03/02/2018

Vox e Rei Beau: Beau e os Apanhadores de Sonhos (PARTE 9)

Parte 1
Parte 2
Parte 3
Parte 4
Parte 5
Parte 6
Parte 7
Parte 8

Ultimamente o assunto tem sido sonhos, então é com isso que vou continuar. Eu lembro que Beau não me visitava sempre durante as horas em que eu brincava. Eu constantemente sonhava com ele durante a noite, me unindo a ele em suas aventuras ou continuando as nossas. Talvez por isso as memórias tenham ficado tão turvas. Algumas partes são incrivelmente vívidas, como se eu as pudesse ver com o olho da mente. Outras mal fazem sentido e eu mal consigo entender o que está acontecendo nelas. Enfim, a próxima história é Beau e os Apanhadores de Sonhos.

Beau observa Vox dormir, por aelur
Rei Beau gostava de me ver cair no sono. Ele apoiava seu queixo na minha cama e sorria com a boca levemente aberta, os dentes brilhando com a luz da lua. Eu falava com ele por algum tempo, mas nós tínhamos que cochichar porque se minha mãe nos ouvisse, ela entraria no quarto para reclamar.

Uma noite eu falei pra ele que esperava ter um bom sonho. Ele me garantiu que eu teria.

“Eu lhe trago sonhos”, ele disse. “Eu posso pegar qualquer sonho de que eu goste nos campos e trazer para você quando você dorme.” Eu perguntei como isso era possível, e essa foi a história que ele me contou.

Em suas caminhadas, Rei Beau não vinha apenas ao nosso mundo para roubar vozes. Haviam muitas coisas para ver por todo lugar e muitas coisas para roubar para si. Em uma jornada em particular ele se viu nos campos dos sonhos. Eles não eram campos como os que conhecemos, de grama e flores. Era um plano cheio de névoa que nunca se dissolvia. Por entre a névoa ele podia ver pequenos brilhos, como pequenos relâmpagos dentro das nuvens. Conforme ele se aproximou, os brilhos projetavam imagens na névoa, mas apenas por poucos segundos. As cenas eram clipes de pessoas voando ou animais ou lugares. Eram sonhos.

Beau não estava sozinho nos campos. Conforme ele passou pela névoa, ele encontrou estranhas criaturas. Elas sentavam nas pedras ou se deitavam no chão encarando a névoa. Elas tinham grandes canos que usavam para sugar os brilhos conforme apareciam. Eles caçavam os sonhos e os comiam.

Sonhos não são nada. Eles não tem valor ou substância. São apenas pensamentos perdidos e a sujeira da mente. Ao menos era assim que Beau os descrevia. Por isso, os corpos dos Apanhadores de Sonhos estavam sempre procurando por mais, mesmo que suas mentes precisassem apenas de sonhos doces. Eles tinham tentáculos saindo de cada um dos poros de sua pele, raízes sempre procurando mais para sustentá-los. Qualquer coisa que entrasse nos campos seria atacada por seus tentáculos famintos e perfurantes.

Beau, como sempre, não estava com medo de qualquer caçador ou sonho. Ele andou pelo campo porque não havia uma rota alternativa e ele definitivamente não ia voltar depois de chegar em um lugar tão interessante. Infelizmente as raízes dos Apanhadores começaram a notar sua presença, e logo até os Apanhadores não podiam resistir à ideia de agarrar suas vestes e tentar arrastá-lo para o chão para si. Os Apanhadores não tinham dentes porque tudo que eles faziam era sugar em canos. Seus olhos eram enormes, e seus narizes pareciam mais com bicos. Beau tentou lutar contra eles, mas, contrário às faces na caverna do Monstro do Closet, os Apanhadores não estavam presos ao chão. Eles o sobrecarregaram em número.

Beau roubou um dos canos e tentou mantê-los distantes, mas os tentáculos eram pequenos e entraram em sua pele. Quando as criaturas haviam quase que completamente arrastado-o para o campo, uma grande corneta tocou. Os Apanhadores pararam e então correram, como se Beau tivesse se tornado venenoso. Quando eles haviam saído de sua vista, ele notou um jovem guerreiro em um cavalo pálido.

“Você perturbou os Apanhadores”, o guerreiro disse.

“Eles me perturbaram primeiro”, disse Beau. “Eu estava só tentando passar.”

“Você precisa conquistar o direito de passagem por meu reino”, o guerreiro respondeu. “Eu vou lhe ajudar. Posso ver que você é um amigo da Lua.”

Beau caminhou com o guerreiro pelo campo. Contanto que um ficasse perto do outro, os Apanhadores os ignoravam e voltavam a sugar os sonhos. O guerreiro tinha feições jovens e uma aparência delicada. Ele parecia tão digno quanto o outro perto dele, mas Beau suspeitou que a névoa tinha algo a ver com isso. O guerreiro brilhava levemente, como se as nuvens o fizessem brilhar, e ele era feito de prata e azul pálido.

“A Lua é minha irmã”, o guerreiro disse. “Eu cuido dos sonhos. Meu povo os faz, e nós os mandamos para aqueles que dormem do outro lado.”

“Mas vocês deixam os Apanhadores comê-los?” Beau perguntou.

O guerreiro apenas deu de ombros. "É a natureza deles. Não posso pará-los."

Beau sorriu porque achou que aquilo era tolo. “Eu sou o Rei do Lugar Quieto. Ninguém pode tomar o que é meu. Eu comeria a voz e vestiria a pele de quem tentasse.”

“Então você pode me ajudar”, o Rei dos Sonhos disse.

O Rei dos Sonhos levou Beau a uma grande torre feita de pedra polida tão lisa quanto gelo. Eles escalaram a torre até a câmara do Rei, onde eles ficaram observando os vastos campos. A névoa se espalhava até onde a vista alcançava. Havia mais que apenas Apanhadores ali. Haviam rios profundos e estranhas criaturas em bandos. Mas ao Oeste a névoa se tornou escura. Os fragmentos de sonhos eram irritados e mais agitados. Os corpos de Apanhadores estavam caídos no chão e sendo dissecados por estranhos monstros, parecidos com pássaros. Esses abutres usavam garras para rasgar e devorar os cadáveres, procurando por qualquer último pedaço.

“Observe”, o Rei dos Sonhos disse e apontou para a extremidade da terra escura e em ruínas.

