12/05/2017

Creepypasta dos Fãs: A Face da Morte

[Quer ver sua creepypasta aqui? Envie-a para o e-mail creepypastabrasil@hotmail.com, com título da creepy e seu nome!]

Era noite. Muito tarde. Estava eu voltando de uma boa festa com um grupo de amigos. Eis que ficamos cansados e decidimos nos apoiar na parede e na calçada para descansar um pouco. O lugar era desconhecido (sinistro, aliás), mas não nos importamos muito (estávamos exaustos mesmo). Até que um dos nossos amigos decide se levantar e ir embora, na frente. Disse ele ter que acordar bastante cedo e que, por algum motivo, não poderia mais ficar vagabundando até amanhecer conosco. Nos despedimos dele e ele partiu. 
 Cerca de uma hora depois, também decidimos partir, afinal, todos nós teríamos suas respectivas responsabilidades pela manhã e não poderíamos perder mais tempo ali. Ao total, havia seis pessoas conosco (sete com nosso amigo que partiu mais cedo). Cada vez mais que nos locomovíamos pela redondeza, eu notava o quanto aquilo era tenebroso. A temperatura caiu e fiquei com muito frio. Fui caminhando cada vez mais devagar e por não entender direito, mas estava com medo de algo, repreensivo. 

 
“Será o frio?”, pensei. 
 
Continuamos a andar, até que Ana, que estava mais na frente que todo mundo, grita desnorteada:  
 
- Meu Deus, o que é isso? Christian, por quê?! 
 
Christian é o nome do nosso amigo que saiu sozinho na frente antes de nós. Fico sem entender. O medo fica maior, mais forte. Corro para tentar consolá-la, o mais próximo dela. Até que chego em seu campo de visão e fico completamente gelado. Não conseguia reagir, minhas pernas estavam bambas e meu suor, frio. Tiro Ana dali o mais rápido possível. Peço para os meus amigos se acalmarem. Todos estão nervosos.  
 
Encontramos nosso amigo completamente ensanguentado, sem duas pernas e um braço, falando em voz deveras baixa e nos ignorando.  
- “Christian’’,“Christian’’... - nós gritávamos, mas nada de ele responder... 
 
Ele devorava uma de suas pernas enquanto falava coisas sem sentido e de difícil compreensão. Eu não suportei ficar olhando aquilo. Tirei Ana dali o mais rápido possível, até que uma voz rouca e forte grita: 
- Aonde pensa que vai, Isaac? Volte aqui, há algo que tenho a lhe dizer...  
 
Minhas pernas gelam, não quero voltar. Minha coluna se endurece. A última coisa que quero fazer é voltar ali. Ele me chama novamente: 
 
- O que temes, Isaac? Ande, olhe-me novamente... 
 
Ana segura meu braço e diz: 
 
- Por favor, não volte ali. 
 
Eu olho em seus olhos apavorados e digo: 
 
- Eu realmente não quero voltar... Não quero vê-lo nesse estado novamente... 
Christian sorri:  
 
- Não queres me ver assim? Hahaha. Isaac, não foi você quem há de me ter desejado isso? Isaac, aquilo que você mais desejava era minha morte... 
  
Todos olham para mim, inclusive Ana, que larga minha mão. Christian volta a repetir: 
 
- Não foi, seu traidor? Olhe para mim, veja culminar em mim o seu podre desejo, veja em mim sua mais doentia aspiração de vontade... Hahahahaha - Christian continua a dizer: 
 
- Isaac, hoje eu conheci algo sublime, você me apresentou isso. Me apresentou o ódio, a dor e o remorso. E melhor, me apresentou “aquilo”. Me espere, Isaac, eu voltarei, lembre de minhas palavras. Isaac, quando eu voltar, você verá a face da morte, você verá meu rosto... 
 
Após expressar essas últimas palavras, Christian voltou a falar baixo e, aos poucos, morreu por hemorragia.  
 
Depois de tal incidente, minha relação com meus colegas meio que culminou ali. Eu decidi mudar de cidade. Fui para longe, do outro lado do país. Eu me formei e me tornei advogado. A única com quem mantive determinado contato foi Ana. Cinco anos se passaram após a fatídica morte de Christian. Meus amigos e eu prometemos nunca mais tocar naquele assunto, decidimos tornar Christian parte do passado e esquecê-lo de uma vez por toda.            
 
“O passado está para trás”, pensei. 
 
Mas ele nunca está, não é mesmo?  
Recebo uma ligação de uma amiga que não vejo  bastante tempo, da minha velha cidade. Era a Ana... 
Ana me ligou para contar que um de nossos velhos amigos morreu: o Arthur. Ele morreu de hemorragia após ser encontrado com braços e pernas mutilados cerca de cinco dias atrás. Deixou escrito com sangue:  
 
“Não há o que se fazer, o passado não PODE ser enterrado. Eu voltarei.” 
Incipt: A face da morte. 
 
Imediatamente eu começei a soar frio. Além de mim, Ana e Arthur, mais três colegas testemunharam a morte de Christian outrora e ficaram cientes de suas palavras. São eles: Débora, Milena e Eduardo (Debóra e Eduardo eram namorados na época). 
 
- Eu voltarei!”, ele disse... 
- “Você verá a face da morte!”. Não há como ser coincidência, é o Isaac! 
 
