22/06/2018

Wade

- Olha! Esse é o soro?

- Sim! Isso irá ajudar muito os militares, mas precisamos testar...

- Já fizeram os testes nos animais?

- Já testamos em ratos e outros animais, precisamos de uma cobaia humana!

- Eu sei onde podemos achar!

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Fui designado, junto de meu colega, Gill, para irmos ao orfanato da irmã Martha. Eu me chamo Ben Carson, sou um jovem cientista, do melhor laboratório da cidade. Sou muito bom naquilo que faço e sempre quero me sobressair. Afinal, eu serei o melhor cientista que eles terão.

Estacionei próximo à uma grande construção velha. Mas devo dizer que para um orfanato, está muito bom. Bati na porta e uma freira atendeu com um olhar confuso.

- Boa tarde, a senhora deve ser a dona Martha? Certo?! - ela balançou a cabeça em confirmação - Ótimo... Viemos ver as crianças, podemos entrar?

Ela abriu a porta dando passagem para nós. Até aí tudo bem. Ela pediu para aguardamos enquanto ela ia procurar as crianças. Fiquei analisando o local. Não era um local apropriado para cuidar de órfãos, mas era melhor do que morar embaixo da ponte.

Minutos depois dona Martha retornou, seguida de vinte crianças, mais ou menos. Eram bem risonhas e serelepes, mas não era isso que estávamos procurando. Peguei a ficha das crianças, que dizia os requisitos delas, suas qualidades e imperfeições. Folheei as páginas e uma me chamou total atenção.

Não tinha quase nenhuma informação, além do básico e requisitos médicos. Aquela criança parecia ter algum problema. Olhei em meio as crianças, procurando o dono da ficha. O encontrei no fim da fila. Estava com os cabelos em frente ao rosto, mas tinha certeza que era a mesma pessoa. Apontei para ele e Gill entendeu que era para leva-lo ao carro. Puxando-o pelo braço, Gill levou o garoto porta à fora, enquanto eu fiquei para assinar os papéis.

- Quem são vocês? - perguntou dona Martha.

- Informação sigilosa! Sinto muito... Mas garanto que cuidaremos bem dele!

Antes que ela respondesse, fechei a porta e segui para o carro.

- Então? Tudo pronto para começar os testes? - perguntou Gill.

- Sim... Vamos logo!

Durante a viagem, a criança não disse uma palavra, nem deu sinal de vida. Na verdade, ele não demonstrou nenhuma reação desde que foi levado para o carro, palavras de Gill.

- Qual o nome desse garoto?

- Wade - respondi - Só Wade! Não tem um sobrenome!

- Sério?! Escolheu ele por causa disso?

- Isso e mais um pouco... Ele não tem muita informação... Então se ele sumir, ninguém sentirá falta...

Vi um movimento pelo retrovisor. Pude jurar que tinha visto Wade dar um pequeno sorriso, mas achei que fosse impressão. Chegamos ao laboratório, e expliquei à criança que ele tinha que obedecer todo mundo que ali estava. Nenhuma palavra, nem reação.

Aceitei aquilo como um "tudo bem" e o coloquei em seu quarto. Não tinha nada além de uma maca enferrujada, com alguns lençóis jogados. Além de possuir uma pequena câmera que não funcionava direito. Perfeito para alguém que já nem tinha muito. Wade entrou e se sentou na maca, e pela primeira vez, ouvi sua voz.

- Qual o seu nome, doutor...?

Fiquei parado por um momento, mas respondi.

- Ben Carson, mas para você... Só doutor Carson!

Bati a porta.

Começamos os testes durante a noite, aplicando o soro em seu braço esquerdo. E fizemos a mesma coisa por quatro anos, pois o soro não podia ser injetado todo o dia apenas um mês sim outro não. O soro levou muito tempo para fazer efeito, mas não podíamos aplicar uma dose tão alta, por poder haver efeitos colaterais. Além das aplicações, fizemos testes de resistência e força. Ele se saia muito bem.

