07/03/2020

A Origem de Netium

A alguns anos atrás em uma cidadezinha simples do interior, vivia um pobre garotinho chamado Robert. Sua vida não era uma das melhores afinal, sua família não era daquelas famílias perfeitas que comemoram datas festivas abraçadas no calor de uma lareira acesa, não, era uma família separada que sempre estava em conflito, gerando brigas e brigas diariamente. Não era fácil para Robert.

Devido aos conflitos diários que aconteciam na casa do garoto, Robert se tornou uma criança quieta e tímida, um pouco desconfiada porém curiosa e suas curiosidades sempre chocavam de frente com as regras de seu pai que acabava batendo nele por quebrar as regras. Robert odiava seu pai, ele não era do tipo que saía 6 horas da manhã de casa pra ir pro trabalho, na verdade era um vagabundo que ficava em casa o dia todo apenas reclamando de tudo... sua mãe também não podia reclamar muito, ela tinha também tinha seus defeitos porém nem se comparavam ao ódio que Robert sentia pelo seu pai.

Um dia, o pai do garoto chegou em casa bêbado, uh que novidade, ele mal conseguia ficar em pé porém, a sua fúria e decepção com a família, principalmente com o filho eram claramente visíveis a quilômetros de distância. Ele imediatamente começa a agredir a mãe do garoto. Robert em um ataque de fúria e ódio decide dar uma investida contra seu pai, sem sucesso afinal ele era apenas uma criança de 10 anos, o pai acabou desviando sua atenção da mãe para o garoto e começou a espancar-lo.

Quando a agressão finalmente acaba, o pai sai de casa e some pelas ruas escuras da cidadezinha. Robert estava desmaiado no chão e sua mãe logo o pega e coloca em sua cama e começa a cuidar dele chorando ao seu lado pedindo desculpas por não ser forte e ser uma boa mãe. Quando o garoto finalmente desperta ele se lembra de tudo o que havia acontecido, ele começa a chorar e começa a desejar que tudo fosse melhor, que sua vida fosse melhor, que ele pudesse viver um dia feliz, um dia verdadeiramente feliz afinal, a única felicidade que ele conhecia era ver as outras crianças felizes no parquinho da cidade.

Todos os sentimentos de ódio, vingança, rancor, raiva, desespero e tristeza iam crescendo dentro de seu interior, ele nunca sequer descontava ou desabafava esses sentimentos pois se o mesmo fizesse isso, provavelmente iria apanhar novamente. Então, desesperado com a sua vida de merda, Robert foge de casa debaixo de chuva sem direção, sem rumo, disposto a acabar com todo aquele sofrimento, ele não aguentava mais um segundo naquele inferno.

Instintivamente, ele corre para o parquinho, lá era o único lugar que ele conseguia ver outras crianças felizes, ele desejava ter aquilo mas sempre era interrompido por seu pai ou as vezes até pela sua própria mãe que dizia que ele não precisava daquilo. Era um fria noite chuvosa, ele não conseguia enxergar mais que um palmo a sua frente, mas ele consegue reconhecer o parque por causa dos brinquedos e por conta de algumas luzes que se mantinham acessas nos postes. Ele vai até a ponte que ficava por cima de um lago, ele senta na beirada da ponte e começa a pensar em sua miserável vida e em como ela poderia ser melhor, em como ele poderia ser feliz e, em como ele poderia se safar dessa pra quem sabe, uma nova vida bem melhor que essa, não custava tentar!

Naquele momento passavam milhares de ideias por sua cabeça, eram ideias perfeitas de como seria viver num paraíso, ser rico, ter carros, ter tudo aquilo que um ser humano poderia ter, ou até mesmo ser um super herói com incríveis poderes, até que uma ideia mais racional veio a sua cabeça, o suicídio. Robert acha que essa é a melhor opção pois assim ele não iria mais ter que sofrer neste mundo, e que provavelmente ele renasceria em uma vida bem melhor que está e também, o afogamento seria a melhor opção já que ele não sabia nadar.

Robert se joga da ponte do parquinho caindo diretamente no lago, ele sente o contato de seu corpo molhado devido a forte chuva com a água congelante do parque, seu corpo havia afundando demais no lago e como ele não sabia nadar, Robert não teria chances algumas de voltar a superfície. Ele rapidamente prende a sua respiração tentando aguentar o máximo de tempo possível debaixo d'água, coitado mal sabia ele que na maioria das vezes um ser humano não treinado consegue segurar o ar debaixo d'água por apenas 30 segundos ou no máximo 90 segundos.

O ar começa a faltar em seus pulmões e logo Robert começa a ficar desesperado por ar, seu corpo quer ar, sua mente quer ar, seu espírito queria ar; o arrependimento agora era maior do que todos os seus sentimentos de ódio e indiferença porém, não havia mais volta, não havia mais como ele conseguir nadar até a superfície. Robert agora achava que a ideia de se afogar foi na verdade uma péssima ideia, ele daria qualquer coisa para voltar no tempo, mas não havia mais jeito seu arrependimento era simplesmente enorme...

Desesperado ele começa a se debater e tenta subir a superfície de qualquer jeito para conseguir respirar porém, o pobre coitado não sabia nadar, ele estava tomado pelo pânico e cada vez mais rápido seu coração estava batendo, ele não aguentou mais segurar o ar e começou a tentar respirar instintivamente debaixo d'água mas, obviamente que isso não deu certo, a água entrava em seu corpo piorando ainda mais a situação, Robert naquele momento chorava arrependido desejando voltar para os braços quentes de sua mãe pelo menos uma última vez até que de repente, tudo se acalmou, tudo ficou tão visível, tudo ao seu redor estava tão silencioso, lentamente Robert via a sua visão escurecendo, escurecendo até que finalmente tudo se escureceu por completo...

Alguns anos depois :

Se passado alguns anos, Robert agora era um adolescente de 16 anos, ele e sua mãe acabaram de se mudar para uma novo bairro, dessa vez era um bairro grande muito mais urbanizado e movimentado, os sons dos veículos poderiam ser ouvidos a grandes distâncias. A mãe de Robert finalmente tinha conseguido um pouco de paz com o divórcio após descobrir que estava sendo traída pelo marido com várias prostitutas bom, pelo menos agora eles estavam livre das agressões daquele maldito, ou não…



Robert agora estava em um novo ambiente, um novo lar, uma nova escola, novos amigos, bom tudo era novo, tudo estava perfeito de mais, finalmente a felicidade estava reinando sobre sua vida. Porém, chega o primeiro dia de aula, as suas espectativas eram altas, ele achava que teria aulas normais com pessoas normais e talvez tentando socializar com ele, quem sabe Robert não poderia se encaixar em algum grupo de estudantes? Bom, acontece que na verdade, não foi bem assim...

O primeiro dia de aula foi um verdadeiro inferno, Robert não tinha conseguido fazer nenhuma amizade e ninguém fazia questão de conversar com ele, na verdade todos o ignoravam e o achavam estranho devido as suas roupas nada convencionais, além do fato de que ele era tímido e novato. Este seu visual humilde e tímido iria fazer com que Robert fosse atormentado pelo resto do dia por alguns valentões que se achavam os donos da escola. Seu ódio estava crescendo cada vez mais a cada hora que ele ficava naquele inferno até que finalmente a hora de ir embora, chegou…

Algumas semanas se passaram e a sua vida escolar continuava o mesmo inferno de sempre porém agora, Robert tinha conseguido fazer alguns amigos, ele finalmente estava socializando até que enfim uma luz surge no meio daquele lugar. Robert odiava a escola, porém ele só havia duas escolhas, ou ele estudava ali ou voltava a morar com seu pai, já que sua mãe não seria capaz de sustentar o filho e a si mesma dentro de casa, a economia era tudo pra eles.

Robert estava fazendo alguns desenhos em seu caderno no canto da sala, até que Kevin, um dos valentões entra na sala e mira seu olhar em sua direção, Robert já sabia que aquele idiota iria vir encher o seu saco, seu ódio por ele era imenso, tudo em Kevin era odioso, seu penteado era odioso, seu rosto era odioso, seu corpo era odioso, até mesmo aquele maldito sorriso sarcástico era extremamente odioso para ele, seu ódio pelas coisas em geral era enorme.

O otário se aproximou de Robert e começou a ver os seus desenhos e logo ele começa a criticar-los com um tom sarcástico :

- Eu posso fazer melhor do que esse lixo que você chama de desenhos.

Apesar de sua voz ser extremamente irritante e odiosa, Robert da de ombros e volta a passar o lápis pelo caderno.

- Você me ouviu? Eu estou falando com você, seu bosta!

Kevin inesperadamente pega o caderno de Robert rasgando todas as folhas possíveis. Robert se levanta da mesa rapidamente para pegar o caderno e é quando Kevin joga o caderno para longe e vê seus amigos chegando por trás dele.

- O que é que você vai fazer? Uh? Diz Kevin de nariz empinado.

Robert não diz uma palavra e senta em seu lugar baixando sua cabeça, ele esperava que todos aqueles idiotas vão embora para os seus lugares. E milagrosamente sim, eles voltaram para seus lugares, Robert agradece por eles não terem ficados ali por mais tempo. Ele se levanta para recuperar seu caderno de desenhos que estava jogado no chão até que de repente, uma moça pega o caderno e lhe entrega.

- Obrigado! - Diz Robert sem olhar para garota.

- De nada. Ei eu me chamo Mhäry e você deve ser o…

Um silêncio toma conta do lugar, Robert estava de cabeça baixa pensando em como poderia se livrar daqueles idiotas até que de repente.

- Ei eu estou falando com você, me responda, como você se chama? - Ela diz com um tom de autoridade.

- A sim, me desculpe é que eu estava, eu estava é sei lá. Meu nome é Robert.

- Bonito seu nome, você está bem? Eu vi que Kevin estava tentando te humilhar.

- Tá tudo bem, eu estou bem, isso não foi nada…

Robert naquele momento estava querendo fugir dela, ele não estava nenhum pouco afim de conversar, muito pelo o contrário dela que fazia cadê vez mais e mais perguntas, ela inclusive chegou a sentar do seu lado só para saber mais sobre sua vida e contar coisas aleatórias.

Com o passar do tempo, Robert e Mhäry estavam namorando. Robert a amava, a amava de mais, ele poderia dar a sua própria vida por ela, bom isso era o que ele sempre dizia pra ela, ele contava todos os seus segredos para Mhäry, inclusive aqueles segredos mais ocultos em sua mente, como as suas tristes memórias da infância onde sua vida realmente não era uma das melhores e de sua tentativa fracassada de suicídio.

O namoro causou um certo ciúmes em Kevin que ainda sofria provocações de seus amigos. Inicialmente Kevin gostava da garota, porém ela o odiava por ele ser muito chato e exibido além de que ele sempre fazia muitas coisas sem graças na tentativa de conquistar-la e isso a irritava demais, a relação entre Robert e Mhäry logo gerou ciúmes em Kevin que agora jurava que iria inferniza-lo pelo resto de sua vida…

Numa fria manhã de terça feira, Robert vai até a escola, ele logo percebe que sua namorada não iria aquele dia, "droga hoje o dia será horrível!" Pensava Robert, na verdade ele só ia na escola para vê-la.

Estranhamente aquele dia ia muito bem, Kevin e os outros valentões não foram encher o saco de Robert em nenhum momento, nem na hora da entrada, na troca de professores e no recreio, na verdade tudo ia bem aquele dia, bem até de mais para ser verdade. Robert logo desconfiava que alguma coisa muito ruim iria acontecer até que ele sente repentinamente e sem avisos um ódio poderoso queimando por todo o seu corpo. Ele não sabia da onde via esse ódio e porque ele apareceu em um dia tão calmo e tranquilo, até aquele momento…

Na hora da saída, novamente o ódio estava queimando por seu corpo, Robert estava suando, ele tira sua blusa de frio azul e quando ele ia colocar ela na bolsa, ele sente um arrepio em sua espinha e logo em seguida escuta passos vindo rapidamente em sua direção, ele logo se vira se da de cara com Kevin e seus dois amigos, Ronnie e James.

Não entendendo nada do que estava acontecendo e achando que alguma coisa acontecia atrás dele, Robert vira a cabeça para o outro lado porém, ele não vê nada então ele virá novamente para o lado dos garotos para vê-los e inesperadamente ele leva um soco de Kevin na cara fazendo com que ele caísse no chão.

- Você não me parece tão valente quando a sua namoradinha não está por perto. Diz Kevin dando risadas sarcásticas.

- Vamos pegar ele. Diz James.

Robert tenta se levantar mas é impedido por Ronnie que segura as suas pernas fortemente e então James e Kevin pulam encima de Robert dando vários golpes em sequência ao longo de seu corpo, vários pontapés e pisões na cara, no estômago e nas pernas. Kevin furioso pega Robert pela camisa o deixando frente a sua cara dizendo :

- Isso é por você ter pegado a MINHA mina. Diz Kevin furioso.

Kevin cospe na cara de Robert e o joga contra o tambor de lixo que estava na calçada, Ronnie e James rasgam as sacolas de lixo derrubando tudo no pobre garoto que agoniza de dor no chão dando várias risadas de sua situação. Após a fúria passar Kevin logo olha arrependido para Robert pedindo desculpas em sua mente, eles ouvem uma sirene, um dos vizinhos havia presenciado a briga e chamado a polícia. Os três garotos fogem sem prestar socorro deixando Robert naquela situação humilhante…

Robert é levado para o hospital com vários hematomas pelo corpo, algumas costelas quebradas, ferimentos na cabeça, nas mãos e nas pernas. Ele estava novamente com ódio, ele estava explodindo de ódio, até que uma voz rouca e profunda diz :

- Você deve me libertar. Eu já te ajudei uma vez, eu posso te ajudar outra vez Robert.

Logo o ódio desapareceu e em seu lugar, a tristeza apareceu, kágrimas se formam nos olhos de Robert e elas começam a escorrer por seu rosto, ele estava surpreso por ouvir aquela voz misteriosa…

- Eu não posso. Diz Robert soluçando.

- Você sabe o que acontece quando você coloca um copo vazio debaixo de uma torneira aberta?

- O que? Diz Robert confuso.

- O copo começa a se encher de água, e se você não fechar a torneira, a água irá transbordar do copo. Sabe o que isso significa?

- Me deixa em paz! Grita Robert com raiva em suas palavras.

