Surtos em um entardecer de Março

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A viatura apareceu pintando todas as paredes da rua de vermelho e amarelo, girando em todas as direções. Tudo parecia tão morto quanto a pandemia. Os dois homens desceram do veículo e encontraram a senhora no endereço indicado pela ligação de emergência, relatando sobre um assassinato. De acordo com a chamada, uma mulher havia matado seu bebê de seis meses, afogando-o dentro de uma panela. Aparentemente, arrependeu-se ou estava entregando-se pelo seu crime hediondo.

Os olhos deles foram diretamente ao seu objetivo. Claramente não existia nada além disso, observaram a senhora destruída e acabada, em cima do carpete de "boas-vindas". Seus cabelos longos cobriam seu rosto, e suas mãos estavam para frente. Uma camisola de dormir rosa ocultava o seu corpo branco. Máscaras cirúrgicas descartáveis era tudo o que os homens estavam ostentando no rosto para evitar a contaminação do COVID-19 que, desde o início, estava atormentando todos. Aproximaram-se da porta e pediram à mulher para entrar - com a autorização dela, é claro, já que não tinham o devido mandado.

Perguntou um dos policiais, com o nome de Benjamin, enquanto segurava um caderno de anotações próximo ao seu peito direito e desligava o rádio patrulha no seu ombro: "Senhora, o que aconteceu, pode me dizer com clareza? Recebemos uma denúncia de assassinato, uma confissão, na verdade." O outro policial continuou examinando em todas as direções, com o olhar preocupado e não saindo da sua posição, ao lado do seu companheiro.

"Eu não sei. Tudo parece um tormento e minha cabeça começa a doer quando tento lembrar. As memórias vagas desaparecem como um pesadelo, mas sei muito bem o que eu fiz... Ele ainda está lá dentro da panela de pressão, com seus pés acima da água, afogado e morto, mas eu sei que tem algo além disso! Lembranças como partes fragmentadas... Estão assistindo televisão, passando os canais, falando sobre a mesma contaminação viral e, num desses intervalos, eu vi algo misterioso..."

"Misterioso?" - murmurou o homem, que ainda continuava intrigado, olhando em todas as direções, e o outro não parava de rabiscar em um caderno pequeno as informações que estava ouvindo do ocorrido.

"Sim, senhor! Eu estava mexendo no controle remoto até que vi um anúncio, aquele tipo de comunicação urgente do Governo, falando sobre o Covid-19. As notícias não eram nada de inovadoras, diziam sobre: lavar frequentemente as mãos com água e sabão ou álcool gel, cobrir nariz e boca quando espirrar ou tossir, evitar tocar mucosas de olhos, nariz e boca e manter os ambientes bem ventilados e, além disso, decretando, numa nova lei de acordo com o presidente atual do Brasil... falava que devíamos matar todas as crianças e velhos sem piedade alguma, dado que eram os principais devorados por tudo isso e que os seus corpos, com o passar do tempo, estavam sendo casulos para uma coisa ainda maior, que superaria qualquer tipo de obstáculo no combate contra o contágio.

É Isso que está matando todos, uma caracterização da mutação do coronavírus e ainda pior do que imaginamos, segundo as palavras do Presidente do Brasil. Só sei que repetiam dezenas de vezes, com imagens circulares e brilhosas, na televisão, tanto que fez minha cabeça formigar como dezenas de patas de besouros, logo controlando o meu corpo... Eu já não sabia mais se era eu ou outra coisa dominando os meus movimentos, e quando me dei conta, eu estava afogando a minha filha."

Com os olhos fundos em seu crânio, ela continuou.

"Era como uma enxaqueca, repetindo dezenas de vezes para, nesse momento, matar qualquer tipo de idosos ou crianças abaixo de quinze anos, pois o novo coronavírus, agora "Covid-20", acabou evoluindo para um novo estágio, ainda mais agressivo e brutal. A humanidade estava com medo das pessoas próximas, segundo eles, referindo-se a pessoas mais frágeis." - falou após um intervalo pensativo do seu próximo texto, tentando recordar a confusão. Infelizmente, suas palavras desconexas não revelavam nada além de uma moradora sob o uso de drogas. A senhora começou a repetir as coisas que estavam vindo da televisão, enquanto não podia sentir nada além do seu corpo manipulado afogando aquele corpo frágil e pequeno.

O policial militar parou o lápis nas suas mãos, parecia apenas ficar girando sua caneta nos papéis, em círculos infinitos. Deu para perceber na sua buchecha esquerda um corte com sangue há não muito tempo feito. Então, mantiveram seus olhos curiosos e perguntaram sobre um possível marido ou qualquer tipo de membro na família além da criança em estado de decomposição inicial dentro da panela. O outro sujeito, acompanhando os seus movimentos dos lábios, copiou o gesto do seu companheiro encarando a mulher, assombrosamente perdida e desgastada pelo seu crime, além da preocupação, tropeçando na sua própria mente.

Percebendo a descrença dos homens, ela tentou mais uma outra maneira de, no mínimo, explicar o que ocorreu há alguns minutos.

"Não há nada além de tudo isso que vocês estão vendo aqui. Há alguma coisa acontecendo e acabou de ser vista na televisão, precisamos comunicar às autoridades urgentemente!" - suas palavras foram interrompidas pelo choque absoluto de ver um dos policiais indo para a cozinha e pegando uma faca grande de cortar carne, perfurando a coxa esquerda do seu companheiro e cortando a sua outra bochecha; enquanto rasgava sua roupa e feria seu próprio corpo com mutilações similares as de uma agressão.

