23/11/2017

Crianças-cães

Vou te contar sobre uma cidade – uma cidade onde você nunca deve ir. Para sua proteção, não vou falar o nome ou coordenadas. Mas posso falar isso: se alguma vez você perceber que possa estar nessa cidade, saia o mais rápido possível e não olhe para trás. 

Isso aconteceu há alguns anos. Eu seguia para encontrar um tio que eu nunca havia visitado – dirigindo meio perdido, tentando ler um mapa confuso – quando fiquei sem gasolina. Uma merda né? Nunca consigo entender essas coisas. Os perigos da caminhada eram desencorajadores, mas não havia escolha, então tentei não ficar nervoso e comecei a andar. 

O sol do meio-dia estava opressivo. Minha testa ardia de tanto esforço para manter os olhos apertados, e minhas roupas já estavam encharcadas com uns três litros de suor. Meus braços cansados pendiam mais e mais, assim como a minha esperança por uma carona. Mas, à distancia, tornou-se visível uma pick-up vermelha. “Por favor pare. Por favor,” Eu repetia, esticando o meu polegar o máximo que pude. Enquanto a pick-up se aproximava, eu agitava os braços ate que ela desacelerasse e parasse ao meu lado. 

“Era o seu carro lá atrás?” perguntou o velho camarada ao volante. 

“Sim senhor. Fiquei sem gasolina.” 

“Sobe aí. Vamos conseguir um pouco no próximo posto.” 

Cappy – era um cara legal. Ele realmente gostava de falar sobre a família, mas eram histórias divertidas. Seu filho servindo no exterior, e posso dizer que a sua gentileza era inspirada pela admiração que ele sentia pela nossa geração. Heróis, era como ele nos chamava. Mas eu nunca entraria em linha de frente – sempre fui do tipo que evitava os perigos. Mas não contei isso para Cappy – não queria desaponta-lo. 

Depois de um tempo, comecei a pensar em quando essa cidade apareceria, parecia distante demais. Isso não parecia incomodar Cappy. Acho que ele não tinha nada melhor com que se ocupar – e eu ainda não sabia para onde ele estava indo. A estrada começou a se tornar irregular, e logo tornou-se dividida com uma trilha de grama no meio. Finalmente pude ver uma cidade surgindo naquele horizonte de campos selvagens. 

Era uma típica cidadezinha do interior: casas de um azul desbotado com guarnições brancas, algumas lojas construídas com tijolos, com seus nomes pintados à mão, uma praça, uma capela branca num morro. Carros estavam estacionados em vários lugares, alguns sem pneus; embora eu não tenha visto pessoas por perto. Nada surpreendente para uma aldeia remota, mas o que me surpreendeu foi que, apesar dos celeiros, eu não via os animais. 

Não havia um posto oficial, mas encontramos uma velha garagem com uma bomba na frente. Enquanto entravamos na garagem atulhada, Cappy continuava a se desculpar por ter emprestado sua garrafa com gasolina para um vizinho. Um odor rançoso atingia minhas narinas, me deixando enjoado. “Acho melhor eu ir procurar alguém,” falei, “para que não pensem que estamos tentando roubar algo.” Na verdade, eu queria mesmo me afastar daquele cheiro. 

“Procure por algum galão de casolina, caso eu não encontre um.” 

“Entendido.” 

A cidade parecia deserta, mas eu conseguia ouvir algumas vozes ecoando de algum lugar, então resolvi segui-las. Duas crianças saíram do mato alto, brincando de pega-pega pela estrada. À distância havia um pomar com crianças correndo e jogando maças umas nas outras – algumas estavam agachadas e corriam de quatro. Enquanto me aproximava, risos e grito vinham por todos os lados. Parecia o comportamento normal de crianças, mas notei que todas usavam máscara de cachorro. 

Havia algumas crianças sentadas em uma pequena mesa de picnic, brincando com algo que parecia um bolo – elas o esmagavam com as mãos e espalhavam pelas roupas. Deduzi que, pelo bolo, as mascaras, e toda aquela diversão, estava acontecendo uma festa. Tentando parecer o mais pacífico possível, me aproximei e tentei falar com elas. 

“Tenho certeza que alguem fez esse bolo para ser comido, e não para brincarem com ele,” falei, tentando soar como um pai autoritário. As crianças pararam o que estavam fazendo e olharam para mim. Senti um arrepio – pelo modo como eles viraram as cabeças exatamente ao mesmo tempo, todos usando aquelas máscaras de cachorro. E não eram máscaras de cachorros fofinhos. O realismo nelas lhes dava características perturbadoras. 