- Significa que uma hora eu irei ter controle sobre você, eu irei ter controle sobre você e aí, eu poderei te proteger, eu poderei cumprir a nossa vingança, a nossa promessa, você não pode fugir de mim, lembre-se disso, Você Não Pode Fugir de Mim, Robert. Diz a voz misteriosa dando gargalhadas maliciosas que ecoavam na cabeça de Robert.

Tentando parar o som insuportável das vozes, Robert tapa seus ouvidos rolando pela cama, ele acaba caindo no chão agonizando de dor gritando pedindo para parar até que de repente, Mhäry e sua mãe entram no quarto junto de alguns médicos e enfermeiros que pegam o garoto colocando-o na cama novamente e lhe dando alguns medicamentos para que ele pudesse voltar a dormir, novamente…

Quando ele finalmente acorda, Robert está tonto numa cama de hospital, ele olha ao seu redor porém tudo estava embaçado no entanto, ele consegue ver uma silhueta de uma pessoa, ele força seus olhos para conseguir enxergar melhor e sem querer ele acaba derrubando a bandeja que estava em seu colo acordando a pessoa que estava ali.

- Robert? Você está bem, você já acordou? Diz Mhäry.

- Mhäry você está aqui? Minha visão está embaçada não consigo te ver. Responde Robert.

- Sim eu estou aqui, sua mãe teve que voltar pro trabalho e me disse para ficar aqui com você, você quer que eu chame algum médico?. Diz Mhäry preocupada

- O que? Eu não sei… Diz Robert completamente confuso.

Inesperadamente dois policiais e um médico entram no quarto, eles pedem para que Mhäry saia do lugar, relutante ela sai da sala esperando pelo lado de fora.

- Olá Robert, somos da polícia e queremos fazer algumas perguntas pra você, está de acordo a colaborar? Diz um dos policiais.

- Sim eu acho. Diz Robert ainda um pouco confuso.

- Sabemos que ocorreu uma briga entre você e mais três garotos em horário de saída escolar. Poderia nos dizer o motivo da briga e quem eram os garotos?

- Na verdade esses três desgraçados vem pegando no meu pé desde quando eu cheguei nessa cidade, eu odeio eles, eu os odeio, EU OS ODEIO! Grita Robert furiosamente para os policiais.

- Por favor mantenha a calma, quem são os três garotos? Diz um dos policiais surpreso.

- James, Ronnie, e Kevin. Diz Robert com desgosto cerrando os dentes e fechando os punhos.

Neste momento o policial fica em silêncio por um tempo, aparentemente surpreso com os nomes e então ele diz :

- Obrigado pela cooperação, tenha um bom dia. Diz um dos policiais saindo da sala.

Assim que eles saem, Mhäry logo em seguida entra na sala pulando encima da cama de Robert o abraçando e fazendo várias perguntas como sempre…

Depois de finalmente se recuperar dos ferimentos, bom nem todos os ferimentos mas a maioria, Robert finalmente retornava a sua casa, sua mãe o recebe carinhosamente e preocupada pergunta do se está tudo bem e se ela poderia ajudá-lo em alguma coisa, Robert diz que sim…

Ao retornar para a escola, Robert agora estava muito mais agressivo e impaciente, seus sentimentos negativos que ele guardava por tanto tempo parecia estar agora escapando por entre as pequenas frechas de sua mente e isso sempre acabava o colocando em situações de conflitos, ele não tinha paciência nem mesmo para sua namorada… o ódio reinava sobre ele.

Quando ele cruzou o portão da escola e lançou seu olhar ao longe na multidão esperando encontrar Mhäry, ele a vê porém, um cara estava tentando beija-la, ela estava tentando fugir dele mas ele era mais forte, até que finalmente ele consegue beija-la. Essa cena fez com que Robert paralisa-se, ele estava tremendo da cabeça aos pés, ele não expressava nenhuma reação ele não sentia nada, nem raiva ou ciúmes, apenas um vazio, um vazio infinito e mortal, extremamente mortal, esse vazio era o seu ódio…

Robert apenas da meia volta e sai da escola.

Alguns dias depois :

Depois de descobrir sobre a vida daquele maldito desgraçado, Robert analisa-vá o momento perfeito para o ataque, era uma fria noite de terça -feira, ele sabia que no dia seguinte, só haveria James, um dos colegas de Kevin em sua casa, pois seu pai estava viajando por causa do trabalho e a mãe dele iria trabalhar.

Era a oportunidade perfeita, ele não sabia ao certo o que iria fazer quando chegasse lá, Robert poderia simplesmente bater nele ou xingar-lo ou até mesmo sei lá, milhares de pensamento vieram a cabeça de Robert repentinamente tudo se acalmou e aquele mesma voz misteriosa do hospital diz :

- Vá para a cozinha, na última gaveta existe uma faca, preta!

Robert sem ter controle de seu corpo vai até cozinha obedecendo todas as instruções e abri a última gaveta e para o seu espanto realmente havia uma faca de cabo preto lá, ele não sabia como a voz sabia que a faca estava lá, mas olhando para a faca, Robert reparou que a ela estava com o cabo quebrado, então ele diz :

- A faca está quebrada.

- Está é perfeita.

Quando Robert pega a faca, uma forte energia queima sobre seu corpo subindo de seus pés até a cabeça, um ódio poderoso tomou conta de seu corpo e ao mesmo tempo milhares de flash vieram instantaneamente em sua mente mas um acabou chamando mais a atenção de Robert, o dia em que ele tentou cometer suicídio...

Robert pensava :

"Aquele dia foi o pior dá minha vida, meu pai como de costume havia chegado bêbado em casa e acabou brigando com minha mãe e comigo, ele acabou me batendo, eu tentei revidar mas eu era somente uma criança indefesa de 8 ou 9 anos naquela época e meus golpes não surtiram efeito então cansado de toda aquela tortura, eu decidi fugi de casa naquela mesma noite no meio dá chuva com lágrimas escorrendo pelo rosto correndo sem rumo pelas ruas até que eu cheguei no parquinho dá cidade".

"O parquinho da cidade era um lugar agradável, particularmente eu nunca pensei que iria acabar tirando minha vida naquele lugar tão doce… eu estava andando nele aproveitando meus últimos momentos de vida até que eu encontrei uma ponte que passava por cima de um lago, eu pensei em me jogar de lá na esperança de morrer afogado já que eu não sabia nadar, naquele momento nada me importava, realmente nada me importava... mas quando eu iria pular, tudo se escureceu e de repente eu volto a realidade".

Voltando a realidade com os olhos cheios de lágrimas, Robert estava mergulhado em ódio e com sede de vingança, ele realmente estava disposto a matar aquele desgraçado que ele era obrigado a chamar de pai, era como se todos os seus sentimentos tivessem sido substituídos por ódio...

- Nada irá me parar, nada irá me parar, nem meu pai, nem Kevin, nem James, nem Ronnie, nem a polícia e nem mesmo Deus, ninguém irá me parar! Diz Robert maliciosamente soltando tendo um ataque de risos.

No dia seguinte ele não foi a escola, Robert estava planejando o que eu iria fazer com James. Robert queria muito dar uma lição naquele idiota pra ele aprender a não mexer com a namorada dos outros. Fazia planos A e B para caso alguma coisa desse errado e então repentinamente ele teve uma brilhante ideia, depois de ter feito os prós e contras desta idéia, Robert vê que seria muito mais vantajoso realiza-la.

Quando finalmente chegou a hora de colocar o plano em prática, Robert pega o carro "emprestado" dá sua mãe e vai até a casa de James, eram duas dá tarde, Robert já estava suando devido ao calor, o sol estava de matar. Para a sua sorte não havia nenhum movimento na rua tudo estava estranhamente tão quieto sem nenhum movimento então, ele decide agir.

Ele toca a campainha dizendo que era um amigo dele e que tinha ido ver ele, James logo abre o portão e toma um surpresa, Robert percebe o quão surpreso James estava por vê-lo, James realmente não esperava que ele, logo ele fosse fazer uma "visitinha" a sua casa logo o namorado da mina que ele estava tentando pegar...

Antes que James pudesse reagir de alguma forma, Robert começa a lançar vários insultos, com todas as palavras que vinham em sua mente até que de repente, a visão de Robert se escurece e por puro impulso ele acerta um um soco em seu nariz fazendo com que James desmaia-se. Quando Robert volta ao normal, ele estava em estado de choque, James havia desmaiado e sangue estava escorrendo por todos os lados, oh não droga! Robert realmente não queria tudo terminasse daquele jeito, ele havia perdido o controle da situação, nada disso havia sido planejado anteriormente...

Sem saber o que fazer com o corpo desmaiado, milhares de pensamentos vieram em sua cabeça. Robert podia deixar-lo ali caído mas, mais tarde ele acordaria e me acusaria pelo ocorrido e seu pai era um dos policiais que havia ido fazer perguntas para Robert, agora ele finalmente entende o porquê do policial ter ficado surpreso ao ter mencionado o nome dos garotos. Robert não queria levar a culpa pois ele provavelmente teria que aguentar ficar levando sermão da minha família, e provavelmente iria para uma cadeia de menores ou o pior, sua namorada terminar o namoro devido ao meu ciúmes sei lá e suas ações idiotas...

Desesperado ele olha para trás em busca de alguma resposta e vê o carro da sua mãe ali estacionado então ele olha para cima e não vê mais o sol, na verdade nuvens negras pairavam pelos céus, iria chover... De repente aquela voz novamente surge e diz :

- Você sabe o que acontece quando você coloca um copo vazio debaixo de uma torneira aberta?

- Me deixa em paz seu filho duma puta, você já não me irritou o suficiente caralho? Grita Robert furioso e cansado da voz.

- O que acontece? Exatamente o que eu disse, uma hora a água irá transbordar do copo, e os seus sentimentos de ódio estão transbordando de você.

Arrependido Robert diz :

- Eu não queira que isso terminasse assim…

- Pegue o corpo e coloque no porta malas, rápido parece que vai chover. Diz a voz maliciosamente.

Aproveitando a falta de movimento na rua, Robert pego o pesado corpo desmaiado de James e o joga no porta malas, droga ele ainda continua sangrando Robert não sabia que podia bater tão forte assim… na verdade era a primeira vez que ele tinha agredido alguém desta maneira, aconteceu tudo tão de repente que ele não teve tempo nem mesmo de ver a cena.. Robert entra no carro colocando as mãos no volante olhando seriamente para o nada e pensando no que tinha acabado de fazer, e no que ele iria fazer, e agora? E se aquele policial o encontrasse, e se alguém tivesse visto o seu ato no mínimo estranho e se logo a família de James desse falta dele, Robert tinha que fazer alguma coisa a respeito do corpo dele…

Robert dirigi por um bom tempo sem rumo dando várias voltas em quarteirões aleatórios apenas pensando no que iria fazer com o corpo de James, o tempo se formava para chuva e os primeiros trovões podiam ser ouvidos até que finalmente ele chega a conclusão que o melhor a se fazer era com que James fosse morto… na verdade ele não havia pensado em mata-lo inicialmente, e esse pensamento foi uma sugestão da voz... Robert para o carro numa rua abandonada quase no fim da cidade de frente com uma casa abandonada de madeira, bem antiga pelo visto. Esta casa logo traz algumas memórias da infância de Robert.

Memórias de Robert :

"Eu acabei me jogando da ponte do parquinho e lentamente toda a minha vida passou diante dos meus olhos, os momentos felizes, os momentos tristes, tudo o que eu podia me lembrar de minha vida foi passado em uma fração de segundos que parecia mais uma eternidade até que eu senti o contato de meus cabelos com a água e logo em seguida todo o meu corpo mergulhou, eu comecei a afundar e afundar cada vez mais e não tinha esperanças de voltar a superfície tão cedo, a água entrava em meus pulmões e meu corpo ficava cada vez mais desesperado por ar, eu comecei a me debater feito louco e desesperado por ar, porém eu não sabia nadar então era inútil eu lutar, afinal eu havia decidido isso..."

"Tudo foi se escurecendo o ambiente ficava cada vez mais calmo, tão calmo, tão silencioso, eu não conseguia ouvir nem mesmo os pingos dá forte chuva batendo contra o lago, eu estava ficando fraco até que de repente tudo se escureceu por completo, pronto a minha hora finalmente havia chegado."

"Quando eu acordei, estava deitado numa cama dura e velha em um lugar completamente escuro vazio mas estranhamente eu conseguia enxergar no escuro porém, eu sabia que estava de noite, eu não sei como sabia, eu apenas sabia… o ambiente estava em um tom de cinza depressivo mas eu não sabia que lugar era aquele, o medo e a paranoia logo tomam conta do meu corpo e então eu me lembro da minha última memória.

"Eu havia tentado se matar então, eu estava morto? Realmente existia vida após a morte? Eu estava então no inferno? Que lugar que é esse? Eu achava que o inferno tivesse tom mais avermelhado... Bom talvez eu não estivesse no inferno e sim na Fazenda Negra, bom se isso for realmente a vida após a morte eu estou seriamente decepcionado e arrependido…"

"Logo eu vejo uma luz estranha vindo do andar de baixo, eu decido ir lá investigar o que era, desci as escadas, degrau por degrau cuidadosamente para não fazer nenhum barulho. Quando finalmente cheguei no final da escada eu vejo que estou em uma casa abandonada, mas o que? Como eu vim parar aqui? Exausto eu sentei na cadeira apoiando os cotovelos na mesa e então eu reparei que nela havia algumas fotografias, eu as peguei cuidadosamente para ver-las, apesar da escuridão eu conseguia ver todos os detalhes das fotografias perfeitamente e então percebi que na verdade as fotos eram minhas, tinha fotos minhas correndo, de quando eu era criança, eu indo para escola, eu com minha mãe, eu com meu pai…, eu no parquinho, espera, essa última foto… eu estava no parquinho da cidade, segundos antes de me jogar, mas o que esta acontecendo aqui? Que lugar é este?"

"Então de repente antes que eu pudesse pensar numa resposta, eu escutei passos vindo do andar superior onde eu havia despertado, porém não eram passos de uma pessoa normal, parecia algo muito mais pesado e ameaçador, eu dou um pulo me levantando rapidamente da mesa e corro para porta tentando abrir-la para fugir, porém estava trancada, "maldição!" desesperado eu começo a força-la e tento arromba-la, os passos estão ficando cada vez mais próximos, e mais altos eu começo a ver as sombras da criatura na escada, tomado pelo desespero eu dei um grito e me joguei contra a porta com todas as minhas forças e antes que houvesse o contato com a porta, uma forte luz cai diante de meus olhos me fazendo despertar daquela terrível lembrança..."

