26/04/2017

A Coisa Embaixo da Paulista (Parte 1)

Passei por grandes dificuldades quando minha empresa faliu. Ela era muito conhecida em São Paulo, e eu acumulei algumas dívidas com agiotas e passei a fugir e a me esconder. Minha família mora fora do país e não faço contato com eles há muitos anos, e desde então, todos estão acima de mim, andando sobre a minha cabeça enquanto penso em uma maneira de fazer contato sem que muitas pessoas me vejam. Agora são 12h e as pessoas estão saindo do trabalho para irem almoçar.

É grotesco morar no esgoto. Se encontra de tudo aqui, até mesmo fetos e ossos humanos, sem contar que a única coisa que se tem para comer aqui são ratos imundos e alguns insetos amargos. Aprendi a lidar com a escuridão também, mas antigamente dava um jeito de assustar algum trabalhador da manutenção para que ele deixasse cair o capacete com a lanterna. Algumas vezes era divertido.

O cheiro é a primeira coisa com a qual me acostumei, porque o pior mesmo é pegar no sono e acordar com o som dos canos e levantar rapidamente para procurar um lugar onde a água não te leve. Só saio quando tenho muita vontade de comer algo que não seja ratos e insetos, e fico fuçando o lixo de uma lanchonete nas proximidades e sempre tem umas batatas fritas sobrando e restos de hambúrguer.

Eu não era o único aqui embaixo. Havia mais pessoas no esgoto, mas elas foram sumindo à medida que tentaram seguir os sons que saíam dos canos mais profundos. Dá para escutar melhor durante a madrugada quando o fluxo do transito é menor. São urros assustadores, não me parece humano. Escutar esse urrar durante a escuridão me dá sempre a sensação de que posso desaparecer a qualquer instante. A escuridão já não me assusta há muito tempo, mas essa coisa...

Você deve estar se perguntando o porquê de eu nunca ter saído daqui e tentado arranjar um outro emprego... Eu tentei, mas quando os agiotas invadiram a empresa para me matar, eu estava sozinho e minha única rota de fuga foi o esgoto. Bati com a cabeça e só lembro de ter acordado coberto por um líquido acinzentado que me fez enjoar por várias horas.

Naquela mesma noite, as mudanças começaram. Meu corpo se encheu de pelos e meus dentes ficaram menores, mas o pior de tudo foi a cauda que cresceu no fim da coluna. Virei uma aberração, um tipo de rato humano. Mas as pessoas não devem temer a mim, elas só precisam saber que há algo enorme no subsolo da cidade que está esperando o momento certo para se levantar e engolir metade da cidade, engolir da mesma forma que fez com as outras pessoas que viviam aqui.

Talvez essa coisa espalhe aquele líquido, talvez as outras pessoas também tivessem essa mutação. Acho que essa coisa gosta de nos deixar com a aparência frágil para ser mais divertido nos devorar. Faz uma semana que estou criando coragem, preciso explorar aqueles canos mais profundos e ver o que tem lá embaixo, não posso ficar aqui parado sem fazer nada, estou cansado dessa vida inútil.

Amanhã vou acordar cedo e explorar antes de escurecer. Aquela coisa só acorda durante a noite quando sente fome e sede, e não quero estar lá nessa hora.


(Continua...) 

(A parte 2 ainda sem previsão, espero que gostem, estou investindo bastante tempo e procurando aprimorar, a próxima parte vai ser maior.) 

Autor: Andrey D. Menezes. 
Revisão: Gabriela Prado <3 

23/04/2017

Monstros Em Meus Ombros - Capítulo 7

Capítulo 7 - Tem Alguém Chorando Atrás da Porta

Tudo o que eu era capaz de ouvir quando abri os olhos era uma perturbadora e enjoativa música, tão alta que chegava a ser ensurdecedor. Era como aquelas músicas de filmes mudos, como os do Charlie Chaplin ou daqueles desenhos clássicos, como o Pica-Pau ou Tom & Jerry. Minha visão embaçada gradativamente foi ficando clara, revelando uma paisagem macabra em movimento. A janela do carro me permitia ver uma cidade em ruínas. O que aconteceu aqui? O que eu estou fazendo aqui? Era como se uma guerra nuclear houvesse acontecido e tivéssemos voltado ao velho oeste.

O carro parou e a cidade fantasma que antes se movimentava parou junto. A janela agora me permitia olhar o que um dia possivelmente foi uma loja de roupas. A vidraçaria destruída da vitrine e a escuridão da loja faziam com que os intactos manequins que estavam sentados em poltronas desgastadas, como uma família assistindo televisão se destacassem. Seus olhos eram sem brilho e suas faces sem expressão, mas de alguma forma, eu conseguia sentir seus olhos presos em mim, carregados de pavor, como se quisessem correr ou me avisar sobre algo. Perdi-me em meus pensamentos e por um segundo, pude ver meu reflexo na janela. Senti meu coração acelerar e minha expressão ficar como a dos manequins quando me dei conta de que não estava sozinho.

Virei-me instintivamente e então pude ver claramente aqueles que me faziam companhia. A música ficou mais intensa. Haviam dois homens mascarados sentados ao meu lado no banco de trás, um no banco do motorista e outro no carona. Todos me olhavam fixamente, com uma atenção desinteressada, como severos e entediados jurados de um reality esperando o candidato assustado fazer o que estava ali para fazer. Sutilmente, levei lentamente uma de minhas trêmulas mãos à maçaneta da porta do carro, com os olhos presos no homem ao meu lado. Puxei-a bem devagar para que não percebessem minha tentativa de fuga, mas a porta não abriu. Claro! É claro que a porta estaria travada, seu idiota. Todos no carro começaram a rir, exceto o homem ao meu lado, que ergueu o indicador e o balançou de um lado para o outro como quem diz “Não”. Era apavorante assisti-los. Os homens que riam não emitiam som algum, eu não conseguia ouvi-los. Eles se contorciam e reviravam seus olhos que lacrimejavam de prazer, como se estivessem possuídos e ao mesmo tempo tendo um orgasmo. Foi então que percebi que nada mais emitia som, nem mesmo eu. Eu já não conseguia ouvir mais nada. Nada além daquela maldita música que deixava tudo ainda mais perturbador.

- EU QUERO SAIR DAQUI! – Gritei, ou pelo menos tentei; forçando a porta na tentativa de abri-la.

- Ninguém vai te ouvir, garoto! – Pude ouvir meu inconsciente dizer.

Os homens continuavam a rir. O homem ao meu lado continuava a balançar o indicador. A música continuava a tocar. Uma onda de desespero caiu sob mim.

– POR FAVOR, EU QUERO SAIR DAQUI! EU QUERO SAIR! EU QUERO SAIR! EU QUERO SAIR!

Quando o desespero tomou conta de cada célula do meu corpo, gerando uma descarga de adrenalina, nada além de abrir aquela maldita porta importava. De tanto força-la, ela finalmente cedeu, mas não como se tivesse quebrado, mas sim como se tivessem me permitido sair. A porta abriu e eu dei de cara no chão de terra com as mãos agarradas a maçaneta. Recompus-me imediatamente e bati a porta com toda a força que eu tinha para ganhar um tempo e correr dos homens. Mas, antes que eu me levantasse, o som dos homens se espremendo contra a janela do carro prendeu minha atenção neles. A graça parecia ter chegado ao fim. Seus olhos transmitiam seriedade enquanto me observavam rastejar desesperadamente para longe. Um deles, que parecia ser o homem que antes estava ao meu lado, bafejou na janela e com o dedo indicador escreveu no embaçado do vidro: “Corra”. A música parecia ter chego ao seu ápice.

Levantei-me imediatamente e corri, desajeitadamente aos tropeços, em uma direção aleatória, sem nenhum rumo aparente. Uma nova música se iniciou ao longe. Espera ai, espera ai, Matt... Que merda é essa? Algo estranho havia acontecido. A loja, os manequins, a cidade, o chão de terra, o carro, os homens... Tudo... Tudo havia desaparecido. Eu já não estava mais em uma cidade em ruínas, estava em um lugar totalmente diferente agora. Um lugar no qual a escuridão tomava conta. Olhei em volta, mas não consegui ver nada, nenhum sinal, nenhuma silhueta, apenas escuridão total. A música foi ficando mais alta. “TAM” a música fez e algo retangular surgiu a minha frente, emitindo uma forte luz branca. “TAM, TAM, TAM, TAM, TAM”. A sala toda se acendeu. Meu corpo estremeceu. Era uma enorme sala preta repleta de espelhos. A princípio, todos eles refletiam a mim, como câmeras de segurança de uma loja no monitor de um caixa, mas logo os espelhos passaram a mostrar como as enormes telas da Times Square, os homens mascarados. Eles riam loucamente, como riam no carro. A sensação de estar encurralado e incapaz, somados a incerteza do fim de tudo o que estava acontecendo fizeram com que eu chegasse ao meu extremo de pavor. Quando me dei conta, meu rosto estava encharcado de lágrimas e o meu corpo correndo desesperadamente sem um rumo aparente. Ninguém podia me ouvir. Eu não podia me ouvir. Não tinha mais o controle do meu corpo. Os olhos lacrimejantes e carregados de loucura dos homens me perseguiam.

