17/05/2018

Distopia: Episódio 2 (Preview e Avisos)

Perdeu a primeira parte da história? Clique aqui e leia agora: https://goo.gl/mP6v8G

Episódio 2 - Poderia ser Real?

- E então? Tá nervoso? - perguntou minha mãe, dois segundos depois de estacionar o carro.

- Nervoso? - retruquei, confuso.

- É o seu primeiro dia de aula. - começou a explicar. - Escola nova... Ensino-Médio... Não tá nem um pouquinho nervoso?

Permaneci encarando-a, estático. Não tinha certeza se entendia o que ela estava dizendo.

- Eu me lembro do meu primeiro dia de aula do ensino-médio como se fosse ontem. - gargalhou. - Pergunte para sua vó qualquer dia desses. Eu quase pirei de nervoso!

Perguntar a vovó? Mas ela não está morta?

- Se ela não estivesse lá, eu teria dado meia volta e ido para casa, com certeza! - disse ela ao vento. Pude sentir o pesar em sua voz.

Ela é mesmo minha mãe? Seu rosto é familiar, mas não sinto como se a conhecesse.

Eu sabia que deveria dizer alguma coisa, mas não conseguia pensar em nada. Tudo o que eu queria era sair do carro e me livrar daquela sufocante e incomoda sensação.

- Eu preciso ir agora, mãe... - disse eu finalmente.

- Fica mais um pouco. - pediu ela de um jeito triste.

Um silêncio desconcertante se iniciou a partir dali e se manteve até que minha mãe achou que seria uma boa ideia ligar o rádio.

O som agudo e inconstante como milhares de unhas arranhando um quadro negro das estações sendo trocadas me causou uma agonia que jamais havia experimentado antes.

"...Acho..." - ouvi a voz de um homem idoso.
"...Que talvez..." - a de uma mulher.
"...Se..." - talvez um garotinho.
"...Ja..." - várias crianças ao mesmo tempo.
"...Melhor..." - a voz grave de um homem
"...Correr..." - uma voz séria e distorcida.

Engoli em seco. Eu devia estar ouvindo coisas.

Quando minha mãe finalmente encontrou a estação que parecia estar procurando, ela levou seus olhos aos meus de forma estranha e disse:

- Eu te amo, filho.

Pude sentir meu cenho franzir e uma tensão me invadir na mesma hora.

- Eu também te amo, mãe... - me forcei a dizer.

Meu desconforto era surreal. E a música que começou a tocar no rádio deixou tudo ainda mais perturbador do que já estava. Minha mãe nunca ouviria algo assim.

The Vogues - Turn Around, Look At Me.

"Há alguém andando atras de você..."

- Eu sei, meu amor. - disse ela, com um grande sorriso estampado no rosto. - Melhor você ir agora. Não vai querer se atrasar no seu primeiro dia, não é, A...?

"A". Foi a única letra do meu nome que ela conseguiu pronunciar antes de travar como um vídeo rodando em uma internet ruim.

- Mãe?

"...Vire-se, olhe para mim..."

- Mãe?!

Passei rapidamente as mãos em frente aos olhos dela, mas ela não esboçou nenhuma reação.

- Meu Deus...

Apavorado, peguei o celular em meu bolso, procurei pelo contato do meu pai e abri sua janela. Mas antes que eu pudesse digitar alguma coisa, uma mensagem dele chegou:

"Corra!"

Senti meu coração explodir dentro do peito, um frio tão intenso quanto o de Moscou subir minha espinha e minhas mãos estremecerem de forma tão inconsciente e bruta que meu celular voou direto para o chão do carro.

Levei meus olhos à minha mãe com cautela, e no momento em que meus olhos se encontraram com os dela, senti que havia alguma coisa diferente.

- Mãe, você tá bem?! - perguntei, com medo de que houvesse alguma resposta. - Mãe?

O que estava diferente? Sua postura? Seu cabelo? Talvez seus olhos?

Não...

Era o sorriso dela. Não era mais o sorriso acolhedor de uma mãe, era um sorriso tétrico; inexpressivo; sombrio, como uma Monalisa planejando o assassinato de Da Vinci enquanto do interior do quadro o observa dormir.

"...Hááá... aaalguééém... veeendooo... ossss... seeeeuuus... paaassooosss..."

Quando me dei conta, a música havia se tornado arrastada; distorcida; mais alta. Era como uma canção de ninar cantada pelo diabo.

"...Dêêê... aaaa... voooltaaaa..."

Com os olhos presos nela, levei cautelosamente minha mão esquerda à maçaneta da porta do carro e a puxei, mas nada aconteceu.

"... Olheee paaaraaa miiiim..."

A maçaneta parecia uma mera ilustração não interativa no carro. Puxei, puxei e puxei com toda a força que tinha, mas ela nem se quer se mexeu.

"...Hááá aaalguééém queee reeeaaalmeeenteee preeeciiisaaa deee vooocêê..."

Minha respiração acelerou, meus olhos arderam em brasa e uma súbita tempestade se iniciou nas nuvens cinzentas que eram meus olhos.

"... Aquiiii eeestoooouuu, cooom ooo coooraaaçããããooo naaa mããããooo..."

- Socorro! - comecei a gritar. Último recurso do desespero, eu acho. - Alguém me ajuda, por favor!



"... Viiireee-seee (viiireee-seee), OOOlheeee paaraaa miiim, (OOOlheee paaaraaa miiim)..."

- Tem alguém ai fora?! Por favor, me ajuda! Socorro!

"...EEEnteeendaaa... EEEnteeendaaa...."

Gritei por um bom tempo antes de finalmente me convencer de que não havia ninguém lá fora para me ouvir ou ajudar.

- Respira fundo, Adam... - sussurrei para mim mesmo. - Não surta...

"...Hááá aaalguééém queee aaapaaareeeceeerááá aaaooo seeeuuu laaadoo..."

Espiei o cenário que as janelas do carro me permitiam ver, e só então me dei conta de que a vida lá fora estava tão congelada quanto a vida dentro do carro.

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

As árvores estavam turvas como vultos; as folhas planavam imóveis sobre o céu avermelhado; os carros permaneciam parados na rua como assombrações em fotografias antigas; e as pessoas eram como monumentos de cera expostos à céu aberto. Era como se o planeta tivesse simplesmente parado de girar.

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

De repente, a música agarrou, passando a repetir várias e várias vezes o mesmo trecho.

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

"... Viiireee-seee... OOOlheeee paaraaa miiim..."

- Para com isso, mas que inferno! - gritei, golpeando o rádio do carro com os pés várias e várias vezes.