Um dos pássaros estava observando um Caçador e o Caçador apenas focava em consumir outro sonho. O monstro voou, circulando o Caçador, observando a situação até que mergulhou e atacou. O pássaro arrancou os olhos do Caçador com suas garras e usou sua boca estranha para arrancar uma bochecha. O Caçador tentou usar seus tentáculos, mas por algum motivo eles não conseguiam entrar no pássaro.

“São as penas”, o Rei explicou. “Elas são muito oleosas. Os tentáculos escorregam.”

Os gritos do Caçador atraíram mais monstros. Logo a criatura não fazia mais nada além de tremer e pular conforme dúzias de pássaros arrancavam pedaços de carne. Ao redor do Caçador a terra rachou e ficou manchada com a mesma infecção que atacava o outro lado da névoa. Os outros Apanhadores não fizeram nada para ajudar seu amigo morto ou salvar a si mesmos. Estavam muito ocupados com os sonhos.

“Meu irmão fez um pacto com a Escuridão. Ele quer infectar os sonhos e mandar a Escuridão para aqueles que dormem. Seus pesadelos vão destruir meus campos. Eu não tenho um exército meu. Não posso pará-lo enquanto ele controlar as minhocas.”

“Essas não são minhocas”, Beau respondeu.

“Não eles”, o Rei disse. “Eles se alimentam das minhocas.”

Quando ele entrou no campo dos sonhos, Beau achou que seria fácil de passar. O problema do Rei dos Sonhos não o importava, mesmo que a Escuridão jamais tivesse sido uma aliada do Lugar Quieto. No entanto, uma parte da Lua ainda estava em seu coração, e essa pequena parte nunca permitiria que Beau simplesmente deixasse aquele lugar para que a Escuridão a engolisse. Então ele concordou em ajudar o Rei.

Beau era muito espero, e sabia muito sobre minhocas. “Só há uma minhoca, mesmo que hajam muitas”, ele disse ao Rei. “Nós vamos matar a minhoca.”

Embora Beau não temesse nada, ele também não era tolo. Viajar pela névoa faria dele comida para os monstros alados que viajavam em bando procurando por comida. Sem falar que os Apanhadores certamente tentariam devorá-lo. Sendo esperto como ele era, ele decidiu duas coisas.

Primeiro, o Rei dos Sonhos iria com ele porque isso era tudo culpa dele. Segundo, eles viajariam atrás da Minhoca pelos túneis de minhoca. Fazia sentido. O Rei dos Sonhos não ficou nada feliz com essas duas idéias e fez um escândalo com a possibilidade de sujar suas roupas finas. Beau não se importou nem um pouco.

O Rei dos Sonhos levou-o para um grande buraco no chão onde as rachaduras da terra infectada se uniam. Ao redor do buraco haviam muitos esqueletos de Apanhadores e seus canos esquecidos, mas os pássaros haviam abandonado aquela área em busca de terras férteis para caçar. Com o arco do Rei e as facas, vozes, rapidez, força e muitas outras habilidades de Beau, eles se armaram e foram em frente.

A rede de túneis era confusa e frequentemente eles tinham que engatinhar por espaços apertados ou partes que haviam cedido. O Rei usou luz emprestada de sua irmã, a Lua, para guiar o caminho. Ela refletia nas paredes do túnel e queimavam quaisquer pequenas minhocas que poderiam causar problemas. Finalmente, eles chegaram em uma câmara cavernosa. Era iluminada com chamas escuras e coberta com a mesma pedra polida que a torre do Rei. Dentro dela estava um jovem guerreiro que parecia muito com o Rei dos Sonhos, mas suas características eram douradas e escuras. Enrolada e grossa com um rosto sem visão estava a Minhoca. Ela era gosmenta e pulsava, e conforme os dois observaram o guerreiro pegou uma faca e cortou dois pedaços dela. Os pedaços caíram no chão e pulsaram. Em sua vista, duas outras pequenas minhocas foram criadas.

“Você vê, Rei”, disse Beau. “Há apenas uma Minhoca.”

Tendo dito isso, ele atacou.

É claro que o Rei dos Pesadelos não ia deixar Beau simplesmente matar sua criatura preciosa. Ele berrou, e as duas minhocas pequenas foram direto para Beau. Em sua corrida, elas deixaram uma trilha de gosma venenosa que borbulhou e corroeu a pedra polida. Suas bocas abriram bastante e atacaram os dois Reis. O Rei dos Sonhos foi rápido e perfurou uma delas com uma flecha, prendendo-a e queimando sua pele com a fumaça. Beau desviou da outra e soltou uma de suas vozes mais penetrantes, que congelou a pequena minhoca no mesmo lugar e fez com que ela encolhesse em uma esfera que se dissolveu.

O Rei dos Sonhos preparou outra flecha e atacou a Grande Minhoca. O monstro se ergueu e tentou se enrolar ao redor do Rei, silvando conforme as flechas escavavam sua carne mas sem fazê-la perder a força para lutar. Enquanto o Rei estava concentrado em salvar seu reino, Beau prestou mais atenção no que importava, e o que importava para o Rei dos Pesadelos era proteger uma pedra pendurada em seu pescoço. Beau sabia disso porque ele era um grande caçador e Apanhadores podem ver com alguém protege um prêmio. Isso, Beau decidiu, era seu alvo. Enquanto o Rei dos Sonhos mantinha a Minhoca ocupada, Beau foi atrás do Rei dos Pesadelos.

“Não me importa por que você ajuda a Escuridão,” Beau disse conforme as facas brilhavam contra a espada do Rei dos Pesadelos. “Não me importa que você também é irmão da Lua. Essa pedra é minha. Eu a obterei.”

O Rei dos Pesadelos era um grande guerreiro, muito rápido, mesmo que fosse pequeno. Mas o desespero fez com que ele hesitasse e alterasse seus movimentos para poder proteger a pedra, e isso era algo que Beau sabia bem. Ele soltou duas vozes nos ouvidos do seu adversário, confundindo-o e prejudicando seu equilíbrio. Com essa oportunidade, Beau roubou a pedra.

A Grande Minhoca congelou, o que foi bom porque o Rei dos Sonhos já estava quase sem flechas. As armas de prata cobriam a pele da minhoca, queimando-a de maneira que deveria enlouquecê-la, mas Minhocas não são criaturas inteligentes e raramente se importam com a dor. Ela congelou e encarou Beau que percebeu que havia vencido.

“Eu posso fazer a Minhoca comer seu irmão”, Beau disse ao Rei dos Sonhos.