“TAM”, “TAM”, “TAM”. Tudo se apagou. Um silêncio surgiu. Meu corpo parou e meus olhos se prenderam à escuridão atrás de mim, buscando nela alguma razão, algum movimento, qualquer coisa que fosse para voltar a correr. “TAM”... “TAM”... “TAM”... A música retornou mais intensa, como um ziguezague sonoro. O que antes eram espelhos, agora se transformavam em grandes portas brancas de madeira conforme o ritmo da música. “TAM”... “TAM”... “TAM”... Silêncio e escuridão. “TAM”... “TAM”... “TAM”... As portas se abriram trazendo uma fraca luz ao corredor de portas. “TAM”... “TAM”... “TAM”... Os homens saíram delas. “TAM, “TAM”, TAM”. As luzes começaram a piscar. “TAM, “TAM”, TAM”. Agora, cada um dos homens carregava em uma das mãos uma diferente arma branca letal. “TAM, “TAM”, TAM”. Todos eles começaram a correr em minha direção. Uma sinfonia macabra se iniciou. Eu voltei a correr.

Homens mascarados correndo atrás de mim, homens mascarados saindo de dentro de portas a minha frente. Eles apenas esperam que eu passe por eles para se juntarem a multidão enfurecida. É um comportamento estranho, já poderiam ter me pego, mas parece que não é o que eles querem. Estou confuso. Já não sinto mais minhas pernas, não sinto o controle sobre nenhum músculo. Não consigo me imaginar parando de correr, é como se eu tivesse perdido essa habilidade. Os homens não parecem se cansar.

Depois de um tempo, tudo o que estava acontecendo parecia ter entrado em um loop infinito. Até que finalmente o corredor de portas parecia estar chegando ao seu fim. As luzes foram sendo deixadas para trás, dando lugar novamente a escuridão total. Eu continuo a correr, mesmo contra a escuridão. Olho para trás e não consigo mais ver os homens atrás de mim. Toda a luz se foi... Talvez isso signifique o meu fim.

Meu corpo já não aguentava mais tudo aquilo que estava acontecendo. Minhas pernas pararam de funcionar por um momento, fazendo com que eu tropeçasse e mergulhasse na misteriosa escuridão. Vamos, Matt! Levanta! Usei toda a força que me restava para me arrastar no chão e continuar fugindo. Meus cotovelos ardiam, minhas pernas tremiam. Sinto cada centímetro do meu corpo queimar. Meu coração parece querer arrombar minha caixa torácica. Ouço o som de passos frenéticos ao longe, como os de um exército se aproximando. Uns estalos de eletricidade na escuridão acima de mim revelam duas telas. Uma no canto esquerdo e outra no canto direito. Ambas mostram uma seta brilhosa, como aquelas em letreiros de casinos em Las Vegas. Elas dizem: “Siga em frente”. As setas apontam para um minúsculo feixe de luz a minha frente que há dois segundos não estava ali. Os passos atrás de mim ficam cada vez mais altos. Não tenho outra escolha... Eu preciso continuar. Respiro fundo e me ponho de pé, como se estivesse com uma tonelada em minhas costas. Ofegante, me apoio em meus joelhos. Prendo meus olhos no feixe de luz e me arrasto como um zumbi em direção a ele.

O pequeno feixe de luz se torna maior conforme caminho em sua direção. As setas parecem se mover junto comigo, talvez, como um lembrete de que não devo parar. Os passos atrás de mim já estão tão altos que parecem estar dentro da minha cabeça. Olho para trás e agora consigo ver os homens atrás de mim, como uma horda de assassinos há cinco metros de distância. Eles não estavam mais correndo, estavam andando. Era como se estivessem fazendo algum jogo comigo. Vamos, Matt! Tá quase lá... Vamos! Volto meus olhos para frente, mas não havia mais para onde ir. Meu corpo parou imediatamente antes que pudesse dar de cara com o que estava a minha frente. O pequeno feixe de luz havia se tornado uma porta. Uma grande porta branca de madeira que emitia uma forte luz, como as que antes iluminavam meu caminho e cuspiam homens mascarados. As setas agora diziam “Entre”. Não pensei duas vezes. Abri a porta rapidamente e entrei. Quando virei-me para fecha-la, pude ver a multidão que vinha correndo desesperadamente com machadinhas e facões empunhados em minha direção. Bati a porta com toda a força que o pavor podia me proporcionar e me afastei com os olhos atentos a ela. Pude ouvir o alto som da bruta tentativa dos homens de derrubar a porta.

Tolice a minha, não? Ficar aqui parado, observando, esperando os homens que querem me matar derrubar a única coisa que me garante algum tempo ou uma chance de sobreviver. Eu não sei se é a ansiedade junto da curiosidade de ver o que acontece depois ou se é simplesmente o meu inconsciente pronto para morrer. Eu sei que quando essa porta se rachar, eu vou correr. Mas por que não correr agora? Por que o meu corpo não me ajuda?

- Vai ficar tudo bem, filho! – Ouvi uma voz familiar ecoar de longe.

Olhei para trás e de repente percebi algo que não tinha percebido antes. Não tinha mais música tocando, não tinha mais homens batendo na porta. Eu não estava mais na escuridão... Eu estava na minha antiga casa agora.

- Relaxa, tudo vai acabar logo! – A voz continuou a dizer.

A porta que antes me separava dos homens mascarados havia se tornado a velha porta marrom com adesivos de caderno do meu antigo quarto. Eu estava no corredor, que me dava acesso ao banheiro e ao quarto do meu pai. A nostalgia era imensa, o sentimento indescritível. Tenho tantas razões para odiar esse lugar, mas ainda sim, me sinto tão bem aqui. É um sonho? Comecei a caminhar pelo corredor, analisando cada detalhe. As fotografias penduradas na parede, a decoração, o brilhante chão de madeira, o tapete. Cara, eu consigo sentir tudo... Tudo parece tão real... Tudo está exatamente como me lembro! Eu havia entrado em uma espécie de transe. Uma vontade enorme de explorar cada centímetro da casa havia surgido em mim. No entanto, toda a magia se foi quando me aproximei o bastante do banheiro. A luz estava acesa. No fundo, eu sabia o que estava acontecendo. A luz que irradiava por de baixo da porta iluminava o pequeno riacho vermelho que corria do banheiro e descia as escadas. Deixei escapar um suspiro de decepção. Fiquei de frente para a porta, pensando se deveria entrar ou não. O pequeno riacho agora fazia curvas em meus pés. De repente, senti o chão tremer levemente. As paredes começaram a estalar, como se tivesse algo correndo por dentro delas e, então, uma placa, tão brilhosa quanto as setas da escuridão, surgiu em cima da porta. Ela dizia: “Entre”. Resolvi entrar no jogo e mais uma vez obedecer. Levei com receio a minha mão até a maçaneta. Segurei-a, fechei os olhos, respirei fundo e a girei.

Havia um homem sentado em uma cadeira de madeira, de frente para a banheira que transbordava sangue. O homem parecia concentrado naquilo que estava dentro da banheira. Antes que eu pudesse me aproximar ou dizer algo, o som da porta batendo atrás de mim fez com que ele notasse a minha presença. O homem olhou para trás, desinteressado; levantou da cadeira e andou até a mim. Eu já não estava mais entendendo o que estava acontecendo. Ele não era meu pai, mas seu rosto era familiar, eu já vi esse homem antes. Pele branca e cheia de rugas, barba grisalha, cabeça raspada e calva. Seus olhos eram negros e seu corpo medianamente musculoso, devia ter seus quarenta e seis anos. O homem usava uma camisa branca, calça de moletom e seus pés estavam descalços. Ele parou a minha frente, com um sorriso malicioso, quase maligno, enquanto pôs uma das mãos em meus ombros e passou a me analisar, como se já tivesse me visto antes há muito tempo. Trocamos olhares por alguns segundos e então ele simplesmente me deu dois tapas amigáveis no rosto e se retirou sem dizer nada. Olhei pasmo para o homem enquanto ele abria a porta e desaparecia com o fechar dela. Devo ter ficado ali, olhando fixamente para a porta, pensando em tudo o que havia acabado de acontecer por uns dez segundos antes de voltar minha atenção para onde o homem antes estava sentado. Senti um profundo aperto em meu peito. Não era para banheira que ele estava olhando. Aproximei-me, não havia um corpo dentro dela. O sangue que corrompia a água escorria das recém-escritas palavras na parede acima da banheira.

Me perdoe, Ron.

O que tá acontecendo? Quem era aquele homem? Tantas perguntas vieram à mente, mas não tive tempo para refletir sobre elas. A maldita música que antes tocava na cidade voltou a tocar, tão ensurdecedora quanto antes. Pude ouvir o violento som da porta atrás de mim sendo destruída. Virei-me para trás em um salto. A forma como tudo estava acontecendo rápido, fez com que eu sentisse um desespero que nunca havia sentido antes. A sensação de estar encurralado em um maldito beco sem saída a beira da morte é apavorante a outro nível. Meu corpo congelou e tudo o que fui capaz de fazer enquanto os homens mascarados se aproximavam de mim, movimentando-se como macacos e gargalhando como se tivessem vencido o próprio jogo, foi chorar desesperadamente e gritar, suplicando como se fosse mesmo fazer alguma diferença. Mas, eu já não podia mais me ouvir, ninguém mais podia. O homem mais próximo de mim levou sua machadinha ao alto e parecia ter posto toda a sua força no movimento em meia-lua que fez com a machadinha em direção ao meu rosto. Meus olhos se fecharam automaticamente no ultimo segundo.