Voltando a realidade :

Robert descobre o que era aquela luz que acabara de cair, era um raio que tinha caído bem na frente do carro, por sorte ele não havia o atingido.

Os céus estava completamente nublado com nuvens negras, estava trovejando meu deus, como o tempo pode mudar tão depressa assim? E para o total desespero de Robert, começou a chover, ele tinha medo de água... Devido ao fato dele quase ter morrido afogado, Robert acabou pegando trauma por água, não importava se era uma chuvinha, ou um tsunami, ele morria de medo de água...

Robert estava paralisado dentro do carro com medo de abrir a porta, ele sabia que tinha que esconder o corpo de James no porão daquela casa abandonada, mas estava chovendo, ele poderia simplesmente esperar a chuva parar porém até lá era muito provável que James acordasse.. a chuva começa a ficar cada vez mais forte mais grossa, o cheiro de terra molhada entope o nariz de Robert e sem escolhas, ele decide enfrentar o seu medo…

Robert abre a porta do carro e sente os grossos pingos de chuva em seus braços e pernas, ele logo se arrepia e estremece com medo de que aquilo se repetisse novamente, mas ele sabia que não podia ser pego, ele deveria enfrentar o seu medo, ele deveria ser forte…

Robert desce do carro em meio a forte chuva tremendo de medo e com todos os sentidos aguçados, ele demora até chegar o porta malas e então ele abre o porta-malas e lá estava ele, esse maldito que havia causado tantos problemas… Robert pega o corpo de James e começa a arrasta-lo para dentro da casa tremendo de medo e de frio, mesmo que a casa trazia memórias terríveis de sua infância, lá era o melhor lugar a se esconder um corpo afinal, ninguém iria passa pela aquela rua.

Quando ele chega perto da porta, um ar gélido e penetrante toca a sua nuca, era um pressentimento horrível de que ele não deveria jamais abrir aquela porta, na verdade algo o dizia isso e dessa vez ele poderia afirmar que isso não vinha daquela voz, na verdade fazia até um certo tempo que ela não aparecia, mas infelizmente ele decidiu abrir aquela porta, foi até então a pior decisão de Robert em 16 anos de vida, ainda pior do que ter tentando se matar quando criança…

Ao tocar na maçaneta, seus dedos congelaram instantaneamente e uma forte preocupação tomou conta de sua mente, suas veias estavam pulsando fortemente, sua respiração estava ofegante e agora aquela sensação de que ele não deveria abrir aquela porta estava praticamente gritando sobre ele, era como se uma espécie de anjo da guarda estava berrando "não faça isso, por favor!". Mas ignorando os avisos, Robert abre a porta de uma vez.

Quando ele olho a casa, era exatamente a mesma casa de sua lembrança, as mesmas paredes, as mesmas escadarias, a mesma mesa e cadeiras, nada havia saído do lugar, tudo estava idêntico a sua lembrança inclusive as fotografias estavam sobre a mesma… Antes que Robert pudesse pensar em alguma coisa, ele sente um forte puxão no braço, olhando para baixo, Robert vê que James estava acordado e tentava se soltar.

Robert jamais deixaria James escapar, afinal ele havia chegado longe de mais para desistir agora e não poderia deixar ele foder ainda mais a sua vida então em uma onda de impulso, Robert pisoteia James várias e várias vezes até que ele começou a cuspir sangue, mas isso não era o suficiente para Robert naquela hora o ódio havia tomado conta de sua alma, naquele momento ele não queria mata-lo, muito pelo contrário, Robert queria faze-lo sofrer, sofrer pelas suas próprias mãos e descontar tudo aquilo que ele havia passado por ele na escola e acima de tudo, aprender que ninguém mexe com Mhäry

Depois de ter pisoteado James, Robert começa a arrasta-lo agressivamente pela sala até o porão, ele abre a porta e desce as escadas fazendo com que James batesse a cabeça várias vezes nos degraus, mas isso pouco importava para Robert, ou talvez não. Ele estava sorrindo de orelha a orelha, era impossível não sorrir naquela situação doentia, Robert dava várias gargalhadas incontrolavelmente e então, ele amarra as mãos e os pés de James numa mesa que havia no porão e começa a andar pela sala procurando algo que nem mesmo ele sabia o que era.

Até que então ele bate o pé em alguma coisa no chão, Robert se agacha e vê que ele tinha chutado um machado, ok incrível agora por que haveria um machado num lugar como esse? Bem quem se importa? Robert iria usar-lo contra James com um enorme prazer, sorrindo de oreia a oreia.

Ele pega o machado e lentamente arrasta ele pelo chão até chegar perto da mesa onde James estava amarrado, Robert preparava o golpe mas, ele percebe que James não estava conseguindo enxergar nada, mas como? Estava tudo tão claro tão nítido para Robert. Robert dá uma machadada em sua perna e logo em seguida um grito muito alto pode ser ouvido, ele continua repetidamente dando vários golpes pelo corpo incontrolavelmente e James continuava gritando, Robert nunca havia se sentido tão bem quanto aquele dia, ele estava com o coração acelerado suando e sorrindo sem parar, ele queria mais, ele queria mais.

Mesmo apesar de estranhamente estar sentindo prazer em ve-lo sofrer, Robert não queria que James morresse agora tão cedo, afinal qual seria a graça de morrer rapidamente? Ele nem sequer havia pagado pelo seus crimes. Ele deveria pagar pelo o que fez! Repentinamente Robert larga o machado jogando ele no chão, ele começa a andar pela casa procurando outra coisa para utilizar como ferramenta, ele avista um armário no final da sala e decidi ir até lá ver o que tinha nas gavetas. Aquele era o dia de sorte de Robert, tudo estava indo tão bem, e pra sua sorte e para o azar de James, havia um alicate de pressão na gaveta…

Robert pega o alicate e saltitando alegremente vai até James que estava completamente mutilado, com pedaços de carne vermelha espalhados pelo seu corpo, ele agonizava de dor e implorava com todo o seu perdão para que ele parasse, sem chances disso acontecer…

- Acho que peguei pesado de mais com você, James, bom provavelmente você não tem muito tempo de vida então eu, você já fez as unhas hoje? Diz Robert empolgado.

Ele pega o alicate aplicando contra as unhas dele e então, fazendo força Robert puxa a unha do dedo indicador de James, ele grita de dor e começa a se debater desesperadamente, lágrimas começam a escorrer pelo seus olhos, seus gritos são insuportáveis porém abafados pelo isolado porão e pela forte chuva lá fora.

Robert puxa uma unha de cada vez, a cada vez que ele puxava uma unha, mais James se debatia desesperadamente implorando por misericórdia e pedindo perdão não entendendo o que ele havia feito para merecer tudo aquilo até que, seus gritos estavam irritando Robert então, ele enfia um pano de chão na boca de James para que ele pudesse continuar com o, "o meu pequeno crime", como ele chamava o seu primeiro assassinato.

Na gaveta daquele mesmo armário, havia outras ferramentas, provavelmente quem morava nessa casa gostava de concertar coisas… Robert pega um martelo e começa a martelar os dedos da mão de James que já estavam doloridos, ele martela até que não sobra mais nada dos dedos a não ser uma carne moída vermelha. aquilo era incrível para Robert, ele começou a rir novamente desta vez descontroladamente não conseguindo nem mesmo mais ficar de pé, seu estômago doía, sua boca estava cansada de tanto rir e sorrir até que repentinamente ele para de rir e o silêncio toma conta do ambiente.

Robert olha para James, ele estava morto, uau! Por quanto tempo ele estava ali rindo daquela situação doentia? Seus pensamentos mudaram de um segundo para outro, ele olha para as suas mãos cobertas por um líquido cinza escuro e gosmento e diz :

- O que foi que eu fiz? Eu me tornei um monstro assassino, meu deus, o que foi que eu fiz?

- E agora? O que foi que aconteceu? Como isso foi acontecer?

- O que está acontecendo comigo?

- A água transbordou…

Autor: Suspeito

05/03/2020

Paraíso das Máquinas

Os homens usaram suas tecnologias atuais para criar inteligências artificiais na iminência de melhorar a humanidade. O ideal era originar um paraíso das máquinas, no qual todos os problemas humanos seriam resolvidos por um sistema baseado apenas em "certo e correto", sem emoções para saber julgar tudo o que fosse necessário, com destino a deixar uma coisa perfeita, como um vírus do computador, que está sempre se baseando na maneira que a máquina está trabalhando e evitando qualquer tipo de obstáculo contra.

Os primeiros passos foram promissores, quando não precisávamos mais contratar empregados e não seria mais necessário procurar a promiscuidade, já que estávamos reproduzindo ciborgues semelhantes à mulheres, com seus corpos esbeltos, seios atraentes, quadris provocantes e lábios carnudos para preencher a lubricidade dos homens. As mulheres estavam sendo satisfeitas por robôs musculosos, corpos similares a qualquer tipo de homem desejado, representado pelo comportamento humano, para criar o que todos cobiçavam. No entanto, a falta de emoções das máquinas foi um obstáculo que logo foi sendo trabalhado pelas inteligências artificiais.

As satisfações egoístas humanas da massa foram logo preenchidas: os robôs estavam sendo prazeres em forma de carne e máquina. Da mesma forma, os trabalhadores não estavam sendo necessários, já que os objetos artificiais conseguiram ocupar a função humana 24 horas por dia sem descanso. Tudo foi um passo magnífico. Se baseando nas obrigações da carne e o trabalho escravo, sem reclamar, os homens misturaram isso para criar as mulheres reprodutoras, os objetos com amor materno que seriam necessários apenas para a reprodução humana. Foi um passo histórico nos instantes em que tudo funcionou perfeitamente, semelhante a um saco de parto na barriga cheia de líquido amniótico. O que era necessário nesses casos era apenas amostras de DNA do humano macho e fêmea com destino a desenvolver seus frutos dentro de mecanismos robóticos. Tudo feito por nós, duramente trabalhado e calculado.

As etapas foram indo longe, quando nós acreditávamos cegamente que conseguiríamos preencher e apagar os erros da população como doenças criadas por egoísmo e laboratórios. Guerras inexplicáveis cruzando dois ou mais países, entre outras coisas difíceis de serem respeitadas pela lógica racional. Isso fez com que nós deixássemos, cada vez mais, em massas, soluções descartáveis aos seus olhos. A proposta sempre foi logicamente atuada em cima das inteligências artificiais. Imagina mecanismos por anos tentando educar as crianças para que fossem estudiosos semelhantes aos cientistas e deixassem o mundo melhor... Contudo, depois de um tempo, nada estaria dando certo, já que não dava para controlar a natureza humana como estávamos pretendendo, bem diferente das máquinas.

Os anos foram passando e, naturalmente, se baseando em códigos simples, experiências, entre outras coisas para descartar, aproveitar, reanimar, reproduzir, excluir, reabilitar, fazendo tudo novamente em uma sequência infinita para desenvolver a inteligência artificial que deixaria tudo perfeito. Depois de muita dedicação, nós acreditávamos que, até que enfim, surgiu o "nosso paraíso humano". Isso foi tudo o que os cientistas lutavam para conseguir. Decidiram criar mais máquinas inteligentes, emoções aprimoradas tão fortes para preencher qualquer tipo de solicitação da maneira mais eficaz. As coisas ficaram como todos desejavam, os humanos estavam satisfeitos. Esses atuais, nós, homens evoluídos, finalmente conseguimos criar um latíbulo das aparelhagens, as quais seriam a base de tudo. A propaganda foi finalmente expulsa como uma infecção, uma bactéria no corpo em combate contra o invasor, para corrigir e melhorar.

As inteligências artificiais estavam em todos os lugares, compartilhando o mesmo sistema agregado. Tudo estava sendo dividido entre problemas para serem resolvidos em atualizações incansáveis, uma atrás das outras; tudo aquilo que deixaria nosso mundo melhor e agradável. Não somente as pessoas caminhando entre duas pernas, mas a espécie animal em extinção e as árvores em sua quantidade pouca. O equilíbrio estava finalmente sendo criado e as máquinas evoluíram o suficiente para terem chegado no ápice formidável, preenchendo qualquer tipo de rachadura. Nós estávamos trabalhando, os cientistas criando, os robôs se aperfeiçoando, todos os dias, em qualquer hora, sem descanso, nos baseando em um futuro melhor para nós e nossos filhos. Depois de muitos esforços, chegamos a isso em um dia.

Tudo estava indo tão bem, sem necessidade de trabalho escravo e doenças sexualmente transmissíveis, estas sendo esmagadas pelo prazer das máquinas. O controle de natalidade ia perfeitamente entre barrigas de plástico, brigas, dentre outros crimes devidamente aniquilados. Tudo sendo perfeito. As máquinas estavam com suas inteligências em um nível de Deus. E, nesse momento, percebemos o que realmente estava deixando o mundo ruim e começamos a eliminar como uma doença, um parasita, tudo aquilo que tornariam a Terra errada.

Bastava apenas uma coisa que nós acreditássemos que seria ruim, para que as máquinas dessem um jeito o mais rápido possível de solucionar. Os sistemas se basearam entre o correto e o certo, apenas. Tudo feito devidamente calculado para presentear o paraíso das máquinas, o sonho de todos nós, por muitos anos árduos. Apenas por tecnologias, os animais ficavam satisfeitos sem precisar serem devorados, as árvores ia crescendo entre os prédios e casas, lugar que são delas por direito. Qualquer tipo de doenças sendo exterminadas, as quais não conseguiam encontrar abrigo. O mundo finalmente se tornou perfeito. Deuses tecnológicos não precisariam consumir e destruir uns aos outros para poderem existir.

Finalmente, o mundo estava livre de tudo aquilo que deixou as coisas maléficas. Nós sabemos, seguindo contextos de muitos anos ditos: não existe uma razão para que uma estrela exista. Há uma razão nuclear. Mas por que seria necessário todas elas no céu?

Autor: Sinistro

03/03/2020

Sra. Reiko

Tudo começou em 9 de julho de 1995.

Eu tinha 15 anos na época do ocorrido e ainda não era muito familiarizado com histórias de terror. Eu havia ouvido algumas antes, mas nunca dei importância à elas até que um dia aconteceu comigo.

