17/05/2018

Distopia: Episódio 2 (Preview e Avisos)

Perdeu a primeira parte da história? Clique aqui e leia agora: https://goo.gl/mP6v8G

Episódio 2 - Poderia ser Real?

- E então? Tá nervoso? - perguntou minha mãe, dois segundos depois de estacionar o carro.

- Nervoso? - retruquei, confuso.

- É o seu primeiro dia de aula. - começou a explicar. - Escola nova... Ensino-Médio... Não tá nem um pouquinho nervoso?

Permaneci encarando-a, estático. Não tinha certeza se entendia o que ela estava dizendo.

- Eu me lembro do meu primeiro dia de aula do ensino-médio como se fosse ontem. - gargalhou. - Pergunte para sua vó qualquer dia desses. Eu quase pirei de nervoso!

Perguntar a vovó? Mas ela não está morta?

- Se ela não estivesse lá, eu teria dado meia volta e ido para casa, com certeza! - disse ela ao vento. Pude sentir o pesar em sua voz.

Ela é mesmo minha mãe? Seu rosto é familiar, mas não sinto como se a conhecesse.

Eu sabia que deveria dizer alguma coisa, mas não conseguia pensar em nada. Tudo o que eu queria era sair do carro e me livrar daquela sufocante e incomoda sensação.

- Eu preciso ir agora, mãe... - disse eu finalmente.

- Fica mais um pouco. - pediu ela de um jeito triste.

Um silêncio desconcertante se iniciou a partir dali e se manteve até que minha mãe achou que seria uma boa ideia ligar o rádio.

O som agudo e inconstante como milhares de unhas arranhando um quadro negro das estações sendo trocadas me causou uma agonia que jamais havia experimentado antes.

"...Acho..." - ouvi a voz de um homem idoso.
"...Que talvez..." - a de uma mulher.
"...Se..." - talvez um garotinho.
"...Ja..." - várias crianças ao mesmo tempo.
"...Melhor..." - a voz grave de um homem
"...Correr..." - uma voz séria e distorcida.

Engoli em seco. Eu devia estar ouvindo coisas.

Quando minha mãe finalmente encontrou a estação que parecia estar procurando, ela levou seus olhos aos meus de forma estranha e disse:

- Eu te amo, filho.

Pude sentir meu cenho franzir e uma tensão me invadir na mesma hora.

- Eu também te amo, mãe... - me forcei a dizer.

Meu desconforto era surreal. E a música que começou a tocar no rádio deixou tudo ainda mais perturbador do que já estava. Minha mãe nunca ouviria algo assim.

The Vogues - Turn Around, Look At Me.

"Há alguém andando atras de você..."

- Eu sei, meu amor. - disse ela, com um grande sorriso estampado no rosto. - Melhor você ir agora. Não vai querer se atrasar no seu primeiro dia, não é, A...?

"A". Foi a única letra do meu nome que ela conseguiu pronunciar antes de travar como um vídeo rodando em uma internet ruim.

- Mãe?

"...Vire-se, olhe para mim..."

- Mãe?!

Passei rapidamente as mãos em frente aos olhos dela, mas ela não esboçou nenhuma reação.

- Meu Deus...

Apavorado, peguei o celular em meu bolso, procurei pelo contato do meu pai e abri sua janela. Mas antes que eu pudesse digitar alguma coisa, uma mensagem dele chegou:

"Corra!"

Senti meu coração explodir dentro do peito, um frio tão intenso quanto o de Moscou subir minha espinha e minhas mãos estremecerem de forma tão inconsciente e bruta que meu celular voou direto para o chão do carro.

Levei meus olhos à minha mãe com cautela, e no momento em que meus olhos se encontraram com os dela, senti que havia alguma coisa diferente.

- Mãe, você tá bem?! - perguntei, com medo de que houvesse alguma resposta. - Mãe?

O que estava diferente? Sua postura? Seu cabelo? Talvez seus olhos?

Não...

Era o sorriso dela. Não era mais o sorriso acolhedor de uma mãe, era um sorriso tétrico; inexpressivo; sombrio, como uma Monalisa planejando o assassinato de Da Vinci enquanto do interior do quadro o observa dormir.

"...Hááá... aaalguééém... veeendooo... ossss... seeeeuuus... paaassooosss..."

Quando me dei conta, a música havia se tornado arrastada; distorcida; mais alta. Era como uma canção de ninar cantada pelo diabo.

"...Dêêê... aaaa... voooltaaaa..."

Com os olhos presos nela, levei cautelosamente minha mão esquerda à maçaneta da porta do carro e a puxei, mas nada aconteceu.

"... Olheee paaaraaa miiiim..."

A maçaneta parecia uma mera ilustração não interativa no carro. Puxei, puxei e puxei com toda a força que tinha, mas ela nem se quer se mexeu.

"...Hááá aaalguééém queee reeeaaalmeeenteee preeeciiisaaa deee vooocêê..."

Minha respiração acelerou, meus olhos arderam em brasa e uma súbita tempestade se iniciou nas nuvens cinzentas que eram meus olhos.

"... Aquiiii eeestoooouuu, cooom ooo coooraaaçããããooo naaa mããããooo..."

- Socorro! - comecei a gritar. Último recurso do desespero, eu acho. - Alguém me ajuda, por favor!



"... Viiireee-seee (viiireee-seee), OOOlheeee paaraaa miiim, (OOOlheee paaaraaa miiim)..."

- Tem alguém ai fora?! Por favor, me ajuda! Socorro!

"...EEEnteeendaaa... EEEnteeendaaa...."

Gritei por um bom tempo antes de finalmente me convencer de que não havia ninguém lá fora para me ouvir ou ajudar.

- Respira fundo, Adam... - sussurrei para mim mesmo. - Não surta...

"...Hááá aaalguééém queee aaapaaareeeceeerááá aaaooo seeeuuu laaadoo..."

Espiei o cenário que as janelas do carro me permitiam ver, e só então me dei conta de que a vida lá fora estava tão congelada quanto a vida dentro do carro.

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

As árvores estavam turvas como vultos; as folhas planavam imóveis sobre o céu avermelhado; os carros permaneciam parados na rua como assombrações em fotografias antigas; e as pessoas eram como monumentos de cera expostos à céu aberto. Era como se o planeta tivesse simplesmente parado de girar.

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

De repente, a música agarrou, passando a repetir várias e várias vezes o mesmo trecho.

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

- Para com isso, mas que inferno! - gritei, golpeando o rádio do carro com os pés várias e várias vezes.

Depois de cinco ou seis chutes, o rádio finalmente desligou, dando lugar a um silêncio ensurdecedor.

Suspirei, aliviado. Fechei os olhos e recostei a cabeça no banco por um breve momento.

- O que eu faço agora? - pensei alto.

"... Vire-se, olhe para mim, Adam..."

Não era a música desta vez. Pude sentir o ar quente e o ruído incontínuo - que mais parecia o respirar de um fumante à beira da morte - adentrar meu ouvido direito no momento em que as palavras foram sussurradas.

Tremula e cautelosamente virei-me para a figura ao meu lado. Pude ouvir o som agudo e inconstante idêntico ao de milhares de unhas arranhando um quadro negro tocar no rádio no exato momento em que meus olhos se encontraram com os da coisa.

"As árvores não estavam mais turvas
As folhas haviam chego ao chão
Os carros haviam partido
E a coisa ao meu lado agora tinha o meu coração"

Recitou o que parecia um coral de crianças na estação que havia parado.

- M-Mãe?!

- OLHE PARA MIM, ADAM!

1 de Janeiro de 2025

- Adam! - Ouvi a voz de alguém gritar ao mesmo tempo em que senti meu corpo sacudir.

Abri os olhos abruptamente, e de forma brusca me afastei das mãos que me tocavam.

- Calma, filho! - disse minha mãe, pegando-me pelos ombros, tão assustada quanto eu. - Você tá bem?

- Nossa, mãe! - disse eu, tão rude quanto o bater de meu coração.

- Levou um susto, foi? - gargalhou.

- Só pega leve da próxima vez... - suspirei. - Sem gritos.

- Eu tentei, né... - começou a explicar. - Mas seu sono estava tão pesado que por um momento achei que estivesse morto.

- Estou vivíssimo. - assegurei. - Posso voltar a dormir?

Ela franziu o cenho.

- Você não bebeu ontem, não é?

- Ontem? - indaguei, confuso.

- É, na tal festa de Ano Novo que você foi com o Zack.

- Ah, é... A festa! - dei um tapa na minha testa, e lancei à ela um sorriso. - Não, claro que não, mãe.

- Tem certeza? - perguntou, tão séria que fez minha espinha gelar.

- Tenho, mãe. - revirei os olhos. - Acha mesmo que eu sou esse tipo de pessoa?

- Então você não é esse tipo de pessoa? - seu tom de voz idêntico ao de Rochelle de Todo Mundo Odeia o Chris.

- Não. - respondi, com firmeza.

- Então que merda é aquela ali, Adam?! - esbravejou, apontando o indicador para o pé da minha cama.

Reclinei-me exitante na direção de seu dedo, e...

Que merda..., pensei.

Havia uma gigantesca poça de vômito ao pé da minha cama e milhares de partículas esverdeadas por todo o resto do cômodo. Era como se eu tivesse literalmente explodido na noite anterior.

- Mentir para mentiroso?! Sério, Adam?!

E assim se iniciou a primeira sessão de esporro da minha vida.

- Sabe quem vai ter que limpar essa merda toda, pendejo?! Pois é! Sou eu, hijo de puta!

- Eu po...

- Nem. Pense. Em. Abrir. A. Boca. Adam! - me interrompeu ela, antes mesmo que eu pudesse assegura-la de que EU limparia tudo.

- Mãe, eu...

- Só... - suspirou. - Só me diz que não esqueceu da sua entrevista, por favor.

- Ai meu Deus... - senti cada centímetro de meu corpo arrepiar. - Que horas são?!

- Seis e meia, Adam! - respondeu imediatamente, furiosa. - Você não é mais criança, meu filho! Tem que começar a se virar sozinho. E se eu não tivesse te acordado? E ai? Como iria ser? Me diz, Adam! Você iria perder a entrevista! iria perder a maior oportunidade da sua vida de ser o que sempre quis ser. E por causa de que?! De bobeira! Porra, toma juízo, cara! Eu não vou tá aqui para sempre não!

Pensei em responder ao discurso de "mãe em fúria" dela por achar que ele não condizia nem um pouco com o tipo de filho que eu era na maior parte do tempo, mas cheguei a conclusão de que era melhor engolir as palavras que decolaram até a garganta e deixar para lá.

- Desculpa, mãe... - disse finalmente, fitando minhas mãos para não encara-la. - Não vai acontecer de novo. - levei meus olhos aos dela com muita coragem. - Prometo.

- Ótimo. - disse ela, forçando um sorriso. - Agora vá se arrumar e tomar café. Assim que terminar de limpar essa bagunça eu desço para te levar para a entrevista.

- Tudo bem...

Levantei-me da cama e caminhei até a saída do quarto me sentindo o cara mais babaca do universo. Era engraçado como minha mãe dominava a arte de me fazer sentir a pior pessoa do mundo por vacilar com ela.

- Não está esquecendo de nada? - perguntou ela, assim que cruzei a porta do quarto.

Dei meia volta, adentrei o quarto, e de cara me deparei com o terno que havia separado para usar na entrevista apoiado na cadeira do computador.

- O que seria de mim sem você, né, mãe?

Peguei o terno, dei um beijo na bochecha dela, saí do quarto, e ligeiramente desci as escadas que levavam ao primeiro andar.

- Bom dia, Jarvis! Bom dia, Floki!

Jarvis, que na verdade se chamava T-83 antes da minha mãe alugar os filmes do Homem de Ferro, era um robô faz-tudo que meu pai construiu para ajudar a mim e a minha mãe durante o tempo em que ele viveria na Inglaterra para "fins científicos", como ele mesmo descreveu. No entanto, não muito tempo depois que ele partiu, descobri que na verdade eles tinham era se divorciado. E adivinha quem me contou? Pois é, o Jarvis. Eu e meu pai só conversamos por Skype desde então.

Floki era o meu cachorro, e assim como Jarvis, era mais uma obra tecnológica do meu pai, que além de ser alérgico a cachorros de verdade, acreditava que eu não estava pronto para correr o risco de ter o coração partido por um animal de estimação mortal. Irônico, não?

- Bom dia, senhor Miller! - respondeu Jarvis. - Parece que o grande dia chegou, não é mesmo?

- Pois é, Jarvis! - disse eu, enquanto acariciava a carcaça de metal de Floki. - Finalmente!

- Não esqueça de se hidratar antes da entrevista. - aconselhou Jarvis. - Preparei alguns biscoitos para você. - notificou em seguida, tirando um tabuleiro do forno, e servindo os biscoitos em um prato de vidro branco.

- O meu favorito! - exclamei, sentando-me à mesa e pegando um biscoito.

- Esse mesmo! - respondeu.

- Já disse que você é o melhor, J-J?

- O tempo todo!

Sorri para ele.

- Sorrindo de volta. - informou Jarvis. Ele sempre descrevia em palavras suas reações físicas por incapacidade de demonstra-las fisicamente.

- Eu sei, amigão! - lancei à ele uma piscadela. - Pode pegar um pouco de leite para mim? E ligar a TV, por favor?

- É para já, senhor! - disse, ligando a TV, e caminhando em direção à geladeira em seguida.