- Não! – Deixei inconscientemente escapar como um suspiro, abrindo novamente os olhos após minhas mãos involuntariamente estapearem o meu rosto em o que me pareceu uma tentativa de protegê-lo da porra de uma machadinha afiada. Genial!

- Tá tudo bem, filho? – Ouvi uma voz familiar perguntar ao longe.

Olhei em volta, os olhos entre abertos. A claridade da TV não me permitia enxergar mais do que cílios e um fundo embaçado. Eu estava deitado no que parecia ser um sofá. Sentei-me e busquei por um canto escuro para encarar até que a minha visão voltasse ao normal.

- Ei, Matt? – A voz havia ficado mais clara para mim, calma e grave, era o tio Lincoln. – Tá tudo bem? Fala comigo...

- Oi, tio... – Respondi, sonolento, com os olhos fixos no pouco de escuridão que cobria meus pés. – Tô legal, foi só um... Você sabe... Pesadelo e tudo mais...

- Ah, que bom, filho... – Tio Lincoln sorriu. Olhei para ele e sorri também. Mas, por alguma razão, seu sorriso parecia falso e triste. Seus olhos estavam avermelhados e úmidos, como se tivesse chorado por horas. Havia também uma garrafa de uísque quase vazia ao lado de um copo de vidro cheio pela metade em cima da mesinha à frente do sofá em que ele estava sentado. – Você quase me matou de susto!

- Mas e o senhor, tio? – Perguntei, analisando-o. – Você tá bem?

- Tô sim, filho! – Ele forçou um sorriso. – É só esquecermos a parte que acabei de assistir aquele filme sobre... Aquele cachorro, lembra? Que perde o dono e depois fica esperando ele por um tempão na saída do trabalho... Sabe qual estou falando?

- Sim, claro!... – Sorri. – O filme é bem triste mesmo...

- Nem me fala! Vou te contar um segredo, mas não conta para ninguém, muito menos para sua tia... – Tio Lincoln, passou a sussurrar como se alguém estivesse nos observando. – Essa merda me fez chorar igual uma garotinha! – Ele deu uma rápida e baixa gargalhada. Seu hálito estava carregado de álcool e isso me deixou bastante preocupado com ele. Normalmente, o arsenal de bebidas do tio Lincoln servia apenas de enfeite de móvel. Em todos esse anos, nunca o vi tomar se quer uma gota.

- Seu segredo tá seguro comigo! – Sorri e ele também, um sorriso um pouco mais verdadeiro agora.

- Bom, acho vou subir e tentar dormir um pouco! – Tio Lincoln se levantou do sofá e me deu um amigável tapinha no ombro. – Ah, acho melhor você ir dormir no seu quarto, esse sofá não me parece o lugar mais confortável do mundo para se dormir.

- Tá bom, pai! – Disse, lançando um sorriso a ele. Pude sentir um sincero sorriso se abrir em seu rosto antes que começasse a subir as escadas. Essa tinha sido a primeira vez que eu havia o chamado de pai, e mesmo que tenha sido só de brincadeira, parecia ter tido um efeito positivo sobre ele.

Peguei o controle da TV e deitei-me novamente no sofá. Fui passando os canais, não havia nada de interessante passando, então deixei no Cartoon Network mesmo, que era o meu canal favorito, apesar da minha idade. Deixei os comerciais aleatórios que estavam passando como plano de fundo e tateei os bolsos procurando pelo meu celular. Eram três e quarenta e cinco da manhã. Nenhuma mensagem, nadinha. Não me lembro em que momento do dia me deitei aqui no sofá e morri até às três da manhã, nem mesmo de qual foi a última coisa que fiz antes de dormir, mas sabe quando você tem a sensação de que desapareceu por um milênio e quando olha em volta percebe que ninguém sentiu a sua falta? Pode parecer meio dramático, mas é assim que estou me sentindo. Larguei o telefone de lado e voltei a minha atenção para a TV. Coincidência ou não, estava passando Tom e Jerry.

[...]

Eram seis horas da manhã quando o relógio despertou. Levantei-me da cama e fui em direção ao banheiro. Antes de chegar totalmente perto da porta, pude ouvir alguns ruídos estranhos vindo do lado de dentro. Aproximei-me lentamente, encostei o ouvido na porta e foquei toda a minha atenção no ruído. Havia alguém chorando atrás da porta e considerando que a tia Cassie estava trabalhando a esse hora, só podia ser o tio Lincoln. Ouvi o som da torneira sendo ligada e disparei para as escadas que levavam para o andar de baixo, onde também havia um banheiro.

Escovei os dentes, tomei um banho e comecei a me arrumar para a escola. Depois de estar pronto, fui até a cozinha, abri a geladeira, peguei uma caixa de leite e um pedaço de bolo que havia sobrado da festa surpresa e me sentei na mesa de jantar. Fiquei sentando lá, alternando entre o telefone e o nada por uns cinco minutos antes do Dave mandar uma mensagem.

@Dave: O Senhor supremo das Trevas

- Sinto muito informar a todos vocês, mas hoje, meus caros amiguinhos, não vai ter aula! Sejam eternamente gratos por eu ter acordado cedo, tão cedo ao ponto de descobrir isso antes que vocês pudessem pensar em acordar. Tenham um ótimo dia de faxineiras e escravas hoje! Beijo na bunda!

@Math(Você)

- Que droga, me arrumei atoa!

@Dave: O Senhor supremo das Trevas

- Que peninha! Huehuehueheuhe

- Parece que alguém não vai ver a pitanguinha hoje! Não morra, jovem!

- Dave estará sempre aqui para consolar seu solitário coração!

@Math(Você)

- Será mesmo que não vou ver? u.u

@Dave: O Senhor supremo das Trevas

- É um mistério!

@Math(Você)

- Vou voltar a dormir! Tchauzinho, “senhor das trevas”...

Joguei o telefone em cima da mesa e fui até o sofá. Sentei-me, peguei o controle da TV e liguei no noticiário. A essa hora da manhã não costuma passar nada muito interessante, a TV se resume em programas rurais e de culinária. Ouvi o som do tio Lincoln descendo as escadas enquanto um papagaio reclamava do quanto estava com fome na TV.

- Sério? – Tio Lincoln perguntou, com um sorriso debochado enquanto se sentava ao meu lado.

- Sério! – Respondi, lançando um sorriso e revirando os olhos.

- Quer carona para escola? – Perguntou, um tanto desinteressado.

- O Dave disse que não vai ter aula hoje... – Respondi, como quem espera que não pensem que estou mentindo. – E o senhor? Vai trabalhar?

- Não, não... – Respondeu, sem me questionar a razão de não ter aula. – Pedi que adiantassem as minhas férias para poder ficar com a sua tia durante a gravidez.

- Entendo... – Balancei a cabeça positivamente e voltei minha atenção para o papagaio, que agora estava satisfeito. Enquanto isso, a apresentadora do programa estava passando por debaixo de uma mesa, revirando os olhos como se estivesse tendo um orgasmo pela primeira vez.

- Preciso ir comprar umas coisas para o quarto da Caroline, quer ir comigo? – Tio Lincoln perguntou, direcionando seus olhos a mim. Parecia um pouco mais interessado do que quando me perguntou sobre a escola.

- Claro, quero sim! – Sorri para ele.

- Certo! – Disse o tio Lincoln. – Vou só pegar as chaves do carro e ai nós metemos o pé!

- Beleza! – Respondi, tentando demonstrar certo entusiasmo. Desliguei a TV e fui para o lado de fora da casa esperar o tio Lincoln.

Recostei-me no carro do tio Lincoln que estava estacionado em frente a casa e passei a observar as pessoas que estavam dentro do meu campo de visão. Haviam duas pessoas correndo, um homem e uma mulher. Um cara saradão passeando com seus grandes e assustadores cachorros. Um senhor de terno, gravata e toda aquela vestimenta clichê de alguém que trabalha em um escritório, aparentemente indo trabalhar. Duas menininhas e um garotinho indo a escola acompanhados de uma moça relativamente atraente. Tinha o carteiro, entregando cartas de casa em casa e, por fim, uns idosos do outro lado da rua, sentados em suas cadeiras de balanço, parecendo apenas observar a graça e existência da vida. Honestamente, não há muito mais a se dizer, era só mais uma manhã comum na Rua 708.

- Vamos? – Tio Lincoln perguntou, trancando a porta da casa e destravando as do carro com o controle que ficava preso as chaves.

- Vamos! – Assenti, entrando no carro pela porta do carona.



Chave na ignição, motor ligado, a viagem havia começado e junto com ela um silêncio mega embaraçoso. Olhei para um lado, olhei para o outro, encostei a cabeça no acolchoamento do banco, desencostei, olhei meu celular, guardei meu celular. É tão agoniante o momento em que você percebe que não tem a menor intimidade com as pessoas que moram com você. Vamos, Matt! Diga alguma coisa!

- Posso ligar o rádio, tio? – Perguntei, como quem quer quebrar o silêncio.

- Claro, filho! Pode sim! – Tio Lincoln respondeu, enquanto pegava uma grana que estava guardada no para-sol do carro, quase como se fosse uma grana super secreta. Havia umas fotos coladas ali também, fotos que eu nunca havia visto antes. Tinha uma dele com a tia Cassie na formatura do ensino médio dos dois; dele com o meu pai e uma moça, no que parecia ser uma festa de natal e outras da época que ele estava na faculdade. Olho para foto dele com meu pai e me pergunto o que fez com que eles se afastassem tanto, pareciam muito próximos.