Só tinha um problema nisso tudo... Wade não gostava de ser observado. Ele feriu gravemente várias pessoas que ficavam de vigia sobre seu comportamento no quarto.

Resolvi deixar ele com sua privacidade.

Estava ficando impaciente, as aplicações eram muito pequenas e o resultado não fazia grande diferença. Mais quatro anos se passaram e eu não aguentei. Ficar nessa mesma merda por oito anos foi demais. Eu mesmo apliquei o soro no Wade.

O lado esquerdo de seu corpo mudou totalmente, o tom de sua pele ficou avermelhado e suas veias ficaram expostas, seu cabelo, que antes cobria seu rosto agora cobre apenas o lado direito. O lado esquerdo caiu e mantém apenas alguns fios pendurados. Suas unhas estão mais endurecidas que o normal.

Mas uma coisa que reparei também foi que Wade, não podia mais ficar sozinho. Ele cortou o próprio pescoço. Mas eu não podia perder mais nenhum ajudante. Resolvi então, que eu ia ficar com ele.

Com a permissão de meu superior eu fiquei de vigiar Wade durante a noite. Na primeira noite, quando entrei no quatro... Ele estava sentado de frente para a porta.

Como se estivesse à minha espera. Seu rosto, estava com uma expressão preocupada.

- Resolveu mudar a cara, Wade?! - perguntei zombando.

- Sim... Eu preciso falar com você doutor Carson... - sua voz era baixa e rouca.

Sentei e esperei Wade falar.

- Eu ouvi uns comentários sobre o senhor...

- Hmm... Comentam sobre o que? Como sou competente no meu trabalho? - perguntei, me sentindo orgulhoso de mim mesmo.

- Pelo contrário... Dizem que você é o pior cientista daqui. Que você é tão egocêntrico que não merece esse cargo...

Ao ouvir aquelas palavras, eu me senti despedaçado por dentro. Mas não podia acreditar nas palavras ditas por um garoto, que agora é um monstro.

- É mentira! Você está errado...

- Não diga que não repara os olhares virados... Os cochichos quando você passa...

Eu não sabia o que pensar. Vivi minha vida por aquele emprego, pela ciência... E agora...

Não estava pensando direito...

- O senhor tem que fazer alguma coisa... Eles tem que pagar...

Fiquei ouvindo Wade falar no meu ouvido. Ouvindo cada palavra, as idéias... E eu acabei perdendo a noção do que eu estava fazendo...

No dia seguinte, eu não dormi direito. Estava com grandes olheira sob os olhos e com a mente avoada. Passei pelo quarto do Wade e vi seu rosto pelo vidro da porta...

"Faça..." Era o que seus olhos me diziam. Eu não esquecia suas palavras de ontem...

Eu não estava no controle do meu corpo... Fui em direção à ala proibida do laboratório. Lá eles guardam gás de veneno que fazíamos para os militares. Peguei uma máscara de gás.

Eu não tinha reparado na hora, mas tinha uma máscara faltando. Comecei a abrir as cápsulas do veneno e as joguei pelos tubos de ventilação.

Sai da sala e continuei a abrir as cápsulas, enquanto todos fugiam desesperados. Mas não adiantava... Uma pequena absorção do gás, e o indivíduo está morto. Vi todos se contorcer de agonia, e respirando pesadamente pedindo por ar fresco.

Minutos depois liguei os exaustores. Olhei para os corpos sem vida e voltei a realidade.

- O que eu fiz...?

Antes que eu pudesse entrar em pânico, ouvi um pequeno cantarolar vindo do fim do corredor. Impossível, eu tinha matado todos. Foi quando a silhueta de um jovem, magro e alto surgiu da escuridão do corredor.

- Bom trabalho doutor... Tudo do jeitinho que planejei!

Era Wade.

- Essas máscaras servem pra alguma coisa afinal... - ele arremessou uma máscara de gás para longe - É tão fácil conseguir as coisas nesse lugar!

- Wade? Porque...

