Tocados por Satã

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PARTE 1

Estamos no quarto, mal conseguimos respirar. Temos medo. Medo de chamar atenção. O melhor é ser invisível. Olho para Pedro. Ele se esforça para parecer impassível. Ele não gosta de demonstrar qualquer emoção. Não sei o que ele pensa. Se está arrependido de ter vindo para cá.

- Mãe ... - diz a voz estridente de Joana.

- Xiiii! Já disse que não é para falar - Sussurro para ela. Olho em seus olhos e na direção das três outras crianças que me olham assustadas. Ninguém diz mais nada.

Do lado de fora ouvimos gritos, pedidos de ajuda. Não nos mexemos. Mal respiramos. Só quero ir embora daqui, o que eu preciso fazer....

Meus pensamentos são interrompidos por uma batida na porta. Uma após outra a batida continua. Ouvimos a voz de Joaquim. Pedro se levanta, trocamos um olhar e ele vai até a sala. Tranco a porta do quarto. Na minha mente vem as imagens de tudo que aconteceu no dia anterior. Sinto medo. Todos nós trememos. Olho no quarto e coloco as crianças debaixo da cama. Isso é tudo que posso fazer para protegê-los.

Encostada na porta ouço vozes e logo os dois saem.

***

O que está acontecendo em Mourinhos é algo único, isso é certo. É impossível não reconhecer isso. Pedro viu com seus próprios olhos quando Joaquim ressuscitou a Eva, esposa de Lauro, seu primo. Pedro viu Joaquim fazer Sebastião voltar a enxergar. Ele sabe que é graças a Joaquim que as colheitas estão sendo abençoadas. Então porque Pedro sente que a algo de errado? Joaquim sempre diz que tudo tem seu preço, que é preciso se dedicar de todo corpo e alma e que Deus irá recompensar isso. Mas parece que o preço está sendo alto demais ultimamente.

Finalmente eles param de caminhar. Chegaram.

Pedro se lembra do dia que chegou em Mourinhos. Se lembra de quando ele próprio abriu espaço em meio a mata, para poder construir aquilo que se tornou a igreja. Olha pro chão de terra e vê as três trilhas. Uma de Mourinhos, outra Ubiracaba e a terceira de S. João Negro, os três pequenos vilarejos que se deslocavam toda semana para assistir os cultos ali. Pedro preferia pensar nessas coisas ao invés de focar no que estava acontecendo na sua frente.

Algumas pessoas estão gritando e outras chorando, mas a maioria permanece calada. Manuel e Carlos seguram Leila pelos braços.

- Hoje é dia de purificar! - Joaquim grita - Por que amanhã o Senhor vem!

É sabido que Leila havia sido tocada por Satanás, Dulce havia visto o demônio entrar no corpo da jovem. Eles querem salvá-la. Pedro pensa e fica repetindo isso para si mesmo.

Ela é deitada, nua no chão e é alvo de vários pontapés. Joaquim sobe por trás dela e começa apertar o seu pescoço, diz que o diabo irá ter que sair, mas não é fácil, ele é muito ardiloso.

Carlos diz para as pessoas começarem a orar e elas oram. Pedro olha para aquilo, mas não acredita que está acontecendo de verdade.

A garota para de se mexer. Está desmaiada ou morta. Algumas pessoas gritam, mas logo se calam quando Carlos e Manuel as empurram para frente.

- Devemos nos preparar irmãos... O diabo anda rondando procurando quem possa tragar. Devemos nos manter firmes, vigilantes e procurar purificar nosso corpo e alma.

Dona Dulce vai para o centro do lugar e repete a revelação que havia tido no dia anterior.

Pedro continua parado em frente a única porta do local, de guarda.

- Cadê Priscila? - pergunta João.

Pedro não responde, parece que perdeu a capacidade de falar. Sua mente está atordoada por tantos pensamentos. Olha para o corpo de Leila, definitivamente ela está morta. Acima de tudo sente culpa. Culpa por ter desonrado aquela garota, por ter traído sua esposa... Por não ter impedido a morte dela. Lembra de Leila, dos seus encontros escondidos. De seus beijos, seus toques... Agora ela estava morta. Seus pecados também são muitos e ele sabe que Joaquim estava tentando salvar a alma dela, expulsando o demônio. Ele prende a respiração. O que é isso que está sentindo? Dúvida, ele diz para si mesmo após pensar um pouco.