Liguei o rádio e fui passando as estações, buscando por algo que complementasse o meu desconforto e me fizesse sentir como em um clipe musical. Parei quando ouvi Pumped up Kicks do Foster The People e a deixei tocar.

- Essa é boa! – Tio Lincoln comentou, aumentou o som e passou a batucar o volante no ritmo da música.

- Com certeza! – Sorri e comecei a batucar junto.

- All the other kids with the pumped up kicks… - Tio Lincoln começou a cantar. Não consegui segurar a gargalhada com as caras e bocas que ele fazia. – You'd better run, better run, out run my gun! – Ele olhou para mim e começou a gargalhar também. – Vamos, garoto! Canta junto!

- Não mesmo! – Eu não conseguia parar de rir!

- All the other kids with the pumped up kicks! – Tio Lincoln continuou a cantar. Suas caretas eram impagáveis. – You'd better run, better run, faster than my bullet! All the other... Ah, que merda, cara! Mas já? – Suas caretas se tornaram uma expressão cômica de profunda decepção quando percebeu que aquele era o último refrão e a música havia chegado ao fim. – Amo essa música!

- Deu pra notar – Assenti, voltando a gargalhar com os flashes de sua performance, que estavam em retrospectiva em minha mente como uma espécie de “melhores momentos do tio Lincoln”.

- Ah, qual é, garoto! – Tio Lincoln resmungou, forçando indignação. – Se você nunca cantou feito um idiota na frente de alguém a sua vida ainda não valeu a pena!

- Claro! – Gargalhei. – Então quer dizer que o senhor, com essa cara e esse bigodão curte um karaokê e tudo o mais?

- Claro que não, também não é pra tanto! – Tio Lincoln sorriu. – Essa é a primeira vez que eu canto na frente de alguém, na verdade...

- Ah, sim! Agradeço pela honra! – Devolvi o sorriso. – E olha só como isso é ótimo! Isso significa que a sua vida valeu a pena!

- Eu espero que sim... – Seu sorriso descontraído havia imediatamente se tornado um sorriso reflexivo. Tem algo errado com o tio Lincoln, mas talvez ainda seja cedo e inconveniente demais para perguntar.

[...]

Entramos em várias lojas, andamos por horas e horas em vários corredores relacionados a crianças em geral, mas no fim de tudo, o tio Lincoln não levou nada muito incrível. Encomendou um berço e voltamos pra casa com o banco de trás cheio de fraldas. Me pergunto se não é um pouco cedo para isso.

- Vocês já tem certeza se é menina mesmo? – Perguntei

- Na verdade, não... – Ele sorriu como quem fosse explicar algo que soaria idiota. – Sua tia acha que já que temos você, devemos concentrar nossos pensamentos em uma garotinha agora. Ela acredita que se fizermos isso, o corpo dela vai entender o recado. Você sabe que eu não sou muito ligado nessas coisas, tanto é que comprei um berço sem nenhum adereço muito sugestivo ao sexo da criança, mas ela tem uma explicação mais convincente sobre isso e eu não sou louco de contrariar uma mulher grávida. – Gargalhou.

- Entendi – Respondi, segurando o riso. – Gosto da ideia de ter uma irmãzinha. Caroline é um bom nome, a propósito. Foi você quem escolheu?

- Foi sua tia, como já deve ter previsto. – Respondeu, com um sorriso que já antecipa que ele não teve nenhuma influência em nada que foi resolvido para a pequena Caroline. – Mais uma vez, sua tia disse que toda Caroline que ela conhece é incrivelmente linda, então... Você já deve imaginar o resto...

- Sim! – Gargalhei. – Como está se sentindo com isso? – Perguntei – Eu sei que você me considera um filho e tudo o mais, mas qual é a sensação de ter um filho de verdade?

- É animador na mesma medida em que é assustador, entende? – Respondeu, pensativo. – Fico me perguntando se vou ser um bom pai, se estou pronto para isso. A razão de sua tia e eu nunca termos tentado foi o fato de acharmos que nunca seriamos bons pais. Sempre fomos bem aventureiros e não queríamos abrir mão daquilo, nem por no mundo pessoas como nós ou que acabassem sofrendo por ter pais como nós. Consegue entender o que estou dizendo?

- Acho que sim... – Assenti. – Mas, o que mudou? – Perguntei.

- Ficamos velhos – Gargalhou. – E teve você, é claro. Você apareceu em nossas vidas e mudou tudo de forma que fez com que nós considerássemos ter um “novo Matt”, do zero. Mas, ainda assim, Caroline não foi algo que planejamos totalmente, ela só aconteceu. Falamos sobre em uma noite e alguns meses depois sua tia me deu a notícia.

- Entendo... – Comecei a dizer. – Não acho que deveriam se preocupar com isso. Vocês são ótimos comigo, são pais incríveis! A pequena Caroline ou, sei lá... O “Matt, do zero” tem muita sorte por terem vocês como pais... E eu também! – Sorri.

- Vai com calma, garoto! – Tio Lincoln deixou escapar um sorriso. Seus olhos cintilavam. – Não vai querer me fazer chorar, vai?

- Talvez... – Sorri e o que antes era um pequeno sorriso de canto de boca no rosto do tio Lincoln se estendeu a um sorriso de orelha a orelha.

Um silêncio se iniciou a partir dali, mas já não era mais tão embaraçoso. Éramos apenas “pai” e “filho” curtindo uma boa música em uma viagem de volta para casa.

“… Son my only son…”.

“… Filho, meu único filho…”.

“...I will never run you away…”

“... Eu nunca vou fugir para longe de você...”.

[...]

O intenso sol do meio-dia estava acima da nossa casa aquele dia. Ele brilhava forte dando um curioso contraste na casa e no gramado.

- Bem-vindo ao forno! – Tio Lincoln disse, estacionando o carro em frente ao portão da garagem onde sempre costumava estacionar. Sempre achei curioso o fato de termos uma garagem e o carro ficar do lado de fora.

- Olha só o cara que tem um ar-condicionado reclamando do calor... – Disse ao vento. – Imagina só se ele tivesse que dormir em um quarto com um ventilador de teto vagabundo

- Ah, não seja tão dramático, garoto! – Gargalhou, tirando a chave da ignição e saindo do carro.

- Enquanto eu estiver dormindo em um forno aquecido pelo cara lá de baixo, eu serei o rei do drama! – Disse, forçando uma cara feia.

- O cara lá de baixo? Sério? – Tio Lincoln soltou uma gargalhada de deboche enquanto procurava as chaves da porta da frente no seu chaveiro cheio de chaves. – Essa é nova para mim...

- Sabe o que não é novo pra mim? O calor, tio Lincoln! – Eu disse, tão dramático quanto um ator de novela mexicana. – Ah, o calor! Meu velho e inconveniente amigo...

- Meu deus, garoto... – Tio Lincoln revirou os olhos e entrou em casa.

- Que isso, ateu? – Disse, fazendo a cara de safadão do Dave. Tio Lincoln lançou um olhar de como quem diz “Sério?” e foi até a geladeira. – Quer saber? Eu juro que paro de perturbar com o lance do calor se me fizer um grande favor!

- Lá vem... – Tio Lincoln fechou a geladeira e me lançou um cômico olhar cerrado. – Manda o papo, garoto!

- Eu preciso que me responda uma coisa... – Comecei – Talvez várias...

- Tá legal, garoto... – Ele havia entrado no modo “sério”; parecia curioso. – Sem enrolação, manda o papo.

- Promete que vai responder tudo? Sem mentiras? – Perguntei, tentando não deixar as coisas sérias demais, quebrar a tensão que parecia ter se iniciado.

- Prometo... – Respondeu, cruzando os braços e recostando na geladeira. Sua voz havia ficado mais grave de tão sério. Respirei fundo.

- Hoje eu reparei uma coisa que nunca havia reparado antes... – Comecei a formular a minha primeira pergunta. – Vi que tem uma foto do meu pai no seu carro. No começo, quando passei a morar com você e a tia Cassie, confesso que achei estranho não ter nenhuma foto de vocês dois, dá família ou sei lá, uma foto só dele aqui em casa, mas com o tempo eu meio que havia entendido o porquê, ou pelo menos, acho que entendi. Meu pai me disse uma vez algo sobre vocês terem sido próximos em algum momento da vida e isso me veio em mente quando vi a foto. Mas... Não é dele que eu quero falar, quer dizer... Pelo menos, não nessa primeira pergunta. – Sorri, totalmente inseguro e começando a me arrepender de ter tocado no assunto. – Tô passando por um momento da minha vida em que muitas dúvidas que eu tinha no passado acabaram se tornando o centro das atenções da minha mente. Eu sei... Demorou um tempão pra perguntar, mas... Vi que tinha uma mulher na foto com você e o meu pai... E isso me fez pensar que talvez ou com certeza, você tivesse conhecido a minha mãe. Você a conheceu?