Depois de cinco ou seis chutes, o rádio finalmente desligou, dando lugar a um silêncio ensurdecedor.

Suspirei, aliviado. Fechei os olhos e recostei a cabeça no banco por um breve momento.

- O que eu faço agora? - pensei alto.

"... Vire-se, olhe para mim, Adam..."

Não era a música desta vez. Pude sentir o ar quente e o ruído incontínuo - que mais parecia o respirar de um fumante à beira da morte - adentrar meu ouvido direito no momento em que as palavras foram sussurradas.

Tremula e cautelosamente virei-me para a figura ao meu lado. Pude ouvir o som agudo e inconstante idêntico ao de milhares de unhas arranhando um quadro negro tocar no rádio no exato momento em que meus olhos se encontraram com os da coisa.

"As árvores não estavam mais turvas
As folhas haviam chego ao chão
Os carros haviam partido
E a coisa ao meu lado agora tinha o meu coração"

Recitou o que parecia um coral de crianças na estação que havia parado.

- M-Mãe?!

- OLHE PARA MIM, ADAM!

1 de Janeiro de 2025

- Adam! - Ouvi a voz de alguém gritar ao mesmo tempo em que senti meu corpo sacudir.

Abri os olhos abruptamente, e de forma brusca me afastei das mãos que me tocavam.

- Calma, filho! - disse minha mãe, pegando-me pelos ombros, tão assustada quanto eu. - Você tá bem?

- Nossa, mãe! - disse eu, tão rude quanto o bater de meu coração.

- Levou um susto, foi? - gargalhou.

- Só pega leve da próxima vez... - suspirei. - Sem gritos.

- Eu tentei, né... - começou a explicar. - Mas seu sono estava tão pesado que por um momento achei que estivesse morto.

- Estou vivíssimo. - assegurei. - Posso voltar a dormir?

Ela franziu o cenho.

- Você não bebeu ontem, não é?

- Ontem? - indaguei, confuso.

- É, na tal festa de Ano Novo que você foi com o Zack.

- Ah, é... A festa! - dei um tapa na minha testa, e lancei à ela um sorriso. - Não, claro que não, mãe.

- Tem certeza? - perguntou, tão séria que fez minha espinha gelar.

- Tenho, mãe. - revirei os olhos. - Acha mesmo que eu sou esse tipo de pessoa?

- Então você não é esse tipo de pessoa? - seu tom de voz idêntico ao de Rochelle de Todo Mundo Odeia o Chris.

- Não. - respondi, com firmeza.

- Então que merda é aquela ali, Adam?! - esbravejou, apontando o indicador para o pé da minha cama.

Reclinei-me exitante na direção de seu dedo, e...

Que merda..., pensei.

Havia uma gigantesca poça de vômito ao pé da minha cama e milhares de partículas esverdeadas por todo o resto do cômodo. Era como se eu tivesse literalmente explodido na noite anterior.

- Mentir para mentiroso?! Sério, Adam?!

E assim se iniciou a primeira sessão de esporro da minha vida.

- Sabe quem vai ter que limpar essa merda toda, pendejo?! Pois é! Sou eu, hijo de puta!

- Eu po...

- Nem. Pense. Em. Abrir. A. Boca. Adam! - me interrompeu ela, antes mesmo que eu pudesse assegura-la de que EU limparia tudo.

- Mãe, eu...

- Só... - suspirou. - Só me diz que não esqueceu da sua entrevista, por favor.

- Ai meu Deus... - senti cada centímetro de meu corpo arrepiar. - Que horas são?!

- Seis e meia, Adam! - respondeu imediatamente, furiosa. - Você não é mais criança, meu filho! Tem que começar a se virar sozinho. E se eu não tivesse te acordado? E ai? Como iria ser? Me diz, Adam! Você iria perder a entrevista! iria perder a maior oportunidade da sua vida de ser o que sempre quis ser. E por causa de que?! De bobeira! Porra, toma juízo, cara! Eu não vou tá aqui para sempre não!

Pensei em responder ao discurso de "mãe em fúria" dela por achar que ele não condizia nem um pouco com o tipo de filho que eu era na maior parte do tempo, mas cheguei a conclusão de que era melhor engolir as palavras que decolaram até a garganta e deixar para lá.

- Desculpa, mãe... - disse finalmente, fitando minhas mãos para não encara-la. - Não vai acontecer de novo. - levei meus olhos aos dela com muita coragem. - Prometo.

- Ótimo. - disse ela, forçando um sorriso. - Agora vá se arrumar e tomar café. Assim que terminar de limpar essa bagunça eu desço para te levar para a entrevista.

- Tudo bem...

Levantei-me da cama e caminhei até a saída do quarto me sentindo o cara mais babaca do universo. Era engraçado como minha mãe dominava a arte de me fazer sentir a pior pessoa do mundo por vacilar com ela.

- Não está esquecendo de nada? - perguntou ela, assim que cruzei a porta do quarto.

Dei meia volta, adentrei o quarto, e de cara me deparei com o terno que havia separado para usar na entrevista apoiado na cadeira do computador.

- O que seria de mim sem você, né, mãe?

Peguei o terno, dei um beijo na bochecha dela, saí do quarto, e ligeiramente desci as escadas que levavam ao primeiro andar.

- Bom dia, Jarvis! Bom dia, Floki!

Jarvis, que na verdade se chamava T-83 antes da minha mãe alugar os filmes do Homem de Ferro, era um robô faz-tudo que meu pai construiu para ajudar a mim e a minha mãe durante o tempo em que ele viveria na Inglaterra para "fins científicos", como ele mesmo descreveu. No entanto, não muito tempo depois que ele partiu, descobri que na verdade eles tinham era se divorciado. E adivinha quem me contou? Pois é, o Jarvis. Eu e meu pai só conversamos por Skype desde então.

Floki era o meu cachorro, e assim como Jarvis, era mais uma obra tecnológica do meu pai, que além de ser alérgico a cachorros de verdade, acreditava que eu não estava pronto para correr o risco de ter o coração partido por um animal de estimação mortal. Irônico, não?

- Bom dia, senhor Miller! - respondeu Jarvis. - Parece que o grande dia chegou, não é mesmo?

- Pois é, Jarvis! - disse eu, enquanto acariciava a carcaça de metal de Floki. - Finalmente!

- Não esqueça de se hidratar antes da entrevista. - aconselhou Jarvis. - Preparei alguns biscoitos para você. - notificou em seguida, tirando um tabuleiro do forno, e servindo os biscoitos em um prato de vidro branco.

- O meu favorito! - exclamei, sentando-me à mesa e pegando um biscoito.

