma ideia fantasiosa, isso legalmente falando. Quando você fala sobre o coronavírus em uma história em que pessoas chegam a um ponto da infecção que precisam levar tiros na cabeça, você está cometendo um crime. Não se pode colocar o coronavirus como algo além de uma doença, nem na fantasia. Isso é um crime. E vale a pena convalidar um crime, por uma obra tão ruim? Quer escrever sobre esse tema, é claro que pode! Mas não misture os termos reais com uma ficção, sem nem ao menos ter um enredo, uma ideia original, ou algo que possa ser defendido. Foi mero oportunismo de um semi analfabeto mediocre, que por saber enfileirar letras se considera escritor. Essa é minha opinião sendo educada. Se querem ver como sou sendo mal educada, mantenha isso no blog.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Todo mundo sabe que isso é fantasia (quem não, vai acabar matando alguém até assistindo Bob Esponja).

      Excluir
    2. Acompanho o blog desde 2012 e é triste ver como está hoje. Achei a história bem fraca mesmo, como você mesma disse, apenas uma história de apocalipse sem originalidade alguma embarcando numa pandemia real.

      Excluir
  2. A história estilo The Last of Us é boa, embora o final triste. Seria melhor com uma parte 2.

    ResponderExcluir