"Mesmo depois de terem se passado quatro anos, o curioso caso do "viajante do tempo", Desmond Greene, ainda intriga as autoridades. - disse Castiel MacWilliams, o apresentador do noticiário da manhã."

"Nova York nunca esquecerá o que aconteceu naquela noite. Uma tragédia! - disse Grant Graham, o policial responsável pelo caso "Greene"."

"O senhor acredita que ele estava dizendo a verdade? - perguntou MacWilliams à Graham."

"Olha, é difícil dizer. Foi tudo uma grande loucura, sabe? Mas segundo o que temos, tudo indica que sim. - respondeu Graham."

"Ouviram isso? Que loucura! E é verdade que o corpo do Desmond e do homem na cabana são fisicamente idênticos?"

- Aqui está, senhor. - disse Jarvis, posicionando um copo de vidro ao lado do prato de biscoitos, e despejando o leite dentro dele logo depois.

- Valeu, J-J! - disse eu, sem tirar os olhos da TV. - Você é o melhor!

- Lançando ao senhor uma piscadela. - notificou, e afastou-se em direção ao sofá, onde passava a maior parte do tempo ou em Stand By ou assistindo Masterchef.

"Sim, é verdade. Segundo os testes feitos com o DNA do garotinho, do Desmond e do corpo que encontramos na cabana, sim, são a mesma pessoa. Como isso é possível? Não faço a menor ideia."

"E quanto a causa da morte do homem? Suicídio ou assassinato?"

"Tá ai uma coisa que ainda não sabemos."

"O que o senhor acha que ele quis dizer com aquela frase que, literalmente da noite para o dia, se tornou viral em todas as redes sociais populares?"

""Eu sou a consequência não calculada de suas invenções do futuro..." ?" - perguntou Graham."

""...Não inventem máquinas do tempo!" - completou MacWilliams. - Essa mesmo!"

"Eu não faço ideia, mas talvez não devêssemos mesmo inventar máquinas do tempo. - brincou Graham."

"É verdade! - MacWilliams gargalhou. - Mais detalhes sobre o caso Greene serão divulgados após os comerciais! Nos vemos já, já! - anunciou."

Peguei meu celular em meu bolso, procurei pelo contato do Zack, e enviei uma mensagem para ele. Zack era tanto meu melhor amigo, quanto era louco por tudo o que tivesse relação com viagem no tempo.

"Viu que estão falando sobre o Greene no noticiário do canal quatro?" - perguntei.

Bom, primeiramente, deixe-me explicar a razão desta mensagem: Em 2021, quando aconteceu a coisa toda do "Caso Greene", e os noticiários da TV e as pessoas da internet não paravam de falar sobre o quão misteriosa era a história toda, Zack, como o louco que já era pelo assunto, agoniado pela falta de respostas por parte da mídia e movido pelo sonho de ser o herói de uma pátria, se sentiu na obrigação de começar suas próprias investigações e teorias sobre o caso "para o seu bem e do mundo".

Por mais incrível que possa parecer, ele realmente descobriu muita coisa que os grandes meios de comunicação não conseguiram. Ele até chegou a ganhar uma grana preta vendendo as informações que conseguia para jornais locais da época.

"O que você acha, Bro?" - respondeu alguns minutos depois. "Não disseram nada que eu já não soubesse."

"As vezes eu me esqueço da vadia que você é quando se trata de viajantes do tempo."

"História assim eu chupo até a última gota *cara de lua*"

O grande problema do romance entre Zack e o "Caso Greene", foi que a cada nova descoberta que ele fazia, o nível de obsessão dele pelo cara e por tudo o que estivesse relacionado à ele só aumentava, chegando à um nível em que frases como:

"Cara, você precisa assistir a trilogia "De Volta Para o Futuro", é incrível."

Se tornaram:

"Mano do céu, você precisa ler sobre o "Caso Greene", é fantástico!".

E mensagens como:

"Vamos ao cinema assistir o novo filme dos Vingadores?"

Se tornaram:

"Vamos ir interrogar um garotinho que estudou com o Desmond?"

Acredito que não seja um equívoco dizer que Desmond Greene era para ele o que Justin Bieber costumava ser para as garotas virgens e retardadas de 2011.

"Risos" - disse eu

"A propósito, já estou saindo de casa. Não se atrase. Fui-me!" - disse ele por fim.

Eu teria avisado que iria me atrasar (e muito) se ele não fosse tão apressado.

"Okay." - respondi.

Comi o último biscoito, matei o leite no copo, pus as louças na pia, e...

- Bom, só falta tomar banho e escovar os dentes. - pensei alto.

Então, foi o que fiz.

[...]

- Mãe, tô pronto! - gritei do pé da escada.

- Tá bom, já tô indo! - gritou de volta.

Caminhei até o sofá e sentei-me ao lado de Jarvis, que parecia estar no décimo sono.

- Jarvis? Tá acordado?

- Sim, senhor. Apenas descansando meus scanners. - respondeu ele, de forma grogue e quase inaudível.

Gargalhei.

- Deita aqui. - disse eu, e ele começou a tombar lentamente para o lado, pousando sua cabeça em minha coxa direita.

"Rouw!"

Floki surgiu de trás da poltrona próxima ao sofá em que estávamos, e com a cabeça inclinada para a direita, passou a nos encarar.

- Vem cá, garoto! - disse eu para ele, que imediatamente saltou para cima da minha coxa esquerda. - Vou sentir muito a falta de vocês quando eu começar a faculdade, caras. - confessei.

"Ownn"

Floki ronronou, e afundou a cabecinha de metal em meu peito.

- Tem fornos no Senhor, biscoito. - murmurou Jarvis.

- Eu amo vocês. - sussurrei.

Um pouco mais de cinco minutos depois, minha mãe desceu as escadas e caminhou até nós. Já não vestia mais as mesmas roupas de quando me acordara, nem se quer carregava mais consigo a expressão de desapontamento que raramente era vista por meus olhos. Aquela mulher era a minha mãe, com certeza. E eu nunca a tinha visto tão radiante quanto naquele momento.

- Vamos? - perguntou ela.

- Vamos!

[...]

"...Quem vai contar a história da sua vida?..."
"...E quem vai se lembrar do seu último adeus?..."
"..Porque é o fim e eu não tenho medo..."
"...Eu não tenho medo de morrer..."

Quando o refrão de "In The End" da banda "Black Veil Brides" começou a tocar nas profundezas do bolso da minha calça, eu já sabia quem estava ligando.

- Mano do céu! - exclamou Zack, sua voz transmitia desespero e indignação. - Cadê você?! Já tô aqui na porta faz dez minutos e nada da banheira da sua mãe aparecer no estacionamento!

- Banheira é o rabo dele. - disse minha mãe, forçando seriedade.

- Banheira é o seu rabo, parceiro. - disse eu.

- Como é que é?

- Palavras da minha mãe.

- Tá no viva voz? - perguntou ele, constrangido. - Mano do céu!

- Não, relaxa! - respondi. - Mas acho deveria começar a prestar atenção no quão alto está falando. - gargalhei.

- Ah... Faz sentido. - murmurou. - A propósito, como vai, senhora Miller?

- Eu vou bem, senhor Oliveira! - respondeu minha mãe, aproximando a boca do celular que estava em meu ouvido. - E você, como vai?

- Se esquecermos que estou puto com o seu filho e a falta de pontualidade dele, eu estou ótimo! - respondeu Zack. - Pode me contar: ele nasceu de vinte meses, não foi?

Minha mãe riu.

- Olha a boca, senhor Oliveira! - advertiu-o.

Minha mãe odiava palavrões, o que era engraçado, já que ela os declamava o tempo todo.

- Pois é, olha a boca, senhor Oliveira! - disse eu. - E a culpa do atraso não é minha, é da minha motorista aqui.

- A culpa é dele sim! - minha mãe começou a dizer. - Se esse pendejo aqui não tivesse sujado o quarto todo de vômito, já teríamos chego ai há muito tempo!

- "Eu cunheçu us beus limitis"; "Ninca pissei mal cum bibidã". - Zack começou a recitar frases ditas por mim na noite anterior em tom de deboche. - Muito vacilão!

Revirei os olhos.

- Há uma primeira vez para tudo na vida.

Nesse momento, minha mãe dobrou à direita e adentrou o extenso estacionamento, do enorme campus, da gigantesca Universidade Google que, como havia descrito Zack na noite anterior, parecia uma versão urbanizada e moderna do castelo de Hogwarts.

- É mais bonito pessoalmente que nas fotos. - disse minha mãe, enquanto procurava uma vaga no estacionamento.

- Tô vendo vocês! - disse Zack, empolgado, acenando loucamente com as duas mãos na frente do prédio principal.

- Esse Isaac é uma figura mesmo. - comentou minha mãe.

- Pois é... - sorri.

- E depois de... - minha mãe conferiu o relógio. -...quatro horas de viagem, cá estamos!

Três horas e cinquenta e sete minutos, na verdade. Sendo três horas e meia do Queens até Cambridge, e vinte e sete minutos de Cambridge para a universidade.

- Cá estamos! - sorri.

- E então? Tá nervoso? - perguntou ela.

Senti uma pontada em meu coração. Déjà vu.

- Nervoso? - retruquei, confuso.

- É... É a sua tão esperada entrevista, filho! - começou a explicar, transmitindo certa fascinação em sua voz. - Se passar, o que tenho certeza que vai, estará em uma escola nova; conhecerá pessoas novas; fará coisas novas; viverá uma vida nova. Não tá nem um pouquinho nervoso por isso?

Permaneci encarando-a, estático. Ela riu.

- Sabe, eu me lembro do meu primeiro dia de aula na faculdade como se fosse ontem. - começou a dizer. - Eu achei que fosse ter um surto de tão nervosa que eu estava.

Sorri para ela.

- Sua vó saberia o que dizer em um momento como esse. Sabe disso, né? Ela sempre sabia...

Vovó morreu tem exatos quarenta e cinco dias e quatorze horas.

- Se ela não estivesse lá, digo, na faculdade comigo, eu teria dado meia volta e ido para casa, com certeza!

Gargalhei.

Minha mãe sempre contava histórias assim quando nós estávamos prestes a viver momentos semelhantes aos que ela viveu com a vovó quando jovem.

Com um sorriso meio contente e meio triste, ela levou seus olhos aos meus e disse:

- Eu te amo, filho!

- Eu também te amo, mãe. - disse eu, abraçando-a em seguida.

Ela é minha mãe, com certeza.

- Tá tudo bem mesmo?

- Sim, sim... - respondi, de forma sincera. - Como pôde ver, aquele doido ali vai estar comigo. - Apontei para Zack, que estava impaciente, andando de um lado para o outro nas escadarias da universidade. - Tá, será uma vida nova, mas e dai? A companhia é mais velha que a senhora! - Ela riu. - E isso significa que, no fim das contas, serão os velhos tempos em novos tempos, entende?

Um acolhedor e orgulhoso sorriso de mãe se abriu em seu rosto.

- Entendo sim, meu filho... - seus olhos marejaram. - Vai lá e arrasa!

- Pode deixar! - assegurei, lançando à ela uma piscadela, e saindo do carro em seguida.

"Vai dar tudo certo... Vai dar tudo certo... Vai dar tudo certo...", sussurrei para mim mesmo durante todo o percurso até Zack.

- Aleluia! - comemorou ele, aproximando-se com a mão estendida para o nosso toca aqui personalizado.

- Antes tarde do que nunca, não é? - disse eu, depois do toca aqui.

- Nesse pique! - gargalhou.

- Já foi lá dentro? - perguntei, transparecendo meu nervosismo.

- Ainda não... - respondeu. - Não iria fazer isso sem você.

- Abriu mão dos possíveis melhores assentos de Cambridge para ficar aqui em pé me esperando?

- Mas é claro, Bro. - assentiu. - Não queria trair o momento que visualizei em minha cabeça nas milhares de vezes em que pensei neste dia. E além disso, quatro horas sentado no carro já foi o bastante.

Segurei o riso. Zack tinha uma engraçada mania de dramatizar de forma cinematográfica todos os momentos importantes da sua vida.

- Três horas e cinquenta e sete minutos. - corrigi.

Ele revirou os olhos, e disse:

- Você deveria começar a usar essa sua pontualidade com números para chegar na hora marcada.

Gargalhei.

- E como visualizou? A coisa toda? - perguntei finalmente.

- Achei que nem fosse perguntar. - sorriu, aliviado. - Bom... - pigarreou. - Nós dois atravessando aquela maldita porta automática ali, - ele apontou para a entrada do prédio. - como os caras mais descolados do universo. - firmou, todo monumental. - Imagina tudo em câmera lenta, beleza? - pediu, cortando todo o tom majestoso da última frase.

- Imaginando em câmera lenta. - disse eu, mais um vez segurando o riso.

- Agora imagina a música tema dos "Anjos da Lei" tocando no fundo.

- Imaginando...

Então ele pigarreou de novo, e continuou:

- E aí... BANG!... Um monte de pombas brancas voando atrás da gente! - disse, fazendo um gesto abrangente com as mãos, e estranhos sons com a boca, que deduzi serem onomatopeias de explosão e fumaça subindo. - Seria descolado para caramba!

- Bom, cara... Não temos pombas... - disse eu. - Nem um rádio...

- Nem somos descolados, mas e dai? - gargalhou.

- Claro que somos! - retruquei, de forma irônica.

