16/11/15

Vazio

O silêncio não é quieto, é barulhento. É um rugido ensurdecedor.

Eu já experimentei o sossego antes; eu sempre inicio o meu trabalho às 04h00minhrs, e eu costumava achar que o “silêncio” é o barulho que sai dos postes de eletricidade enquanto eu caminho, alguns pássaros cantando, cachorros – ou raposas – uivando longe dali, o vento quente e delicado e mais um milhão de coisas que você não consegue notar. Silêncio não é nenhuma dessas coisas, silêncio é a falta até mesmo dos barulhos mais minimizados, e o silêncio precisa ser notado.

Eu estava indo até meu escritório quando o senti. Era uma manhã fresca então eu decidi não usar casaco, logo pude sentir o frio envolvendo meu tronco calmamente. Abracei meus próprios braços enquanto eu caminhava, eu não estava atrasado ou distante demais de casa; eu poderia facilmente ter retornado para pegar o meu casaco, ou uma jaqueta, mas eu sentia como se não devesse. Não sabia o motivo disso, mas continuei apenas caminhando e encarando a rua, um pé na frente do outro.

Estava escuro, mas não certo. Sem barulho vindo dos postes de energia ou qualquer janela e carros não passavam perto de mim, nada além do lento e assustador brilho da manhã.

Depois de quinze minutos caminhando, me encontrei no final da rua. Eu podia ver o prédio em que eu trabalhava – meu destino naquela manhã – mas o lobby estava vazio e escuro, pensei que talvez pudesse ter sido uma queda de energia e voltei a caminhar na direção dele rapidamente. Enquanto eu andava, meus passos pareciam ficar cada vez mais altos, ecoando de forma irritante, deixando um rastro de barulho atrás de mim. Senti meu coração bater mais forte, como se acompanhasse o som dos meus pés, o ar ficando cada vez mais frio, e antes que eu pudesse notar, estava correndo.

Alcancei as portas de vidro, mas elas não se abriram automaticamente, fazendo com que eu tivesse que procurar pelo meu cartão e assim que o senti pressionado contra a minha perna, em um dos meus bolsos, o tirei de lá. Passei o objeto pelo mecanismo, mas nada além de um simples “click” aconteceu.

Decidi correr o cartão novamente pelo mecanismo e frustrado pela falta resposta, acabei repetindo o movimento mais vezes do que eu poderia contar.

Claro que não vai funcionar... E eu não queria ficar lá parado sozinho, o horário não me era favorável. Apoiei-me no vidro e tentei enxergar através dele, correndo meus olhos por toda a extensão do local, mas não havia ninguém lá, nem mesmo um zelador ou um guarda; demorei em me convencer de que o prédio estava vazio e encarei o lobby escuro por mais alguns segundos, mas não havia nada. Nenhum som.

Sentei-me ao chão observando enquanto o sol ficava cada vez mais forte, o dia me trouxe um alívio instantâneo; era mais quente, pelo menos, e o fato de que eu conseguia enxergar a estrada quase toda de onde eu me localizava fez-me sentir um pouco melhor. Mas as sombras rígidas se moviam no chão de forma assustadora e os prédios ainda pareciam vazios demais.

O céu estava completamente azul, e durante todo o tempo que eu fiquei sentado ali – provavelmente por uma hora – só pude ver uma única aeronave, que de longe parecia apenas uma nuvem solitária. Não havia carros nas ruas... Os prédios estavam vazios.

Depois de mais algum tempo me coloquei de pé e decidi voltar para casa, exposta a luz do sol, a cidade parecia mais deserta do que antes, as estradas pareciam se esticar infinitamente, os prédios pareciam apenas borrões gigantes.

Eu nunca havia feito esse trajeto durante o dia... Sempre chegando tão cedo e indo embora tão tarde.

Tudo estava estranho, tudo era cinza, eu nunca havia notado antes, mas o mundo todo é cinza.

O silêncio sempre esteve atrás de mim.