- Esse mesmo! - respondeu.

- Já disse que você é o melhor, J-J?

- O tempo todo!

Sorri para ele.

- Sorrindo de volta. - informou Jarvis. Ele sempre descrevia em palavras suas reações físicas por incapacidade de demonstra-las fisicamente.

- Eu sei, amigão! - lancei à ele uma piscadela. - Pode pegar um pouco de leite para mim? E ligar a TV, por favor?

- É para já, senhor! - disse, ligando a TV, e caminhando em direção à geladeira em seguida.

"Mesmo depois de terem se passado quatro anos, o curioso caso do "viajante do tempo", Desmond Greene, ainda intriga as autoridades. - disse Castiel MacWilliams, o apresentador do noticiário da manhã."

"Nova York nunca esquecerá o que aconteceu naquela noite. Uma tragédia! - disse Grant Graham, o policial responsável pelo caso "Greene"."

"O senhor acredita que ele estava dizendo a verdade? - perguntou MacWilliams à Graham."

"Olha, é difícil dizer. Foi tudo uma grande loucura, sabe? Mas segundo o que temos, tudo indica que sim. - respondeu Graham."

"Ouviram isso? Que loucura! E é verdade que o corpo do Desmond e do homem na cabana são fisicamente idênticos?"

- Aqui está, senhor. - disse Jarvis, posicionando um copo de vidro ao lado do prato de biscoitos, e despejando o leite dentro dele logo depois.

- Valeu, J-J! - disse eu, sem tirar os olhos da TV. - Você é o melhor!

- Lançando ao senhor uma piscadela. - notificou, e afastou-se em direção ao sofá, onde passava a maior parte do tempo ou em Stand By ou assistindo Masterchef.

"Sim, é verdade. Segundo os testes feitos com o DNA do garotinho, do Desmond e do corpo que encontramos na cabana, sim, são a mesma pessoa. Como isso é possível? Não faço a menor ideia."

"E quanto a causa da morte do homem? Suicídio ou assassinato?"

"Tá ai uma coisa que ainda não sabemos."

"O que o senhor acha que ele quis dizer com aquela frase que, literalmente da noite para o dia, se tornou viral em todas as redes sociais populares?"

""Eu sou a consequência não calculada de suas invenções do futuro..." ?" - perguntou Graham."

""...Não inventem máquinas do tempo!" - completou MacWilliams. - Essa mesmo!"

"Eu não faço ideia, mas talvez não devêssemos mesmo inventar máquinas do tempo. - brincou Graham."

"É verdade! - MacWilliams gargalhou. - Mais detalhes sobre o caso Greene serão divulgados após os comerciais! Nos vemos já, já! - anunciou."

Peguei meu celular em meu bolso, procurei pelo contato do Zack, e enviei uma mensagem para ele. Zack era tanto meu melhor amigo, quanto era louco por tudo o que tivesse relação com viagem no tempo.

"Viu que estão falando sobre o Greene no noticiário do canal quatro?" - perguntei.

Bom, primeiramente, deixe-me explicar a razão desta mensagem: Em 2021, quando aconteceu a coisa toda do "Caso Greene", e os noticiários da TV e as pessoas da internet não paravam de falar sobre o quão misteriosa era a história toda, Zack, como o louco que já era pelo assunto, agoniado pela falta de respostas por parte da mídia e movido pelo sonho de ser o herói de uma pátria, se sentiu na obrigação de começar suas próprias investigações e teorias sobre o caso "para o seu bem e do mundo".

Por mais incrível que possa parecer, ele realmente descobriu muita coisa que os grandes meios de comunicação não conseguiram. Ele até chegou a ganhar uma grana preta vendendo as informações que conseguia para jornais locais da época.

"O que você acha, Bro?" - respondeu alguns minutos depois. "Não disseram nada que eu já não soubesse."

"As vezes eu me esqueço da vadia que você é quando se trata de viajantes do tempo."

"História assim eu chupo até a última gota *cara de lua*"

O grande problema do romance entre Zack e o "Caso Greene", foi que a cada nova descoberta que ele fazia, o nível de obsessão dele pelo cara e por tudo o que estivesse relacionado à ele só aumentava, chegando à um nível em que frases como:

"Cara, você precisa assistir a trilogia "De Volta Para o Futuro", é incrível."

Se tornaram:

"Mano do céu, você precisa ler sobre o "Caso Greene", é fantástico!".

E mensagens como:

"Vamos ao cinema assistir o novo filme dos Vingadores?"

Se tornaram:

"Vamos ir interrogar um garotinho que estudou com o Desmond?"

Acredito que não seja um equívoco dizer que Desmond Greene era para ele o que Justin Bieber costumava ser para as garotas virgens e retardadas de 2011.

"Risos" - disse eu

"A propósito, já estou saindo de casa. Não se atrase. Fui-me!" - disse ele por fim.

Eu teria avisado que iria me atrasar (e muito) se ele não fosse tão apressado.

"Okay." - respondi.

Comi o último biscoito, matei o leite no copo, pus as louças na pia, e...

- Bom, só falta tomar banho e escovar os dentes. - pensei alto.

Então, foi o que fiz.

[...]

- Mãe, tô pronto! - gritei do pé da escada.

- Tá bom, já tô indo! - gritou de volta.

Caminhei até o sofá e sentei-me ao lado de Jarvis, que parecia estar no décimo sono.

- Jarvis? Tá acordado?

- Sim, senhor. Apenas descansando meus scanners. - respondeu ele, de forma grogue e quase inaudível.

Gargalhei.

- Deita aqui. - disse eu, e ele começou a tombar lentamente para o lado, pousando sua cabeça em minha coxa direita.

"Rouw!"

Floki surgiu de trás da poltrona próxima ao sofá em que estávamos, e com a cabeça inclinada para a direita, passou a nos encarar.

- Vem cá, garoto! - disse eu para ele, que imediatamente saltou para cima da minha coxa esquerda. - Vou sentir muito a falta de vocês quando eu começar a faculdade, caras. - confessei.

"Ownn"

Floki ronronou, e afundou a cabecinha de metal em meu peito.

- Tem fornos no Senhor, biscoito. - murmurou Jarvis.

- Eu amo vocês. - sussurrei.

Um pouco mais de cinco minutos depois, minha mãe desceu as escadas e caminhou até nós. Já não vestia mais as mesmas roupas de quando me acordara, nem se quer carregava mais consigo a expressão de desapontamento que raramente era vista por meus olhos. Aquela mulher era a minha mãe, com certeza. E eu nunca a tinha visto tão radiante quanto naquele momento.

