04/08/15

O Porão

Alguns anos atrás, minha família foi para Cabo Cod (Massachusetts) e nós alugamos uma pequena e velha casa para ficar durante duas semanas. No primeiro andar estavam a cozinha, a sala e o banheiro. Os quartos eram no segundo andar. Havia um porão no subsolo, com uma máquina de lavar, uma secadora, um sofá e uma TV.

Na primeira noite, nós todos fomos acordados por um grito terrível vindo do quarto da minha irmã. Quando meu pai praticamente quebrou a porta do quarto ao entrar e acendeu a luz, ele a viu sentada na cama, gritando e chorando. Meus pais se sentaram junto com ela e a confortaram até que ela se acalmou o suficiente para contar o que havia visto.

Ela disse que acordou no meio da noite por causa de um cheiro horrível. Quando abriu os olhos, viu o quarto inteiro encharcado de sangue do chão até o teto. Haviam marcas de mãos e manchas gigantes nas paredes.

Todos nós achamos que ela só tinha tido um pesadelo, mas ela se recusou a entrar naquele quarto de novo e ficou no quarto dos nossos pais pelo resto da viagem.

Uma tarde, minha mãe estava preparando a janta, meu pai havia ido até uma cidade próxima. Minha irmã e eu estávamos no porão vendo TV quando, de repente, a lâmpada estourou e a televisão se desligou sozinha, nos deixando na completa escuridão. O porão estava inacabado e tinha paredes de pedra, o que o tornava um lugar um pouco assustador. Por alguns segundos, ficamos apenas congelados no lugar, sem saber o que fazer. Até que começamos a sentir um cheiro horrível.

Era um cheiro terrível e, quando chegou nos nossos narizes, nos sentimos enjoados. Cheirava como carne apodrecendo ou algo do tipo. O cheiro começou a ficar pior, e começamos a ouvir barulhos de algo arranhando as paredes e o chão. Gritamos e saímos correndo por aí sem enxergar nada, tentando achar a porta. Eventualmente, conseguimos abrí-la e corremos para cima gritando para que nossa mãe viesse.

Contamos pra ela várias vezes sobre o cheiro e o barulho de algo se agarrando e arranhando as paredes. Depois de muito enchermos o saco dela, ela resolveu ir lá embaixo, trocar a lâmpada e procurar o lugar de onde vinha aquele cheiro. Ela pegou uma lanterna e uma lâmpada nova e desceu no porão escuro enquanto esperávamos por ela. Achamos que ela voltaria rápido, mas pareceu que ela ficou lá por uma eternidade.

De repente, a vimos surgir da escuridão, trancar a porta o mais rápido que podia e subir as escadas correndo. Ela virou pra nós e simplesmente disse:

-Eu não quero mais que vocês voltem nesse porão.

Então ela foi pra cozinha e ligou para a polícia.

Conseguimos ouvir a conversa no telefone e descobrimos que ela tinha visto alguém la embaixo. Ao passo que esperávamos a polícia chegar, nos aconchegamos na sala encarando a porta do porão. Achamos que algo iria bater nela ou derrubá-la a qualquer momento. Minha mãe não queria dizer de forma alguma o que ela tinha visto lá.

Assim que a polícia chegou, minha mãe cumprimentou os dois homens e os mostrou o caminho para o porão. Ela destrancou a porta e eles entraram na escuridão com suas armas em mãos. Procuraram no porão inteiro, mas não acharam nada. Não havia outra saída do porão, não haviam outras portas ou janelas. O que quer que estivesse lá tinha que ter saído pela mesma porta por onde entrou.

Depois que os policiais foram embora, minha mãe revelou o que tinha visto no porão. Enquanto falava, ela ficou imóvel e mais quieta. Disse que estava trocando a lâmpada de lá, quando sentiu o mesmo cheiro que havíamos descrito para ela e que, depois, começou a ouvir um som fraco de algo arranhando as paredes. Ela ligou a lanterna e deu uma volta para procurar o que estivesse fazendo aquele som. Disse que viu alguma coisa entre a máquina de lavar e a secadora.

Era um homem, de quatro. Suas roupas estavam extremamente rasgadas, seu cabelo sujo e cheio de nós, e seu rosto não era humano. Estava quase que retorcido, com uma expressão de puro ódio. De repente, aquilo se arrastou pra frente e desapareceu dentro da parede. Quando minha mãe o viu desaparecendo, apenas largou a lanterna e correu.

Depois disso, nenhum de nós voltou no porão, que deixávamos trancado. Toda noite, eu e minha irmã dormíamos no quarto dos meus pais, que também trancávamos. Desistimos da viagem alguns dias depois e simplesmente voltamos para casa.



PS.: sim, eu sei o quanto essa história é clichê.

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