11/08/2015

O Outro Lado - Parte 1

Acordei como num dia qualquer: o Sol batendo no rosto porque teimei em deixar a janela aberta durante a noite, uma perna sobre a coberta e a adjacente por debaixo dela, cabeça doendo por dormir pouco e jogar muito e uma forte dor no braço esquerdo por dormir sempre jogando o peso para cima dele; a casa estava silenciosa, mas nada fora do habitual. Meus pais costumam ir trabalhar durante todo o dia e eu já fico sozinho em casa sem problemas, eu estava me acostumando a essa vida e era algo que me dava muito prazer. Desci as escadas que davam em direção à sala, fui a cozinha e fiz meu estoque de comida, estava tão desnorteado pelo fato de ter acabado de acordar que nem escovei os dentes, apenas comi o suficiente e levei o restante para o quarto, entrando assim no meu "mundinho" como costumava dizer minha mãe.

Eu costumo deixar as janelas do quarto sempre abertas para que a vizinha saiba que estou "vivo", pois às escondidas ela me vigia a pedido da minha mãe e, de tempos em tempos, aparece batendo na porta perguntando se eu estou com fome. Na casa da frente vive um garoto que não me recordo o nome verdadeiro, porém, joga o mesmo jogo de RPG Cards comigo, seu nome é Fatal_Joker; de vez em quando mandamos sinais que inventamos para dar uma pausa pro banho ou atender o telefone, mas hoje ele parecia bem calado e focado, o que não era estranho, mas me deixava desconfortável, já que eu não tenho muitos amigos e uma vida social pouco ativa. Apenas ignorei e liguei meu computador.

O dia corria como num piscar de olhos, eram 10:30 quando acordei e, de repente, já eram 15:40. O dia passava rapido na frente daquele computador, mas eu tinha a sensação de já ter interpretado tudo aquilo. Dizem que quando fazemos demais alguma coisa, "ligamos o automático", então pensei comigo mesmo que aquelas poucas horas eram de uma jogatina normal no meu "mundinho". Acabei aquela partida e dei uma espreguiçada de vitória com um sorrisinho de canto de rosto, algo típico de um vencedor tímido e arrogante, ao mesmo tempo. Com o movimento da espreguiçada, olhei pra rua e notei que ela estava vazia, como se todos resolvessem dormir naquele dia, a não ser por um senhor com roupas de mendigo que passeava lentamente, se arrastando com uma expressão neutra. Além disso, algo me chamou a atenção: o garoto com quem jogava ainda estava na frente do computador, porém, não o vi em nenhuma partida ativa do jogo... Talvez estivesse evoluindo algum herói novo no modo Singleplayer, ou estivesse jogando outra coisa, mas o modo com o qual ele olhava atentamente para aquela tela de computador exigia muita concentração, o que me fazia pensar que ele estava jogando o tempo todo. Tentei acenar, na tentativa de chamar sua atenção, mas nada o desconcentrava. Como eu tenho um visão não muito boa por conta das horas e horas em frente ao computador, não pude perceber se ele estava ou não mexendo o mouse ou digitando e, além disso, desisto fácil das coisas, então deixei pra lá e voltei a jogar.

A próxima partida acabou mais rápido do que a outra. Parecia um jogador inexperiente e suas cartas não eram lá essas coisas. Eu desliguei um pouco o monitor do computador para descansar os olhos; esfreguei-os e coloquei meus óculos para ler; aqueles óculos me incomodavam pelo seu tamanho exagerado. Eu tinha um lugar especial para ler e costumava ficar lá quando o dia estava ensolarado: a sacada do quarto dos meus pais. Fui em direção ao seu quarto e, pra minha surpresa, a porta estava trancada. Pensei comigo mesmo "mas que droga está acontecendo?!". Voltei para meu quarto e tornei a mexer no computador, procurando por episódios de séries que costumava assistir, coloquei um e deitei na minha cama. A partir desse momento as coisas começaram a ficar esquisitíssimas: eu acompanhava a série episódio por episódio e aquele era o último episódio lançado recentemente (justo o que faltava para eu acompanhar a série), porém, parecia que eu já havia visto, pois os acontecimentos não me eram estranhos. Corri para pesquisar quando ele havia sido lançado e estava tudo nos conformes, como deveria estar. Mais uma vez um movimento involuntário me levou a olhar para fora da janela e lá estava o cara, olhando freneticamente para aquela maldita tela de computador. Pode parecer normal um nerd focado no seu mundo, mas aquilo era perturbador, ele mal se mexia e, agora com os óculos, eu notava que ele mal piscava. Meus olhos tornaram a olhar para a rua e lá estava o mendigo caminhando na mesma posição em que o havia encontrado na primeira vez, o que pra variar era muito esquisito, pois nunca havia visto aquele velho antes.

Comecei a ficar assustado com tudo o que estava acontecendo e meio aflito por conta da velocidade com a qual aquele velho andava, dava vontade de descer e empurrá-lo. Eu saí um pouco de casa e aquela rua parecia um deserto, só se ouvia o som do vento e um pouco longe ainda dava para ouvir o som de alguns carros, mas parecia que a vida em todo o lugar havia simplesmente desaparecido...

Autor: Leonardo Gustavo Campos

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