- É, pois é... - disse ele, lançando-me uma piscadela.

- E a propósito, eu peguei a referência.

- É por isso que você é o meu melhor amigo, cara!

Gargalhei.

- Mas e ai? Você veio sozinho? - perguntei.

- Não, não... Meu pai me trouxe, e vai passar aqui para me buscar mais tarde.

- E como é que ele tá?

- Ainda processando o fato de que ele é um velho fumante e alcoólatra de sessenta anos que perdeu a esposa vegetariana de quarenta e dois para um maldito câncer.

Desde que sua mãe morreu há exatos treze dias e vinte e cinco horas, Zack só se refere à ela como a esposa de seu pai.

- Entendo, cara...

- Relaxa, a vida tem dessas coisas. É como o pastor lá da igreja sempre diz: "Não devemos jamais lamentar por aqueles que foram chamados pelo Senhor para viver na glória do paraíso."

- Faz sentido.

- Não é?

- É...

Senti que um silêncio embaraçoso iria se iniciar a partir dali, mas Zack não permitiu:

- E ai? Tá pronto? - perguntou, virando-se para a porta automática da universidade em seguida.

Coloquei-me ao lado dele, e disse:

- Só se você estiver, "Bro".

- Eu já nasci pronto, Bro. - disse ele, dando um passo à frente. - Abre-te, Sésamo! - sussurrou cheio de si, e abriu os braços majestosamente ao mesmo tempo que as portas.

- Vemos aqui um verdadeiro Jedi, meus amigos! - exclamei, o aplaudindo em seguida.

- Sim, caros expectadores... - começou a dizer, prestando reverencia. - Sou de fato um poderoso...

- Garoto com demência. - concluiu uma garota, que surgiu do outro lado das portas, e passou por nós com certa pressa.

- Ah, vai se foder! - Zack gritou para a garota, que já estava longe demais para ouvir.

- Bom, já começamos muito bem. - suspirei, e atravessei a porta automática da universidade com certo desânimo. - Você vem ou não? - perguntei, virando-me dramaticamente para Zack, que continuava do lado de fora, observando indignado o pontinho preto que havia se tornado a garota.

- "Guiriti cum dimincia" - disse ele ao vento antes de se virar para mim e dizer: - Que filha da puta!

- Ao que parece isso aqui vai ser igualzinho ao ensino-médio. - disse eu, deixando clara minha frustração.

Zack suspirou, adentrou a universidade, pôs a mão direita em meu ombro e disse:

- Não usávamos terno no ensino-médio, parceiro.

- Bom, nem usaremos aqui... - expliquei. - Isso é só para entrevista...

- Não seja tão pessimista, Bro! - retrucou, dando um tapinha fraternal em meu ombro. - E ai? Vamos ser entrevistados ou não?

Sorri para ele.

- É claro que vamos.

[...]

E então, pela milionésima vez naquela manhã, a porta da reitoria se abriu e a bela mulher de olhos verde-esmeralda, juntamente com suas brilhantes e elegantes roupas, e seu poderoso e excitante sotaque francês, surgiu com seu gigantesco tablet, e disse um nome:

- Adam Miller!

Senti um frio invadir minha espinha e minhas pernas estremecerem.

- Sou eu... - disse, levantando uma das mãos.

Ela sorriu para mim e sinalizou para que eu entrasse na sala.

- Vai que é tua, campeão! - sussurrou Zack, mais no sentido sexual do que no motivacional.

Levantei-me da cadeira de forma desajeitada e caminhei morosamente em direção à sala cuja a mulher estava parada à frente da porta.

- Entre, por favor. - disse ela, adentrando a sala em seguida.

Maldito sotaque francês. Como pode deixar tudo tão sexy?

Cruzei a linha do caixonete da porta e me deparei de imediato com um maldito sósia de George R.R. Martin sentado atrás de uma gigantesca mesa de madeira reluzente.

- Este é Willmore Blencoff, reitor e fundador da Universidade Google. - anunciou a mulher. - Senhor, este é... - a mulher deu uma rápida espiada em seu tablet. - Adam Miller.

- E está é Alícia Chevalier. - disse Willmore, de forma descontraída.

- É um prazer. - disse Alícia.

Forcei um sorriso de relações públicas.

- O prazer é todo meu.

- Bom... Por favor, sente-se, meu jovem. - disse Willmore, cordialmente.

Caminhei até Willmore, puxei a bela poltrona de couro diante de sua mesa e sentei-me de frente para ele.

- É um prazer finalmente conhecê-lo, senhor Miller. - disse ele. - Como minha honorável e fiel assistente já lhe antecipou, me chamo Willmore Blencoff e eu sou o reitor desta universidade.

- É um prazer conhecê-lo também, senhor. - disse eu, deixando explícita minha admiração.

- Tenho que lhe dizer, senhor Miller, seu currículo acadêmico e sua alta pontuação em nosso vestibular me deixou impressionado. O aceitei nesta universidade no momento em que bati meus olhos em sua prova e terminei de ler seu currículo. No entanto, você sabe, tais formalidades são necessárias. Espero que você não me decepcione nesta entrevista, jovem. Me decepcionar explodiria o balão que é o meu ego e a certeza de que nunca erro.

- Muito obrigado, senhor. - disse eu, tentando não surtar. - Não o decepcionarei.

- Ótimo! - ele sorriu. - Bom... Está pronto para começarmos?

- Sim, senhor.

- Farei algumas perguntas bem simples, tudo bem? É só responder com calma e vemos o que acontece. Okay?

- Okay, senhor...

- Primeira pergunta: O que quer cursar aqui?

- Design de Estrutura Inteligente, senhor.

- Por que?

- Por que eu amo criar coisas e sou fascinado por como a arte é capaz de dar vida as coisas, senhor.

- Entendo. Então você gosta de inteligências artificiais?

- Sim, e também de fazer com que sejam mais do que só um monte de lata e formas.

- E por que quer se formar aqui?

- Por que vocês são os melhores.

Willmore gargalhou.

- E além disso, não quero ser só mais um designer no mundo. Quero ser o melhor. E para ser o melhor, é necessário aprender com os melhores. Não concorda?

- Curioso. - sorriu. - Quando surgiu este seu interesse por esta área?

- Quando eu era criança, acho que foi no meu primeiro ano de escola, não tenho certeza.

- E como foi que aconteceu?

- Bom, se não me falha a memória, aconteceu durante um intervalo da escola. - sorri. - O sinal tocou, as crianças correram para o pátio e eu permaneci imóvel em minha carteira.

"Por que não vai brincar com as outras crianças?", perguntou a professora.

"Eu não as conheço", respondi.

"E nem vai se não tentar."

"Faz sentido"

" Você vai ir?"

"Hoje não"

"Tudo bem. O que quer fazer então?"

"Ocupar a minha mente, eu acho"

"Tá legal, tive uma ideia."

"Que ideia?"

- Nesse momento, ela me entregou uma caixinha de lápis de colorir e uma folha de papel em branco...

"Desenhe o que quiser", disse ela.

- Daí eu olhei para aquela folha e vi um mundo em branco cheio de possibilidades, e por alguma razão que não sei explicar, senti-me na obrigação de dar alguma vida à ele.

- E o que você desenhou? - perguntou Willmore.

- Desenhei a mim mesmo brincando com as outras crianças no pátio. - sorri, pensativo. - Não pensei nisso quando comecei a desenhar, mas logo depois que terminei o desenho, percebi que havia acabado de criar um mundo diferente daquele no qual vivia, um mundo melhor, um mundo onde eu era melhor. Tanto poder em uma simples folha de papel, entende? Naquele momento eu me dei conta de que poderia ser e fazer qualquer coisa naquele pequeno porém imenso universo.

- Interessante. E o que a sua professora disse?

- Não mostrei o desenho para ela, mas mostrei para o meu pai. E foi ai que as coisas começaram de verdade.

- Entendo. E o que ele disse?

- Disse que estava incrível e que eu deveria continuar praticando, assim poderia um dia começar a projetar robôs para ele construir.

- E projetou algum?

- Sim, quer dizer, mais ou menos. - gargalhei. - Desenhei um retrato da nossa família uma vez e inclui um cachorro nela. Assim que mostrei para o meu pai, sugeri que adotássemos um para que nossa família ficasse completa como no desenho...

"Só tem um problema, eu sou alérgico a cachorros, filho", ele disse.

- Mas não muito tempo depois disso, o meu aniversário chegou e com ele um cachorro muito familiar...

"Caramba, ele é idêntico ao cachorro que eu desenhei, pai!", disse eu.

"Não é? Adivinha porquê!"

"Por que?"

"Por que É o cachorro do seu desenho!"

"Meu Deus! Você construiu ele mesmo, pai?"

"Sim, meu filho. E ai? Gostou? Como é a sensação de ver sua primeira criação ganhar vida?"

- Indescritivelmente incrível. - disse eu para Willmore. - Como não se apaixonar por algo assim?

- É verdade. - assentiu. - Que nome deu ao novo membro da família?

- Floki. - respondi.

- Como o Viking?

- Na verdade o chamei assim porque gostava de sorvete de flocos e o desenhei com um monte de bolinhas pretas - expliquei - mas hoje em dia digo que é por causa do Viking mesmo. - gargalhei. Willmore também.

- Gosto do seu senso de humor, senhor Miller! - disse ele. - Você é engraçado.

- Desculpa por falar e ser detalhista demais, é o que costumo fazer quando estou muito nervoso. - expliquei.

- Não se preocupe... - disse ele, de forma compreensiva. - Temos e não temos todo o tempo do mundo.

Aquilo fez tanto sentido para mim.

- Tenho apenas um conselho para você, Adam.

- Qual, senhor?

- Faça valer e aproveite bem o seu tempo nesta universidade.

Senti um turbilhão de sensações me invadir e tomar conta de cada centímetro do meu corpo.

- Sim, meu jovem. - Willmore respondeu ao ponto de interrogação explícito em meu rosto, carimbando uma folha de papel. - Aprovado. Meus parabéns!

- Muito obrigado pela oportunidade, senhor!

- Não me agradeça, jovem. - sorriu. - Esta conquista é um mérito seu.

Me senti nas nuvens. Tudo o que eu mais queria naquele momento era sair correndo nu pela Times Square gritando: EU PASSEI, PORRA! OLHEM PARA O TICANO DO QUEENS, OLHEM PARA O TICANO DO QUEENS!

- Nos encontraremos de novo em uma semana. - disse ele, dando uma espiada no calendário exposto em sua gigantesca mesa. - Oito de janeiro às dez da manhã.

Assenti com a cabeça.

- Venha pronto para se instalar. - comunicou. - As aulas começarão no dia nove.

- Perfeito! Muito obrigado mesmo, senhor!

- Temos e não temos todo o tempo do mundo. Lembra? - Willmore sorriu, e estendeu a mão para mim.

- Lembro sim! - assenti, apertando sua mão, e levantado-me rapidamente da poltrona.

- Meus parabéns! - disse Alícia toda monumental, abrindo a porta para que eu saísse.

- Muito obrigado! - disse para ela.

Nem precisei dizer nada. Assim que Zack bateu os olhos em mim, ele já sabia o que tinha acontecido.

- PASSOU, CARALHO! - Zack gritou como um torcedor depois de seu time marcar um gol de virada nos segundos finais de um campeonato, levantando-se da cadeira em um salto e direcionando-se a mim com a mão esquerda estendida para o nosso toca aqui personalizado.

- Passei, porra! - sussurrei à um fio de chorar, um milésimo antes de nos abraçarmos e começarmos a pular e gritar no estreito corredor da sala de espera.

Todos na sala olharam para nós com desaprovação como se pensassem: "Esses vieram do Queens, com certeza". Mas quem disse que ligamos?

[...]

Duas horas e meia depois da minha entrevista, Alícia finalmente chamou Zack. Ele deve ter ficado lá dentro por uns trinta minutos antes de sair majestosamente e dizer:

- Senhoras e senhores, meninos e meninas, tratem bem de olhar de perto enquanto podem o mais novo físico negão revolucionário do pedaço, Isaac Oliveira. É isso mesmo que vocês ouviram. Não é Newton, é Oliveira, parceiros. Diretamente das favelas do Rio de Janeiro e do Queens para detonar em Cambridge. Bang, Bang, Pow! Dedo no cu e gritaria. - cantarolou. - Agradeço à todos pela atenção!

Zack não era bem um "negão". Seu pai era um norte-americano branco, sua mãe era uma brasileira negra e ele tinha cor de café com leite quando se tem mais leite do que café. E na verdade, só viveu os três primeiros meses de vida no Rio de Janeiro, o resto foi todo no Queens. Mas ainda assim, ele adorava se vangloriar do quanto era negro e do quanto tinha sido criado nas favelas. Vai entender...

Depois do seu discurso, ele se juntou à mim e caminhamos vitoriosos até a saída da universidade. Naquele momento, eu consegui imaginar a música tema dos "Anjos da Lei" tocando ao fundo, o slowmotion, as explosões de pombas brancas e todo o resto, bem como Zack havia imaginado. Foi com certeza um dos momentos mais épicos da minha vida.

- Tá vendo isso, irmão? - perguntou ele, com o braço direito entrelaçado em meu pescoço e usando o indicador esquerdo para guiar meus olhos pela paisagem do gigantesco campus. - É a nossa nova casa!



