06/06/2020

Vozes do Além

Tudo começou a dar certo na minha vida quando finalmente comprei um lugar que eu poderia descansar feliz com a minha amada, que logo depois me surpreendeu com a notícia de que estava grávida do nosso primeiro filho. Os dias foram uma maravilha enquanto nós estávamos com dezenas de planos para o futuro e, no momento em que o meu filho estava prestes a nascer, eu consegui transferência para trabalhar em um lugar próximo do imóvel o qual comprei há alguns meses. Tinha tudo para dar certo, a animação nos controlou e o amor deixava a estrada chuvosa e cheia de neblina como um arco-íris, mas a rodovia era perigosa e a chuva ilusória. Acabei abusando da velocidade mínima e a curva chegou traiçoeira. O outro carro ultrapassou a sua faixa e nos encontrou...

Senti uma sensação de perigo iminente, aquele desejo de abrir os olhos custe o que custar, e observei algumas pessoas do SAMU me conduzindo para dentro do que aparentemente era um hospital. Tentei me mexer, e um dos homens colocou sua mão no meu peito, pedindo para que eu ficasse quieto, pois não sabia se eu havia fraturado algum osso. As memórias estão fumaçando no meu passado, tentando desenhar o que aconteceu e onde estava. Não adiantava de nada, o meu corpo todo doía e as luzes foram ficando mais claras, ao decorrer que a maca atravessa os corredores e, finalmente, me entreguei.

Ainda pude saborear o gosto de ferro na minha língua ressecada, nos segundos em que despertei. A sensação nauseante e a deformidade da minha visão foi moldando aos poucos uma enfermeira cuidando de alguns objetos em cima da estante. A moça se assustou quando eu perguntei onde estava e olhou na minha direção, aproximou e mexeu no meu corpo e, mais uma vez, indaguei para saber o que estava acontecendo. Então, imediatamente, seus lábios tremeram de forma hesitante e disse que iria chamar o médico.

O sujeito perguntou se eu estava bem, e eu assenti com a cabeça. A enfermeira estava me observando também, e eu não precisei ouvir mais nada... enquanto a fumaça finalmente ganhou a forma daquela noite: a tempestade, a estrada, o carro traiçoeiro e o apagão na minha mente. Mesmo antes da pior notícia chegar, depois dos seus papos clínicos, eu comecei a chorar. O cara, com sua roupa toda branca, foi explicando que eu havia ficado quase um dia e meio desacordado, o meu corpo não sofreu nenhum ferimento grave, mas a minha esposa, por sua vez, não teve tanta sorte. Ela não sobreviveu, e a criança estava morta, todos acharam melhor que o nosso bebê fosse enterrado junto com a mãe para, assim, o espírito descansar em paz.

Chego em casa, vou abrindo a porta e observando todos os móveis cobertos como fantasmas por lençóis brancos. O vazio e o silêncio são impiedosos do lugar. Ponho a chave em cima da cadeira e, logo em seguida, desabo em soluços por tudo que aconteceu, sentindo-me culpado e ainda sendo mais deteriorado por nem ter participado do velório da minha própria esposa, a qual eu matei! Fui direto para o chuveiro, arrancando as minhas roupas com unhas e dentes, jogando-me embaixo do chuveiro com os braços na parede e a cabeça escondida entre os meus ombros.

O vapor quente da água começa a me sufocar e o som das gotas dominam o water-closet, até que, enquanto os meus olhos estão fechados, batidas, em todos os lados, nas paredes, no teto e no chão, me despertam e eu vejo o meu corpo vermelho como sangue. Aterrorizado, vislumbro o chuveiro se tornar uma cachoeira congestionada pela repugnância, começo a escapar, derrubando algumas coisas e agarrando a toalha de banho. Em frenesia, passo o pano no meu rosto para perceber que está tudo normal.

Ainda agitado pelo ocorrido, seja lá o que foi que houve, talvez seja alguma consequência do trauma que passei. Não demora muito para ir direto ao meu leito, depois de enxugar o meu corpo e remover cada líquido. Nem precisei comer nada, porque a minha consciência não deixaria que tentasse ocupar o vazio no meu estômago. Em poucos minutos, acreditando que finalmente descansaria, aquele estrépito ressurgiu. Agora com arranhões e a cama tremendo. Fiquei assustado e, ao me virar para ligar o abajur, apreciei Kate Austen, a minha esposa, próxima dos meus pés. Estava claramente desesperada, e sua alma atormentada repete várias vezes as seguintes palavras:

"O salve antes que seja tarde demais! Por favor, faça alguma coisa!"

Fico apavorado, minha respiração se torna pesada e difícil. Nos instantes em que finalmente consigo ligar o abajur, próximo à minha cama, meu quarto não tinha nada. Qualquer tipo de intenção de descanso ou sono desapareceram naqueles minutos. Levanto da cama para tentar acalmar a minha mente e minha respiração estava cada vez mais pesada. Sabia que precisava tomar um pouco de ar fresco e fui direto para a varanda, sentando-me na cadeira de balanço. Depois de muito ofegar, comecei a recuperar o domínio dos meus pulmões, mas algo me surpreende mais uma vez, o som do rádio, vindo da sala, e eu nem havia ligado o aparelho, tomou o manejo da situação.

Enquanto os meus andares delicados se aproximam... os ruídos, nesse momento em estática, vão se transformando em sons semelhantes aos tormentos de um bebê chorando, uma criança rouca e, aparentemente, desesperada. Claramente estou ficando louco, ainda mais quando tento desligar o aparelho e percebo que não está respondendo e muito menos conectado à tomada da energia.