- Vamos? - perguntou ela.

- Vamos!

[...]

"...Quem vai contar a história da sua vida?..."
"...E quem vai se lembrar do seu último adeus?..."
"..Porque é o fim e eu não tenho medo..."
"...Eu não tenho medo de morrer..."

Quando o refrão de "In The End" da banda "Black Veil Brides" começou a tocar nas profundezas do bolso da minha calça, eu já sabia quem estava ligando.

- Mano do céu! - exclamou Zack, sua voz transmitia desespero e indignação. - Cadê você?! Já tô aqui na porta faz dez minutos e nada da banheira da sua mãe aparecer no estacionamento!

- Banheira é o rabo dele. - disse minha mãe, forçando seriedade.

- Banheira é o seu rabo, parceiro. - disse eu.

- Como é que é?

- Palavras da minha mãe.

- Tá no viva voz? - perguntou ele, constrangido. - Mano do céu!

- Não, relaxa! - respondi. - Mas acho deveria começar a prestar atenção no quão alto está falando. - gargalhei.

- Ah... Faz sentido. - murmurou. - A propósito, como vai, senhora Miller?

- Eu vou bem, senhor Oliveira! - respondeu minha mãe, aproximando a boca do celular que estava em meu ouvido. - E você, como vai?

- Se esquecermos que estou puto com o seu filho e a falta de pontualidade dele, eu estou ótimo! - respondeu Zack. - Pode me contar: ele nasceu de vinte meses, não foi?

Minha mãe riu.

- Olha a boca, senhor Oliveira! - advertiu-o.

Minha mãe odiava palavrões, o que era engraçado, já que ela os declamava o tempo todo.

- Pois é, olha a boca, senhor Oliveira! - disse eu. - E a culpa do atraso não é minha, é da minha motorista aqui.

- A culpa é dele sim! - minha mãe começou a dizer. - Se esse pendejo aqui não tivesse sujado o quarto todo de vômito, já teríamos chego ai há muito tempo!

- "Eu cunheçu us beus limitis"; "Ninca pissei mal cum bibidã". - Zack começou a recitar frases ditas por mim na noite anterior em tom de deboche. - Muito vacilão!

Revirei os olhos.

- Há uma primeira vez para tudo na vida.

Nesse momento, minha mãe dobrou à direita e adentrou o extenso estacionamento, do enorme campus, da gigantesca Universidade Google que, como havia descrito Zack na noite anterior, parecia uma versão urbanizada e moderna do castelo de Hogwarts.

- É mais bonito pessoalmente que nas fotos. - disse minha mãe, enquanto procurava uma vaga no estacionamento.

- Tô vendo vocês! - disse Zack, empolgado, acenando loucamente com as duas mãos na frente do prédio principal.

- Esse Isaac é uma figura mesmo. - comentou minha mãe.

- Pois é... - sorri.

- E depois de... - minha mãe conferiu o relógio. -...quatro horas de viagem, cá estamos!

Três horas e cinquenta e sete minutos, na verdade. Sendo três horas e meia do Queens até Cambridge, e vinte e sete minutos de Cambridge para a universidade.

- Cá estamos! - sorri.

- E então? Tá nervoso? - perguntou ela.

Senti uma pontada em meu coração. Déjà vu.

- Nervoso? - retruquei, confuso.

- É... É a sua tão esperada entrevista, filho! - começou a explicar, transmitindo certa fascinação em sua voz. - Se passar, o que tenho certeza que vai, estará em uma escola nova; conhecerá pessoas novas; fará coisas novas; viverá uma vida nova. Não tá nem um pouquinho nervoso por isso?

Permaneci encarando-a, estático. Ela riu.

- Sabe, eu me lembro do meu primeiro dia de aula na faculdade como se fosse ontem. - começou a dizer. - Eu achei que fosse ter um surto de tão nervosa que eu estava.

Sorri para ela.

- Sua vó saberia o que dizer em um momento como esse. Sabe disso, né? Ela sempre sabia...

Vovó morreu tem exatos quarenta e cinco dias e quatorze horas.

- Se ela não estivesse lá, digo, na faculdade comigo, eu teria dado meia volta e ido para casa, com certeza!

Gargalhei.

Minha mãe sempre contava histórias assim quando nós estávamos prestes a viver momentos semelhantes aos que ela viveu com a vovó quando jovem.

Com um sorriso meio contente e meio triste, ela levou seus olhos aos meus e disse:

- Eu te amo, filho!

- Eu também te amo, mãe. - disse eu, abraçando-a em seguida.

Ela é minha mãe, com certeza.

- Tá tudo bem mesmo?

- Sim, sim... - respondi, de forma sincera. - Como pôde ver, aquele doido ali vai estar comigo. - Apontei para Zack, que estava impaciente, andando de um lado para o outro nas escadarias da universidade. - Tá, será uma vida nova, mas e dai? A companhia é mais velha que a senhora! - Ela riu. - E isso significa que, no fim das contas, serão os velhos tempos em novos tempos, entende?

Um acolhedor e orgulhoso sorriso de mãe se abriu em seu rosto.

- Entendo sim, meu filho... - seus olhos marejaram. - Vai lá e arrasa!

- Pode deixar! - assegurei, lançando à ela uma piscadela, e saindo do carro em seguida.

"Vai dar tudo certo... Vai dar tudo certo... Vai dar tudo certo...", sussurrei para mim mesmo durante todo o percurso até Zack.

- Aleluia! - comemorou ele, aproximando-se com a mão estendida para o nosso toca aqui personalizado.

- Antes tarde do que nunca, não é? - disse eu, depois do toca aqui.

- Nesse pique! - gargalhou.

- Já foi lá dentro? - perguntei, transparecendo meu nervosismo.

- Ainda não... - respondeu. - Não iria fazer isso sem você.

- Abriu mão dos possíveis melhores assentos de Cambridge para ficar aqui em pé me esperando?

- Mas é claro, Bro. - assentiu. - Não queria trair o momento que visualizei em minha cabeça nas milhares de vezes em que pensei neste dia. E além disso, quatro horas sentado no carro já foi o bastante.

Segurei o riso. Zack tinha uma engraçada mania de dramatizar de forma cinematográfica todos os momentos importantes da sua vida.

- Três horas e cinquenta e sete minutos. - corrigi.

Ele revirou os olhos, e disse:

- Você deveria começar a usar essa sua pontualidade com números para chegar na hora marcada.

Gargalhei.

- E como visualizou? A coisa toda? - perguntei finalmente.