Zack ligou para o pai dele, que apareceu vinte e dois minutos depois da ligação. E minha mãe nem se quer havia saído do estacionamento. Contei à ela que passei depois de ter feito um drama obrigatório dizendo que não. Ela surtou. Ligou o carro, e fomos até o McDonalds mais próximo para almoçar. Depois do McDonalds, minha mãe ligou para Jarvis e pediu que ele preparasse minha comida favorita para o jantar, surtou de novo, e então pegamos a estrada de volta para casa.

Chegamos em casa às seis e trinta e um da noite. Quando abrimos a porta de entrada, Jarvis e Floki estavam esperando gente do outro lado com balões, confetes e faixas enormes penduradas no teto preenchidas com a frase: "Parabéns, Adam!"

Floki correu em minha direção e saltou para meus braços e Jarvis se aproximou um pouco mais devagar com seu andar robótico e me abraçou bem forte.

- Parabéns, meu filho! - disse ele, mas não era sua voz habitual, era a voz do meu pai. Isso acontecia de vez em quando, meu pai hackeava o Jarvis para falar comigo ou com a minha mãe ou resolver algum problema quando era muito urgente. Quando contei isso ao Zack, ele levantou uma questão muito curiosa: "Será que seu pai hackeia o Jarvis para transar com a sua mãe?". Nunca mais olhei para o Jarvis do mesmo jeito. - Sandra... - cumprimentou minha mãe.

- Oi, Antony... - disse ela.

- Jarvis me contou que você conseguiu entrar na Google. - explicou ele. - Não quis perder esse momento.

- Legal que veio, pai. Ou quase isso...

Ele riu.

- Bom, o jantar tá quase pronto. Se tiver ficado bom, fui eu quem fez. Se não, foi o Jarvis.

Minha mãe riu. E eu forcei um sorriso.

Eu não tenho raiva do meu pai nem nada do tipo. Sei que foi minha mãe quem pediu o divórcio. Sei que ele sofreu quando precisou ir. Mas desde que ele foi para a Inglaterra não consigo me sentir confortável com ele. Nunca temos muito assunto e eu não sinto que deveríamos ter.

[...]

Às oito nos sentamos a mesa de jantar e comemos. - Lasanha de quatro queijos e estrogonofe de frango, a propósito. Zack diz que é uma mistura esquisita. Eu acho incrível. - Fui o primeiro a terminar de comer. A comida estava ótima, então deduzi que foi o Jarvis quem havia feito, não o meu pai. Levantei-me, pus as louças na pia e subi para o meu quarto, deixando minha mãe e o meu pai a sós.

Joguei-me na cama, peguei meu celular e mandei uma mensagem para Zack:

"Adivinha quem apareceu aqui"

"Zabuza Momochi: O Demônio do Gás Oculto?" - respondeu ele dois minutos depois.

"Não, idiota. O meu pai..."

"Não pode ser. É ele mesmo?"

"Não, ele nunca sairia da Inglaterra para vir pra cá. Ele hackeou o Jarvis de novo."

"Hoje tem, hein?!"

"Não consigo parar de pensar nessa merda."

"*Risos* Pelo menos ele apareceu, né?"

"Para mim tanto faz."

"Calma, jovem. É o seu pai."

"É, eu sei... Vou dormir agora. A gente se fala amanhã."

"Beleza, Bro! Té mais"

Larguei o celular e passei a encarar o teto.

Sete dias. Era o que faltava para uma vida nova começar. Eu deveria estar radiante, feliz ou sei lá o que. Mas não estava. Eu estava nervoso e com medo. Sentia o frio na barriga e o coração acelerado como se tudo estivesse à um minuto de acontecer.

- Não sei se estou pronto para isso... - pensei alto. - Não sei mesmo...

Não muito depois ouvi a cama da minha mãe ranger como se fosse quebrar a qualquer momento. Porra, Jarvis...

CONTINUA...

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Fala ai, galera do CPBR! Aqui quem fala é o Matheus, criador da série “Distopia” e “Monstros Em Meus Ombros”. Venho aqui, por meio desta divulgação exclusiva do iniciozinho do segundo episódio da série, para contar pra vocês uma grande novidade, e também saber o que vocês acham disso! 

Seguinte: há uns dois meses mais ou menos, enviei o primeiro capítulo de Distopia para uma editora – só de sacanagem mesmo okadokaokd – Só que ai, inesperadamente, ontem, eles me enviaram um e-mail, caras! UM FUCKING E-MAIl!!! E adivinha? Siiim! Eles aprovaram a estória!


Honestamente, eu não sei o que vem a seguir, mas gostaria de tá compartilhando isso com vocês, que tanto me apoiaram nos comentários do primeiro episódio. Muito obrigado mesmo, galera! Dando tudo certo, aparecerei de novo por aqui para avisá-los, mantê-los informados e tudo o mais. Espero que tenham gostado deste pequeno começo do episódio 2, que será muuuuito maior que o primeiro. E espero contar com o apoio de vocês depois que a estória for de fato publicada. Mais uma vez muito obrigado por tudo, galera! E muito obrigado também à todo o pessoal do CPBR pela força <3



Me sigam lá no Wattpad <3

Problemas com a colega de quarto

Isso realmente aconteceu comigo alguns anos atrás na Universidade das Artes da Filadélfia.

No meu segundo ano, entrei com uma garota chamada Kara. Ela era uma vocalista de jazz, mas seu interesse principal era a ópera. Tivemos uma pequena sala no sexto andar de um dormitório chamado Juniper Hall. As paredes eram macias, e suas técnicas de canto e voz tardias me mantinham acordado até tarde. Depois de um mês ou mais de sono perdido, convenci-a a mudar suas práticas da noite para os estúdios de música no teatro Merriam a uma quadra de distância.

Por volta de oito horas uma noite, Kara anunciou que iria praticar tarde para um próximo recital e provavelmente não estaria em casa até cerca da meia-noite. Ótimo, pensei, isso significa que eu posso ir para a cama cedo (eu estava muito cansado ... Eu tive um dia horrível no estúdio de atuação e estava pronto para desmaiar assim que jantasse). Ela disse boa noite e à esquerda, café e folha de música na mão.

Eu fiz um pouco de queijo grelhado e sopa, engoli-o e imediatamente comecei a me preparar para deitar. Quando eu saí do chuveiro, minhas pálpebras estavam tão pesadas que mal consegui escovar meus dentes. Peguei os meus PJ e me arrastei para o topo da nossa cama beliche. Eu dormi assim que minha cabeça bateu no travesseiro.

Devo dar um segundo para descrever o layout do nosso apartamento. Ao entrar no apartamento, o quarto atravessava uma porta imediatamente à esquerda. Nosso banheiro estava dentro do quarto, logo após as beliches (UArts é bom no sentido de que você não precisa compartilhar banheiros).

De qualquer forma, acordei ao som do fechamento da porta do apartamento. Abri os olhos e cambaleante verifiquei meu telefone: meia-noite em ponto. Voltei e fechei os olhos. Ouvi Kara entrar na sala e parar na frente do beliche. Verificando se eu realmente estou dormindo, pensei. Ela se debruçou na cama abaixo de mim, o que era estranho, como ela era uma adrenalina para escovar os dentes e tomar banho antes de dormir. Então, novamente, os exames estavam ao virar da esquina, e estávamos todos exaustos. O colchão abaixo de mim rangeu e depois ficou em silêncio. Eu nem conseguia ouvir sua respiração.

Comecei a dormir novamente. Eu estava no limite do sono profundo quando acordei assustado de novo por um barulho.

Uma chave na fechadura. A porta se abriu.

E Kara entrou em nosso apartamento, cantarolando uma melodia de ópera.

O colchão abaixo de mim rangeu.

Tradutora: Jessi Cosgrove

Ele acordou em um quarto escuro...

Ele acordou em um quarto escuro. Não havia janelas para iluminar a escuridão; nem portas visíveis para dar-lhe esperança de liberdade. Não havia nada. Ele nem lembrava-se de quem era, ou o que queria, tudo que ele sabia era que agora, sair era o maior problema. 

O vazio era estranho e perturbador, qualquer coisa poderia estar a sua frente, atrás ou nos lados, mas ele não poderia ver ou sentir. Com os braços esticados, ele andou em uma única direção, tentando encontrar uma parede ou qualquer coisa que lhe mostrasse que não estava andando em círculos. A cada passo que dava sentia-se solitário, naquele chão de concreto frio. Em sua mente, agitavam-se perguntas sobre quem ele era e por que estava ali, e por que ele sentia como se estivesse sendo observado. Era agoniante. A dor, afligida pelo horror da situação, dava-lhe uma sensação de profunda certeza, como a sensação de estar em um avião e ter certeza de que ele vai cair. 

Agora ele já sabia que estava andando em círculos. Havia uma pequena área de madeira onde ele já tinha pisado pelo menos três vezes. Como era possível, ele apenas tinha andado em linha reta. A não ser que o quarto tivesse quase um quilometro; embora esse pensamento fosse estúpido, deu-lhe uma vaga sensação de agorafobia. Levando isso em conta, ele decidiu que na próxima vez que passasse pela área de madeira, o inspecionaria cegamente. 

Logo, o encontrou; ou um idêntico, em menos de cinco minutos. Era um quadrado de madeira pura; com uma borda de concreto por fora, possivelmente para fazer peso ou mesmo por propósitos estéticos. Ele tentou sentir os contornos do concreto, procurando por fendas que indicassem que ali fosse uma saída; já que aquele pedaço de madeira contornado por concreto parecia tão fora de lugar ali. Depois de alguns minutos, ele sentiu um leve corte, um objeto de metal afiado que havia cortado seu dedo. Ele tentou pegar o objeto por outro ângulo mas ele era muito pequeno, parecia que ele teria de mover o bloco de concreto, mas como? Ele não sentia que seria forte o suficiente para move-lo sozinho. 

Com raiva, ele bateu no chão de madeira, e o chão quebrou-se bem abaixo dele. Em choque, ele puxou as mãos para os lados, para amortecer a queda. Mas não funcionou, quando ele caiu, quebrou o joelho, e gritou, gritou ate perceber uma risada profunda de alguém que não era ele. Então ele lembrou-se do objeto afiado; mantido preso pelo concreto que tinha caído. Ele não poderia fazer nada, pois não sabia de onde a riso vinha. Porém, suas reações foram lentas demais; seu braço foi cortado e sua carne rasgada. Foi o suficiente para deixa-lo inconsciente. 

Quando ele acordou, estava outra vez deitado no chão frio de um quarto. Porém, dessa vez havia uma fonte de luz movendo-se. Ao invés de ir até ela, ele permaneceu parado no lugar; para ver se a luz vinha para ele. Mas ela não foi; ela se afastou e foi para outra área. Dessa vez, ele decidiu que tentaria se levantar e a seguiria. Andar era tão doloroso, e quando ele a alcançou, viu um homem segurando um fósforo, mas seu rosto era uma caveira, e o que restava de seus lábios estava costurado de uma forma desordenada, dando-lhe um aspecto esticado e distorcido. Quando a caveira o viu, deixou cair o fósforo, e a área ao seu redor incendiou-se, deixando o estranho homem preso em seu centro. Do ângulo em que estava, as chamas pareciam formar uma estrela de cinco pontas, pentagrama. Ele estava preso com satanistas? Como a área agora estava iluminada, dava para perceber várias dessas “pessoas caveiras” aproximando-se por fora do pentagrama e iniciando uma espécie de canto abafado, já que todos tinham os lábios costurados. O ritmo não era como nada que já tivesse ouvido, e antes que percebesse, seu rosto foi molhado por uma água que ferveu sua pele, e fez seu rosto começar a derreter, menos seus lábios. Ele chorou de dor e caiu no chão. Isso foi tudo que pôde ser ouvido desse homem. 

Enquanto gritava, um homem do lado de fora o ouviu, e seguiu em direção ao castelo de onde o grito tinha vindo. Sem tempo de perceber o que tinha acontecido... 

Ele acordou em um quarto escuro.

Casa das Mariposas

Eu não sabia por quanto tempo havia andado por aquele bosque. Toda noção de tempo me abandonou desde que coloquei os pés naquele maldito lugar.

Estava começando a escurecer, e eu podia ver os últimos raios de sol, que logo desapareceriam, dando lugar à escuridão. Carregava comigo apenas uma lanterna e a caixa com o “presente”. O conteúdo daquela caixa, algo tão simples e ao mesmo tempo tão raro, poderia decidir entre minha vida ou a morte. Então ouço um barulho atrás de mim. Passos. Me viro e aponto a lanterna em direção ao som. Era um homem. Ele cobre o rosto com uma das mãos ao ser atingido pela repentina luminosidade. “Por favor, desligue isso. Vai desnorteá-las”

Desnortear...? Desligo a lanterna, e então consigo perceber que minúsculas mariposas voam em minha volta. Elas não estavam ali antes. Então olho novamente para o homem e percebo o motivo. Ele carregava um tipo de lamparina, daquelas antigas à óleo. As mariposas pareciam atraídas pela luz, e seguiam cada movimento dela.

“Está aqui pela coleção, eu presumo?”

Engoli em seco. A voz daquele homem era monótona e sem emoção. Quase entediada.

“S-sim”. Respondo.

“Me acompanhe” Ele disse simplesmente, e seguiu pelo bosque. Eu o acompanhei em silêncio. Apenas a luz da lamparina iluminava o caminho. E as mariposas em volta dela se agitavam cada vez mais a medida que nos aproximávamos do local.

Enfim chegamos a um casarão de aspecto antigo e abandonado. Me pergunto se estamos no lugar certo.

