14/10/2017

Alcançando Plutão

Em 1976, a União Soviética iniciou outra tentativa de alcançar uma fronteira espacial antes dos Estados Unidos. O projeto foi mantido em total segredo, e nenhuma informação havia sido revelada até agora. O foguete, que foi construído usando parte da tecnologia e da equipe remanescente do último programa para Marte, foi chamado Tizhonov 1. Seu design foi feito para manter os cosmonautas em relativo conforto durante a longa jornada. Com o trabalho intenso no projeto, o foguete estava pronto para ser lançado em 21 de julho de 1978.

Nos dois anos que se passaram entre o início e o fim da construção do foguete, o governo fez inúmeros testes para selecionar a equipe de 6 pessoas perfeita para viajar nele. O que começou com 200 pessoas terminou, após vários exames físicos e psicológicos, em apenas 12, que foram colocadas em quartos praticamente vazios, onde não haviam ruídos e apenas luzes artificiais. Os últimos 6 a saírem seriam aqueles que viajariam no Tizhonov 1. Após esse teste de resistência, que durou 7 meses, os 6 cosmonautas foram escolhidos: 4 homens (Vladmir, Aleksei, Petrov e um quarto) e 2 mulheres (Elmira e uma segunda). Nenhum de seus sobrenomes é conhecido, uma vez que, assim como os nomes dos 2 cosmonautas desconhecidos, essa informação foi removida na única cópia restante dos documentos.

Nas primeiras horas de 06 de Novembro de 1978, o Tizhonov 1 foi lançado no espaço. Ninguém na imprensa nacional ou internacional foi informado a respeito: a União Soviética manteve tudo em sigilo para que não houvesse nenhuma situação embaraçosa para o governo caso algo desse errado novamente. Para supresa geral, o foguete não apenas foi lançado sem qualquer problema, mas voou muito mais rápido do que foi previsto pelos cientistas do programa espacial soviético. De acordo com todos os cálculos, o foguete levaria, aproximadamente, 11 anos para chegar ao destino, mas na nova, inesperada velocidade que estava alcançado, os cientistas estimavam que levaria apenas 8 anos para chegar ao destino.

Durante os 8 anos que se passaram, a estação fazia contato com os astronautas de hora em hora, para ver como eles estavam. Eles comemoraram quando foram informados do quão rápido o foguete estava viajando, uma vez que, embora eles tivessem passado o teste de resistência, estavam preocupados com a possibilidade de ficarem muito entediados com a longa espera. Nada fora do normal aconteceu por muito tempo, até a segunda metade do sétimo ano.

Os dois cosmonautas desconhecidos informaram a estação que estavam tendo pesadelos estranhos, do tipo que nunca antes tiveram em suas vidas. Embora os cientistas tenham perguntado a respeito, nenhum dos dois forneceu mais detalhes, dizendo que provavelmente estavam apenas perdendo horas de sono devido à ansiedade de estarem tão perto do destino. No entanto, eles ainda reclamaram desses pesadelos por algumas semanas, parecendo cada vez mais frustrados, até que... nada. Toda informação foi removida, e todos os esforços para descobrir o que aconteceu se provaram inúteis. O que quer que tenha acontecido, no entanto, parece ter sido muito melhor que o que aconteceu com os quatro que restaram.

Quando o foguete pousou em Plutão, em 25 de Dezembro de 1986, houve uma grande celebração nos quartéis soviéticos. Os cosmonautas informaram um pouso seguro, e que iriam iniciar uma caminhada no solo do então nono planeta. É aí que as coisas se tornam sombrias, embora, como é de costume, muitos detalhes estão faltando, e nós só sabemos o que sabemos porque um dos cientistas soviéticos, de alguma forma, salvou da destruição sua cópia da gravação dos eventos que transcorreram no único dia que os cosmonautas passaram em Plutão. O que você lerá é uma tradução da transcrição da fita que sobreviveu.



VLADMIR: Nós finalmente estamos aqui. Apesar do termômetro dizer que está fazendo -203 graus agora, nossos trajes espaciais estão nos mantendo surpreendentemente aquecidos neste pequeno e frio planeta. Vivas para a União Soviética, camaradas!

ALEKSEI, PETROV E ELMIRA: Vivas!

ELMIRA: A pressão é muito baixa aqui. Ela é tão baixa que nossas ferramentas sequer podem medi-la. Ou isso, ou elas estão quebradas. Mas eu estou mais inclinada a acreditar na primeira opção. Nós devemos esperar no foguete primeiro para nos acostumarmos à pressão?

Silêncio.

ELMIRA: Entendido. Neste caso, nós seguiremos com nossa missão. Petrov, você poderia abrir a porta para nós?

PETROV: Sim. Um momento.

Passos, e então o som de uma porta sendo aberta, são ouvidos.

ALEKSEI: Perfeito. Não poderemos desperdiçar um instante sequer.

Mais comemorações são ouvidas enquanto os cosomonautas saem do foguete. Após alguns momentos de silêncio, a comunicação é retomada.

VLADMIR: Isso não é o que esperávamos ver em absoluto.

A voz de Vladmir está tensa, e é seguida por silêncio.

ELMIRA: Como poderíamos descrever isso? Não é como qualquer coisa que tenhamos visto antes. Parece... Existem objetos semelhantes a enormes telas de televisão por todo lado. Elas mostram coisas que sumiram muito antes da televisão existir, e coisas que provavelmente irão existir muito após o fim da televisão. E também -

Silêncio.