O Rei dos Pesadelos, percebendo que havia perdido, não conseguiria escapar e não tentou.

“Não”, suspirou o Rei dos Sonhos. “É a natureza dele.”,

Normalmente Beau teria feito isso de qualquer forma, mas, novamente, a parte da lua que ainda vivia em seu coração fez com que ele mandasse a Grande Minhoca para longe, de volta para sua terra natal, sem que nunca retornasse aos campos dos sonhos. Beau manteve o coração da Minhoca para si e o Rei dos Pesadelos retornou para sua torre, derrotado ao menos por algum tempo.

No entanto, Beau não havia terminado. O irritava que o Rei dos Sonhos e os Apanhadores não fizessem nada para se defender. Ele odiava o fato dos Apanhadores tomarem o que quisessem sem pagar suas dívidas. Então ele subiu no topo da torre do Rei dos Sonhos e rugiu em uma voz tão poderosa que até a névoa tremeu e os sonhos silenciaram por algum tempo.

“ESCUTEM-ME”, ele rosnou.

Os Apanhadores escutaram.

“VOCÊS NÃO PODEM APENAS PEGAR ESSES SONHOS. VOCÊS PRECISAM TER UM PROPÓSITO. OLHEM.”

Ele apontou para um dos monstros alados, circulando a névoa procurando por alguma minhoca que houvesse sobrado e observando os Apanhadores.

“LUTEM”, Beau ordenou.

E um dos Apanhadores arremessou seu cano para cima. Ele atravessou o coração do monstro pássaro e o que escorreu dele era tão doce quanto o sonho. Daquele dia em diante, o Rei dos Sonhos tinha um exército e Beau podia pegar quaisquer sonhos que quisesse como pagamento por sua ajuda.

E é por isso que eu tenho bons sonhos.

01/02/2018

Eu sou um cartunista

Você caminha sentindo o ar fresco, ouvindo as folhas secas estalando sob seus pés enquanto caminha para escola. É apenas uma curta caminhada da sua rua até o seu destino, para onde você vai todos os dias para aprender, assim como as outras crianças. 

No outro lado da rua, você vê três dos seus colegas de classe conversando. Você ouve o garoto loiro falar algo sobre sexo gay. Você os ignora e continua a andar. Logo, você passa por outros dois colegas de classe: um garoto e uma garota. Você não consegue lembrar o nome do garoto, era um nome bobo, como se ele mesmo tivesse criado. Convenientemente, ele fala o próprio nome quando você passa por ele. 

“Oi! Meu nome é Tenko!” ele fala para ninguém. Você o ignora também, não é nada incomum. 

Você chega à escola e senta em sua cadeira. Então percebe algo. 

Quando foi que esse lugar ficou tão ferrado? Você pensa consigo mesmo. Correndo a mão sobre as bordas de sua carteira, parece áspera e irregular. Agora que percebeu isso, todas as bordas da sala parecem serrilhadas e imperfeitas. Como não havia percebido isso antes? Todas as superfícies da sala de aula eram planas e sem detalhes. Sem sombras ou iluminação. Todas as cores parecem sem graça, como se estivessem ali apenas para preencher espaço. 

Você foca sua atenção no professor que está na frente da classe. Você jura que o rosto dele parecia completamente diferente, minutos antes. E agora seu rosto... está deformado e incompleto. Você apenas consegue ver dois pontos pretos onde os olhos dele deveriam estar. Seus colegas... quando começaram a parecer tão semelhantes uns aos outros? Você começa a perceber mais e mais detalhes. Objetos desaparecem quando você não esta olhando, os olhos dos seus colegas giram por todas as direções por alguns segundos, e suas mãos se deformam e se contorcem sem que eles percebam. Nada mais parece real. Você está sentado no centro da sala com esses loucos com corpos que se deformam e rostos vazios. O que mudou? Ou as coisas sempre foram assim? 

A ansiedade cresce. Você percebe as inconsistências. Por que todos falam como se seguissem um roteiro muito pobre? 

…o que aconteceria se você saísse do roteiro? 

Em pânico, você se levanta e corre para a porta. Quando agarra a maçaneta, ela se desintegra em sua mão, como linhas, e passa por seus dedos, como grafite. As linhas se espalham como vírus. As bordas serrilhadas das paredes transformam-se em linhas, fazendo com que as cores sem graça escorram para o chão. Você olha para os outros estudantes. As cores escorrem de seus rostos como cera, deixando nada além de vestígios cinzentos e um cheiro de carvão molhado. A classe se torna uma pasta cinzenta, uma sobra deixada por uma borracha suja. Você cai no vazio branco. 

Depois de alguns segundos, você aterrissa. Tudo é branco, como um papel novo. E então ele aparece. 

É um homem baixo, careca e gorducho, usando um fedora marrom e uma camisa azul. 

“Q-quem é você?” você gagueja para ele. 

“Eu... sou um cartunista.” 

“O que?” você se arrepia, “O que quer dizer? O que eu sou? O que aconteceu com minha classe e... com meu mundo?” 

“Você é um dos meus personagens,” ele responde, “Tenho milhares deles, e todos eles tem mente própria! Há há!” 

Você hesita, “Você… é Deus?” 

Isso o agrada. “Bom, suponho que sim. Sou um profissional.” 

Você começa a se irritar com esse homem pomposo. “Você é um cartunista horrível!” você grita, 

“Tudo estava tão errado. Tudo se desmanchou, estava terrível! Se é esse o tipo de mundo que você cria, então você não é um artista, apenas um amador!” 

“Não pedi por uma crítica...” ele murmura. 

Você sente uma dor na perna. Você olha para baixo para vê-la quebrando-se em linhas, assim como todos os seus outros membros. A cor em suas mãos cai em pedaços. Seu rosto começa a queimar com o atrito de uma borracha, e antes que possa gritar, sua boca se foi. Logo, você não é nada além de restos. 

Ele olha para os seus restos. Pegando um lápis de trás da orelha, ele fala, “Vamos tentar de novo,” e começa a criar outro personagem.

28/01/2018

Um Erro ‘’Necessário’’

Me chamo Regina Alcântara e morava em São Paulo no ano de 1995, na época eu tinha 16 anos e morava com meus pais num casarão antigo deixado pelo meu avó. Nós éramos uma família de classe média e nada faltava para mim, mas depois que meu pai perdeu o emprego de carteiro começamos a passar por bastantes dificuldades, era a pior época que já tínhamos passado e as costuras da minha mãe já não eram suficientes para suprir todas as despesas. 

