12/11/2017

O Melhor Jogador

Sou um perito da policia federal e já aviso de antemão que o que vou fazer agora é contra a lei. O último caso que tive acesso seria normal se não fosse por uma gravação encontrada em um celular na cena do crime. Irei transcrever a gravação ocultando nomes de pessoas e empresas citadas por motivos óbvios. Segue a transcrição:

"Bom dia, boa tarde ou boa noite. Não sei qual desses pois estou preso dentro de um quarto que aparentemente é completamente isolado de qualquer outra coisa pois não tem sinal de celular para fazer uma ligação ou mandar uma mensagem. Estou gravando esse audio talvez para me sentir menos sozinho ou só porque estou ficando louco mesmo.

Meu nome é Apoliom *******, meu pai pôs esse nome com significado estranho em mim em homenagem ao meu padrinho, o qual nunca vi e sequer sei o nome, mas meu pai disse que ele era o responsável pelo sucesso dele e que também seria pelo meu, mas também nunca entendi isso e não acho que seja muito relevante. Seja lá quem ouvir esse, deve conhecer esse nome pois meu pai é o dono da famosa ********. Apesar disso, nunca dependi do dinheiro do meu pai e vou explicar o por que. Desde pequeno, sempre fui muito sortudo, por assim dizer, especialmente em jogos. Impar ou par, jokenpô e em qualquer outro jogo que pudesse envolver sorte de alguma forma. Não me lembro da ultima vez que perdi em algum desses. Na verdade, não lembro se alguma vez já perdi [riso seguido de tosses]. Quando cresci, desenvolvi amor por poker, jogo do bicho e esses outros jogos de casino que envolvem muito dinheiro. Como eu disse, sou muito sortudo e nunca soube o que é perder em algum desses. Construí meu patrimônio em cima disso. Por isso nunca dependi de meu pai [mais tosses].

Eu era claramente o melhor jogador que qualquer casino ja viu, e minha sorte era desleal com qualquer um que tivesse o azar de entrar em um jogo em que eu estivesse participando. Só que como esse mundo é envolvido de mafias, não demorou muito para criar inimizades e pessoas quererem minha cabeça. Como não estou bem situado de tempo aqui dentro, mas creio que tenha sido 2 ou 3 dias atrás que saindo de casa, um grupo de homens me pôs dentro de um carro e me desacordou.
Quando acordei, já estava dentro da sala que estou agora, sentado em uma cadeira e de frente pra uma mesa com uma arma em cima dela. Não conheço armas mas tenho quase certeza que era uma Magnum, aquelas de cano longo e com um barril pra colocar as balas, porém ela parecia um pouco modificada.

Dois homens estavam diante de mim. Um deles pegou a arma da mesa, carregou com uma bala e girou o barril, em seguida o barril encaixou sozinho na arma. Ele começou a explicar que aquela arma tinha sido modificada por eles para 'pessoas como eu'. Era uma arma de roleta-russa e tinha sido modificada unicamente para isso. Ela só era capaz de disparar uma bala pois os outros buracos de recarga eram fechados e a destrava para atirar só era ativada se o barril fosse girado com determinada força. Achei bem sádico da parte dele me explicar tudo isso e ainda por cima modificar uma arma só pra isso. Loucura.

Manti a calma pois não ia dar a ele o prazer de se deliciar com meu suposto medo. Depois de toda a explicação, ele me entregou a arma e disse para apontar na minha cabeça e atirar. Era o jogo da roleta-russa então. O outro homem me ameaçava com outra arma enquanto eu direcionava a Magnum em direção ao meu crânio. Não sei se foi pelo calor do momento, a raiva ou por ser prepotente demais mas antes de apertar o gatilho eu disse: A arma não vai disparar.

Assim foi, a arma não disparou. Ele se irritou com meu comentário e acho que ainda mais o fato dela não ter disparado mesmo depois do que eu disse.

Eu tive sorte. Afinal as chances eram de 1 em 6? 8? Não sei quantos slots tem essa arma.

Ele me mandou girar o barril e apertar o gatilho de novo. Isso se repetiu 30? 40? 50 vezes?
Depois de tantas vezes não só eles, como eu também me espantara com a situação. Até onde iria tanta sorte? Acreditei que ela ja havia chegado no limite, e não sabia quando eles perderiam a paciência e atirariam em mim com a arma normal ali mesmo. Na sei lá, 61° vez, após girar o barril, rápidamente direcionei a arma para o homem armado e apertei. Ela disparou. Acertei ele bem no peito, e no espasmo da situação e a força com que foi jogado pra trás, ele também apertou o gatilho mas por muita sorte mesmo atingiu o outro cara. Assim, os dois caíram no chão.
Me levantei e rapidamente fui em direção a unica porta do quarto. Trancada. Procurei chaves nos corpos. Nada. Como entraram? Não sei. Como pretendiam sair? Sei menos ainda. Peguei a arma normal e descarreguei ela atirando em direção a tranca. Nada de novo.
Me sentei no chão e depois de algumas horas, creio que um dia inteiro, perdi as esperanças de que alguém me encontraria. Mais algumas horas depois senti meu corpo fraquejando de verdade. A garganta secando, meu estomago se consumindo. A única coisa que tem nesse quarto é ar que entra por algumas frestas no teto, e mesmo assim, por serem pequenas, é difícil respirar, com o odor dos corpos se decompondo então, pior. Encontrei uma bala solta no chão. Era uma bala reserva da arma de roleta-russa. Peguei ela e a carreguei. Era a melhor saída para esse pesadelo de tédio e dor que resultaria na minha já inevitável morte. Criei coragem, girei o barril e apertei. Não disparou. Desde então, e isso já deve fazer só um pouco menos de dois dias, estou girando esse barril e tentando fazer com que essa arma dispare na minha cabeça, mas a PORCARIA DA ARMA NÃO DISPARA. POR MAIS QUE EU GIRE ESSA PORRA MIL VEZES, NUNCA TRAVA NA BALA. [sua voz começava a soar irritada somada a soluços de choro] A esse ponto já consigo sentir meu corpo se definhando e não vou durar muito mais tempo. O simples ato de falar parece estar consumindo as forças que me restam. No fim, não estou tão triste, porque parece que o único jogo que vou perder nessa vida, é o de ficar vivo. [tosses fortes e o fim da gravação]"

Encontramos os corpos ontem e pela data da gravação, foi cerca de uma semana depois. O mais estranho, é que analisando o corpo de Apoliom, ele ainda estava entrando em estado de decomposição, o que significa que ele passou mais uma boa quantidade de dias vivo. Isso é longe de algo bom, pois significa que ele passou uma boa quantidade de dias a mais sofrendo em condições sobrehumanas. Outros peritos levantaram a hipotese dele ter tentado se alimentar dos corpos em decomposição, mas o corpo ainda está em análise e, particularmente, prefiro acreditar que não.
Enfim, precisava compartilhar isso com alguém pois achei muito curioso. Não que as coisas tenham parado por aí. O pai do garoto ao ver o corpo e ouvir a gravação, caiu aos prantos sussurando "desculpa" para o corpo do filho, como se fosse responsável por algo. Pesquisei o significado de Apoliom na Internet e tenho medo de como isso possa de alguma forma se relacionar às coisas. Enfim... Tudo muito estranho. Peço que não divulguem em outros fóruns pois confio em vocês e só por isso compartilhei aqui o caso. Se puderem opinar para me ajudar a sair dessa paranóia, agradeço.

Autor: Lucas Queiroz


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