- Achei que nem fosse perguntar. - sorriu, aliviado. - Bom... - pigarreou. - Nós dois atravessando aquela maldita porta automática ali, - ele apontou para a entrada do prédio. - como os caras mais descolados do universo. - firmou, todo monumental. - Imagina tudo em câmera lenta, beleza? - pediu, cortando todo o tom majestoso da última frase.

- Imaginando em câmera lenta. - disse eu, mais um vez segurando o riso.

- Agora imagina a música tema dos "Anjos da Lei" tocando no fundo.

- Imaginando...

Então ele pigarreou de novo, e continuou:

- E aí... BANG!... Um monte de pombas brancas voando atrás da gente! - disse, fazendo um gesto abrangente com as mãos, e estranhos sons com a boca, que deduzi serem onomatopeias de explosão e fumaça subindo. - Seria descolado para caramba!

- Bom, cara... Não temos pombas... - disse eu. - Nem um rádio...

- Nem somos descolados, mas e dai? - gargalhou.

- Claro que somos! - retruquei, de forma irônica.

- É, pois é... - disse ele, lançando-me uma piscadela.

- E a propósito, eu peguei a referência.

- É por isso que você é o meu melhor amigo, cara!

Gargalhei.

- Mas e ai? Você veio sozinho? - perguntei.

- Não, não... Meu pai me trouxe, e vai passar aqui para me buscar mais tarde.

- E como é que ele tá?

- Ainda processando o fato de que ele é um velho fumante e alcoólatra de sessenta anos que perdeu a esposa vegetariana de quarenta e dois para um maldito câncer.

Desde que sua mãe morreu há exatos treze dias e vinte e cinco horas, Zack só se refere à ela como a esposa de seu pai.

- Entendo, cara...

- Relaxa, a vida tem dessas coisas. É como o pastor lá da igreja sempre diz: "Não devemos jamais lamentar por aqueles que foram chamados pelo Senhor para viver na glória do paraíso."

- Faz sentido.

- Não é?

- É...

Senti que um silêncio embaraçoso iria se iniciar a partir dali, mas Zack não permitiu:

- E ai? Tá pronto? - perguntou, virando-se para a porta automática da universidade em seguida.

Coloquei-me ao lado dele, e disse:

- Só se você estiver, "Bro".

- Eu já nasci pronto, Bro. - disse ele, dando um passo à frente. - Abre-te, Sésamo! - sussurrou cheio de si, e abriu os braços majestosamente ao mesmo tempo que as portas.

- Vemos aqui um verdadeiro Jedi, meus amigos! - exclamei, o aplaudindo em seguida.

- Sim, caros expectadores... - começou a dizer, prestando reverencia. - Sou de fato um poderoso...

- Garoto com demência. - concluiu uma garota, que surgiu do outro lado das portas, e passou por nós com certa pressa.

- Ah, vai se foder! - Zack gritou para a garota, que já estava longe demais para ouvir.

- Bom, já começamos muito bem. - suspirei, e atravessei a porta automática da universidade com certo desânimo. - Você vem ou não? - perguntei, virando-me dramaticamente para Zack, que continuava do lado de fora, observando indignado o pontinho preto que havia se tornado a garota.

- "Guiriti cum dimincia" - disse ele ao vento antes de se virar para mim e dizer: - Que filha da puta!

- Ao que parece isso aqui vai ser igualzinho ao ensino-médio. - disse eu, deixando clara minha frustração.

Zack suspirou, adentrou a universidade, pôs a mão direita em meu ombro e disse:

- Não usávamos terno no ensino-médio, parceiro.

- Bom, nem usaremos aqui... - expliquei. - Isso é só para entrevista...

- Não seja tão pessimista, Bro! - retrucou, dando um tapinha fraternal em meu ombro. - E ai? Vamos ser entrevistados ou não?

Sorri para ele.

- É claro que vamos.

[...]

E então, pela milionésima vez naquela manhã, a porta da reitoria se abriu e a bela mulher de olhos verde-esmeralda, juntamente com suas brilhantes e elegantes roupas, e seu poderoso e excitante sotaque francês, surgiu com seu gigantesco tablet, e disse um nome:

- Adam Miller!

Senti um frio invadir minha espinha e minhas pernas estremecerem.

- Sou eu... - disse, levantando uma das mãos.

Ela sorriu para mim e sinalizou para que eu entrasse na sala.

- Vai que é tua, campeão! - sussurrou Zack, mais no sentido sexual do que no motivacional.

Levantei-me da cadeira de forma desajeitada e caminhei morosamente em direção à sala cuja a mulher estava parada à frente da porta.

- Entre, por favor. - disse ela, adentrando a sala em seguida.

Maldito sotaque francês. Como pode deixar tudo tão sexy?

Cruzei a linha do caixonete da porta e me deparei de imediato com um maldito sósia de George R.R. Martin sentado atrás de uma gigantesca mesa de madeira reluzente.

- Este é Willmore Blencoff, reitor e fundador da Universidade Google. - anunciou a mulher. - Senhor, este é... - a mulher deu uma rápida espiada em seu tablet. - Adam Miller.

- E está é Alícia Chevalier. - disse Willmore, de forma descontraída.

- É um prazer. - disse Alícia.

Forcei um sorriso de relações públicas.

- O prazer é todo meu.

- Bom... Por favor, sente-se, meu jovem. - disse Willmore, cordialmente.

Caminhei até Willmore, puxei a bela poltrona de couro diante de sua mesa e sentei-me de frente para ele.

- É um prazer finalmente conhecê-lo, senhor Miller. - disse ele. - Como minha honorável e fiel assistente já lhe antecipou, me chamo Willmore Blencoff e eu sou o reitor desta universidade.

- É um prazer conhecê-lo também, senhor. - disse eu, deixando explícita minha admiração.

- Tenho que lhe dizer, senhor Miller, seu currículo acadêmico e sua alta pontuação em nosso vestibular me deixou impressionado. O aceitei nesta universidade no momento em que bati meus olhos em sua prova e terminei de ler seu currículo. No entanto, você sabe, tais formalidades são necessárias. Espero que você não me decepcione nesta entrevista, jovem. Me decepcionar explodiria o balão que é o meu ego e a certeza de que nunca erro.

- Muito obrigado, senhor. - disse eu, tentando não surtar. - Não o decepcionarei.

- Ótimo! - ele sorriu. - Bom... Está pronto para começarmos?

- Sim, senhor.

- Farei algumas perguntas bem simples, tudo bem? É só responder com calma e vemos o que acontece. Okay?

- Okay, senhor...

- Primeira pergunta: O que quer cursar aqui?