Seus pensamentos se dispersam com a gritaria mais a frente. Uma mulher com bebê no colo grita. Joaquim tenta tirar o bebê dos braços dela, outro homem está jogado no chão, sangrando. A mulher grita. Dulce começa a orar, quase gritando, pedindo forças a Deus, para continuarem perseverando. O bebê é arremessado, começam a bater na mulher sem parar. Sem parar para pensar, Pedro corre para longe dali.

***

A porta de casa se abre de uma só vez e Pedro entra.

- Priscila!

Saio do quarto correndo do quarto, vou até ele e o abraço.

- Vamos sair daqui - ele diz - ir embora desse lugar.

Me surpreendo tanto que levo alguns segundos para responder.

- Mas você...

- Eu sei tudo que já disse. Não sei se dá tempo de arrumar as coisas, pega as crianças e vamos sair...

- Temos que ir a cidade - digo - chamar a polícia.

- Sim, sim, mas vamos logo!

Corri para o quarto.

- Vamos! Sai de baixo da cama, quietos!

Os quatro saem e ficam olhando para mim. Eles estavam ontem na clareira...

Josué começa a chorar e logo os outros estão chorando também. Não tenho tempo para isso. Empurro eles em direção a sala. Pedro pega as duas meninas e eu agarro os meninos pelo pulso...

- Pedro - ele olha para mim e continuo - isso não vai dar certo. É melhor um de nós dois ir e chamar a polícia. Melhor eu ir. Você fica aqui e se perguntarem por mim diz que estou doente ou fugi, não sei. Eu volto com eles.

Não vamos conseguir correr com essas crianças e pior se formos pegos...

- Você não conhece o caminho pela mata - ele diz - só o da trilha e se for pela trilha eles vão te achar rápido.

Paramos de falar. Precisamos prestar atenção se há alguém em volta. Vamos até a janela, mas é claro que não há ninguém andando... estão todos escondidos. Saímos. Corremos em direção a mata. Quando chegamos já estou sem folego. Andamos até o cair da noite. Tento não pensar nos animais que podem ter ali, Pedro está acostumado a entrar na mata, caso apareça algum bicho ele pode nos proteger.

Acabamos parando e sentando para descansar.

- To com fome! - reclama Maria.

- Vai ter que esperar um pouco, falta pouco pra gente chegar na cidade.

Minha mente voa enquanto olho para Pedro. Durante todo tempo que moramos em Mourinhos, sua fé no profeta Joaquim era inabalável. Nossa vida juntos se resumia em promessas e arrependimentos. Não sei porque ele decidiu fugir. Não sei se vamos conseguir chegar na cidade e denunciar, se Joaquim vai ser preso ou vamos acabar mortos. Sei que eu nunca deveria ter aceitado vir para cá, junto com ele. Me lembro do dia em que ele chegou dizendo sobre vir para Mourinhos, sobre ficar aqui uns tempos, ganhar dinheiro suficiente para abrir uma lojinha na cidade. Achei besteira, mas a ideia não saia da cabeça dele e de tanto insistir acabei pensando que talvez fosse uma boa ideia. Bem, isso foi uma péssima ideia.

***

Pedro percebe quando Priscila caí no sono, ele não consegue parar de olhar para ela. Fica feliz por ela não ter ido até a igreja pela manhã, não ter visto toda aquela violência. O que aconteceu na clareira já foi demais para ela e para as crianças também. Não conseguia parar de pensar em Leila, mas não de uma forma romântica. Seu corpo ensanguentado não saia da sua cabeça e sentia como se fosse cúmplice do seu assassinato, já que não tinha feito nada para impedir.

Assassinato

Agora que havia se afastado da aldeia podia pensar claramente. Via como Joaquim estava usando aquela desculpa de purificação para matar Leila. O povo falava que os dois estavam para se casar... Deve ter descoberto que ela não era mais virgem, ela contado sobre o caso dos dois... Por isso havia sido chamado a igreja naquela manhã.

