Amigos e Família Não Se Misturam A Meia Noite (Parte 1)

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A festa agora pendia para o final. As garrafas de bebida jogadas secas ao chão traziam uma imagem puramente melancólica a Andrew, que sentado jogado como um boneco de ventríloquo em uma velha cadeira de praia, observava tudo girando ao seu redor. De fato, precisava de mais álcool. Seus amigos faziam alguma outra coisa dentro do casarão de madeira esbelto e cheio de classe da avó de Phill, deixado aos cuidados do jovem, que avisou logo no inicio da junção, com delicada acidez, que ao final todos ali ajudariam a organizar a bagunça, e não poderia haver qualquer indicio sequer da festança, pois a avó era estritamente religiosa e regrada à moda antiga. Andrew sempre evitou ao máximo o contato com a família do amigo, por mais que se conhecessem desde o primeiro ano do ensino médio, agora, no final das férias, prestes a iniciarem o terceiro ano, um pacto entre os dois fora selado, com a única demanda de aproveitarem cada mês até a tão esperada formatura. Mais precisamente, cada final de semana, simplesmente curtindo a amizade.

Era na casa dos parentes de Phill que rolava os encontros para beber e se divertir. Eles viajavam com estranha freqüência, quase sempre confiando a Phill os cuidados de suas devidas residências. E por incrível que pareça, havia uma certa responsabilidade de ambos os jovens nisso tudo. Entretanto, para a amargura das condutas reclusas de Andrew, hora ou outra o rapaz tinha de socializar com os parentes do amigo, em dados momentos infortúnios ao qual se via presente, sem chance de escapatória com alguma de suas desculpas para esgueirar-se longe dos tios e primos mais velhos –radicalmente mais velhos- de Phill, era obrigado a participar das convenções por pura educação e sentimento ao seu companheiro. Mas inegavelmente era coberto por um aperto de ansiedade nesses encontros de parentescos, pois Andrew sentia algo macabro e acima de tudo, ancestral, naquilo tudo. Como se um ou dois detalhes expressados em gestos ou falas, até mesmo olhares da parentela de Phill uns para os outros (e para Andrew) fizera diversas vezes ele sentir uma vontade viva e pulsante de sair correndo portão afora e gritando que ali tinha um bando de loucos, sádicos! Clamando por ajuda e implorando pelas autoridades locais, livrando-o por vez daquele pedaço de pesadelo irreconhecível e predatório.

Mas era uma besteira e tanto, afinal, naquele tempo, não se convencia de uma idéia realmente propícia do porquê sentia o que sentia em relação a família do amigo a ponto de mencionar isto a ele, seja em alguma conversa ou até mesmo da forma mais leve em tom de piada ao qual poderia satirizar, quem sabe. Sentia que tal assunto era inconcebível, e poderia mudar drasticamente o rumo da amizade deles caso surgisse em pauta, sendo visto como estranhos devaneios anti-sociais da cabeça do próprio Andrew, afastando o amigo para longe, para sempre.

Mas no fundo, bem lá no fundo, sentia que Phill de alguma forma entendia a excentricidade de sua linhagem. Aceitava-a, inevitavelmente, talvez por costume. Mas ainda assim, certas bizarrices que os dois já presenciaram juntos em festas da família de Phill e diálogos descontraídos na sala em frente a TV com a mãe, o pai e irmãos de Phill, eram de certa forma, incomuns, e somente os olhares deles podiam se comunicar um com o outro em situações como estas.

Certo fim de tarde, discutiam os pais de Phill sobre o encerramento do transporte de gado e cabras para a pequena fazenda do pai do jovem, que se encontrava logo atrás da casa, pois tamanho era os pedidos e as quantidades de encomendas dos animais requisitados para a fazenda, que os fornecedores não haviam como suprir todos os meses as exigências da família.

‘’Seus ataques de fúria também não ajudam em nada, papaizão.’’ Disse a Mãe de Phill. ‘’Da última vez você quase alcançou os pulmões do garoto com esses seus dedos sempre engraxados dentro da boca do coitado.’’ O tom não era nada acusador ou recriminante. Era neutro.