- Design de Estrutura Inteligente, senhor.

- Por que?

- Por que eu amo criar coisas e sou fascinado por como a arte é capaz de dar vida as coisas, senhor.

- Entendo. Então você gosta de inteligências artificiais?

- Sim, e também de fazer com que sejam mais do que só um monte de lata e formas.

- E por que quer se formar aqui?

- Por que vocês são os melhores.

Willmore gargalhou.

- E além disso, não quero ser só mais um designer no mundo. Quero ser o melhor. E para ser o melhor, é necessário aprender com os melhores. Não concorda?

- Curioso. - sorriu. - Quando surgiu este seu interesse por esta área?

- Quando eu era criança, acho que foi no meu primeiro ano de escola, não tenho certeza.

- E como foi que aconteceu?

- Bom, se não me falha a memória, aconteceu durante um intervalo da escola. - sorri. - O sinal tocou, as crianças correram para o pátio e eu permaneci imóvel em minha carteira.

"Por que não vai brincar com as outras crianças?", perguntou a professora.

"Eu não as conheço", respondi.

"E nem vai se não tentar."

"Faz sentido"

" Você vai ir?"

"Hoje não"

"Tudo bem. O que quer fazer então?"

"Ocupar a minha mente, eu acho"

"Tá legal, tive uma ideia."

"Que ideia?"

- Nesse momento, ela me entregou uma caixinha de lápis de colorir e uma folha de papel em branco...

"Desenhe o que quiser", disse ela.

- Daí eu olhei para aquela folha e vi um mundo em branco cheio de possibilidades, e por alguma razão que não sei explicar, senti-me na obrigação de dar alguma vida à ele.

- E o que você desenhou? - perguntou Willmore.

- Desenhei a mim mesmo brincando com as outras crianças no pátio. - sorri, pensativo. - Não pensei nisso quando comecei a desenhar, mas logo depois que terminei o desenho, percebi que havia acabado de criar um mundo diferente daquele no qual vivia, um mundo melhor, um mundo onde eu era melhor. Tanto poder em uma simples folha de papel, entende? Naquele momento eu me dei conta de que poderia ser e fazer qualquer coisa naquele pequeno porém imenso universo.

- Interessante. E o que a sua professora disse?

- Não mostrei o desenho para ela, mas mostrei para o meu pai. E foi ai que as coisas começaram de verdade.

- Entendo. E o que ele disse?

- Disse que estava incrível e que eu deveria continuar praticando, assim poderia um dia começar a projetar robôs para ele construir.

- E projetou algum?

- Sim, quer dizer, mais ou menos. - gargalhei. - Desenhei um retrato da nossa família uma vez e inclui um cachorro nela. Assim que mostrei para o meu pai, sugeri que adotássemos um para que nossa família ficasse completa como no desenho...

"Só tem um problema, eu sou alérgico a cachorros, filho", ele disse.

- Mas não muito tempo depois disso, o meu aniversário chegou e com ele um cachorro muito familiar...

"Caramba, ele é idêntico ao cachorro que eu desenhei, pai!", disse eu.

"Não é? Adivinha porquê!"

"Por que?"

"Por que É o cachorro do seu desenho!"

"Meu Deus! Você construiu ele mesmo, pai?"

"Sim, meu filho. E ai? Gostou? Como é a sensação de ver sua primeira criação ganhar vida?"

- Indescritivelmente incrível. - disse eu para Willmore. - Como não se apaixonar por algo assim?

- É verdade. - assentiu. - Que nome deu ao novo membro da família?

- Floki. - respondi.

- Como o Viking?

- Na verdade o chamei assim porque gostava de sorvete de flocos e o desenhei com um monte de bolinhas pretas - expliquei - mas hoje em dia digo que é por causa do Viking mesmo. - gargalhei. Willmore também.

- Gosto do seu senso de humor, senhor Miller! - disse ele. - Você é engraçado.

- Desculpa por falar e ser detalhista demais, é o que costumo fazer quando estou muito nervoso. - expliquei.

- Não se preocupe... - disse ele, de forma compreensiva. - Temos e não temos todo o tempo do mundo.

Aquilo fez tanto sentido para mim.

- Tenho apenas um conselho para você, Adam.

- Qual, senhor?

- Faça valer e aproveite bem o seu tempo nesta universidade.

Senti um turbilhão de sensações me invadir e tomar conta de cada centímetro do meu corpo.

- Sim, meu jovem. - Willmore respondeu ao ponto de interrogação explícito em meu rosto, carimbando uma folha de papel. - Aprovado. Meus parabéns!

- Muito obrigado pela oportunidade, senhor!

- Não me agradeça, jovem. - sorriu. - Esta conquista é um mérito seu.

Me senti nas nuvens. Tudo o que eu mais queria naquele momento era sair correndo nu pela Times Square gritando: EU PASSEI, PORRA! OLHEM PARA O TICANO DO QUEENS, OLHEM PARA O TICANO DO QUEENS!

- Nos encontraremos de novo em uma semana. - disse ele, dando uma espiada no calendário exposto em sua gigantesca mesa. - Oito de janeiro às dez da manhã.

Assenti com a cabeça.

- Venha pronto para se instalar. - comunicou. - As aulas começarão no dia nove.

- Perfeito! Muito obrigado mesmo, senhor!

- Temos e não temos todo o tempo do mundo. Lembra? - Willmore sorriu, e estendeu a mão para mim.

- Lembro sim! - assenti, apertando sua mão, e levantado-me rapidamente da poltrona.

- Meus parabéns! - disse Alícia toda monumental, abrindo a porta para que eu saísse.

- Muito obrigado! - disse para ela.

Nem precisei dizer nada. Assim que Zack bateu os olhos em mim, ele já sabia o que tinha acontecido.

- PASSOU, CARALHO! - Zack gritou como um torcedor depois de seu time marcar um gol de virada nos segundos finais de um campeonato, levantando-se da cadeira em um salto e direcionando-se a mim com a mão esquerda estendida para o nosso toca aqui personalizado.

- Passei, porra! - sussurrei à um fio de chorar, um milésimo antes de nos abraçarmos e começarmos a pular e gritar no estreito corredor da sala de espera.

Todos na sala olharam para nós com desaprovação como se pensassem: "Esses vieram do Queens, com certeza". Mas quem disse que ligamos?

[...]