Isso só não explica todo o resto. A purificação não começou com Leila, havia começado no dia anterior, na clareira. Uma parte da mente de Pedro não queria pensar que o profeta estava usando de artimanhas mesquinhas para fazer sua vontade, que as visões de Dulce iriam acontecer e aquilo era realmente necessário.

Não sabe em que momento dormiu. Acordou com barulho de vozes e passos. Levantou e acordou Priscila e as crianças. Correram. Só conseguia sentir raiva, não deviam ter parado, deviam ter seguido até achar a cidade, agora estavam perdidos. Corriam sem rumo, mata a dentro, com homens bem atrás deles. Agora conseguia ouvir as vozes claramente. Quando estava tentando identificar de quem era aquela voz, sentiu uma pancada na cabeça e tudo se apagou.

PARTE 2

Estavam amarrados, jogados no quanto de uma sala. Carlos tomava conta para que não fugissem. Ele era um antigo conhecido da família, foi ele que convenceu Pedro a largar tudo na cidade e vir para o meio do nada, para um lugar que os faria ricos. A riqueza não chegou, nem de longe, e agora Carlos se virou contra eles. Parecia pronto para matá-los, se fosse necessário.

A pancada que levou, eles a jogarem do alto e também as cordas, tudo isso fazia com que seu corpo sentisse muita dor, mas não pensava nela naquele momento, pensava nas crianças. Elas estavam encolhidas, abraçadas. Olhavam com olhos arregalados, esperando por alguma resposta que Priscila não podia dar. Devem estar com fome, pensou. Com sede, com medo... Não poder fazer nada a deixava arrasada.

Me viro na direção de Pedro apenas para ver o vazio.

***

Irmão Manuel falou que tem um demônio em sua casa, na sua filha. Ele mesmo foi correndo até o profeta pedir sua ajuda. O que aconteceu um pouco mais cedo não sai da minha mente, eu não consigo deixar de ver por um segundo. Isso explica o que estou fazendo aqui, numa clareira no meio da floresta, queimando o corpo de Amélia, filha de seu Manuel. Eu vejo a gente chegando em sua casa. Dona Dulce na frente, Joaquim atrás dela. Eu e outros fomos também, Joaquim disse que fazia questão da minha presença ali. Não consigo deixar de ouvir seus gritos, e agora o cheiro de sua carne queimada está em todo lugar.

Estou quase vidrado olhando para o fogo quando começo ouvir vozes. Me concentro, tentando entender e quando consigo, sinto meu coração gelar. Eu e Sebastião nos entreolhamos.

- Vai demorar horas até terminar... é melhor eu ir indo na frente, preciso saber o que está acontecendo.

Virei as costas e sai. Quando estava do alcance de visão de Sebastião comecei a correr.

***

Tivemos um pequeno momento de paz antes de tudo recomeçar. Assim que a gritaria, que depois percebi que vinha da casa de Seu Manuel passou, ficou um silêncio enorme. Aquele tipo de silêncio onde todos parecem prender a respiração e aguardar por algo que vai acontecer.

Algumas horas depois, quando eu fui acordada do meu cochilo. Joaquim estava do lado de fora, ele e outros convocavam a todos a saírem para a rua porque o momento havia chegado.

O momento chegou.

Meu coração se acelera enquanto falo na minha voz mais tranquilizante, dizendo que vai ficar tudo bem, que logo isso tudo vai passar.

Quando vejo Carlos desamarra a corda que prende minhas pernas. Por alguns segundos tenho esperança que ele vai dizer para eu fugir, correr o máximo que posso, mas não é isso que acontece. Ele me puxa pelos braços e me põe de pé, faz o mesmo com as crianças.

- Vamos, ande!