Eu era uma moça bonita de pele negra, cabelos ondulados e um sorriso extremamente bem cuidado; até tentei ir numa agência de modelos tentar algum trabalho, mas não passei nem da entrada, a recepcionista me olhou dos pés a cabeça naquele dia e me senti um lixo. Todos os dias eu saía de casa na esperança de encontrar algum trabalho para ajudar meus pais, mas nunca encontrava nada, nem mesmo trabalho de domestica. 

Aos poucos meu pai começou a vender alguns móveis, mas não era para comprar comida ou pagar contas e sim para tomar bebidas; com o tempo ele até criou uma alta dívida no bar que ficava no centro.

Minha mãe começou a ter depressão e eu já não tinha mais como ajudá-la, pois meu psicológico também estava abalado. Era insuportável ver meu pai chegar bêbado em casa todas as noites e escutar os gritos de fúria misturados com os choros da minha mãe, não tinha como deixar de ouvir mesmo que eu abafasse os ouvidos com o travesseiro. 

Era uma tarde de sábado quando saí novamente para procurar um emprego e mais uma vez não encontrei nada; chegando em casa percebi que tínhamos visita, havia um chapéu no cabide que ficava na sala. Quando entrei vi meus pais sentados no sofá conversando com um homem bem alinhado, com roupas de boa qualidade e um cabelo bem cortado, parecia ser um homem da alta sociedade e realmente era. Meu pai me chamou para se juntar a eles, mas eu disse que estava cansada então o cumprimentei e subi para o meu quarto. 

Fiquei me perguntando aquele dia o que meus pais tanto conversavam com aquele homem. Durante um tempo cheguei a desconfiar que talvez ele quisesse comprar a casa, mas depois ele não voltou mais lá e também não quis perguntar nada sobre aquilo, minha cabeça já tinha problemas demais. 

Dias depois uma mulher veio até a nossa casa, ela estava acompanhada de duas crianças, eu apenas observei do que se tratava a conversa e ela falou sobre uma grande quantia de dinheiro. 

Subi para o quarto com um sorriso cheio de emoção, finalmente as coisas começariam a dar certo novamente e meu pai quitaria sua divida. As dificuldades já eram tão insuportáveis que certo dia encontrei minha mãe pedindo dinheiro a vizinha, logo minha mãe que era um poço de orgulho. 

Mais um dia se passou e minha mãe me pediu para que eu me arrumasse, pois teríamos um grande evento de comemoração, jantar seria dado para comemorar o sucesso dos negócios do papai que logo teria um bom dinheiro em mãos. Chegada a hora do jantar os convidados se sentaram a mesa; o homem elegante, a mulher acompanhada de duas crianças e um senhor que parecia meio bêbado. Meu pai cochichou para minha mãe que o senhor era o tal dono do bar. 

Meu pai se levantou e deu boa noite aos convidados, minha mãe pediu para que eles ficassem a vontade e se servissem. Depois do jantar meu pai disse que estava na hora da negociação começar. As propostas eram muito boas, mas eu não entendia qual interesse eles poderiam ter numa casa tão antiga. Meus pais ficaram um bom tempo falando de valores e fazendo negociações e era muito difícil para mim imaginar que a casa onde passei a infância seria vendida, ela me trazia tantas recordações boas. Meu pai me perguntou porque eu estava chorando e eu disse que não era para ele vender a nossa casa e que daria um jeito de arranjar um emprego para ajudar nas despesas. 

‘’-Você já está ajudando eles.’’ Disse o homem enquanto entregava um cheque para o meu pai que agradecia com um sorriso generoso. 

Foi nesse dia que descobri que eu estava sendo leiloada como um objeto pelos meus próprios pais.  Acabei me casando com aquele homem, mas pouco tempo depois ele faleceu me deixando uma boa herança, mas nada que me faça esquecer a crueldade humana.  

Autor: Andrey D. Menezes.  

(Hoje trago pra vocês uma proposta um pouco diferente, não sei se vocês vão gostar, mas espero que sim. Estou construindo aos poucos uma creepy que ia postar hoje, mas lembrei do conselho de vocês sobre ir mais devagar rs.) 

(Ps:Obrigado pelos conselhos e quando forem ''brigar'' comigo tudo bem, já acostumei um pouco, mas sejam mais gentis com algumas pessoas nos comentários. Um menino postou uma creepy nos comentários e quase foi linchado rs, não estou aqui pra dar lição de moral, mas lembrem-se que sempre erramos e sempre estamos aprendendo na vida.)  

18/01/2018

Uma imagem na luz

Quando vejo os relâmpagos, eles dissolvem toda a minha razão, permitindo que medos primordiais percorram por meu corpo e minha mente. As luzes já estavam apagadas, e eu estava na cama, tentando forçar a inconsciência. 

Já havia passado da fase em que acreditava que fechar os olhos, virar para o lado oposto ao da janela e cobrir minha cabeça facilitaria que o sono viesse, e eu estava indefeso, direcionando minha visão para qualquer área que não estivesse completamente escura, esperando me sentir cansado o suficiente para ignorar minha ansiedade irracional. Mas era tudo demais para a minha mente. O vento fantasmagórico, a chuva que caía impiedosamente sobre minha casa e meu gramado, os trovões que pareciam dividir o céu numa cacofonia, e o pior de tudo, os relâmpagos que vinha segundos antes dos trovões e pintavam o meu quintal com uma estranha luz. 

Fui despertado do tipo de hipnose que a tempestade havia lançado em mim por um tipo diferente de relâmpago. Em minhas paredes ele parecia flashes irregulares de uma câmera no lado de fora, e não havia trovões acompanhando. Os relâmpagos normais pareciam ter sido afastados para dar espaço a eles. Olhei pela janela para ver o que estava produzido as luzes que iluminavam as paredes do meu quarto. 

Para minha surpresa, os relâmpagos não vinham do topo das árvores ou de trás das cercas altas, mas aparentemente, vinham do centro do meu quintal, era como se os relâmpagos dos quatro cantos do céu tivessem convergido num enorme globo de luz. 

Não, eles não estavam formando um globo. Estavam sendo emanados por ele. 