“Desculpa, mas poderiam tirar essas máscaras por um minuto?” As crianças se olharam e logo voltaram-se para mim. Comecei a me sentir envergonhado. “Então, de quem é o aniversário?” Uma das crianças fez um barulhinho. “Ah, é você?” Outra criança imitou o barulhinho. “Então é você? Hmm? É seu aniversário?” Uma terceira criança também imitou. “Talvez seja o aniversário de todos vocês?” Eles não pareciam estar ouvindo, e continuaram a imitar cachorrinhos. 

Finalmente, comecei a me irritar. Toda aquela caminhada no calor já tinha me desgastado, e agora aquelas crianças estavam cutucando uma colmeia. “Escutem aqui. E se os seus pais souberem que estão sendo tão rudes? Por que não tiram essas mascaras e agem feito crianças normais e não como cães.” As crianças começaram a ganir e latir mais alto. “Parem com isso! Onde estão seus pais? Tenho um problema no carro e preciso de um adulto agora mesmo!” As crianças não ligaram para o meu pedido, ao invés disso, começaram a jogar bolo em meu rosto; o gosto era horrível. Não parecia ser um bolo. 

“Tudo bem. Mas quando eu encontrar seus pais eles vão saber sobre isso.” Era como se eles nem soubessem sobre o que eu estava falando. Virei-me para ir embora, mas todas as crianças que estavam brincando estavam agora de pé, lado a lado, bloqueando meu caminho. Ao invés de pedir para que se afastassem, eu simplesmente segui pela esquerda para tentar contorna-los. Mas quando eu ia para um lado, eles também acompanhavam. 

“Já chega!” Eu não queria empurra-los; eram apenas crianças. “Vou contar até três para que se afastem ou vou passar por cima de vocês!” As crianças permaneceram paradas e caladas; devia haver mais de uma dúzia delas. Olhar para eles com aquelas máscaras; era surreal. Não havia duas iguais – cada uma era uma raça diferente de cachorro, com expressões que iam do dócil ao violento. Quando comecei a contar, “Um...” algumas crianças começaram a fazer grunhidos de raiva. Continuei a contagem, “Dois...” a mais crianças se juntaram com os grunhidos. Respirei fundo, sabendo que eles não se afastariam. 

“Beleza… Um!” Todos de uma vez começaram a latir. Me assustei com o quão ferozes e raivosos eles soavam. “Parem com isso!” mandei, mas apenas latiram mais alto. Um deles atirou uma maçã em mim – e machucou. Outro o imitaram, e logo estava sendo alvejado por várias frutas podres. Comecei a gritar, “Esperem ate eu achar seus pais!” mas levei uma maçã no rosto antes que pudesse acabar de falar. Algumas crianças me empurraram enquanto eu estava distraído e perdi o equilíbrio. Todos se jogaram em mim, chutando e arranhando. 

“Chega!” Cansei daquilo. “O que diabos há com vocês?!” Gritei, empurrando cada um deles. Mas eles não se abalavam, continuavam a chutar e arranhar fazendo aqueles sons irritantes. Aquela cacofonia de grunhidos e latidos fez meu sangue ferver. Comecei a bater nelas, sem me importar com a segurança deles ou o que seus pais fariam em retaliação. Depois de derruba-las, corri para encontrar Cappy. 

As crianças me perseguiam pela cidade. Eram apenas crianças, mas eu estava assustado pra caralho. As máscaras, os sons – elas nem pararam depois que as derrubei. Encontrei a pick-up de Cappy mas não o vi por perto. As crianças estavam me alcançando quando tropecei e caí. Mais uma vez fui cercado por aqueles pirralhos violentos. Tentei levantar mas havia muitas crianças sobre mim, e meus gritos por ajuda não atraíram ninguém. 

“Tirem essas malditas mascaras!” Gritei, tentando puxar uma delas; estava bem presa. Os latidos se tornaram risos e temi que houvesse adultos observando – zombando ao invés espantarem suas proles insanas. Minha raiva já estava chegando ao limite quando as crianças pararam de atacar. Todas viraram se viraram para a mesma direção e correram juntas, latindo alegremente. Me levantei, procurando em meu corpo por arranhões e hematomas. 