Benjamin guardou o seu bloco de notas, visivelmente com círculos estranhos no papel. Pegou a radiopatrulha e disse que a mulher surtada matou o seu próprio filho e tenta atacar o socorro, mas que, como estavam devidamente preparados, conseguiram neutralizar mais um surto nessa noite. "A contaminação do vírus realmente está extrapolando os seus limites e causando uma histeria em massa: pessoas tornando-se agressivas para com os seus familiares e outros próximos. Nessas circunstâncias, fomos obrigados a usar a força necessária para tal crime." - suas palavras deixaram a mulher ainda mais aflita no chão, perdida e observando como uma caricatura morta o comportamento inusitado dos dois guardas.

A senhora ficou ainda mais arrasada e percebendo tudo à sua frente. Repetiu mais uma vez que havia alguma coisa estranha acontecendo com os meios de comunicação e falou que o apresentador, com seus olhos e rosto apagados como uma borracha, mas mantendo as órbitas oculares com coisas triangulares e vermelhas, de alguma forma conseguiu controlar sua mente. Mesmo assim, o policial aponta uma arma logo em seguida, guardando os óculos escuros que estava usando mesmo à noite, próximo da manga da sua camisa, e mostrando que as íris viraram triângulos nos seus rostos, iguais ao do apresentador na televisão, segundo a moradora extasiada pelo medo. Em seguida, disparou a arma.

"Mais um caso de contaminação", - disse eles. Os dois sujeitos trocaram olhares com suas íris transformadas em algo medonho. No momento em que ligaram o rádio patrulha, uma outra chamada deixava o aparelho agitado.

Uma solicitação de vídeo simultânea, nos dois celulares, foi o que os seus rostos observaram. Tratava-se de um capitão não conhecido por eles, falando sobre um novo incidente em uma casa na qual entraram poucos minutos após o último ocorrido, encontrando um novo homicídio. As exigências eram: para matar qualquer tipo de agressor e, depois, os homens da lei seriam ditos como vítimas de um pandemônio da quarentena. Os policiais obedeceram devidamente e comunicaram que foi necessário neutralizar mais um agressor em legítima defesa.

Logo receberam mais uma denúncia sobre um esquartejamento em uma casa de classe nobre. Ligaram a viatura, continuando iluminando as casas com as luzes vermelhas e amarelas, enquanto iam para mais um local onde um assassinato aconteceu e mais uma retaliação seria devidamente feita por suas armas.

Não demorou para que evidências sobre uma suposta chamada de vídeo ou qualquer coisa do tipo desaparecessem nos celulares dos homens, para essa noite de 24 de Março de 2020. Tudo foi apagado e destruído como fragmentos de uma lembrança, e eles estavam apenas cumprindo seus deveres, obedecendo ao sistema....

Autor: Sinistro

11 comentários :

  1. Na real, vou parar de seguir esse blog. 3° creepy sobre essa porcaria desse corona. Vsf! Não basta essa desgraça passando todo santo dia nos jornais?

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  2. Respostas
    1. É você mostre a cara. É de uma coragem tão grande, que não nome tem. Sou seguidora antiga do blog, já dei muito feedback positivo, já defendi muito os tradutores, mas essas creepys de corona vírus tão um saco. Ao menos, na minha primeira crítica no blog, não me escondi atrás do anonimato como você

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    2. Para um ex administrador, deveria ser mais madura em vez de fazer comentários desnecessários. Não sei a razão das pessoas ficarem pagando tanto pau para apenas uma garota que pegou histórias de outras pessoas e compartilhou como qualquer Youtuber faz. Se você está revoltada com jornais, nem precisa ligar a televisão.

      #FicaADica

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    3. Virgínia é a Divina?
      Olha, não tenho muito o qie falar, sou nova no blog e entrei um pouco antes da Divina sair, mas não acho que você deveria falar assim de alguém que dava tempo e suor em seu trabalho duro de traduzir creepys para que pessoas (como você, inclusive) possam aproveitá-las também.
      Ainda mais sendo MÃE, não devia ser uma tarefa fácil

      E eu notei que a Divina era bastante querida no blog, então não, não era SÓ uma garota que pegava conteúdo pronto, ela realmente depositava carinho naquilo

      E além do mais, não sei se você leu direito, mas o comentário do "Unknown" que é totalmente desnecessário e imaturo, por não aceitar a opinião da Virgínia e dizer para ela "desaparecer," sendo que ela tem direito de reclamar SIM, e quem é você (ou elea) para dizer que não?

      Além do mais, não sei se notou, mas a pandemia do Covid-19 nós estamos VIVENDO, com ou sem jornal. Por favor, estamos de quarentena, quem não ouvir falar nada, nem que seja em memes deve morar em uma caverna

      Então não, ela não foi imatura (como você e o "Unknown" foram), ela não foi desnecessária (como o seu comentário e - principalmente - o do "Unknown" foram)

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    4. Desde quando eu falei que fui adm do blog?

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  3. Quando eu li essa creepy, não entendi por que era enjoativa msm q o conceito de pandemia não era tão utilizado em histórias fora de apocalipses zumbi

    Mas com o comentário da Virgínia, eu entendi que é porque nós estamos vivendo isso, estamos (quase) todos saturados de ouvir sobre isso todo dia em todas as mídias possíveis

    Nós (leitores) entramos aqui para nos distrair, não rever nossos problemas. Por favor, não escreva (para: Sinistro) ou poste (para: Gabriel) mais sobre isso, obrigada

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  4. É bem bonita essa iniciativa de divulgar os fãs, independente do nível de escrita, mas se tratando de uma epidemia real, da uma filtrada no conteúdo que vem pro blog. Ta todo mundo preocupado com seus famíliares e amigos, e saturado do assunto. Esse tipo de creepy não agrega nem como diversão/distração. Se ao menos fossem bem construídas...

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