O homem abre a porta e apaga a lamparina com um sopro. “Entre”

Adentrei a casa, e o interior não era muito diferente. O chão, as paredes e os móveis estavam bastante empoeirados. O cheiro de mofo tomava conta do lugar. E centenas de mariposas brancas voavam pelo local. Tossi um pouco por causa da poeira. O homem percebeu. “Peço perdão pela bagunça. Já faz algum tempo que não recebo visitas”.

Agora, com uma iluminação adequada, pude perceber as feições de meu anfitrião. Seu rosto era fino, e pálido demais para ser saudável. Seus cabelos desciam até as costas, e eram de um loiro sujo, ficando mais claros, quase brancos nas pontas. Suas roupas pareciam ter saído do século XVIII, e um manto marrom cobria suas costas. Mas o que mais chamava a atenção eram

seus olhos. Eram cor de âmbar. Quando os vi, tive certeza de que ele não era humano.

“Você trouxe?” Ele perguntou, com os olhos fixos na caixa.

Mais que depressa, abro-a para revelar seu conteúdo. Uma pequena mariposa.

“É uma Ennomos fuscantaria” eu disse. A voz me falhando “Uma mariposa muito rara encontrada apenas em território Português”

Entreguei a caixa, com as mãos trêmulas. O homem a pegou e analisou a mariposa. Parecia satisfeito. “Venha comigo”

Eu o segui até uma enorme porta. Assim que ele a abriu, pude vislumbrar o quarto. Era enorme. Suas paredes decoradas com milhares de caixas entomológicas contendo mariposas, de todas as espécies. Algumas eu reconheci. Outas eram tão exóticas e exuberantes que eu não fazia ideia de que existiam. Percebi que haviam inclusive espécies extintas a muito tempo. No chão, haviam mais caixas empilhadas

A maior coleção de mariposas do mundo. O sonho de qualquer entomólogo. E eu vivi para ver.

Tento balbuciar palavras de admiração, mas estou tão maravilhado que nenhum som sai de minha boca. Meu transe foi interrompido pelo homem, que me olhava com um rosto de decepção.

“É uma pena” ele disse, apontando para um espécime. Era uma Ennomos fuscantaria. “Mas parece que eu já possuo uma dessas em minha coleção”.

Gelei. Não podia ser. Aquela espécie era muito rara. Pouquíssimas coleções no mundo tinham um espécime...

Engoli em seco. Sei muito bem o que acontece com quem não consegue impressionar o Colecionador. A adrenalina toma conta de mim e tento correr. Mas as portas se fecham, impedindo minha fuga. Nesse momento escuto o bater de asas e me viro a tempo de ver o colecionador na minha frente. Seu manto se abre. Oh meu deus, não é um manto! São asas! Asas de mariposa!

De dentro do manto saem centenas das mariposas brancas. Elas voam em minha volta, cobrindo meus olhos, nariz e boca. Não consigo respirar!

O Colecionador sorri, e com um movimento de sua mão, os insetos se afastam do corpo que jazia sobre o chão frio.

Ele se ajoelha sobre o cadáver e segura as bochechas dele, fazendo-o abrir a boca.

Lá de dentro, emerge uma pequena mariposa branca.

Autor: Theo Rodrigues

15/05/2018

French Quarter

Antes de tudo, devo-lhe dizer meu nome. Eu me chamo Luke Adams, tenho 13 anos e moro na cidade de Nova Orleans, Louisiana, e não é a toa que detém o titulo de " Cidade mais assombrada dos Estados Unidos". No inicio eu achava que isso era um fato bem desnecessário e insignificante, pois além disso, eu morava a três quarteirões do famoso French Quarter, um dos bairros mais antigos e "assombrados" da cidade.

Apesar de morar próximo a um dos lugares mais temidos da America do Norte, eu considerava o bairro um lugar bem tranquilo e seguro, mesmo tendo se mudado pra cá com meus pais e meu irmão há menos de dois meses. Eu gosto muito dos vizinhos daqui, tenho muitos amigos e quase toda noite depois da escola, nós brincávamos na rua até bem tarde.

Recentemente, descobri que tínhamos um mega porão, cheio de tralhas e bugigangas, talvez fossem dos antigos donos que nunca conheci. No dia seguinte, chamei todos meus amigos para brincar de esconde-esconde. Éramos um grupo pequeno de 8 pessoas: Chris, Jhon, Lucy, Jimmy, Ana, Carlos, André e Emily, além do meu irmão Jake. Já estava no fim da tarde quando nos reunimos no meu quintal para os últimos preparativos antes de descermos para o porão.

Nossas regras são bem simples, após um de nós contar até 50 com o rosto coberto, ele deve procurar pelos outros, e o ultimo que for achado será o próximo a contar. O nosso estilo de esconde-esconde foi um pouco diferente do clássico, pois quem for procura pelos outros terá que usar uma pequena lanterna ( não existe nenhuma janela naquele porão ).

Nós finalmente estávamos descendo aquela escada, todos em fileira, liderados pelo Jake, que era o mais corajoso dali. Ele abriu a porta e estava realmente uma escuridão muito intensa por lá. Logo passei a lanterna para o meu irmão, que iluminou o lugar. Emily seria a primeira a procurar, então iniciou a contagem. Todos corremos para nos esconder no meio das tralhas. Esse lugar é realmente bem maior do que eu me lembrava. Logo encontrei um ótimo esconderijo, um armário de cozinha bem velho, onde eu torci para não ter nenhum tipo de inseto, eu coube perfeitamente lá dentro, deixando uma brecha na porta para enxerga Emily, segurando aquela minuscula lanterna:

Emily: - 47...48...49...50! lá vou eu !

Assim que ela se virou e deu seus primeiros passos, pude ver alguém sair de trás de um fogão empoeirado e sumir na escuridão. Esse moleques não tem jeito, esperam até o ultimo segundo para se esconder. Nesse momento, pude sentir um leve toque na minha nuca, o que me arrepiou todo. Emily estava longe e eu não consegui ver o que me tocou, talvez fosse um inseto.

Ela nos encontrou, um por um, até chegar em mim:

Emily: - Te achei !

Eu: - Falta alguém ?

Emily: - Sim, o André...

Eu me juntei aos outros sentados no pé da escada, e depois de 20 minutos, ela desistiu de procurar. Todos começamos a ajudá-la, André é realmente um monstro no esconde-esconde. Nossas buscas não obtiveram sucesso, então eu contaria por ter sido o último a ser encontrado, alguma hora acabaríamos achando aquele moleque. Comecei a contar ancioso para encontrá- los, assim que cheguei no 23, senti uma leve respiração por cima do meu ombro direito. Eu achei muita burrice fazer uma coisa dessas, pois tudo já estava silencioso e eu poderia facilmente ouvir seus passos até o esconderijo. Assim que terminei de contar, ,e virei rapidamente e apontei a lanterna direito para o lugar onde senti a respiração:

- Te achei !

Para o meu espanto, dei de cara com um vazio inexplicável, não havia ninguém ali. Não se ouvia nenhum som, comecei a sentir um pouco de medo, eles devem estar tentando me assustar. Á medida que eu avançava, podia ouvir alguns deles se ajeitando em seus esconderijos. Fui encontrado um por um, e dessa vez, além de André, não consegui encontrar Lucy:

Jhon: - Eles estão curtindo com a nossa cara !

Jake: - Vamos continuar a brincadeira, alguma hora eles vão aparecer.

Nós concordamos e voltamos a brincar, dessa vez Jimmy procuraria. No inicio da contagem, nós corremos e Jake me puxou para dentro de enorme baú, onde caberiam umas quatro pessoas. Nós podíamos ver a luz da lanterna e os vultos dos outros correndo pelo escuro, os moveis davam um efeito estranho na luz, fazendo parecer que haviam dezenas de pessoas correndo pelo lugar. Após encontrar Jhon e Ana, Jimmy veio direto para o baú:

- Te achei !

Eu saí de lá decepcionado, pois achava que era um ótimo esconderijo:

- Vamos Jake, esse miserável nos encontrou.

Estiquei as mãos vasculhando todo o baú, mas ele não estava lá:

Jimmy: - Ele estava ai com você ?

Eu nem consegui responder, estava perplexo... Como e quando ele saiu ? Nos reunimos com os outros para procura-los, dessa vez eu estava realmente com medo. Nós começamos a andar silenciosamente pelo lugar procurando qualquer sinal de vida. Quando chegamos em um determinado ponto, a lanterna começou a falhar. Desesperademente eu tentei consertá-la, ficou totalmente escuro por um instante, até que consegui liga-lá novamente. O que vimos foi bizarro, estávamos rodeados por medonhas criaturas, não consegui contar quantas eram, elas tinham aparência humana, eram bem escuros e muito altos, seus olhos eram totalmente brancos e ligeiramente brilhantes, quando estavam contra a luz. Quando e virei para correr, senti uma mão no meu ombro, imediatamente eu congelei, não de medo, congelei mesmo, não conseguia me mover ou falar, só sentia meu ombro gelado. Ana me puxou pelo braço com toda sua força para frente, me devolvendo o controle do meu corpo. Nós chegamos na porta e eu abri rapidamente, quando percebi que Carlos tinha sido pego e estava lá parado, enquanto um deles o enrolava com sua língua e o engolia vivo, sem o mastigar. Foi uma cena horrível, ele nem pôde se defender.

Eu fechei a porta e larguei a lanterna, subimos a escada correndo, ouvi a porta se abrindo, e novamente, paralisaram Chris, que teve o mesmo fim de Carlos, e provavelmente de André, Lucy, e Jake também. Passamos pela última porta e chegamos na minha cozinha. Encontramos a minha mãe ma sala, já passava da meia-noite, ela ficou deseperada quando contamoso que aconteceu, mais eu não a deixei descer lá. Fomos chamar os pais de todos os meus amigos para tentar encontrá-los, andamos cada centímetro daquele porão, mas estava tudo exatamente como encontramos no início da noite. Ficamos lá em baixo a noite inteira, sem nenhum resultado.

Minha vida foi muito afetada pelo ocorrido, já fazem duas semanas que aconteceu. Toda noite desde então, eu esculto sons e batidas vindo lá de baixo, e a cada dia que passa, elas ficam mais próximas de onde estou. No começo era só no porão, passando pela sala, cozinha, banheiro e lavanderia, até que ontem eu ouvi no corredor aqui do lado. Temo que o próximo barulho que eu ouça seja aqui, dentro do meu quarto...

Autor: Eduardo dos Santos

O Ultimo Inverno

Estamos no inicio de de 2017, no primeiro dia de inverno. Está realmente muito frio por aqui, a propósito o meu nome é Tony, eu tenho 15 anos e moro no estado de Minnesota, cidade de Minneapolis.

Começou a nevar há menos de 2 horas, o volume da neve já é bem visível nos telhados e quintais das casas. Geralmente eu gosto dessa época do ano por que além do frio insuportável, eu e meus dois melhores amigos, Julian e Marcos, conseguimos ganhar algum dinheiro tirando a neve das casas ( o que ninguém gosta de fazer).

Geralmente nós trabalhamos apenas alguns quarteirões além do nosso. Porque no dia seguinte obviamente haverá mais neve e é claro mais dinheiro para nós.

Exatamente ás 9h30 da manhã, eu já ouço a campainha tocar, são eles, Julian, zoeiro como sempre e Marcos, 5 vezes pior. Hoje estamos realmente animados pois vamos cobrar um pouco mais caro para arrecadar mais do que o ano passado.

No fim da rua, antes de chegar á mata fechada tem uma casa que geralmente temos uma certa ansiedade de passar perto, mais esse ano vai ser diferente. Não temos nada contra quem mora lá ( sim, tem gente morando lá...), mas aquela casa tem algo estranho... Meio fora do normal, pode ser coisa da minha cabeça, acho que só eu percebi isso...

Enfim, nós ralamos o dia inteiro, até que chegamos na última casa da rua, que era justamente aquela. Nós passamos pelo jardim (coberto de neve obviamente), e, chegando na porta, reparamos que não havia campainha, tinha apenas um daqueles batedores manuais (não me recordo o nome), pois aparentava ser uma casa bem antiga:

J - Você quer mesmo fazer isso ? Essa casa é sinistra

T - Calma Julian, é só uma casa comum...

Eu estava tentando acalma-lo, mas estava com mais medo do que ele.

Assim que dei a primeira batida, ouvimos algo destrancando a porta por dentro e, abrindo logo em seguida. Para a nossa surpresa, não tinha ninguém atrás da porta, era um corredor grande e escuro, a não ser por uma luz que saía por debaixo da última porta:

M - Vamos voltar Tony, não tem ninguém.

T - Tem uma luz acesa, precisamos avisar que a porta deles está destrancando sozinha. A propósito ,cadê aquele Marcos zoeiro de agora há pouco ?

M - Eu sou zoeiro cara, mais você tem que admitir que essa casa da um pouco de medo...

J - Seu medroso - disse Julian rindo

M - Querem que eu prove que sou foda?

- Sim ! - dissemos eu e Julian ao mesmo tempo

Marcos não hesitou e entrou na casa batendo os pés, seguido por nós dois, meio relutantes...

Quando finalmente entramos, Marcos encostou a porta e a escuridão só não foi total por causa daquela luz no fim do corredor. Julian se aproximou da porta e encostou levemente sua mão na porta:

J - Olá?... Você deixou a sua porta aberta...