Começo a questionar minha sanidade e parece que tudo está derretendo minha mente por um pavor traiçoeiro. Tento fugir, mais uma vez pela porta, sinto um calafrio e a temperatura bruscamente baixando no meu cômodo. Saindo do nada, alguém me agarra, pressionando-me contra a parede, enrugando a gola da minha camisa e dizendo que eu preciso ajudar alguém. É a minha esposa falecida, com aparência semelhante à morte, seus olhos esmarridos, a pele azulada e um cheiro degradante de algo que não deveria estar aqui. Peço desculpa por tudo que eu fiz, dizendo que não foi minha culpa e o quanto eu sinto muito, sem querer olhar mais uma vez em seus olhos. Ela, finalmente, desaparece e eu me vejo pressionando meu próprio pescoço com as minhas mãos lunáticas.

Eu mal saí do hospital e não estou bem! A comida não tem o mesmo gosto e, todas às vezes que eu fecho os meus olhos, vejo a minha falecida esposa sendo desenhada por fumaças brancas no negrume, desesperada, agoniada, em um lugar apertado e escuro. A criança chora preenchendo todo o vazio com os seus suspiros, até que os meus olhos se abrem nos segundos em que eu imagino consegui apagar na exaustão. Percebo que não consigo mais fazer nada além de ser atormentado por isso.

Quando finalmente reparei os raios do sol aparecendo pelas janelas, as minhas têmporas doeram pelo contato. Fui à farmácia mais próxima e comprei remédios para tentar descansar minha mente em um sono infinito. Ao empurrar a quantidade demasiada na minha garganta e preencher com um copo com água, o meu organismo tratava de expulsar. Não importava quantas vezes eu fazia, parecia que algo estava possuindo o meu corpo. Depois de pujar várias vezes, na intenção de acabar com isso, jogo-me na cama e não existe nada além do silêncio, o meu tormento e a minha cabeça.

Os momentos em que tudo fica calado o suficiente, minha cabeça neutralizando a angústia, é quando ela surge! O seu corpo em estado de decomposição, Kate repetindo, enquanto se aproxima, rastejando e machucando cada centímetro em que encosta na minha pele, as seguintes palavras:

"Ele precisa da sua ajuda, a chuva vai voltar mais uma vez! Você precisa ajudá-lo!" - mais uma vez, peço desculpas por tudo que eu fiz, por ter lhe matado e ceifado a vida da nossa criança,como o pior monstro de todos. Seu comportamento espectral fica ainda mais desesperado com as minhas súplicas. Irritada, deu tapas no meu rosto e continuou repetindo as sentenças torturantes. No entanto, dessa vez, no momento de sofrimento, suplicou para que eu cavasse onde estava escondida.

O tempo parou, e enquanto eu estava ouvindo o desespero da falecida, os gritos de uma criança me atormentavam, minha cabeça latejando, sangue escorrendo pelas paredes, batidas em todas as direções e, finalmente, eu cuspi em um berro desesperado para que parassem, para que eu, de alguma forma, pudesse lhe encarar e enxergar o crime que eu fiz. Fui à garagem e peguei uma pá, já estava escuro e tarde da noite, ninguém viu quando entrei no cemitério e encontrei o coveiro dormindo, agarrado com uma garrafa de vinho, e comecei a cavar na sepultura da minha tão amada Kate.

Tão poucas horas que ela me deixou, e a chuva aparecendo de repente fez tudo voltar para o passado. Eu não tive coragem de vir aqui e preciso finalmente encarar o meu crime. Dominado pela brutalidade e a psicose, não conseguia controlar os meus braços enquanto enfiava a pá, golpeava com o meu pé descalço e jogava nas minhas costas um monte de terra. Quanto mais me aproximava da madeira do seu leito, ouvia um choro de criança, atormentando-me e pressionando a minha mente, ao esmagar da sua forma cruel de ser na lamentação da morte.

Finalmente chego na madeira, já que senti a pá socando algo sólido. Gargalhei muitas vezes, de fato, por ouvir o meu castigo no coro infantil. Sem controlar os meus extintos, coloco os dedos, quebrando as unhas na adrenalina primata e monstruosa. Abro o caixão, enxergando o corpo da minha falecida em uma expressão de angústia: cabelos cuidadosamente jogados nos dois lados, veias com tom verde, deslizando nas suas curvas, os seus braços em formato de x, acima do estômago e, no meio, há uma criança ainda respirando, os seus lábios próximos dos seus seios e severamente desnutrida. Sou surpreendido por meu filho vivo, olhos fechados, fraco demais, o tenho em meus braços e saio do cemitério. Antes de colocar o meu último pé para fora, posso apreciar o espírito da minha falecida esposa agora feliz.

Autor: Sinistro

12 comentários:

  1. __SPOILER__

    O médico que disse que a criança estava morta foi despedido no dia seguinte XD

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  2. Legal! Uma creepy com final feliz

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  3. posso postar a creepy no meu canal do youtube
    ?

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  4. PRGDL02022

    "Que creepy bonita, que creepy formosa, que creepy bem feita..." Cara, emocionante. Até chorei,. Parabéns!!!

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  5. Agora sim posso passar meu dia feliz :3 melhor creepy até agora.

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  6. Poxa bem forte viu, no momento pensei que era tu imaginação da mente dele quando finalmente consegue salvar o filho. Ameiii

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  7. Muito bom mais pesado

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  8. Seria uma pena se a criança estivesse morta e fosse tudo imaginação dele.....de acreditar que a criança está viva....

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