25/11/15

A Luz no Céu

Minha família tem vivido por todo o sul da Califórnia, de San Diego a Los Angeles e vice-versa. Durante alguns anos, nós vivemos fora de Los Angeles, em um vale ao norte da cidade, uma área chamada Valencia. As pessoas eram especialmente amigáveis aqui. Era uma vizinhança de classe média alta conhecida por suas escolas e valores familiares excepcionais. Esse era o tipo de lugar no qual você poderia andar de bicicleta à noite e ninguém se preocupava que nada de ruim acontecesse.
Também era um lugar conhecido por suas colinas e cânions. Havia tantas trilhas de bicicleta quanto ruas na cidade. Meus amigos e eu costumávamos explorar os cânions à noite em nossas bicicletas, apenas para ver o céu noturno e sentir a brisa fresca contra os nossos rostos.

Andávamos de bicicleta fora das estradas de nossas casas e explorávamos as grandes e intermináveis trilhas que se expandiam até os cânions e o vazio do deserto. Uma noite, meus amigos e eu fomos por uma trilha conhecida, que estava menos gasta do que as que costumávamos ir. Era tarde, por volta de onze horas, mas era verão, então nós não tínhamos horário para voltar. Como eu disse, era um lugar seguro para se viver.

Andamos fora da cidade, passando por suas luzes brilhantes até a densa escuridão. Não conseguíamos ver muita coisa, apenas a lua e o brilho fraco da cidade abaixo de nós. Fomos mais fundo no cânion, até que nos deparamos com uma luz branca imensa que atingia o céu.
Nem preciso dizer que ficamos intrigados. Parecia que alguém estava tentando chegar no espaço, como se a lanterna de um telescópio gigante estivesse indo daqui até Júpiter. Obviamente, decidimos explorar a luz misteriosa.

Fomos até a luz como se estivéssemos sendo atraídos por ela. Havia um grande espaço vazio e aberto no cânion de onde a luz saía. Meu coração batia violentamente em meu peito. Respirei fundo e olhei para a escuridão.

Assim que nos aproximamos de uma floresta cheia de pequenas árvores e arbustos, percebemos que no meio dela havia uma grande fogueira que brilhava e subia em direção ao céu, e ao lado estava a luz que brilhava rumo ao céu noturno. Nos aproximamos mais um pouco, abandonando nossas bicicletas na trilha e caminhando vagarosamente até o fogo. E foi então que ouvimos os cânticos. Era um cântico baixo e gutural que vinha do fogo. Conforme nos aproximamos, vimos que não estávamos sozinhos.

Pessoas trajando capas pretas cercavam o fogo por todos os lados. Elas cantavam em algum idioma que eu não reconhecia. Havia mais ou menos cinquenta delas. Nós estávamos perto o suficiente para ver que as capas eram mantos compridos com capuzes cobrindo seus rostos. O manto de todos era preto, com exceção de uma pessoa cujo manto era vermelho carmesim. E então vimos a garota.

Havia um grande poste no chão com uma jovem amarrada a ele. Podíamos ver a expressão de seu rosto. Ela estava morta de medo. O homem de capa vermelha segurava um grande livro de couro encadernado. Ele rondou o fogo e colocou o livro sobre um pedestal, e então pegou uma faca comprida. Ele andou em direção à garota, a faca brilhando sob a luz do fogo.

Neste momento, meu amigo deu um passo à frente, colocando todo o seu peso sobre um galho seco da árvore. Ele se quebrou como uma fina taça de vidro. Imediatamente, as figuras encapuzadas se viraram em nossa direção. Sem hesitar, eles começaram a correr. Não esperamos para ver o que aconteceria. Pegamos nossas bicicletas e corremos sem olhar para trás. O cântico aumentou em nossos ouvidos - eles estavam se aproximando.

Pulamos em nossas bicicletas e voltamos correndo pelo mesmo caminho que havíamos ido. Olhei para trás para dar uma última olhada,  e tudo o que vi foi uma multidão de figuras encapuzadas em pé à beira da floresta. Eles nos observaram ir embora.

Meu pai arranjou outro emprego alguns meses depois e nos mudamos do vale. Entretanto, o que vi naquela noite nunca ficou para trás. Porque eles estavam lá? Porque havia uma garota amarrada em frente ao fogo? Havia milhares de perguntas não respondidas, do tipo que te faz ficar acordado à noite.

A coisa mais perturbadora, contudo, aconteceu cerca de um mês depois de nos mudarmos. Um dia, em nossa nova casa, eu acidentalmente encontrei uma caixa em nosso sótão. Eu estava procurando por alguns de meus livros que desapareceram na mudança quando bati minha cabeça em uma viga. Uma enorme caixa comprida caiu em cima de mim.

Sentei-me, abri a caixa e tirei alguns itens peculiares, coisas que nunca havia visto. Havia um colar de pentagrama e um pequeno jornal preto com a parte da frente repleta de anotações. Havia também uma foto minha e de meus amigos de nossa antiga vizinhança em nossas bicicletas.

Peguei os itens e coloquei-os no chão perto de mim. E então, eu vi. Na parte inferior da caixa estava uma grande mala de roupas, como as que você pega na Laundromat¹.

Abri a mala. Dentro dela havia uma longa e preta capa com capuz. As iniciais de meu pai estavam gravadas bem na frente.

Crédito: Stephen Pate


¹. Lavanderia conhecida nos Estados Unidos cuja franquia é internacional


8 comentários:

  1. Nossa se fosse eu chegava lá e pedia pra entrar na seita na mesma hora. Heiehueheueheuhe

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  2. Legal, o tipo de final q você realmente nao espera.

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  3. Acho que ali no final não é jornal, e sim diário (traduzido do inglês journal). Fora isso, ótima história e tradução.

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  4. Acho que ali no final não é jornal, e sim diário (traduzido do inglês journal). Fora isso, ótima história e tradução.

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  5. Wow, creepy muito boa, parabéns pela tradução Adriana!

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  6. Wow, creepy muito boa, parabéns pela tradução Adriana!

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  7. Bem daora, não esperava esse final. Aliás, quando surgiu a parte das luzes, esperava ser algo com ETs HAHAHA

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