21/04/2017

Creepypasta dos Fãs: 06565

[Quer ver sua creepypasta aqui? Envie-a para o e-mail creepypastabrasil@hotmail.com]

06565. Um falso DDD vindo de lugares desconhecidos pelos humanos. Um golpe de telefonia que consome todos os créditos, muitos dizem. Número de pactos, dizem outros. O correto seria "um golpe de criaturas que consomem todo o seu ser". Também não deixa de ser um número de pactos. Quem consegue atender a ligação se depara com um silêncio perturbador. Os mais sensíveis escutam uma respiração muito fraca e pesada. Quem retorna a ligação escuta uma gravação pedindo para deixar um recado. Os sortudos (ou azarados, quem sabe?) ouvirão um chiado muito agudo, que pode danificar a saúde auditiva. Aqueles mais resistentes que ficarem com o telefone no ouvido poderão ouvir três vozes de pessoas conhecidas. Geralmente são uma voz de criança, uma de adulto e uma de idoso. Elas falarão simultaneamente. Perguntarão o nome completo e data de nascimento daquele que está do outro lado da linha. Se a pessoa mentir, as consequências serão as mesmas daqueles que irem até o fim. Se a pessoa responder corretamente, presenciará o silêncio ou então a respiração ofegante. Isso pode durar segundos, minutos ou então horas. É muito relativo.

Esperando o suficiente, as vozes retornarão. Estarão surpreendentemente baixas, sendo quase impossível escutá-las. Apenas os que possuem a audição aguçada – os mesmos que conseguem ouvir a respiração ofegante – irão ouvir o que a voz diz. Essa frase muda de pessoa para pessoa, mas é comum ser uma frase marcante, que o indivíduo reconhecerá imediatamente. A maioria desliga o telefone quando escuta a frase, mas não há mais volta. Também terão o mesmo destino dos que vão até o fim, exceto que não poderão fazer um pedido. Se o sujeito repetir a frase exatamente do jeito que ela for dita, as vozes darão os parabéns por chegar até o fim, e dirão para fazer um pedido. Pode ser qualquer coisa, mas essas entidades são espertas. Digamos que a pessoa peça talento. Ela será talentosa, mas talento não é fama. Pode pedir para se casar com o amor da sua vida, mas esse casamento não será saudável. Pode pedir para ser rico, mas pode ser roubado e perder tudo. Enfim, a regra é escolher muito bem o pedido, para driblar as brechas, com quais essa entidade pode “brincar”. Pedidos divinos, como onipotência, não são válidos, e não é possível mudar o pedido ou alterar detalhes.

O ser humano que fizer o pedido correto, por exemplo, pedir para ser sempre rico, terá seu desejo realizado. Quaisquer falhas no desejo pode acarretar em problemas. Essa entidade do número 06565 estará à espreita, a todo momento, procurando a hora certa de atacar com suas traquinagens. Brincadeiras de muito mau gosto, eu diria. Mas ela acha divertido, pois está lidando com pessoas curiosas, e, bem, como dizem, a curiosidade matou o gato. Nesse caso, literalmente. O curioso retornou a ligação desconhecida, com um DDD nunca visto antes. O ser que realizou seu pedido irá fazer de tudo para tirar todas as coisas importantes para ele, lentamente. Cada pequena coisa que tem valor emocional para o indivíduo será violentamente tomada pela entidade. Cada pessoa próxima do sujeito sofrerá de maneira tão pesada e cruel que atingirá (e muito) o curioso. Tudo isso para a diversão desse ser. Quando ele não tiver mais nada para retirar da pessoa, irá desfazer o pedido. Logo após, tentará entrar em contato por telefone. Os mesmos números iniciais. 06565. Se a pessoa não atender, sobreviverá. Se atender, ouvirá as mesmas três vozes familiares, de parentes ou amigos que agora não estão mais no mundo humano. Essas vozes perguntarão se o curioso está bem. É lógico que ele não está, mas em 90% das vezes as pessoas respondem que sim. Isso é um grande erro, principalmente para quem fez um pacto. Mas não há mais volta, não importa a resposta que seja dita. A entidade irá dizer o número do telefone e a pessoa terá que repetir. Se repetir corretamente, será transportada para junto das almas dos seus entes queridos. Se não repetir ou errar, terá um fim trágico em uma terra sem ninguém. Sua alma será enviada para um lugar chamado Ermo, onde não existe nada além de uma enorme vastidão de solo deserto, com neblina por toda parte.

Nunca é dia, nunca é noite. O Ermo possui uma luz fraca, que perdura por toda a eternidade. Não é possível ver um céu. Existe apenas neblina, poeira, terra. Os únicos sons existentes são o do vento quando passa pelos ouvidos, a voz do indivíduo e seus passos. Não existem pedras. O solo é duro, com raras partes macias de areia. A pessoa ficará vagando eternamente pelo Ermo, sem ninguém para conversar, terá frio e fome, como se ainda estivesse vivo. Também terá sede, e, às vezes, calor. Muito calor. Mas por que esse fim horrível apenas por ter uma memória ruim para números? O lugar onde estão os amigos e parentes é ainda pior. Estarão todos juntos, porém sofrerão mais. Tanto que não é possível descrever exatamente com palavras. Digamos que eles terão sua pele arrancada, depois serão jogados em água fervente, em água congelante, em lava, ou terão suas cordas vocais arrancadas, e as entranhas lentamente tiradas para depois serem forçados a engoli-las. Serão estuprados e estripados, de maneira totalmente humilhante, serão forçados a dizer coisas, a fazer coisas (até mesmo uns com os outros), a comer coisas, um verdadeiro inferno. Pois é, esse é REALMENTE o Inferno. Mas você deve estar se perguntando como eu sei de tantas coisas... Quer realmente saber? Então retorne minha ligação e vamos conversar!

Autor: CreepySweetie
Revisão: Gabriela Prado

15/04/2017

A ''Depressão'' do Papai

Meu nome é Eliza e sábado fui no shopping com a minha mãe Betty, ganhei dela um par de botas vermelhas da seção infantil, voltamos para casa subi até o quarto, deitei e peguei no sono, quando acordei encontrei a mamãe me olhando com os olhos molhados. 

Perguntei se ela queria um abraço e ela disse que sim com a cabeça, ela estava com um cheiro forte na boca e o cabelo parecia com o cabelo das bonecas que eu não brinco mais. Meu pai dorme o dia todo e tem a saúde muito frágil, mas sempre antes de dormir vou até o quarto dar um beijo de boa noite, acho que ajuda a melhorar, espero que o papai fique bom logo para brincar de cavalinho comigo. 

Era tão bom quando ficava mais tempo com a gente, sempre ficávamos na sala assistindo o Show do Barney enquanto minha mãe fazia torradas com queijo. 

Tudo mudou quando meu pai começou a me pegar na escola, passava muito tempo conversando com a senhorita Blun minha professora, ela sempre mexia no cabelo enquanto conversava com ele, tirei uma foto e mostrei para minha mãe, queria mostrar a amiga que o papai tinha feito, não sei porque, mas ela começou a chorar muito, perguntei o que tinha acontecido e ela me mandou ir para o quarto, disse que precisava conversar com o papai. 

Desde então as coisas mudaram, agora meu pai vive fraco e doente, mamãe disse que ele contou uma mentira e ficou tão triste que pegou uma doença chamada depressão, já pesquisei no google e é uma doença que deixa as pessoas muito tristes. 

A senhorita Blun pergunta muito sobre o meu pai, mas sempre digo que ele está viajando, minha mãe disse que a senhorita Blun é uma mulher muito má e que só deixa o meu pai ainda mais triste, mas não entendo porque ele sempre sorria quando estava perto dela.

Hoje é dia de faxina, vamos arrumar o quarto do meu pai, tem muita poeira em cima dos porta-retratos, acho que ela não gosta mais deles, semana passada jogou alguns no lixo, disse que estavam muito velhos. 

Minha mãe acabou de me chamar, papai está acordando, é hora de levar os remédios.. 

(Espero que tenham gostado, logo logo vou fazer umas maiores e desculpem por não estar respondendo os comentários, ando sem tempo.)  

14/04/2017

Creepypasta dos Fãs: Demônio da máscara branca

[Quer ver sua creepypasta aqui? Envie-a para o e-mail creepypastabrasil@hotmail.com]

Essa é uma lenda urbana pouco conhecida. O suposto demônio chama-se Rughajar. Ele é conhecido por usar roupas pretas e uma máscara branca muito sutil. Tem uma forma humana e, sem a máscara, é como se fosse um ser humano qualquer. Segundo alguns relatos, a sua máscara é o que lhe dá poder (então, se você conseguir tirar sua máscara, ele ficará um século sem aparecer).

Além disso, ele usa uma faca, com a qual ele termina de matar suas vítimas. Segundo a lenda, ele apenas se manifesta na América do Sul. Este demônio tanto pode ser invocado quanto aparecer normalmente, vagando por lugares pouco movimentados. Ele só pode ser visto por aqueles que já presenciaram acontecimentos sobrenaturais.

O último relato foi no século passado, em 1916, no Chile, por um grupo de quatro adolescentes. Mas eles não invocaram o demônio.A casa deles ficava em uma cidadezinha muito pequena (nome desconhecido), e eles haviam feito algum tipo de jogo com espíritos, há cerca de um ano antes do demônio começar a vigiar os adolescentes. Mas certo dia, eles notaram acontecimentos estranhos, e descobriram que era o Rughajar.