Duas horas e meia depois da minha entrevista, Alícia finalmente chamou Zack. Ele deve ter ficado lá dentro por uns trinta minutos antes de sair majestosamente e dizer:

- Senhoras e senhores, meninos e meninas, tratem bem de olhar de perto enquanto podem o mais novo físico negão revolucionário do pedaço, Isaac Oliveira. É isso mesmo que vocês ouviram. Não é Newton, é Oliveira, parceiros. Diretamente das favelas do Rio de Janeiro e do Queens para detonar em Cambridge. Bang, Bang, Pow! Dedo no cu e gritaria. - cantarolou. - Agradeço à todos pela atenção!

Zack não era bem um "negão". Seu pai era um norte-americano branco, sua mãe era uma brasileira negra e ele tinha cor de café com leite quando se tem mais leite do que café. E na verdade, só viveu os três primeiros meses de vida no Rio de Janeiro, o resto foi todo no Queens. Mas ainda assim, ele adorava se vangloriar do quanto era negro e do quanto tinha sido criado nas favelas. Vai entender...

Depois do seu discurso, ele se juntou à mim e caminhamos vitoriosos até a saída da universidade. Naquele momento, eu consegui imaginar a música tema dos "Anjos da Lei" tocando ao fundo, o slowmotion, as explosões de pombas brancas e todo o resto, bem como Zack havia imaginado. Foi com certeza um dos momentos mais épicos da minha vida.

- Tá vendo isso, irmão? - perguntou ele, com o braço direito entrelaçado em meu pescoço e usando o indicador esquerdo para guiar meus olhos pela paisagem do gigantesco campus. - É a nossa nova casa!



Zack ligou para o pai dele, que apareceu vinte e dois minutos depois da ligação. E minha mãe nem se quer havia saído do estacionamento. Contei à ela que passei depois de ter feito um drama obrigatório dizendo que não. Ela surtou. Ligou o carro, e fomos até o McDonalds mais próximo para almoçar. Depois do McDonalds, minha mãe ligou para Jarvis e pediu que ele preparasse minha comida favorita para o jantar, surtou de novo, e então pegamos a estrada de volta para casa.

Chegamos em casa às seis e trinta e um da noite. Quando abrimos a porta de entrada, Jarvis e Floki estavam esperando gente do outro lado com balões, confetes e faixas enormes penduradas no teto preenchidas com a frase: "Parabéns, Adam!"

Floki correu em minha direção e saltou para meus braços e Jarvis se aproximou um pouco mais devagar com seu andar robótico e me abraçou bem forte.

- Parabéns, meu filho! - disse ele, mas não era sua voz habitual, era a voz do meu pai. Isso acontecia de vez em quando, meu pai hackeava o Jarvis para falar comigo ou com a minha mãe ou resolver algum problema quando era muito urgente. Quando contei isso ao Zack, ele levantou uma questão muito curiosa: "Será que seu pai hackeia o Jarvis para transar com a sua mãe?". Nunca mais olhei para o Jarvis do mesmo jeito. - Sandra... - cumprimentou minha mãe.

- Oi, Antony... - disse ela.

- Jarvis me contou que você conseguiu entrar na Google. - explicou ele. - Não quis perder esse momento.

- Legal que veio, pai. Ou quase isso...

Ele riu.

- Bom, o jantar tá quase pronto. Se tiver ficado bom, fui eu quem fez. Se não, foi o Jarvis.

Minha mãe riu. E eu forcei um sorriso.

Eu não tenho raiva do meu pai nem nada do tipo. Sei que foi minha mãe quem pediu o divórcio. Sei que ele sofreu quando precisou ir. Mas desde que ele foi para a Inglaterra não consigo me sentir confortável com ele. Nunca temos muito assunto e eu não sinto que deveríamos ter.

[...]

Às oito nos sentamos a mesa de jantar e comemos. - Lasanha de quatro queijos e estrogonofe de frango, a propósito. Zack diz que é uma mistura esquisita. Eu acho incrível. - Fui o primeiro a terminar de comer. A comida estava ótima, então deduzi que foi o Jarvis quem havia feito, não o meu pai. Levantei-me, pus as louças na pia e subi para o meu quarto, deixando minha mãe e o meu pai a sós.

Joguei-me na cama, peguei meu celular e mandei uma mensagem para Zack:

"Adivinha quem apareceu aqui"

"Zabuza Momochi: O Demônio do Gás Oculto?" - respondeu ele dois minutos depois.

"Não, idiota. O meu pai..."

"Não pode ser. É ele mesmo?"

"Não, ele nunca sairia da Inglaterra para vir pra cá. Ele hackeou o Jarvis de novo."

"Hoje tem, hein?!"

"Não consigo parar de pensar nessa merda."

"*Risos* Pelo menos ele apareceu, né?"

"Para mim tanto faz."

"Calma, jovem. É o seu pai."

"É, eu sei... Vou dormir agora. A gente se fala amanhã."

"Beleza, Bro! Té mais"

Larguei o celular e passei a encarar o teto.

Sete dias. Era o que faltava para uma vida nova começar. Eu deveria estar radiante, feliz ou sei lá o que. Mas não estava. Eu estava nervoso e com medo. Sentia o frio na barriga e o coração acelerado como se tudo estivesse à um minuto de acontecer.

- Não sei se estou pronto para isso... - pensei alto. - Não sei mesmo...

Não muito depois ouvi a cama da minha mãe ranger como se fosse quebrar a qualquer momento. Porra, Jarvis...

CONTINUA...

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Fala ai, galera do CPBR! Aqui quem fala é o Matheus, criador da série “Distopia” e “Monstros Em Meus Ombros”. Venho aqui, por meio desta divulgação exclusiva do iniciozinho do segundo episódio da série, para contar pra vocês uma grande novidade, e também saber o que vocês acham disso! 

Seguinte: há uns dois meses mais ou menos, enviei o primeiro capítulo de Distopia para uma editora – só de sacanagem mesmo okadokaokd – Só que ai, inesperadamente, ontem, eles me enviaram um e-mail, caras! UM FUCKING E-MAIl!!! E adivinha? Siiim! Eles aprovaram a estória!


Honestamente, eu não sei o que vem a seguir, mas gostaria de tá compartilhando isso com vocês, que tanto me apoiaram nos comentários do primeiro episódio. Muito obrigado mesmo, galera! Dando tudo certo, aparecerei de novo por aqui para avisá-los, mantê-los informados e tudo o mais. Espero que tenham gostado deste pequeno começo do episódio 2, que será muuuuito maior que o primeiro. E espero contar com o apoio de vocês depois que a estória for de fato publicada. Mais uma vez muito obrigado por tudo, galera! E muito obrigado também à todo o pessoal do CPBR pela força <3



Me sigam lá no Wattpad <3


31 comentários:

  1. Primeiramente,essa creepy tá ficando foda

    E segundo,parabéns pela "aprovação" rsrs,a creepy passada estava MUITO foda,fugia um pouco do tema de terror,mas mesmo assim ficou 11/10,invista seu tempo nessa história que ela irá render muito!!!!


