Sussurros na Escuridão (Parte 2)

22 comentários
Na noite que aconteceu eu tinha ido dormir um pouco tarde demais e já estava grogue, tinha tomado uns copos da bebida mais barata que achei no mercado, copos não, talvez uma garrafa toda, ou seja, meu estado não estava lá dos melhores, mas eu nem ligava, era feriado no dia seguinte por isso só curti o momento. Quem me visse iria achar que eu estava sofrendo por alguma desilusão, logo eu. Quando finalmente deitei o “sonho” não demorou muito para aparecer.

Eu estava em pé em frente a porta ao apartamento do lado, a porta estampava o mesmo número 10 prateado, mas parecia corroído, como se muitos anos tivessem passado por ela, mesmo que o prédio fosse consideravelmente novo. Senti vontade de bater, mas nem precisei fazer, ela simplesmente se abriu, revelando uma dona Silvia triste e cabisbaixa que sustentava a voz em um tom tão baixo que parecia até sussurrar, muito diferente das risadas que se ouviam porta a fora quando a mulher estava a assistir um seriado qualquer.

Para a minha surpresa o apartamento também estava mudado, me peguei observando-o, os tempos que passaram pela porta pareciam ter tomado todo o interior, janelas, móveis e decorações. Como posso ser mais claro? Parecia abandonado. Teias de aranha se emaranhavam no encontro da mobília com as paredes e chão, e nas lâmpadas também, uma camada generosa de poeira estava em todas as superfícies, como um tapete de mal gosto, mas de alguma forma dona Silvia parecia não ligar, me convidando gentilmente para sentar e bater um papo, ela carregava o mesmo apoio que usava para andar, um daqueles quadrados.

Quando sentei no sofá a poeira acumulada subiu e simplesmente congelou no ar, a atmosfera lá dentro era parada, como se houvesse um bolsão de ar tão antigo e sujo que em alguns momentos me causava dificuldade para respirar. O assunto? Meio mórbido, me contando o que achava que acontecia depois da morte, e sobre a morte de seu marido a alguns anos atrás, e também em como se sentia sozinha e achava que ninguém iria perceber quando ela de fato morresse.

Geralmente eu não me incomodaria com assuntos assim, mas o jeito soturno que pronunciava as palavras, e as lágrimas que derramava de vez em quando, me deixavam desconfortável, sufocado, triste. E então acordei.

Minha primeira reação foi pôr as mãos na cabeça e pensar: Meu Deus, o que foi isso? Nunca tinha tido uma visão tão.... Real, quer dizer nas outras vezes eu parecia estar presenciando algum filme de terror e nunca tinha tido uma conversa sequer com as minhas visões. Eu precisava saber se minha vizinha estava bem, coloquei na minha cabeça que quando entardecesse passaria lá para lhe perguntar como ia a vida.

Mas você sabe né? Me entende, às vezes a gente simplesmente esquece de certos compromissos quando se está sufocado de pensamentos borbulhantes, e cheio da metódica rotina, e foi o que eu fiz. Me enchi de tarefas mais simples, como organizar os papéis, passar uma vassoura de qualquer jeito pelo chão e me sentir orgulhoso disso antes de sair para dar uma volta. Esse passeio durou todo o resto do dia, sondar a praça, sentar no banco do parque e observar as outras pessoas com aquele sorriso vitorioso, o sorriso que eu não tinha. Por fim, me enfiei em algum bar que estava aberto decidido a repetir a noite anterior, beber até sentir a visão me escapar e dormir. Mas no momento que coloquei o primeiro copo na boca ouvi, assim, claramente a voz da dona Silvia: “Ninguém vai saber quando eu realmente morrer”. Foi tão repentino e claro que me fez soltar o copo que caiu e se espatifou no chão, se dividindo em vários cacos, todos olhavam meu pequeno vexame, inclusive o cara troncudo que me serviu a bebida, eu nem me dei o trabalho de explicar, estava atordoado.



- Isso deve pagar, desculpa – Foi a única coisa que disse, coloquei o dinheiro no balcão e saí.



Isso foi o que me impulsionou a bater na porta número 10 assim que coloquei os pés no meu andar, e bati, três ou cinco vezes, não me lembro, e não fui respondido, não tinha ruído de nada, nem das séries antiquadas que gostava de ver, nada. Mas daí me lembrei de uma coisa, era feriado, ela devia ter viajado para praia, sempre fazia isso. Foi o que me confortou pelo resto da noite, e além do mais minhas visões não passavam de visões, nada demais, eu havia ignorado isso a minha vida toda e não seria agora que ficaria colocando minhocas na minha cabeça, eu iria dormir e iria sonhar com outra coisa. Não foi bem o que aconteceu.