Uma semana depois de terem certeza de que viram algo diferente, todos estavam na casa de Crag (um dos quatro adolescentes) e viram que a porta havia se destrancado sozinha, e quando eles foram ver o que era, Rughajar apareceu e levantou a mão e, sem contato físico, empurrou com algum tipo de poder o Crag para outro quarto e fechou a porta, também com esse tal poder. Quando Crag conseguiu sair do quarto, viu seus três amigos, todos esfaqueados e mortos, além de uma máscara branca.

Essa história foi contada por Crag à polícia,no dia do assassinato, dia 14 de novembro de 1916, mas obviamente, os policiais não acreditaram e levaram Crag para uma clínica psiquiátrica. Os policiais levaram a máscara para a delegacia e guardaram em um lugar onde ficavam todos os artefatos encontrados em cenas do crime. No dia seguinte, a máscara não estava lá, e nunca mais foi encontrada.

Muitas pessoas acreditam na história de Crag e, segundo ele, a máscara foi encontrada nas mãos de seu outro amigo Carlos, o qual supostamente a arrancou do rosto do Demônio da máscara branca. Como em todas as delegacias se tiram fotos dos artefatos usados em crimes,eles conseguiram tirar uma foto da suposta máscara, antes desta ser roubada.
Crag habitou a clínica psiquiátrica até o fim de sua vida.


Este ano vai fazer exatamente cem anos do caso. Um século que a máscara foi tirada de Rughajar... Então, cuidem-se, meus amigos.

Autor: Luiz Eduardo
Revisão: Gabriela Prado

Creepypasta dos Fãs: Falha na Matrix

[Quer ver sua creepypasta aqui? Envie-a para o e-mail creepypastabrasil@hotmail.com]

Esta é uma história real.

Era um sonho vívido, com detalhes macabros e firmemente desenhados.

Durante aquela época, eu estudava em um Colégio Militar do Exército, localizado em uma das capitais nordestinas e neste eu estava durante o sonhar. Caminhar por dentre a escola me trazia um prazer estranho, desprovido de qualquer noção espaço-temporal. Punha-me a passear a bel prazer até deparar-me com a sala onde estudava. 602 era sua numeração.

Não estava bem curiosa pela possibilidade de adentrar lá, já que, de onde estava, poderia muito bem continuar aproveitando.

Mas uma sensação massiva me consumiu, impelindo-me a seguir em frente. Sentados a minha frente, encontravam-se três conhecidos. Estranhei observá-los naquela posição. Estavam vidrados, mas pareciam tranquilos. Andei até um deles e acariciei suas pálidas maçãs do rosto, porém, ele não se movia. Não sei o porquê de ter feito aquilo. Era tudo simplesmente surreal.

Um dos ventiladores de teto (que contribuíam na climatização, já que não possuíamos um condicionador de ar) postou-se a girar incessante e velozmente. Eu estava relativamente calma até o momento em que as hélices do mesmo se partiram, em consequência de uma ferrugem (não, eu não sei como estava a par disto) e voaram a desfigurar violentamente os rostos dos ali presentes, exceto por mim. Não deu tempo de sentir o desespero. De supetão, acordei.

Preparei-me para ir a escola e tive um dia normal.

Até o final do recreio.


Foi quando retornei à sala e percebi uma hélice enferrujada sobre minha mesa.

Autor: Anna Beatriz Angelo
Revisão: Gabriela Prado

09/04/2017

A Nova Noiva

(Autor: Desconhecido.)

Durante a recepção de casamento de um jovem casal, os convidados decidiram brincar de esconde-esconde. Foi decidido que o noivo deveria contar; ele acabou encontrando a todos, menos a sua noiva. Eventualmente, o homem ficou furioso e decidiu desistir, aquilo não era mais engraçado. Com o passar das semanas, ele pensou que a garota tinha segundas inteções e decidiu seguir sua vida por conta própria.


Poucos anos depois, uma faxineira tirava o pó de uma velha arca no sótão do edifício que ocorrera a recepção. Por curiosidade, ela abriu. Dentro havia o corpo apodrecido da noiva que havia desaparecido, aparentemente trancada no lugar onde havia se escondido. Não era possível descobrir se ela havia morrido sufocada ou de fome, mas seu rosto estava congelado em um grito e havia arranhões no interior da arca; ela tentou voltar para o homem que amava.

08/04/2017

O artista de rua

Billy não gostava daquele artista de rua. Ele conseguia vê-lo, no outro lado da rua, usando pernas de pau, uma roupa folgada, vermelha e amarela, com maquiagem de palhaço. Por que artistas de rua usavam maquiagem de palhaço? Quem acha graça nisso? Não é engraçado. Não mesmo. 

“Pare de encarar, Billy. Não é educado!” sibila sua mãe, enquanto o puxa pela mão para dentro de outra loja. 

Enquanto ele sentava quieto dentro da loja, enquanto sua mãe procurava por algo e seu pai estava distraído, ele não conseguia parar de pensar naquele assustador artista de rua. Nem as decorações da loja, e nem a música que tocava na rádio conseguiam distraí-lo. Ele não queria voltar lá fora. No momento, estava feliz em ficar sentado dentro da loja. Mas todas as coisas boas chegam ao fim, e todas as coisas ruins precisam começar. Era hora de sair da loja. 

A rua principal estava apinhada. Pessoas saiam em massa, procurando por promoções antes que as lojas se fechassem. Vários artistas de rua também estavam em ação, tentando tirar alguma renda para si. 

Os três andavam diretamente para o artista. Billy não estava gostando disso. Ele não conseguia esconder o desconforto. Sua mãe o encarou. Sem palavras dessa vez, mas a mensagem foi clara. Ele deu o seu melhor para se controlar, mas ele não conseguia tirar os olhos do artista, que fazia malabarismos enquanto ainda estava sobre as pernas de pau. 

Ele sabia que era assustador, mas também sabia que, logicamente, não sentiria tanto medo de qualquer outro palhaço com pernas de pau. Havia algo especialmente arrepiante nesse palhaço em particular. Billy queria virar para o outro lado, mas não conseguia tirar os olhos dele. 

O palhaço virou-se para olha-lo por um breve momento. Ele o encarou por apenas alguns segundos, mas foi o bastante para Billy sentir o seu olhar perfurando-o. Ele sabia do seu medo. Quando o palhaço voltou-se para o outro lado, Billy estava tremendo. 

“Mamãe, não quero me aproximar daquele palhaço. Quero ir para outro lugar.” 

“Sinceramente, Billy! Ele é apenas um artista de rua. Agora comporte-se.” 

Então, Billy manteve seus medos para si mesmo. Seus pais não o entendiam, e nem queriam ouvi-lo. No lugar deles, ele também não ouviria. O arrepio que sentia quando olhava para o palhaço, parecia afetar apenas a ele. Para todos os outros, o palhaço era apenas mais um artista de rua. 

O palhaço começou a andar em sua direção, e ele congelou. Embora não tenha percebido, ele também segurava a respiração. Não, por favor não. Não venha por aqui. Não quero me aproximar de você… 

Sua mãe sussurrou, tirando-o da corrente de pensamentos. 

“Billy, o que falei sobre ficar encarando? Assim não posso leva-lo a lugar algum!” 

O palhaço olhou para Billy outra vez, e ali, começaram a se encarar. O palhaço começou a rir. Era uma risada assustadora. Seu estômago se agitou e ele encolheu apenas ao ouvi-la. Mesmo que o palhaço estivesse distante, Billy conseguia ouvi-lo como se ele estivesse bem ali do seu lado. As pessoas ao redor pareciam não notar nada, e isso era mais assustador que o próprio palhaço. 

No momento em que percebeu que Billy o havia notado, o palhaço começou a correr em sua direção, enquanto gargalhava. Billy não esperou pela aprovação dos pais, ele virou-se e correu. “Billy!” sua mãe gritava. 

“Billy! Volte já aqui! É apenas um palhaço!” 

Billy percebeu as pessoas ao seu redor olhando-o com desdém, como se ele fosse apenas um garoto malcriado com uma mãe que não conseguia controla-lo. Não conseguiam ver que ele estava sendo perseguido? Eles não se importavam? 

Ele parou e virou-se. E nesse momento, viu que o palhaço já estava sobre ele. Ele o agarrou pelo ombro e o levantou como se fosse leve como uma pena. Sua gargalhada era ensurdecedora, agora que estava perto, e seu rosto era abominável. Com uma pintura branca rachada, um sorriso duas vezes maior que um rosto humano poderia sustentar sem deformações grotescas, e os olhos. Olhos selvagens e cheios de malícia. Enquanto o rosto era uma distração, sua mão descia para puxar do cinto uma reluzente faca de cozinha. 

Billy se sacudiu, e se contorceu, e tentou se livrar do palhaço, e ele gritou, tão alto quanto seus pulmões suportavam, para que qualquer um por perto o ouvisse. 

“Socorro! Socorro! Alguém! Esse palhaço quer me matar!” 

Mas tudo que ele conseguia, eram murmúrios como, “Onde estão os pais desse pirralho?” ou “Eu não deixaria meu filho fazer isso.” 

Essas pessoas estavam loucas?! Eles perceberam o que estava acontecendo? O que estavam vendo? O comportamento do palhaço parecia normal para eles? Aos olhos deles, eu era o único errado? Se era assim, então não havia nada que eu pudesse fazer. Nenhum maneira de escapar com vida. 