O conglomerado de luz relampejava em efeitos irregulares, mantendo perfeito silêncio. Era um rosa de outro mundo, como um tipo de rosa neon. Depois de um tempo ele se apagou, ficou escuro por tanto tempo que pensei que todo aquele terrível jogo de luzes tivesse acabado. Mas depois de alguns segundo ele retornou com dois flashes brilhantes, e pude discernir no interior do globo, tão claro quanto as palavras que você lê agora, uma silhueta humana. 

Depois disso a luz se foi. Os relâmpagos normais retornaram e suas luzes provaram que não havia mais nada em meu quintal. 

Minha mente procurou uma explicação pelo que eu tinha visto, e ainda não encontrou. 

Quando vejo relâmpagos, sempre me lembro daquela noite. Meu medo ainda continua ali, mas agora há um grande mistério acima disso. Em cada relâmpago que ilumina os céus, espero encontrar uma resposta. 

E temo que um dia eu realmente encontre. 

Floyd Pinkerton 

15/01/2018

CheckMate!

Cindy era uma menina de 7 anos que adorava correr pela casa usando seu vestido rosa, parecia uma princesa correndo de um lado para o outro. Seu pai Joe sempre dizia que princesas de verdade não precisavam de muitas riquezas para serem felizes. Joe era dono de algumas terras e também tinha alguns cavalos; mesmo tendo posses fazia questão de ensinar sua filha que coisas boas vêm de coisas simples, assim não cresceria valorizando somente o dinheiro. Para ele o dia era como uma semente que precisava ser regada todos os dias.

Quando sua esposa Rose faleceu, Cindy tinha apenas um ano de idade e ele sabia que uma figura feminina seria necessária na vida de sua filha. Foi durante uma visita em suas terras que ele conheceu Jessica, uma mulher muito simples que ajudava na criação de seus cavalos, educada e com um sorriso encantador que chamava a atenção de qualquer pessoa. A simpatia de Jessica conquistou Joe e em pouco tempo já estavam apaixonados um pelo outro; não demorou muito para ele convidar Jessica para morar em sua casa e ela aceitar. 

Jessica nunca teve família e sempre foi mais apegada aos bichos; sua tia a criou em meio ao 
campo e como trabalhava muito nunca teve tempo para dar atenção a ela, isso a tornou uma pessoa carente. 

Conforme o tempo foi passando se sentiu mais segura para assumir um papel de mãe na vida de Cindy, então tentava sempre agradá-la com bonecas, revistas para colorir e etc. Às vezes até encontrava os presentes na lata do lixo. Cindy não gostava de Jessica, mesmo que ela tentasse de todas as formas se aproximar mais. Todos os dias era uma tentativa nova de conquistar sua atenção, mas a menina nunca se importava e isso só causava frustração, nada parecia ser o suficiente, nenhuma ideia era boa o bastante. 

Faltavam alguns dias para Cindy completar oito anos, estava mais alegre do que nunca pulando pela casa toda. Sua madrasta parecia compartilhar de sua alegria, tanto que pediu a Joe para que a deixasse cuidar da decoração. Naquele dia passou horas na rua encomendando itens de decoração. 

 Passados alguns dias a festa estava pronta, uma decoração caprichada em detalhes com muitas cores e miniaturas de princesas da Disney. Cindy estava vivendo um sonho de princesa, as outras crianças estavam encantadas com a mesa cheia de doces e salgados, sem falar da enorme quantidade de balões cor de rosa que havia na festa; a caixa de presentes revestida com pelúcia branca ficou cheia em pouco tempo, as crianças pareciam famintas e não esperaram muito para atacar os doces. Era como estar em um clipe da Katy Perry e novamente ela estava usando seu vestido rosa favorito. 

Ao final da festa as crianças começaram a levar alguns balões para casa e Jessica parecia muito incomodada com aquilo, sua decoração estava sendo desfeita. Joe estava na saída distribuindo brindes para os convidados. Havia uma cortina de balões perto da mesa do bolo e Jessica perguntou se ela não iria estourar os balões. Jessica se deliciava com os brigadeiros em sua mesa, enquanto observava a menina caminhar em direção aos balões de gás inflamável que tinha encomendado especialmente para ela, mas na metade do caminho Cindy virou para trás e sorriu; um sorriso que conseguia ser diabólico e ao mesmo tempo angelical. Seus olhos estavam olhando fixamente para um lugar e não eram para os olhos de sua madrasta e sim para a mão esquerda dela que segurava um brigadeiro. Foi então que Jessica olhou para a mesa de doces e percebeu que os brigadeiros que estavam lá eram diferentes dos brigadeiros que estava comendo, eram mais escuros e opacos. 

Seus olhos se voltaram novamente para Cindy que dessa vez estava segurando um pequeno frasco de veneno de rato. Os balões não resistiram por muito tempo e começaram a explodir enquanto Jessica sentia sua respiração começar a falhar e a morte chegar. 

Autor: Andrey D. Menezes.

(Espero que tenham gostado, deixem comentários se for possível, a opinião sempre ajuda.) 

(Caro Youtuber credite o blog e o nome do autor caso faça uma narrativa, é importante.) 




13/01/2018

Vox e Rei Beau: Tudo ficou estranho (PARTE 8)



Tudo ficou estranho. Eu não consigo pensar em outro meio de dizer isso. Eu vou tentar descrever o que vem acontecendo da melhor maneira possível, e então vou contar mais histórias. Eu não sei mais se essas histórias são memórias que estou recuperando ou outra coisa. Toda vez que tento me lembrar, mais histórias aparecem. E, bem, podem haver muitas delas, porque nós estamos falando de uns 4 anos da minha vida, mas eu não sei mais dizer.

Enfim, acho que estou me adiantando. Deixe-me explicar o que aconteceu noite passada.

Meu amigo Chris veio pra cá depois de sua paralisia do sono. Eu contei tudo pra ele. As vozes, minhas idas ao terapeuta, o rádio, ver alguém em minha casa, tudo. A resposta dele, sendo o maconheiro que ele é, foi fumar um. Ele pensou que me ajudaria a relaxar, talvez dormir um pouco. Isso é embaraçoso de admitir, mas por ter sido criada por uma boa mãe cristã que reforçou a importância de nunca usar drogas, eu só fumei maconha umas duas vezes. Mas esses últimos dias têm sido tão complicados, e meu trabalho não faz testes para drogas mesmo, então eu pensei, por que não? Não é como se eu pudesse me machucar com isso.

Então é, eu ia terminar a história mas então eu fiquei chapada.