A jornada levou mais tempo do que o normal, ou talvez o silêncio e a calma pairando em todo o caminho fez o trajeto parecer maior; estremeci quando alcancei meu prédio, abri a porta e caminhei preguiçosamente pelos degraus, os mesmos degraus que eu uso todos os dias, mas até isso parecia diferente.

O barulho das luzes quase estragadas do corredor, barulho de TV ecoando pelas paredes, vozes abafadas de parentes discutindo em outros apartamentos – eu sentia falta daquilo.

Alcancei minha porta e me apoiei nela, no intuito de procurar pelas minhas chaves, mas ela se abriu rapidamente e eu senti meu coração parar.

Entrei no apartamento devagar e lá dentro eu parecia sentir mais frio do que fora; olhei para todos os lados, mas nada estava fora do lugar, então eu caminhei até alcançar a sala. Minha TV, meu PS3 e meu notebook ainda estavam ali e eu respirei aliviado, dando a volta e indo até o meu quarto.

A porta estava quase fechada, mas assim que eu a empurrei, a luz do dia invadiu o cômodo e a coisa que lá estava, se moveu. Magro e com os olhos brancos, se virou para onde a luz entrava.

Parecia assustado por um momento e eu decidi correr em direção dele, medo sendo subitamente substituído por raiva, mas por mais rápido que eu tenha tentado alcançá-lo, a única coisa que pude ver foi um vulto vermelho passando pela minha janela.

Aproximei-me da janela e encarei a rua, conseguindo ver o que parecia um homem nu e sujo entrando em um dos becos próximos dali. Pisquei, tentando focar no meu próprio quarto, novamente, nada ali parecia fora do lugar e por até mesmo uma fração de segundo eu tentei me convencer de que não precisava me preocupar.

Foi aí que eu vi as pegadas.

Sangue, desde a janela e no chão do quarto até a janela novamente. Pegadas grosseiras, vermelhas e feias pairavam ali; meu estômago embrulhou de vez e a única coisa que eu pude fazer naquele momento foi sair de lá.

Voltei para a sala fechando todas as portas atrás de mim e não retornei para o meu quarto. Entrei no meu closet, peguei um taco de baseball que eu não usava desde os doze anos de idade e sentei-me em uma cadeira.

Eu podia sentir o suor escorrendo pela minha testa, e minha cabeça coçava de forma irritante; cada vez que eu coçava, ficava pior, mas minha respiração e meu batimento cardíaco pelo menos haviam voltado ao normal enquanto eu caminhava pela casa.

Senti fome, mas como sempre minha cozinha estava vazia, eu sempre faço minhas refeições no trabalho ou no restaurante mais próximo, mas naquele dia isso estaria fora de cogitação, e a fome ainda prevalecia, então, eu decidi sair.

A escadaria estava vazia, mas o clima parecia pior e mais frio. Eu andava como se estivesse me escondendo de alguém e não podia evitar o impulso de procurar por pessoas a cada degrau que eu descia.

Quando finalmente alcancei a rua, senti meus braços coçando novamente, mas ignorei aquilo e fui em direção ao mercado mais próximo dali, até alcançar o beco que o invasor havia usado para fugir... Havia algumas pegadas ali, mas nada comparado com as que repousavam no meu quarto.

Continuei caminhando e observando o chão, mas assim que tirei meus olhos do asfalto, eu o vi; ele estava parado na estrada ao final do beco, a apenas alguns metros de distância de mim, meus dedos se fecharam fortemente ao redor do bastão.

Pensei ter visto algo no canto dos olhos, atrás de mim dessa vez. Havia mais de um ali, o que me fez desistir de persegui-lo. Eles não viriam atrás de mim.

Corri até parar em frente ao mercado, estava fechado, claro, mas eu bati o bastão contra o vidro da porta sem pensar duas vezes e entrei ali, indo em direção a comida. Eu sentia tanta fome que não podia esperar mais, abri um saco de Doritos e dentro dele se localizava uma poeira branca e fina. Joguei o saco fora e abri outro, a mesma coisa estava dentro. Fui em direção a chocolates, bolos e biscoitos, mas todos estavam iguais. Nada além de poeira.

