17/05/2018

Casa das Mariposas

Eu não sabia por quanto tempo havia andado por aquele bosque. Toda noção de tempo me abandonou desde que coloquei os pés naquele maldito lugar.

Estava começando a escurecer, e eu podia ver os últimos raios de sol, que logo desapareceriam, dando lugar à escuridão. Carregava comigo apenas uma lanterna e a caixa com o “presente”. O conteúdo daquela caixa, algo tão simples e ao mesmo tempo tão raro, poderia decidir entre minha vida ou a morte. Então ouço um barulho atrás de mim. Passos. Me viro e aponto a lanterna em direção ao som. Era um homem. Ele cobre o rosto com uma das mãos ao ser atingido pela repentina luminosidade. “Por favor, desligue isso. Vai desnorteá-las”

Desnortear...? Desligo a lanterna, e então consigo perceber que minúsculas mariposas voam em minha volta. Elas não estavam ali antes. Então olho novamente para o homem e percebo o motivo. Ele carregava um tipo de lamparina, daquelas antigas à óleo. As mariposas pareciam atraídas pela luz, e seguiam cada movimento dela.

“Está aqui pela coleção, eu presumo?”

Engoli em seco. A voz daquele homem era monótona e sem emoção. Quase entediada.

“S-sim”. Respondo.

“Me acompanhe” Ele disse simplesmente, e seguiu pelo bosque. Eu o acompanhei em silêncio. Apenas a luz da lamparina iluminava o caminho. E as mariposas em volta dela se agitavam cada vez mais a medida que nos aproximávamos do local.

Enfim chegamos a um casarão de aspecto antigo e abandonado. Me pergunto se estamos no lugar certo.

O homem abre a porta e apaga a lamparina com um sopro. “Entre”

Adentrei a casa, e o interior não era muito diferente. O chão, as paredes e os móveis estavam bastante empoeirados. O cheiro de mofo tomava conta do lugar. E centenas de mariposas brancas voavam pelo local. Tossi um pouco por causa da poeira. O homem percebeu. “Peço perdão pela bagunça. Já faz algum tempo que não recebo visitas”.

Agora, com uma iluminação adequada, pude perceber as feições de meu anfitrião. Seu rosto era fino, e pálido demais para ser saudável. Seus cabelos desciam até as costas, e eram de um loiro sujo, ficando mais claros, quase brancos nas pontas. Suas roupas pareciam ter saído do século XVIII, e um manto marrom cobria suas costas. Mas o que mais chamava a atenção eram

seus olhos. Eram cor de âmbar. Quando os vi, tive certeza de que ele não era humano.

“Você trouxe?” Ele perguntou, com os olhos fixos na caixa.

Mais que depressa, abro-a para revelar seu conteúdo. Uma pequena mariposa.

“É uma Ennomos fuscantaria” eu disse. A voz me falhando “Uma mariposa muito rara encontrada apenas em território Português”

Entreguei a caixa, com as mãos trêmulas. O homem a pegou e analisou a mariposa. Parecia satisfeito. “Venha comigo”

Eu o segui até uma enorme porta. Assim que ele a abriu, pude vislumbrar o quarto. Era enorme. Suas paredes decoradas com milhares de caixas entomológicas contendo mariposas, de todas as espécies. Algumas eu reconheci. Outas eram tão exóticas e exuberantes que eu não fazia ideia de que existiam. Percebi que haviam inclusive espécies extintas a muito tempo. No chão, haviam mais caixas empilhadas

A maior coleção de mariposas do mundo. O sonho de qualquer entomólogo. E eu vivi para ver.

Tento balbuciar palavras de admiração, mas estou tão maravilhado que nenhum som sai de minha boca. Meu transe foi interrompido pelo homem, que me olhava com um rosto de decepção.

“É uma pena” ele disse, apontando para um espécime. Era uma Ennomos fuscantaria. “Mas parece que eu já possuo uma dessas em minha coleção”.

Gelei. Não podia ser. Aquela espécie era muito rara. Pouquíssimas coleções no mundo tinham um espécime...

Engoli em seco. Sei muito bem o que acontece com quem não consegue impressionar o Colecionador. A adrenalina toma conta de mim e tento correr. Mas as portas se fecham, impedindo minha fuga. Nesse momento escuto o bater de asas e me viro a tempo de ver o colecionador na minha frente. Seu manto se abre. Oh meu deus, não é um manto! São asas! Asas de mariposa!

De dentro do manto saem centenas das mariposas brancas. Elas voam em minha volta, cobrindo meus olhos, nariz e boca. Não consigo respirar!

O Colecionador sorri, e com um movimento de sua mão, os insetos se afastam do corpo que jazia sobre o chão frio.

Ele se ajoelha sobre o cadáver e segura as bochechas dele, fazendo-o abrir a boca.

Lá de dentro, emerge uma pequena mariposa branca.

Autor: Theo Rodrigues

6 comentários:

  1. Legalzinha, mas o final foi meio confuso por causa da mudança do narrador

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  2. Lembrei de um desenho maravilhoso, chamado "over the Garden wall" assistam!

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    1. maravilhoso? o desenho é perfeito! tem um YouTuberealmente chamado VMZ que fez um rap ótimo do desenho!

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    2. maravilhoso? o desenho é perfeito! tem um YouTuberealmente chamado VMZ que fez um rap ótimo do desenho!

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