‘’Pois ninguém mandou ele ir trabalhar de bermuda em plena segunda-feira. Merda. Quem em sã consciência vai trabalhar de bermuda? Em plena segunda-feira! Ao menos faça um bom trabalho e me manda a porra dos infernos dos bichos.’’ E bateu com uma pisada firme com a sola da bota que calçava contra o assoalho.

Nisso Papaizão e a Mãe se encararam em um silêncio decisivo, como se esperassem alguma próxima resposta um do outro para aquele comentário. Nenhum dos dois disse nada, pelo contrário, depois de alguns segundos se encarando friamente, a mãe emitiu um chiado pela garganta, e Andrew notou que ela segurava uma risada. Totalmente fora de questão, os dois explodiram em uma gargalhada sincronizada, como se uma piada interna muitíssimo engraçada rolasse entre os dois naquele momento, e riram até não querer mais. Recentemente, descobri por mim mesmo que a história do garoto era séria, e o pai arrancara três dentes da boca de um jovem de dezessete anos com a força dos dedos, pois falhara em seu ataque de raiva, na sua missão de arrancar o pêndulo do fundo da garganta do garoto.

Nesta ocasião, os olhos de Phill encontraram o do jovem. Andrew apenas despejou um breve franzir de sobrancelhas, cerrando os olhos, com uma expressão interrogatória em meio a um sorriso descontraído. ‘’O que ta acontecendo aqui, cara?’’

Phill projetou um breve riso curto de canto de rosto. Ao mesmo tempo, seco.

Este foi apenas o começo.

‘Um dos atos realmente estranhos que ocorrera em uma das confraternizações da família de Phill, dessa vez na cozinha, em um jantar no dia de Ação de Graças, foi o que criou um manto de silêncio entre a amizade de Phill e Andrew por um bom tempo, tanto que os dois pararam de se falar por mais ou menos um mês, trocando apenas cumprimentos respeitosos no colégio, nada mais além disso. Phill, que mais tarde tomara a atitude de explicar, com um sorriso sem graça, o que aconteceu aquele dia no jantar. Jogou a culpa toda no autismo do pequeno irmão, que ao assistir um filme de terror entrou em um estado de... puro delírio dramático, -palavras de Phill-, causando todo aquele clima estranho.

Porém, Andrew sabe o que viu pela janela da cozinha naquela noite, por mais que sua alma estremeça e negue até a morte, em uma auto-enganação benéfica para preservar a sua mente inocente e a sanidade pacifica que carrega no peito aqueles que acreditam em céu, Deus, e nem sequer pensam se a passagem para o inferno será derradeira e impiedosa ou indiferente e escura.

Tal cena afeta os estados de espírito do jovem, e ele a relembra com relutância em certos momentos quando deita a cabeça sobre o travesseiro. Afinal, por mais que queiramos e lutemos com afinco (ao contrário do que dizem os livros), é difícil, beirando o impossível, ir contra a própria mente.

O jantar fora servido a todos, e a refeição estava esplêndida e saborosa sobre a mesa. Carne, alguns vegetais e muitos grãos e sucos traziam uma beleza cordial aos olhos de quem via, e estava presente. Risos e piadas e comentários descontraídos arrancavam sorrisos soltos de todos ao redor. Andrew se sentia confortável. Mas notará, como inquieto observador que era, a falta do irmão mais novo de Phill junto a mesa. Lá estava um dos primos encorpado e silencioso de Phill, seu pai, sua mãe, seu irmão mais velho –ao lado do primo- e os dois jovens. Porém, não havia sinal do irmão caçula desde que Andrew entrara pela porta hoje à tarde. Decidira não tocar no assunto.

Quando estava prestes a finalizar a comida do prato, restando apenas algumas garfadas para esparramar-se contra o encosto da cadeira e, em sua mais carismática cordialidade, lançar a abençoada puxa-saquice do convidado visitante de toda e qualquer mesa ‘’Ah... estou cheio, a comida estava ótima, porém não agüento mais. Estou prestes a explodir. Estava realmente deliciosa a refeição, senhor e senhora.’’ em um tom de quem acabou uma missão árdua e difícil, em completo deleite. Estava levando a última garfada à a boca, quando avistara o irmão mais novo de Phill saindo de repente do estreito corredor dos quartos escuros em direção a sala, que ficava sobre a reta da cozinha, a direita de Andrew, separando os dois cômodos apenas por uma discreta e bem cuidada estante de madeira com alguns objetos religiosos como velas em repouso e imagens de santos.