Nós ficamos sem fazer nada por algum tempo, então assistimos a um filme, comemos sanduíches, e provavelmente ambos acabamos dormindo. A próxima coisa de que me lembro é de acordar em minha sala. A TV estava ligada mas apenas mostrava estática, provavelmente porque nós estávamos mexendo no DVD. Chris estava dormindo na poltrona, então eu decidi levantar do sofá e ir direto para meu quarto. Eu desabei na cama e dormi novamente. Digo, aquela maconha era bem forte, mas eu acho que isso tinha mais a ver com o fato de que eu estava exausta. Depois disso, eu tive uma espécie de sonho.

Nesse sonho eu acordei porque eu senti alguém pegar minha mão. No começo eu não abri os olhos porque eu achei que era só o Chris sendo estúpido, mas lentamente eu percebi que os dedos eram gelados e ossudos e simplesmente… errados. Eu não sei como explicar. Era como se quem estivesse pegando minha mão nunca tivesse segurado uma mão antes e seus dedos estivessem segurando-a totalmente errado. Eu abri os olhos (no sonho) e lá estava ele.

Era o mesmo homem que eu tinha visto na beira da minha cama. Ele se ergueu sobre mim. Ele tinha a mesma pele albina, olhos leitosos, e cabelo branco. Ele sorriu para mim e seus lábios foram puxados para trás, mostrando linhas de dentes pontiagudos. Era como olhar para um crocodilo abrindo sua boca e simplesmente exibindo sua mandíbula. Agora eu me dou conta de por que eu não sabia se ele estava usando roupas ou armaduras. Suas vestes eram de cor preta, azul e cinza, mas feitas de estranhos troféus e prêmios completamente misturados em algo intricado e acho que quase nobre.

Eu estava assustada. Não posso mentir e dizer que não. Mas talvez a maconha ou apenas o meu estado sonolento fossem o que estava me impedindo de perder o controle. Digo, lá estava ele em toda sua glória horrível, assim como eu me lembrava. Eu nem mesmo removi minha mão da mão dele. Pensando bem, talvez parte de mim tenha se dado conta de que não importaria. Ele me possuía. Eu me lembrei, no entanto, de tudo que vocês vêm me dizendo. Eu perguntei, “Como eu posso saber que você é realmente Beau?”

Ele se curvou, embora o movimento não tenha sido humano de forma alguma. Era muito gracioso e havia uma curvatura muito suave. Ele colocou seu rosto perto do meu, olhando diretamente para mim com seus olhos leitosos, e eu juro que por um momento eu achei que ele fosse me cortar em vários pedaços ali mesmo. Mas ele se moveu para meu lado e pressionou sua cabeça contra minha têmpora direita, como um grande cachorro. Não era um movimento confortante no sentido tradicional, mas era quase afetuoso.

Ele disse, “Pequena Jeep.” Então ele emitiu mais um daqueles suspiros feitos de doze vozes diferentes.

Vocês talvez não saibam, mas os jipes SUV são nomeados por causa de um personagem do desenho do Popeye. Eugênio o Jeep Mágico era uma criatura mágica que tinha um “cérebro quadrimensional.” Ele podia atravessar paredes, teletransportar, todo tipo de coisa e ele sempre tinha que dizer a verdade. Ele também só comia orquídeas.

Aqui tem um link da Wikipédia sobre ele:
 https://pt.wikipedia.org/wiki/Eugênio_o_Jeep_Mágico

Quando eu era uma criança e visitava meus avós, eu assistia esses antigos desenhos do Popeye. Eugênio era meu personagem favorito de longe. Eu achava ele adorável, e eu amava todas suas habilidades especiais. Eu até mesmo corria pela casa dizendo “Jeep!” como ele fazia. Beau achava isso bizarro, mas ele tolerava e até mesmo me chamava de Pequena Jeep. Ninguém mais sabe que ele fazia isso. Até eu mesma havia me esquecido até que ele disse isso. Eu não sei se isso é suficiente para passar o teste de mais alguém, mas na hora foi bom o bastante para mim.

Eu olhei para ele e disse, “Mas você não é real. Você é apenas minha imaginação.”

Ele se ergueu novamente e continuou com seu sorriso maluco. Eu achei que ele fosse dizer algo, mas subitamente seu rosto mudou. Seus dentes continuavam à mostra, mas seus lábios se torceram em um esgar. Seus olhos viraram para trás e sua cabeça logo seguiu o mesmo caminho, com o queixo erguido como se ele estivesse olhando para o céu. Seu pescoço relaxou para o lado e seus olhos encararam a janela para nada que eu pudesse ver. O que eu vi foi o que saiu de sua boca.

Era uma espécie de alcatrão preto vazando por entre seus dentes. Não posso sequer descrever o fedor. Eu nunca senti um cheiro como aquele. Era como pura podridão e sangue velho e alface podre, mas isso nem mesmo começa a descrever. A pior parte foi quando eu percebi que estava engatinhando. A gosma começou a se separar em vermes gordos e gosmentos conforme se movia por seu queixo.

Eu disse algo estúpido, como “Quê?” ou “Beau?” porque nesse ponto eu não tinha idéia do que fazer o do que estava acontecendo. Além de nunca mais fumar maconha de novo, tudo que eu sabia era que eu estava completamente perdendo minha sanidade. Ele lentamente se virou para me encarar, e seus olhos, já arregalados, se abriram ainda mais, como se ele estivesse forçando para me ver.

“Vox.”

Quando ele falou seus lábios e boca não se moveram, mas os músculos em sua garganta ficaram tensos e a voz veio claramente dele – não de dentro da minha mente ou algo assim. Ele ia dizer algo mais, mas seu peito se contraiu em um espasmo e ele começou a vomitar os grossos vermes de alcatrão com forte, dolorosa náusea. Antes que aquela sopa pudesse tocar o chão, os vermes incharam e suas pernas cresceram. Demorei um minuto para perceber que eu estava encarando uma massa de besouros pretos. Eles zumbiam tão alto que eu pensei que meus ouvidos fossem sangrar. Eu podia ouvir meus dentes vibrando em meu crânio. Eu achei que meu cérebro fosse começar a pulsar e havia uma pressão em minha cabeça que se forçava contra meus olhos. Os besouros engatinharam por cima de Beau, mas eu comecei a ver estrelas. Eu não conseguia respirar e meu coração parecia que estava forçando com tudo para mandar sangue para meu cérebro. Não lembro de mais nada depois disso. Eu realmente apaguei.