“Cappy!” Gritei, olhando ao redor. Minha voz ecoava por milhas. As crianças estavam fora de vista, então corri para a pick-up esperando encontrar Cappy ainda na garagem. Primeiro passei pela loja principal, para ver se alguém poderia nos ajudar, mas não havia ninguém dentro. Eles não pareciam estar funcionando – prateleiras estavam vazias e cobertas de poeira. Chequei os fundos – ninguém lá. Então ouvi um berro vindo de fora. 

Espiei pelas janelas mas não vi ninguém, então abri a porta um pouco e tentei ouvir. Eu sabia que algo estava acontecendo com aquelas crianças. Os únicos sons na cidade inteira vinham da direção para onde tinham corrido. Parte de mim sabia que eu deveria voltar para a garagem, mas eu queria ver se as crianças estavam sendo repreendidas por seu comportamento. Segui os ecos, até que claramente ouvi um grito, gutural e angustiado. 

Os gritos continuaram enquanto eu me aproximava da porta da casa mais próxima. “Hei! Tem alguém aí? Por favor!” Sacudi a maçaneta com força – trancada. Havia outra casa próxima, então bati na porta também. Ninguém em casa; ou apenas não queriam responder. Rodeei a casa, batendo nas janelas, mas não adiantava. Tinha que tomar uma decisão. O que um herói faria? Perguntei para mim mesmo, e continuei seguindo para os sons, rodeado por incertezas. 

A comoção vinha de uma casa de fazenda no topo de um morro próximo ao pomar. Corri tão rápido que quase tropecei, porém, hesitei quando me aproximei da casa. A porta estava escancarada e havia máscaras de cachorro pelo chão. Eu precisava saber o que estava acontecendo, mas não estava preparado para descobrir. Pensei em gritar por ajuda outra vez, ou chamar o Cappy, mas eu não poderia fazer barulho. Quando o grito diminuiu um pouco, pisei lentamente varanda e espiei dentro – mas não enxerguei ninguém lá dentro. Máscaras se espalhavam pelo chão. 

Deus me ajude, eu não poderia fugir. Onde eu iria sem um veículo? Eu não poderia roubar o caminhão do Cappy. Eu tinha que entrar. Meus passos faziam o assoalho estalar. Uma trilha de mascaras me levou para mais perto daqueles sons nauseantes e para uma porta aberta que levava ao porão. Um mal cheiro indescritível quase me fez desmaiar. 

Apurando os ouvidos, tentei identificar o que estava acontecendo. Eram aquelas crianças, com certeza – rosnando, latindo, choramingando, babando. As vezes surgia um pequeno gemido de desespero. Eu não queria descer ali, mas eu tinha que ver com meus próprios olhos. 

Me abaixando um pouco, prossegui um passo atrás do outro. Um única lâmpada iluminava a maior parte do porão, mas não alcançava as escadas, então eu sabia que poderia me esconder na escuridão. O chão estava coberto de sujeira que se espalhava enquanto algumas crianças corriam, jogando punhados de sujeira entre si. A maioria das crianças estavam reunidas no centro, embaixo da luz. Parecia que estavam comendo alguma coisa – ou se alimentando. 

Asssiti com nojo, enquanto as crianças rasgavam a carne – sangue pingava em seus queixos e espirrava sobre seus rostos. E, meu Deus! Seus rostos! Como os dentes deles poderiam ser tão enormes?! Os narizes compridos e olhos tão afastados – era medonho! Além disso, todos tinham várias deformidades faciais que não tenho condições de descrever. Os risos eram mais terríveis que todo o resto, pois significava que estavam se divertindo. Eu falo isso, pois sabia o que estavam comendo. Eu conseguia ver o que tinha sobrado de seu rosto, e suas roupas. Eu sabia que estavam comendo o Cappy. 

Cobri minha boca e tentei não gritar; engasguei algumas vezes mas não chamei atenção. Meu corpo estava tão tenso que eu mal conseguia me mover, mas consegui subir aos poucos. Passei pela cozinha e pela sala, rezei para que aquelas crianças não me seguissem. Pensei que estivesse livre assim que alcancei a porta, porém, o cara mais sinistro que eu já tinha visto estava parado na varanda. Ele tinha uma barba horrível e um sorriso desdentado. Ele era enorme, e eu poderia sentir seu cheiro na outra quadra. De início ficamos apenas nos encarando; eu juro que ele tinha um olho de madeira. Esperava que ele me avançasse sobre mim, porém, ele apenas retirou um apito do bolso da frente de seu macacão, pressionou contra os lábios e pareceu soprar, mas não havia som. 