Assim que fechei os olhos o sonho começou, do mesmo jeito, a mesma porta, a mesma sensação de sufocamento e o mesmo papo mórbido, a única coisa diferente era que dona Silvia parecia mais triste que a última vez, não conseguia pronunciar uma frase sem que derramasse uma enxurrada de lágrimas, elas ensopavam sua camisola cor de rosa e algumas pingavam no chão, mas não pareciam fazer efeito na poeira que se mantinha intacta, nem parecia que tinha sido molhada. E de novo eu acordei.

Eu me lembro muito bem que tornei a procura-la depois de ter acordado, mas de novo não fui atendido, ainda não escutava nada, nenhum ruído vindo de dentro daquele apartamento, o dia estava quente demais, na verdade o noticiário tinha avisado que iria ser quente a semana toda, ela deve ter aproveitado para prolongar o feriado, assim que chegasse eu iria conversar com ela e talvez lhe contar sobre o que vi. Mas naquele dia ela também não apareceu.

Seis dias, isso mesmo, seis dias foi o tempo que tive a mesma maldita visão, seis dias terríveis, eu já não conseguia trabalhar direito, comer, fazer as coisas mais comuns, eu sempre a ouvia sussurrar a mesma frase, estivesse eu no banho, ou andando pelas ruas, era angustiante! E eu sempre tentava entrar em contato, cheguei a esmurrar a porta algumas vezes e chorar baixinho em frente ao número 10, eu não aguentava mais! Precisava saber o que estava acontecendo, o sentido de toda aquela perturbação. Não sei se foi uma resposta divina, sei lá o que você vai achar, já não me importo mais, só sei que a resposta veio na forma de mais uma visão.

Eu estava novamente em frente a décima porta, mas pela primeira vez em uma semana ela estava mudada, em vez de ter o número 10 completo, faltava o zero, sustentando apenas o primeiro algoritmo de uma maneira desequilibrada, prestes a cair. A madeira estava repleta de bolhas de mofo que pareciam encrostadas por dentro do material, e fedia a bolor, podridão, confesso que senti certo nojo de encostar em sua maçaneta, pensei até em voltar, mas em uma simples olhada ao redor percebi que não conseguia ver mais nada, parecia que só existia aquela porta, todo o resto era apenas escuridão.

Dessa vez eu precisei abrir a porta, que rangeu sob o peso da minha investida contra ela, e o interior, quase desmaiei ao entrar, sustentava um cheiro de morte tão grande que fui obrigado a colocar a mão em frente ao nariz, as paredes não tinham mais nenhum pedaço do antigo papel de parede, o chão além da camada, ainda mais grossa, de poeira tinha gotas escuras e viscosas, parecia sangue, sangue velho e fedido, e a última coisa que reparei foi que Silvia não estava lá, não na sala, não no banheiro, não na cozinha e quanto mais eu adentrava o lugar, mais o cheiro putrefato ia ficando forte, parecia se engatar no fundo da minha alma.

Em todos esses anos achei que tinha visto as coisas mais terríveis, atropelamentos, decapitações, mas nada, absolutamente nada foi capaz de me causar tanta ânsia. Dona Silvia estava lá, deitada na sua cama, a mesma camisola cor de rosa, seu rosto parecia moldado em uma tristeza eterna, pelo menos a metade que ainda estava inteira, a outra? Oh céus! A outra metade era apenas um punhado de vermes, gordos e brancos, que se remexiam para lá e para cá, felizes com a refeição cadavérica, o olho estava perfurado bem no meio da órbita e pulsava, devido aos vermes que também estavam ali dentro. Eu tive que me segurar para não despejar tudo o que havia comido no chão, o bolo tinha se formado bem na garganta e tive que engoli-lo duas vezes para ter certeza de que não voltaria a subir.

Que visão pavorosa meu amigo! O resto do corpo era uma bola de carne inchada e roxa, eu a olhava com lágrimas nos olhos, não conseguia acreditar no que estava vendo e então houve um suspiro, não lhe dei atenção no primeiro instante, mas logo ele ganhou força: “Eu avisei. Sozinha”. Vinha da boca carcomida da mulher. Não tive tempo de ver o resto da cena, parti em uma carreira até a porta e a fechei atrás de mim, mas ainda assim conseguia ouvir! A voz, a voz dela: “Sozinha”. Mais alto e alto, parecia gritar no meu ouvido, eu precisava parar com aquilo e comecei a socar minha própria cabeça contra a parede, mas a voz parecia ignorar: “SOZINHA! ”. Acordei.

Meu primeiro impulso foi bater na porta ao lado, não ligava se estava de pijama, eu precisava vê-la, garantir que estava tudo bem. Esmurrei a porta tantas vezes que senti meu pulso arder, os vizinhos que haviam acordado àquela hora da manhã com meu barulho já se aglomeravam em suas portas, alguns me xingavam outros perguntavam o que estava acontecendo. Eu não ligava! Precisava de respostas. Desci às pressas para a portaria, e contei da maneira que consegui ao porteiro o porquê que precisava que ele abrisse aquela maldita porta.