O garoto era graciosamente pequeno, usava um pijama que deixava um pedacinho do final de suas canelas a mostra, pela desproporcionalidade do tamanho das meias cinza de ursinhos que portava nos pés. Seu cabelo lembrava o de um indiozinho, e todos da mesa avistaram o menino antes dele avistar-nos primeiro. Andou até o meio do cômodo, iluminado pela luz da lua que invadia e iluminava o centro da grande sala rústica, transpassando por uma imensa janela de formato cilíndrico, repartida em medianos blocos de vidro, a lua azulada emitia seu brilho intenso exatamente onde o garoto estava fixo, que lembrou a Andrew um palco, onde o ator principal agora estava a postos. O menino deu uma checada inocente ao redor do grande espaço à procura de alguém para contatar, visto que ninguém encontrava-se lá, por um momento então, pareceu trabalhar a memória, e logo virou-se em direção à cozinha, viu a mesa cheia, e correu para onde estávamos sentados, após nosso termino de uma bela refeição.

A principio, pensei que ele ia abrir um berreiro ou algo do tipo por não ter participado da ceia conosco, ou que a mãe o convidaria decentemente para juntar-se a nós e comer no mínimo a sobremesa. Porém, o menino locomoveu-se até onde o pai se encontrava, no lugar de autoridade, à ponta da mesa, a criança olhava-o de baixo para cima, e, com uma postura incrivelmente madura e decidida disse com sua voz fina, trêmula e ansiosa a seguinte frase, que gelou-me a espinha.

‘’A Cria se soltou e fugiu! A Cria fugiu!’’ E continuou encarando o pai, agora em silêncio, esperando algum tipo de ordem.

O pai, educadamente, porém com movimentos visivelmente rápidos, levantou-se da mesa, largou-nos (o que eu jurei que de uma forma tão explicita e indireta fora apenas para mim) um comentário para nos acalmarmos, que um dos gados mais violentos do rebanho, a tal Cria, teria fugido, e que precisaria ir atrás antes que fosse para a cidade e causasse um caos desenfreado ou algum acidente. Que ficássemos ali e esperássemos à sua volta.

Todos concordaram simultaneamente. Algo me incomodava. Havia um tom teatral naquilo tudo, e eu vi o olhar que o irmão mais velho de Phill lançara a mim do outro lado da mesa. Um olhar julgador, de certa forma, porém fora demasiado rápido, e naquela época eu não havia tantos motivos para temer Phill ou sua família, logo não desconfiei tanto.

Com um instinto de solidariedade resolvi fazer alguma ação da minha parte. Já havia encenado tudo em minha cabeça enquanto o pai falava; iria virar o tronco para a longa janela horizontal atrás de mim, que encontrava-se acima da pia e dava para o campo onde a fazenda repousava quieta em sua penumbra, em seguida, me voltaria para o pai e iria voluntariar-me para sair em busca deste tal gado junto a ele.

E foi quase o que eu fiz.

Logo no momento em que o silêncio reinava perante a mesa, o pai esfregando as mãos uma nas outras com um semblante preocupado, a mãe com uma das mãos acariciando as costas do homem e Phill tamborilando os dedos sobre a madeira oca, foi que decidi dar minha jogada de coragem para a família de meu amigo. Virei o tronco sem muito esforço, despreocupado, em direção à janela atrás de mim, contudo, o que eu vi afetou minha mente e principalmente minha flora intestinal, a ponto de após eu virar-me novamente para a mesa de jantar, encontrar-me em um branco vivo cercando meu rosto, e nada sair da minha boca além de um barulho estranho seguido de um engasgo, uma tosse, e um pedido de desculpas e licenças para ir ao banheiro.