Billy começou a soluçar silenciosamente, e fechou os olhos com força. Houve uma repentina e lancinante dor abaixo de seu peito, como uma dor que jamais tivesse sentido. Ele não pôde deixar de gritar diante da inexplicável agonia. Ele havia acabado de ser esfaqueado no peito. A sensação de choque que veio ao perceber que fora esfaqueado, era pior que a própria dor. Ele não queria ver, então manteve os olhos fechados, e continuou soluçando. Ele conseguia sentir algo quente e salgado no fundo da garganta, enchendo-a ate que ele engasgasse. Sua vida estava acabando, e em seus últimos momentos, ainda conseguia ouvir a gargalhada do palhaço, e os murmúrios de desaprovação, que vinham das pessoas que passavam, sobre um pirralho que gritava e chorava no meio da rua. 

Cyanwrites

07/04/2017

Creepypasta dos Fãs: Luna criou coragem

[Quer ver sua creepypasta aqui? Envie-a para o e-mail creepypastabrasil@hotmail.com]

Luna era uma garota triste com a vida. Apesar de ter um emprego bom e estável, ela não conseguia seguir seus sonhos, se sentia presa com uma família dando pouco apoio familiar e tendo que fazer uma faculdade que ela não gostava apenas porque “Deus havia dado de presente”, nas palavras da mãe, que não sabia diferenciar milagres de maldições, que acreditava que seu ponto de vista era único e absoluto.

A vida amorosa de Luna era uma decepção total. Aos vinte anos de idade, beijara apenas um rapaz e jamais havia experimentado do amor carnal. Se sentia feia e indesejada, sentia que jamais seria correspondida. A única coisa que a mantinha com o mínimo de esperanças eram seus amigos. Mesmo que ela se sentisse secundária, eles a faziam se sentir bem. Era tudo o que ela tinha: bons amigos.

Porém, certo dia, Luna tomou coragem.

Depois de um bom período sem ver estes amigos, ela pôde pensar melhor no que fazer de sua vida. Ela decidiu que não adiantaria de nada apenas se conformar em ver sua vida se arruinando pouco a pouco com o tempo. Era injusto passar todos os dias de sua vida se decepcionando consigo mesma, ela não merecia isso, muito menos sua família, que tinha uma pessoa tão inútil e desconcertada como a ovelha negra. Também considerava errado sofrer por amores nunca vividos ou o fato de ninguém se interessar verdadeiramente por ela. Afinal, se ninguém se apaixonava por ela, significava que era algo de errado com Luna, não com os outros.

Por causa destes e tantos outros fatores, Luna simplesmente disse “Basta!” para si em sua mente. Ela iria melhorar essa situação, não só para ela, mas para todos ao seu redor, que mereciam apenas o melhor.

Então, Luna tomou a melhor atitude que ela pôde pensar em ter um dia: apertou o nó da corda.

Autor: Luan “Gago” Gonçalves
Revisão: Gabriela Prado

Creepypasta dos Fãs: O Caso Melina

[Quer ver sua creepypasta aqui? Envie-a para o e-mail creepypastabrasil@hotmail.com]

As seguintes anotações foram encontradas no quarto de um homem que está desaparecido, José Alves Teixeira, 22 anos. O quarto estava trancado, sem sinais de arrombamento, e na cama estava a roupa que o homem usava momentos antes de trancar o quarto, segundo informações de familiares. Estima-se que as notas foram escritas na mesma noite do desaparecimento.

"No dia 10 de março de 2006, uma garota foi dada como desaparecida na minha cidade. São quase 10 anos sem nenhuma pista de onde ela poderia estar. Nenhum corpo encontrado (nem mesmo algum corpo irreconhecível pelo estado de putrefação ou totalmente carbonizado foi encontrado, nem nas cidades próximas). Natália Melina tinha 11 anos na época. Eu estudava com ela, no colégio Rogério Ribeiro, desde que havia entrado na primeira série. Como melhor amigo dela, não posso deixar que o Caso Melina, como ficou conhecido, vire apenas arquivos e memórias.

Estou escrevendo essas notas porque, após alguns acontecimentos recentes que irei detalhar posteriormente, descobri a verdade por trás do desaparecimento de Natália. Nunca havia percebido isso antes, mas o desaparecimento dela tem a ver com o diário. Mais precisamente, tem a ver com ela ter mostrado o diário dela para mim.

Explicando a história do começo, eu e Natália nos tornamos amigos na primeira série, após dividirmos os lanches. Ao contrário da maioria das crianças, Natália sempre foi quieta e não gostava de correr no pátio na hora do recreio. Preferia ficar pintando os livrinhos de colorir. Às vezes, desenhava. Eu sempre gostei de desenhar e colorir, por isso também fazia isso com ela. Um dos desenhos que tenho certeza que tem a ver com o desaparecimento dela foi um que Natália fez na quinta série. Ela desenhou algo que parecia uma cabra. Perguntei o que era, Natália respondeu que tinha encontrado esse animal passando muito mal e deu água e restos de comida para ele, e agora ele estava morando na sua casa, mas ninguém podia saber disso. Lembro que damos um nome para ele juntos: Carlito, o cabrito. Era engraçado na época. Nunca fui à casa de Natália, mas sempre acreditei que o cabrito era real e morava na casa dela. No porão, talvez.

Agora vamos à parte do diário. Sexta série, início do ano letivo. Março de 2006. Desde o início do ano, Natália parecia que havia mudado. Foi uma mudança considerada boa, ela havia ficado mais alegre, mais sociável e até notei que ela cresceu rapidamente. Ela tinha 11 anos, mas parecia ter 14. Foi no dia 9 que Natália cochichou no meu ouvido que tinha um segredo, eu mesmo falei que se era segredo ela não podia me contar, mas ela disse que podia confiar em mim. Hoje percebo que deveria ter insistido para ela não contar. Ela tirou da mochila o diário, dizendo que foi presente do Carlito. Eu ri, na hora pensei ser uma brincadeira dela. Ela disse que ganhou ele como um presente de ano novo, e que estava ansiosa para me mostrar. Disse que deveria ser segredo, mas que confiava em mim. Não cheguei nem a ler uma palavra do que estava escrito, mas parece que apenas saber da existência do diário irritou... Aquilo.

No dia seguinte, Natália havia sumido. Lendo os jornais, eu soube que ela desapareceu à noite, enquanto dormia. As portas e janelas estavam trancadas. As roupas dela estavam posicionadas na cama como se ela estivesse usando-as. Era como se Natália tivesse derretido. Nenhum sinal de arrombamento, nenhuma chave fora do lugar, nada. Os policiais suspeitaram que os pais de Natália tivessem armado tudo isso, sumido com a garota ou até mesmo tivessem matado ela e escondido o corpo, mas nenhuma prova foi encontrada. Interrogaram todos que a conheciam, até mesmo eu. Eu sabia que os pais dela nunca fariam algo assim. Natália me contava tudo que acontecia com ela, e o relacionamento dela com os pais era perfeitamente normal. Foi um desaparecimento sem explicações. O diário havia sumido do quarto dela. E reaparecido no meu, dez anos depois. Hoje. Esta noite.

No início de fevereiro (não me sinto seguro para informar o dia) de 2016, estou escrevendo essas notas. Eu li o diário dela. Ela descrevia o cabrito como amigável e mágico, e que podia se transformar em humano. Na verdade, humanoide, pois ainda tinha chifres, rabo e rosto parecido com um bode. Estão escritas coisas que eu nunca imaginaria que poderia ter acontecido com Natália... E coisas que ela nunca me contou sobre o bode, e sobre ela mesma. Coisas repugnantes, coisas atrozes... Coisas sobrenaturais sobre Carlito que eu nunca imaginaria.

Selecionei algumas páginas mais importantes do diário de Natália para suplicar por ajuda. Não apenas para encontrar Natália, mas por mim também. Esse diário não apareceu na minha casa porque alguém entrou aqui e o deixou. Foi o maldito bode (ou o que quer que aquela coisa seja). Talvez eu já esteja morto ao lerem essas notas, ou desaparecido. Talvez eu encontre Natália. Peço aos possíveis leitores que procurem uma pessoa que possa se comunicar com entidades paranormais, alguém que entenda o que aconteceu com Natália e investiguem até o último momento! ".

Folhas com caligrafia diferente foram encontradas anexadas às notas anteriores. Supõe-se que sejam fragmentos do diário citado.

01/01/2006

Querido diário... É assim que eu tenho que começar? Carlito me deu esse caderninho para que eu escrevesse sobre mim! Ele disse que de onde ele veio, presentes de ano novo são normais. Ele também disse que eu tinha que escrever sobre coisas que eu sinto dentro de mim, como se eu tivesse conversando com uma pessoa. Bom, vou me apresentar para você, diário! Meu nome é Natália Melina, tenho 11 anos, sou um pouco moreninha perto do Carlito (ele é brancão!), tenho cabelo comprido e castanho (a minha mãe diz que não se fala marrom), e olhos verdes. Tenho dois melhores amigos: Carlito e José. O José é meu colega da escola. A gente brinca muito com papel, principalmente de pintar. O Carlito é um bode que pode virar gente, mas continua sendo meio bode. Ele não gosta de brincar com papel (ele come), e também não gosta de conversar muito, mas tem o pelo fofinho, e quando vira gente faz trancinhas em mim. Ele tem a voz bem grave, como a do pai quando ele fica bravo, mas fala com calma, e não com raiva. Carlito é muito inteligente e sabe a resposta de tudo que eu pergunto, gosto de fazer temas da escola com ele, mas quando eu quero conversar, o José é mais legal. Ele não sabe a resposta das coisas igual o Carlito, mas quando tenho problemas, ele me ajuda. Quero que as aulas comecem logo! Carlito disse que eu não podia dizer para ninguém que estou escrevendo um diário, porque é para ser uma coisa só minha, como um tesouro secreto. Será que isso é verdade ou ele tem ciúmes do José? Agora o Carlito está dormindo na forma de animal. Vou dormir também! Fico pensando se ele conta carneirinhos...

