28/04/2020

A garota no espelho

O indivíduo é do sexo feminino. Cabelos longos e pretos, pele clara, olhos de cor castanho escuro, aproximadamente 1.70 de altura. À primeira vista passa uma feição inexpressiva.

— Senhorita Mary, certo? — pergunto.
— Isso — ela responde.
— Por onde a senhorita prefere começar?
— Eu não quero falar nada sobre absolutamente nada — seu olhar, antes inexpressivo, torna-se de seriedade.
— Senhorita Mary, o único motivo de eu estar aqui é porque quero ouvi-la. Está tudo bem. Quero que me encare como seu amigo, nada mais que isso. Se tem alguém que pode lhe ajudar agora, sou eu, mas para isso eu preciso saber da verdade — tento estabelecer uma aproximação.
— Hum... — Mary franze a testa como se estivesse processando o que falei.
— Acha que podemos fazer isso? — insisto.

Nesse momento, Mary analisa toda a sala, vasculhando cada mísero cantinho com seus olhos. Um leigo talvez achasse que ela está procurando algo, mas tenho certeza que ela está se certificando que algo ou alguém não está aqui. O que é bem estranho para a situação, dado que estamos sozinhos em uma sala fechada.

— Você tem algum espelho aí? — ela pergunta.
— Bem... Não.
— Tem certeza?
— Sim — afirmo enquanto esvazio meus bolsos.
— Então tudo bem. Eu vou te contar.

Foi bem mais fácil do que pensei que seria... e bem mais estranho também.

— Começou quando eu era bem pequena. Devia ter uns 10 anos. Minha mãe tinha acabado de sair só pra dar um oi na vizinha e eu tinha decidido escovar os dentes. Quando cheguei no banheiro e olhei no espelho, ela estava lá. A garota.
— Tinha uma garota no banheiro? — pergunto.
— Não, no espelho — responde ela com os olhos arregalados.
— Você quer dizer você, não é? Você quem estava aparecendo no espelho.
— Não, não — ela nega como se eu estivesse falando a maior bobagem da década. — Mas admito, ela parece bastante comigo, tipo, quase tudo mesmo. As pessoas sempre costumam achar que sou eu.
— E qual a diferença entre vocês?
— Ela parece... — olha para os dois lados como se estivesse prestes a me contar um grande segredo. — Errada. Ela parece errada! Como se algo estivesse fora do lugar. Como se de alguma forma, ela não devesse estar ali, entende?
— Entendo — na verdade, eu não entendo — E de que forma isso se relaciona com a nossa 'verdade'?
— Naquele dia, quando a vi, eu não consegui me mexer... Até que ela se mexeu. Meu corpo imitava tudo o que ela fazia, totalmente contra minha vontade. Mas às vezes eu errava.
— Como assim errava? — me vi mais imerso na história do que deveria.
— Ela se movia de um jeito, mas eu não fazia igual. Isso não acontecia sempre, era só às vezes mesmo — ela falava como se fosse algo natural. — O ponto é que... Sempre que tem um espelho ou até mesmo um reflexo, não sou eu quem toma as ações.
— Olha, senhorita Mary — respiro fundo. — Lhe parabenizo por ter me feito por um segundo dar um pouco de credibilidade a essa história. Mas de todas as explicações para um crime, essa foi a pior. Não sei se é pior você achar que isso realmente é verdade ou você ter inventado tudo isso só para fazer uma brincadeira comigo. Eu queria apenas lhe ajudar.

Levanto enfurecido, mas em dúvidas se era com a senhorita Mary pela história absurda ou se era comigo mesmo por estar cogitando que fosse verdade.

— Espere, doutor! — ela grita antes que eu saia da sala. — Eu nunca mataria meu marido, juro!

Fecho a porta e saio.

"Que absurdo! Matou o marido e diz que foi um fantasma no espelho!", é o que eu repito para mim mesmo. Não me entenda mal, não acho que foi uma grande história super bem contada, mas se você visse e ouvisse como ela contava, as expressões, o tom de voz... Um leigo acharia que foi atuação, mas eu tenho certeza que ela acreditava piamente em tudo que estava falando, e isso me perturba.