Caminhamos para a porta e saímos. Quase todas as famílias estão do lado de fora de suas casas. Olho com atenção e percebo que em várias, faltam pessoas, algumas fugiram, outras estão mortas. Todos olham para nós. Logo começa uma celebração, hinos são cantados. Apesar de tudo parecem estar gratos, ansiosos. Devem pensar que há um custo a se pagar, mesmo que alto irá valer a pena. Queria tanto acreditar nisso! Seria muito mais fácil. Eu consigo ver alguns olhares céticos, mas que logo são disfarçados. Não sou a única pessoa a desconfiar de Joaquim, mas apenas eu e minha família fomos presos e amarrados por isso.

- Nos últimos dias nos preparamos. Nossa querida irmã Dulce teve uma visão, que todos já conhecem, mas quero falar novamente, os detalhes precisam estar bastante acesos em nossos corações para não restar dúvidas que todo nosso sacrifício não é em vão. Irmã Dulce viu, bem ali na Clareira, um anjo do senhor. Ele disse para ela que dali a três dias, nós iríamos subir aos céus, mas antes disso tínhamos que nos purificar. Tirar de nosso meio todo aquele que havia sido tocado por Satã. Ele nos disse sobre os sacrifícios finais, aqueles que seriam feitos no dia e que iriam chamar atenção de nosso Senhor. Durante algum tempo refleti sobre isso, tentando entender, mas logo a resposta surgiu diante de meus olhos. Então, irmãos, devemos caminhar, louvando e agradecendo. O momento tão esperado chegou!

Enquanto Joaquim falava, algo me chamou a atenção: Pedro.

Ele acabou de chegar. Não vem em nossa direção, continua parado ao longe olhando para nós. Minha dor agora não é apenas física. Esperava que quando ele chegasse viesse correndo para mim, tirasse essas cordas que me prendem... Foi apenas uma esperança idiota.

Joaquim continua falando, mas não presto mais atenção. Só percebo que nos empurram para frente, começamos a andar. Joana tropeça em suas pernas e caí, rala seus joelhos e começa a chorar. A puxam pelos bracinhos, é colocada de pé e volta a caminhar, mesmo mancando. Vamos na frente, o resto das pessoas atrás. Sei exatamente para onde estou sendo levada. Vamos para a clareira, o lugar onde começou tudo.

***

Não posso. Parar. De. Correr.

Não posso, nem por um minuto, é tudo que consigo pensar.

Meu corpo não me obedece. Começo a ficar com falta de ar, minhas narinas ardem. Abandonei aqueles que mais me amavam, aqueles que dependiam de mim. Quando vi minha esposa e as crianças amarrados como criminosos, senti uma vontade enorme de correr para desamará-los e fugir, mas eu sabia que isso nunca daria certo. Nunca conseguiria chegar perto deles e muito menos fugir dali, com todas aquelas pessoas sendo verdadeiros soldados de Joaquim. Sei que agi certo, aquela foi a única oportunidade, mas mesmo assim me sinto horrível. Acabo cedendo e descansando por alguns minutos. Respiro fundo. Tento pensar no que vou falar quando chegar na cidade, mas não consigo raciocinar com clareza, tudo se confunde em minha mente. Fecho os olhos tentando me concentrar e vejo o rosto de Priscila, de Joana, Josué, Maria, e Miguel. Vejo também Amélia gritando, pedindo pela sua vida. Lembro de Leila e da culpa de ficar com ela e de vê-la morrer e não fazer nada para tentar impedir. Aqui estou eu fazendo isso de novo. Me levanto, os pensamentos estão perigosos demais, se não me levantar agora e continuar, posso nunca mais conseguir.

***

Olho para os rostos ao redor. Todos cantam, com suas mãos estendidas para o céu.

- Devemos entregar nossos corpos como sacrifício vivo - diz Joaquim.

Olho de rosto para rosto.

- Joaquim, por favor! São crianças!

- Silêncio! - alguém me diz e sinto um tapa no rosto. É tão forte, o sangue escorre pela minha boca. Continuo pedindo pela vida deles, até que recebo um chute que me faz curvar. Fico sem ar por alguns segundos.

- O momento final chegou, irmãos - Joaquim repete.

