04/02/2020

Acerto de Contas

A única coisa que eu desejo nessa noite é terminar essa semana e passar dois dias com a minha família. A minha menina mais velha, Emma, está grávida do seu noivo, e a minha garota de dez anos tirou nota alta na prova de matemática; minha esposa, Emily, falou que essa noite ia fazer a minha comida predileta. Antes de mais nada, fui ao banheiro tomar um banho e, quando estava saindo, notei que as luzes estavam apagadas. Quando caminhava para as escadas, uma sombra, com uma touca cobrindo o rosto, empurrou-me de escada abaixo, e eu apaguei...

A queda acertou a minha cabeça e deixou-me em coma. Fiquei alguns meses deitado naquele hospital, recebendo a visita do meu irmão mais novo, este que havia saído da prisão por conta de uma briga em um bar e me disse tudo de uma só vez. Segundo meu mano, três caras entraram na minha casa para roubar, mas não encontraram nada e mataram todos para que ninguém soubesse, a polícia foi chamada e conseguiram matar dois deles em um confronto de carro. O sobrevivente alegou que estava sendo obrigado. Precisou de um advogado bom, a ficha limpa e um emprego estável para conseguir sair impune.

Aquelas três pessoas tiraram tudo de mim, a minha família, o meu emprego e até a minha saúde, porque ainda fiquei com sequelas daquela noite. Não dava mais para continuar e, ainda mais por cima, aceitando que um daqueles desgraçados ainda está por aí, como se nada tivesse acontecido. Chaney, o meu irmão, sabe o que eu queria fazer, ele também não deixaria barato, pois amava os meus filhos como se fossem dele. Então, disse que já estava planejando uma forma de vingar e acabar com a vida do assassino, até planejou tudo e confessou que iria fazer sozinho, mas, como eu havia saído do coma, achou que eu desejava, com as minhas próprias mãos, matar o ceifeiro da minha família.

Nós marcamos tudo para a noite de quinta-feira, de madrugada. Meu mano falou que até conseguiu um contato para se livrar do corpo depois que nós terminássemos o serviço. Suas exigências eram apenas que eu precisava ir na frente, me esconder e, de maneira alguma, começar sem a sua ajuda. Estava aguardando a sua ligação, quando meu telefone tocou, e ele disse que descobriu o endereço, falou o nome da rua e o número da casa. Quando cheguei ao endereço, aguardei escondido entre alguns arbustos.

Tava quase sentado no chão, sentindo-me ansioso, e as lembranças da minha família começaram enquanto eu observava casa: gargalhadas das minhas filhas, a minha mulher beijando o meu rosto e o cheiro de comida daquela noite ficou tudo na minha cabeça. Não suportei esperar por mais nem um minuto o meu irmão, que estava demorando. Levantei-me igual um animal selvagem e fui até a casa.

Esperava encontrar o miserável dormindo, contudo fui surpreendido com um homem, uma mulher e uma criança na sala, jogando Uno, no tapete. Eles olharam para mim ao mesmo tempo, por conta do barulho da porta sendo quebrada. O homem ainda tentou correr para pegar alguma coisa, mas eu apontei o revólver e disse que ficasse onde se encontrava. Fiquei por alguns segundos olhando em seus olhos e observando a cara da pessoa que tirou tudo o que foi meu, vendo que ele, injustamente, tinha sua própria família: uma criança que, provavelmente, tivesse a idade da minha filha mais nova, e uma mulher. A sede de vingança me deixou cego.


Amarrei o homem com as mãos presas nas costas e as pernas encostadas na parede. O meu revólver é uma arma silenciosa, atirei nos seus dois joelhos, o que lhe deixou ainda mais impossibilitado de lutar. Transformei-me em tudo aquilo que eu nunca fui, um assassino frio ao matar a mulher diante dos seus olhos, após espanca-lá várias vezes até a morte... E depois a sua filha, que matei com minhas próprias mãos, apertando o seu pescoço. Fiquei feliz vendo ele agonizando e tentando gritar enquanto estava com um pano amarrado em sua boca e chorando como uma criança assustada.

Não pareceu que durou quase uma hora que eu cheguei até esse local e terminei fazendo tudo sozinho. A culpa começou atacar a minha consciência ao imaginar que a mulher e a menina não tinham nada a ver com isso, e ele continuou com os olhos perdidos por conta do choque. Sinto que a justiça foi feita, e aquela pessoa está sentindo o que eu estou sentindo nesse momento ao saber que sua família foi morta dentro do seu próprio lar. Aproximei da sua cabeça e dei apenas um disparo de arma, dado que o desgraçado já havia sofrido o suficiente. Após o disparo, o celular tocou em meu bolso.

Era uma ligação de Chaney, provavelmente, desculpando-se por ter se atrasado, e eu já estava esperando uma desculpa esfarrapada quando atendi a ligação, sentando no sofá da casa:

-Mano? Deu merda aqui, eu tive que atrasar, pois os canas me levaram para a delegacia porque estavam suspeitando de mim. Sorte que eu não me encontrava com o revólver. Estava dando alguns depoimentos e eu estou aqui te esperando em frente à casa. Cadê você?

-Achei que você tinha desistido, não aguentei esperar por mais de dez minutos a sua chegada e entrei sozinho. Estou aqui dentro da casa daquele filho da puta.

-Que merda você está fazendo aí esse tempo todo? Eles vão te ver, está tudo suave? Irei entrar agora.

-Não se preocupe, eu cuidei de tudo. Basta apenas você se livrar dos corpos, como disse que iria fazer por nós.

-Espera... o que é que você está dizendo? "Corpos"!? Eles estão aqui, eu estou vendo a família na casa, estão na cozinha e, na verdade, é apenas aquele cara com o seu cachorro. O que é que você está falando?

- Que bobagens são essas, droga! Você disse para vir para a Rua Agamenon de Magalhães, número 306. Estou aqui e fiz a porra toda sem sua ajuda.

-Mano, o que é que você está falando? Repeti mais de uma vez: 303 e não 306. O que você fez...?

Autor: Sinistro

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