Acordei com a pior boca seca que tive em toda minha vida e uma dor de cabeça pior que qualquer ressaca. Eu estava na cama, mas não havia nenhum poça de alcatrão ou evidência de que qualquer coisa tivesse acontecido. Meu amigo já tinha ido trabalhar. Quando eu tomei um pouco de Tylenol e me senti bem o bastante para funcionar como uma pessoa, eu liguei para ele e perguntei se ele notou algo estranho noite passada. Ele disse que não, que eu apenas fui para meu quarto e depois de algum tempo ele se deitou no sofá.

Depois disso meu terapeuta me ligou para dizer que meu plano havia aprovado minha tomografia e que ela está marcada para próxima quarta feira. Eu disse que isso é ótimo porque eu estou perdendo minha sanidade. Eu contei para ele sobre o sonho. Ele disse para eu não me preocupar. Essas coisas acontecem, especialmente se você for burro o bastante para usar drogas. Que isso sirva de lição para vocês. Então, é aí que estamos.

Há mais. Isso é tudo que aconteceu hoje até onde nós estamos agora. Desculpem-me, eu estou tentado dar qualquer informação relevante que eu possa ter na chance remota de que possa ser útil. Eu estou um pouco perdida agora. Esse pesadelo realmente mexeu comigo. Eu costumo ter sonhos vívidos, mas isso foi além do normal por muito.

(A propósito, no sonho Beau não disse “Vox.” Ele disse meu nome. Apenas lembrem de agora em diante que se o nome Vox for usado, é só um substituto para meu nome real.)

07/01/2018

Liporismo

Samantha economizou durante um ano e meio para realizar a tão sonhada lipoaspiração; seu sobrepeso tirava toda sua autoestima e isso acabava fazendo com que ela quase não saísse de casa. A maioria das mulheres aos 20 anos exibem corpos bonitos, é a famosa transição de menina para mulher. Desde a infância era uma criança gordinha, tinha apelidos no colégio e um pai que nunca dava atenção para seus problemas. Passou a direcionar seus sonhos então para a beleza já que era apenas o que importava para todos. 

Samantha trabalhou vendendo produtos pela internet como perfumes, maquiagens e cosméticos em geral, as vendas eram boas já que ela havia estudado bastante sobre marketing digital e vendas. Seu sonho era ser magra e fazer com que as pessoas prestassem mais atenção nela já que se sentia ignorada todos os dias com exceção de seu pai que fazia questão de fazer piadas com suas medidas.  

Em algumas de suas pesquisas Samantha encontrou uma clinica chamada: Beleza Viva. 

Essa clinica oferecia preços que se adequavam perfeitamente no seu orçamento; era a melhor opção encontrada naquele dia. Telefonou para o número que estava no site e a atendente lhe convidou para fazer uma visita, conhecer a estrutura e quem sabe agendar algum procedimento. A atendente lhe passou o endereço da clinica, que curiosamente ficava bem afastada da cidade de São Paulo, numa região com muitas árvores, mas no momento não pareceu nada errado visitar um local que pudesse ter uma linda vista e um pouco de ar puro. 

Dias depois Samantha ligou para Carlos um de seus poucos amigos e pediu para que ele a levasse de carro até Brotas (Interior de SP), ela disse a ele que iria fazer uns dias de Spa e que logo retornaria. 

Carlos. – É nesse casarão o spa?

Samantha. – A atendente me disse que essa clinica existe há muitos anos, deve ser uma das melhores. 

Carlos. – Qualquer coisa me liga tá?

Samantha . – Eu vou te ligar do telefone fixo daqui, eles não permitem o uso de celular. Faz parte do processo de relaxamento. 

Carlos. – Isso tá estranho, mas por favor me liga se precisar. 

Samantha. – Sim senhor! Haha tchau amigo.

Uma semana depois Samantha não retornou para casa e nem ligou para Carlos, logo seus amigos começaram perguntar sobre o seu paradeiro. Antônio Paulo era o pai de Samantha e numa busca por alguma pista ele encontrou o celular da filha desligado embaixo do travesseiro, talvez na ansiedade de realizar seu sonho ela tivesse esquecido o aparelho; fato que foi desmentido por Carlos durante uma visita. Carlos disse a ele que não era permitido levar celular para a clinica, fazia parte do processo de relaxamento. Antônio se mostrou surpreso e revelou que a filha disse que iria para uns dias de acampamento. Carlos saiu imediatamente e pegou seu carro, começou a seguir em direção a Brotas para ver o que estava acontecendo lá. Quase 4 horas depois de seguir pela estrada chega até seu destino. O interfone é tocado várias vezes por ele, mas ninguém responde. Sua ansiedade começava a virar desespero e numa atitude de impulso resolveu escalar o portão. 

Ninguém parecia se importar com sua invasão, até mesmo porque ao olhar pela janela da entrada percebeu que o lugar estava vazio, não havia nada lá dentro. Ao se aproximar dos fundos do casarão um cheiro forte parecia sair de um antigo galpão. Samantha foi encontrada morta pelo seu melhor amigo completamente despida e pálida, mas o que chamava mais atenção eram as perfurações extremamente profundas em seu corpo, seus olhos arregalados ainda pareciam vivos como se o medo ainda estivesse presente em seu corpo.   

A policia foi acionada e o corpo levado para o Instituto Médico Legal. Cerca de uma semana depois o laudo revelou a causa da morte de Samantha: Hemorragia. O mais assustador é que durante a investigação no local não foi encontrada nenhuma gota de sangue, nem mesmo rastros. O laudo revelou ainda que as marcas das perfurações não foram causadas por objetos metálicos ou mordidas de animais; o médico legista disse que em quase 30 anos de profissão nunca tinha visto nada parecido. 

O que aconteceu com ela e quem a matou são perguntas que permanecem sem respostas.

Seria algum tipo de erro médico? Ou talvez algo mais obscuro? 

Autor: Andrey D. Menezes. 

(Ballet vai sair só domingo que vem porque estou fazendo mais devagar como prometido haha.) 

(Escrevi essa creepy depois de ver uns eps de Linha Direta haha, espero que tenha ficado legal pra vocês.) 


06/01/2018

Vox e Rei Beau: Fuzzy/Barulho na cozinha (PARTE 7)


Eu não tenho idéia do quão real isso é. Essa memória tem a mesma qualidade das sessões de sonambulismo, então isso podia perfeitamente ter sido inventado por minha mente jovem.