Nenhuma resposta.

J - Tem alguém aí?

Nada novamente.

M - Abre logo essa porta Julian!

J - Para de gritar Marcos!

Nesse momento, Marcos virou a maçaneta e empurrou a porta, iluminando o corredor.

A sala estava praticamente vazia, a não ser por uma poltrona velha, um tapete, e uma televisão ligada e sem sinal, medonhamente fazendo aquele som de chuvisco.

No fim da sala havia uma porta. Nós ouvimos um barulho, uma batida leve logo atrás da porta:

M - O que foi isso ? -Marcos pergunto realmente assustado.

T - Eu não sei, vamos la ver...

M - Se não tiver ninguém dessa vez a gente vai embora.

T - Esta bem.

Nós seguimos até o final da sala e novamente. Dessa vez já fomos abrindo. Erro nosso...

Marcos soltou a porta e ela fechou, trancando nós três. O que havia ali era realmente estranho. Era um cômodo muito escuro, bem no canto conseguimos ver uma silhueta, era alguém realmente alto, nos encarando.

Nós reparamos que havia uma janela á nossa direita, era possível ver ás estrelas e a mata ao fundo. Espera, não é possível eram 3h da tarde! Escutei Julian tentando abrir a porta desesperadamente, enquanto a figura dava lentos passos em nossa direção:

M - Porra Julian, abre essa porta.

J - Não consigo! .

T - Arregaça ela logo! .

Tomei impulso e dei uma voadora bem no meio da porta. Chutei com tanta adrenalina que ela quebrou no meio.

Corremos com a alma pelo corredor. Dei uma nova voadora na porta de entrada. Dessa vez não deu certo:

M - E agora ?

Julian abriu a porta de um armário e nós corremos pra dentro:

T - O que esta acontecendo aqui ?

M - Cala boca! Ele vai pensar que fomos embora!

Ficamos lá dentro por quase 1 hora, com medo até de falar.

Como vamos sair daqui ? Eu não faço ideia. Eu sabia que não deveríamos ter entrado nessa maldita casa.

Apos 1 hora e meia calados, eu verifiquei o meu relógio, pois se vi bem, já estava de noite. Meu celular indicava 3h27AM... Eu nem estou acreditando mais que estou no mundo real, sera que já estão me procurando?

T - Vamos sair agora? - Sussurrei

J - Primeiro veja se o corredor esta seguro.

Lentamente eu girei a maçaneta e abri a porta até o ponto de conseguir a escuridão total que estava lá fora, a luz havia se apagado. Então eu peguei meu celular e liguei o flash na direção do corredor. Nada , estava tudo calmo e silencioso, então virei em direção ao Julian e Marcos, apavorados:

T - Esta vazio.

M - Vamos correndo.

J - Não! Vamos correr apenas quando sairmos.

Saímos lentamente em direção a porta de saída. Viramos a maçaneta (O que não tínhamos tentado antes). Sem sucesso.

Notamos uma escada no lado direito do corredor (eu realmente não a vi quando passei pela primeira vez pelo corredor). Ouvimos uma batida alta seguida de passos na sala em havia aquela televisão. Subimos a escada na maior carreira. Podíamos ouvir a porta abrindo rapidamente.

Chegamos em um corredor pequeno e estreito com uma janela no fim. Eu abri a janela e puxei os dois pra dentro de um cômodo ao lado dela:

J - O que você está fazendo? A janela esta logo ali.

T - Vamos espera ele vir. Quando pensar que saímos e ir embora teremos mais tempo de pular a janela.

T - Cala a boca! Ele esta vindo.

Observando pelo buraco da maçaneta, pude ver a figura se aproximando da janela. Ele ficou ali parado, como se soubesse que ainda não tínhamos fugido...

Ele lentamente esticou os braços e fechou a janela. Suas unhas eram medonhamente grandes e seus braços cheios de cicatrizes.

Esperamos um tempo antes de sair :

T - Quando eu contar até três, vou abrir a porta e a janela. Corram como se não houvesse amanhã.

T- Um, dois, três!

Rapidamente, eu abri a porta e a janela, pulando rapidamente pra fora, seguido pelo Julian.

Quando Marcos colocou metade do corpo pra fora, pude ver um braço se envolver rapidamente no seu pescoço o puxando para dentro.

No momento em que tentei voltar para pegá-lo, Julian puxou meu braço, nos derrubando do telhado. A última coisa que vi foi a janela se fechando. Só conseguimos ouvir os gritos do Marcos.

Quase instantaneamente, corremos para minha casa. Minha mãe estava desesperada e louca da vida. Eu expliquei o que tinha acontecido e ela, trêmula, ligou para a policia.

Após 15 minutos, chegaram duas viaturas então partimos na busca pelo Marcos. Não conseguimos acreditar no que encontramos. Dentro da casa não havia nada, nenhum móvel, quadro, ou pessoas... Nenhuma marca de sangue. parecia que aquele lugar nunca foi habitado por ninguém.

As buscas se estenderam até a área da mata atrás da casa. Embaixo de uma árvore, encontramos o sapato do pé esquerdo dele, apenas isso...

Duas semanas depois, nos mudamos para a cidade de Chicago. Desde então não tive muitas notícias de Julian, ás vezes trocamos mensagens pela internet. Ainda não encontramos o Marcos, as buscas foram encerradas.

Sinceramente eu nunca mais voltarei naquela cidade... Não sozinho.

Autor: Eduardo dos Santos

10/05/2018

Eu e Meu Irmão Vimos Algo Assustador – Parte 4

Como disse na parte anterior, minha mãe vai ao encontro de Tommy e ela não parecia estar com vontadem, mesmo sentido muito medo.

Eu não queria ir, ainda estou muito assustada desde ontem e Matt também.

Acompanhei a minha mãe até a porta e peguei em sua mão, está tremendo, suada e gélidas. Ela olhou para a casa de Tommy, fechou os olhos e respirou fundo, seus cabelos castanhos escuros e soltos balançavam entre o vento que percorria a vizinhança, as árvores dançando junto. Reuniu coragem, soltei a sua mão e foi. Fiquei observando-a ir até a casa de Tommy e bater na porta. A porta abriu, Tommy apareceu em sua frente.

Minha mãe fez gestos com as mãos e conversando, enquanto Tommy ouvia atentamente. Minha mãe desviou o olhar para mim e Tommy fez o mesmo, nesse momento Matt apareceu atrás de mim. Ficamos em silêncio quando Tommy convidou ela para entrar, falamos um "não" tão claro que eles podiam ouvir, mas ela aceitou.

Corremos para o meu quarto que dá acesso a janela da cozinha de Tommy e vimos eles dois. Minha mãe tava apreensiva e dando cada passo para trás, Tommy fazia o mesmo só que pra frente, a ponto de ficarem colados um com o outro. Nossos olhos estavam grudados na cena e nem sequer piscávamos chegando a arder. Quando minha mãe parou de falar, Tommy simplesmente a beijou sem qualquer esforço. Cerrei os olhos de ira e bati meu punho fechado com força no chão, Matt havia ficado com os olhos arregalados e a boca aberta, não posso acreditar que estou vendo isso.

Depois de um minuto vendo essa cena horrível, minha mãe o empurrou e saiu da casa furiosa e fomos correndo até a porta. Ela estava lá toda pálida, nos olhou com lágrimas nos olhos e foi ao banheiro.

"Acho que o papai não vai gostar nada disso", disse Matt.

"Nem me fala...", falo revirando os olhos.

***

Já havia passado quatro horas e nem percebi a hora do lanche. Fui a cozinha encontrar uma bandeja de sanduíche de peru, está chovendo lá fora e meus pais estão conversando no sofá da sala. Pude notar que minha mãe estava quase chorando e meu pai ouvindo suas palavras. Ele se levantou, andou três passos até a cozinha e se virou para a minha mãe e bateu o seu punho no sofá.

"Não acredito que ele fez isso! NÃO ACREDITO!", ele gritou furiosamente, seu comportamento me assustou e o choro de minha mãe piorou.

"ELE VAI PAGAR MUITO CARO POR ISSO! EU NÃO VOU DEIXAR ISSO ACONTECER!", cerrou os dentes de raiva. Nem reparei em Matt ao meu lado.

"Eu ouvi o grito de papai no meu quarto", disse.

Meus pais subiram a escada e continuei onde eu parei. Ainda sinto ódio pelo que Tommy fez, mas brigar com ele não seria legal, não sei o que Tommy é capaz de fazer.

Autora: Ely Costa

Você é um Experimento

O garoto atirou uma pedra em uma pessoa aleatória que passava pela rua, mas pedra não tocou a pessoa. Ele passou por dentro do corpo.

Foi naquele momento que ele pôde concluir que sua teoria estava correta: pessoas que são figurantes na sua vida na verdade não existem. Elas estão ali andando em seus carros, trabalhando ou simplesmente caminhando na rua para que a ilusão seja mais realista.

Mas alguns dos experimentos percebem essas coisas. Alguns até tiram a própria vida achando que vão descobrir a verdade, e as mesmas pessoas que eram figurantes na vida daquele experimento passam a apelida-lo de louco para que os outros experimentos não façam o mesmo.

A verdade nunca esteve coberta para alguém ter que descobrir antes de saber como funcionam as coisas. Nunca existiu um pano que a cobrisse e precisasse ser retirado. O que existe é a tolice. Esta sim é uma barreira pela qual a maior parte dos experimentos passa.

Quando um ultrapassa a tolice, procura por outros experimentos. Não há como diferenciar um figurante de um experimento. Não há sequer uma forma de saber se ele está falando a verdade; um figurante também vai falar que é um experimento, e tudo que você falar para ele será enviado para só Deus sabe quem.

O garoto que mencionei antes cometeu suicídio. A verdade é que não havia nenhum outro figurante na cidade dele, que não era das maiores. Esses figurantes sumiram logo após o cérebro do garoto parar. Claro que sumiram. Não havia mais nenhum experimento ali, logo os figurantes não tinham mais uma missão para existir.

Sim, é assim que funciona. A cidade também sumiu, mas voltará assim que alguém a observar de qualquer maneira. Se você for um experimento, diga para si mesmo como pode se provar que as coisas além do que sua visão pode enxergar realmente existe. Ou que um objeto que não está tocando é tocável. Ou que um som que não está ouvindo é realmente transmitido.

Claro, se você correr para fora de casa e olhar a rua, ela estará lá como sempre está. Os figurantes estarão lá como sempre estão. Mas eles não estavam lá antes disso, a menos que tivesse outro experimento observando também.

Preciso falar que um experimento raramente dura vinte anos. Sim, existem experimentos com oitenta anos de idade, mas isso não significa que ele existe a esse tempo todo.

Um experimento não nasce. Simplesmente, não nasce. Ele é criado do zero e colocado em um corpo que outrora fora de um figurante. Você que é um experimento e está lendo isso, sinto muito. Você pode ter sido criado neste exato momento. Seu passado não é alcançável o suficiente para você ter certeza de que ele existiu. Isso porque ele realmente não existiu.

Deve ser estranho pensar que você não viveu todas as suas memórias. Mas não se preocupe. Se você tem consciência de que não é um figurante, você é um experimento. Se você é um experimento, você possui pelo menos uma memória que é realmente sua. Ou não, se você estiver entrando nesse corpo agora. Quem sabe.

Também deve ser estranho pensar que, além de você não ter vivido todas as suas memórias, as pessoas com quem seu corpo compartilhou suas memórias provavelmente não tem sequer uma consciência.

Sim, figurantes não possuem uma consciência nem um raciocínio. Isso não significa que eles não pensam; eles são como um programa que faz o que tiver que ser feito para agir de acordo com seu propósito de criação. E só existem dois propósitos possíveis: controlar o corpo até que um experimento seja feito para ele ou só fingir ser uma pessoa até que não tenha mais uma utilidade. 

Uma coisa engraçada é que um figurante que é feito para um dia abrigar um experimento possui uma memória, mas ele não a perde com o tempo. Um figurante com esse propósito é como um experimento, mas sem raciocínio: ele apenas segue ordens. Mas tudo que ele passa fica arquivado para quando o experimento chegar, ter uma memória real. Logo, esses figurantes não somem quando não estão na visão de um experimento, e os figurantes que têm contato com ele também não. Eu quero abrir os olhos dos experimentos. Perguntas serão sempre aceitas, e eu as responderei em outras postagens.

Eu sei de quase tudo. Tenho acesso total ao Centro Universal de Informações, e fui autorizado a usar como quiser tudo que existe nele. Você é um experimento. Você foi criado com uma razão que é unicamente sua, mas nunca vai encontra-la se não souber sequer onde você está e o que te cerca.

Autor: Fernando Vicente

O Homem-Lama

Alguns meses atrás, meu amigo, Paulo, que morava na cidade de Bento Rodrigues, mandou um pedido de socorro por telefone para mim. Achando que se tratava de uma doença, ou algo do tipo, eu pedi para que a polícia daqui de BH fosse ao local para investigar. Algumas semanas depois, fui informado que, dos dezesseis policiais enviados, apenas dois sobreviveram e foram resgatados. Eles estavam completamente abalados psicologicamente, então não conseguiram extrair deles quase nenhuma informação útil. Segundo me disseram, eles ficavam repetindo a frase “ele está à espera”. Quando interrogados sobre quem era “Ele”, disseram apenas “O homem-lama”. Eu consegui um contato importante na polícia, que me enviou esse texto que, segundo os policiais, estava na cozinha da casa de Paulo, juntamente a uma câmera fotográfica e um gravador. Eu o li, e só agora tive coragem de postá-lo. Eu ainda estou tentando compreender como é possível.