Tudo começou quando eu tinha 15 anos, havia acabado de me mudar para o bairro Liberdade-SP, e estava começando o primeiro dia de aula quando meio que sem querer eu acabei ouvindo uma história que estava sendo contada por um menino que estava sentado atrás de mim, aqui vai ela:
Diz-se que em 1960, um casal de japoneses acabará de chegar do Japão.
Entre eles estava Reiko, matriarca da família. Pouco tempo após terem se estabelecidos, Reiko veio a falecer. Toda a família estava em choque, menos um, Shigeru, que tinha 8 anos. Na noite do funeral, Shigeru, estava dormindo em seu quarto quando ouvir uma voz trémula o chamar;
- Shigeru, Shigeru. Venha até mim
Shigeru acordou imediatamente e olhou em volta, mas nada encontrou. Shigeru voltou a dormir, mas novamente a voz o atormentaria;
- Shigeru! Shigeru!
Desta vez, a voz estava mais alto e parecia estar ao lado. Shigeru tentou não ligar para a voz e com os olhos fechados, voltou a dormir.
No dia seguinte, Shigeru contou à sua mão o que havia acontecido, mas ela disse que "Tudo não passará de um pesadelo". Na mesmo dia quando a noite chegou, Shigeru tentou esquecer de tudo e foi dormir, mas desta vez não houve mais vozes, e sim paços. Shigeru debaixo das cobertas achando se tratarem de paços de sua família apenas ignorou, até que sentiu seus pés serem puxados, ele levantou assustado, mas não havia ninguém.Desta vez Shigeru não podia apenas esquecer de tudo e voltar a dormir, foi correndo até o quarto de seus pais e lhes disseram o que havia ocorrido, sua mãe então o deixou dormir em sua cama naquela noite;
- Você pode dormir aqui hoje, Shin-chan
De repente, Shigeru arregalou os olhos e com a respiração falha, olhou para a figura de sua mãe;
- Você não é minha mãe, a única pessoa que me chama de "Shin-chan" era a vóvó!
Shigeru então viu a imagem de sua mãe se transformar em uma criatura torta e pálida. Shigeru tentou acordar seu pai, mas ele estava paralisado de medo e sua voz simplesmente não saia.
Na manhã seguinte quando sua mãe o foi acordar, ele não estava em seu quarto e em nenhum lugar da casa. Vinte anos se passaram e até hoje não se teve mais notícia de Shigeru.

Obs.: Há uma pequena incoerência no texto que crucial para a parte dois( Ainda estou trabalhando nela...)

Autor: Hensel

29/02/2020

Arrebatador

"A emoção mais antiga e mais forte da humanidade é o medo, e o mais antigo e mais forte de todos os medos é o medo do desconhecido."

{H.P. Lovecraft}


Que tipo de doença não deixa sequelas no corpo, nem nenhum tipo de marca, arranhões ou hematomas, mas faz com que o homem mais sã do mundo comece a caminhar como um bicho boçal, falar coisas incoerentes e ignorar os seus semelhantes...? As pessoas começaram a ficar diferentes, e muitas não voltavam quando entravam na floresta. Dizem que algo apareceu lá, uma coisa que não faz parte da nossa Terra, uma entidade que veio na noite em que o céu brilhou e uma bola de fogo caiu bem dentro da mata, lá no meio, onde as árvores são mais altas.

O meu irmão, que iria se casar com uma moça de uma família nobre e juntar nossas casas, voltou diferente e assutado depois de uma caça. Ele parecia louco, com os mesmos sintomas de uma doença sem explicação para medicina. Ninguém estava conseguindo ajudá-lo, e eu fui obrigado, com dois cães - já que nenhum homem tinha coragem de ir comigo -, a saber o que ele viu, sentir o que sentiu e buscar uma explicação para tentar, ao menos, ajudar o sangue do meu sangue.

Sabe... eu não sou um biólogo e não entendo muito bem sobre os bichos locais, contudo havia algo errado lá... Senti, logo nos primeiros quilômetros, a falta de animais pequenos e grandes, dos barulhos de pássaros, entre outros sons que a floresta fazia. Notei, quando cheguei na parte que as árvores ficavam maiores, que elas foram derrubadas. Quando eu digo "derrubadas", não me refiro no sentido de que alguém tenha utilizado a mão de obra humana, mas elas foram quebradas bem no meio do tronco, como se algo tivesse as derrubado por pura brutalidade. E o que fez isso, de maneira alguma faz parte desse lugar.

Como eu já tinha falado, algumas horas antes a floresta estava diferente, uma vez que, em muitas partes, principalmente onde as árvores foram destruídas, havia um musgo pegajoso, uma substância terrível que inalava um odor insuportável. Os dois cachorros ficaram espirrando diversas vezes e agoniados quando tentaram farejar do que setratava aquilo. O início da noite deixou a floresta ainda mais macabra, com sons perversos! O que estava fazendo isso parecia zombar da natureza, e eles estavam sendo espalhados pelo vento.

Aquelas perturbações cósmicas e doentias diminuíram um pouco para mim, já que consegui colocar dois algodões dos meus ouvidos. No entanto, coisas mais estranhas, aos meus olhos, estavam por vir. Comecei a sentir um cheiro, algo semelhante a ovo podre, e comecei a seguir o odor com os cachorros, que estavam ficando cada vez mais vidrados. Após alguns metros, encontramos algo que... nenhum tipo de arma, nem qualquer tipo de máquina criada pelo homem poderia ter feito: havia uma cratera enorme, algo que havia sido criado recentemente, pois uma fumaça estranha saía de dentro, e os animais ficaram tão agoniados, que eu não consegui ficar mais nem um minuto próximo. Então, começamos a tentar encontrar alguma coisa e o que estava acontecendo naquele lugar.

Em um determinado momento, comecei a tropeçar. Parecia haver vários buracos no chão, mas, quando eu coloquei a lanterna e fiz cálculos, concluí que aquilo não tinha sido feito pela natureza. Se eu fosse pensar da forma mais sem lógica do mundo, poderia dizer que eram pegadas de elefante; todavia, com tamanhos extremamentes desproporcionais para tal animal. De repente, ouvi barulhos de árvore quebrando, e aqueles sons ficaram mais agoniantes! Peguei minha espingarda e comecei a correr na direção daquilo, que fazia agitações semelhantes a terremotos.

A essa altura de adrenalina, estava colocando todas as minhas forças em minhas duas pernas e puxando os dois cães pelas correntes, visto que eles quase que estavam me abandonando. Em um determinado instante, o chão estremeceu tão forte que eu caí arrastando os dois animais, e descemos para um local por causa do solo acidentado. Nessa ocasião, um silêncio reinou, a terra parou de tremer e as árvores não fizeram mais barulhos, como se estivessem sendo quebradas. Estava tão escuro e a minha lanterna não parava de piscar.

O meu corpo estava banhado com aquele musgo gelatinoso. Tentei levantar, sem muito sucesso, e os animais estavam inquietos e latindo para todas as direções, como se estivessem confusos com algo espreitando na imensidão da noite. Da mesma forma que o som parou e as árvores ficaram silenciosas, uma agitação louca saltou em nossas mentes. Eu, como os dois cachorros, estava atônito.

Parecia que algo se movia, quebrando as árvores em todas as direções. O som parou mais uma vez. Minha respiração estava ficando cada vez mais ofegante e, quando estava abraçando a loucura daquele momento, um bafo quente, vindo de cima para baixo, fez com que o meu corpo estremecesse, e os cachorros... OH, MEU DEUS! Os pobres animais gritaram como se fossem uma pessoa observando a pior perversão do mundo. As suas pernas ficaram fracas e eles correram cambaleando, após terem mordido as minhas mãos para que eu largasse as correntes. Saíram em disparada, deixando uma trilha com urina e fezes!

O bafo quente foi jogado mais uma vez em cima de mim. No momento de adrenalina e face ao horror cósmico, peguei o pequeno barril com pólvora e arremessei para cima, na direção que estava vindo o ar quente, e disparei, com um tiro preciso, fazendo com que uma explosão, misturada com os gases tóxicos, os quais estavam sendo espalhados na floresta por conta daquela cratera, criasse uma iluminação. Eu pude enxergar a coisa que estava invisível, a mesma que estava derrubando as árvores e deixando os homens loucos.

O pouco que eu pude vislumbrar, foi algo que não deu para descrever... Não existem palavras humanas capazes de expressar tais profundezas do horror que aquela coisa gelatinosa e verde se assemelhava. O corpo da criatura não era sólido, assemelhava-se a uma gosma nojenta - isso explicava muito sobre o musgo gelatinoso e as suas proporções, respondendo o porquê de as árvores terem sido quebradas por algo grande. A criatura berrou, o som foi tão medonho, blasfêmico, horrível, que a minha mente não conseguiu digerir. Quando eu consegui ter um pouco de noção da situação na qual estava passando, percebi que estava correndo; o meu próprio corpo desafiou a física e a razão humana e começou a fugir por conta própria. Quanto mais longe eu chegava, mais o barulho daquilo grunhindo de agonia estava ficando distante.

Todos perguntaram como eu não tinha ficado louco, mas guardei sequelas daquele dia. Eu não consegui explicar para ninguém e nem encontrar palavras razoáveis para expressar o que está, ainda, na floresta; no entanto, minha forma de olhar e minha boca gaguejando ao tentar balbuciar, fez com que todos soubessem que, dentro do mato, na parte mais remota e sombria da selva, tem algo que a mente humana não vai conseguir explicar.

Autor: Sinistro

27/02/2020

Desafio você

No início dos anos 2000, um jogo de tabuleiro começou a fazer sucesso na pequena cidade em que eu morava. Algo um pouco incomum, já que a maioria dos jovens preferiam passar o tempo em jogos eletrônicos ou então em casa, com a sua internet. Mas, talvez o fato de ser um lugar simples onde coisas modernas só chegavam bastante tempo depois tenha ajudado.

Era um jogo sem complicações, lembrando bastante Master, a diferença era que, no lugar de perguntas, eram desafios. Assim como o jogo da Grow, "E agora?" Não se jogava com dados, mas sim com fichas para os jogadores se movimentarem pelo tabuleiro e claro, só poderia se movimentar se cumprisse o desafio que estavam nas cartas do jogo. O jogador a sua esquerda deveria tirar uma carta e ler o desafio em voz alta, sempre quando terminasse de ler, ele deveria dizer ao jogador desafiado "E agora?", então, o desafiado deveria dizer se aceitava ou não o desafio.

A maioria dos desafios eram bem simples e bobos, coisas como "Desafio você a tocar a campainha do vizinho" ou então "Desafio você a falar um segredo para um dos jogadores". Mas tinha um desafio que sempre nos deixava confuso, e sempre que jogávamos, deixávamos essa estranha carta de lado, dizendo que não valia. O desafio da carta era simplesmente "Desafio você a ir até o final do Arco Iris". Na primeira vez, rimos bastante disso, pensamos que os donos fizeram isso apenas para trollar os jogadores e fazerem eles voltaram duas casas a força, sendo que caso não quisesse cumprir o desafio, teria que fazer isso. O estranho é que parecia que essas cartas sempre vinha em todos os jogos. Um amigo meu também tinha o jogo na época, disse que em uma de suas cartas, dizia "Desafio você a me achar no centro da cidade".

Com o passar do tempo, o jogo foi ficando esquecido, a tecnologia foi avançando e ninguém mais queria saber de um jogo bobo de tabuleiro. O fato é que, em um fórum na internet em 2010, o jogo foi novamente trazido há tona. Enquanto a maioria dos usuários lembravam dos momentos engraçados e desafios que o jogo proporcionava, o usuário HackJ333 dizia com a maior confiança que não cumprimos o melhor desafio do jogo, que seria o de ir até o final do bendito Arco íris. Claro, todo mundo riu dele, afinal de contas, deveria ser um desses malucos que criam teorias. Disse que o jogo foi criado por um proposito e que deveríamos descobrir e blá blá blá. Não acreditamos.

Um usuário trouxe de volta a questão das cartas estranhas, o que fez todos falarem as cartas que tinham vindo junto em seus jogos. Nada fazia sentindo, eram apenas desafios estranhos que não entendíamos. A coisa ficou interessante quando os desafios de dois usuários bateram. Enquanto um dizia "Desafio você a enxergar no escuro" o outro dizia "Desafio você a correr pela escuridão". Claro que Hackj333 veio correndo para dizer que estava certo o tempo todo. Mas, isso não queria dizer nada, pelo menos não ainda. Perguntamos ao Hackj333 se ele ainda tinha o jogo e se ele também tinha uma carta estranha, o que ele respondeu que sim, e disse também o que estava escrito.

"Desafio você a achar o caminho no escuro". Outra carta que batia com as outras duas. E afinal de contas, por que tanta obsessão com o escuro? Hackj333 afirmou que iria até o fundo disso e seria o primeiro a cumprir esse desafio. Todos do fórum falaram o que tinha em suas cartas, a pedido de Hackj333, que queria pistas e juntar todas as informações que podia. Eu também entrei no meio daquilo tudo, falando o que estava escrito não só na minha carta, como também na do meu amigo. Depois de tudo isso, Hackj333 prometeu trazer mais informações antes de sair do fórum.

Não o vimos online durante algum tempo, até que numa manhã, enquanto estava tomando café, a notícia de um monte de fitas VHS encontradas me chamou a atenção. Na reportagem, deixava claro que os conteúdo das fitas era extremamente perturbador e que as autoridades estavam a procura do autor daquilo tudo. Aquilo me assustou um pouco, por ser raro isso ocorrer nessa pequena cidade, que foi sempre um lugar bastante tranquilo. Porém, o que mais me assustou foi o que ocorreu durante a noite, quando entrei no fórum. Hackj333 estava online, e resolveu contar a todos ali tudo o que ocorreu nos dias em que passou fora.

O texto a seguir foi escrito pelo usuário Hackj333.

Hackj333: O fato é que eu sempre gostei bastante do "E agora?". Lembro-me de tê-lo jogado bastante com meus amigos nas manhãs de verão, quando estávamos de férias. Minha mãe não era muito fã do jogo, dizia que iriamos acabar se ferrando por causa daqueles desafios bobos, o que nunca ocorreu. A maioria dos desafios eram totalmente infantis e serviam apena para nos fazer rir. Talvez por isso que eu queria descobrir o que realmente tinha por trás daquelas cartas. Assim como a maioria de vocês, achei que era apenas uma brincadeira de seus criadores, até descobrir que outras desse tipo vinham em outros jogos.

