29/04/2017

Algumas coisas que você vê apenas através dos olhos dos outros

O conteúdo abaixo foi retirado do diário do Hayde. Encontrado dentro do seu apartamento, duas semanas depois de sua morte.


Em uma tranquila tarde numa típica cidade agitada, com o ar cheirando a querosene e fumaça, eu estava sentado na janela do meu apartamento, olhando para fora e me perguntando: por qual motivo eu ainda me incomodava em acordar todas as manhãs? À beira da loucura, medicamentos percorrendo pelo meu corpo, meu mundo se destruindo ao meu redor, eu estava sentado, quieto, sacudindo meu corpo para frente e para trás, abraçando fortemente os meus joelhos. Estou vendo aquilo? Aquilo é real? Uma pergunta que eu me fazia todos os dias. Minha mente se agitava enquanto eu sacudia minha cabeça, esfregando meus olhos em descrença. Eu não tinha certeza se era uma criação da minha mente perturbada.

Uma figura negra, envolta em um casaco preto e um chapéu igualmente preto. O rosto da figura não era visível de onde eu estava. Ele estava encurvado, com movimentos anormais, seus músculos dos braços e pernas espasmavam enquanto ele se aproximava do meu prédio. Deixando um pacote na entrada do prédio, ele me deu um rápido aceno, a sombra do seu chapéu ocultava a maior parte do seu rosto, exceto por um único detalhe. Seu sorriso... estremeci de medo. Ele me perturbava. É difícil descrevê-lo, essa lembrança me assusta, mas acredito que eu deva contar, pela minha história. Sua boca caracterizava a decadência, os cantos eram rasgados, esculpindo um permanente sorriso sinistro, expondo suas gengivas e dentes podres. Corri para o meu quarto, me trancando lá. Abracei a mim mesmo, enquanto sentia as sombras da noite caindo ao meu redor, me cobrindo. Sentia minha garganta seca, enquanto enxugava minhas lágrimas de medo.

Pus a cabeça para fora do meu quarto, meus olhos percorrendo as paredes escuras, procurando por qualquer sinal daquela criatura terrível, que eu nem poderia considera-lo um homem, apesar de sua forma humanoide. Enchendo um copo com água fresca, engoli rapidamente. Uma irritante sensação de ter esquecido de fazer algo, misturado com medo, fixava-se no fundo da minha mente. Olhando para a sala escura, não pude deixar de notar uma luz vermelha piscante. Apertei o botão do interfone. “Ei, Hayden? Tem uma encomenda aqui na recepção, venha busca-la. Ninguém viu quem a deixou, mas deve ser importante.” A voz do recepcionista ecoou pelo interfone. Desliguei o aparelho, dando lentos passos pelo apartamento decadente.

As paredes eram antigas, o papel de parede estava caindo, o mofo penetrava pelo teto. Isso me irritava, o jeito que as lâmpadas piscavam, por causa dos fios lascados. Um arrepio percorreu meu corpo quando ouvi ratos andando pelas paredes. Bati duas vezes na porta do recepcionista, onde se lia “Apenas funcionários”. Mas não tive resposta, apenas o zumbido de estática. A curiosidade levou a melhor sobre mim, enquanto eu empurrava a porta. O medo me atingiu em cheio quando meus olhos encontraram a silhueta do recepcionista, sua nuca era visível por trás da velha cadeira reclinável. “Senhor Kelly? Você está bem? Posso pegar a minha encomenda…?” perguntei, rezando para que ele respondesse. Esperei pelo que pareceu uma eternidade, e uma repentina onda de coragem tomou o meu corpo enquanto eu girava sua cadeira… meu queixo caiu, e engasguei, sufocando um grito que saia pela minha garganta.

Eu estava com medo. A coisa que tinha feito aquilo com ele poderia ainda estar rondando pelo local. Pobre coitado, estava parecido com uma das grotescas criações da minha mente perturbada. Estava sem olhos, apenas um pedaço de carne pendia onde os músculos e nervos foram destruídos em suas órbitas, seus olhos tinham sido retirados à força. Não pude evitar o vômito quando vi sua boca. Estava igual a da criatura que eu tinha visto, acenando para mim, me perturbando com a sua estranha forma. Sua boca tinha sido rasgada das bochechas, lama e terra estavam espalhados por suas gengivas, deixando-as com uma aparência apodrecida. Seus dentes, puxados de suas gengivas sangrentas, estavam realinhados em uma nova forma. Estavam enfiados em suas bochechas, sim, isso mesmo. Enquanto pedaços de carne e pele tinham sido rasgados de seu rosto para permitir que seus dentes saíssem, rearranjados em uma nova forma doentia. Caí para trás, em choque, me segurando pelo único fio de sanidade que ainda me restava. Não conseguia acreditar. Me perguntava se era real. Tremi enquanto uma brisa gelada entrava pela janela, fazendo as cortinas sacudirem. A estática zumbiu em meus ouvidos, a televisão ainda estava ligada. Tentei desliga-la, mas a estática aumentou, e cessou abruptamente.