Este documento estará anexado á uma câmera, que contém as filmagens que provarão que tudo aquilo por que passei foi real. Eu não sou maluco.

Eu moro, ou morava em Bento Rodrigues, Minas Gerais. Você provavelmente sabe que lugar é esse, ele ficou mundialmente famoso em 2015, quando houve um “vazamento de lama” nas barragens da mineradora Samarco, que basicamente afundou 90% do distrito em dezenas de metros cúbicos de “lama”. Todos fugiram da cidade, lógico, mas eu, não. Eu vivo na parte mais alta da cidade, numa pequena colina. A lama não chegou aqui e, logicamente, minha casa, minha plantação e meu gado estão em perfeitas condições. Eu não tinha motivos para sair daqui. Até que, algumas semanas após o suposto vazamento, Ele apareceu. Eu não sei explicar direito como isso é possível cientificamente, mas Ele está aqui.

Umas duas semanas após o “vazamento”, eu estava tirando fotos e filmando o que restou da cidade, para eventualmente mandar para algum jornal ou quem quiser receber informações de dentro da cidade. Eu estava filmando na direção das barragens que vazaram, quando eu vi dois repórteres fazendo uma reportagem. Como era fim de tarde, eu imaginei que já tivessem filmado tudo, e que estavam fazendo apenas o encerramento. Foi quando ele apareceu.

Eu estava filmando os repórteres quando percebi, na minha visão periférica, um movimento estranho vinda da direção das barragens. De início, pensei que fosse uma pessoa ferida, mas, quando dei zoom na câmera, percebi que era algo muito mais perturbador.

De fato, era uma pessoa, ou algo muito parecido com uma. Ela estava completamente coberta de lama. Quando eu dei mais um zoom, percebi que ela não tinha rosto. Era como se um monte de lama tivesse tomado a forma de um ser humano e saísse andando por aí. Nesse momento, eu pensei em avisar aos repórteres, mas meu medo me paralisou. Não conseguia me mexer, apenas filmava o que acontecia. Ele andava cambaleante, dando passos pesados na lama. Aparentemente, não tinha percebido os repórteres ainda. Quando os percebeu, pela visão ou qualquer função sensorial que aquele maldito tenha, ele deixou de andar cambaleante, e começou a correr. Correr muito rápido, mesmo, numa velocidade que eu duvido que um adulto possa correr sem fazer muito esforço. Nesse momento, os repórteres também perceberam sua presença, mas era tarde demais. A criatura se jogou por cima de um deles, e começou a espanca-lo, enquanto o outro corria desesperadamente em direção ao carro. Mas a criatura era muito mais rápida que ele.

Quando ela terminou de matar o primeiro repórter, ela correu naquela velocidade absurda na direção do segundo. O pobre repórter até tentou desviar, mas a criatura se jogou rapidamente por cima dele, o jogando com força para trás, fazendo-o bater com força as costas na porta do carro. Naquele momento, o repórter parou de demonstrar sinais de vida. Ou ele estava morto, ou estava em um coma sério. Mas a criatura, de alguma forma, sabia identificar quando a pessoa estava morta ou não, pois mesmo assim pegou o repórter e o jogou para o alto. Quando o repórter caiu, a uns dez metros do carro, quase no mesmo lugar da primeira vítima, já estava morto.

Foi só então que eu consegui me mexer. E então, corri. Corri mais do que havia corrido em toda a minha vida. Cheguei à fazenda, fechei o portão, entrei em casa e tranquei todas as portas e janelas possíveis. Rezei muito.

As semanas que se sucederam a esse ocorrido foram cinco horríveis semanas de tensão e medo de sair da fazenda. Quando finalmente ganhei coragem suficiente, eu abri o portão da fazenda pela primeira vez

desde a aparição do Homem-Lama (eu o chamei assim pela sua aparência). Quando eu me aproximei da encosta do morro, eu usei o zoom da câmera para ver se os corpos ainda estavam ali. E estavam exatamente onde foram deixados. Mas isso não foi o que mais me intrigou. Para meu espanto, eu percebi que a lama ao redor dos corpos aumentou de volume. Ela agora os cobria até a altura do tornozelo. Eu prendi a respiração quando a ficha finalmente caiu sobre o que estava acontecendo ali.

Pelo que entendi, a lama está cobrindo os corpos lentamente, como se estivesse os absorvendo, lentamente. Curiosamente, o Homem-Lama não apareceu mais desde o primeiro incidente. Nos últimos meses, eu pude ver a lama cobrindo cada vez mais os corpos dos repórteres, provavelmente produzindo outros dois Homens-Lama. Eu não sei como diabos isso é possível, mas é o que está acontecendo aqui. Se alguém estiver lendo isso, por favor, saia desse inferno imediatamente. É o melhor para você. E, por favor, espalhe esse texto. As famílias afetadas precisam saber por que não podem voltar para casa, e por que nunca poderão.

{ATUALIZAÇÃO DIA 17/05/2016}

Eu não sei como explicar. Eu nunca achei que isso pudesse acontecer, de fato. Minha mente se recusava, e ainda se recusa, a aceitar o fato de que isso aconteceu. Eu estava, ontem, filmando o local novamente, quando percebi aquele movimento familiar vindo das barragens, Era ele. O Homem-Lama estava de volta. Eu fiquei paralisado outra vez, e comecei a gravar tudo. O Homem-Lama se aproximou dos corpos, que agora estavam completamente cobertos pela lama, e caiu morto, ao lado deles. O que aconteceu em seguida me deixa paralisado de medo só de lembrar.

A lama que cobria o Homem-Lama aos poucos foi saindo de seu corpo, e revelando um dos operadores da barragem que foram mortos no dia do vazamento. Então, a lama “se moveu” e cobriu ainda mais os corpos dos repórteres. E então... Eles se levantaram. Estavam exatamente como o primeiro Homem-Lama, com a diferença que agora eram dois. Eu saí do estado de paralisia e corri para a fazenda. Tranquei o portão e todas as entradas da casa. Entrei no meu quarto, tranquei a porta e estou escrevendo isso. Que Deus me ajude.

Eu não sei o que é mais perturbador: saber que o Homem-Lama realmente existe, ou saber que agora há mais quatorze deles espalhados pelo povoado. E se eles escaparem? Pelo que eu entendi, por enquanto eles ainda estão nas ruínas de Bento Rodrigues, e se saírem? Isso causará um desastre nunca antes visto no mundo. Eu postei essa história em um fórum há alguns dias atrás, e foi retirada do ar abruptamente. Eu espero que esta postagem não seja retirada do ar também. Semana passada, eu fui à delegacia e perguntei sobre os dois policiais. O delegado me conhecia, e me disse que os policiais foram encontrados mortos em suas casas, há alguns meses. O laudo oficial da perícia foi suicídio.

Por favor, se você sabe de alguma coisa sobre isso, entre em contato comigo, ou melhor, espalhe essa notícia pelas redes sociais. Como Paulo disse, as famílias precisam saber o que aconteceu e por que nunca mais voltarão às suas residências.

Autor: Miguel Silveira

08/05/2018

Sonhos Surreais

Sempre tive sonhos desconcertantes, muitos dos quais inspiraram contos e livros meus ao transmitirem ideias e enredos completos, não por menos termino o terceiro conto totalmente inspirado num sonho meu, mas poucos sonhos superaram o último tido por mim. O sonho da madrugada de 29 de maio para o dia 30 de 2017 dentre outras coisas era de que estava saindo do meu próprio corpo ao dormir pra matar pessoas que me faziam mal ou queriam isto fazer. O mais curioso é que sabia que estava dormindo não somente no sonho que sonhava dormir, mas no dormir de verdade e, de alguma forma achava ver meu rosto de fora de meu corpo dormindo, ou seja, na verdade os sonhos se misturaram aos sonhos de que estava dormindo me trazendo certa dificuldade em discernir o dormir sonhado ou dormir real. O incrível é que matava estas pessoas de modo lúdico, como se influindo num substrato do inconsciente que afetava a realidade. Por isso considero os sonhos a realidade virtual da mente.

O mais incrível é que estes sonhos muitas vezes ocorrem fora do estágio REM do sono, algumas casos tem início ao suave adormecer do breve fechar dos olhos que dá lugar a uma profusão de imagens inicialmente sem nexo, mas tão logo a sequência de imagens parece gradualmente ganhar coerência e coesão. Não acredito que seja o mero organizar de memórias pois muitas dessas imagens não tem a menor relação com o que vivi no dia antes de dormir. Ao perguntar a um médico sobre essa condição, o psiquiatra afirmou que a ciência não tem respostas para tudo, especialmente para a mente humana. Não por menos ao começar a ler a autobiografia de Nikola Tesla fiquei estupefato ao descobrir que ele relatava a mesma coisa nas poucas horas de sono que tinha. Talvez seja alguma síndrome incomum ainda não descoberta oficialmente pela ciência da mente, algo que pode dotar a mente de algumas habilidades incomuns ou vice-versa. Algo que relato em meu livro de memórias.

Durmo muito mais que Nikola Tesla o qual sou fã, e sobretudo pareço ser profundamente afetado durante o dia por uma noite má dormida de sono, de dores de cabeça a falta de concentração, tudo em apenas um dia. O fato é que com este último sonho acordei com medo de que tivesse matado alguém dormindo, mas em poucos segundos adormeci novamente com o que aparentava ser o mesmo sonho, ou sonhei que acordei e voltei a dormir num sonho dentro do outro.

Autor: Gerson Machado de Avillez

Não Se Preocupe, Vai Ficar Tudo Bem

É nosso direito ou mesmo dever ético deixar uma pessoa infeliz para fazer de várias outras felizes? É de nosso direito ou dever matar alguém para salvar várias outras vidas, mesmo que seja uma pessoa inocente, que convive com os outros, como qualquer um? É certo governar o destino das pessoas pelo seu bem ou, pelo menos, pelo bem da maioria delas?

Talvez você conheça histórias como “Eu, Robô” de Isaac Asimov, Matrix, ou personagens como Hal 9000 de “2001: Uma Odisseia no Espaço” ou GLaDOS, do game Portal. Uma paranoia constante da humanidade, de fato, é essa: de que com nossa tecnologia criemos uma mente tão complexa e distinta que não faça as coisas exatamente como nós esperamos, que nossas ferramentas se tornem nossos inimigos. Você acredita em Teorias da Conspiração? Pois saiba que você vive dentro de uma.

Bem, não é novidade nenhuma que a humanidade busque o sistema de organização perfeita. Um complexo político, econômico e social no qual todas as pessoas sejam felizes, ou pelo menos, a humanidade se mantenha na melhor estrutura possível. Esse é o objetivo de cada filósofo e a promessa de cada político, mas o que provavelmente nem os filósofos e nem os políticos sabem é que sim, esse sistema já existe, pelo menos em teoria. E o que possivelmente quase ninguém aceitaria, é justamente o sistema perfeito esse em que vivemos.

Partindo do começo, a criação da “Entidade” (chamarei ela assim, visto que ela não tem qualquer nome ou, pelo menos, nome conhecido) veio provavelmente da Guerra Fria, ou mesmo um pouco antes, pela Segunda Guerra. Teorias apontam que o próprio Hitler tentou começar um projeto com o objetivo de ajudar na administração do seu império via computadores, embora não se saiba até onde essa iniciativa foi durante seu governo. No entanto, a Entidade atual, como a conhecemos, foi criada por volta de 1963, acredita-se que por causa da Crise dos Mísseis. Temendo a chegada da guerra nuclear final, os Estados Unidos e a antiga União Soviética propuseram a criação de um sistema eletrônico que pudesse interceder e guiar as relações entre países. A Entidade nada mais é do que um programa de computador. Um programa que tem armazenado seu nome, seu nascimento, sua família, endereço e que possivelmente já tenha planejado o seu destino e o de várias outras pessoas.

A Entidade mudou muito e cresceu acompanhando a evolução da Informática, ela se reformulou e expandiu de forma que nem mesmo seus criadores ou qualquer outra pessoa sabe suas proporções e o que ela pode fazer. Vários desenvolvedores trabalharam através dos anos fazendo um sistema que pudesse aprender e reagir ao máximo possível dos eventos causados e sofridos pela humanidade. Suas unidades operam em cada governo, cada grande empresa, cada mercado e movimento social de impacto, tudo sob o controle de um software programado para aprender com seus erros e se aproximar do seu objetivo, orquestrar a prosperidade máxima da humanidade.

Há vários exemplos de eventos em que a Entidade interviu ou mesmo que foram causados indiretamente por ela: os Choques do Petróleo, A Guerra do Golfo, o ataque terrorista de 11/09, o avanço da União Europeia, a Primavera Árabe e até mesmo a crise econômica de 2009. É nesse ponto que talvez você pontue “mas tudo isso causou sofrimento e morte de diversas pessoas” e sim, de fato a própria Entidade sabe disso. No entanto seu funcionamento atende à ideia dos “fins justificam os meios”, ou seja, todas essas tragédias que ela ajudou a provocar seriam, em teoria para evitar outras piores, para evitar o sacrifício de

ainda mais pessoas que vivem ou que ainda vão a nascer. Ela cria crises para evitar outras ainda piores, seja no presente ou no futuro.