- Hm... Você ainda não entendeu? - minha expressão o fez rir - Eu planejei isto desde o início! Você é do tipo fácil para manipular... Então tudo que precisei fazer... Foi apelar para o seu ego!

- Então... Você feriu os outros só para me fazer tomar conta de você?!

- Bom... Isso também! Mas tanto faz! Você cumpriu minha vingança perfeitamente!

- Vingança?

Ele começou a andar novamente.

- Você acha que é legal ser usado como rato de laboratório? Acha que eu gostei do que você fez com a minha aparência?...

Ele parou na minha frente e levou sua mão esquerda para o meu pescoço. Estava em choque e não consegui me mover. Mesmo sendo um pouco mais baixo, Wade conseguiu erguer meu corpo do chão.

- Eu podia acabar com você com minhas próprias mãos! - seu olhar era frio - Posso simplesmente arrancar a carne de seu pescoço...

O aperto de sua mão ficou mais e mais forte, fazendo sangue jorrar do meu pescoço e escorrer pelo seu rosto. Mas ao invés de me matar... Wade me soltou.

Eu caí ofegante no chão... Tentando conter o sangue que ainda escorria. Wade ria da minha cara, enquanto lambia meu sangue que escorria em seu rosto.

- Mas eu não vou perder meu tempo com seres inúteis como vocês! Pra que gastar minha força bruta com um saco de merda que nem você?

Ele andou em direção à saída. Eu gritei.

- Você tá ferrado na minha mão! Eu tenho dados seus e sou...

-...O assassino! - ele cortou.

Não consegui reagir.

- E eu não existo!... Agora, ou você se deixa ir preso... Ou, se preferir, morra aqui com eles! - disse apontando para os corpos.

Ele se foi, me deixando ali jogado no chão... Levantei e fui cambaleando até a sala dos registros... Não tinha nada sobre Wade! Nem nos computadores... Ele provavelmente apagou tudo logo depois que eu liberei o gás...

Mas não seria possível... Tinha muitos dados... Foi quando lembrei dos dias em que Wade não tinha ninguém para vigia-lo. Como ele abria a porta? Quando fui reparar direito... A fechadura estava quebrada. Ele conseguiu quebrar a fechadura e eu não tinha reparado...

Não importa o quanto eu tentasse... Procurar era inútil, ele tinha pensado em tudo.

"O assassino! E eu não existo!..."

Por isso estou relatando tudo aqui. Não é uma despedida, nem um pedido de perdão... Mas um aviso. A pessoa que está por aí a fora, é perigosa... Ele é manipulador, cruel e vingativo.

E eu não tenho motivo para viver preso na cadeia... Então minha vida termina aqui.

Cuidado.

Autora: Ana Beatriz Candeas


12 comentários:

  1. Mel dels um generosissimo 3/10.

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  2. Que merda esses comentaristas críticos literários! Agora toda creepy só tem gente com "Hur dur tal coisa/10", já que querem encher o saco e criticar, deem dicas de escritas, de contexto, etc. Ah é, acho que nem a metade dos que ficam rebaixando as creepys praticam a escrita.

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    1. Tem que ser crítico para sempre incentivar a melhora, e um generoso 2.5/10.

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    2. Então eu tenho que ser presidente pra criticar o governo né

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    3. Vocês podem criticar, mas tenham prioridade no assunto antes de ficarem dando "notinhas" para a história. Dêem dicas, sugestôes, coisas úteis, mas nai fiquem dizendo "ain, um generoso tãtã/10" isso não é útil é só transmite uma sensação de arrogância.

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    4. concordo plenamente com você cara

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  3. Eu escrevo a uns 6 anos, e acho que o desenvolvimento estava bom, mas ficou meio jogado o final, talvez tenha sido um pouco de preguiça, se for pra dar uma nota daria 5 pela criatividade e por ser bem promissor

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  4. Não tá ruim, só precisa de um pouco mais de treino. Continue escrevendo e não ligue para as criticas destrutivas dos metidos a Edgar Allan Poe nos comentários.

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