Agonia

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Olho pela janela, silêncio mórbido, vejo um bando de cachorros comendo o que parece ser restos de um rato ou pombo, o som daquelas mordidas e o cheiro são terríveis. Mais a frente, do outro lado da rua, temos o hospício Ludwig circundado por um jardim lúgubre onde corvos depositam suas lembranças de um passado obscuro e violento do qual infelizmente fiz parte.No local para "loucos" (para mim essa denominação não deveria de jeito algum ser usada de modo pejorativo devido ao que vivenciei)não há nada mais que pobres almas atormentadas pela Grande Guerra e vítimas da loucura humana, da verdadeira loucura, e foi desse local que veio meu maior pesadelo.

Pego meu remédio, estrategicamente posicionado em cima do criado mudo e relembro meu pesadelo que não necessariamente é cheio de monstros e fantasmas, mas sim um sonho bom onde revejo meu irmão Julian e junto brincávamos de soldadinhos e ele sempre dizia "quando crescer serei fuzileiro e protegerei minha família se uma guerra aconteça novamente" e meu pai sempre o repreendia dizendo que preferiria abrir os braços em um campo aberto de batalha do que perder um de seus filhos e que aqueles tempos sombrios nunca voltariam a ocorrer(longo engano). No fim, o sonho sempre terminava com eu e meu irmão deitados na grama olhando para as estrelas e quando acordo vem a pior parte, aquela parte na qual me recordo de todo o sangue em seus olhos e da espuma, aquele amontoado de bolhas amareladas que pingavam e pingavam sem parar de sua boca entreaberta e seus olhos vibrantes saltavam da órbita ocular parecendo querer respirar. A dor causada pelo Hun Stoffe ou gás mostarda era tamanha e só sobrevivi graças ao cabo Gerald o médico do nosso batalhão que infelizmente foi incapaz de salvar meu irmão.

Com os olhos cheios de lágrimas começo a tomar o medicamento junto com a água e pelo fato de o remédio ser bem forte, me causa náuseas e uma forte rigidez muscular, como se meus músculos do braço estivessem em uma camisa de força e todo o esforço para sair da mesma fosse totalmente em vão. São 4h da manhã quando ouço um som alto, algo como um berro de dor excruciante vindo de Ludwig e todas as lâmpadas se apagaram de repente, escuto passos distantes que começam cada vez mais a se aproximarem e minha janela de trás, a qual ficava no cômodo mais afastado de meu quarto, se quebra em um barulho seco e alto e nesse momento tive certeza que algo ou alguém entrou em minha casa.

Com a mão trêmula, pego a M1 Garand de meu pai e abro devagar a porta, consigo ouvir o barulho da coisa se debatendo no chão e o seu grito doentio e vejo que embaixo da porta há sangue fresco e que derrama, se espalhando pela minha sala, logo imagino que o bicho ou sei lá o que seja isso se machucou devido ao fato de estar batendo a cabeça pelas paredes e quebrando coisas. Nem precisei me preocupar em abrir a porta, a coisa a abriu com uma força estrondosa, algo realmente sobre-humano e definitivamente me dei conta que meus pesadelos eram menos horríveis do que isso que estava em minha frente, não era um monstro de nome impronunciável, um drácula ou frankenstein mas sim um corpo humanoide com o rosto totalmente enfaixado e seus braços eram cobertos por uma camisa de força tão apertada que seus ossos finos como graveto eram extremamente visíveis e aterradores, sua boca era enorme e repleta de navalhas encravadas em sua gengiva podre com vermes esparramados pelo seu rosto e os buracos em sua carne faziam meu estômago se revirar e grunhir. Logo que me viu começou a gritar loucamente em sons desincronizados e estridentes vindo na minha direção, meu corpo congelou e só me lembro da dor terrível e depois a escuridão.

Acordei no dia seguinte e escutei algo que até hoje não entendi bem o que ela queria dizer

- O paciente tentou suicídio com duas facadas no rosto, disse a enfermeira

E logo a frente pela janela senti que as luzes do hospício Ludwig me chamavam, mesmo sem conseguir enxergar.

Autor: Matheus Howard

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