    (Se o seu nome é Matheus,pq seu perfil é Gabriel Azevedo? :/)

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    1. Gabriel Azevedo é o meu contato na CPBR que publica a estória HAHAHAHAHHA
      Muito obrigado, meu brother! Espero não decepcionar!

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  2. A creepy tá excelente, tô ansiosa pela próxima parte... OMG! Já ia esquecendo de mandar a minha rsrs...

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  3. na moral é muito grande e eu parei de ler quando a mãe dele aponta para a poça vômito mas eu li o final e meus parabéns pela sua história ser aprovada! Quando essa história estiver virando um Best seller se lembra de falar que eu já era seu fã desde aqui certo? valeu humanos e fuuiii!!!!

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    1. Que fã é esse que não lê tudo, tio? OKADKOAOKDOKADOk

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  4. na moral é muito grande e eu parei de ler quando a mãe dele aponta para a poça vômito mas eu li o final e meus parabéns pela sua história ser aprovada! Quando essa história estiver virando um Best seller se lembra de falar que eu já era seu fã desde aqui certo? valeu humanos e fuuiii!!!!

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  5. Ta muito boa mesmo, sério. E o nome também é muito bom, to adorando.

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  6. Nice. Cara sou um fã cativoso do seu trabalho na moral.. "Monstros em Meus Ombros" e agora Distopia.. as histórias parem tão reais. Queria ter esse programa para me fornecer umas músicas e sonífero para mim dormir.

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    1. É porque elas são, Ericky! Tem um pedacinho de mim em cada estória que eu escrevo. Eu sou tanto Desmond quanto sou Math, por exemplo. Projeto "Delorean" explora um pouco do que eu vivi em algum momento da minha vida, meus medos e meus desejos. Os estranhos que lêem minhas estórias acabam, sem consciência, me conhecendo melhor do que aqueles que convivem ao meu redor.
      Candy é um sonho mesmo <3

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    2. Aahhh cara que incrível, tinha de ser mesmo hein cara.. já que é assim é um imenso prazer ler fragmentos de sua pessoa Kkk. Coincidência ou não as pessoas ao meu redor tbm não me conhecem tanto. Lamento pelas experiências ruins que imagino terem sido vividas por vc, apesar disso, no fim, acaba se expressando muito bem de forma que sinto seus sentimentos. Vc tem um dom impressionante, Obrigado por compartilhar conosco :)

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  7. Parabéns pela conquista!!!
    Quero ver como vai ser feita toda a conexão com o Desmond.
    Muito bom!

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    1. Muito obriado!!!
      Espero não decepcionar <3

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  8. Parabéns cara não é atoa que te mandaram um email essa creep é top

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  9. Parabéns cara não é atoa que te mandaram um email essa creep é top

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  10. Cara, meus parabéns por isso da editora! As histórias são fenomenais, você merece muito sucesso! "Espero que você não me decepcione" nessa aventura!
    Ah, quando teus livros estiverem sendo vendidos, quero uma cópia autografada hein!
    Por curiosidade, você pode dizer que editora é, ou é informação sigilosa? Kkkkkk
    Agora em relação a postagem, tá muito bom, como a primeira, gostei especialmente das referências musicais e à cultura pop. Só uma dica: tenta não forçar memes no meio, mesmo sendo uma conversa entre amigos em que normalmente aconteceria de aparecer um meme (eu faço isso com meus amigos, sei como é), acaba tirando um pouco da ambientação temporal, se você considerar que memes costumam ter uma vida útil baixa. (Pra você não dizer que sou chato, saiba que eu ri horrores quando Zack respondeu "Zabuza Momochi: O Demônio do Gás Oculto)
    Falando do Zack, já shippo ele com a garota lá (Sim, sou desses), vai que né
    Desculpe o "mini-textão", acabei empolgando kkkkkkk. Obrigado por essa estória e boa sorte aí! Mantém a gente informado!

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    1. Os melhores comentários são formados em um grande textão <3
      Cara, muito bem observado. Eu não tinha pensado na questão temporal. O meme é mais um marketing mútuo, já que sou um dublador do Voice Makers (canal que criou o meme do Zabuza). Muito obrigado por suas palavras, brother! Manterei, com certeza <3

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    2. -Ora ora se não é Zabuza o demônio do gás oculto..

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  11. Parabéns!!!
    Nossa estava a espera desde o primeiro capítulo.

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    1. 10/10 super interessante ,se ótimo se postasse com mais frequência!!!

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    2. Quando publicar nos leitores do CBR poderíamos ter um vale desconto 😉

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    3. Vou providenciar isso! OKAODKAOKDAOKDok

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  12. Meu Deus, incrível, tanto a amizade que lembrou os melhores amigos do "Penpal" tem futuro cara, foi fantástico e estou bastante ansioso pelo próximo capítulo, aliás, como faz tempo que vi o outro capítulo, não lembro dos nomes então o Adam é o mesmo do capítulo 1 mas com o futuro alterado? Se não for, algo me diz que ele vai se encontrar com ele ^-^

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    1. Ele vai se encontrar com o outro do capítulo anterior*

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  13. Escreeeve meu filho, escreve que tu vai longe. TMJ

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  14. PELO AMOR DE DEUS, FINALMENTE!!!!!!! ESPEREI DEMAIS PELO SEGUNDO EP. (inclusive andei relendo o primeiro episodio um dia desses, genial demais). E PARABÉNS PELA PARADA DA EDITORA!! merecidíssimo!

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  15. MANO DO CÉU, MUCH RESPECT (insira o meme do Doge aqui)!!!!! Carai, ficou muito foda, mano, eu já tava imaginando tudinho como se fosse uma série mesmo, tuas creepys fluem tão maravilhosamente bem (e como assim tu fizestes o Monstro em meus ombros? 0.0) E parabéns pela notícia da editoraaa, fiquei muito feliz por ti e much respect de novo porque tu PASSOU CARALHO (imagina eu gritando como se fosse um torcedor depois de meu time marcar um gol de virada nos segundos finais de um campeonato, levantando-me da cadeira em um salto e me direcionando a ti com a mão esquerda estendida para o nosso toca aqui personalizado) !! :V E o meme do Zabuza Momochi, o Demônio do Gás Oculto eu acho válido porque em alguns lugares, li que Naruto é considerado clássico (então Adam e Zack são otacos) <3 <3 <3

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