Parece que toda voz foi tirada de mim. Não consigo gritar ou correr, só fico encarando todos com um olhar bestificado. Digo a mim mesma que deve ser um pesadelo, coisas assim não acontecem de verdade. Dou um último olhar para as crianças que estão sendo seguradas por pessoas da congregação. Fico com lágrimas nos olhos ao ver que ao contrário de mim elas são bastante valentes. Lutam com todas as forças para sair, gritam ameaças e chamam meu nome. Querem me libertar daqui.

Sou colocada deitada em uma pedra, cordas prendem meus braços e pernas a árvores.

A pregação continua.

- O preço é sim muito alto, mas a recompensa será ainda maior.

Então todos deram as mãos e por alguns instantes ninguém falou nada, o silêncio era quebrado apenas pelos gritos das crianças.

Então Joaquim começou a orar.

Penso em Pedro, na saudade imensa que sinto dele, na segurança que sinto toda vez que estamos juntos, por mais difícil que a situação esteja. Mesmo sabendo que é melhor ele não estar aqui, eu só consigo pensar no quanto queria ver ele uma última vez. Queria poder ver as crianças crescerem livres, bem longe daqui. Queria tanto viver! Me sinto arrependida, penso que poderia ter lutado mais, ter fugido antes dali, em alguns segundos muita coisa se passa pela minha cabeça, até que tudo se evapora.

A oração acabou. Dulce caminha em minha direção com uma facão. Começo a me debater, mas não consigo sair do lugar. Não vejo acontecer, apenas sinto. Meu pescoço arde, vejo meu sangue saltar em jato. Achei que iria doer mais. Meu coração se acelera pela última vez. Começo a sentir meu corpo cada vez mais fraco.

PARTE 3

Estou aqui no lugar onde tudo começou. A purificação. Não sinto medo, raiva ou qualquer outra coisa, não fui nem mesmo surpreendido com o que vi. Olho ao redor e vejo os rostos de meus vizinhos e amigos.

Minha esposa está presa, amarrada numa pedra. Ela está pálida, sem cor. Gelada. Seu sangue está no chão a sua volta. Vejo outros quatro altares de pedra ao seu redor. São menores do que o dela. Ao redor deles estão todos os outros, caídos no chão. Pendurados em árvores vejo Joaquim e Dulce.

Todos estão mortos.

Todos.

EPÍLOGO

"Hoje, o suicídio coletivo da comunidade de Mourinhos completa um ano. Preparamos um documentário especial sobre o caso que mais chocou o país."

Desligo a tv. Andressa aperta meu braço como que para mostrar que está ali comigo.

- Eu fico tão triste quando penso em tudo que você passou! - ela me diz.

Não foi fácil mesmo. Perder minha esposa, meus filhos de uma forma tão trágica, foi horrível.

- Tudo bem... Eu sei que fiz tudo que pude, espero que eles estejam com Deus agora.

Ela balança a cabeça concordando.

Fico feliz de, apesar de tudo, ter encontrado uma garota tão boa quanto ela, que tem me ajudado a superar tudo. Respiro fundo e ligo novamente a televisão. Vejo meu próprio rosto na tela.

"Decidi escrever esse livro como uma forma de desabafar, de contar ao mundo o que realmente aconteceu, jamais minha intenção foi a fama ou ganhar dinheiro em cima da morte da minha família, como muitos me acusam. Fico feliz que as pessoas tem se interessado pelo que aconteceu e espero honrar a memória de minha falecida esposa e dos meus filhos e que eles nunca sejam esquecidos."

O lançamento do livro foi planejado para um mês antes do aniversário da tragédia, segundo o agente isso iria chamar mais atenção. O livro Mourinhos - Relato sobre o maior suicídio coletivo do Brasil, se tornou um grande sucesso, logo entrando para listas de mais vendido no país.

Me levanto e vou até o lado de fora. Sento num banco. Por alguns instantes me permito pensar nas crianças, que iriam adorar brincar, correr por todo aquele quintal enorme e subindo nas árvores, em Priscila que estaria ali também, inventando alguma brincadeira e me chamando para perto. Não, essas lembranças são mortais. Se eu decidi viver tenho que seguir adiante, custe o que custar.

Autora: Anne Lopes

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