Ana pede que eu volte a minha velha cidade, diz estar com medo. Fico apreensivo, também estou com medo. Mas depois do que presenciamos juntos, me sinto responsável pelo acontecido. Devo isso a ela. Cancelo todos os meus afazeres. Pego o avião e volto ainda hoje. Instalei-me numa pequena república de esquina. Marquei com Ana de nos encontrarmos numa antiga cantina que frequentávamos quando mais jovens. Espero-a atencioso, há muito tempo não a vejo. Eis que ela me cutuca pelas costas e profere: 
 
 
- Olá, senhor advogado! Quanto tempo... - disse Ana. 
 
Respondo: 
 
- Sim, Ana, quanto tempo! - Ela estava linda, pensei.   
- O que tens feito, minha linda? – digo.  
- Ah, nada demais... Não há muito o que se fazer em cidade pequena, sabe... Eu não tive sua sorte. – diz Ana, sorrindo. 
 
Decido desconversar: 
 
- Não diga isso, sempre soubemos que você foi brilhante... 
 
Ela, acuada, concorda: 

- É... 

O papo esfria, eis que tenho que tocar no assunto que mais temo: 
 
- Ana, você presenciou a morte do Arthur? 
 
Ela segura fortemente a minha mão, dizendo: 
 
- Sim, eu presenciei, Isaac! Na verdade, eu comecei a namorar o Arthur a cerca de um ano e estava com ele em seu quarto quando ele morreu... 
 
Eu fico pasmo, em choque!  
 
- Ana, conte-me, o que houve?  
 
- Eu não sei, Isaac! - ela diz - Estávamos bem, passávamos todos os dias juntos e transávamos durante a noite. Eu saí por um instante para tomar banho e quando voltei, o encontrei já morto. Após isso gritei pelos seus pais, pois estávamos na casa deles, e eles chamaram a polícia. Já te contei sobre a mensagem, não é?  
 
- Sim, já contastes... – digo. 
Entro em reflexão profunda. Afinal, isso é medonho! Como pode tal cena se repetir após cinco anos e novamente em nosso meio?! Ana interrompe meu devaneio... 
 
- Isaac, lembra daquela banda, Incipt? – diz Ana. 
 
- Claro que lembro, Ana, éramos fanáticos – digo. 
 
- Isaac, eu sei que nós nunca fomos, aquele grupo em específico, religiosos, mas nós sabíamos da fama da Incipt quando ao fato de serem feiticeiros, satânicos que transmitiam magia, ocultismo e bruxaria por meio de suas músicas... Isaac, quando nós ficamos bêbados, naquele dia, no show da Incipt, eu lembro que o Mr. Crowley, vocalista da banda, nos cumprimentou e nos deu de sua própria bebida. A todos nós, incluindo Christian. Após aquilo, lembro-me apenas de fatidicamente estarmos todos nós, cansados, caminhando por ruas escuras e frias, que nunca havíamos visto antes... Isaac, você se lembra?  
 
- Isaaac... Isaaccc... Isaaaaaaaaaaaaaac... 
- Ana, o que nós fizemos? – eu disse. 
 
Até aquele momento, eu realmente não lembrava-me de nada do que proferido por Ana. Talvez tenha eu me tornado tão ressentido com aquele ocorrido, que decidi apagar de minha memória cada traço que me remetesse aquele dia, que me remetesse à culpa pela morte do Isaac. Ana realmente tem razão: nós bebemos do copo do Crowley. Logo após, todos nós cantamos “A face da morte”, a música mais famosa da Incipt. A amaldiçoada música que jurava fazer com que todos os seus desejos podres se realizassem. E eu desejei, desejei mais que do que minha própria morte naquela noite, desejei a morte de todos os seis, TODOS OS MALDITOS SEIS QUE SEMPRE ME HUMILHARAM. Sim, eu me lembro agora:  
 
“A face da morte 
 
Vamos, basta pedir, a morte acalenta o suspiro do sofrimento. 
Não tenha medo, rápido, peça... A morte aguarda o suspiro que cessa. 
Acaricie sua chance, abrace teu desejo, conheça na morte o mais doce desejo. 
Se coragem é o que te falta, deixe com ela toda avidez covarde, dê para ela o que tanto suplica, imprime nela vontade. Dá a ela a mais sublime vontade, vontade de vida, característica inerente à morte. Não há morte, sem vida. 
Mas muito bem, esteja ciente, o desejante é também pendente.  
Fara com que uns conheçam o fim ao pedir, mas é o rosto daqueles que pediu, que verás no fim." 
 
Eu não sou um monstro, mas não estava mais disposto a ser somente capacho. Sim, eu pedi com todas as minhas forças a morte dos seis, mais fortemente ainda a do Christian, aquele maldito. Eu sempre fui o excluído do grupo, aliás, eu nem fazia mesmo parte dele. Eu era um incluso sem graça que somente servia de capacho. Porém, eu sempre aguentei os insultos e exclusão pela Ana. Eu sempre amei a Ana, apesar de nunca ter tido coragem de dizê-la. E não poderia mesmo, não depois daquele incidente. Eu contei ao Christian, momentos antes de ir ao show, que a amava e, mesmo assim, durante o show, ele beija-a e sorri para mim. Coincidentemente toca: “A face da morte” e num culminar de raiva eu desejo a morte de todos.” 
 
Logo após recuperar todas as lembranças, sou novamente indagado por Ana: 
- Isaac, você se lembra? 
 
Respondo-a: 
 
- Sim, eu lembro! 
 
Ana diz: 

- Ótimo! 
Posteriormente, fui acertado na cabeça pelas costas, desmaiando. Acordo desnorteado, num quarto abandonado que desconheço. Tento recuperar um pouco de minha visão, que estava embaraçada. Na minha frente, encontrava-se somente uma TV fora do ar e um sonzinho que tocava uma música familiar. Escuto passos bem fortes vindos de fora do quarto, a porta estava trancada. Eis que uma voz macabra ecoa de debaixo do meu colchão, eu não posso me mexer, estou amarrado pelos braços e pernas. A voz fica mais alta e rouca, me assusto, tenho medo, fecho meus olhos. A voz ordena-me:  

 
- Psiiiiu! Abra teus olhos... 
 