- Eu preciso, preciso! Preciso... – Estava desesperado, mas logo tentei me recompor quando percebi que não conseguiria nada daquela maneira - Onde ela está? A dona Silvia do 10, chegou de viagem?

- Viajem? Senhor, a dona Silvia não saiu em viajem.



Não podia ser.... lhe contei resumidamente sobre meus sonhos e então ele tomou a atitude que eu esperava, subiu para conferir.

Quando o apartamento foi aberto um cheiro de podridão invadiu os olfatos de todos que estavam presentes vendo a cena, o porteiro não me deixou entrar, na verdade ninguém, disse que o que estava fazendo era invasão, mas logo depois que saiu ligou para a polícia, eu observava tudo com olhos aflitos, encostado num canto até que a polícia chegou. A notícia veio depois de alguns minutos que ficaram lá dentro: dona Silvia estava morta, morrera do coração há uma semana e ninguém havia percebido.

Depois disso tudo foi um borrão, me levaram para interrogatório, eu não conseguia pronunciar uma palavra descente e então decidiram que seria melhor que viesse para cá, simplesmente me colocaram nas suas mãos doutor Morgan, não precisa nem me dizer o que vai acontecer, eu já sei, e só assim espero que a voz cesse. Sei que já sabe disso, mas de qualquer maneira preciso contar para ficar registrado na minha ficha, a voz continuou e continua a gritar na minha mente: Você sabia!

- Bom Gustavo, você já sabe a sua sentença, gostaria que as coisas não fossem assim, mas não sou eu quem decido, infelizmente

- Tudo bem, meu amigo, sei que agora acredita em mim e sei também que deveria ter dado atenção as coisas que vi. Pode acreditar, você está me dando meu alento.

Depois disso dois homens vestidos de branco entraram na sala, igualmente branca, e levaram Gustavo, que seguia sem oposição talvez por desejar aquele momento, ou por causa da camisa de força, ninguém sabia.

Doutor Morgan, médico do hospital psiquiátrico, se pegara por um momento pensando na história daquele jovem, para logo depois assinar o papel que autorizava sua execução.

No dia 5 de agosto de 2019 Gustavo foi morto por uma injeção letal, depois de um julgamento que o condenava culpado pela morte de Silvia, já que ele, de alguma maneira, era o único que podia ajudar e não o fez, por não acreditar em suas visões.

Autora: DarkQueen

22 comentários :

  1. kkkkkk Essa é boa,,, ser preso por não contar um sonho

    ResponderExcluir
  2. Ficou sonhando a mesma coisa várias vezes e nem pra ir conferir? Mas é um jumento esse Gustavo viu!

    ResponderExcluir
  3. Gostei muito, mas na vida real ele não iria ser preso nem morto por isso, principalmente pq a SILVA morreu do coração

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu sei disso, e concordo com vocês que não gostaram do final, porém eu queria um desfecho absurdo

      Excluir
    2. Mesmo sendo um final absurdo eu gostei bastante, Queen. E se você também gostou, acho que tá valendo.
      .
      .
      .
      Mas que dá vontade de dar um tapa no guri, dá mesmo rs

      Excluir
    3. Ata, eu achei que não tinha gostado, bom, que bom que gostou!

      Excluir
  4. Respostas
    1. Finalmente alguém que nao achou o final ruim KKK obrigada

      Excluir
    2. Amadah, o final não é ruim, a gente só não espera que ele morra pq não contou um sonho. Mas vc tem licença poética pra esse final kkk

      Excluir
    3. Kkkk é insegurança de escritor, desculpa 🤔👍☹🌞☹🌞☹💙

      Excluir
    4. assim eu gostei da creepy mesmo, mas só achei que, do jeito que tinha começado bem e contínuo legal, essa série tinha potencial pra ser mais comprida e talvez ficasse entre as melhores do site.Mas a creepy foi boa mesmo assim ☺

      Excluir
    5. Eu pensei em alongar ela mais, mas fiquei com medo de perder o raciocínio e ficar maçante. Porém eu vou lançar uma série aqui, acho que vocês vão gostar

      Excluir
  5. PRGDL02022

    A creepy ficou muito boa, final bom e surpreendente. Parabéns, boa escrita e uma leitura muito gostosa, escreva mais pra gente nossa "Rainha das Trevas"🌚🌚🌚

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pode esperar que vocês vão ter uma daqui um tempo 💙

      Excluir
  6. Eu li as duas partes ontem, e gostei demais, muito mesmo, mas eu não sabia o que comentar Kkk.
    Enfim, saiba que eu apoio você a continuar escrevendo creepys :D

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Qualquer coisinha que quiser comentar já me motiva bastante a continuar! Que bom que gostou

      Excluir
  7. Muito bom continue assim gosto muito de histórias assim parabéns.

    ResponderExcluir
  8. Chorei... esta história mexeu cmg...

    ResponderExcluir