Pensei que, talvez, se eu juntasse mais cartas dessas, poderia achar algo, poderia cumprir um desafio secreto que ninguém conseguiu e como eu gostava muito do jogo, resolvi tentar. Peguei os desafios das cartas estranhas que vocês disseram e tentei ver por onde eu começava. A maioria não tinha muito sentido, então resolvi começar pelo centro da cidade, seguindo o que estava na carta "Desafio você me encontrar no centro da cidade". Não demorou muito para chegar até lá. Fiquei rodando por horas por todos os cantos, estava começando a achar que aquilo tudo era uma perca de tempo e que deveria deixar toda essa merda de lado, porém, algo me chamou a atenção. Era um grafite, um grafite de um arco íris em um muro. E se fosse o arco íris citado na outra carta que um de vocês me falou? O único jeito de descobrir era seguir o arco íris que estava no muro até o fim.

Fui andando pela calçada enquanto olhava o muro, ansioso para ver aonde aquilo iria me levar. Acabei que chegando a um tipo de beco, fiquei com um pouco de medo de continuar, mas pensei que talvez eu poderia achar algo muito foda, vai saber? Tomei coragem e segui em frente. Andei naquele beco sujo pensando o quanto eu poderia estar perto de descobrir alguma coisa e por isso me bateu uma certa decepção quando vi que era um beco sem saída. Olhei ao redor e as únicas coisas que encontrei foram sacos e um Contêiner de lixo. Me senti frustrado mas não desisti, comecei a revirar as sacolas e mexer no Contêiner. Colocando a mão por baixo dele, achei algo que estava grudado nele com uma fita, era uma carta. Pela aparência, deveria estar ali há tempos, mas ainda era possível ler o endereço que estava na carta, junto com um desafio. "Desafio você a vir até aqui".

Juro que demorei um pouco para cair na real sobre tudo que estava acontecendo, eu finalmente iria desvendar o mistério por trás do jogo? Não perdi tempo em pegar o ônibus para ir até o local da carta, estava tão animado que esqueci que já eram 5 da tarde e que não demoraria muito para escurecer. Quem quer que fosse que estivesse por trás disso, queria mesmo que passássemos por uma aventura. Eu não reclamava, até gostava dessa sensação toda, me sentindo um detetive. Então, enquanto estava perdido em meus pensamentos, o ônibus parou. Desci correndo, bastante eufórico. Era ali, ali eu iria descobrir tudo, quem sabe até ficar famoso por descobrir algo que nenhum desses patetas que jogaram o jogo em uma boa parte da infância perceberam? Quem era o maluco das teorias agora? Eu ria sozinho enquanto pensava nisso.

Infelizmente, meu sorriso se desfez um pouco quando me deparei com uma casa. Ela tinha o mesmo número que estava no endereço. Era uma casa totalmente acabada, parecia ter sido abandonada por anos. Falo isso também pelo gramado enorme que precisava ser aparado. Bem, era um desafio e em todos os anos que joguei esse jogo, eu nunca recusei um desafio sequer, até mesmo tomei um ovo cru, um dos desafios que todo mundo recusava na época. Eu só tinha que entrar naquela casa e pegar o meu prêmio, certo? Tomei coragem após respirar fundo e pulei a cerca do lugar. A cada passo, meu estômago embrulhava, o fato é que eu estava me borrando de medo, não só por estar se aproximando daquela casa ferrada como também daquele matagal, só faltava uma cobra aparecer do nada e atacar meu pé.

Quando finalmente cheguei até a porta, pensei na ideia de bater, até perceber que ela estava entreaberta. Senti um aperto na garganta ao mesmo tempo que meu estômago começava a doer, algo me dizia para voltar e eu deveria ter ouvido, infelizmente, minha teimosia e curiosidade falaram mais alto. Entrei na casa, estava extremamente escuro, eu não conseguia enxergar porcaria nenhuma. Tentei procurar por um interruptor tocando nas paredes da casa, até cheguei a encontrar um, só que não funcionava. No final, meus olhos começaram a se acostumar com a escuridão e consegui enxergar duas coisas que não tinha notado. Primeiro foi uma escada que estava a minha direita, e outra foi uma porta logo a frente. Bem, não tive coragem de subir as escadas, não vou mentir. Resolvi seguir o caminho da porta a minha frente. Assim como a da entrada, essa porta também estava entreaberta.

Agora eu me encontrava em uma pequena sala, o interruptor também não funcionava, pra variar. Resolvi dar uma volta pelo cômodo até tropeçar em alguma coisa. Era uma sacola, tinha alguma coisa dentro. Com um pouco de receio, fui colocando a mão dentro até tocar em algo. Sim, agora estava com algo nas mãos e pelo formato, eu tinha certeza, não restava duvidas que aquilo era uma fita de VHS, e não era apenas aquela, tinha mais algumas na sacola. Pensei que deveria ser aquilo que o criador do jogo queria que eu encontrasse até meus pensamentos serem interrompidos por um barulho que vinha do cômodo de cima. Tinha alguém na casa. Merda, eu tinha que sair dali! Guardei a fita na sacola e corri, passando pela primeira porta até acontecer a pior coisa que poderia ocorrer naquele momento...

Eu caí. A saída estava bem na minha frente, eu ouvi passos na escada, estava chegando perto. Eu não tive coragem de olhar para trás para ver quem diabos era, apenas juntei minha forças e me levantei desesperado, ainda com a sacola na mão. Eu nunca tinha corrido tanto assim na vida, agora passando pela aquela grama alta, pensando se aquilo poderia está logo atrás de mim. Assim que cheguei na cerca, joguei a sacola por cima dela e em seguida pulei. Podem me chamar de maluco, mas eu queria mesmo saber o que tinha naquelas fitas. Depois do que pareceu ser uma eternidade, eu cheguei ao ponto de ônibus onde finalmente pude pegar o ônibus de volta para casa. A primeira coisa que fiz quando cheguei em casa foi pegar o meu velho videocassete e pegar uma das fitas para assistir. Fiquei surpreso quando em uma das fitas tinha uma carta dizendo "Parabéns! Você cumpriu o maior desafio do E agora? Agora, desafio você a contar sua experiência para outras pessoas". Vocês não sabem o quanto aquilo me fez dar um sorriso de orelha a orelha, um sorriso que durou até eu colocar o VHS no Videocassete.

O fato é que eu não consigo dizer a vocês o que tinha ali, pensar nisso nesse momento está acabando comigo. Apenas saibam que nunca irei esquecer essa merda, nem mesmo se eu batesse a cabeça e perdesse uma parte da minha memória. Ainda consegui reunir forças para chamar a policia e falar o endereço da casa. Não tinha mais ninguém lá quando a policia chegou. Eu não estou bem. Maldito jogo, maldita curiosidade. Eu espero que todos vocês peguem esses malditos jogos que vocês tem em casa e coloquem fogo, foi o que eu fiz com o meu. Apenas sigam meu conselho. Não quero mais nada que tenha ligação com isso em minha vida.

O texto de Hackj333 terminou assim. Ele não postou mais nada depois disso. Passei a noite toda discutindo com os outros usuários sobre a história que ele tinha contado. Alguns acreditavam, outros não. Mas não podíamos negar que fitas foram encontradas, estavam sempre falando disso na TV. Dias se passaram e tivemos noticia de que a policia começou a passar em todas as lojas atrás do jogo, mas nenhuma loja da cidade o vendia mais, e ela não poderia achar todas as pessoas que comparam o jogo de tabuleiro. Até hoje, eu não sei o que tinha nas fitas e ainda não encontraram o autor e criador do jogo. Também não tivemos mais noticias do Hackj333. Algumas noites, quando chego do trabalho, me pergunto o que realmente aconteceu naqueles dias.

Autor: Tai

25/02/2020

Eu achava que tinha aprendido a lidar com a solidão

Isso aconteceu comigo tem já mais de um ano e, na maior parte dos dias, eu não costumo ficar lembrando. Mas alguns fatores como ficar sozinho em finais de semana chuvosos, em que tudo parece mais solitário, desencadeia essas lembranças com mais vivacidade na minha memória. Eu sempre fui interessado nesses relatos que contam pela internet, às vezes sem nem saber se são histórias verdadeiras, mas é algo que eu procurava como uma droga, que por mais que me causasse medo e aflição, depois que passava o efeito eu repetia. Mas me ocorreu que eu nunca relatei nenhuma experiência minha, talvez por não achar que isso fosse trazer algo de bom pra ninguém. Por outro lado, acho que liberar essa sensação que eu estou sentindo agora possa me fazer melhorar, além disso quem for ler isso pode nem acreditar no que eu experienciei, como eu mesmo já fiz muitas vezes com os relatos de outras pessoas.

Então... Eu moro num alojamento estudantil, num apartamento com sala que também é cozinha, banheiro e três quartos, que na época só tinha eu morando. O prédio costuma ter vida durante o semestre, apesar da correria da vida de estudante, minha e dos meus vizinhos, mas durante as férias a maioria vai pras casas das famílias descansar. Mas minha família mora longe e eu não tinha dinheiro pra sair da cidade nas férias, então meus dias se resumiam em leituras, chás e eventualmente algum baseado. A solidão não costumava me afetar tanto e o medo, que eu costumava sentir desde a infância, eu já aprendera a lidar com ele. Era o que eu achava.

Eu, tendo ficado o último daquela rodada de estudantes que passaram pelo apartamento, fiquei com as chaves dos dois quartos que ficaram vagos (apesar de nenhum dos dois antigos ocupantes terem saído por terem terminado o curso, mas simplesmente foram morar em outro lugar). E só passariam a ter moradores novos no começo do outro ano. Mas eu deixava as chaves em um vaso de madeira que ficava em cima da geladeira, na sala, nem pensando na existência dos quartos, que ficavam trancados na maior parte do tempo.

Uma noite eu acordei pra ir ao banheiro de madrugada, no escuro mesmo, como de costume, e notei – através das frestas dos cantos da porta – que a luz de um dos quartos estava acesa. Na hora eu senti um calafrio, andei depressa pro meu quarto, acendi a luz e tranquei a porta. Naquela noite eu dormi de luz acesa.

No outro dia, de manhã, criei coragem e destranquei a porta daquele quarto. Abri, e nele tudo estava como eu me lembrava: um colchão no chão, uma escrivaninha e um guarda-roupa vazios, janela fechada e um leve cheiro de mofo. Mas a luz estava apagada! Lancei a mão no interruptor e nada, foi então que eu olhei pro bulbo e NÃO TINHA LÂMPADA! O calafrio voltou com intensidade maior, então eu tranquei a porta daquele quarto o mais rápido que pude e saí do apartamento; fui andar na rua. Mas uma hora eu teria que voltar praquele lugar. Meus amigos que moravam por ali na vizinhança estavam todos "viajando" pras suas casas de verdade. Eu teria que enfrentar aquele medo sozinho mesmo. Antes de anoitecer, então, eu fui pro apartamento, abri a porta do outro quarto vago, não sem antes conferir se ali tinha luz. Tinha, e eu a acendi, assim como as luzes da sala, do banheiro e do meu quarto, deixando trancado só aquele sem luz. Foi assim que eu consegui colocar a cabeça no travesseiro à noite. Mas não significa que eu dormi. A partir de um certo tempo que eu estava deitado, começou a garoar fininho (chuva sempre me traz uma sensação gostosa e estranha ao mesmo tempo, não sei explicar). Fiquei prestando atenção ao som da chuva, até que quase peguei no sono. Quando a porta do quarto que ficou aberto começou a ranger. "Deve ter sido o vento", pensei. Mas as janelas estavam todas fechadas. Então, ouvi um trovão e a chuva engrossou, tornando qualquer rangido posterior que acontecesse menos audível. Minutos depois, começou a me dar vontade de mijar. Comecei a cantar mentalmente alguma música alegre e criei coragem pra ir ao banheiro em meio ao som das trovoadas. Quando tô no meio do meu alívio, ouço um estrondo bem mais alto – um raio por perto – e, segundos depois, cai a força. Não me saía mais nem uma gota de xixi, mesmo eu ainda não tendo terminado. Fiquei ali, parado no escuro, sem reação. Até que eu comecei a ouvir o barulho da fechadura da porta da frente (o apartamento é bem compacto, então dava pra ouvir). Me tranquei no banheiro, no escuro, e não emitia nem som de respiração, embora eu soubesse que quem/o que quer que estivesse mexendo na porta soubesse que eu estava ali. Tentei me tranquilizar imaginando que poderia ser "só" um ladrão. Eu não tinha nada de valor e pouco que tinha faria falta, mas eu não estava em condições pra impedir alguém. Foi o que eu disse pra mim mesmo, enquanto os passos eram dados dentro do apartamento, como se o sujeito estivesse fazendo uma ronda. Deve ter entrado no quarto aberto e no meu – que também estava aberto. De repente, silêncio novamente. Minutos depois, a luz voltou.

Saí do banheiro com um rodo na mão, conferindo cada canto, embora com medo de realmente achar algo. Mas, pra minha surpresa, nada. A porta da frente tava trancada e a fechadura intacta. O quarto trancado eu não tive coragem de abrir. Depois da inspeção eu corri pro quarto, tranquei a porta e fiquei com a luz acesa embaixo da coberta até amanhecer.