Meu estômago parecia ter vida própria de tanta fome e eu deitei no chão, rolando de um lado para o outro enquanto uma tosse doentia tomava conta dos meus pulmões.

Tudo parecia girar. Que merda estava acontecendo? Onde estava todo mundo?

Tossi e tossi até sentir o gosto de sangue na minha boca, minha pele coçava freneticamente e nem se eu tentasse ignorar aquilo adiantaria; tentei me controlar, sentando-me no chão e encarando o nada enquanto minha respiração se normalizava mais uma vez, até eu ouvir nada além do silêncio.

O silêncio, e então, um arranhão.

Eu parei incrédulo, aquele era o primeiro som que eu escutava no dia – quero dizer, que não havia sido feito por mim –. Arrastei-me até o barulho, estava vindo do outro lado da loja, mas eu tentei ser o mais silencioso possível.

Aproximando-me de uma das prateleiras tentei ver quem – ou o que – estava ali, e pegadas vermelhas ocuparam a minha visão. 

De repente o barulho parou e eu olhei para cima, acompanhando o som de respiração que pairava ali, levantando-me rapidamente e apontando meu bastão para qualquer direção.

Um deles correu pela porta e eu corri atrás dele, consegui vê-lo quase que perfeitamente enquanto ele caminhava até o outro lado da rua.

Eles não eram humanos... O corpo era o mesmo, mas não havia pele. Apenas músculo e sangue, sangue em todo lugar; escorrendo pelos dedos, melando o chão. A figura havia parado ali, do outro lado e continuava a me encarar. Eu podia ver os olhos, redondos demais devido a falta de pele, não havia cílios, ou pálpebras... Dei um passo à frente e a coisa deu um passo para trás, balançando sua cabeça.

Dei outro passo e a coisa virou e saiu correndo rapidamente, corri até onde o havia visto, mas ele não estava mais ali.

Eu sentei no chão.

O Sol estava bem acima de mim.

Não sei por quanto tempo sentei ali, mas nada se moveu. O sol continuava vivido no céu e as sombras corriam harmoniosamente no asfalto.

Continuei coçando meus braços, nem pude notar quando eles começaram a sangrar. Enquanto isso o dia passava e o clima só piorava, mas eu não queria me mover. Estremeci por causa do frio e encarei a rua ao meu lado... Lá, as figuras estavam paradas e pareciam me encarar por muito tempo.

Meu coração se desgovernou novamente e eu tentei me sentar de forma mais ameaçadora, ainda me coçando – meu pulso dessa vez – eles não se moviam, nada se movia, estava frio, mas eu suava muito, meu corpo inteiro coçava, e partes das minhas roupas estavam vermelhas por causa do sangue.

Quando eu olhei para o lado novamente, percebi que apesar de todos estarem ali, apenas um deles caminhavam até minha direção. Enquanto ele se aproximava, eu podia vê-lo melhor, era idêntico ao outro, apenas músculo e sangue, como se fosse uma ilustração tirada de um livro de Biologia.

Parou bruscamente e me encarou, assim como o outro havia me encarado anteriormente.

Eu estava assustado demais para me mover, eu estava com frio e me coçando mais do que nunca. Eu nem notei que já estava quase que completamente nu, apenas continuei me coçando.

Quando a coceira parasse... Talvez eu pudesse me mover novamente. Talvez eles me deixassem em paz.

Eu praticamente arrancava pedaços de mim mesmo naquele momento, mas a dor era boa.


Fez com que eu me sentisse livre. 


5 comentários:

  1. Caramba...Muito boa creepy.
    ...ai criatura fala: bem vindo ao bando...

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  2. A agonia que eu senti lendo essa creepy nao pode ser descrita em um comentário.

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  3. Muito boa essa creepy, parabéns Hel C!!!

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