A TV iniciou um vídeo da câmera de segurança do que parecia uma semana antes. Mostrava um homem, vestido com um casaco preto e um chapéu, de pé em frente a um apartamento... pulei para trás, assustado por estar vendo a criatura outra vez. Mas para o meu horror, a câmera aproximou do número, mostrando 356. Meu apartamento. Sequei as lágrimas de medo que saíam dos meus olhos, enquanto o vídeo continuava. Ele mostrava uma progressão de lugares por onde eu estive. Então, subitamente a estática retornou, e a TV passou a mostrar a morte do Sr. Kelly. Ele estava sentado, assim como o seu corpo sem vida, mas no vídeo ele estava enfraquecido, como se estivesse dopado. Suas mãos estavam amarradas por trás, e eu conseguia ver uma figura escura se movimentando por trás, o familiar casaco e o chapéu ficaram visíveis mais uma vez. Deixei o local antes de ver o que aconteceria, porém, não antes de captar o sorriso sádico da criatura.

Meus pés tombaram no tapete apodrecido, me repreendi, mas não pude deixar de olhar para trás, sobre meu ombro, e ver uma coisa terrível. Era aquela coisa. Ele sorriu para mim, e apenas naquele momento que pude ver o seu rosto por inteiro.

Ele era eu.

Apenas uma versão grotesca, minha. Seu chapéu fora removido, mostrando sua imunda careca, marcada por várias cicatrizes. Seus olhos estavam costurados, formando duas linhas curvas em seu rosto. Ele sorriu para mim, sua voz soando profundamente monótona, “Somos os mesmos.” Corri o mais rápido que pude, meu coração pulando de medo, a adrenalina assumindo meu corpo. Bati a porta, arrastando os móveis mais pesados contra ela, me isolando dentro do meu apartamento. Minha mente gritava para que eu acabasse com tudo, enquanto eu o ouvia chamando por mim em um tom cantante. Ele riu enquanto parava em minha porta, eu sentia sua presença me ameaçando. Corri para o banheiro, me trancando lá dentro, enquanto ouvia passos pesados cruzando o corredor. Havia apenas mais um retalho de esperança para mim...corri para o meu quarto, que era bem em frente ao banheiro, e peguei a esperança que estava embaixo da minha cama...


O conteúdo a seguir foi retirado de um relatório policial.


Investigando a propriedade, encontramos o corpo de um jovem, homem, caucasiano, pendurado em uma viga no quarto. Suspeitamos de suicídio, devido a uma doença mental, já que havíamos encontrado um frasco de medicamento prescrito, com dois comprimidos não consumidos. Testemunhas relatam o comportamento do jovem, Hayden, visto rondando pelos corredores, desorientado e assustado. O corpo do recepcionista também foi encontrado dentro do complexo. O corpo estava severamente mutilado, e acredita-se que o jovem Hayden tenha assassinado o homem, antes de cometer suicídio. Também examinamos seus registros, e o seu psicólogo acreditava que ele sofria com alucinações, e confirmamos que ele não fez uso do medicamento no dia do seu suicídio.


15 comentários:

  1. Lembrei de outra fic que tinha aqui, era um cara que matava a esposa, ele tinha feito isso por causa de bebida.
    enfim, creepy ótima btw.

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    1. Tem uma que já foi postada aqui, o cara matava a esposa por efeitos colaterais de produtos químicos (via ela como um monstro)

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    2. Kezz, eu lembro dessa. Se não me engano, ele tacou ela no fogão

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  2. Nao vai ter parte 5 do "Minha familia vem sendo perseguida a 5 anos?" Ou ja tem e eu nao to sabendo?

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    1. quem ta traduzindo é a divina, ela avisou que o pc que usava p traduzir pifou ;-;

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  3. Imagine que legal seria se os doze colaboradores listados lá embaixo dá página se revezassem pra trazer conteúdo todos os dias?
    Podiam fazer uma agenda né, cada dia um colaborador posta uma creepy pelo menos

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  4. 7/10
    Desenvolveu bem a ideia, mas não gostei dela
    #VoltaPcDivino

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