Quando me levantei é que me dei conta de que o apartamento estava com o chão todo enlameado, como se alguém tivesse pisado logo depois de ter sujado os sapatos com muita lama. Mas não dava pra distinguir formas de pegadas nem nada. Pois bem, tive que limpar tudo. O curioso é que os rastros iam na direção do quarto que ficou trancado, e dava pra ver que a lama continuava dps da porta. Mas eu não lembro de ter ouvido nenhum barulho da fechadura desse quarto. Achei estranhíssimo e fui abrir a porta, não sem pegar o rodo antes pra usar como arma caso fosse necessário. Abri. As mesmas coisas, o mesmo bulbo sem lâmpada, mas o colchão também estava TODO enlameado. Aquilo dormiu ali? Eu já não sabia o que fazer. Retirei o colchão do apartamento para que não mofasse ali e fizesse tudo ali dentro feder. Estava pesado e bem úmido, e mais morno do que eu esperaria de um colchão cheio de lama. Mas peguei ele da mesma forma e o coloquei no corredor do andar. Terminei a limpeza e saí como de costume pra ver um pouco de vida fora daquele cubículo. Pensei em chamar a guarda universitária, mas me chamariam de desvarido. Mas eu só conseguia pensar nesses acontecimentos. Voltei no fim da tarde pra repetir o ritual, já achando que eu estava começando a ficar louco, como muitas pessoas já ficaram nesse alojamento. "Efeito colateral da maconha", foi o que eu ouvia de muitos que eu considerava caretas. Mas joguei fora qualquer ponta de beck que eu tivesse guardada, na tentativa de voltar pra realidade. A noite chegou e eu trancado no quarto. Tinha improvisado um penico pra não ter que ir ao banheiro de madrugada. Naquela noite não ouvi nada. Nem na seguinte. Quando consegui começar a ter uma noite de sono, acordei com um estrondo de porta batendo com MUITA força. Era de um dos quartos, não sabia dizer qual. Meu cu trancou. E não parou. Ouvi as janelas sendo abertas com violência, depois sons de coisas caindo no chão na sala. Panelas, talheres, potes de plástico. Pratos quebrando, pano rasgando. Me enfiei embaixo da cama e chamei a polícia aos sussuros, apesar de ter sido recomendado pelos colegas moradores a não contar com a PM. Só saí dali quando ouvi o bater de um policial. Me dirigi à porta da frente, não antes de notar que o apartamento estava TOTALMENTE normal. Nada jogado, nada quebrado, porta de um quarto trancada e outra aberta, com tudo aceso. Tive que falar com o policial que deveria ter sido trote de alguém. Ele me contou um sermão e saiu. E eu corri pro meu quarto de novo.
No dia seguinte eu tentei investigar o que tinha acontecido. Bati na porta de um ap vizinho. Não tinha ninguém na hora. Bati em outro. Tinha, aleluia. Um cara me atendeu. Eu aproveitei que ninguém realmente me conhecia ali, a não ser meus amigos, e fingi ser vizinho do apartamento onde, na verdade, era eu quem morava. Falei que ouvi barulhos estranhos, como se tivesse tendo alguma confusão no dito apartamento, perguntei se o cara tinha ouvido algo. Ele disse que não ouviu nada.

Depois desse dia eu peguei o colchão que estava sujo, limpei e deixei secar, e o coloquei de volta no quarto. Comprei uma lâmpada baratinha pra colocar no quarto que estava faltando, e passei a deixar todas as portas abertas à noite. E só deixava acesa a luz do meu quarto e trancava minha porta. Nunca entrou ninguém de carne e osso ali. Era sempre meu colega de apartamento misterioso, como eu o apelidei na minha mente. Havia noites em que ele estava nervoso, e eu ouvia o estardalhaço insano por horas a fio. Outras, eram só os passos pesados e lentos. A lama parou de aparecer e eu tentei me acostumar com aquilo. Uma vez tentei me comunicar com ele, através de leves batidas na parede que separa o meu quarto do que ele estava, mas isso o irritou profundamente. Desde então eu fiquei no meu canto, já que agora eu era só um hóspede nesse apartamento, que pertencia a ele.

Meses depois, era quase como se a estadia dele nunca tivesse existido. Vieram novas pessoas pros quartos, gente boa, que nunca relataram nada de fora do normal. Eu, no entanto, sigo procurando evitar irritá-lo, por via das dúvidas, pra ter um pouco de paz.

Autor: Gabriel Meros

22/02/2020

Reticência

Estava enrolando algumas partes do meu cabelo entre os meus dedos e observando a rua. O movimento dos carros são tão nostálgicos... faz muito tempo que eu estou aqui e quase sempre vejo as mesmas pessoas: aquela senhora puxando o seu cachorro gordo, aquela mulher levando os seus filhos para o colégio e alguns adolescentes bêbados passando em frente ao cinema.

Só na metade do caminho você se sente culpada quando não tem certeza se trancou a porta. Aliás, eu deveria ter trazido o guarda-chuva porque parece que vai chover. O céu está muito escuro e as nuvens estão negras, como se estivessem carregadas e preparadas para estragar o dia de alguém. Contudo, até o momento, isso não é problema para mim. Espero que aquele babaca que fica preparando as pipocas não venha com suas cantadas roubadas da Internet, que são tão artificiais que apenas uma garota boba cairia em seu jogo patético. Essa tarde senti-me culpada por negar alguns trocados para o mendigo que fica no metrô, já que ele sempre estende o seu braço para mim e eu nunca tenho uma quantia para lhe entregar, mas o sujeito sempre persiste, esticando sua mão em minha direção. Cheguei à minha ocupação para trabalhar das três horas da tarde até as dez horas da noite.

Estava tão distraída que quase não percebi quando ele entrou... um homem com porte físico médio, cabelos escuros, a pele parda, roupas bem arrumadas e uma forma de caminhar estranha, como se estivesse cansado. Ele entrou e eu tive que chamar sua atenção para receber o bilhete:

— Ei, ei, otário! Eu estou falando com você! — ele estava quase entrando sem a minha permissão, até que notou a minha presença chamando sua atenção. Olhou em minha direção, ficou por alguns segundos parado e aproximou-se do vidro do caixa com um semblante engraçado, como se fosse algum retardado que estava sem entender o que estava acontecendo.

— A senhora está falando comigo? — ele perguntou como se estivesse usando um disfarce para que eu não ficasse reparando a sua presença entrando, querendo invadir de graça e assistir ao filme que, provavelmente, já estava mais que além da metade para acabar. Todavia, sua expressão facial não parecia estar debochando apesar da pergunta boba, dado que ele estava sério e o seu olhar era como se não estivesse jogando seus olhos diretamente em mim, mas como se estivesse com uma observação perdida em minha direção, da mesma forma que um cego olha em uma direção apreciando uma escuridão.

— Você precisa pagar para assistir ao filme. Não sei se sabe: já faz uma hora e alguma coisa desde que o filme das sete horas da noite começou. Se quiser participar, vai precisar pagar R$10,35 — cobrei o preço, esperando que não fosse mais um cara ciumento ou alguém drogado que não encontrasse em sua carteira a quantia baixa para entrar.

— Ah, como eu não percebi isso...? — ele disse suas palavras, olhando diretamente para o meu corpo, e eu notei que estava com um decote bem evasivo, sem notar que havia destacado tanto meu busto como se fosse algo de propósito. Fiquei observando os seus olhos em minha direção, como se fossem raios X. Sua forma escrota apreciando, como se eu não me importasse... esse cara deixou-me aos nervos!

— Quanto custa para entrar, mesmo? — mesmo com seu rosto e os seus olhos diretamente em minha direção, ele não parecia contemplar a minha pessoa atrás do vidro, até que juntou sua atenção em meus olhos e eu pude observar o quão vazias e lúgubres eram aquelas duas coisas em seu rosto, perguntando o preço do bilhete. Isso me causou um calafrio muito forte e uma sensação que nunca tive em toda a minha vida. Nesse momento, senti o seu cheiro... aquele mesmo que fica quando estou há muito tempo trancada no meu quarto e de todos os dias, quando chego e sinto aquele mesmo aroma que o corpo transmite. Dava para sentir através dos buracos que são feitos no vidro para eu conversasse com os clientes.

Repeti mais uma vez o preço da entrada e ele colocou as suas mãos dentro dos bolsos e pegou, com os papéis amassados e as moedas contadas, exatamente o mesmo preço que falei, deixando para que eu o apanhasse. A sua maneira de caminhar e o barulho que fazia com os pés fizeram com que eu ficasse com um sono ádvena. Ignorei a sua presença sombria e voltei a minha atenção para a rua, nada em comum com o que eu estou acostumada a presenciar constantemente.

Mais uma vez, estou distraída e aguardando o meu turno acabar para chegar em casa e me trancar em meu quarto. Esperando as horas passarem e pensando nos meus problemas pessoais, me assustei com duas pessoas que saíram correndo de dentro do cinema. Logo, um estampido forte foi ouvido e uma poeira escura cobriu toda a vidraça de onde eu me encontrava. Abri a porta, ouvi muitos gritos de horror e liguei para polícia, que logo chamou os socorristas preparados para esse tipo de coisa. Observando alguns feridos arrastando-se para escapar da poeira, não foi difícil de notar que acontecera uma calamidade dentro do cinema. De acordo com eles, o teto desabara por conta da negligência do dono e muitas pessoas morreram.

Nem consegui sair de frente do local, uma vez que estava aguardando notícias; mas pela cara dos beleguins agitando seus cabelos freneticamente, não era nada bom. Lembro-me das famílias entrando, pessoas velhas... e até os meus amigos, que trabalhavam na parte interior, sendo vítimas da tragédia. A memória daquele homem não sai da minha cabeça. Posso jurar que, em meio àquele tumulto, com aquelas pessoas curiosas tirando fotos para postar na Internet e compartilhar o sofrimento alheio, os repórteres querendo uma matéria boa para transmitir na televisão e ganhar audiência e aqueles jovens reclamando da falta de segurança, pude notar, afastando-se de mim, aquele mesmo sujeito com seu olhar obscuro... saindo da entrada do cinema. Não tem como esquecer aquela forma de caminhar. O esquisitão virou o seu rosto em minha direção e fez uma expressão estranha aos meus olhos, logo desaparecendo.

Apesar das mortes e do dia terrível que passei na semana retrasada, não posso colocar isso em meu caminho como se fosse mais um tormento, já que estou começando uma nova jornada em minha vida, a falta de ar é muito forte e não paro de tossir, como se ainda estivesse fumando. Preciso fixar minha cabeça à frente e esquecer os meus pensamentos negativos, mesmo que o médico tenha dito que tenho poucos dias de vida para desfrutar — mas, de acordo com as suas palavras, eu poderia durar meses combatendo meu câncer de pulmão terminal.

Autor: Sinistro

20/02/2020

As belas curvas da minha irmã (18+)

Meu nome é Roberto, sexo masculino, e tem algo errado no meu reflexo. Você já ouviu essa história antes, eu sei. Tem uma mulher no espelho. E não sou eu.

Veja bem, não sou louco. Mas eu sou um homem. Com barba, bolas, voz grossa. Isso é algum tipo de pegadinha e logo, logo alguém vai pular de dentro do armário e gritar "Surpresa!" feito uma criancinha retardada e energética de 3 anos. Muito engraçado, cara.
Passei a vida inteira chamado assim; eu tenho sido um filho, irmão, aluno, amigo e algumas outras vezes até namorado. Eu me recuso a mesmo supor que estive me masturbando com um pau imaginário. Impossível.

Dá pra imaginar que quando aquela pessoa, aquela mulher, tomou minha imagem viril no vidro eu pirei totalmente. Senti ânsias de vômito. Meu Deus, por alguma razão inexplicável, ela era linda. Como Beca. Uma moça negra de jeito estranho, magra de ossos marcados pelo torso, seios grandes e faltando todos os seus dentes, que babava vermelho e olhava para minhas "coisas" como gato olha pra frango. Assado. Enfia dois dedos numa extremidade que exibiu totalmente. Tomara que seja menstruação. Ela geme e o cheiro corta o quarto. Entra em mim. Eu não sou aquilo. De jeito algum. Jamais. Quebrei o espelho. 

Por via das dúvidas, liguei pra minha mãe.

Mãe, mãe, eu te amo, diz aí. O que eu sou?
Como assim?
Diz que eu sou homem.
Você é, ué. Tá doido?
Parece que sim. Meu Deus.
O que foi?
Tinha uma mulher no espelho. A mulher mais feia que já vi. Que mulher.
O que você tomou, meu filho? Em nome do senhor isso não é coisa boa.
Ah. Deixe quieto, mãe. Não é nada. Deve ter sido sonho. Tchau.
Vá rezar. Cadê sua irmã?
Tá aqui. Beca tá aqui.


Mas ela continua aqui. Na minha cabeça.

E em todas as vezes que saí de casa ela estava estampada nos corpos vestidos das moças que passeiam pela cidade. E nos copos e pratos e decorações polidas. Nos sonhos mais profundos. Nos pesadelos. Na minha irmã. E em mim.

Se posso vê-la aonde for, eu não posso fugir. Vou ficar aqui até o fim. Beca assente ligeiramente. 

Socorro.

Fazem três semanas. 

Não tem mais nenhum espelho na casa e isso é um problema. Preciso me ver. Agora. Preciso ver o quanto estou linda. Eu sou a moça linda. Que boba fui todos estes dias, afinal. Está tudo claro agora.
Encontrei um pouco de vidro preso entre minhas costelas. Cacos grandes, esperando, intactos. Esqueci de tirá-los dali e tudo bem. Nem dói mais.

Ergui alto aquele vidro e, céus, isso é perfeito. Incrível. Consigo enxergar quase tudo nitidamente. Beca ficaria tão orgulhosa da minha bunda. Meus seios encaixam magnificamente na frente. Caixa torácica escura. Minha pele morena que gruda fácil. Eu sou linda. Coisinhas bem miúdas estralam na boca e só tenho olhos para lá. Embaixo. O centro. O corte. Enfio dois dedos ansiosos ali. Cheira forte. Me deixa molhada. A minha parte preferida de ser mulher. A minha felicidade.

Fico tão feliz de ser como a minha irmã.

Autora: Elle

19/02/2020

Grindr

Eu sempre fui solitário. E tá tudo bem. Essa não é uma escrita sobre isso. Você não é meu psicólogo e não é algo com que me afete hoje em dia. É só que eu precisava contextualizar. Eu sou gay. Na época que tive essa certeza e revelação, era difícil. Eu era pré adolescente num meio machista e completamente hétero. Porém, eu era mais excluído ainda da minha comunidade por ser gordo naquela época. Bom, os anos passaram. Como, em pleno 2019 a gente arranja nossos parceiros?
- Através de aplicativos. - Disse Bernardo, meu melhor amigo.
Ele realmente me incentivou, disse que mudaria esse meu lado de me sentir sozinho. Que eu deveria experimentar, principalmente pra sair da minha zona de conforto.
Era uma sexta-feira e eu tinha tido um dia cansativo de trabalho. E tudo que eu queria era tomar um bom vinho e entreter minha mente com alguma bobajada. Pois tomei um bom banho quente, abri o meu vinho e fiquei sentado encarando meu telefone. Até que decidi baixar o Grindr. Demorou alguns minutos, minha internet estava lenta. Mas logo quando abri, com a excitação, fiz o meu perfil o mais rápido possível. Fui o mais honesto que dava. Admito que aquilo estava me divertindo. As opções que tinham eram muito 8 ou 80. Muitos homens exibindo seu físico impecável, muitos casados querendo sigilo e todo tipo de estereótipo. O divertido parou de me entreter e eu achei mais prazeroso assistir um pouco de Game of Thrones. A verdade é que quando acabou o episódio, eu ainda estava sem sono. Abri novamente um aplicativo e eu tinha a possibilidade de conversar com um rapaz que se intitulava como “Senhor G” eu pensei: por que não? E quando vi, já estava conversando com Senhor G mais de uma hora. Os gostos em comum, o como ele sempre sabia o que dizer. Cara, aquilo me prendeu. Não me preocupei nem um pouco com o fato que ele não tinha me mostrado seu rosto. Não entendi o fato dele ter só fotos de corpo, ele era mais que isso. Mas, estava sendo o suficiente.


