Quando eu era pequeno, costumava ignorar, já que achava que era normal e que todo mundo podia ver. Descobri que estava errado aos meus 5 anos, quando questionei meu pai o porquê de ele não ter um fio em seu pescoço. Não, não era todo mundo que tinha. Ele reagiu com espanto a principio, mas depois que tentei explicar, ele fez um carinho em minha cabeça e riu, como quem ri discretamente de uma piada boba.
Nos dias seguintes, passei a questionar mais pessoas sobre isso. Tios, amigos da escola, minha mãe. As reações eram mistas, mas nunca positivas. Risada, desdém, indiferença, era o tipo de coisa que acontecia após tentar falar sobre os fios. Decidi deixar pra lá antes que eu virasse motivo de piada.
Aprendi a ignorar completamente a existência daqueles fios por bastante tempo. Mas alguns anos depois, com o advento da Internet e a facilidade de encontrar informação e pessoas que passem pelos mesmos traumas que os seus, a curiosidade veio à tona novamente e decidi pesquisar sobre os misteriosos fios vermelhos. Para minha surpresa, descobri uma lenda chinesa extremamente difundida pelo mundo chamada Akai Ito. Basicamente, a lenda falava que os deuses ligavam as pessoas que estavam destinadas a serem o amor da vida um do outro por uma grande linha vermelha invisível.
Ok. Gostei.
Mas a partir daí, começou a minha paranóia de reparar aonde ia cada um dos fios. A começar pelo meu pai, que não tinha um. Se a lenda fosse verdade, minha mãe não era o amor da vida dele e, na verdade, ele sequer tinha um. Mas tinha mãe tinha, e o fio ia tão longe que se perdia de vista. Óbvio que ela não era a única com esse problema. Haviam incontáveis pessoas com seus fios indo em direção ao horizonte longínquo.
Passei a anotar e analisar melhor, então percebi que, na verdade, a grande maioria das pessoas NÃO tinha um fio. Ah! Eu também não tinha, a propósito.
Pensei muito sobre como isso era triste. Quer dizer então, que para grande parte das pessoas, por mais que encontrassem alguém com quem ficar, não existia uma com quem ela seria plenamente feliz. Profundo... e triste. Mas eu achava que ainda mais triste que esses, eram aqueles que estava com alguém, mas com o fio ligado a outra pessoa, e o pior é que esses eram praticamente todos. Até os meus 14 anos, eu devia ter visto um ou dois casais com o fio ligado um ao outro, e um deles eram meus tios Miguel e Bianca. Isso era na verdade bem estranho pois sempre rolava na família boatos que minha tia apanhava do meu tio, mas ela negava isso piamente ao ser questionada.
Comecei a pensar o que a essa altura você que está lendo já tem certeza: essa história de amor da vida está com furos demais. Poucos dias depois, presenciei o que me faria ter certeza que a lenda chinesa era balela. Em uma ida ao centro da cidade, passei por um homem que tinha o fio no pescoço, mas do laço saíam umas 5 ou 6 outras linhas, em várias direções diferentes.
Fala sério, se eu tinha certeza de uma coisa, era que você não podia ter 5 amores da sua vida.
Por mais 3 anos, decidi esquecer essa história dos fios, tentar ser uma pessoa normal. Teria dado certo se não fosse o fatídico dia. O dia em que foi noticiado à nossa família que meu tio Miguel havia sido preso após matar à facadas a tia Bianca.
Os dias seguintes foram longos, pois não conseguia parar de pensar na relação dos fios com o acontecido. Precisava me acalmar e encontrar paz para colocar minha cabeça no lugar antes de qualquer coisa. Fui ao cinema sozinho numa noite de quarta-feira para assistir um bom filme de comédia, era o que eu precisava para me aliviar. Realmente funcionou.
O Shopping fica perto da minha casa, então eu voltei a pé mesmo. Eram por volta das 23:00 quando ao chegar na porta de casa, olhei para a esquina e vi uma moça também em sua porta, procurando a chave na bolsa para entrar em casa enquanto um homem se aproximava vagarosamente de suas costas com uma faca. Seus pescoços estavam ligados pela linha vermelha. Para minha quebra de expectativa, ao anunciar o assalto, o homem foi atingido por 3 disparos feitos pela mulher, que havia sacado rapidamente uma arma de sua bolsa ao ser abordada.
Ela rapidamente ligou para a polícia e, ao ver que eu tinha presenciado o ocorrido, veio até mim pedir ajuda pois precisaria de um álibi que confirmasse sua ação em legítima defesa. Enquanto ela falava, meus olhos estavam vidrados na linha em seu pescoço que ia se desfazendo aos poucos.
Não sabia o que fazer, pra ser honesto. Talvez eu fosse mesmo louco, e se eu contasse para alguém seria internado em um manicômio.
Decidi ficar trancado em casa alguns dias. Ver as pessoas com os fios não me faria bem. Evitei até mesmo minha mãe.
Mas hoje de manhã ao acordar, levantei para ir ao banheiro escovar os dentes ainda meio sonolento. Dei um salto para trás ao me olhar no espelho e ver que tinha aparecido um lindo lacinho vermelho em meu pescoço. Tremi. Chorei.
Depois de meia hora consegui me recompor, então fui até a porta da rua seguindo o meu fio. Fiz isso apenas para ver algo que deixaria minhas pernas bambas: meu fio entrando na casa do outro lado da rua.
Na frente da casa, estavam meus pais conversando com o vizinho dono da casa, era o senhor Queiroz, marido da dona Pires. Estavam parabenizando ele por algo.
Aproximei-me deles, suando frio, então minha mãe disse que eu o parabenizasse também pois 'havia dado tudo certo'. Eu estava no piloto automático, então obedeci e o felicitei sem saber exatamente pelo quê e olhando fixamente para dentro da casa que estava de porta aberta.
"Você quer vê-lo? Pode ir!", disse o senhor Queiroz. Olhei para ele com um olhar vidrado rapidamente e depois me virei para dentro da casa de novo. Sem responder nada, fui entrando na casa vagarosamente, sem sentir as pernas, com um misto de angústia, medo e curiosidade. O fio vermelha subia a escada então foi o que fiz. Ela devia ter uns 20 degraus, mas pareciam ter milhões e milhões. Depois do que pareceu um século, cheguei na porta de um quarto que tinha uma placa na porta escrito "AQUI DORME UM PRÍNCIPE".
Ao entrar naquele quarto, vi até onde meu fio levava. Levava até dentro de um berço que a dona Pires estava balançando.
Ela estava grávida há um tempo, lembrei finalmente. E dentro daquele berço, havia um lindo bebê com um laço vermelho no pescoço.
Autor: Lucas Queiroz