- Não! – digo. 
  
A voz sorri: 
 
- Hahahaha. O que temes? – pergunta, e fica mais forte - Vamos, abra! Veja o resultado do teu pedido, veja, olhe para mim, o consumar de sua vontade... Abra os olhos, covarde! 
 
Eu abro... Era a Ana... Após vê-la em tal estado, meu ímpeto se quebrou por completo. Digo, eu já sabia que iria morrer ali. Ela anunciava-me o meu desejo, como eu amaldiçoei todos naquela noite enquanto cuspia sangue e mais sangue. Os passos ficam mais rápidos. Alguém bate na porta. A TV dá sinal; era uma câmera. Há cinco pessoas do lado de fora do quarto. Ana pronuncia-se: 
- Oh, eles chegaram, Isaac?! 
 
- “ELES”, quem? – pergunto. 
 
Ana sorri, dizendo: 
  
- Andem, respondam a ele quem são vocês! 
 
Tudo fica em silêncio por um instante. Até que vozes trêmulas e roucas se anunciam aos poucos, profanando nomes: 

- Débora! 
- Milena! 
- Arthur! 
- Eduardo 
- CHRISTIANNN! 
- E eu, Anna! 
- Cá estamos nós, Isaac, os amaldiçoados por você. Todos nós pagamos pelo seu insolente pedido e alimentamos os malditos bruxos da Incipt. Mas sabe, Isaac, podes me dizer qual a parte boa, apesar de tudo? Lembra-se da letra da fatídica “Face da morte”? Relembremos um trecho e, uma vez mais, juntos, cantemos. O volume do som aumenta:  

“Mas muito bem, esteja ciente, o desejante é também pendente.  
Fara com que uns conheçam o fim ao pedir, mas é o rosto daqueles que pediu, que verás no fim.”  
 
Todas as vozes demoníacas expressaram o trecho num onírico coro, avisando-me da morte eminente. Quando terminaram, Ana, ensanguentada, disse: 
 
- Vamos agora, entrem! O desejante é também pendente! Fará com que uns conheçam o fim ao pedir, mas é o rosto daqueles que pediu, que verás no FIM...

Autor: Uraharaki Suki
Revisão: Gabriela Prado

07/05/2017

A Banheira de Pregos – Parte 4

Parte 1: http://www.creepypastabrasil.com.br/2017/01/a-banheira-de-pregos-part1.html
Parte 2: http://www.creepypastabrasil.com.br/2017/01/a-banheira-de-pregos-part2.html
Parte 3: http://www.creepypastabrasil.com.br/2017/01/a-banheira-de-pregos-part3-o-comeco-da.html

(Antes de começar a creepy gostaria de dizer que já havia desistido dessa história, mas seria um erro ainda maior entregar algo incompleto para vocês, em respeito a vocês segue a parte 4 da creepy.)  


Aquela garotinha tinha a maldade nos olhos. Seu olhar era frio como uma noite de inverno, ela parecia se orgulhar de cada cicatriz em seu corpo, fazia questão de passar os dedos em cada uma delas. Seu vestido branco lembrava um pijama, aquele vestido era a única coisa meiga que havia nela. 

– Cada prego nessa banheira foi usado para crucificar uma bruxa, mas esses pregos não são nada comparados aos pregos que ganhei há algum tempo. Esses pregos maiores perto do ralo são os pregos usados para crucificar Deus. Eu adoro me banhar aqui,  sinto a dor de cada um deles e isso me dá prazer, essa banheira foi um presente... Ah! Seus avós acabaram de morrer, mas não se preocupem, eles estão com um lindo anjo agora chamado Samael. 

A voz de uma criança dizendo tudo aquilo era absolutamente chocante para os ouvidos de Alex e Caio. Era uma mistura de sentimentos em cada um deles... Um pouco de ódio, tristeza e perplexidade. Aquilo era tão surreal para eles que algumas vezes eles até se agrediam para ter certeza de que aquilo não era um sonho. 

Estava frio lá, mas o suor de nervosismo e medo pingava de suas testas.

O galpão começou a enferrujar, o metal da porta ia se retorcendo aos poucos e o teto começava a rachar. 

Caio – Sua bruxa maldita! 
Alex – Isso é só um sonho cara, não é real, não é real.

Alex começava a entrar num estágio de loucura e paranoia, deitou no chão e fechou os olhos desejando acordar daquele pesadelo tão aterrorizante. 

Caio –  Afinal, qual o seu nome?! 
– Eu sou Lilith, esposa do anjo da morte Samael e amante de Lúcifer. Finalmente ele pode subir a este mundo, e vocês poderão contemplar o seu poder antes de morrer. 

O chão começou a se abrir, e aos poucos, uma besta de asas enormes se levantava da terra seca. Seus olhos vermelhos pareciam queimar por dentro, sua boca tinha presas afiadas, o cheiro de enxofre tomava conta do lugar. 

Este mundo agora é meu – Disse o diabo, em tom gritante. Enquanto se levantava com o corpo coberto de chamas, carregava na boca uma imensa bola flamejante pronta para ser lançada sobre eles. Fecharam os olhos enquanto seguravam a mão um do outro. Estavam prontos para o abraço da morte, mas um som alto fez com que a bola se apagasse no mesmo instante, e então, o céu se abriu..