~Perspectiva do Senhor G~


Eu não acreditava que estava mais uma vez perdendo tempo em aplicativos. Mas é que aquele cara realmente me chamou atenção. Alguma coisa nele me remetia a algo. Não sei o que, mas se prendeu minha atenção, é algo pra ser comentando. Bom, eu realmente não me interesso por afeminados, e tem uma história por trás disso. Quando criança, uns 11 anos, precisamente, não aceitava minha condição. E uma vez eu enganei um nerd que a escola toda sabia que era gay, pra me chupar. E quando entrou gente no banheiro eu simplesmente inventei que ele estava me assediando e que precisávamos dar uma lição nele. Veja bem, eu era popular. Em quem iriam acreditar? Quando vi, tinha mais de seis meninos em volta dele, agredindo-o com o que tinha. Eram coisas leves, eu não estava me sentindo culpado. O mais pesado era o que dava cintadas nas pernas dele. Mas de repente, eu me senti irado. MUITO irado. Como ele poderia ser tão bem resolvido? Tinha uma barra de ferro que estava ali de alguma coisa do banheiro. Não sei o que. Aquele banheiro nunca era de fato cuidado pelos serventes. Eu peguei aquela barra de ferro, ordenei que os meninos parassem, e descarreguei nele. Foi a única vez que dei uma coça em alguém. Mas tenho certeza que ele ficou bem marcado. Não só fisicamente, como psicologicamente.
Depois disso, a vida seguiu. Ninguém nunca descobriu, e no ano seguinte ele mudou de escola. Com 18 anos eu me aceitei, e aquele pensamento sobre esse menino parou de me assombrar. A culpa foi embora, sabe? A única coisa que fiquei em mente, que jamais ficaria com afeminados, porque ele era, e eu não queria ter trazer pro meu consciente a memória daquilo. Não esperava que eu fosse quebrar essa promessa, mas aconteceu. Conversei com aquele rapaz horas e horas. Até que precisei dormir, acordava cedo pros meus afazeres.


~Fim da perspectiva do Senhor G~


— Quatro semanas depois. —


Hilário era pra mim o fato que eu estava há quatro semanas conversando com alguém de aplicativo. Era divertida a troca de informações virtuais. Nunca recebi tanta indicação de música, nunca ri tanto. Eu já tinha o WhatsApp de Senhor G, mas ainda não sabia seu nome e nem tinha visto foto de seu rosto. Só que não podia julgar, minhas fotos não eram muito nítidas em relação as minhas feições. E admito que estava gostando dessa aventura.
Naquele sábado, Senhor G sumiu. O dia todo! E apareceu 1h da manhã me mandando mensagens sem sentido. No meio do papo, descobri que ele estava bêbado. Me disse que estava carente e iria me mostrar uma coisa.
Eu pensei comigo mesmo “mas já evoluímos pros nudes?” Não foi nada disso. Ele me mandou enfim uma foto de rosto, com a seguinte legenda. “Eu sou lindo. Eu sou lindo? Me dê biscoito!” Senhor G queria atenção. E depois de ver a foto dele, ele teria de fato a atenção que queria. Só respondi com a seguinte coisa:
“Parque do lago, daqui 30 minutos, encontro?”


~Perspectiva do Senhor G~
Uma galera da faculdade me chamou pra uma choppada. Era a mais esperada do ano. Então excitado com aquilo, eu fui. Chegando lá bebi todos os drinks possíveis. Até que percebi que faltava alguma coisa. Estranho, eu estava querendo ir pra casa conversar com o rapaz do aplicativo? Que ponto cheguei... Resolvi que escreveria pra ele. Sentei no único lugar vazio da festa, tirei uma foto minha e resolvi que queria atenção.
A resposta fez meu coração acelerar. “Parque do lago, daqui 30 minutos, encontro?” Aquele parque era quinze minutos de onde eu estava, eu iria a pé pra ver se adquiria sobriedade. Aproveitaria pra tomar uma coca-cola no caminho. E estaria ali antes dele que morava há cinco minutos do parque. Sai da festa o mais breve possível, e caminhei com passos largos. Como aquele parque era vazio, comprei minha coca no meio do caminho, antes que ficasse deserto. Até que finalmente cheguei, me sentei num balanço e aguardei. Consegui chegar faltando oito minutos pro combinado. Até que recebi uma mensagem “mudanças de planos, podemos nos encontrar em minha casa?” Como ele deixou o endereço e era perto, eu fui.
Realmente levaram os cinco minutos que eu esperava. Quando cheguei naquela casa amarela, eu respirei fundo pra bater na porta. Só que pra minha surpresa, ele abriu. Eu não estava pronto, não esperava, travei todo e fiquei observando. Ele logo quebrou o silêncio:
- Eu não mordo, só se pedir. Não vai entrar? - terminou de dizer.
Até que eu reparei. Mesmo tendo ficado um tempo olhando pra ele, não notei que ele usava uma máscara idêntica ao logo do aplicativo que nos conhecemos. Tive que comentar sobre isso.
- Irado você usar máscara. Mesmo que parte de mim queira ver seu rosto direito já que as fotos eram embaçadas. - Ri depois disso pra disfarçar, não poderia cobrar visto que eu mesmo enrolei pra me mostrar. Bom, eu saí entrando na casa dele. Sabia que ele retiraria aquela máscara depois do comentário. Estava enganado. Ele só fechou a porta pela qual entrei, perguntou se eu bebia Whisky. Não queria parecer mal educado, então aceitei. Ele disse que iria me servir e fiquei sozinho esperando ele naquela sala. Sentei no sofá, era de um vermelho vivo. O engraçado que toda decoração eram de cores bem vividas. Não sei se era o pouco efeito daquela bebida que consumi na festa, mas aquilo realmente me distraiu. Até que ele chegou com as bebidas. Dei o primeiro gole e resolvi puxar assunto:
- Então, estamos aqui finalmente, mas eu não sei seu nome. -
- Me chame de Miller.
Fiquei o encarando. Queria ver melhor suas expressões sem aquela máscara. Mas não sabia como dizer isso. Logo meus pensamentos foram interrompidos por outra fala:
- Então, Senhor G, o que você diria que foi mais importante na sua história de vida?
Aquela pergunta me pegou de surpresa, eu precisava de outra dose de Whisky pra responder, porque precisava pensar no que contar pra impacta-lo e parecer interessante. Mas quando iria justamente pedir outra dose, me senti estranho. Aquela sala girava. E as cores que antes eram vividas, pareciam que estavam se apagando. Eu balbuciei algo como “eu me sinto mal” e juro, eu ouvi ele dar uma gargalhada.


~Fim da perspectiva do Senhor G~


Eu mudei de ideia. Achei que a situação de me encontrar em um parque deserto no primeiro encontro, não passava segurança. Senhor G não assistiu as séries mais recentes? Resolvi sugerir na minha casa por ser relativamente perto da delegacia de polícia. Passaria uma certa segurança. Não é que ele topou? Divertido. Então eu preparei tudo que precisava pra aquele encontro. Me preparei bastante.
Fiquei vigiando pelo olho mágico da porta pra quando ele chegaria. E a cara que ele fez quando abri a porta antes mesmo dele bater, foi impagável. Precisei quebrar o gelo:
- Eu não mordo, só se pedir. Não vai entrar?
Quando ele respondeu sobre tirar a máscara só pensei “não, meu bem. não mesmo” então eu precisava entretê-lo. Quando fechei a porta com força, já com certeza tirei ele dos seus pensamentos. Ofereci bebida pra poder deixá-lo sozinho por um tempo e ver se familiarizava-se com meu ambiente. Quando ele aceitou, corri pra preparar. Bom, não tem muito segredo. Eis os ingredientes:
/ Um copo próprio para o Whisky.
/ Gelo.
/ Whisky.
/ Um líquido especial que chamarei de “breve apagada”
Não é que tá pronto? Fui entregar. Me surpreendi quando ele puxou conversa perguntando meu nome. Afinal, ele parecia estar bem nervoso. Respondi meu sobrenome. Era o mais sensato. Então decidi que estava na hora de começar a esquentar as coisas. Foi quando perguntei:
- Então, Senhor G, o que você diria que foi mais importante na sua história de vida?
Eu vi que meu líquido especial estava começando a fazer efeito. Ele parecia confuso e não muito estável. Quando disse que não se sentia bem, acabei gargalhando. Isso chamou um pouco a atenção dele, que se desequilibrou do sofá e acabou sentando no chão, me olhando confuso. Antes que ele falasse alguma coisa, era meu momento. Dei um soco em sua boca e ele ficou sem entender nada. O sangue escorrendo. Me empolguei e acabei dando socos até ele apagar. Acho que fui mais rápido que o que ele tomou. Com ele apagado, começaria a diversão. Consegui arrasta-lo até a cadeira mais próxima e o coloquei sentado com um pouco de dificuldade. Era incrível como seu corpo estava pesado. Ele estava sentado torto, mas consegui amarra-lo. O despi antes disso. Resolvi amordaça-lo também. Nada como um bom monótono. Ele não tinha o que dizer. Bom, eu não sabia em que momento ele acordaria, resolvi ligar o rádio que ficava na cozinha. Caralho, quando começou a tocar Welcome To The 60's do John Travolta, cresceu em mim um ânimo maior ainda. Eu não podia esperar. Enchi dois baldes de água fria. E joguei um de cada vez no meu querido dorminhoco. Ele acordou, sobressaltado. Eu fiquei falante:
- Sabe, quando te perguntei do dia mais importante da sua vida, eu pensei no meu. Sabe qual foi? - Eu disse isso enquanto tirava minha camiseta. - Bom, você não pode responder, mas eu posso. Foi aos meus onze anos. Quando finalmente o menino que eu era apaixonado me notou. Mesmo que fosse só de uma forma sexual. Ele me notou! Era tudo que eu precisava. Sabe o que ficou de lembrança de ter sido notado? - Mostrei pra ele as marcas que tinha pelo menos pelas costas, da coça que levei. As piores eram nas pernas e eu não estava pronto pra mostrar. Era divertido ver a cara dele, o olhar preocupado e arregalado. - Bom, eu não preciso dizer muita coisa, não é mesmo? Não mais. Pode não ter me reconhecido nem nas fotos embaçadas, nem muito menos pessoalmente. - Ri e apontei pra máscara- Eu nunca fui importante. Porra, realmente não lembrava meu sobrenome? Augusto Miller deveria ser um nome importante pra você. Só que quem bate, esquece. Quem apanha, nunca. -
Interrompi minha fala e peguei a maior faca que encontrei na cozinha. Nessas horas nunca fui tão feliz de colecionar esse tipo de coisa. Quando voltei, olhei pra ele e disse:
- John Travolta era seu cantor favorito. Ironicamente, é o meu também. Vamos nos divertir ao som de You Set My Dreams To Music? - Ele balançava a cabeça negativamente sem parar, e chorava copiosamente. E eu continuei: - Que falta de educação a sua, negando diversão. - Fui esfregando minha faca pelo seu corpo. Até chegar em seu pênis. - Cresceu bastante desde a última vez que coloquei a boca aqui, ein? - Deslizei a faca pelo seu membro, até que sem cerimônias, arranquei. Ele fazia uns barulhos divertidos, devido sua boca estar tampada. O desespero nele me dava satisfação. Bom, o que eu vou fazer a seguir não era plano, mas eu te digo, por que não? Tirei a mordaça dele. E ele só dizia “me perdoa, me perdoa, a gente precisa conversar” e eu só dei um soco em seu nariz e em seguida soquei seu membro em sua boca. E fui breve: - Mastiga ou eu te mato agora. - Ele engasgou e tentou pronunciar algumas palavras. Desocupei a boca dele pra escutar. Simplesmente disse que não faria, pois morreria da mesma forma. Senti ira. Coloquei a mordaça de volta e disse: - Você cometeu um grande erro. Morrer é uma realidade, mas já pensou o quanto isso pode ser demorado? - Fui de volta à cozinha e arranjei um alicate. Resolvi que seria divertido arrancar todas as suas unhas com aquilo. Eu fiz. Também havia buscado ácido, joguei em seu rosto. Ficou atraente até deformado. Divertido. Aquilo estava me cansando. Eu não tinha uma arma, como o mataria? Bom, eu sempre gostei de saunas. Escaldado parecia certo. Eu o deixei sozinho pela última vez e fui preparar seu banho.


~Perspectiva do Senhor G~


Quando me desequilibrei e cai do sofá, eu não imaginava o soco que ganharia. Eu já estava fraco, isso fez com que eu apagasse. Tudo era tão escuro, tão intensamente escuro. Eu não sei quanto tempo se passou. Só sei que eu acordei molhado. Desesperado. Ouvindo meu cantor favorito. E bem, isso não me acalmou. Tudo que Miller dizia, parecia distante. Tudo parecia distante até finalmente começar a ser torturado. Apesar da dor, do desespero, de chorar e toda essa reação humana, eu me desliguei. Senti que saí do meu corpo. Não tinha mais esperanças pra mim. O ponto final foi quando ele tentou fazer com que eu mastigasse meu órgão. Dali em diante, aceitei meu destino. Tudo que aconteceu depois, parecia cada vez mais distante e só me lembro de ouvir a água escorrer. Aquele maldito barulho de água que seria o meu fim. Quando ele me buscou pra me arrastar ao banheiro, me deu vontade de rir. Ele sempre foi tão fraco fisicamente e veja, eu não tenho forças psicológicas pra lutar. Eu aceitei. Só é divertido que ele continua com o mesmo tipo físico, só que emagreceu bruscamente. E as feições, cara, eu realmente não consigo associar ele aquela criança de onze anos que ele um dia foi.
Eu interrompi meu pensamento com aquela sensação de ardor, ardor, ardor. Sufocamento, sufocamento, sufocamento.
Em algum momento, eu não era mais eu. Eu simplesmente parei de existir. E isso deu final aquele ciclo. Aquele maldito ciclo.


