O pior monstro de todos

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Eles começaram dentro do guarda-roupa, escondidos no meio das roupas e observando através das brechas. Mas acreditaram que seria mais legal ficar bisbilhotando no canto do quarto, na parte escura, onde o abajur não ilumina, quando a única fonte de luz dentro do imóvel é a das lâmpadas. Os dois ficaram confusos e decidiram ir para debaixo da cama, onde se esconderam... O escudo, entre os dois mundos, costuma causar um desconforto. Tentaram ficar o mais possível invisível e esperando uma brecha para aparecer.

— Ok, filho, essa é a última vez que nós estamos juntos. Espero que você consiga, não precisa se preocupar, dado que essa humana está sozinha, e você precisa apenas transformar o seu rosto em algo horripilante. Não vai ser um bicho de sete cabeças. Quando conseguir finalizar o nosso círculo de vulto para medo, vai saber como é ser um legítimo bicho-papão. — O monstro explicou para o seu filho receoso. Os seus olhos experientes estavam ansiosos, enquanto os pelos fedorentos, as unhas e dentes ameaçadores apareciam uniformes para algo que ele estava guardando para si mesmo... esperando uma surpresa do seu fruto inexperiente.

O garoto, aos poucos, foi se projetando debaixo da cama. A primeira coisa que observou foi o pé descalço da mulher e que seus dedos estavam se contraindo como se estivessem sentindo um frio abaixo de zero. Os braços da criatura nervosa foi aumentando, e ele queria criar uma aparência fantasmagórica ao transformar o seu torso em uma fumaça branca. Não demorou muito para sair debaixo da cama e observar a mulher com seu pijama, deitada sobre os cobertores. Examinou que estava abraçando o travesseiro, e com os seus membros juntados, como se estivesse tentando diminuir o possível frio que estava sentindo no verão. Contudo, era outra coisa que ela estava vivenciando... Não estava tentando evitar um ar glacial da fenestra, mas se preparando para algo maior, deixando o monstro baralhado.

— Pai, acho que tem alguma coisa estranha acontecendo. Não é igual assustar crianças... você me falou que seria bem diferente e amedrontador causar pavor a um adulto com a nossa aparência e explicou que eu precisava fazer isso, pelo menos uma vez, até que seja um autêntico bicho-papão. Eu sei de tudo, mas tem algo de errado acontecendo com esse humano, não sei explicar... porém, estou sentindo uma atmosfera devastadora no aposento.

Os olhos do garoto de ódio e sangue foram se transformando em algo confuso ao ver uma sombra sobre aquele corpo deitado na cama. Parecia que uma aura negra estava passeando em cima de toda a jirau. O monstro, com seu corpo transparente, mostrando os seus órgãos funcionando e causando um enjoo doentio para qualquer tipo de espécie humana que estivesse contemplando aquilo, não sabia o que fazer. Visivelmente, existia algo maior do que ele, estava esperando uma resposta, e uma oposição acima do que estava acontecendo no momento, em que tentava finalizar o seu dia ao assustar um adulto pela primeira vez.

— Bem, garoto, esse humano está com defeito. Cada vez está ficando mais comum pessoas com esse tipo de problema. Na verdade, está se espalhando como uma doença incontrolável... são vários diferentes, e eles estão tentando lutar com os seus próprios medos pessoais e coisas que eles podem evitar. Nós não podemos ser mais amedrontadores do que o medo real, e o pavor da atualidade humana, a fobia desenvolvida, mastigada e degustada no organismo da mente deles.

O garoto ficou ainda mais intrigado e, por alguns segundos, questionou as palavras do seu mentor, o bicho-papão experiente, porque foi ensinado que não existe coisa mais amedrontadora que sua espécie para os humanos, contudo estava vislumbrando algo que até para quem o criou parecia uma coisa repugnante. Então, ele viu uma sombra obscura, com proporções iguais uma pessoa, mas negrume nas suas formas, e os ângulos esticados ao abraçar aquela mulher deitada na cama.... parecia um ser como se fosse um parasita.

— P... pa... pai.... Que tipo de coisa é essa? — Gaguejou enquanto estava montando um quebra-cabeça nos seus lábios desorientados, sem conseguir desgrudar os olhos para sombra alimentando-se daquele humano deitado na cama.

— Ah, como eu já falei, é um humano com defeito. Esse tipo de coisa nem nós mesmos conseguimos entender e é algo que eles carregam dentro do seu próprio corpo, desenvolvem como se fosse um ninho socado pelas suas próprias mentes e vão alimentando isso aos poucos, por conta desse convívio atual. Os humanos estão muito dependentes da internet e sofrendo por amores platônicos, tudo se retrata em aparências e status, é algo tão carente quanto o amor, mas uma dependência patética pelo que eles dizem sentirem "medo". Nesse tipo de ocasião, nós não somos nada em comparação. Nesse tipo de situação, devemos sair o mais rápido possível para o que nem nós mesmos conseguimos compreender...

Os dois monstrengos saíram de dentro do quarto, desaparecendo nas trevas e deixarando aquela mulher na cama, sendo triturada pelas mãos frias da depressão. Ele estava com os olhos vibrantes, e o lábio excitante para a euforia do seu tormento ao esmagar cada centímetro do socorro e observar a situação insignificante de sofrimento.... Tudo se resume em fobias, e medos irracionais da espécie evoluída. A criatura negra, cada vez mais aumentando o corpo, e o quarto, desaparecendo nas trevas, deixando aquela mulher nos cobertores sendo esmagada pelas mãos frias da depressão.

Autor: Sinistro

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