Pois ao me virar e dar de vista para a janela, vi claramente um ser completamente pálido e nu passar correndo do outro lado da vidraça. Uma figura magra, quase esquelética, em frenesi. Não havia pêlos no contraste esbranquiçado de seu corpo, e a estrutura óssea do seu crânio me lembrara vagamente o formato de arco que contém a cabeça de um martelo. Passara correndo entre pulos desengonçados, como se pisasse em brasa quente, ou andasse de pés descalços sobre um solo ruim. Passara de cabeça baixa, como se olhando para o chão. E sua cor não era de uma palidez firme e bem composta. Pelo contrário, parecia sugar a luz de fora para dentro, não chegava a ser cinza, estava mais para a cor de quem deveria estar morto, no escuro latente de um caixão, há muito tempo.

Sem mais delongas, apertei o passo para o banheiro, fechei-me lá dentro, lavei o rosto e senti vividamente em mim uma inquietação doida correndo solta. Precisava de respostas, e rápido, sobre o que era aquilo que passou a saltos apressados na parte rural de mato alto da família do meu amigo a noite! –a Cria fugiu! A cria se soltou e fugiu!- lembrei então do menino surgindo alarmado. Mas que merda de Cria! O que era aquela Cria, se não, o maldito gado? Tinha que ser o gado, certo?

Meu lado racional alertava-me que parasse de besteiras, poderia ser possivelmente um invasor, talvez precisasse avisar a família sobre. Mas no final das contas, por alguma razão que até então desconheço, não avisei. Apenas voltei à mesa, que estava sendo recolhida pelo primo (que notara não ter dado um pio se quer na mesa o jantar inteiro). Ofereci-me para ajudar, e ao ouvir a sua recusa, fui de encontro ao meu amigo. Agora já recomposto.

‘O jovem Phill estava na sala, caminhava em círculos ao lado da grande janela verticalizada que dava para seu pequeno pátio de fronte, com a grama bem aparada, estava inquieto, como um filosofo refletindo sobre a lua sarcástica que nos observa a vida toda, e ao notar o visitante chegando, foi logo a seu encontro dizendo para não se preocupar com aquilo tudo, que um dos gados realmente tinha fugido, mas não era motivo para tanto alarde do irmão e da família, nada dissera sobre o autismo do caçula naquele momento, porém, havia uma estranheza em sua postura, um certo alarme que pestanejava sobre o semblante de Phill, nada condizente ao que diziam suas palavras, como se a própria policia estivesse revistando o celeiro de sua família, e os quilos de haxixe do garoto estivessem não muito bem escondidos sobre o feno.

E sua fala, Andrew reparara em sua fala também. Phill parecia falar mais para acalmar a si mesmo do que ao rapaz, que agora despedia-se, alegando ter de voltar para a casa antes das 23h30 à pedidos dos pais. Phill concordou então, de levá-lo até o portão da frente, contudo, estranhamente acompanhara ainda mais o jovem até mais ou menos a esquina da casa do próprio, sempre olhando frenético para todos os cantos das charmosas ruelas de pedras e casebres antigos que os cercavam, e o seguiu caminho todo desmerecendo em seu tom forçado de despreocupação o pobre do gado, dizendo que logo ele seria capturado, trazido de volta, e em seguida abatido como um cão pulguento e servido em um grande banquete, como um dos gados que o pai abaterá e preparará hoje na refeição para eles. Mas este teria seu gosto especial, dizia. O gosto de um animal fujão. E riu com uma risada curta e convencida.

Andrew apenas concordava com a cabeça, em silêncio, as mãos no bolso, e friamente decidido, em uma perturbação filosófica das mais densas, a não mencionar ao amigo sobre o pedaço quebrado de uma estranha caneleira-algema medieval, grosseiramente enferrujada, que reparou próximo ao grande portão de madeira pouco antes de sair dos aposentos da família de Phill.

Autor: Guilherme Bueno

8 comentários :

  1. Finalmente,depois de tanto tempo, uma "daquelas"?Parece que sim...

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  2. Achei boa mas eu realmente não entendi! POR FAVOR, alguém me explica

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    1. Parece que a família do amigo do Andrew prendia alguma criatura estranha e eles falaram para o menino se acalmar, pelo visto a fera vai tentar pegar o Andrew

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  3. Creepypasta incrível anseio pelo próximo capítulo 😃

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  4. obrigado pelos comentários pessoal! próxima pt. está a caminho ;D

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  5. muito bom, aguardando próxima parte.

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