Chorando e tropeçando, corri de casa em casa, batendo em todas as portas. Os latidos alegres das crianças se aproximavam, então me escondi na loja. Eles corriam ao redor do local como se estivessem num jogo de esconde-esconde enquanto eu me escondia no quarto dos fundos, esperando que aqueles monstros desistissem. A porta da frente sacudiu algumas vezes, e de repente percebi que eu estava em um beco sem saída caso aquele cara grandalhão arrombasse a porta. Eu nunca soube por que ele nunca veio atrás de mim. Depois de um tempo, as vozes e passos se distanciaram e a cidade tornou-se silenciosa outra vez. 

A noite chegou, e as crianças podiam ser ouvidas à distancia. Eu me perguntava se elas sabiam onde eu estava e esperavam até que eu saísse. Pensei no pobre Cappy e no quão atencioso ele foi ao ajudar um completo estranho. Ele não mereceu morreu daquele jeito. Eu precisava mais que nunca encontrar a gasolina. Eu não apenas poderia fugir como também poderia queimar aquela casa completamente. Merda, eu queria queimar aquela maldita cidade inteira. 

Os rosnados sumiram, então saí pela porta dos fundos e me arrastei para a floresta, planejando esperar pelo amanhecer e então caminhar para a estrada principal. Não havia luzes acessas na cidade, eu temia que as crianças andassem por aí à noite, mas eu nunca encontraria meu caminho no escuro. Uma única silhueta podia ser vista se aproximando e eu pude ouvir o farfalhar do mato. Eu não poderia correr, temia que pudesse ouvir e alertar os outros. Havia algumas pedras próximas aos meus pés, então peguei uma e segurei firme. 

Fiquei ouvindo enquanto a criança agarrava algum animal que havia saltado do mato. Enquanto ela mastigava a pobre criatura, eu me movi. Ela rosnavam enquanto comia, o que ocultava os sons das folhas secas sob meus pés. Segurei a respiração, me aproximando dela e levantando a pedra lentamente sobre minha cabeça. Varias vezes bati a pedra contra a cabeça da criança. Nunca pensei que pudesse fazer isso com uma criança, mas eu tinha feito, não apenas pela minha segurança, como também para vingar Cappy. 

O sol começou a nascer e observei o corpo do garoto. Quando o vi largado no chão – crânio afundado e ensanguentado – me arrependi do que tinha feito. Claro que eu não era um maldito canibal, mas eu me sentia que tinha caído ao nível deles. Assassinei uma criança e nunca poderei desfazer isso. Algumas risadas ecoaram da cidade. Assustado, corri pelo caminho errado. 

Cansado e com fome, me arrastei por campos e fazendas até que o sol estivesse bem sobre minha cabeça. De vez em quando, eu ouvia fracos sons de motor, mas não conseguia encontrar a estrada. O peso de tudo que tinha acontecido torava difícil prosseguir, mas esse peso diminuiu um pouco quando um rancho surgiu no horizonte. Enquanto eu me aproximava, o indesejável som de crianças brincando ecoou pelo campo. Algumas galopavam pelo local, fazendo estranhos sons. Parecia o comportamento de crianças normais, mas notei que todas usavam máscaras de cavalo.


17 comentários:

  1. Depois do coelhinho, cães e cavalos
    O que virá a seguir?🐖🐖🐖🐖

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  2. Eita!! Adorei do estilo que eu gosto, só queria saber como ele fugiu de lá.. eu teria roubado o carro do Cappy sem dó kkkkkk. 9/10 ;)

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    1. pensei o msm, dps q o cappy morreu pq ele n pegou o carro? eu pegava e dirigia ate o paraguai

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    2. Ele não pegou pois estava sem gasolina

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  3. aldjljh senti o desespero do cara mt boa

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  4. Agora sim!!! Essa foi boa!!! Porra de Coelho, negocio é criança Cachorro caralho!!!

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  5. Esse final foi tão "Oh shit, not again" kk

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  6. AUHAUHAUHAUHA melhor creepy que eu li hoje.

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  7. Quando eu li o título lembrei de um filme q eu vi "Olhos de criança" kkk filminho de terror coreano n recomendo mas gostei da creppy 10/10

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  8. Kkkkkkk mdssss daqui à pouco um zoológico de crianças/animais

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