(Comentem se quiserem a continuação e muito obrigado pelos comentários da Creepy da Paulista, depois da semana de provas começo a escrever a parte 3)  

05/05/2017

Creepypasta dos Fãs: Fui ao Inferno

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Tudo aconteceu no Natal. Minha família ficava falando que o Natal era um feriado pagão e que não comemoravam o nascimento de Jesus. Como eu ERA ateu, zombava de Jesus e de Deus. Quando chegou a meia-noite, fui para meu quarto, peguei um cigarro, acendi uma velas em forma da estrela de Davi e as liguei com giz. Comecei a rezar para Deus, para me dar um sinal de que ele realmente existia.

Fiquei rezando até às 01h42 da madrugada, quando fiquei furioso por nenhum sinal. Comecei a xingar e rezar para Lúcifer. Comecei a ouvir passos em volta de mim e crianças rindo, mas parecia que saíam da minha cabeça. Eu comecei a ficar com sono do nada, deitei na minha cama, acendi outro cigarro e adormeci. Acordei e meu quarto estava queimado. Tudo estava pegando fogo e parecia que eu estava em um sótão. Eu estava suando muito e ouvia gritos e sussurros, só que dessa vez eles vinham do lado de fora do quarto, e não da minha cabeça. As paredes estavam descascadas e queimadas, com o cimento aparente e manchas de sangue.

Abri a torneira do meu banheiro para beber água e só saía fogo. Me queimei.  E então eu saí para a rua. O céu estava meio vermelho e tudo pegava fogo. Era como se todas as pessoas tivessem morrido e o planeta ficara abandonado durante anos, tendo se acabado em chamas.

Achei uma menininha de uns 8 anos mancando pela rua. Falei com ela e ela disse, com uma voz grossa e assustadora: “Você não devia ter duvidado!”. Depois disso, a menina virou cinzas e apareceu uma luz. Jesus saiu dela e tocou na minha testa, e eu senti meu corpo saindo do calor e indo para um lugar fresco; Jesus falou “Volte e nunca mais duvide”. Eu acordei na minha cama e estou escrevendo isso agora, agora mesmo.
São 01h48 da madrugada e tenho um pedido para todos vocês: acreditem em Deus. Ele está testando todos vocês, para verem se são dignos de irem para o céu. Acreditem, não vão querer ficar no inferno nem meio segundo.


P.s: isso foi real. Realmente aconteceu.

Autor: Little John
Revisão: Gabriela Prado

Creepypasta dos Fãs: O Bem e o Mal

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Eu sempre fui a pessoa mais pragmática da classe. Eu era aquele cara que achava que tudo era igual à discussão de futebol: existem dois lados; ou você está em um, contra o outro, ou vice-versa. Era assim com tudo: com política, com religião, com questões banais do dia-a-dia... E com a própria vida.

A minha “lógica” era a seguinte: ou você era ‘do bem’ e odiava o mal, ou era ‘do mal’ e odiava o bem. Simples assim. Não havia e nunca haveria meio-termo quanto a isso. Não existe um “bem-mal” ou um “mal-bem”. Ponto.

Curiosamente, foi um “criminoso” que quebrou a minha linha de raciocínio “infalível”. Seu nome era Curt Adrians, e era um dos meus amigos mais próximos. Saindo de uma festa, ele foi preso por “atropelar uma criança”. Curt nunca cometeu tal ato grosseiro, mas as testemunhas oculares viram a placa do carro OLK-3327, a placa do carro de Curt, e três testemunhas oculares dizendo a mesma informação não é algo que o júri ignore num julgamento. Ele foi condenado a vários anos de prisão na Penitenciária de Salvador, a 150 km de sua cidade natal. Um dia após seu julgamento, eu fui visita-lo na delegacia. Estava irreconhecível. Seu rosto estava vermelho e inchado, provavelmente de tanto chorar, e àquela altura, provavelmente nem tinha mais lágrimas para chorar.

Eu me aproximei e batemos um papo, para amenizar aquele clima duro e pesado que o rondava. Não sei como ou quando a conversa chegou naquele ponto, mas eu acabei citando Bento XVI: “A vida é mais forte que a morte; o bem é mais forte que o mal; o amor é mais forte que o ódio”. Ele ficou sério na mesma hora. Ele endureceu a cara e olhou fixamente nos meus olhos.

– Paulo... Eu queria muito que essa sua maneira de pensar fosse verdade, mas, infelizmente, não é. O mundo seria um lugar muito melhor se fosse verdade. Muito melhor, mesmo.

Eu parei e fiquei confuso. Quando uma ideia está tão impregnada na sua mente quanto aquela estava na minha, é difícil admitir que você está errado. E naquele momento, eu estava entrando em estado de negação.

 – Como assim, Curt? É obvio que é verdade! Em algum momento o mal venceu o bem, por acaso?

 Ele balançou a cabeça e fez “tsc, tsc”.

 –  Não se engane com sua utopia, Paulo. Os conceitos de bem e mal são relativos e podem muito bem serem modificados conforme os interesses de uma pessoa. Vou te dar um exemplo simples – ele apontou para si mesmo –Eu. O juiz e os jurados dessa corte acham que fizeram o bem. Aposto que só mudariam suas versões sob tortura. Mas e quanto a você, Paulo. Você acha que o bem ganhou ontem? Acha que eles fizeram o bem ou o mal?

– O mal –  respondi baixinho. Eu já sabia aonde ele queria chegar.
– Então, Paulo. Não existe bem ou mal. Existem pessoas contra pessoas. Quem decide quem era o bem ou o mal é o lado vencedor. Se Hitler vencesse a guerra, acha que o Holocausto seria visto como um ato horrendo, como é hoje? Não mesmo. Seria perfeitamente justificável.