Quando eu era pequena, nós tínhamos um gato gordo e laranja chamado Fuzzy. Eu e ele não nos dávamos muito bem porque ele não gostava de aturar brincadeiras de garotinhas curiosas, mas eu gostava dele porque ele era nosso animal de estimação. Um dia, depois de uma dessas sessões de sonambulismo, eu estava brincando com o Fuzzy e provavelmente usei de muita força ou algo assim, porque ele me mordeu e fugiu. Não foi uma mordida forte e mal arranhou minha pele, mas me assustou e eu chorei.

Isso, aparentemente, não deixou Beau muito feliz. Naquela noite, eu lembro de acordar ouvindo ele chamar meu nome. Muitas de minhas memórias de Beau são mais de sua voz que de qualquer outra coisa, ou de sua face meio que flutuando na escuridão. Nessa noite ele estava bloqueando a janela do meu quarto e inclinado para sorrir de orelha a orelha pra mim. É uma imagem mental um tanto quanto perturbadora, e se eu realmente imaginei isso quando criança, não entendo como eu não pude estar assustada na hora.

Beau me disse para observar algo. Ele parecia muito animado. Seus dedos esbarraram em minha mão e ele disse, “Eu usarei os dentes desse gato em minha coroa.” Então ele voltou para a janela e me chamou. Ele não disse em voz alta, mas eu sabia, da maneira que você simplesmente sabe as coisas com um amigo imaginário e em sonhos, que ele queria me mostrar como um caçador trabalhava.

Eu passei por Beau e olhei para a minha janela. Meu quarto tinha uma vista para o quintal. Era um gramado normal com algumas árvores e um balanço, fechado por uma cerca. A cena inteira estava silenciosa e banhada pela luz da lua, dando uma aparência sombria e de outro mundo. Conforme eu observava, eu vi uma pequena forma entrar no quintal e eu me dei conta que era Fuzzy. Eu estava tão focada em observar ele que não me dei conta que Beau havia saído do meu quarto até que vi outra figura no gramado.

Não era nada além de uma mancha escura. Eu só posso descrever como uma falta de luz. Fuzzy notou imediatamente e se virou para encará-la. A mancha se aproximou dele e eu ouvi aquele miado de alerta que os gatos costumam emitir. Mesmo que seu nome fosse estúpido, Fuzzy era um grande gato. Ele não era de fugir de lutas e era um desses gatos que forçavam os carros a desacelerar para ele. A sombra não parecia assustada, no entanto. Fuzzy silvou e emitiu um grito terrível antes de sumir. A sombra seguiu seus passos, mesmo quando ele pulou a cerca para longe da vista.

Tentei ver para onde eles tinham ido, mas não estavam em nenhum lugar onde a vista alcançasse. Na distância eu ouvi o que parecia como uma terrível luta de gatos. Vocês que já ouviram uma provavelmente sabem o quanto gatos, quando estão lutando, parecem matar um aos outros e um monte de bebês. É realmente terrível, algo que te leva a ranger os dentes de nervoso em alguns casos. Essa era particularmente feroz, mas eu só ouvia um gato. Provavelmente Fuzzy.

Na manhã seguinte eu desci as escadas e perguntei a minha mãe onde Fuzzy estava. Ela disse que não tinha visto ele, mas tinha certeza que ele apareceria. Como a maioria dos gatos, ele provavelmente estava passeando, mas sempre voltaria para casa atrás de comida.

Fuzzy realmente voltou pra casa, mas ele só chegou à extremidade de nosso jardim e não conseguiu passar pela cerca. Minha mãe disse que ele foi atacado e culpou os vira-latas da rua. É óbvio que ela não me deixou ver o corpo dele, e nós o enterramos em uma caixa de sapatos sob uma árvore. Ela provavelmente estava certa e eu provavelmente sonhei a cena só de ouvir a luta lá fora. Ainda assim, eu lembrava o que Beau havia dito.

Essa foi a primeira vez que eu odiei Beau, eu acho.

Ah, e para vocês que não estão familiares com meu último tópico, a razão, mais que qualquer outra, pela qual essas histórias me assustam, é que eu voltei a ser sonâmbula. Meu apartamento não é muito grande, no entanto, então minhas jornadas se limitam às cadeiras da sala e o tapete da cozinha.

Eu contaria isso à minha mãe, mas eu não quero que ela pense que eu estou ficando maluca. Eu não quero ficar maluca, e eu não sei como vou dizer a ela que estou ouvindo vozes e indo a um terapeuta. Além do mais, a resposta dela provavelmente seria para eu ir a uma igreja e rezar. É meio que sua resposta padrão para tudo.

Barulho na cozinha

Já volto.

ANON: Pergunta: O que você faria se descobrisse que Beau é real?

Eu realmente não sei. Eu não sei mesmo. Eu acho que é por isso que eu estou aqui em vez de ir apenas pra terapia. Estou completamente pronta para aceitar que estou ficando maluca ou que eu tenho um tumor. Eu fui criada por uma doutora, e eu tenho fé na medicina moderna e na ciência.

Por outro lado, eu sei que vi alguma coisa noite passada. Eu sei disso. O homem em meu quarto estava lá. O som que eu ouvi estava lá. Para mim, tudo existiu fora de minha cabeça, mais do que qualquer outra coisa que eu passei. Minha mãe sabe que me viu engatinhar como uma maldita aranha para seu quarto. Algo aconteceu com meu gato. Talvez é assim que pessoas malucas se sentem, e talvez nós terminemos descobrindo que eu estou ficando maluca. Mas se isso é real, eu não sei o que fazer.

Me desculpem. Acabei de desligar o telefone. Era meu amigo, o que veio aqui noite passada e me ajudou a vasculhar meu apartamento depois que eu vi o homem. Aparentemente ele acabou de acordar de um episódio de paralisia do sono. Ele abriu os olhos e achou que tinha ouvido vozes em seu quarto. Como muitas paralisias do sono, ele não conseguiu se mover e viu uma figura sombria observá-lo aos pés da cama. Ele não sabe quanto tempo isso durou, mas a figura sumiu e ele acordou de vez, correndo para fora do quarto.

Eu não lhe falei o que vem acontecendo, só que eu achei ter visto alguém em meu apartamento noite passada. Ele está assustado porque nunca teve uma experiência como essa, então ele provavelmente virá para cá pra relaxar em meu sofá. A essa altura, eu estou tão cansada dessas coincidências e tão cansada de estar sozinha nisso que eu provavelmente vou contar tudo a ele.