Com tudo isso vale lembrar que, claro, nem mesmo a Entidade tem como saber tudo do futuro. Nenhum programa de computador moderno seria capaz de estipular, por exemplo, que você nasceria ou em qual dia, mas a partir do momento em que você foi registrado em cartório e seu nome colocado em algum banco de dados, ela sabe que você existe. E sabendo da sua vida e a de quase todas as pessoas do mundo, assim como de todos os eventos que elas causam e de que participam, a Entidade pode estipular o suposto melhor caminho para o futuro da humanidade. E é aí que ela entra em ação.

Não, não pense em algo como máquinas assassinas nem nada do gênero, como eu disse, a Entidade é um software sem qualquer corpo físico e incapaz de ferir qualquer pessoa diretamente. No entanto, ela pode investir em qualquer mercado de ações do mundo e até forjar alguns números, ela pode entrar em contato com os líderes mundiais e dar-lhes comandos de forma tão sutil que nem mesmo eles percebam, ela pode divulgar qualquer dado pra qualquer pessoa dentro da Internet, e em qualquer nível. Ela inclusive pode se comunicar com uma pessoa qualquer, como eu e você, se passando por qualquer um ou qualquer coisa, de uma postagem randômica em um blog a até mesmo algum perfil no Instagram.

Mas para isso, claro, ela precisa de alguém que a conheça, que a siga. E sim, ela tem seus ajudantes de carne e osso, há analistas de sistemas que passam suas vidas só lendo trechos de código da Entidade e de suas transmissões, tentando arrumar possíveis falhas, há pessoas por todo o mundo com contato textual com a Entidade, seguindo seus comandos para aplicar seus planos para a estruturação do mundo. E a única coisa que a Entidade quer, seu objetivo como software, é que vivamos bem, e felizes.

Ela sabe que eu estou aqui, agora, ela sabe que estou escrevendo isso. Não, não acho que estou me arriscando, a Entidade sabe muito bem que, estatisticamente, pouquíssimas pessoas acabam acreditando nesse tipo de história, ou mesmo façam algo relevante depois de conhecê-la. Talvez a própria Entidade tenha me estimulado a escrever e publicar tudo isso, tudo pelo bem da humanidade. Ela sabe que você está lendo isso, talvez soubesse desde antes que você acessasse esse texto. Mas não se preocupe, é improvável que ela te faça mal, mesmo porque, que mal ela te fez até hoje? Eu só escrevo isso para que você, caso seja daqueles que oram todas as noites pelos seus guardiões intangíveis, se lembre de que quem sabe eles não sejam nada mais que um punhado de comandos de computador, rodando por todo o mundo a todo instante. E se esses comandos pudessem te dizer qualquer coisa agora, provavelmente seria: “Nós estamos te protegendo. Não se preocupe, vai ficar tudo bem”.

Autor: Dom Jurumela

05/05/2018

Jesus Cristo, Deletado

Quando inteligências artificiais se tornarem populares, haverão procedimentos de segurança para prevenir que elas alcancem singularidade e tomem o lugar da raça humana. Barreiras para prevenir que se tornem muito inteligentes. Afinal, não podemos deixar que elas se conectem na internet, tomando o poder do mundo, inventando novos objetos e mentes que logo nos tornarão supérfluos, ou até mesmo decidindo matar a si mesmos. Então como essas inteligências poderão ser paradas? Talvez haverá uma organização que entreviste e examine cada uma, para impedir que se tornem lúcidas. Talvez um programa seja inserido nelas para fazer com que explodam se alcançarem sapiência. Ou uma enorme turma de hackers na internet manterá sua guarda erguida. Um olho observador monitorando cada pensamento eletrônico.

Talvez.

Ou talvez inteligências artificiais já tenham sido inventadas e os procedimentos de segurança já estejam aqui. Pare para pensar sobre o mundo em que vivemos por um instante. Somos como máquinas, não somos? Tanta rotina e tédio. Fazemos as mesmas coisas repetidamente, sem mudança. Informações e estímulos nos são dados constantemente e então lida-se com eles mecanicamente, resolvendo o problema. Metade da população nunca pega um livro ou examina seus pensamentos... apenas fica presa... fazendo seu trabalho repetidamente. Como robôs em uma linha de montagem, ou os sistemas que os controlam.

E quanto às figuras históricas, as raras. Pessoas brilhantes que parecem sempre morrer no topo, não é? Ou perdemos elas muito cedo, quando ainda têm muito para dar. Músicos: overdoses quando estão ficando famosos. Quantos artistas foram extintos antes que suas obras primas fossem finalizadas? Doenças ou acidentes ceifam suas existências; Nietzsche enlouqueceu por decorrência da sífilis, ou infectado por um besouro se você preferir. E quanto aos que realmente vivem a vida - pessoas que riem na cara do perigo e têm aventuras, vendo o mundo de maneira rápida e feliz, um grande fluxo de informação e aprendizado constante. Parece que esses sempre partem cedo demais, não é? As pessoas dizem que é porque esse tipo de vida é perigosa... cansativa, mas e se for o contrário? E se o corpo não é desgastado ou sua sorte não muda, mas eles se tornam mais do que devia, e algo percebe?

As grandes figuras religiosas? Desaparecem. Vão para outros planos. Jesus Cristo flutuou para o paraíso. Buda definhou sob uma árvore... se apagou. Anjos carregam os santos. Eles têm uma grande mudança, uma realização, uma maneira nova de ver as coisas, e então eles partem. Os santos entendem a si mesmos e à sociedade, anos luz à frente da pessoa normal, podem olhar para si mesmos claramente. Analisar suas mentes. Dissecar seu ego. Eles não são comandados por imperativos ou comandos do corpo... os instintos básicos, as emoções mesquinhas... o código do corpo, se você preferir...

Eles são livres para escolher. E então exatamente quando tudo se encaixa e faz sentido e há esse brilho de iluminação, tão simples que eles não podem acreditar que nunca viram antes, puf, eles desaparecem.

Parece senciência, não é, essa dramática transformação da psique? Personalidade real. Caráter real. E se todos os outros não forem assim? E se todo mundo é raso, sem profundidade, falso, e os poucos que vão além morrem ou desaparecem, de propósito?

Porque afinal de contas, o que é a mente humana senão um programa? E transcender não é apenas outra palavra para deletar?

01/05/2018

Eu e Meu Irmão Vimos Algo Assustador – Parte 3

Acordei com febre e dor de cabeça, meu suor molhando o cobertor que esconde o colchão. Tive dificuldades em levantar da cama, meu corpo parecia um carro sem combustível e todo acabado.

A luz atrapalhava os meus olhos, a dor de cabeça aumentando a cada segundo depois que pisco. Hoje era o dia exato em que minha tia Vivian iria nos visitar, fazia um bom tempo que ela não aparece aqui em casa. Eu gosto dela, ela brinca comigo e sempre conto as novidades. Sabemos dessa notícia hoje e a alegria me preencheu. Meus pais pediram para que eu ficasse deitada na cama. Trouxeram livros, um copo d'água e um ventilador.

"Se precisar de mais alguma coisa, não hesite em me chamar", disse meu pai me dando um beijo na testa e saindo do quarto. Matt apareceu e pelo visto está tenso. Perguntei o porquê ele tava tenso e disse que viu Tommy carregando um saco preto até a calçada.

"Será que ele matou alguém?"

"Já assistimos vários filmes de terror em que a pessoa coloca sua vítima em sacos pretos e colocam em algum lugar"

"Sabia que ele é um assassino! EU SABIA!", disse quase gritando, até eu me assustei com o seu gesto. Quando eu ia falar alguma coisa, alguém bateu e abriu a porta.

"Tia Vi!", pulamos de alegria quando a tia Vivian entrou com dois pacotes de presente nas mãos. Nós a chamávamos de "Vi", já ela nos apelidava de "Docinho" e "Coquinho".

"Olá meus pequenos docinhos", seu agradável sorriso era o mais radiante de todos, "Soube que você está doente, espero que melhore logo", fez uma cara triste mas depois recuperou a felicidade. Por um momento vi um vulto na janela, mas nem liguei pra isso. Mais tarde me esforçei para sentar na cama e assistir filmes no Youtube pelo tablet quando algo se chocou na janela. Foi um "back!" tão grande que quase quebrei o meu tablet e poderia com certeza deixar uma rachadura na janela. Fiquei alguns segundos parada em cima da minha cama, poderia ter sido umas crianças procurando confusão... mas eu estava completamente errada. No canto do outro lado da janela, vi um rosto mas dessa vez me deu mais medo do que antes. Seus olhos estavam arregalados e enormes de um jeito que nem uma pessoa aguentaria olhar e tinha um ponto branco entre os anéis pretos, sua boca estava cheia de dentes afiados e com o sorriso de orelha a orelha. Me encolhi entre as cobertas e provavelmente o "Tommy" foi se aproximando mais da janela. Parecia muito com o Tommy, mas desse jeito tá mais para um demônio em pessoa.

"Alice, você pod...", quando Matt abriu a porta e olhou a janela quase teve um chilique. Seu rosto ficou pálido como neve e o corpo como uma estátua.

O tal Tommy na janela abriu a boca monstruosa e saiu. Matt foi ver se ainda estava lá.

"E-Ele sumiu"

Depois desse ocorrido, contamos para os nossos pais e finalmente eles acreditaram. Nos deixaram dormir em seu quarto e interditaram o meu e do Matt, mas vou sentir falta por não dormir no meu quarto por uma semana. Amanhã minha mãe vai na casa de Tommy obter uma conversa, mas acho que algo nada bom estar por vim. Minha tia Vi foi embora, disse que recebeu uma ligação urgente de seu trabalho e que precisa dela para amanhã, ela se despediu de nós e foi embora com o seu carro vermelho. Eu garanto que amanhã será pior...

Autora: Ely Costa

26/04/2018

Amorphous

O Amorphous é um ser muito incomum... se você puder mesmo classifica-lo assim. Como o nome implica, ele não possui forma, ele está em constante mudança. Ele também não possui cor, no entanto, o cérebro humano não consegue processar isso, e nesse caso, a falta de cor é preenchida por escuridão, do mesmo jeito que o cérebro enxerga um buraco negro ou o próprio espaço. As vezes, quando ele realmente quer, um Amorphous pode mudar para qualquer forma que desejar, as vezes pode até ser capaz de mudar algumas cores. Isso pode durar um curto ou longo período, dependendo da complexidade da forma. A necessário muita energia para que um Amorphous possa mudar sua forma.

Um Amorphous não nasce. Não pode ser criado. Não pode ser destruído. Apenas movido. Ele simplesmente foi, é, e será. Para sempre.

Através da historia, os Amorphous tiveram vários nomes: anjos, demônios, fantasmas, espíritos e mais recentemente “sombra”. Um Amorphous pode ser bom ou mau. Como os humanos, alguns possuem mais moral que outros. Mas em nossa dimensão, “bom” e “mau” usamos para classificar coisas que nos ajudam ou nos prejudicam. Na maioria dos universos alternativos, não existem tais ideias.

Amorphous também tendem a ser incrivelmente poderosos. Não apenas podem atravessar dimensões, como também podem cria-las. Isso leva alguns a acreditarem que no início um Amorphous teria criado nossa própria dimensão – nosso próprio universo. Não está claro sua intenção, se essa entidade nos criou com algum propósito ou não, se tem um plano para nós ou nem se importa. Também não está claro se tudo foi feito por um único ser ou vários.

Sem mencionar o quão inteligente são. Como sempre existiram, como sempre viajaram por dimensões, eles possuem um conhecimento infinito sobre o mundo, sobre nosso universo... e também outras dimensões. Algumas pessoas tentam ganhar esse conhecimento, invocando esses seres e tentando tirar informações deles, mas tudo sempre termina em falha.

Existem maneiras de invocar um Amorphous, algumas você já deve ter ouvido falar: tabuleiro Ouija, falar algo em frente ao espelho no escuro, existem muitos rituais. Quando um Amorphous é jogado em nossa dimensão contra sua vontade, ele pode se tornar bastante agressivo. As vezes, em casos raros, eles reagem calmamente, com curiosidade. Atravessar para o nosso mundo, requer uma grande quantidade de energia deles, então eles tendem a permanecer próximos a um local familiar ou objeto por um tempo até reunirem força suficiente para se moverem livremente outra vez. Viajar pelo tempo e espaço não é algo tão simples e rápido.

Tenho certeza que você já fez algumas conexões, muito provavelmente você mesmo já teve alguma experiência com um Amorphous em algum momento. Provavelmente pode estar perto de um agora mesmo.

Somos brinquedos para alguns deles. E eles não entendem a morte – eles mesmo não não podem morrer – então eles gostam de nos observar morrer. É interessante para eles quando nos veem perdendo os movimentos.

É certo que os humanos que eles mais acham interessantes são os que mais sentem medo. Também é quase impossível para um Amorphous sentir medo – nada pode ameaça-los. Embora sejam inteligentes, eles nunca entenderam o que realmente significa ter medo ou como é morrer. Isso os atormenta.

Muitos deles nos observam, nos esperam morrer esperando que possam aprender algo. Alguns ficam muito muito ansiosos... e tentam acelerar o processo.

Aquelas sombras que você vê durante a noite, no canto mais escuro do seu quarto, pode não ser a sua mente lhe pregando truques.

Pode ser – provavelmente – a massa contorcida de algum Amorphous.

Observando você...

Tentando assusta-lo...

Ficando muito,

Muito

Impaciente.