Eu tentei falar algo, mas fui barrado pela mulher da delegacia. Meu tempo tinha acabado. A última coisa que eu pude falar para Curt foi “É verdade”.

Foi a última vez que eu vi Curt. Ele pode ter morrido na viagem até a penitenciária, pode ter morrido na penitenciária, eu não sei. Só espero que, onde quer que ele esteja, ele esteja bem, e dando boas risadas...

Autor: Miguel Silveira
Revisão: Gabriela Prado


04/05/2017

A Coisa Embaixo da Paulista (Parte 2: No Dia Seguinte)

Parte 1> http://www.creepypastabrasil.com.br/2017/04/a-coisa-embaixo-da-paulista-parte-1.html

Acordei com a água podre me encharcando. É assim diariamente, é como se fosse um despertador nojento com o qual aprendi a lidar. Comi alguns insetos que vieram na água, muitas baratas e alguns vermes.

Sigo a passos rápidos na direção dos canos profundos, e a cada passo sinto um frio intenso se espalhar por entre as estruturas, o fedor que antes era forte agora está dando lugar a um cheiro ainda pior, não consigo explicar, mas é bem pior que o cheiro de um animal morto na beira da estrada. 

Com a ajuda de uma lanterna de mão que guardo em um saco plástico, me guio entre a escuridão, me sinto entrando em um pesadelo ainda maior quando tomo a consciência de que estou indo ao encontro de um ser que pode me devorar sem fazer esforço. 

Tem bastante daquele líquido hoje. Meus pelos estão começando a grudar uns nos outros, me sinto como uma criança que grudou chiclete no próprio cabelo. É até engraçado, mas aqui não há espaço para sorrisos ou risadas.  Acho que vou usar o saco da lanterna para recolher alguns insetos, o caminho deve ser longo e a fome pode chegar a qualquer hora. Tem alguns ratos normais aqui, mas jamais comeria qualquer um deles, isso seria canibalismo.

A temperatura está aumentando, o suor começou a descolar os pelos, o líquido acinzentado escorre pelo meu corpo agora, mas os pelos ainda continuam aqui e talvez jamais desapareçam, afinal, agora vivo uma outra realidade, tenho um novo organismo e nem humano me considero mais. Nunca pensei que iria me transformar num bicho que sempre odiei. 

Escuto alguns sons se aproximando... A água vai passar em poucos minutos, preciso correr até o próximo cano. Se eu cair e a corrente de esgoto me levar, não vou ter mais como voltar. Gastei energia à toa, podia jurar que a corrente estava se aproximando, mas não aconteceu nada e agora estou num cano mais estreito. Não dá para respirar muito bem, isso incomoda muito, me sinto refém da minha própria casa. Seria perturbador escutar um urro da criatura ecoando aqui. 

Já estou há mais ou menos meia hora explorando e a lanterna começou a piscar... Vou desligar um pouco e seguir o caminho na escuridão. Meu olfato é incrível e posso usa-lo bastante aqui, só preciso seguir o cheiro dos rastros de líquido.

Enquanto tento distinguir qual é o cheiro certo e tentar ignorar o cheiro de merda, penso em como seria melhor ter morrido aquele dia, seria tudo tão mais fácil. Meu corpo seria cremado e as cinzas jogadas do alto do edifício Itália como havia pedido a minha esposa caso acontecesse algo comigo. 

Escutei novamente o som da corrente de esgoto se aproximando, com mais força dessa vez e não tenho muito o que fazer a não ser pressionar o abdômen e tentar me esgueirar o mais rápido que der. A água está tocando nos meus pés, estou sendo coberto por ela, talvez esse seja o meu fim. 

- Coff, coff! 

Por um momento, pensei estar morto. Um leve sorriso se fez presente no meu rosto, mas sumiu na mesma rapidez em que apareceu, meus dentes pontiagudos ainda estão aqui e aqueles malditos pelos duros também. Ah, e não posso esquecer desse cotoco de rabo.



(Continua..)

(Desculpem, mas ando muito sem tempo, estou em semana de provas.)

29/04/2017

Algumas coisas que você vê apenas através dos olhos dos outros

O conteúdo abaixo foi retirado do diário do Hayde. Encontrado dentro do seu apartamento, duas semanas depois de sua morte.


Em uma tranquila tarde numa típica cidade agitada, com o ar cheirando a querosene e fumaça, eu estava sentado na janela do meu apartamento, olhando para fora e me perguntando: por qual motivo eu ainda me incomodava em acordar todas as manhãs? À beira da loucura, medicamentos percorrendo pelo meu corpo, meu mundo se destruindo ao meu redor, eu estava sentado, quieto, sacudindo meu corpo para frente e para trás, abraçando fortemente os meus joelhos. Estou vendo aquilo? Aquilo é real? Uma pergunta que eu me fazia todos os dias. Minha mente se agitava enquanto eu sacudia minha cabeça, esfregando meus olhos em descrença. Eu não tinha certeza se era uma criação da minha mente perturbada.

Uma figura negra, envolta em um casaco preto e um chapéu igualmente preto. O rosto da figura não era visível de onde eu estava. Ele estava encurvado, com movimentos anormais, seus músculos dos braços e pernas espasmavam enquanto ele se aproximava do meu prédio. Deixando um pacote na entrada do prédio, ele me deu um rápido aceno, a sombra do seu chapéu ocultava a maior parte do seu rosto, exceto por um único detalhe. Seu sorriso... estremeci de medo. Ele me perturbava. É difícil descrevê-lo, essa lembrança me assusta, mas acredito que eu deva contar, pela minha história. Sua boca caracterizava a decadência, os cantos eram rasgados, esculpindo um permanente sorriso sinistro, expondo suas gengivas e dentes podres. Corri para o meu quarto, me trancando lá. Abracei a mim mesmo, enquanto sentia as sombras da noite caindo ao meu redor, me cobrindo. Sentia minha garganta seca, enquanto enxugava minhas lágrimas de medo.

