05/06/2018

Sou Apenas Uma Metade

Sou apenas uma metade.

Sério, não uso metáfora nisso.

Desde que me conheço como ser humano, sinto que nunca vivo o máximo de algo. Sempre chego exatamente no meio do caminho e paro. Não porque quero, longe disso. Na realidade, tento desesperadamente todos os dias da minha vida ter um sentimento completo, viver intensamente algo. Porém, eu sempre, SEMPRE acabo chegando na metade do caminho. Nem mais, nem menos.

E essa sensação de “ser metade” não se limita apenas aos sentidos. Quando me vejo no espelho, só consigo ver minha parte direita. É como se eu não tivesse o outro lado do meu corpo, mesmo eu sabendo que todas as outras pessoas me veem completo ao elogiarem “meus” olhos ou como “minhas” mãos são fortes e resistentes como as do meu pai. Até quando estou à mesa, tendo uma refeição com minha família, o garfo, firmemente segurado por minha mão direita, é sempre acompanhado de uma faca flutuante logo à esquerda, partindo um pedaço de carne em dois.

Quando eu era criança, sempre tive medo deste meu sentimento. Porém, sempre que eu contava sobre isso para minha mãe, ela sempre balançava a cabeça em negatividade, até com um pouco de decepção, me ignorando e falando que isso um dia passaria.

Bem, não passou.

A última vez que lembro de ter falado sobre esse estranho sentimento para ela, eu estava de férias da quinta série. Hoje, estou tendo o que posso chamar com certeza de “melhor dia da minha vida”.

Recebi uma ligação que dizia que eu consegui uma vaga na multi-nacional. A garota que eu estive saindo nas últimas semanas aceitou meu pedido de namoro, almocei meu prato favorito, tive uma boa noite de sono...

Porém, mesmo com todas essas coisas tendo acontecido, não consigo me sentir completamente feliz, nem completamente louco de alegria. Não... Eu me sinto apenas satisfeito e eu tenho certeza que era para eu estar sentindo muito mais nesse dia especial. Acontece que eu não estou tendo um dia nem branco e nem preto, apenas... Cinza... O neutro cinza que me acompanhou durante toda a vida.

Decidi que eu deveria novamente tentar falar com minha mãe, mesmo tendo se passado dez anos desde a última vez que toquei no assunto.

Estávamos cozinhando como sempre fazíamos. Ela no fogão, esquentando as misturas e ingredientes nas panelas enquanto eu cortava tudo em pedaços bem distribuídos.

Foi quando eu estava cortando a cebola que eu joguei o assunto na mesa. Citei para ela, quase que subliminarmente, como eu estava sentindo novamente aquilo que sentia quando era criança. Ela estava já revirando os olhos, pronta para soltar a mesma velha frase de “Isso vai passar”, mas eu a interrompi antes que ela começasse.

Falei tudo. Exatamente TUDO o que senti durante os anos, entrei em detalhes até mesmo desnecessários. Mas contei tudo esperando abrir os olhos dela.

Eu não só os abri como também os fiz soltarem lágrimas. Entre soluços, ela disse que me contaria a verdade.

Antes mesmo dela começar, pude observar no leve reflexo da janela minha mão esquerda, seguida de um braço, um ombro próximo ai meu pescoço... Eu estava finalmente enxergando o meu corpo e a bela simetria que ele era.

Isso é claro até ela finalmente começar com a simples frase que me confirmou que eu sou incompleto:

“Você já ouviu falar em redução seletiva?

Autor: Luan Gonçalves


23 comentários:

  1. Quando terminei, foi uma mistura de decepção com curiosidade. Até que eu entendi.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Então me explica ai man, porque eu tô boiando.

      Excluir
  2. WTF? O que isso teria a ver com redução seletiva? A mulher abortou meio feto? É um feto de Schrodinger?

    ResponderExcluir
  3. Onde é que eu estou?Oque tá acontecendo??O CARA ERA UM HUMANO BUGADO???Q?SOCORRO!!!

    ResponderExcluir
  4. Eu realmente não entendi o que tem a ver com redução seletiva... E aparentemente ninguém dos comentários entendeu também D:
    Então fica a dúvida no ar -q

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Quando ocorre uma fertilização in vitro, e vários óvulos são fecundados, as clínicas retiram alguns para evitar a morte de outros. Isso é redução seletiva, matar alguns embriões em favor de outros

      Excluir
    2. Mas no caso, elimina-se um feto para que outro(s) sobrevivam, como se elimina "meio" feto?
      A melhor explicação que eu li foi de um comentário mais abaixo, onde a "metade" que falta do cara é esse irmão gêmeo que não chegou a nascer
      Porque se ele é "metade" de forma literal, como fiquei com a impressão quando li pela prineira vez, não faria muito sentido :V

      Excluir
    3. Mas vai ver eu que interpretei errado mesmo -q

      Excluir
    4. Sabe aquela história de que gêmeos dividem tudo? Então, dão a entender que mataram os irmãos dele e levaram parte de sua vida junto. A outra parte da alma. Esse blablablá emotivo e taus.

      Excluir
  5. Pra tentar explicar pro pessoal aí, o que eu entendi é que falta a outra "metade" dele, um gêmeo no caso

    ResponderExcluir
  6. MEIA VIDA UMA VIDA CHEIA DE CONSEQUÊNCIAS

    ResponderExcluir
  7. Sei como é a falta de uma "metade" que mal chega-se a conhecer... Oh, como eu sei...
    10/10, sem dúvidas. Estou chocada, triste e extasiada com este conto, espero que continuem trazendo mais com esse tema, é o meu favorito, talvez porquê me causa mais impacto.
    ♡♡♡

    ResponderExcluir
  8. Apaixonada. Que conto maravilhoso, aaaah <3

    ResponderExcluir
  9. Ai compila as melhores histórias num livro que eu compro! Incluindo aquelas de falhas da matrix, algo entre a realidade e ficção, sensacional!

    ResponderExcluir