PETROV, ALEKSEI E VLADMIR: Certo.

Silêncio.

ELMIRA: Não existem pessoas ou seres vivos até onde a vista alcança. Podemos ver coisas semelhantes aos postes de rua, mas o que emana deles não é luz, e sim, escuridão.

Sons de passos são ouvidos por mais de um minuto. Quando as vozes são ouvidas novamente, estão ainda mais tensas que antes.

PETROV: Se vocês pudessem testemunhar o que nós estamos testemunhando aqui! Vocês iriam enlouquecer!

ALEKSEI: E provavelmente nós já enlouquecemos!

Silêncio. De repente, um ruído metálico é ouvido. O som de um tiro vem em seguida.

PETROV, ALEKSEI E VLADMIR: [murmúrio indecifrável coletivo]

ELMIRA: Camaradas, acalmem-se. Deixar-se impressionar por algo assim vai apenas fazer com que tudo fique pior.

VLADMIR: Como podemos nos acalmar? Nós não fomos designados para ver o que nós acabamos de ver!

ELMIRA: Sim, mas -

Silêncio.

ELMIRA: Imagine uma criança cuja pele fosse a mesma de um lagarto. Cujos olhos fossem inexistentes, e através de cujas cavidades você pudesse ver seu cérebro. Cuja boca fosse cheia de dentes afiadíssimos. Imagine tudo isso e mais coisas que não podemos sequer pensar em descrever.

Silêncio.

VLADMIR: Seria muito perigoso. Essa coisa é provavelmente venenosa.

Silêncio.

VLADMIR: Nós não queremos correr o risco.

Silêncio.

VLADMIR: Pare de fazer esse pedido!

Silêncio.

VLADMIR: Está bem! Está bem! Se você quer que seus heróis arrisquem suas vidas, então nós levaremos essa criatura para a Terra com o maior prazer!

ALEKSEI: Temos espaço no foguete para armazenar algo assim?

PETROV: Sim, mas estava reservado para outras coisas do planeta Plutão, não apenas um troféu.

Silêncio.

PETROV: Desculpe-me.

Outro som metálico é ouvido. O que se segue são os gritos dos quatro cosmonautas, e então tiros.

ELMIRA: CORRAM!

Passos apressados são ouvidos. Atrás deles, o ruído metálico fica cada vez mais alto até alcançar os passos. Os gritos ficam mais altos e incoerentes. Tiros são ouvidos.

Ouve-se Vladmir gritando, então gargarejando, e então mais nada é ouvido dele.

Após alguns instantes, Petrov parece tropeçar em algo, e, após um baque forte, ofega antes de silenciar por completo.

Aleksei grita palavrões por todo o tempo restante, até que um som alto e violento de algo sendo cortado é ouvido, seguido por pequenos baques.

Elmira continua a disparar a arma mesmo depois que o último de seus colegas sucumbe. Eventualmente ela alcança o interior do foguete e bate a porta. Ela chora.

ELMIRA: ELES ESTÃO TODOS MORTOS! MORTOS! NÃO HÁ MAIS NADA QUE POSSA SER FEITO!

Silêncio por alguns instantes.

ELMIRA: Vladmir... Ele foi... Então a criatura... Tentáculos... Apêndices sugadores de sangue... Então Petrov.... Ele tentou... Nós tentamos... Mas... Pés... Garras... Pisão... Parou... Aleksei... Cortado... Partido... A criatura... Não é... Nós nunca... Nossas famílias... Eles todos... Nós nunca... Propriamente enterrados... Nós...

Nesse ponto, a fita corta para estática.


Os cientistas e oficiais na Terra ficaram completamente perplexos. Tentativas de retomar contato com os cosmonautas se provaram inúteis. Houveram planos para enviar um segundo foguete a Plutão para tentar ver o que aconteceu aos cosmonautas, mas o projeto foi adiado e eventualmente cancelado devido à crise da União Soviética. Quando ela foi dissolvida e cada país tornou-se independente, quase todas as informações da missão haviam sumido. Os destinos de Elmira, Vladmir, Aleksei, Petrov e os cosmonautas desconhecidos ainda são um mistério.



Originalmente postada no blog Secret colour from hell


11 comentários:

  1. isso me lembra muito as cronicas marcianas, quando um grupo de astronautas chega a marte e encontra todos seus familiares que estavam mortos, mas eles não são exatamente seus familiares

    ResponderExcluir
  2. Muito bom, daria um ótimo filme de terror (10/10)

    ResponderExcluir
  3. Eu adoro tudo relacionado ao espaço, e creepys nesse tema de mistério que envolve outros planetas sempre me agradam. (eu sou a louca q adora documentário)

    ResponderExcluir
  4. Poderiam postar mais umas nesse estilo, bom dms

    ResponderExcluir
  5. Mais ou menos, uma viagem tripulada levaria uns 13 anos e mesmo que aumentasse a velocidade temporariamente, o puxão gravitacional impediria de ser reduzido esses 3 anos na creepy

    ResponderExcluir
  6. Que creepy épica, amo conspirações Sci Fi da Guerra Fria. Imagino se projetos assim possam ter existido, muita gente inclusive fala que discos voadores projetados pelos nazistas existiram

    ResponderExcluir