Pus a cabeça para fora do meu quarto, meus olhos percorrendo as paredes escuras, procurando por qualquer sinal daquela criatura terrível, que eu nem poderia considera-lo um homem, apesar de sua forma humanoide. Enchendo um copo com água fresca, engoli rapidamente. Uma irritante sensação de ter esquecido de fazer algo, misturado com medo, fixava-se no fundo da minha mente. Olhando para a sala escura, não pude deixar de notar uma luz vermelha piscante. Apertei o botão do interfone. “Ei, Hayden? Tem uma encomenda aqui na recepção, venha busca-la. Ninguém viu quem a deixou, mas deve ser importante.” A voz do recepcionista ecoou pelo interfone. Desliguei o aparelho, dando lentos passos pelo apartamento decadente.

As paredes eram antigas, o papel de parede estava caindo, o mofo penetrava pelo teto. Isso me irritava, o jeito que as lâmpadas piscavam, por causa dos fios lascados. Um arrepio percorreu meu corpo quando ouvi ratos andando pelas paredes. Bati duas vezes na porta do recepcionista, onde se lia “Apenas funcionários”. Mas não tive resposta, apenas o zumbido de estática. A curiosidade levou a melhor sobre mim, enquanto eu empurrava a porta. O medo me atingiu em cheio quando meus olhos encontraram a silhueta do recepcionista, sua nuca era visível por trás da velha cadeira reclinável. “Senhor Kelly? Você está bem? Posso pegar a minha encomenda…?” perguntei, rezando para que ele respondesse. Esperei pelo que pareceu uma eternidade, e uma repentina onda de coragem tomou o meu corpo enquanto eu girava sua cadeira… meu queixo caiu, e engasguei, sufocando um grito que saia pela minha garganta.

Eu estava com medo. A coisa que tinha feito aquilo com ele poderia ainda estar rondando pelo local. Pobre coitado, estava parecido com uma das grotescas criações da minha mente perturbada. Estava sem olhos, apenas um pedaço de carne pendia onde os músculos e nervos foram destruídos em suas órbitas, seus olhos tinham sido retirados à força. Não pude evitar o vômito quando vi sua boca. Estava igual a da criatura que eu tinha visto, acenando para mim, me perturbando com a sua estranha forma. Sua boca tinha sido rasgada das bochechas, lama e terra estavam espalhados por suas gengivas, deixando-as com uma aparência apodrecida. Seus dentes, puxados de suas gengivas sangrentas, estavam realinhados em uma nova forma. Estavam enfiados em suas bochechas, sim, isso mesmo. Enquanto pedaços de carne e pele tinham sido rasgados de seu rosto para permitir que seus dentes saíssem, rearranjados em uma nova forma doentia. Caí para trás, em choque, me segurando pelo único fio de sanidade que ainda me restava. Não conseguia acreditar. Me perguntava se era real. Tremi enquanto uma brisa gelada entrava pela janela, fazendo as cortinas sacudirem. A estática zumbiu em meus ouvidos, a televisão ainda estava ligada. Tentei desliga-la, mas a estática aumentou, e cessou abruptamente.

A TV iniciou um vídeo da câmera de segurança do que parecia uma semana antes. Mostrava um homem, vestido com um casaco preto e um chapéu, de pé em frente a um apartamento... pulei para trás, assustado por estar vendo a criatura outra vez. Mas para o meu horror, a câmera aproximou do número, mostrando 356. Meu apartamento. Sequei as lágrimas de medo que saíam dos meus olhos, enquanto o vídeo continuava. Ele mostrava uma progressão de lugares por onde eu estive. Então, subitamente a estática retornou, e a TV passou a mostrar a morte do Sr. Kelly. Ele estava sentado, assim como o seu corpo sem vida, mas no vídeo ele estava enfraquecido, como se estivesse dopado. Suas mãos estavam amarradas por trás, e eu conseguia ver uma figura escura se movimentando por trás, o familiar casaco e o chapéu ficaram visíveis mais uma vez. Deixei o local antes de ver o que aconteceria, porém, não antes de captar o sorriso sádico da criatura.

Meus pés tombaram no tapete apodrecido, me repreendi, mas não pude deixar de olhar para trás, sobre meu ombro, e ver uma coisa terrível. Era aquela coisa. Ele sorriu para mim, e apenas naquele momento que pude ver o seu rosto por inteiro.

Ele era eu.

Apenas uma versão grotesca, minha. Seu chapéu fora removido, mostrando sua imunda careca, marcada por várias cicatrizes. Seus olhos estavam costurados, formando duas linhas curvas em seu rosto. Ele sorriu para mim, sua voz soando profundamente monótona, “Somos os mesmos.” Corri o mais rápido que pude, meu coração pulando de medo, a adrenalina assumindo meu corpo. Bati a porta, arrastando os móveis mais pesados contra ela, me isolando dentro do meu apartamento. Minha mente gritava para que eu acabasse com tudo, enquanto eu o ouvia chamando por mim em um tom cantante. Ele riu enquanto parava em minha porta, eu sentia sua presença me ameaçando. Corri para o banheiro, me trancando lá dentro, enquanto ouvia passos pesados cruzando o corredor. Havia apenas mais um retalho de esperança para mim...corri para o meu quarto, que era bem em frente ao banheiro, e peguei a esperança que estava embaixo da minha cama...