14/01/2006

Querido diário, acho que estou gostando de alguém! É estranho porque eu já gostava dessa pessoa, mas gostava como amigo e de repente fiquei gostando de coração. Parece que esse sentimento foi crescendo aos poucos... Eu perguntei pra minha mãe o que eu faço quando gosto de alguém, porque dá vergonha, aí ela disse que eu tenho que deixar de ter vergonha, porque pra fazer a pessoa gostar de mim eu tenho que deixar ela feliz! E não tem que ter vergonha em fazer uma pessoa sorrir. Só que eu não sei se essa pessoa que eu gosto está feliz, porque nunca vi ela sorrindo... Acho que faço feliz sim, porque ele veio morar comigo! Adivinhou quem é? Sim, diário, é o Carlito! Ele é muito fofinho quando está como animal, e ele pode não ser o mais bonito, mas faz com que eu me sinta bem! Ele gosta quando eu faço carinho na cabeça, bem no meio dos chifres. Ele fecha os olhos como se desse vontade de dormir. Não posso falar para a mãe que eu gosto de um bode humano, ela vai ficar assustada... As pessoas deveriam gostar das outras pelo jeito que elas são, e não pela aparência. Além disso, a minha mãe diria que eu sou muito criança pra namorar, mas eu não preciso namorar! Ter o Carlito comigo todos os dias é bom!

20/01/2006

Querido diário, hoje eu virei mocinha. Eu fui ao banheiro fazer xixi e tinha sangue no papel higiênico. Eu já tinha aprendido sobre isso nas aulas de ciência. Se chama menstruação. Significa que a menina começa a virar mulher e que ela já pode ter filho, mas nenhuma criança quer ter outra criança, né? Na verdade, na escola tem meninas de dois ou três anos mais velhas que eu que já estão esperando um bebê, e tem uma que já teve o bebê e teve que sair da escola. Eu não quero ter um bebê ainda criança, primeiro eu vou terminar a escola, depois vou estudar bastante pra ser veterinária e ajudar animais doentes, igual eu ajudei o Carlito! Hoje eu fiquei muito feliz, porque foi a primeira vez que eu vi ele sorrir! Tenho certeza que eu faço ele feliz também!

21/01/2006

Querido diário, eu estou muito triste e chorando agora. Pensei que o Carlito fosse um bode legal... Ele fugiu hoje. Ele nunca foge. Onde será que ele foi? Ele também fez uma coisa comigo que me deixa preocupada... Tenho vergonha de escrever isso. Está no livro de ciências, na parte da reprodução. Acho que o certo a se dizer seria que ele tentou se reproduzir comigo, mas não tenho certeza. Ele não é gente de verdade, é um bode mágico que vira pessoa, mas mesmo como pessoa ele continua meio bode, e isso não tem no livro de ciências. Essa coisa de reprodução dói, mas dói mesmo, como a dor de quando eu quebrei a perna caindo da árvore. Só que foi bom no final. Depois de doer começa a ficar bom. Eu acho que só foi bom porque era o Carlito, e ele não me machucaria nunca. Eu só queria entender porque ele fugiu depois de fazer a reprodução comigo, e fico preocupada se vou ficar com um bebê bode dentro de mim, ou se não dá em nada, porque não fala nada sobre reprodução com bodes no livro. Não posso falar com a mãe sobre isso, não posso nem perguntar pro Carlito. Ele saberia responder, mas ele fugiu... Espero que ele volte logo...

03/02/2006

Querido diário, hoje Carlito finalmente voltou! Eu fiquei muito feliz quando ele apareceu, abracei ele bem forte e ele me abraçou também, ele disse que fugiu assim porque sentiu que a família dele estava em perigo, e tinha um monte de lobos atrás da família dele. Ele parecia cansado, então deixei ele deitar na minha cama e dei água e comida pra ele, igual da primeira vez que encontrei ele. Eu perguntei pra ele se eu tinha um cabritinho dentro de mim, ele disse que não, porque humanos e bodes não podem se reproduzir. Na hora eu fiquei aliviada, mas agora eu fico pensando porque então ele tentou se reproduzir comigo... Acho que ele queria mostrar que gosta muito de mim. Minha mãe me disse que quando duas pessoas se gostam muito, elas tentam ter um bebê, mas às vezes não sai nenhum bebê, e quando isso acontece, é apenas para provar que elas se gostam muito. Carlito começou a sorrir mais seguido, significa que eu faço ele feliz!

26/02/2006

Querido diário, Carlito está muito estranho... Ele tem começado a ficar mais na forma de humano do que de bode, e tem horas que ele fica todo encolhido falando baixinho, será que ele está com medo de alguma coisa? Quando eu fico com medo, vou pra cama e fico embaixo do cobertor bem encolhida cantando alguma música que eu gosto, mas o Carlito parece que fica falando na língua de bode ou algo assim, é estranho... Eu perguntei para ele se tinha alguma coisa errada, ele sorriu e disse que tudo está muito bem. Apesar de ser bom ele sorrir, acho que está ficando forçado. Eu perguntei também porque ele não queria ficar na forma de bode, mas ele não quis responder. Não vou perguntar de novo, ele deve ter motivo pra não falar. Espero que ele esteja bem...

01/03/2006

Querido diário, hoje foi o primeiro dia de aula da sexta série! Tem algumas pessoas novas na escola, mas eu não quero fazer amizade com ninguém. Eu vi o José, ele cresceu bastante! Ele disse que as férias dele foram legais; ele foi à praia. Eu nunca fui à praia, parece ser divertido. José disse que o mar é muito gigante e se a gente não tomar cuidado, pode ir muito para o fundo e se afogar, mas que na beiradinha é bom. Hoje quase não teve aula, foi mais conversa e brincadeiras por ser o primeiro dia. Carlito me disse que nunca foi à praia também, mas que não tinha vontade de ir. Ele parecia um pouco irritado por eu ter contado tudo que o José disse sobre a praia. Eu queria que o José e o Carlito se conhecessem, acho que iriam ser bons amigos! Carlito me disse que eu não podia mostrar o meu diário para ninguém, nem pro José, porque isso faria a família dele ficar brava. Ele disse que o diário de ano novo é muito importante para o povo dele, e se eu mostrasse eles iriam querer o diário de volta. Que estranho, né? Eu aprendi na escola que cada povo faz coisas diferentes e isso pode parecer estranho para outro povo, mas é a cultura de cada um, então, se eu quero morar com o Carlito, eu preciso respeitar a cultura do povo dele. Não vou deixar ninguém ler!

09/03/2006

Querido diário, acho que tenho medo da família do Carlito. Primeiro vou dizer o que aconteceu na escola. Hoje eu levei o diário para a escola, mas não era pra deixar ninguém ler. Eu disse pro José que tinha um segredo, mas ele disse que se era segredo não era pra contar. Só que se um segredo fica entre poucas pessoas, continua sendo segredo, então eu mostrei pra ele o diário, sem abrir.Sei que posso confiar nele, ele não vai contar pra ninguém que eu tenho um diário. Eu disse que tinha ganhado ele do Carlito no ano novo, o José riu, não entendi porquê... O dia na escola foi normal, copiei as coisas do quadro e no recreio desenhei a árvore que fica no meio no pátio. José desenhou um cachorro, depois a gente trocou os desenhos e um pintou o do outro. Eu dividi o sanduíche com ele, e ele dividiu o bolo comigo. O Carlito adora sanduíches também. Com bastante maionese, do jeito que eu gosto! Falando nisso, eu tenho ficado com mais fome do que o normal, e andei engordando um pouquinho... A mãe disse que comer demais enche o estômago e faz vomitar, deve ser por isso que vomitei hoje depois do almoço. Espero que eu não tenha virose! Hoje fiquei o dia no quarto brincando com o Carlito, ele me ensinou a desenhar estrelas, e depois eu percebi que a estrela ao contrário parece um bode! Legal, né? Foi a primeira vez que eu vi o Carlito desenhando, ele fez ele mesmo dentro da estrela, no chão. O Carlito desenha muito bem! Parecia um bode de verdade. Agora vou dizer porque eu acho que tenho medo da família dele. Quando anoiteceu, Carlito disse que a família dele estava lá fora, mas eu não via nada pela janela. Ele disse que eles estavam se juntando por causa da estrela-bode, mas eu não entendi. Será que o desenho que o Carlito fez é tipo o sinal do Batman, só que chama os bodes? Agora eu estou vendo na janela um monte de bode junto, está dando medo... Se eles entrarem em casa vão bagunçar tudo! O Carlito agora voltou a ficar daquele jeito estranho, encolhido e falando baixinho na língua de bode, mas ele está no meio da estrela no chão. 

Estou indo dormir agora, espero que o Carlito durma logo também.

Autor: CreepySweetie
Revisão: Gabriela Prado