Em casa, todos os espelhos parecem meus inimigos. Sou um homem cético, mas algo na história daquela mulher me deixa inquieto, algo me faz querer investigar.
Nessa noite, praticamente não dormi. Estou ansioso para encontrar com Mary mais uma vez, ainda mais por saber que essa será a última.

Cheguei 1 hora antes do horário marcado para a sessão e esperei na sala, inquieto. Dentro do meu bolso, há um pequeno espelho. Eu vou mostrá-lo. EU PRECISO MOSTRÁ-LO. Tenho que saber como ela vai reagir. Eu não estou louco, só quero ver com meus próprios olhos que nada vai acontecer e acabar com essa paranoia. MERDA! Sou um psiquiatra com PhD, MERDA!

Finalmente, Mary chega. E no exato momento em que ela senta a minha frente, paralisa. Vidra seus olhos em mim. Sua cabeça treme levemente como se estivesse prestes a convulsionar.

Começo a suar.

Meu coração começa a acelerar.

Meu olho esquerdo começa a tremer.

Engulo a seco.

Será que é verdade? Será que ela pode sentir que eu estou com um espelho? Será que estou louco? Será que ela só é simplesmente louca?
O que pra mim parecem 10 horas ininterruptas de Mary me encarando de forma inumana são na verdade 15 segundos.
Repentinamente, Mary volta ao normal.

— Doutor, você está bem? — ela ri.

Repentinamente também, eu volto ao normal. Passa-se pela minha cabeça todos os psicopatas, sociopatas, esquizofrênicos e lunáticos que eu já tinha ouvido. Todas as histórias e declarações absurdas. Percebo que me deixei levar e afetar por uma semana ruim. Tudo que eu preciso é de uma folga.

— Mary... — respiro fundo. — Vamos começar?

Hoje, consegui ter uma consulta e conversa decente com Mary e a diagnostiquei. Esquizofrênica.
Para o azar de Mary, apenas esse laudo não a impede de ser condenada à pena de morte por injeção letal.

Decido visitar Mary na prisão na véspera de sua sentença ser cumprida. Acho que ninguém mais irá visitá-la. Como a última pessoa a ouvir seus sentimentos, decido tentar confortá-la de alguma forma e me desculpar pela nossa primeira sessão.

A visita é igualzinha aquela dos filmes mesmo, com uma divisória de vidro e cada um com um telefone.
Vou direto ao ponto.

— Oi Mary... Olha... Quero me desculpar, não fui profissional na nossa primeira sessão. E amanhã... Não quero que você se vá pensando que todos lhe acharam louca ou algo do tipo. Nesse último dia, valorize suas próprias verdades e encontre paz com você mesma.
— Está tudo bem, doutor — diz ela com calma. — Obrigado por tudo. Tudo mesmo. Você me fez encontrar a paz depois de muitos anos.
— Acho que falar sobre aquelas coisas te fez sentir melhor, não é? Talvez se tivesse tentado antes não tivesse sido tarde demais...
— Não, doutor, não estou falando disso. Estou falando de ter levado aquele espelho escondido com você naquele dia.

Estou gelando.

— O esp-pelho? M-as — travo.
— Ela sussurrou pra mim, doutor. Ela disse que eu não precisava mais me preocupar, que agora ela iria morar com o senhor. Se você reparar bem, já vai conseguir vê-la por lá, nos seus espelhos. Ou talvez ela já tenha se encontrado com sua esposa ou filhas, se o senhor tiver.

O guarda anuncia o fim do horário de visitas.
Continuo paralisado.

— Tá tudo bem, doutor — disse Mary. — Só não cubra os espelhos. Isso faz ela gritar muito.

Autor: Lucas Queiroz

7 comentários:

  1. Muito boa, poucos erros, se foi vc que escreveu, foi uma bela evolução (e não faz continuação não, estraga a essência e o suspense que toda boa creepy tem)

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    1. Olá. Sou o autor.
      Obrigado pelo Feedback. :)
      Todas minhas histórias tem esses finais em aberto. Tem outras aqui no blog.

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  2. Parabéns Lucas, muito bem escrita!

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  3. Para o autor: Vou narrar essa creeypasta e postar no YouTube. Se quiser ver como fica a sua história em uma narração, deixarei o link aqui depois, sou apenas um amador fazendo algo que gosto, espero que goste também.

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