O conteúdo a seguir foi retirado de um relatório policial.


Investigando a propriedade, encontramos o corpo de um jovem, homem, caucasiano, pendurado em uma viga no quarto. Suspeitamos de suicídio, devido a uma doença mental, já que havíamos encontrado um frasco de medicamento prescrito, com dois comprimidos não consumidos. Testemunhas relatam o comportamento do jovem, Hayden, visto rondando pelos corredores, desorientado e assustado. O corpo do recepcionista também foi encontrado dentro do complexo. O corpo estava severamente mutilado, e acredita-se que o jovem Hayden tenha assassinado o homem, antes de cometer suicídio. Também examinamos seus registros, e o seu psicólogo acreditava que ele sofria com alucinações, e confirmamos que ele não fez uso do medicamento no dia do seu suicídio.

28/04/2017

A Matrix dos Sonhos

Sabe quando você acorda no meio da noite com a sensação de que estava correndo?

Você até dá um passo involuntário enquanto está deitado e fica assustado, as vezes você acha que vai cair. Isso não é um sonho, também não é um reflexo aleatório do corpo, isso é uma falha.  Uma das falhas na Matrix. Quando você acorda com a sensação de que estava correndo é porque você realmente estava, e quando você tem a sensação de que estava caindo, você realmente estava caindo.

Você por alguns segundos se desligou do sistema e conseguiu correr, mas eles foram mais rápidos que você e conseguiram te derrubar.  É claro que você não vai se lembrar, eles apagam a sua memória.

Já parou para pensar que sempre quando isso acontece é como se a lembrança do seu sonho não existisse?

Em alguns lugares do mundo se pode encontrar as falhas na Matrix, mas é claro que esses lugares são altamente protegidos e secretos.

Será que é possível quebrar a Matrix?
O que existe fora da Matrix?

Eles te observam enquanto você dorme.

Agora você deve estar se perguntando: ’’ E como você sabe de tudo isso? ’’
Bom.... É hora de religar o sistema.

(A segunda parte da Creepy: A Coisa Embaixo da Paulista está pronta, só falta ser revisada e pra quem tanto me pediu vai ter a parte 4 da Banheira de Pregos, espero que gostem, talvez eu poste no domingo ou segunda.)

(Obrigado pelo apoio gente.)  

Autor: Andrey D. Menezes. 

Creepypasta dos Fãs: Ligação

[Quer ver sua creepypasta aqui? Envie-a para o e-mail creepypastabrasil@hotmail.com]

Trabalho em RH, e durante o dia, faço diversas ligações para candidatos com currículos que recebo. Isso é algo rotineiro, normal em minha profissão, com exceção de um único telefonema.

Telefonei para um rapaz que chamarei de Nick (para manter sua identidade). Ligando para Nick, seu celular cai na caixa postal. Duas vezes, três vezes... Na quarta tentativa, alguém atende, mas em vez de ouvir um ''Alô'', escuto uma respiração forte e rápida. Achei que pudesse estar mudo mas não estava, e escutei algo assim que eu disse ''Boa tarde, poderia falar com o senhor Nick?'' Quem quer que estivesse do outro lado, riu e sibilou algo como ''Esqueça''.

O telefone ficou mudo. Após alguns rápidos minutos, recebo uma ligação. Assim que atendo, a respiração volta ao meu ouvido. O telefone fica mudo logo em seguida. Não sei o que era, mas até hoje, o telefone só cai na caixa postal.

Autor: Camila Nunes
Revisão: Gabriela Prado

Creepypasta dos Fãs: O Senhor da Corrupção

[Quer ver sua creepypasta aqui? Envie-a para o e-mail creepypastabrasil@hotmail.com]

Criaturas inteligentes, quem lhes conduz?
Em eterna ignorância, interesse e desdém.
Correm para a Luz, correm para a Luz.
Mas pertencem a mim também.

Adianto que esta é uma história sobre o inverso. Nada, absolutamente nada, pode existir sem o seu oposto. Considere essa uma autobiografia do Mal.

“É possível que eu tenha passado longos anos sem saber que existia. Tudo era escuridão para mim. Um mero expectador de nada, sem corpo e sem companhia. Quando os primeiros vislumbres da luz começaram a surgir por toda parte tomando formas gigantescas que nasciam e morriam em instantes, ajustando-se em grandes espetáculos de fogo, eu observava tudo aquilo sem saber o que pensar ou entender. Os planetas e seus satélites, as estrelas, as galáxias, a matéria invisível até para mim que mantém todas as coisas unidas pelo campo gravitacional. Tudo isso acontecia bem diante de mim. Um Universo calmo, escuro, agora perturbado pela atraente beleza da Luz.

Minha consciência pareceu despertar quando os corpos celestes esfriaram, formaram seus rios e mares e a primeira centelha de vida começou a despertar nos cantos mais improváveis do Universo. Criaturas rastejantes que se transformavam e caçavam criaturas menores do que elas. Não faziam nada demais. A vida delas era só matar, copular e morrer.

Observar tudo aquilo foi espetacular, é claro. Naquela época, eu não tinha nenhuma noção de existência ainda. Eu me divertia simplesmente vendo os planetas que podiam abrigar vida se transformando e as espécies em evolução cobrindo seu terreno, dominando continentes inteiros, encontrando seus predadores naturais. Maravilhado, eu pude ver o quanto as criaturas se esforçavam para ficarem maiores e melhores em matar umas às outras. Não demorava muito até que uma grande inovação biológica como olhos sensíveis à luz, um pescoço mais alongado, presas curvas ou asas pudessem lançar certos animais ao topo da cadeia alimentar e garantirem a permanência de sua espécie em seu habitat.