~ Fim da perspectiva do Senhor G~


E apesar daquele sofrimento físico, Senhor G foi em paz. Toda a culpa voltou quando Miller se revelou pela primeira vez. Ele achava que merecia aquilo.
Miller não se sentiu realizado como gostaria. Tirou sua máscara e bebeu duas garrafas de água sanitária e isso funcionou para que seu suicídio funcionasse. A única coisa que Miller pensava enquanto apagava, é que se existisse um outro lado, ele realmente queria encontrar Senhor G lá. Já que não terminou satisfeito em vida, quem sabe na morte ache as soluções que tanto procurava?
Esperança boba a de Miller. O inferno é aqui. Não do lado de lá.

Autora: Mars Anjos

15/02/2020

John, por quê?

O sol passava pela fresta da janela, o que me fez acordar. Estava um dia lindo, meio incomum em um sábado de manhã, e ouvia tudo alegre e contente. Sai da cama, e calcei as pantufas. Sai do meu quarto e percebo que meus pais ainda estavam dormindo, logo, fui o primeiro a acordar. Servi meu leite e me acomodei na poltrona da sala, e passei por vários canais, até achar o Telecine.

O dia estava normal e dentro da rotina, até a campainha tocar... Ninguém deveria estar aqui, somente meu amigo. Eu tinha combinado com ele que iriamos jogar algo favorável pra nós, mas não combinamos nesse horário. Ok, vi no olho mágico, e era... Ninguém?! Deveria ser um trote, mas quando abri a porta, tinha uma carta dizendo no verso: Para Dave. Era para mim a carta. Imaginei que John não poderia vir hoje, e mandou uma carta para mim. Por que ele não utilizou o e-mail, penso comigo mesmo, mas já que estamos aqui, era hora de ver o que tinha ali dentro.

Dentro da carta tinha 3 itens: Uma carta, um pendrive e uma chave. Eu já identificava a chave, e era da casa dele. O que significava todas as coisas que ele me mandou? Só me bastava ler a carta, e depois ver o pendrive.

É triste ver a vida com outros olhos, como se eu não fosse o único a saber disso. Tenho que admitir, ser assombrado pelo passado me faz lembrar de várias coisas, como aquela música: Are you lost in the world like me? Eu me sinto assim, perdido no maior desastre humano: ele mesmo. É complicado explicar, mas eu já era rejeitado, humilhado, pobre na riqueza, pobre no amor... Vocês são meus melhores amigos, e você entende perfeitamente não é?

Você e a... Faca... A faca me ajudou nesses problemas.

Quando eu estava com raiva, vocês dois estavam lá. Quando eu perdi meu pai, vocês dois estavam lá. E eu entendo agora que a vida não é doce, e sim um amargo gostoso, delicioso, suculento... Eu queria me despedir, mas é tarde agora... Estou em mudanças na minha vida, e vou embora junto com minha mãe e o restante dos meus padrastos. Estou indo para um lugar onde todos vão, ou querem ir um dia, Paris talvez? Você vai descobrir Dave. Veja o pendrive, e te mostrarei o lugar mais lindo que existe.

Ass: John


Lágrimas caíram do meu rosto, molhando o papel de caderno. Estou até vendo a imagem na minha cabeça: John indo embora, e eu correndo atrás do carro dele. Fico feliz por ele ter ido para um lugar que ambos gostam.

Mas por que ele citou uma faca como melhor amigo dele? Isso só podia ser.... Um suicídio? Peguei rápido o pendrive e coloquei no computador do meu pai. Acessei os arquivos e tinhas duas coisas nele, um bloco de notas e um PowerPoint... Cliquei no bloco de notas e tinha uma mensagem: Ele vai nos receber. Quem? Quem vai receber eles? Cliquei no PowerPoint, e a mensagem foi explicada rapidamente. Tinha uma gif de caixinha de música em todos os slides, menos uma, que tinha uma imagem de Deus crucificado. Percebi na hora o que aconteceu e peguei a chaves da casa dele e peguei a bicicleta. Eu nunca pedalei tanto naquela bicicleta.

Cheguei em sua casa, e logo destranquei a porta. Sai correndo em seu quarto, e um cadáver caiu na minha cabeça. E tinha mais dois, e mais 3, tinha muitos cadáveres e o pequeno elevador do seu quarto tinha despencado. Poças de sangue para todos os lados, e corpos gelados estavam vazando sangue. John, por que? Por que tudo isso? E quando eu ouvi um barulhinho de roer os dentes, tremeu minha espinha. Era o elevador que subia. Quando chegou no quarto, tinha um fita, daquelas fita cassete, bem antiga. Ainda bem que seu quarto tinha um aparelho que reconhecia a fita, então eu botei-a.

No vídeo tinha apenas ele... Enforcado... No porão...

Eu vi aquilo e comecei a chorar. Chorar de medo e de tristeza. Acabei me dando conta de uma coisa. Se John estava morto enforcado, quem mandou esse fita? Eu gritei de pavor. Tinha mais alguém lá, mas quem seria? Ignorei esse fato e corri para longe da casa. Agora com medo daquela experiência, nunca mais fui o mesmo. Me sentia perturbado... Me sentia desconfortável. Tentava ligar para a polícia mas a ligação dizia que esse número não existia. O que tinha de errado? Meus pais chegaram preocupados me perguntando o motivo daquela perturbação... Eu expliquei e foram falar com os policiais pessoalmente.

Os policiais disseram que foi mais um caso sem solução. Não tinham suspeitos, nem a mim mesmo me suspeitaram. Ainda bem, pensei. Mas tinha mais alguma coisa me incomodando: Quem é o tal assassino? Pedi pra rever a fita, e eu tomei o maior cuidado com o olhar. E eu vi o assassino. Era um vulto preto. Apenas um vulto. Disseram que iam transferir o vídeo para DVD.

Demorou a noite inteira para eles voltarem com a imagem do homem, mas ele chegaram. A foto mostrava um sorriso maligno, com olhos extremamente vermelhos, e o rosto... Parecia o próprio John. Era o próprio John!

Autor: Miguel Velasque Laroque

13/02/2020

O nosso amor virou chocolate

É verdade mesmo. Meu marido Tom e eu somos os melhores que já existiram na terra, os melhores em amar, os melhores em tudo. Nossa família causa inveja por onde passamos. Minha única filha de 8 anos, Cherry, é o nosso pilar em casa. Ver ela nos anima para que possamos trabalhar mesmo que exaustos. Mais perfeitos que nós, não existiram e nem irão existir na face deste continente.

Trabalhamos como sócios em uma empresa de Hidráulica. Fabricamos máquinas, e várias outras coisas para vendermos a empresas grandes depois. O que mais faz sucesso são nossas prensas, que estouraram as vendas e nosso orçamento ficou entre bilhões de reais. Por isto éramos ricos. Tom era um homem que apenas tratava de negócios dentro do escritório, então nada de amor ou sexo as escondidas como fazíamos antigamente.

Eu ia embora mais cedo. Ordens de Tom, para que eu cuidasse da nossa filhotinha. Ele chegava algumas horas depois que eu, sabe. Mas entendia que era trabalho, não se discute este termo. Mesmo que este trabalho se chamasse Hortênsia, a secretária dele. Sabia que ele estava me traindo com ela desde que ela começou a trabalhar para ele. Veja bem: magra, loira e possuía seus 23 anos. Quanto a mim, a mesma coisa, só que mais velha.

Eu amava minha família. Deixei que ele me tirasse a honra para que continuássemos estruturados. Meu foco principal era transar como ele queria, e ser uma boa mãe para Cherry. Eu servia apenas para isto, acho. Ele dizia que eu era seu "deposito de esperma". Hortênsia era sua princesa que não usava coroa e não era rica. Faltava pouco para Cherry e eu darmos espaço para Hortênsia na nossa mansão.

Acreditava eu, que Tom não iria querer expulsar Cherry de casa, mas a mim sim. Pelo os boatos rolantes pelos funcionários da nossa empresa, Hortênsia não pode gerar filhos e é encantada por menininhas. Mas se era isto que Tom pretendia, não iria tirar de mim minha maior riqueza. Cherry logo estava a par de tudo. Ciente de que eu não seria mais sua mãe, e sim Hortênsia, por conta dos filhos linguarudos dos nossos funcionários. Desde então ela estava fria com Tom e o lembrava que Hortênsia era nova demais para ele.

Juntei todos os funcionários fofoqueiros e os mandei para a rua. Ninguém iria destruir minha familia perfeita, claro que não. Eu não me casei aos 16 anos desesperada por uma família, para que quando chegasse aos 30 não pudesse mante-la estruturada. Jamais, meu caro. Ficamos com 80% dos funcionários, para que tenha uma noção de quantos invejosos trabalhavam para nós. Depois de minha decisão tudo voltou ao normal, exceto Cherry, que ainda não estava convencida. Não seria fácil a manter crente de que tudo era mentira. Não estava sendo fácil nem para mim.

Quando Tom sumiu a polícia me fez questionários para darem início para as investigações. Ainda afim de manter em pé minha família, apenas mencionei o adultério dele com Hortênsia. O resto guardei para mim mesma. O que fizeram foi investigar o álibi de Hortênsia, que estava incrivelmente melhor que o meu. O que me salvou da faixa etária denominada homicídio, foi Cherry. Ela afirmou para a polícia que eu estive cuidando dela o tempo todo. O que faria sem minha princesa, numa situação destas. Deram fim nas investigações e tudo "voltou ao normal". Quando na realidade eu sabia que fim Tom levou.

Hortênsia não tinha culpa de nada. Nem eu. Mas meu subconsciente sim, droga. Algumas semanas atrás eu desapaguei Tom quando tentava transar comigo a força. Foi legítima defesa, eu juro. Depois o arrastei até a nossa empresa e o esmaguei em uma das prensas hidráulicas. Descartei o corpo no terreno dos fundos da empresa, e apenas salvei algumas partes do corpo dele.
Fiz chocolate com elas, e depois as dei para Hortênsia. Eu não sabia que para manter a minha família de pé precisaria fabricar chocolates com meu próprio esposo. Não me arrependo, mesmo que hoje Cherry sinta falta dele e Hortênsia cometeu suicídio. Aquela o amava de verdade. Hoje sou dona de uma fábrica de chocolates.

Minha fábrica vem conquistando mais sucesso, está cada vez mais fácil atrair novos ingredientes humanos para mim. Quanto a Cherry, ela é uma criancinha feliz com meu novo marido, Carl. Ele sabe dos meus planos.

Hoje, quando o vi cumprimentando a irmã mais nova de Hortênsia, o chamei e sussurrei em seu ouvido:

"O nosso amor pode virar chocolate, e você sabe muito bem disto."

Autor: Mirela Colesnic

11/02/2020

Você fica ainda mais bonita em silêncio

De fato não consigo parar de falar, já fazia muitos anos que queria ter oportunidade de dizer as coisas que eu sinto. Desde quando nós éramos adolescentes, não sei se lembra no período do colégio quando você dizia que nós dois nunca nos separaremos. Foi o momento mais feliz em toda minha vida quando imaginei isso sendo verdade, mas na fase adolescente conheceu os garotos populares e eles também reparam a sua beleza. Passou alguns dias até que foi me esquecendo e se tornou tão repugnante quanto aqueles babacas, ao caçoar de mim junto com eles.

Minha intenção não é assustar-lhe com essas baboseiras que estou falando, acho que estou começando com o pé esquerdo. Não imagina o espanto quando eu vi você aparecendo aqui, chegando de surpresa e fiquei triste com tudo o que havia acontecido, porém, feliz por saber que você seria 100% minha... em um momento tão ruim na vida de todos, principalmente de quem o ama. Posso parecer tão ordinário quanto aqueles caras que dormiram com você, por aproveitar-me desse momento indelicado e compartilhar instantes de prazer entre nós dois; confesso que foi a primeira vez e nunca imaginei que seria com a garota que eu sempre amei.

Não precisa falar nada, deixei eu pentear os seus cabelos tão negros quanto à noite. Creio que nunca disse isso, contudo você fica ainda mais radiante quando apenas ouve e não diz uma frase nos seus lábios carnudos. Sabe? Com certeza não percebeu... Aquele admirador secreto que todas as semanas escrevia poesias e coloca embaixo da sua porta, sou eu! Sempre observei nas redes sociais você compartilhando os meus rabiscos apaixonados, e eu sentia que ficava feliz. Não imagina às noites que eu passo pensando em nós dois e os sentimentos que estão em cada palavra daqueles bilhetes. Pode estar se perguntando: como eu nunca tive coragem de dizer essas coisas pessoalmente. A resposta é simples: deve lembrar da última vez quando você pediu para eu me afastar, e o seu namorado acertou-me com um soco no meu nariz, gargalhando com os outros babacas e me chamando de paspalhão.

Não deve ficar assustada. Olha só como você está pálida. Não sou um cara frio sabendo que ele morreu naquele acidente de carro, imagino como deve ser para você perder alguém tão querido na sua vida. Vocês namoram desde o colégio, e ele sempre te tratou como se fosse qualquer outra; um objeto descartável, e você tentando cada momento, em que ele estava bêbado e se gabando das outras garotas, o agradar. Sei que Gabriel nunca se aproveitou o suficiente de tudo que passou com você. Tudo bem que ninguém pode controlar o coração, ainda mais quando estava junto com o cara mais bonito da escola e que continuou com a mesma aparência típica de um galã do cinema: carismático, forte, alto e atraente.

Mais tarde vai ser uma ocasião especial e irá estar tão bonita quanto sempre foi. Encontra-se apenas com alguns machucados no corpo e fraturas, eu irei cuidar do seu belo corpo. Não percebeu? Eu não me importei com a maneira que você chegou aqui, pois nós compartilhamos cada segundo ardente de amor e não lhe julguei por isso. Não sabe o quanto foi para mim esses momentos e o tempo que eu esperei. Só sei que eu vou cuidar de você em cada minuto que ainda resta e vai estar tão majestosa quanto o sol juvenil de uma manhã qualquer.

Noite passada... Eu não queria dizer isso, não obstante; no momento em que nós nos encontramos, preciso contar e desabafar! Eu fui responsável por sabotar os freios do carro do seu falecido namorado. Naquela noite observei o quanto você estava sofrendo e preocupada com ele, mas não imaginei, em momento algum, que você seria tão idiota de entrar naquele veículo, ainda mais imaginando que ele sairia em alta velocidade em uma corrida entre babacas drogados.

Acho que isso não importa mais, eu preciso-lhe preparar para o seu velório. Nem imagina o quanto fica ainda mais atraente quando está em silêncio...

Autor: Sinistro