Foi observando aquele ciclo interminável de caça, cópula e morte que eu pude perceber que, muito embora as criaturas tivessem um tempo limitado, eu permanecia atemporal. Não precisava comer, copular ou matar. Eu estava livre dos grilhões da vida, apenas assistindo aquela história sem sentido de criaturas programadas para repetirem o mesmo ciclo de novo e de novo. Não havia paixão naquilo. Elas simplesmente faziam o que suas necessidades naturais mandavam fazer. No entanto, todas elas possuíam uma origem primordial, um ponto em comum. Era óbvio para um ser tão antigo como eu: a Luz.

Foi a Luz que deu origem a todas aquelas criaturas. Eu sabia que eu não havia sido gerado pela Luz, pois eu estava lá antes da Luz existir. Aquilo me transtornou muito e por eras eu me ressenti enormemente pela incógnita que orbitava minha existência. Será que eu existia de fato? Eu me perguntava isso. Todas as criaturas pareciam nascer, crescer, se reproduzir e morrer. Eu não. O que isso significava para mim além de que eu estava apenas morto?

Até que nesse planeta vi surgir uma espécie nova, mais inteligente. Eu via sua engenhosidade, seu cérebro trabalhando para superar as desvantagens de seu corpo fragilizado e o ambiente hostil à sua volta, recheados de predadores maiores e mais fortes. Via como essa criatura, aos poucos, conquistava seu lugar primário na cadeia alimentar graças a sua inteligência ainda em formação. Mesmo que ainda fosse igual às outras criaturas, buscando seu espaço para nascer, crescer, se multiplicar e morrer, aquilo era novidade. Tanta novidade que um dia eu decidi cumprimentá-la, conhecê-la de qualquer forma. E então eu me revelei.

A primeira vez que fiz isso, apenas sussurrei no ouvido da nova criatura, um mero macaco remexendo em ossos e pedras. Aconteceu algo inesperado, no entanto. A criatura pareceu não ser capaz de me ver, mas eu havia desencadeado algo nela com as minhas palavras. Um sentimento, uma nova descoberta que destrancava áreas não visitadas de seu cérebro primitivo. A criatura contou de mim para os outros, inventou histórias fantásticas a meu respeito e logo foi coroado como o líder daquele lugar entre seus iguais. Fiquei surpreso pelo deslinde da situação. Mais surpreso ainda ao ver o quanto o poder da criatura havia lhe subido a cabeça, tornando-o um líder tirano, levando-o a seu assassinato e a uma guerra de facções, culminando na destruição daquele povo, jogando-os na escuridão.

E o culpado era eu mesmo. Eu havia corrompido a Luz daquela criatura. Foi a primeira vez que eu percebi que se a Luz havia concebido aqueles seres, eu havia lhes apresentado as Trevas. Um desvio da finalidade evolutiva de uma espécie inteira.
Minha marca no mundo estava lançada a partir daquele dia. Uma corrupção que transformava aqueles seres e os faziam cometer atos estranhos e jamais vistos. Eles amavam, odiavam, faziam amizades, coletavam rivalidades, cobiçavam, invejavam, adoravam. A corrente que mantinha aquela espécie unida unicamente para seu próprio bem estava ameaçada pelos sentimentos novos que eu despertava sorrateiramente, mas isso não era uma má notícia. Nunca! Foi com alegria que eu percebi que, na verdade, a Luz não era a resposta suficiente para o avanço da vida. Eu também era. A minha influência e perversidade eram algo que dava a essas criaturas um predador a mais para se preocuparem: elas mesmas. Seu ciclo evolutivo começou a funcionar novamente, correr contra o tempo para se aperfeiçoar cada vez mais.
Eu havia, enfim, encontrado meu propósito. A Corrupção, as Trevas. A contraparte da Luz. Não um inimigo a ser destruído e evitado, mas uma parte vital na evolução da vida, um equilíbrio, um princípio universal para a harmonia do Universo. Se a Luz era Amor, eu era o Ódio. Se a Luz era o Afeto, eu era a Rivalidade. Sem mim, toda vida inteligente ficaria presa em um status de conforto e ignorância eterna. O incrível motor do Universo e suas infinitas possibilidades estariam congelados para sempre.

Foi o que eu fiz desde então. Corrompi toda vida inteligente com Trevas. Sou o seu Deus, assim como o responsável pela Luz.

Não demorou muito e outros seres sem propósito, de alguma dimensão solitária, começaram a nascer e buscar conforto nas religiões e crenças místicas dos povos humanos que cobriam a Terra. Eu estava lá a tempo demais para ser iludido feito eles, para não saber ao certo quem eu era. Essas entidades brincavam de deuses à vontade, interpretavam seus papéis de bons ou maus e alguns até conseguiam assombrar fisicamente aquelas criaturas. Meros reflexos de alguma outra dimensão perdida no cruel desinteresse do Universo. Entretanto, até essas entidades novas e sem propósito pareciam sentir minha presença, criar teorias ao meu respeito e a minha contraparte. Eu me maravilhei com elas igualmente, pois eu sabia que sem minha corrupção elas jamais encontrariam o sentido de suas vidas. Jamais existiriam.

Os humanos e seus deuses.

Muito prazer, eu sou o Senhor da Corrupção.


E sou o seu Deus”.

Autor: Marco Carvalho (Parabéns!)
Revisão: Gabriela Prado